MedFoco

Guia de Zoonoses • Bactérias

Brucelose

Zoonose sistêmica causada por Brucella spp., associada sobretudo a contato com animais infectados, produtos de origem animal não pasteurizados e exposições ocupacionais. O diagnóstico exige contexto epidemiológico + confirmação laboratorial, e o tratamento deve ser combinado e suficientemente prolongado para reduzir falha e recidiva.

Intracelular Zoonose ocupacional Lácteos não pasteurizados Terapia combinada
18–22 min de leitura Atualizado em agosto de 2026

Quando suspeitar

Febre aguda ou arrastada, sudorese, artralgia, fadiga ou sintomas focais associados a exposição epidemiológica compatível.

Diagnóstico

Cultura é evidência definitiva. No Brasil, o PCDT organiza a investigação com Rosa Bengala, ELISA total/IgG e PCR conforme o fluxo laboratorial.

Tratamento

Adultos e maiores de 10 anos: doxiciclina combinada preferencialmente a aminoglicosídeo; rifampicina é alternativa quando o aminoglicosídeo não é viável.

Prevenção

Pasteurização, EPI em exposição animal e biossegurança laboratorial são centrais. Exposição acidental selecionada pode indicar PEP por 21 dias.

O que é brucelose

A brucelose humana é uma zoonose bacteriana sistêmica causada por espécies do gênero Brucella. São cocobacilos Gram-negativos, intracelulares facultativos, capazes de persistir em células do sistema mononuclear fagocitário. Essa biologia ajuda a explicar a necessidade de terapia combinada, a possibilidade de doença prolongada e o risco de recidiva quando o tratamento é inadequado.

A apresentação varia de síndrome febril inespecífica a doença focal osteoarticular, geniturinária, neurológica ou cardiovascular. Como não existe manifestação patognomônica, a história epidemiológica é parte central do diagnóstico.

Em febre sem foco claro — especialmente prolongada ou recorrente — pergunte ativamente sobre contato com animais, parto/aborto animal, frigorífico, caça, laboratório, vacinação veterinária e consumo de leite ou derivados não pasteurizados.

O patógeno

Brucella spp. são cocobacilos Gram-negativos pequenos, não esporulados, não móveis e intracelulares facultativos. Em humanos, as espécies de maior importância são B. melitensis, B. abortus, B. suis e B. canis.

A capacidade de sobreviver dentro de macrófagos e outras células fagocíticas é central para a persistência, disseminação sistêmica e formação de focos em órgãos como fígado, baço, medula óssea, sistema osteoarticular, sistema nervoso central e coração.

Ponto microbiológico: a suspeita de Brucella deve ser comunicada ao laboratório antes da manipulação de culturas ou materiais potencialmente infectantes, devido ao risco elevado de aquisição ocupacional.
Brucella spp. — toque/clique para ampliar.

Fisiopatologia e ciclo intracelular

A infecção começa após entrada pela mucosa gastrointestinal ou respiratória, conjuntiva ou pele lesionada. Depois da invasão, Brucella é internalizada principalmente por macrófagos e células dendríticas e passa a ocupar uma vacúolo contendo Brucella (BCV).

  1. Entrada e fagocitose: o microrganismo atravessa a barreira de entrada e alcança células fagocíticas.
  2. Adaptação intracelular: a BCV sofre acidificação transitória; essa etapa induz fatores de virulência, incluindo o sistema de secreção tipo IV VirB.
  3. Evasão da destruição: efetores bacterianos remodelam o tráfego intracelular e evitam a eliminação eficiente pelo compartimento lisossomal.
  4. Replicação: a bactéria estabelece uma vacúolo replicativo associado ao retículo endoplasmático, onde consegue multiplicar-se.
  5. Disseminação: células infectadas e bacteremia levam o agente ao sistema reticuloendotelial e a sítios focais, contribuindo para doença persistente, granulomas e recidiva.
A persistência intracelular ajuda a explicar por que o tratamento exige combinação de antimicrobianos com boa atividade intracelular e duração adequada.
Ciclo de vida e fisiopatologia da brucelose — toque/clique para ampliar.

