Brucelose
A brucelose é uma zoonose bacteriana sistêmica, causada por espécies do gênero Brucella, que afeta humanos e diversos animais domésticos e selvagens. É uma doença de evolução subaguda ou crônica, que pode acometer múltiplos órgãos e gerar incapacidades significativas. A infecção humana ocorre principalmente por contato com animais infectados ou consumo de produtos de origem animal contaminados, como leite não pasteurizado. Considerada uma das zoonoses mais difundidas no mundo, representa um grave problema de saúde pública e também de sanidade animal.
Agente Etiológico
Brucella spp.
O agente causador da brucelose é uma bactéria Gram-negativa, aeróbica e intracelular facultativa do gênero Brucella. As principais espécies associadas à doença humana são:
- Brucella melitensis – mais virulenta; associada a ovinos e caprinos
- Brucella abortus – relacionada a bovinos (mais comum no Brasil)
- Brucella suis – associada a suínos
- Brucella canis – associada a cães (menos frequente em humanos)
A capacidade dessas bactérias de sobreviver e se replicar dentro de células fagocíticas confere à doença um caráter crônico e sistêmico.
Epidemiologia
A brucelose é endêmica em várias regiões do mundo, especialmente em áreas onde há práticas agropecuárias com baixo controle sanitário e consumo de produtos animais crus.
No Brasil, a brucelose bovina é de notificação obrigatória no Ministério da Agricultura e também integra a lista de doenças de interesse em saúde pública. Os estados das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul apresentam maior prevalência animal, e os casos humanos ocorrem principalmente entre trabalhadores rurais, veterinários, abatedores e manipuladores de carne e leite.
- Incidência mundial: Estimada em 500 mil novos casos/ano
- Incidência no Brasil: Subnotificada, com prevalência entre 4% a 10% em trabalhadores rurais expostos
- Mortalidade: Baixa (<2%), porém pode ocorrer em casos de endocardite
- Morbidade: Alta, com risco de incapacidade funcional em casos não tratados
Perfil do paciente típico: Adulto exposto a animais de produção ou seus produtos crus (leite, queijo artesanal), especialmente em áreas rurais
Principais Reservatórios
Os principais reservatórios da Brucella são animais domésticos infectados:
- Bovinos (B. abortus)
- Caprinos e ovinos (B. melitensis)
- Suínos (B. suis)
- Cães (B. canis)
A transmissão para humanos pode ocorrer por:
- Ingestão de leite ou derivados não pasteurizados
- Inalação de aerossóis em ambientes rurais ou laboratórios veterinários
- Contato direto com secreções, placenta, urina ou sangue de animais infectados
- Acidentes laboratoriais e profissionais
Não há transmissão interpessoal.
Ciclo de Vida
A Brucella entra no organismo humano pelas mucosas, pele lesionada ou trato digestivo. Após penetrar, é fagocitada por macrófagos, mas resiste ao processo de destruição intracelular e se replica no interior das células fagocíticas. A bactéria se dissemina pela via linfática e hematogênica, alcançando órgãos ricos em sistema mononuclear fagocítico, como fígado, baço, linfonodos, medula óssea e testículos.
Quadro Clínico
A brucelose tem início insidioso e pode se manifestar em forma aguda, subaguda ou crônica, com sintomas inespecíficos que simulam outras doenças infecciosas. Febre ondulante (intermitente), sudorese intensa, artralgia e astenia são clássicos. Pode acometer múltiplos órgãos, com risco de complicações osteoarticulares, geniturinárias, neurológicas e cardíacas.
Forma Aguda
Corresponde ao início da infecção, com sintomas sistêmicos inespecíficos, febre alta e mal-estar. A bactéria se dissemina hematogenicamente e invade o sistema reticuloendotelial, causando inflamação generalizada.
Sinais e sintomas:
- Febre ondulante (varia ao longo do dia)
- Sudorese intensa (principalmente noturna e com odor forte)
- Calafrios
- Mialgias e artralgias migratórias
- Mal-estar, fadiga, inapetência
- Cefaleia e irritabilidade
- Hepatoesplenomegalia discreta
Forma Subaguda
É a continuidade da fase aguda sem resolução. Os sintomas tornam-se menos intensos, mas persistentes. O paciente pode apresentar perda de peso, anemia e início de complicações localizadas.
