Campilobacteriose
Infecção bacteriana geralmente associada ao consumo de alimentos ou água contaminados, especialmente carnes mal cozidas, leite não pasteurizado e contato com animais infectados, causada principalmente por Campylobacter jejuni.
Quadro clínico principal
- Diarreia aquosa ou sanguinolenta
- Dor abdominal em cólica
- Febre
- Náuseas e vômitos
- Mal-estar geral
- Sintomas geralmente autolimitados
Diagnóstico
- Diagnóstico geralmente clínico em casos leves
- Coprocultura em casos graves ou persistentes
- PCR em painel molecular de fezes
- Hemograma e eletrólitos em desidratação ou gravidade
Tratamento
- Hidratação oral ou venosa conforme gravidade
- Correção de distúrbios hidroeletrolíticos
- Antibiótico apenas em casos selecionados
- Azitromicina em doença grave, prolongada ou grupos de risco
Complicações
- Desidratação e distúrbios eletrolíticos
- Bacteremia em imunossuprimidos
- Artrite reativa pós-infecciosa
- Síndrome de Guillain-Barré
O que é
A campilobacteriose é uma infecção bacteriana intestinal, geralmente transmitida por alimentos ou água contaminados, causada principalmente por bactérias do gênero Campylobacter. É uma das causas importantes de gastroenterite bacteriana, podendo provocar diarreia, dor abdominal, febre e, em alguns casos, complicações pós-infecciosas.
Agente etiológico
Bactéria Gram-negativa, curva ou espiralada, microaerofílica e móvel, pertencente ao gênero Campylobacter.
- Campylobacter jejuni — principal espécie associada à gastroenterite humana.
- Campylobacter coli — também causa diarreia, frequentemente relacionada a suínos e aves.
- Campylobacter fetus — mais associado a infecções sistêmicas em imunossuprimidos, idosos e gestantes.
- Campylobacter upsaliensis — pode estar associado a cães e gatos, com infecção humana menos frequente.
Epidemiologia
A campilobacteriose ocorre em todo o mundo e está fortemente associada ao consumo de alimentos contaminados, especialmente carne de frango mal cozida, leite não pasteurizado e água sem tratamento adequado.
Doença comum em países desenvolvidos e em desenvolvimento.
Provavelmente subdiagnosticada, pois muitos casos leves não realizam investigação laboratorial.
Baixa na maioria dos casos; maior risco em idosos, crianças pequenas e imunossuprimidos.
Geralmente autolimitada, mas pode causar desidratação e complicações pós-infecciosas.
Pessoa exposta a alimentos contaminados, água não tratada ou contato com animais infectados.
Reservatórios e transmissão
Principais reservatórios
- Aves domésticas, especialmente frangos.
- Bovinos, suínos, ovinos e outros animais de produção.
- Cães e gatos, principalmente filhotes com diarreia.
- Animais silvestres e aves migratórias.
Formas de transmissão
- Consumo de carne de frango crua ou mal cozida.
- Contaminação cruzada durante o preparo dos alimentos.
- Ingestão de leite não pasteurizado ou água contaminada.
- Contato direto com fezes de animais infectados.
Fisiopatologia
O Campylobacter é ingerido por meio de alimentos ou água contaminados e alcança o trato gastrointestinal, onde consegue aderir à mucosa intestinal, especialmente no íleo e no cólon.
A bactéria invade a mucosa e desencadeia resposta inflamatória local, podendo causar diarreia inflamatória, dor abdominal em cólica, febre e, em alguns casos, presença de sangue ou muco nas fezes.
Após a infecção, mecanismos imunomediados podem estar relacionados a complicações como artrite reativa e síndrome de Guillain-Barré.
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Como ocorre a transmissão
A campilobacteriose ocorre principalmente pela ingestão de alimentos ou água contaminados por fezes de animais infectados. A bactéria chega ao trato gastrointestinal e causa infecção intestinal, geralmente após consumo de carne mal cozida, leite não pasteurizado ou por contaminação cruzada durante o preparo dos alimentos.
Principais vias de infecção
Consumo de frango, aves ou outras carnes cruas ou insuficientemente cozidas, uma das principais fontes de infecção.
