Template de Artigo Médico
Zoonoses

Leptospirose

Infecção zoonótica causada por bactérias do gênero Leptospira, transmitida principalmente pelo contato com água, lama ou solo contaminados pela urina de animais infectados, especialmente roedores.

Água contaminada Zoonose Bactéria Roedores
Tempo de leitura: 8 min
Atualizado em: 24/10/2024
Leptospirose

Quadro clínico principal

  • Febre de início súbito
  • Cefaleia intensa
  • Mialgia, principalmente em panturrilhas
  • Náuseas, vômitos e diarreia
  • Sufusão conjuntival
  • Icterícia nos casos graves

Diagnóstico

  • Suspeita clínica + exposição epidemiológica
  • PCR na fase inicial da doença
  • Sorologia IgM após os primeiros dias
  • MAT como exame confirmatório em centros de referência

Tratamento

  • Casos leves: doxiciclina ou amoxicilina
  • Casos moderados a graves: penicilina G ou ceftriaxona
  • Hidratação e suporte clínico
  • Internação se sinais de gravidade

Complicações

  • Síndrome de Weil
  • Insuficiência renal aguda
  • Hemorragia pulmonar
  • Meningite asséptica
  • Choque e disfunção multiorgânica

O que é

A leptospirose é uma zoonose bacteriana aguda causada por bactérias do gênero Leptospira. A infecção ocorre principalmente após contato da pele ou mucosas com água, lama ou solo contaminados pela urina de animais infectados, especialmente ratos.

Agente etiológico

Bactérias espiroquetas do gênero Leptospira, móveis e com formato helicoidal.

  • Leptospira interrogans — principal espécie associada à doença humana.
  • Possui diversos sorovares relacionados a diferentes reservatórios animais.
  • Sobrevive por períodos prolongados em ambientes úmidos.
  • A bactéria penetra através de pele lesionada ou mucosas.
Leptospira interrogans

Epidemiologia

A leptospirose ocorre mundialmente, principalmente em regiões tropicais e áreas urbanas com saneamento inadequado, enchentes frequentes e alta infestação por roedores.

Distribuição

Doença presente em todo o mundo, especialmente em regiões tropicais.

Sazonalidade

Maior incidência após períodos de chuvas e enchentes.

Ambientes de risco

Locais com enchentes, esgoto exposto e saneamento precário.

Reservatório principal

Roedores urbanos, especialmente o rato de esgoto.

Perfil típico

Adultos expostos a enchentes, lama ou ambientes contaminados.

Reservatórios e transmissão

Principais reservatórios

  • Ratos e outros roedores.
  • Cães.
  • Bovinos.
  • Suínos.
  • Animais silvestres.

Formas de transmissão

  • Contato com água ou lama contaminadas.
  • Exposição à urina de animais infectados.
  • Penetração pela pele lesionada ou mucosas.
  • Contato ocupacional em ambientes de risco.
A transmissão ocorre principalmente após enchentes e exposição ambiental contaminada.

Fisiopatologia

Após penetrar pela pele ou mucosas, a Leptospira dissemina-se rapidamente pela corrente sanguínea, alcançando diversos órgãos.

O acometimento vascular e inflamatório pode levar a lesões em fígado, rins, pulmões e sistema nervoso central, especialmente nas formas graves da doença.

Na síndrome de Weil, ocorre disfunção multiorgânica associada a icterícia, insuficiência renal e manifestações hemorrágicas.

Fisiopatologia da leptospirose Clique para ampliar

Como ocorre a transmissão

A transmissão da leptospirose ocorre principalmente pelo contato com água, lama ou solo contaminados pela urina de animais infectados, especialmente ratos.

A bactéria penetra no organismo através de pele lesionada, pequenas escoriações ou mucosas, podendo ocorrer mesmo em lesões pouco perceptíveis.

Principais formas de exposição

Enchentes

Principal cenário associado aos surtos urbanos da doença.

Água contaminada

Contato com rios, esgoto, lama ou poças contaminadas pela urina de animais.

Urina de roedores

Ratos urbanos são os principais reservatórios da doença.

Exposição ocupacional

Profissionais que trabalham em limpeza urbana, esgoto, agricultura e enchentes possuem maior risco.