Espécies de maior importância clínica

Brucella melitensis

Associada principalmente a caprinos e ovinos. É uma das espécies mais virulentas para humanos e está frequentemente relacionada a produtos lácteos contaminados.

Brucella abortus

Relacionada a bovinos. Relevante no contexto pecuário e também em acidentes com vacinas veterinárias vivas.

Brucella suis

Associada a suínos e javalis; importante em criação, frigoríficos e caça. Pode produzir doença focal e supurativa.

Brucella canis

Relacionada a cães, canis e reprodução canina. Os testes sorológicos convencionais para espécies lisas podem não detectar essa infecção.

RB51: a cepa vacinal de B. abortus é resistente à rifampicina e não é adequadamente detectada pelos testes sorológicos convencionais usados para espécies lisas. Isso muda investigação, PEP e tratamento.

Incubação e evolução

O período de incubação pode variar de aproximadamente 1 semana a 2 meses, mais frequentemente em torno de duas a quatro semanas, embora apresentações tardias possam ocorrer. Sem tratamento, a doença pode persistir por meses ou anos.

2–4 semanas

Faixa de incubação mais frequente.

Febre

Uma das manifestações mais comuns, mas não obrigatória.

Osteoarticular

É a forma focal mais frequente nas séries clínicas.

Cardiovascular

Incomum, porém potencialmente grave.

Recidiva

Pode surgir meses após o fim do tratamento.

Classificação temporal usada em parte da literatura

Algumas referências descrevem doença aguda com menos de 2 meses, subaguda entre alguns meses e cerca de 1 ano, e crônica acima de 1 ano. Essa classificação não é universal. Para a conduta, é mais importante identificar forma focal, gravidade e fatores do hospedeiro.

Como ocorre a transmissão

A infecção humana ocorre principalmente pela exposição direta ou indireta a animais infectados e seus produtos. O risco depende da espécie de Brucella, do material envolvido, da porta de entrada, da geração de aerossóis e das barreiras utilizadas.

Via alimentar

Leite cru, queijos e outros derivados não pasteurizados são fontes clássicas. Carne mal cozida é possível, mas menos típica.

Contato direto

Placenta, fetos abortados, secreções uterinas, sangue, vísceras e tecidos podem contaminar pele não íntegra e mucosas.

Inalação

Aerossóis têm grande importância em laboratórios, abatedouros e procedimentos com material altamente contaminado.

A transmissão pessoa a pessoa é rara, mas já foi descrita por via vertical, sexual, transfusional e por transplante de órgãos.

Grupos e atividades de maior risco

Pecuária e reprodução animal

Trabalhadores rurais, veterinários, técnicos e pessoas que lidam com parto, aborto, placenta e secreções.

Frigoríficos e abatedouros

Contato com sangue, vísceras, carcaças e aerossóis durante processamento animal.

Laboratórios

Brucella é um agente clássico de infecção adquirida em laboratório, principalmente em manipulações geradoras de aerossol fora de cabine adequada.

Caça e canis

Caçadores de javalis, criadores de cães e profissionais de reprodução canina podem se expor a B. suis e B. canis.

Exposição acidental e ocupacional

O PCDT brasileiro recomenda analisar a fonte, o mecanismo de exposição e as barreiras utilizadas. Fora do laboratório não existe um escore universal validado, mas inoculação percutânea, contato com mucosa ou pele não íntegra e determinados eventos aerossolizantes envolvendo fonte confirmada ou altamente suspeita elevam muito o risco.

  • Percutânea: perfurocortante, agulha ou autoinoculação com vacina veterinária.
  • Mucosa/pele não íntegra: respingo ocular, nasal, oral ou em ferida.
  • Aerossol: manipulação de material contaminado com proximidade à fonte ou procedimento gerador de aerossol.
  • Laboratório: centrifugação, vortex, sonicação, pipetagem, abertura de recipientes e derramamentos fora das barreiras apropriadas.
Triagem educativa da exposição

Organiza o raciocínio sobre risco. Não substitui classificação formal por saúde ocupacional, infectologia ou vigilância.