Uso de tábuas, facas, superfícies ou utensílios contaminados por carne crua durante o preparo de outros alimentos.
Ingestão de leite não pasteurizado, derivados sem inspeção ou água contaminada por fezes de animais.
Contato direto com fezes de animais infectados, especialmente filhotes de cães e gatos com diarreia, aves e animais de produção.
Grupos de maior risco
- Crianças pequenas.
- Idosos.
- Gestantes.
- Imunossuprimidos.
- Pessoas que consomem leite não pasteurizado ou água não tratada.
- Manipuladores de alimentos e pessoas expostas a carne crua.
- Trabalhadores rurais, veterinários e pessoas em contato frequente com animais.
- Viajantes para regiões com saneamento ou segurança alimentar inadequados.
Quadro clínico
A campilobacteriose geralmente se manifesta como gastroenterite aguda, com diarreia, dor abdominal e febre. O quadro costuma ser autolimitado, mas pode ser mais intenso em crianças pequenas, idosos, gestantes e imunossuprimidos.
Sintomas mais comuns
Pode ser aquosa ou inflamatória, com muco ou sangue em alguns casos.
Geralmente em cólica, podendo simular abdome agudo ou apendicite em quadros mais intensos.
Comum no início do quadro, associada a mal-estar e sintomas sistêmicos.
Podem ocorrer, embora sejam menos predominantes que a diarreia e a dor abdominal.
Mais provável em crianças, idosos ou pacientes com grande perda de líquidos pelas fezes.
Pode haver fadiga, prostração, inapetência e dor no corpo durante a fase aguda.
Formas clínicas
- Leve: diarreia autolimitada, pouca repercussão sistêmica e boa aceitação oral.
- Moderada: diarreia frequente, dor abdominal importante, febre e sinais iniciais de desidratação.
- Grave: diarreia sanguinolenta, desidratação importante, febre alta, toxemia ou piora clínica progressiva.
- Persistente: sintomas prolongados, geralmente por mais de 7 dias, exigindo investigação e avaliação de fatores de risco.
- Extraintestinal: mais rara, podendo ocorrer bacteremia, artrite reativa ou complicações neurológicas pós-infecciosas.
Suspeita diagnóstica
Deve ser suspeitada em pacientes com gastroenterite aguda, especialmente quando há diarreia aquosa ou sanguinolenta, dor abdominal em cólica, febre e história recente de consumo de carne mal cozida, leite não pasteurizado, água contaminada ou contato com animais com diarreia.
Exames utilizados
Na maioria dos casos leves e autolimitados, o diagnóstico é baseado no quadro clínico e na história epidemiológica.
Pode identificar Campylobacter nas fezes, principalmente em casos graves, persistentes, surtos ou pacientes de maior risco.
Painéis moleculares gastrointestinais podem detectar rapidamente o agente, quando disponíveis.
Hemograma, eletrólitos, função renal e avaliação de hidratação podem ser úteis em casos moderados a graves.
Diagnósticos diferenciais
- Salmonelose.
- Shigelose.
- Infecção por Escherichia coli enteroinvasiva ou entero-hemorrágica.
- Yersiniose.
- Amebíase intestinal.
- Gastroenterite viral.
- Doença inflamatória intestinal em primeiro episódio ou exacerbação.
- Apendicite, quando há dor abdominal intensa em fossa ilíaca direita.
Princípios do tratamento
O tratamento da campilobacteriose é principalmente de suporte, com foco em hidratação, reposição de eletrólitos e monitorização clínica. A maioria dos casos leves é autolimitada, mas pacientes com sinais de gravidade, grupos de risco ou evolução prolongada podem necessitar de antibiótico e internação.
Definição do local de cuidado
Pode ser acompanhado em domicílio ou em unidade de internação, conforme aceitação oral, hidratação, comorbidades e evolução clínica.
Recomenda-se internação hospitalar; em casos graves, instabilidade hemodinâmica, toxemia ou rebaixamento do sensório, considerar unidade de terapia intensiva.
Quando indicar antibiótico
A antibioticoterapia não é necessária para todos os pacientes. Pode ser indicada quando houver maior risco de evolução desfavorável, doença grave ou persistência dos sintomas.