Sinais e sintomas:
- Febre persistente, geralmente vespertina
- Fraqueza progressiva
- Dores musculares e articulares mais localizadas
- Perda de apetite e emagrecimento
- Hepatoesplenomegalia mais evidente
Forma Crônica
Caracteriza-se por sintomas arrastados e comprometimento focal de órgãos. Pode surgir após tratamento inadequado, recidiva ou infecção de baixa intensidade mantida ao longo do tempo. As queixas são muitas vezes confundidas com doenças reumatológicas, depressão ou síndrome da fadiga crônica.
Sinais e sintomas:
- Astenia e cansaço crônico
- Dor articular persistente, muitas vezes em coluna lombar ou sacroilíaca
- Depressão, ansiedade, insônia
- Distúrbios menstruais ou infertilidade (em mulheres)
- Baixa produtividade e limitações funcionais
- Sorologia persistentemente positiva
Brucelose Osteoarticular
É a complicação focal mais comum da brucelose. A bactéria se aloja em articulações e ossos, promovendo inflamação granulomatosa e destruição tecidual. Acomete adultos jovens e idosos.
Manifestações:
- Espondilite (coluna lombar ou cervical)
- Sacroileíte (dor lombossacral, irradiada para glúteos)
- Artrite periférica (joelho, tornozelo, punho)
- Limitação de movimento
- Edema articular e calor local
- Piora à movimentação ou esforço
Brucelose Geniturinária
Mais comum em homens, sobretudo com infecção crônica. A bactéria invade testículos, epidídimos e próstata, causando inflamação local com risco de abscesso.
Manifestações:
- Dor testicular ou pélvica
- Aumento do volume escrotal
- Febre baixa e sudorese
- Disúria e polaciúria (quando há prostatite)
- Infertilidade (em casos prolongados)
Brucelose Neurológica (Neurobrucelose)
Acomete cerca de 5% dos casos e pode surgir em qualquer fase. O envolvimento do sistema nervoso central ocorre por invasão direta ou resposta imune inflamatória.
Manifestações:
- Meningite linfocitária subaguda
- Encefalite com alterações cognitivas
- Radiculite e paralisias cranianas
- Convulsões
- Distúrbios psiquiátricos (depressão grave, psicose)
Brucelose Cardiovascular (Endocardite)
Forma rara (<2% dos casos), mas a mais grave e letal. Pode afetar válvulas nativas ou protéticas. Surge tipicamente em casos crônicos ou mal tratados.
Manifestações:
- Febre prolongada
- Sopro cardíaco novo ou agravado
- Insuficiência cardíaca progressiva
- Hemoculturas positivas persistentes
- Vegetações em válvulas (evidenciadas por ecocardiograma transesofágico)
A brucelose inicia-se com a fagocitose da Brucella por macrófagos e células dendríticas. No entanto, o patógeno resiste ao processo lisossomal, escapando para o citoplasma onde se multiplica. A infecção se dissemina sistemicamente e provoca ativação inflamatória crônica, com formação de granulomas e lesões destrutivas em órgãos-alvo. Essa persistência intracelular explica a tendência à cronificação da doença, recidivas frequentes e envolvimento multissistêmico.
Diagnóstico
O diagnóstico exige suspeição clínica associada a confirmação laboratorial. Os métodos sorológicos são os mais utilizados, mas a cultura é o padrão-ouro.
Métodos diagnósticos:
- Hemocultura ou mielocultura (padrão-ouro)
- Pode levar até 4 semanas
- Exige biossegurança nível 3
- Sorologia (mais usada)
- Teste de Rosa de Bengala (triagem)
- Teste de soroaglutinação (título ≥ 1:160 é sugestivo)
- ELISA para IgG/IgM
- PCR (em laboratórios especializados)
- Alta sensibilidade e especificidade
- Exames complementares
- Hemograma: leucopenia, linfocitose, anemia leve
- VSG e PCR aumentados
- Alterações específicas em exames de imagem conforme órgão acometido
Conduta diante de caso suspeito:
Coleta de sorologia e hemoculturas antes de iniciar o tratamento. Notificação obrigatória às autoridades sanitárias. Afastamento do paciente de atividades com risco de transmissão indireta.
Acompanhamento
O acompanhamento varia conforme a gravidade e as complicações. Pacientes com brucelose aguda sem sinais de comprometimento orgânico podem ser tratados ambulatorialmente, com acompanhamento clínico mensal. Casos com complicações osteoarticulares, geniturinárias ou neurológicas devem ser acompanhados por especialistas e, quando necessário, internados para antibioticoterapia parenteral e suporte clínico.