Selecione a fonte e o mecanismo de exposição.

Apresentação clínica

O início pode ser agudo ou insidioso. A combinação de febre, sudorese, astenia, artralgia, mialgia e perda ponderal é frequente, mas nenhuma associação isolada confirma o diagnóstico.

Constitucionais

Febre, calafrios, fadiga, mal-estar, anorexia, perda de peso e cefaleia.

Sudorese

Pode ser noturna e profusa. O padrão febril pode ser intermitente ou ondulante.

Osteomusculares

Artralgia, mialgia e dor lombar são comuns; dor focal persistente exige investigação dirigida.

Dor focal, déficit neurológico, sopro novo, sintomas geniturinários, sinais embólicos ou febre persistente apesar de terapia adequada sugerem doença focal ou complicação.

Formas localizadas

SistemaManifestaçõesPonto prático
OsteoarticularArtrite periférica, sacroileíte, espondilite, osteomielite.É a apresentação focal mais frequente. Dor persistente ou localizada deve direcionar imagem.
GeniturinárioOrquite, epididimite, prostatite; mais raramente abscessos.Pode mimetizar outras causas infecciosas. A epidemiologia é decisiva.
NeurológicoMeningite, encefalite, mielite, radiculite, neurites, abscesso.Exige avaliação especializada e esquema individualizado.
CardiovascularEndocardite, miocardite, pericardite, endarterite, aneurisma micótico.Raro, mas endocardite é a complicação historicamente mais associada à mortalidade.
Hepatoesplênico/GIHepatomegalia, esplenomegalia, hepatite granulomatosa, abscesso hepático e sintomas digestivos.Função hepática também influencia monitoramento do tratamento.
RespiratórioTosse, dispneia, dor torácica, pneumonia; raramente empiema/abscesso.Menos característico; manter diferenciais amplos.

Quando sair do manejo de doença não complicada

  • Suspeita de endocardite, prótese valvar, sopro novo ou bacteremia persistente.
  • Sinais de neurobrucelose: meningismo, confusão, déficit focal, convulsões, radiculopatia ou neuropatia craniana.
  • Osteomielite/espondilite, abscesso profundo ou coleção que possa exigir drenagem.
  • Gestação, criança pequena, imunossupressão ou disfunção renal/hepática relevante.
  • Falha terapêutica, recidiva ou sintomas persistentes após esquema adequado.
Regra prática:

as recomendações padronizadas de 42 dias são mais aplicáveis à doença aguda/subaguda não localizada. Formas focais e graves exigem estratégia individualizada.

O diagnóstico começa pela combinação correta

O diagnóstico clínico isolado é insuficiente. O cenário mais convincente combina síndrome compatível + vínculo epidemiológico + evidência laboratorial. Cultura/isolamento estabelece diagnóstico definitivo, mas a bacteremia pode ser baixa ou intermitente e a manipulação traz risco ocupacional.

  1. Defina a exposição: animal, alimentar, profissional, laboratorial, vacina veterinária ou caça.
  2. Defina a síndrome: sistêmica ou focal, buscando sinais de gravidade.
  3. Comunique o laboratório: a hipótese de Brucella deve ser explicitada antes do processamento.
  4. Colete material: sangue/soro e, quando aplicável, espécime do foco.
  5. Interprete em conjunto: sorologia e PCR não devem ser lidas fora da clínica e epidemiologia.

Cultura

A identificação de Brucella em sangue ou outro espécime estéril é evidência definitiva. A sensibilidade tende a ser maior na doença aguda e menor em formas crônicas ou de baixa bacteremia. Em doença focal, cultura do sítio acometido pode ser particularmente útil.

Nunca encaminhe uma cultura suspeita de brucelose como se fosse uma bactéria comum sem alertar o laboratório. Brucella é classicamente associada a infecção adquirida em laboratório.

