Leptospirose
Infecção zoonótica causada por bactérias do gênero Leptospira, transmitida principalmente pelo contato com água, lama ou solo contaminados pela urina de animais infectados, especialmente roedores.
Quadro clínico principal
- Febre de início súbito
- Cefaleia intensa
- Mialgia, principalmente em panturrilhas
- Náuseas, vômitos e diarreia
- Sufusão conjuntival
- Icterícia nos casos graves
Diagnóstico
- Suspeita clínica + exposição epidemiológica
- PCR na fase inicial da doença
- Sorologia IgM após os primeiros dias
- MAT como exame confirmatório em centros de referência
Tratamento
- Casos leves: doxiciclina ou amoxicilina
- Casos moderados a graves: penicilina G ou ceftriaxona
- Hidratação e suporte clínico
- Internação se sinais de gravidade
Complicações
- Síndrome de Weil
- Insuficiência renal aguda
- Hemorragia pulmonar
- Meningite asséptica
- Choque e disfunção multiorgânica
O que é
A leptospirose é uma zoonose bacteriana aguda causada por bactérias do gênero Leptospira. A infecção ocorre principalmente após contato da pele ou mucosas com água, lama ou solo contaminados pela urina de animais infectados, especialmente ratos.
Agente etiológico
Bactérias espiroquetas do gênero Leptospira, móveis e com formato helicoidal.
- Leptospira interrogans — principal espécie associada à doença humana.
- Possui diversos sorovares relacionados a diferentes reservatórios animais.
- Sobrevive por períodos prolongados em ambientes úmidos.
- A bactéria penetra através de pele lesionada ou mucosas.
Epidemiologia
A leptospirose ocorre mundialmente, principalmente em regiões tropicais e áreas urbanas com saneamento inadequado, enchentes frequentes e alta infestação por roedores.
Doença presente em todo o mundo, especialmente em regiões tropicais.
Maior incidência após períodos de chuvas e enchentes.
Locais com enchentes, esgoto exposto e saneamento precário.
Roedores urbanos, especialmente o rato de esgoto.
Adultos expostos a enchentes, lama ou ambientes contaminados.
Reservatórios e transmissão
Principais reservatórios
- Ratos e outros roedores.
- Cães.
- Bovinos.
- Suínos.
- Animais silvestres.
Formas de transmissão
- Contato com água ou lama contaminadas.
- Exposição à urina de animais infectados.
- Penetração pela pele lesionada ou mucosas.
- Contato ocupacional em ambientes de risco.
Fisiopatologia
Após penetrar pela pele ou mucosas, a Leptospira dissemina-se rapidamente pela corrente sanguínea, alcançando diversos órgãos.
O acometimento vascular e inflamatório pode levar a lesões em fígado, rins, pulmões e sistema nervoso central, especialmente nas formas graves da doença.
Na síndrome de Weil, ocorre disfunção multiorgânica associada a icterícia, insuficiência renal e manifestações hemorrágicas.
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Como ocorre a transmissão
A transmissão da leptospirose ocorre principalmente pelo contato com água, lama ou solo contaminados pela urina de animais infectados, especialmente ratos.
A bactéria penetra no organismo através de pele lesionada, pequenas escoriações ou mucosas, podendo ocorrer mesmo em lesões pouco perceptíveis.
Principais formas de exposição
Principal cenário associado aos surtos urbanos da doença.
Contato com rios, esgoto, lama ou poças contaminadas pela urina de animais.
Ratos urbanos são os principais reservatórios da doença.
Profissionais que trabalham em limpeza urbana, esgoto, agricultura e enchentes possuem maior risco.
Grupos de maior risco
- Moradores de áreas com saneamento precário.
- Pessoas expostas a enchentes.
- Trabalhadores de limpeza urbana e coleta de lixo.
- Profissionais de esgoto e drenagem.
- Agricultores e trabalhadores rurais.
- Militares, bombeiros e equipes de resgate.
- Pessoas em contato frequente com água contaminada.
Reservatórios animais
Principais animais envolvidos
- Ratos urbanos.
- Cães.
- Bovinos.
- Suínos.
- Animais silvestres.
Importância epidemiológica
- Os animais podem eliminar leptospiras pela urina por longos períodos.
- Ratos possuem papel central na transmissão urbana.
- Ambientes úmidos favorecem a sobrevivência da bactéria.
- Enchentes aumentam a dispersão da contaminação ambiental.
Quadro clínico
A leptospirose possui apresentação clínica variável, podendo variar desde formas leves e inespecíficas até quadros graves com insuficiência de múltiplos órgãos.
