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Estrongiloidíase

Helmintíase causada principalmente por Strongyloides stercoralis, adquirida pela penetração cutânea de larvas presentes em solo contaminado. A autoinfecção permite persistência por décadas e explica o risco de hiperinfecção potencialmente fatal após corticosteroides ou outras formas de imunossupressão. O diagnóstico exige métodos sensíveis e a ivermectina é o tratamento de primeira escolha.

Nematódeo intestinal Autoinfecção Risco com corticoide Ivermectina
18–22 min de leitura Atualizado em agosto de 2026

Quando suspeitar

Eosinofilia, sintomas gastrointestinais ou urticária/larva currens em pessoa com exposição a solo de área endêmica; em imunossuprimidos, pensar também diante de deterioração pulmonar ou sepse por Gram-negativos.

Diagnóstico

Exames seriados de fezes com métodos de maior sensibilidade, como Baermann ou cultura em ágar, associados à sorologia quando apropriado. Um único exame negativo não exclui a infecção.

Tratamento

Doença aguda/crônica não complicada: ivermectina 200 µg/kg VO por 1–2 dias. Na hiperinfecção/disseminação, usar diariamente até fezes e/ou escarro permanecerem negativos por 2 semanas.

Prevenção

Saneamento, destino adequado de fezes, calçados e identificação de infecção crônica antes de imunossupressão em pessoas expostas. Estratégias populacionais da OMS são distintas da profilaxia clínica individual.

O que é estrongiloidíase

A estrongiloidíase é uma helmintíase transmitida pelo solo, causada principalmente por Strongyloides stercoralis. A infecção pode ser assintomática ou produzir manifestações cutâneas, gastrointestinais e respiratórias. Seu diferencial biológico é a capacidade de completar um ciclo de autoinfecção dentro do hospedeiro, permitindo que a parasitose persista por décadas mesmo após a pessoa deixar uma área endêmica.

Essa persistência tem implicação clínica direta: uma infecção aparentemente silenciosa pode transformar-se em síndrome de hiperinfecção ou doença disseminada quando a imunidade é comprometida, especialmente após uso de corticosteroides. Nessas formas graves, eosinofilia pode estar ausente e complicações bacterianas invasivas são frequentes.

Antes de iniciar corticosteroide em dose relevante ou outro imunossupressor em pessoa com história epidemiológica compatível, procure ativamente risco de Strongyloides. A ausência de sintomas não elimina a possibilidade de infecção crônica.

O agente

Strongyloides stercoralis é um nematódeo pequeno com ciclo de vida incomum, alternando fases parasitárias e de vida livre. No hospedeiro humano, as fêmeas parasitárias ficam na mucosa do intestino delgado e reproduzem-se por partenogênese. Os ovos eclodem ainda na mucosa, de modo que o achado clássico nas fezes é a larva rabditoide, não o ovo.

A espécie é primariamente um parasito humano. Cães podem albergar linhagens geneticamente relacionadas às encontradas em humanos, mas a importância epidemiológica da transmissão cão–humano permanece incerta. Já S. fuelleborni subsp. fuelleborni é uma espécie zoonótica rara associada a primatas não humanos.

Ponto morfológico:

larvas rabditoides são as formas mais encontradas em fezes na infecção intestinal; larvas filarioides infectantes aparecem no ambiente e podem ser vistas em amostras respiratórias durante hiperinfecção/disseminação.

Histologia da estrongiloidíase — toque/clique para ampliar.

Fisiopatologia e ciclo de vida

O ciclo combina uma fase ambiental com um ciclo parasitário humano. A característica decisiva para a prática clínica é a transformação de parte das larvas em formas infectantes ainda dentro do hospedeiro, sustentando a autoinfecção.