- Febre alta.
- Diarreia sanguinolenta.
- Mais de 8 evacuações por dia.
- Piora progressiva dos sintomas.
- Persistência dos sintomas por mais de 7 dias.
- Gravidez.
- Infecção por HIV ou outros imunocomprometimentos.
- Disenteria grave ou recorrente.
- Suspeita de bacteremia ou infecção extraintestinal.
Sem critérios de internação
Indicado para infecções leves a moderadas, sem sinais de gravidade, com boa aceitação oral e sem desidratação importante. Escolha uma das opções:
500 mg VO de 24/24 horas, por 3 dias.
1.000 mg VO, dose única, para doença leve.
500 mg VO de 12/12 horas, por 5 dias.
750 mg VO de 12/12 horas, por 5 dias.
500 mg VO de 6/6 horas, por 3 dias.
100 mg VO de 12/12 horas, por 5 dias.
Dieta e hidratação
Dieta
- Dieta oral constipante, conforme aceitação.
- Evitar alimentos gordurosos, irritantes ou de difícil digestão durante a fase aguda.
- No rebaixamento do sensório, suspender dieta oral.
- Considerar dieta enteral via SNE conforme quadro clínico e risco de broncoaspiração.
Hidratação
- Solução de reidratação oral nos casos leves a moderados.
- Hidratação venosa conforme parâmetros hemodinâmicos e perdas gastrointestinais.
- SF 0,9%: cerca de 30–40 mL/kg EV em 24 horas, individualizando conforme idade, comorbidades e estado volêmico.
- Atenção à reposição de eletrólitos, especialmente K+ e Mg2+.
Com critérios de internação
Em infecções graves, a duração da terapia deve ser individualizada conforme quadro clínico, resposta ao tratamento, presença de bacteremia, infecção extraintestinal e comorbidades. Quando há bacteremia por Campylobacter, geralmente considera-se tratamento por 7 a 14 dias.
Esquema A: infecções leves a moderadas em paciente internado
Escolha uma das opções:
500 mg EV ou VO de 24/24 horas, por 3 dias. Se bacteremia, tratar por 14 dias.
1.000 mg EV ou VO, dose única, para doença leve.
500 mg VO de 6/6 horas, por 3 dias.
400 mg EV ou 500 mg VO de 12/12 horas, por 5 dias.
750 mg EV ou VO de 12/12 horas, por 5 dias.
100 mg EV ou VO de 12/12 horas, por 5 dias.
Esquema B: infecções graves
Escolha uma das opções, conforme gravidade, suspeita de infecção sistêmica, função renal, disponibilidade e orientação da infectologia:
7,5 mg/kg EV ou IM de 12/12 horas.
2 mg/kg EV, dose única, seguida de 1,7–2 mg/kg EV de 8/8 horas.
1 g EV de 8/8 horas.
50–100 mg/kg/dia VO ou EV, dividido de 6/6 horas. Dose máxima: 4 g/dia.
Situações especiais
Infecção endovascular por C. fetus
- Requer tratamento prolongado, geralmente por 4 semanas.
- Gentamicina pode ser utilizada como parte do esquema.
- Alternativas incluem Ampicilina ou cefalosporinas de terceira geração.
- Investigar foco endovascular, aneurisma ou endocardite conforme suspeita clínica.
Infecção do sistema nervoso central
- Tratamento por 2 a 3 semanas, conforme evolução clínica.
- Opções incluem cefalosporinas de terceira geração.
- Também podem ser consideradas Ampicilina ou Cloranfenicol.
- Requer avaliação hospitalar e acompanhamento especializado.
Quando considerar abordagem cirúrgica
O tratamento cirúrgico não é rotina na campilobacteriose intestinal, mas pode ser necessário em complicações graves ou suspeita de foco vascular.
- Suspeita de megacólon tóxico.
- Suspeita de aneurisma infectado ou complicação endovascular.
- Abdome agudo, perfuração, isquemia ou deterioração clínica apesar do tratamento.
Complicações da brucelose
São mais frequentes quando há atraso diagnóstico, tratamento inadequado ou doença prolongada.