Sorologia e PCR no PCDT brasileiro

Em pacientes sintomáticos com suspeita, o PCDT 2025 orienta a realização simultânea de Rosa Bengala + ELISA total ou IgG. A positividade de ambos, no contexto clínico-epidemiológico apropriado, sustenta diagnóstico provável. Resultados negativos ou discordantes direcionam para PCR quando disponível.

  • IgM isolado não deve ser utilizado como marcador de fase aguda nem como critério único de confirmação, devido a reações inespecíficas e persistência prolongada.
  • PCR negativa não exclui doença quando a suspeita é forte, pois a bacteremia pode ser baixa/intermitente.
  • Se o diagnóstico não foi estabelecido e a suspeita persiste, pode-se repetir sorologia em 2–4 semanas.
  • Elevação de quatro vezes ou mais em teste sorológico quantitativo, em amostras separadas por pelo menos duas semanas, constitui evidência confirmatória.
  • RB51 e B. canis: a sorologia convencional pode não detectar; cultura e métodos especializados ganham importância.
Interpretador educativo do fluxo sorológico

Baseado na lógica do PCDT brasileiro. Não classifica um caso sem clínica e vínculo epidemiológico.

Selecione Rosa Bengala e ELISA para organizar a interpretação.

Exames complementares e foco

Hemograma, função renal e hepática

Não confirmam a doença, mas ajudam a medir repercussão e segurança do esquema antimicrobiano.

Marcadores inflamatórios

VHS/PCR podem auxiliar no acompanhamento em doença focal, sempre correlacionados à clínica.

Imagem

RM, TC, ultrassonografia ou ecocardiografia são escolhidos conforme a suspeita de coluna, articulação, abscesso, SNC ou endocardite.

Líquidos e tecidos

Líquor, líquido articular, material de abscesso ou outros espécimes podem ser enviados para cultura/PCR quando indicado.

Diagnósticos diferenciais

Tuberculose, endocardite bacteriana, febre tifoide, malária em contexto epidemiológico, outras zoonoses febris, micoses sistêmicas, doenças reumatológicas, sarcoidose e neoplasias podem produzir quadros semelhantes.

Princípios do tratamento

O tratamento precisa combinar antimicrobianos com atividade contra uma bactéria intracelular e mantê-los por tempo suficiente para reduzir falha e recidiva. O PCDT brasileiro de 2025 prioriza, em adultos e crianças maiores de 10 anos sem contraindicações, doxiciclina associada a aminoglicosídeo. Doxiciclina + rifampicina é alternativa quando o aminoglicosídeo não é possível.

A escolha não deve considerar apenas “qual antibiótico usar”, mas também sítio da doença, gravidade, idade, gestação, função renal/hepática, interações, disponibilidade e possibilidade de monitoramento.

Na análise que embasou o protocolo nacional, doxiciclina + aminoglicosídeo apresentou menor insucesso que doxiciclina + rifampicina; por isso a combinação com estreptomicina ou gentamicina ocupa a posição preferencial no Brasil.

Esquemas para adultos e maiores de 10 anos

PrioridadeEsquemaDuraçãoComentário prático
PreferencialDoxiciclina 100 mg 12/12 h + estreptomicina 1 g/dia IMDoxiciclina 42 dias; estreptomicina 14 diasBoa experiência histórica; exige administração IM e vigilância de nefro/ototoxicidade.
PreferencialDoxiciclina 100 mg 12/12 h + gentamicina 5 mg/kg/dia IM/IVDoxiciclina 42 dias; gentamicina 5–7 diasReduz o período do aminoglicosídeo parenteral; requer ajuste/monitoramento renal conforme o caso.
AlternativoDoxiciclina 100 mg 12/12 h + rifampicina 600 mg/dia42 diasTotalmente oral, porém o PCDT brasileiro a coloca como alternativa quando aminoglicosídeo não é viável.
O CDC 2026 ainda descreve doxiciclina + rifampicina por pelo menos 6 semanas como um esquema típico internacional. No Brasil, o PCDT do Ministério da Saúde/Conitec de 2025 posiciona doxiciclina + aminoglicosídeo como esquema preferencial; recomendações internacionais devem ser interpretadas à luz do protocolo nacional e do contexto clínico.

