Zoonoses

Antraz

Infecção bacteriana zoonótica causada pelo Bacillus anthracis, transmitida principalmente pelo contato com animais infectados, carcaças, couro, lã ou produtos de origem animal contaminados por esporos.

Antraz em animais

O que é

O antraz, também chamado de carbúnculo, é uma zoonose infecciosa aguda causada pela bactéria Bacillus anthracis. Embora seja uma doença rara em humanos, pode ser grave e potencialmente fatal, principalmente nas formas inalatória, gastrointestinal e meníngea.

A doença ocorre após exposição aos esporos da bactéria, podendo se manifestar na forma cutânea, pulmonar, digestiva ou meníngea. O antraz também ganhou importância histórica por seu potencial uso como agente de bioterrorismo.

Agente etiológico

O agente causador do antraz é o Bacillus anthracis, um coco-bacilo Gram-positivo, aeróbico, encapsulado e formador de esporos.

  • Esporos resistentes: podem sobreviver por décadas no solo contaminado.
  • Cápsula polipeptídica: ajuda a bactéria a escapar da fagocitose.
  • Toxina antráxica: composta por fator letal, fator do edema e antígeno protetor.
  • Alta virulência: especialmente nas formas sistêmicas e inalatórias.
Ilustração do Bacillus anthracis

Epidemiologia

O antraz é mais comum em regiões com práticas agropecuárias precárias, onde há contaminação ambiental por esporos. Afeta principalmente herbívoros, como bovinos, ovinos, caprinos e cavalos, podendo atingir humanos expostos a animais ou produtos contaminados.

Distribuição

África Subsaariana, Ásia Central, América do Sul e Oriente Médio.

No Brasil

Casos humanos raros, com surtos esporádicos em áreas rurais.

Mortalidade

Baixa na forma cutânea tratada; alta nas formas inalatória e meníngea.

Risco ocupacional

Trabalhadores rurais, veterinários, curtidores e manipuladores de lã/couro.

Forma comum

A forma cutânea é a apresentação mais frequente.

Reservatórios e transmissão

Principais reservatórios

  • Animais herbívoros infectados, como bovinos, ovinos, caprinos e cavalos.
  • Solo contaminado por esporos, especialmente após morte de animais infectados.
  • Produtos de origem animal contaminados, como lã, couro, peles e carne.

Formas de transmissão para humanos

  • Contato cutâneo com pele lesionada ou mucosas expostas a esporos.
  • Inalação de esporos presentes em ambientes ou produtos animais contaminados.
  • Ingestão de carne mal cozida de animal infectado.
  • Inoculação acidental em laboratório ou exposição intencional.
⚠ A transmissão interpessoal não é considerada forma habitual de disseminação.

Ciclo de vida e fisiopatologia

No ambiente, o Bacillus anthracis permanece na forma de esporo. Após entrada no organismo, os esporos germinam e se transformam em formas vegetativas, que se multiplicam rapidamente e liberam toxinas.

Essas toxinas provocam edema, necrose tecidual, inflamação intensa e choque. Após a morte do hospedeiro, se houver exposição ao oxigênio, a bactéria pode esporular novamente e contaminar o ambiente.

Representação do ciclo de vida e fisiopatologia do antraz Clique na imagem para ampliar

Como ocorre a transmissão

A transmissão do antraz ocorre pela exposição aos esporos do Bacillus anthracis. Esses esporos podem penetrar no organismo pela pele lesionada, pelas vias respiratórias, pelo trato gastrointestinal ou por inoculação acidental.

Principais vias de infecção

Via cutânea

Ocorre pelo contato de pele ferida ou mucosas com esporos presentes em animais, carcaças, couro, lã ou solo contaminado.

Via inalatória

Resulta da inalação de esporos em ambientes contaminados, sendo uma das formas mais graves da doença.

Via gastrointestinal

Está associada à ingestão de carne mal cozida proveniente de animal infectado.

Inoculação acidental

Pode ocorrer em laboratórios ou em situações de exposição intencional, como bioterrorismo.

Grupos de maior risco

  • Trabalhadores rurais.
  • Veterinários e profissionais que lidam com animais.
  • Manipuladores de lã, couro, peles ou carcaças.
  • Trabalhadores de abatedouros e curtumes.
  • Profissionais de laboratório.
  • Pessoas expostas a carne de procedência duvidosa em áreas endêmicas.
⚠ Animais mortos por suspeita de antraz não devem ser abertos ou manipulados sem biossegurança.

Quadro clínico

O antraz pode se apresentar em quatro formas clínicas principais: cutânea, inalatória, gastrointestinal e meníngea. A gravidade depende da via de exposição, da carga de esporos e da rapidez do diagnóstico e tratamento.

Formas clínicas

Forma cutânea

Inicia como pápula ou vesícula, evoluindo para úlcera com escara negra, geralmente indolor e com edema ao redor.