Grupos de maior risco

  • Moradores de áreas com saneamento precário.
  • Pessoas expostas a enchentes.
  • Trabalhadores de limpeza urbana e coleta de lixo.
  • Profissionais de esgoto e drenagem.
  • Agricultores e trabalhadores rurais.
  • Militares, bombeiros e equipes de resgate.
  • Pessoas em contato frequente com água contaminada.

Reservatórios animais

Principais animais envolvidos

  • Ratos urbanos.
  • Cães.
  • Bovinos.
  • Suínos.
  • Animais silvestres.

Importância epidemiológica

  • Os animais podem eliminar leptospiras pela urina por longos períodos.
  • Ratos possuem papel central na transmissão urbana.
  • Ambientes úmidos favorecem a sobrevivência da bactéria.
  • Enchentes aumentam a dispersão da contaminação ambiental.
A presença de feridas, cortes ou imersão prolongada em água contaminada aumenta significativamente o risco de infecção.

Quadro clínico

A leptospirose possui apresentação clínica variável, podendo variar desde formas leves e inespecíficas até quadros graves com insuficiência de múltiplos órgãos.

Os sintomas geralmente surgem entre 5 e 14 dias após a exposição, mas o período de incubação pode variar.

Sintomas mais comuns

Febre alta

Geralmente de início súbito e associada a calafrios.

Cefaleia

Dor de cabeça intensa e persistente.

Mialgia

Dor muscular importante, principalmente em panturrilhas e região lombar.

Sufusão conjuntival

Hiperemia ocular sem secreção purulenta, achado relativamente característico.

Sintomas gastrointestinais

Náuseas, vômitos, dor abdominal e diarreia podem ocorrer.

Prostração

Mal-estar intenso, fadiga e fraqueza generalizada.

Formas clínicas

  • Forma anictérica: mais comum, semelhante a síndrome gripal febril.
  • Forma ictérica: presença de icterícia associada a acometimento hepático e renal.
  • Síndrome de Weil: forma grave caracterizada por icterícia, insuficiência renal e manifestações hemorrágicas.
  • Forma pulmonar grave: hemorragia pulmonar e insuficiência respiratória aguda.
  • Forma meníngea: meningite asséptica ou acometimento neurológico.

Sinais de gravidade

Dispneia e hemoptise

Podem indicar hemorragia pulmonar grave.

Sangramentos

Epistaxe, gengivorragia ou manifestações hemorrágicas sistêmicas.

Oligúria

Sugere insuficiência renal aguda.

Icterícia intensa

Associada às formas graves da doença.

Febre associada a mialgia intensa em panturrilhas após contato com enchentes deve levantar forte suspeita de leptospirose.

Suspeita diagnóstica

O diagnóstico da leptospirose deve ser suspeitado em pacientes com quadro febril agudo associado a mialgia, cefaleia e história de exposição a enchentes, lama, esgoto ou água contaminada.

A associação epidemiológica é fundamental, principalmente em períodos chuvosos e surtos urbanos.

Exames laboratoriais

PCR

Útil na fase inicial da doença, antes do aparecimento de anticorpos.

Sorologia IgM

Principal exame utilizado após os primeiros dias de sintomas.

MAT

Teste de microaglutinação considerado padrão de referência em centros especializados.

Cultura

Pouco utilizada na prática devido à dificuldade técnica e crescimento lento.

Alterações laboratoriais frequentes

Plaquetopenia

Comum nas formas moderadas e graves.

Alteração renal

Elevação de ureia e creatinina.

Alteração hepática

Bilirrubinas elevadas e aumento discreto de transaminases.

Marcadores inflamatórios

Leucocitose e PCR elevada podem estar presentes.

Diagnósticos diferenciais

  • Dengue.
  • Febre amarela.
  • Hantavirose.
  • Malária.
  • Hepatites virais.
  • Meningites virais e bacterianas.
  • Sepse bacteriana.
  • Influenza e outras síndromes febris agudas.

Exames complementares nas formas graves

Avaliação pulmonar

  • Radiografia de tórax.
  • Tomografia em casos selecionados.
  • Investigação de hemorragia pulmonar.