Esquemas do adulto

Abra os cartões para ver dose, racional, monitoramento e pontos de atenção.

Recidiva, refratariedade e falha terapêutica

O retorno ou persistência de sintomas exige reavaliação antes de simplesmente repetir o mesmo esquema: confirmar adesão e duração, procurar foco oculto, coletar cultura quando possível e revisar interações, imunossupressão e diagnóstico diferencial.

Gentamicina — cálculo inserido no contexto do tratamento

O PCDT utiliza 5 mg/kg/dia por via IM ou IV por 5–7 dias, associada à doxiciclina por 42 dias. O cálculo abaixo mostra a dose teórica por peso; ajuste renal, intervalo, diluição e monitoramento seguem o protocolo do serviço.

Dose diária
Volume
Aminoglicosídeo
5–7 dias
Atenção: função renal, idade, outros nefro/ototóxicos e monitoramento institucional prevalecem sobre o cálculo.

Como manejar melhor cada fármaco

Doxiciclina

100 mg VO a cada 12 h. Administrar com bastante água e evitar deitar imediatamente após a dose. Ferro, cálcio, magnésio e antiácidos podem reduzir a absorção.

Rifampicina

600 mg/dia no esquema alternativo terapêutico. Tem muitas interações e potencial hepatotóxico; revisar contraceptivos, anticoagulantes e outros fármacos.

Estreptomicina

1 g IM/dia por 14 dias. Ototoxicidade e nefrotoxicidade são preocupações centrais; não é apropriada na gestação.

Gentamicina

5 mg/kg/dia IM/IV por 5–7 dias. Ajustar na disfunção renal e monitorar toxicidade vestibular/auditiva de acordo com o risco.

Formas graves, hospitalares ou focais

O PCDT brasileiro exclui as formas complicadas de seus esquemas padronizados e determina manejo individualizado em serviço de referência. Os cartões abaixo mostram regimes usados em consensos e literatura recente, com doses e durações para orientar a consulta especializada — não substituem a decisão conjunta com infectologia e a especialidade do órgão acometido.

No PCDT 2025, endocardite, acometimento do SNC, doença ocular, osteomielite, imunossupressão e outras formas localizadas importantes ficam fora do esquema padronizado. Para osteomielite, o protocolo sugere considerar 4–6 meses; coleções/abscessos podem exigir drenagem adjuvante.
Persistência de febre, bacteremia ou sintomas focais durante tratamento deve motivar investigação de foco oculto, abscesso, endocardite, osteomielite/espondilodiscite, adesão inadequada ou duração insuficiente.

Crianças

No PCDT brasileiro, crianças acima de 10 anos podem utilizar o esquema recomendado para adultos. Para crianças até 10 anos, o esquema mais utilizado no protocolo para doença não localizada é SMX-TMP + rifampicina por 42 dias.

Calculadora pediátrica

Exibe as faixas por peso descritas no PCDT. Confirmar apresentação, teto, divisão de doses e função renal/hepática antes da prescrição.

SMX-TMP — faixa por peso do PCDT
Rifampicina 15–20 mg/kg/dia
Tratamento
42 dias
A dose de SMX-TMP deve ser conferida no PCDT e na apresentação disponível antes da prescrição; esta ferramenta é apenas educativa.
O próprio PCDT reconhece evidência limitada em menores de 10 anos. Doença grave ou focal exige decisão individualizada com pediatria/infectologia.

Gestação

A brucelose gestacional está associada a desfechos obstétricos adversos e deve ser manejada em serviço especializado, preferencialmente com obstetrícia. Tetraciclinas são contraindicadas e a estreptomicina traz risco de ototoxicidade fetal.