Forma inalatória

Começa com sintomas inespecíficos, como febre, mal-estar e tosse, podendo evoluir rapidamente para dispneia e choque.

Forma gastrointestinal

Pode causar dor abdominal, náuseas, vômitos, diarreia, febre e evolução sistêmica grave.

Forma meníngea

Forma grave, geralmente secundária à disseminação hematogênica, com meningite hemorrágica e alta letalidade.

Sinais de gravidade

  • Febre alta e toxemia.
  • Dispneia, dor torácica ou insuficiência respiratória.
  • Alteração do nível de consciência.
  • Sinais meníngeos.
  • Hipotensão, choque ou sepse.
  • Edema extenso ou lesão cutânea rapidamente progressiva.

Suspeita diagnóstica

O diagnóstico deve ser suspeitado diante de quadro clínico compatível associado à exposição ocupacional, contato com animais ou produtos de origem animal contaminados, ingestão de carne suspeita ou exposição laboratorial.

Exames utilizados

Cultura

Pode ser realizada em secreções de lesões, sangue ou líquor, com crescimento em ágar sangue.

Coloração de Gram

Mostra bacilos Gram-positivos grandes, frequentemente em cadeia.

PCR

Exame rápido e sensível, útil especialmente em casos graves ou suspeita de exposição intencional.

Imagem

Na forma inalatória, pode haver alargamento mediastinal e derrame pleural.

Conduta diante de suspeita

  • Notificação imediata às autoridades de saúde.
  • Início de antibioticoterapia sem aguardar confirmação laboratorial em casos suspeitos.
  • Coleta de amostras antes do antibiótico, quando possível, sem atrasar tratamento.
  • Medidas de biossegurança conforme forma clínica e contexto epidemiológico.
  • Avaliação hospitalar imediata nas formas sistêmicas, inalatória, gastrointestinal ou meníngea.
💡 A suspeita clínica e epidemiológica é fundamental, pois o atraso terapêutico aumenta a mortalidade.

Princípios do tratamento

O tratamento do antraz deve ser iniciado precocemente, sem aguardar confirmação laboratorial quando houver suspeita clínica e epidemiológica. Formas sistêmicas, inalatórias, gastrointestinais ou com suspeita de meningite exigem internação, antibioticoterapia venosa combinada, suporte intensivo e, quando disponível, terapia adjuvante com antitoxina.

🧠 Se meningite

Na suspeita ou confirmação de meningite por antraz, deve-se utilizar esquema venoso combinado com boa penetração em sistema nervoso central.

Esquema preferencial

Ciprofloxacino: 400 mg EV de 8/8 horas.

Associar com Meropeném: 2 g EV de 8/8 horas.

Associar com Linezolida: 600 mg EV de 12/12 horas.

Manter tratamento venoso por 2 a 3 semanas ou até estabilidade clínica. Após estabilização, completar o esquema até 2 meses de tratamento com:

Ciprofloxacino

500 mg VO de 12/12 horas.

Doxiciclina

100 mg VO de 12/12 horas.

💉 Tratamento adjuvante

Nas formas sistêmicas graves, especialmente meningite, forma inalatória ou doença disseminada, deve-se associar terapia adjuvante antitoxina, quando disponível.

Raxibacumab

40 mg/kg EV, diluído em SF 0,9% ou 0,45%, em dose única. Infundir em 2 horas. Administrar anti-histamínico antes da infusão.

Imunoglobulina contra Antraz

Anthrasil — 60 unidades/frasco: 7 frascos EV, infundidos em 0,5 mL/minuto, máximo de 2 mL/minuto.

🏥 Descartada meningite

Quando a meningite é descartada, o tratamento das formas sistêmicas pode ser feito com ciprofloxacino associado a um inibidor de síntese proteica.

Esquema preferencial

Ciprofloxacino: 400 mg EV de 8/8 horas.

Associar com Clindamicina: 900 mg EV de 8/8 horas.

OU Linezolida: 600 mg EV de 12/12 horas.

Manter tratamento venoso por 2 a 3 semanas ou até estabilidade clínica. Após estabilização, completar até 2 meses de tratamento com:

Ciprofloxacino

500 mg VO de 12/12 horas.

Doxiciclina

100 mg VO de 12/12 horas.

Alternativas terapêuticas

Alternativas ao Ciprofloxacino EV

Levofloxacino

750 mg EV de 24/24 horas.

Moxifloxacino

400 mg EV de 24/24 horas.

Alternativas ao Meropeném

Imipeném

1 g EV de 6/6 horas.

Penicilina G

Para cepas sensíveis: 4 milhões de unidades EV de 4/4 horas.

Ampicilina

3 g EV de 6/6 horas.

Alternativas à Linezolida para meningite

Clindamicina

900 mg EV de 8/8 horas.

Rifampicina

600 mg EV de 12/12 horas.