Avaliação sistêmica

  • Função renal e eletrólitos.
  • Gasometria arterial.
  • Coagulograma.
  • Monitorização hemodinâmica.
O início precoce do tratamento não deve aguardar confirmação laboratorial em pacientes com forte suspeita clínica e epidemiológica.

Princípios do tratamento

O tratamento da leptospirose é baseado no uso precoce de antibióticos, que reduzem a duração da doença e previnem complicações.

O suporte clínico intensivo é fundamental nas formas graves, especialmente nos pacientes com insuficiência renal, hemorragia pulmonar ou instabilidade hemodinâmica.

Tratamento ambulatorial

O tratamento ambulatorial é destinado aos pacientes que possuem formas leves da doença, sem envolvimento de outros sistemas.

Os seguintes antibióticos são recomendados em monoterapia:

Doxiciclina

100 mg VO de 12/12 horas, por 7 dias.

Amoxicilina

500 mg VO de 8/8 horas, por 7 dias.

Azitromicina

500 mg VO de 24/24 horas, por 3 dias.

Reação de Jarisch-Herxheimer

A reação de Jarisch-Herxheimer pode ocorrer após o início da antibioticoterapia como resposta inflamatória aguda ao clearance de espiroquetas da corrente sanguínea.

Os pacientes podem apresentar febre, calafrios, hipotensão, taquicardia e piora transitória dos sintomas nas primeiras horas após o tratamento.

O manejo geralmente é de suporte clínico e monitorização, principalmente em pacientes graves.

Reação de Jarisch-Herxheimer Clique para ampliar

Tratamento hospitalar

O tratamento hospitalar é destinado aos pacientes com formas graves da doença e envolvimento sistêmico, como meningite, hemorragia pulmonar aguda e síndrome de Weil.

Os seguintes antibióticos são recomendados em monoterapia:

Penicilina G cristalina

1,5 milhão de unidades EV de 6/6 horas.

Ampicilina

1 g EV de 6/6 horas.

Ceftriaxona

1–2 g EV de 24/24 horas.

Cefotaxima

1 g EV de 6/6 horas.

Azitromicina

500 mg EV de 24/24 horas.

Doxiciclina

100 mg EV de 12/12 horas (componente estratégico).

Suporte clínico nas formas graves

Hidratação

Correção volêmica e monitorização do balanço hídrico.

Suporte renal

Hemodiálise pode ser necessária na insuficiência renal aguda.

Suporte respiratório

Oxigenoterapia ou ventilação mecânica nos casos pulmonares graves.

Monitorização intensiva

Acompanhamento hemodinâmico em pacientes instáveis.

Acompanhamento pós-tratamento

O acompanhamento pós-tratamento é essencial para detectar recidivas, complicações renais crônicas e síndromes pós-infecciosas.

Casos com envolvimento pulmonar ou neurológico devem ser avaliados por especialistas.

A alta hospitalar deve ocorrer apenas após resolução clínica e estabilização laboratorial.

Pacientes com icterícia, insuficiência renal, dispneia ou hemorragia devem ser avaliados imediatamente em ambiente hospitalar.

Complicações da leptospirose

As complicações ocorrem principalmente nas formas graves da doença, especialmente quando há atraso diagnóstico ou tratamento inadequado.

O acometimento sistêmico pode evoluir rapidamente para insuficiência de múltiplos órgãos.

Síndrome de Weil

A síndrome de Weil representa a forma clássica grave da leptospirose.

Icterícia intensa

Característica marcante da forma grave da doença.

Insuficiência renal aguda

Pode evoluir com oligúria, distúrbios eletrolíticos e necessidade de diálise.

Hemorragias

Podem ocorrer manifestações hemorrágicas cutâneas ou sistêmicas.

Instabilidade hemodinâmica

Choque e disfunção multiorgânica podem ocorrer nos casos mais graves.

Complicações pulmonares

Principais manifestações

  • Hemorragia pulmonar.
  • Dispneia intensa.
  • Síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA).
  • Hipoxemia grave.

Importância clínica

  • Uma das principais causas de mortalidade na leptospirose.
  • Pode ocorrer mesmo sem icterícia importante.
  • Necessita suporte intensivo precoce.
  • Pode exigir ventilação mecânica.

Complicações neurológicas

Meningite asséptica

Pode ocorrer durante a fase imune da doença.