Os sintomas geralmente surgem entre 5 e 14 dias após a exposição, mas o período de incubação pode variar.
Sintomas mais comuns
Geralmente de início súbito e associada a calafrios.
Dor de cabeça intensa e persistente.
Dor muscular importante, principalmente em panturrilhas e região lombar.
Hiperemia ocular sem secreção purulenta, achado relativamente característico.
Náuseas, vômitos, dor abdominal e diarreia podem ocorrer.
Mal-estar intenso, fadiga e fraqueza generalizada.
Formas clínicas
- Forma anictérica: mais comum, semelhante a síndrome gripal febril.
- Forma ictérica: presença de icterícia associada a acometimento hepático e renal.
- Síndrome de Weil: forma grave caracterizada por icterícia, insuficiência renal e manifestações hemorrágicas.
- Forma pulmonar grave: hemorragia pulmonar e insuficiência respiratória aguda.
- Forma meníngea: meningite asséptica ou acometimento neurológico.
Sinais de gravidade
Podem indicar hemorragia pulmonar grave.
Epistaxe, gengivorragia ou manifestações hemorrágicas sistêmicas.
Sugere insuficiência renal aguda.
Associada às formas graves da doença.
Suspeita diagnóstica
O diagnóstico da leptospirose deve ser suspeitado em pacientes com quadro febril agudo associado a mialgia, cefaleia e história de exposição a enchentes, lama, esgoto ou água contaminada.
A associação epidemiológica é fundamental, principalmente em períodos chuvosos e surtos urbanos.
Exames laboratoriais
Útil na fase inicial da doença, antes do aparecimento de anticorpos.
Principal exame utilizado após os primeiros dias de sintomas.
Teste de microaglutinação considerado padrão de referência em centros especializados.
Pouco utilizada na prática devido à dificuldade técnica e crescimento lento.
Alterações laboratoriais frequentes
Comum nas formas moderadas e graves.
Elevação de ureia e creatinina.
Bilirrubinas elevadas e aumento discreto de transaminases.
Leucocitose e PCR elevada podem estar presentes.
Diagnósticos diferenciais
- Dengue.
- Febre amarela.
- Hantavirose.
- Malária.
- Hepatites virais.
- Meningites virais e bacterianas.
- Sepse bacteriana.
- Influenza e outras síndromes febris agudas.
Exames complementares nas formas graves
Avaliação pulmonar
- Radiografia de tórax.
- Tomografia em casos selecionados.
- Investigação de hemorragia pulmonar.
Avaliação sistêmica
- Função renal e eletrólitos.
- Gasometria arterial.
- Coagulograma.
- Monitorização hemodinâmica.
Princípios do tratamento
O tratamento da leptospirose é baseado no uso precoce de antibióticos, que reduzem a duração da doença e previnem complicações.
O suporte clínico intensivo é fundamental nas formas graves, especialmente nos pacientes com insuficiência renal, hemorragia pulmonar ou instabilidade hemodinâmica.
Tratamento ambulatorial
O tratamento ambulatorial é destinado aos pacientes que possuem formas leves da doença, sem envolvimento de outros sistemas.
Os seguintes antibióticos são recomendados em monoterapia:
100 mg VO de 12/12 horas, por 7 dias.
500 mg VO de 8/8 horas, por 7 dias.
500 mg VO de 24/24 horas, por 3 dias.
Reação de Jarisch-Herxheimer
A reação de Jarisch-Herxheimer pode ocorrer após o início da antibioticoterapia como resposta inflamatória aguda ao clearance de espiroquetas da corrente sanguínea.
Os pacientes podem apresentar febre, calafrios, hipotensão, taquicardia e piora transitória dos sintomas nas primeiras horas após o tratamento.
O manejo geralmente é de suporte clínico e monitorização, principalmente em pacientes graves.
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Tratamento hospitalar
O tratamento hospitalar é destinado aos pacientes com formas graves da doença e envolvimento sistêmico, como meningite, hemorragia pulmonar aguda e síndrome de Weil.
Os seguintes antibióticos são recomendados em monoterapia:
1,5 milhão de unidades EV de 6/6 horas.
1 g EV de 6/6 horas.
1–2 g EV de 24/24 horas.
1 g EV de 6/6 horas.
500 mg EV de 24/24 horas.
100 mg EV de 12/12 horas (componente estratégico).
Suporte clínico nas formas graves
Correção volêmica e monitorização do balanço hídrico.
Hemodiálise pode ser necessária na insuficiência renal aguda.
Oxigenoterapia ou ventilação mecânica nos casos pulmonares graves.