Cloranfenicol

1 g EV de 6/6 ou de 8/8 horas.

Alternativas à Linezolida ou Clindamicina quando meningite estiver excluída

Doxiciclina

200 mg EV em dose única, seguido de 100 mg EV de 12/12 horas.

Rifampicina

600 mg EV de 12/12 horas.

💊 Alternativas orais para completar 60 dias

Após estabilidade clínica e término da fase venosa, podem ser utilizadas alternativas orais para completar o esquema total de 60 dias, conforme sensibilidade, tolerância e avaliação clínica.

Levofloxacino

750 mg VO de 24/24 horas.

Moxifloxacino

400 mg VO de 24/24 horas.

Clindamicina

600 mg VO de 8/8 horas.

Amoxicilina

Para cepas sensíveis à penicilina: 1 g VO de 8/8 horas.

Fenoximetilpenicilina potássica

Penicilina V: 500 mg VO de 6/6 horas.

👁 Seguimento

Pacientes tratados devem ser acompanhados por pelo menos 2 meses, com vigilância clínica para recidiva, complicações neurológicas, respiratórias, infecciosas e sinais de sepse. Casos pulmonares, meníngeos ou sistêmicos devem manter seguimento especializado.

⚠ Na suspeita de antraz sistêmico ou meníngeo, iniciar antibioticoterapia imediatamente e não aguardar confirmação laboratorial.

Complicações da brucelose

A brucelose pode comprometer diversos sistemas. As complicações são mais frequentes quando há atraso diagnóstico, tratamento inadequado ou doença prolongada.

Principais acometimentos

Osteoarticular

Sacroileíte, espondilodiscite, artrite periférica e dor lombar persistente.

Cardíaco

Endocardite é rara, mas representa a principal causa de morte relacionada à brucelose.

Neurológico

Neurobrucelose pode cursar com meningite, encefalite, radiculopatia ou neuropatias.

Geniturinário

Orquite, epididimite e prostatite podem ocorrer, especialmente em homens.

Hepatoesplênico

Hepatomegalia, esplenomegalia, elevação de transaminases e granulomas hepáticos.

Hematológico

Anemia, leucopenia, plaquetopenia e alterações inflamatórias podem estar presentes.

💡 Dor lombar persistente em paciente com brucelose deve levantar suspeita de acometimento osteoarticular.

🛡 Como prevenir

A prevenção do antraz depende do controle sanitário animal, manejo adequado de carcaças, inspeção de produtos de origem animal e uso de equipamentos de proteção por pessoas expostas.

Medidas individuais

  • Evitar contato direto com animais doentes ou mortos sem proteção.
  • Usar luvas, máscara, botas e proteção ocular ao manipular carcaças, couro, lã ou peles.
  • Consumir apenas carne inspecionada e bem cozida.
  • Evitar manipular produtos animais de origem desconhecida.
  • Procurar atendimento diante de lesões suspeitas após exposição ocupacional.

Medidas coletivas

Vacinação animal

Importante em regiões endêmicas para reduzir surtos em rebanhos.

Manejo de carcaças

Animais suspeitos não devem ser abertos; o manejo deve seguir normas sanitárias.

Inspeção sanitária

Fiscalização de carne, couro, lã e outros produtos de origem animal.

Notificação

Casos suspeitos devem ser comunicados rapidamente aos serviços de vigilância.

⚠ A abertura de carcaças suspeitas pode favorecer a esporulação e contaminar o ambiente por longos períodos.

Quadro clínico principal

  • Forma cutânea: pápula → vesícula → úlcera com escara negra
  • Edema importante ao redor da lesão
  • Forma inalatória: febre, dispneia e dor torácica
  • Forma gastrointestinal: dor abdominal, vômitos e diarreia
  • Febre e mal-estar geral
  • Evolução rápida em formas sistêmicas

Diagnóstico

Identificação do Bacillus anthracis em amostras clínicas

  • Cultura de sangue, lesão ou secreções
  • PCR para detecção rápida
  • Microscopia (bacilos gram-positivos)
  • Imagem em casos pulmonares (alargamento mediastinal)
  • História epidemiológica é fundamental

Tratamento

Antibioticoterapia precoce é essencial

  • Ciprofloxacino ou doxiciclina como base
  • Associação com outros antibióticos em casos graves
  • Tratamento prolongado (até 60 dias em exposição inalatória)
  • Suporte intensivo em formas sistêmicas

Complicações

  • Sepse e choque séptico
  • Mediastinite hemorrágica
  • Meningite por antraz
  • Insuficiência respiratória grave
  • Alta mortalidade nas formas inalatória e sistêmica

Importante

O antraz pode evoluir rapidamente para formas sistêmicas graves, especialmente quando há inalação de esporos, podendo causar sepse, meningite, insuficiência respiratória e alta mortalidade se não tratado precocemente.

Referências bibliográficas

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Referências bibliográficas

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