Tratamento
O tratamento da brucelose requer antibioticoterapia prolongada para erradicação do agente e prevenção de recaídas. Combinações antibióticas são preferidas, principalmente envolvendo doxiciclina, rifampicina e aminoglicosídeos. A duração depende da forma clínica e da presença de complicações.
Ambulatorial
O tratamento ambulatorial é destinado aos pacientes que possuem a forma leve da doença sem envolvimento de outros sistemas. A terapia é feita com a combinação de Doxiciclina + 01 Antibiótico:
Doxiciclina 100 mg VO de 12/12 horas, por 6 semanas.
Escolha uma das opções abaixo:
- Gentamicina 5 mg/kg IM/EV de 24/24 horas, por 7-10 dias;
- Estreptomicina 1 g IM/EV de 24/24 horas, por 14-21 dias;
- Rifampicina 600-900 mg VO de 24/24 horas, por 6 semanas.
Opções em caso de intolerância à Gentamicina ou Estreptomicina:
- Ciprofloxacino 500 mg VO de 12/12 horas;
- Ofloxacino 200 mg VO de 12/12 horas.
A antibioticoterapia prolongada pode apresentar falhas e a recorrência ou refratariedade deve ser tratada em terapia tripla usando novamente o esquema anterior mas com a adição de:
Sulfametoxazol + trimetoprima 800+160 mg VO de 12/12 horas, por 6 semanas.
Há também os casos de exposição laboratorial ao patógeno da brucelose e nesse caso podemos usar a terapia combinada de antibóticos para profilaxia da seguinte forma:
- Doxiciclina 100 mg VO de 12/12 horas, por 3 semanas.
- Rifampicina 600-900 mg VO de 24/24 horas, por 3 semanas.
OU
- Sulfametoxazol + trimetoprima 800+160 mg VO de 12/12 horas, por 3 semanas.
- Rifampicina 600-900 mg VO de 24/24 horas, por 3 semanas (opcional).
Hospitalar
O tratamento hospitalar é destinado para pacientes que possuem infecções graves com alteração neurológica ou acomentimento de órgãos nobres (endocardite). A terapia de escolha em casos graves sem complicação de sistemas isolados é o mesmo esquema da terapia ambulatorial, mas com a possibilidade de administrar as medicações na versão endovenosa.
Para a complicação que acomete o sistema nervoso central – Neurobrucelose – usamos a terapia tripla de Doxiciclina + Rifampicina + Ceftriaxona durante 3 a 6 meses com o uso da Dexametasona como adjuvante:
Doxiciclina 100 mg VO/EV de 12/12 horas.
Rifampicina 600-900 mg VO de 24/24 horas.
Ceftriaxona 2 g EV/IM de 12/12 horas.
Dexametasona 3 mg/kg EV. Seguidos de 1 mg/kg EV 6/6 horas, por 48 horas.
Já para a complicação cardiológica – Endocardite – usamos a terapia tripla de Doxiciclina + Rifampicina + (Estreptomicina OU Gentamicina) da seguinte forma:
Doxiciclina 100 mg VO/EV de 12/12 horas, por, no mínimo, 12 semanas.
Rifampicina 600-900 mg VO de 24/24 horas, por, no mínimo, 12 semanas.
- Estreptomicina 1 g IM/EV de 24/24 horas, por 4 semanas;
- Gentamicina 5 mg/kg EV de 24/24 horas, 1-3 doses nas primeiras 4 semanas.
Existe também a doença focal com acometimento articular – Espondilite, Sacroileíte ou Artrite – onde podemos usar um dos seguintes esquemas:
- Doxiciclina 100 mg VO/EV de 12/12 horas, por, no mínimo, 3 meses.
- Rifampicina 600-900 mg VO de 24/24 horas, por, no mínimo, 3 meses.
- Gentamicina 5 mg/kg IM/EV de 24/24 horas, por 7-14 dias.
OU
- Ciprofloxacino 750 mg VO de 12/12 horas ou 400 mg EV de 12/12 horas, por, no mínimo, 3 meses.
- Rifampicina 600-900 mg VO de 24/24 horas, por, no mínimo, 3 meses.
Seguimento
O seguimento envolve avaliação clínica regular, controle laboratorial de parâmetros inflamatórios (VSG, PCR) e monitoramento de recidivas. Critérios de cura incluem: resolução clínica, normalização laboratorial e sorologia em queda. A recaída é comum se o esquema for interrompido precocemente. Pacientes devem ser monitorados por pelo menos 6 a 12 meses após o fim do tratamento.
📚 Referências Bibliográficas
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