  • Esquema descrito no PCDT: SMX-TMP 400/80 mg a cada 12 h + rifampicina 600 mg/dia, por 42 dias.
  • Ácido fólico: o PCDT recomenda 5–10 mg/dia concomitantemente ao SMX-TMP na gestação.
  • SMX-TMP: riscos variam conforme o momento gestacional; a decisão é individualizada, não automática.

Profilaxia pós-exposição (PEP)

A PEP é mais bem estabelecida para exposição laboratorial de alto risco e é extrapolada pelo PCDT brasileiro para outros acidentes classificados como alto risco. A evidência é de baixa certeza, mas a recomendação considera a morbidade potencial e a dificuldade diagnóstica.

SituaçãoEsquemaDuraçãoObservação
PadrãoDoxiciclina 100 mg + rifampicina 300 mg, ambos 12/12 h21 diasPCDT brasileiro para exposição de alto risco.
Doxiciclina contraindicadaSMX-TMP 400/80 mg + rifampicina 300 mg, ambos 12/12 h21 diasIndividualizar população especial e contraindicações.
RB51Não utilizar rifampicina.21 diasO PCDT e o CDC diferem na composição exata da PEP; discutir com referência.
O PCDT admite início da PEP até 24 semanas após exposição de alto risco, embora deva ser iniciada o mais cedo possível. Se já houver doença sintomática confirmada, o paciente precisa de tratamento — não apenas PEP de 21 dias.

Exposição laboratorial

O CDC 2026 destaca como especialmente arriscadas as manipulações com potencial de gerar aerossol ou respingo fora de cabine de segurança biológica classe II, como pipetagem, centrifugação não protegida, vortex, sonicação, abertura de recipientes e derramamentos.

  • Comunicar imediatamente a suspeita de Brucella ao laboratório.
  • Após exposição, manter vigilância clínica por até 24 semanas, de acordo com o protocolo de referência.
  • Em espécies sorologicamente detectáveis, o CDC recomenda sorologia seriada nas semanas 0, 6, 12, 18 e 24 para exposições laboratoriais de baixo ou alto risco.
  • RB51 e B. canis: a sorologia convencional não é útil; vigilância clínica e microbiologia especializada são mais importantes.

Como acompanhar a resposta

A resposta é avaliada principalmente pela evolução clínica: resolução da febre, melhora dos sintomas constitucionais e recuperação do foco. Marcadores inflamatórios podem ajudar conforme o cenário, mas não substituem avaliação clínica.

Durante o tratamento

Reavaliar sintomas, aderência, eventos adversos, função renal/hepática e exames específicos do esquema.

Sorologia

Se o diagnóstico usou teste quantitativo, o PCDT considera nova avaliação em torno da 6ª semana ou até duas semanas após o término.

Após o tratamento

Manter seguimento clínico por pelo menos 12 meses para detectar recidiva.

Não prolongue nem repita antibiótico apenas porque a sorologia continua positiva em paciente assintomático ou em clara melhora. Anticorpos podem persistir após a cura.

Falha e recidiva

Falha terapêutica

Persistência de manifestações atribuíveis à doença após período adequado de tratamento exige reavaliação de foco, aderência, dose, interação, resistência e diagnóstico.

Recidiva

Reaparecimento dos sintomas após período de melhora pode ocorrer meses depois. A ausência de elevação sorológica não exclui recidiva se a clínica for convincente.

Antes de repetir o mesmo esquema, procure endocardite, osteomielite/espondilite, abscesso, coleção, foco não reconhecido, adesão inadequada ou duração insuficiente.

Prevenção

Segurança alimentar

Consumir leite e derivados pasteurizados e evitar produtos crus de procedência desconhecida.

Trabalho com animais

Luvas, proteção ocular, avental e proteção respiratória conforme risco; atenção especial a parto, aborto e placenta.

Laboratórios

Cabine de segurança, medidas de contenção e minimização de aerossóis; notificação imediata de acidentes.

Vacinas veterinárias

Evitar autoinoculação e contato de spray com mucosas. Acidentes com RB51 exigem abordagem específica.