Encefalite

Alterações neurológicas e redução do nível de consciência.

Convulsões

Relacionadas a acometimento neurológico grave.

Rebaixamento do sensório

Sinal de gravidade e possível disfunção sistêmica.

Outras complicações

Miocardite

Pode causar arritmias e disfunção cardíaca.

Coagulopatias

Alterações hemorrágicas associadas ao acometimento sistêmico.

Hepatite leptospírica

Disfunção hepática com hiperbilirrubinemia importante.

Lesão renal crônica

Alguns pacientes podem evoluir com sequelas renais.

Hemorragia pulmonar associada à leptospirose possui alta mortalidade e exige tratamento intensivo imediato.

Como prevenir

A prevenção da leptospirose está diretamente relacionada ao controle ambiental, saneamento básico adequado e redução da exposição à água ou lama contaminadas.

Medidas individuais e coletivas são fundamentais para reduzir a transmissão, especialmente em períodos de chuvas e enchentes.

Medidas individuais

  • Evitar contato com água de enchentes, lama ou esgoto.
  • Utilizar botas e luvas impermeáveis em áreas de risco.
  • Higienizar adequadamente mãos, pés e roupas após exposição.
  • Proteger feridas e lesões cutâneas antes de entrar em áreas alagadas.
  • Consumir água tratada e armazenar alimentos corretamente.
  • Procurar atendimento médico em caso de sintomas após exposição de risco.

Prevenção em enchentes

Durante enchentes

  • Evitar caminhar em áreas alagadas.
  • Usar equipamentos de proteção.
  • Evitar contato direto com lama contaminada.
  • Não permitir que crianças brinquem em enchentes.

Após enchentes

  • Desinfetar pisos e superfícies contaminadas.
  • Descartar alimentos que tiveram contato com água contaminada.
  • Higienizar caixas d’água e reservatórios.
  • Realizar limpeza utilizando água sanitária.

Controle de roedores

Manejo do lixo

Evitar acúmulo de resíduos e manter recipientes fechados.

Armazenamento adequado

Guardar alimentos e rações em locais protegidos.

Controle ambiental

Eliminar entulhos e locais que favoreçam abrigo de ratos.

Dedetização

Controle periódico em áreas de maior infestação.

Profilaxia antibiótica

Em situações específicas de alto risco e exposição intensa, pode-se considerar profilaxia com doxiciclina conforme avaliação médica e protocolos locais.

Doxiciclina

200 mg VO semanalmente durante períodos de exposição de alto risco, conforme protocolos específicos.

Medidas coletivas

Saneamento básico

Coleta e tratamento adequados de esgoto e drenagem urbana.

Educação em saúde

Orientação da população sobre riscos e prevenção.

Vigilância em enchentes

Ações rápidas em períodos chuvosos e áreas alagadas.

Vigilância epidemiológica

Notificação e monitoramento dos casos suspeitos.

A prevenção da leptospirose depende principalmente da redução do contato com ambientes contaminados e do controle adequado de roedores.

Importante

A leptospirose pode evoluir rapidamente para formas graves, especialmente quando há icterícia, insuficiência renal, sangramentos, dispneia ou instabilidade hemodinâmica.

Referências bibliográficas

Ver todas as referências utilizadas neste artigo

Em provas / residência

Leptospirose → febre + mialgia intensa em panturrilhas + sufusão conjuntival + contato com enchentes.

Nas provas, lembre da Síndrome de Weil: icterícia + insuficiência renal + manifestações hemorrágicas.

Mais informações nas abas acima do artigo.

Referências bibliográficas

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde: Leptospirose. Brasília: Ministério da Saúde.
  2. Levett PN. Leptospirosis. Clin Microbiol Rev. 2001;14(2):296-326.
  3. Haake DA, Levett PN. Leptospirosis in humans. Curr Top Microbiol Immunol. 2015;387:65-97.
  4. Adler B, de la Peña Moctezuma A. Leptospira and leptospirosis. Vet Microbiol. 2010;140(3-4):287-296.
  5. Bharti AR et al. Leptospirosis: a zoonotic disease of global importance. Lancet Infect Dis. 2003;3(12):757-771.
Rolar para cima