Acompanhamento hemodinâmico em pacientes instáveis.
Acompanhamento pós-tratamento
O acompanhamento pós-tratamento é essencial para detectar recidivas, complicações renais crônicas e síndromes pós-infecciosas.
Casos com envolvimento pulmonar ou neurológico devem ser avaliados por especialistas.
A alta hospitalar deve ocorrer apenas após resolução clínica e estabilização laboratorial.
Complicações da leptospirose
As complicações ocorrem principalmente nas formas graves da doença, especialmente quando há atraso diagnóstico ou tratamento inadequado.
O acometimento sistêmico pode evoluir rapidamente para insuficiência de múltiplos órgãos.
Síndrome de Weil
A síndrome de Weil representa a forma clássica grave da leptospirose.
Característica marcante da forma grave da doença.
Pode evoluir com oligúria, distúrbios eletrolíticos e necessidade de diálise.
Podem ocorrer manifestações hemorrágicas cutâneas ou sistêmicas.
Choque e disfunção multiorgânica podem ocorrer nos casos mais graves.
Complicações pulmonares
Principais manifestações
- Hemorragia pulmonar.
- Dispneia intensa.
- Síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA).
- Hipoxemia grave.
Importância clínica
- Uma das principais causas de mortalidade na leptospirose.
- Pode ocorrer mesmo sem icterícia importante.
- Necessita suporte intensivo precoce.
- Pode exigir ventilação mecânica.
Complicações neurológicas
Pode ocorrer durante a fase imune da doença.
Alterações neurológicas e redução do nível de consciência.
Relacionadas a acometimento neurológico grave.
Sinal de gravidade e possível disfunção sistêmica.
Outras complicações
Pode causar arritmias e disfunção cardíaca.
Alterações hemorrágicas associadas ao acometimento sistêmico.
Disfunção hepática com hiperbilirrubinemia importante.
Alguns pacientes podem evoluir com sequelas renais.
Como prevenir
A prevenção da leptospirose está diretamente relacionada ao controle ambiental, saneamento básico adequado e redução da exposição à água ou lama contaminadas.
Medidas individuais e coletivas são fundamentais para reduzir a transmissão, especialmente em períodos de chuvas e enchentes.
Medidas individuais
- Evitar contato com água de enchentes, lama ou esgoto.
- Utilizar botas e luvas impermeáveis em áreas de risco.
- Higienizar adequadamente mãos, pés e roupas após exposição.
- Proteger feridas e lesões cutâneas antes de entrar em áreas alagadas.
- Consumir água tratada e armazenar alimentos corretamente.
- Procurar atendimento médico em caso de sintomas após exposição de risco.
Prevenção em enchentes
Durante enchentes
- Evitar caminhar em áreas alagadas.
- Usar equipamentos de proteção.
- Evitar contato direto com lama contaminada.
- Não permitir que crianças brinquem em enchentes.
Após enchentes
- Desinfetar pisos e superfícies contaminadas.
- Descartar alimentos que tiveram contato com água contaminada.
- Higienizar caixas d’água e reservatórios.
- Realizar limpeza utilizando água sanitária.
Controle de roedores
Evitar acúmulo de resíduos e manter recipientes fechados.
Guardar alimentos e rações em locais protegidos.
Eliminar entulhos e locais que favoreçam abrigo de ratos.
Controle periódico em áreas de maior infestação.
Profilaxia antibiótica
Em situações específicas de alto risco e exposição intensa, pode-se considerar profilaxia com doxiciclina conforme avaliação médica e protocolos locais.
200 mg VO semanalmente durante períodos de exposição de alto risco, conforme protocolos específicos.
Medidas coletivas
Coleta e tratamento adequados de esgoto e drenagem urbana.
Orientação da população sobre riscos e prevenção.
Ações rápidas em períodos chuvosos e áreas alagadas.
Notificação e monitoramento dos casos suspeitos.
Importante
A leptospirose pode evoluir rapidamente para formas graves, especialmente quando há icterícia, insuficiência renal, sangramentos, dispneia ou instabilidade hemodinâmica.
Referências bibliográficas
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Em provas / residência
Leptospirose → febre + mialgia intensa em panturrilhas + sufusão conjuntival + contato com enchentes.
Nas provas, lembre da Síndrome de Weil: icterícia + insuficiência renal + manifestações hemorrágicas.
Resultado final
Revisão das questões
Referências bibliográficas
- Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde: Leptospirose. Brasília: Ministério da Saúde.
- Levett PN. Leptospirosis. Clin Microbiol Rev. 2001;14(2):296-326.
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