O controle da doença nos reservatórios animais — abordagem de Saúde Única — é fundamental para reduzir doença humana. Não existe vacina humana de uso rotineiro.

Erros comuns

ErroPor que é um problemaComo evitar
Ignorar a epidemiologiaOs sintomas são inespecíficos e o diagnóstico atrasa.Perguntar sobre animais, leite cru, laboratório, frigorífico, caça e vacinas veterinárias.
Usar IgM isoladoPode haver falso-positivo e persistência prolongada.Seguir o fluxo combinado do PCDT.
Não avisar o laboratórioA manipulação pode expor profissionais por aerossóis.Comunicar a hipótese antes do processamento.
Monoterapia curtaAumenta risco de insucesso e recidiva.Usar combinação e duração adequadas ao cenário.
Rifampicina na RB51A cepa é resistente.Identificar a cepa/exposição e usar protocolo específico.
Tratar sorologia, não o pacienteAnticorpos podem persistir após cura.Basear reavaliação em clínica, foco e microbiologia quando indicada.

Resumo do fluxo prático

  1. Suspeite diante de síndrome compatível + exposição epidemiológica plausível.
  2. Procure foco localizado e sinais de gravidade desde a primeira avaliação.
  3. Avise o laboratório e colete cultura/soro; em foco, considere amostra do sítio.
  4. No fluxo do PCDT, use Rosa Bengala + ELISA total/IgG e PCR nos resultados negativos/discordantes quando disponível.
  5. Trate adultos e maiores de 10 anos preferencialmente com doxiciclina + aminoglicosídeo, salvo contraindicação.
  6. Individualize infância, gestação, formas focais, doença grave e PEP.
  7. Monitore toxicidade, aderência e resposta clínica.
  8. Mantenha acompanhamento após o tratamento para detectar recidiva.

Referências principais

  1. Brasil. Ministério da Saúde / Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Brucelose Humana. Portaria SECTICS/MS nº 22, de 12 de maio de 2025. Documento nacional vigente para diagnóstico, tratamento, monitoramento e profilaxia pós-exposição.
  2. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Overview of Brucellosis. Atualizado em 2 de junho de 2026.
  3. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Laboratory Risks for Brucellosis. Atualizado em 2 de junho de 2026.
  4. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Brucellosis Reference Guide: Exposures, Testing, and Prevention. Edição vigente.
  5. World Health Organization (WHO). Brucellosis. Fact sheet e materiais de Saúde Única.
  6. Huang et al. Updated therapeutic options for human brucellosis: a systematic review and network meta-analysis of randomized controlled trials. PLoS Negl Trop Dis. 2024.
  7. Silva SN, Cota G, et al. Efficacy and safety of therapeutic strategies for human brucellosis: a systematic review and network meta-analysis. PLoS Negl Trop Dis. 2024.
  8. Brucella Spondylitis: Current Knowledge and Recent Advances. Revisão contemporânea sobre esquemas e duração na doença vertebral/osteoarticular.
  9. European Society of Cardiology. 2023 ESC Guidelines for the management of endocarditis. Inclui tratamento específico para endocardite por Brucella.
  10. A Systematic Review and Analysis of Brucella Endocarditis Cases. 2025. Análise de 273 casos com dados de antimicrobianos e cirurgia.
  11. Neurobrucellosis Presenting with Motor Damage or Hearing Loss... Systematic review of individual participant data. Neurological Sciences. 2024.
  12. Almuzaini A, Elbehiry A. Unraveling brucellosis: advances in pathogenesis, diagnostic strategies, therapeutic innovations, and public health perspectives. Front Med. 2025.
  13. Manickam K, Kannan S. Brucella spp. – Emerging Insights Into Virulence Strategies: T4SS, CβG, Intracellular Replication, and Beyond. J Basic Microbiol. 2026.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Doses por peso, função renal/hepática, formas focais graves, gestação e profilaxia após exposição devem ser conferidas antes da prescrição.

Imagem ampliada
Resumo clínico

Em provas / residência

Brucelose — 5 questões

Rolar para cima