Principais acometimentos
Sacroileíte, espondilodiscite, artrite periférica e dor lombar persistente.
Endocardite — rara, mas principal causa de morte relacionada à brucelose.
Meningite, encefalite, radiculopatia ou neuropatias periféricas.
Orquite, epididimite e prostatite, especialmente em homens.
Hepatomegalia, esplenomegalia, elevação de transaminases e granulomas hepáticos.
Anemia, leucopenia, plaquetopenia e marcadores inflamatórios elevados.
Complicações da campilobacteriose
As complicações são incomuns na maioria dos casos, mas podem ocorrer em pacientes com doença grave, sintomas prolongados, imunossupressão, extremos de idade ou infecção sistêmica. Algumas complicações podem surgir após a fase intestinal aguda, por mecanismos imunomediados.
Principais acometimentos
Complicação mais comum, especialmente em crianças, idosos e pacientes com vômitos ou diarreia intensa.
Hipocalemia, hipomagnesemia, injúria renal pré-renal e acidose podem ocorrer em perdas gastrointestinais importantes.
Rara, mas pode ocorrer principalmente em imunossuprimidos, idosos, gestantes ou em infecção por Campylobacter fetus.
Pode surgir dias a semanas após a gastroenterite, com dor e inflamação articular, geralmente em membros inferiores.
Complicação neurológica pós-infecciosa rara, associada a fraqueza progressiva, arreflexia e risco de insuficiência respiratória.
Mais associadas ao C. fetus, podendo envolver aneurismas infectados, endocardite ou infecção vascular em pacientes predispostos.
Sinais de alerta
- Diarreia sanguinolenta intensa ou persistente.
- Febre alta, toxemia ou piora progressiva do estado geral.
- Sinais de desidratação importante.
- Rebaixamento do nível de consciência, especialmente em idosos.
- Dor abdominal intensa, distensão abdominal ou suspeita de megacólon tóxico.
- Fraqueza muscular progressiva ou sintomas neurológicos após gastroenterite.
- Persistência dos sintomas por mais de 7 dias.
Como prevenir
A prevenção da campilobacteriose depende principalmente de medidas de segurança alimentar, higiene das mãos, cozimento adequado dos alimentos e prevenção da contaminação cruzada durante o preparo das refeições.
Medidas individuais
- Cozinhar bem carnes, especialmente frango e outras aves.
- Evitar o consumo de carne crua, mal cozida ou com partes rosadas.
- Consumir apenas leite pasteurizado, fervido ou derivados inspecionados.
- Beber água tratada, filtrada ou fervida.
- Lavar as mãos antes de preparar alimentos e após manipular carne crua.
- Separar tábuas, facas e utensílios usados em alimentos crus daqueles usados em alimentos prontos.
- Higienizar bancadas, superfícies e utensílios após contato com carne crua.
- Lavar as mãos após contato com animais, especialmente filhotes de cães e gatos com diarreia.
Medidas coletivas
Controle da produção, armazenamento, transporte e preparo de alimentos de origem animal.
Boas práticas na criação, abate, processamento e comercialização de frangos e outras carnes.
Tratamento adequado da água, saneamento básico e proteção de fontes contra contaminação fecal.
Fiscalização de alimentos, laticínios, restaurantes, indústrias e serviços de alimentação.
Orientação da população sobre higiene das mãos, cozimento completo e prevenção da contaminação cruzada.
Identificação de fontes contaminadas e adoção de medidas rápidas para interromper a transmissão.
Importante
A campilobacteriose geralmente é autolimitada, mas pode evoluir com desidratação, diarreia sanguinolenta, bacteremia em grupos de risco e complicações pós-infecciosas, como artrite reativa e síndrome de Guillain-Barré.
Referências bibliográficas
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Em provas / residência
Campilobacteriose → diarreia inflamatória ou sanguinolenta + dor abdominal em cólica + febre após consumo de frango mal cozido, leite não pasteurizado ou alimento contaminado.
Lembre-se da associação com artrite reativa e síndrome de Guillain-Barré após gastroenterite por Campylobacter jejuni.
Resultado final
Revisão das questões
Referências bibliográficas
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