  1. Penetração cutânea: larvas filarioides L3 presentes em solo contaminado atravessam a pele, frequentemente dos pés.
  2. Migração: as larvas alcançam a circulação e migram até os pulmões; depois chegam à faringe, são deglutidas e alcançam o intestino delgado. Rotas alternativas de migração também são possíveis.
  3. Fase intestinal: fêmeas parasitárias penetram a mucosa e produzem ovos por partenogênese; eles eclodem localmente, liberando larvas rabditoides.
  4. Saída ou ciclo de vida livre: muitas larvas rabditoides são eliminadas nas fezes e podem tornar-se L3 infectantes diretamente ou originar adultos de vida livre no solo.
  5. Autoinfecção: parte das larvas transforma-se em forma filarioide dentro do intestino ou na região perianal, penetra novamente a mucosa/pele e reinicia o ciclo sem sair do hospedeiro.
  6. Hiperinfecção: imunossupressão pode acelerar intensamente a autoinfecção, aumentando a carga larvária sobretudo em intestino e pulmões.
  7. Disseminação: quando larvas alcançam órgãos fora do trajeto habitual, há estrongiloidíase disseminada, com alto risco de sepse, meningite e falência orgânica.
A autoinfecção explica por que a infecção pode durar décadas e por que o objetivo terapêutico é erradicar o parasito, e não apenas aliviar sintomas.
Ciclo de vida e fisiopatologia da estrongiloidíase — toque/clique para ampliar. Nota: em S. stercoralis, a forma tipicamente eliminada nas fezes é a larva rabditoide; os ovos eclodem na mucosa intestinal.

Epidemiologia e persistência

A estrongiloidíase é mais frequente em regiões tropicais e subtropicais, especialmente onde há clima quente e úmido, saneamento inadequado e contato com solo contaminado por fezes humanas. A distribuição é heterogênea e a carga global é estimada em centenas de milhões de pessoas.

Décadas

A infecção pode persistir indefinidamente por autoinfecção.

Solo

A penetração cutânea de larvas é a principal via de aquisição.

GI + pulmão

São os principais territórios da hiperinfecção.

Alta letalidade

Formas disseminadas podem ser fatais, sobretudo quando o diagnóstico atrasa.

Como ocorre a transmissão

A transmissão típica ocorre quando a pele entra em contato com solo contaminado por larvas filarioides infectantes. As larvas derivam de fezes humanas contendo formas rabditoides que completam desenvolvimento no ambiente.

Contato com solo

Andar descalço, trabalhar diretamente com terra ou permanecer em locais contaminados facilita a penetração cutânea.

Saneamento inadequado

Contaminação do solo por fezes humanas mantém o ciclo ambiental e a exposição comunitária.

Transmissão incomum

Casos raros podem ocorrer por transplante de órgãos e em ambientes institucionais específicos.

Zoonose? S. stercoralis é principalmente humano. Cães podem compartilhar algumas linhagens, mas a transmissão zoonótica direta ainda não está comprovada de forma suficiente para tratá-los como reservatório humano estabelecido.

Quem tem maior risco de infecção ou doença grave

Exposição epidemiológica

Nascimento, residência prolongada ou viagem a áreas tropicais/subtropicais; vida rural; agricultura; saneamento precário; contato frequente com solo.

Corticosteroides

São um dos desencadeantes mais clássicos de hiperinfecção. Doença grave pode surgir mesmo após infecção assintomática antiga.

HTLV-1

Está associado a maior carga parasitária, menor resposta terapêutica e maior risco de formas graves ou recorrentes.

Transplante e neoplasias hematológicas

Imunossupressão intensa aumenta risco de hiperinfecção/disseminação e exige baixa tolerância para investigação e tratamento.

Antes de imunossuprimir

O risco deve ser avaliado antes de corticosteroides em dose imunossupressora, transplante, quimioterapia ou outros imunossupressores em pessoas com exposição plausível. O CDC destaca como grupos prioritários para triagem aqueles com história de residência/viagem em áreas endêmicas, eosinofilia persistente sem explicação, HTLV-1, neoplasias hematológicas ou candidatos a transplante.

  1. Reconstitua a exposição: país/região de origem, viagens, trabalho rural, contato com solo e saneamento.
  2. Procure pistas: eosinofilia, urticária recorrente, larva currens e sintomas gastrointestinais intermitentes ajudam, mas podem faltar.
  3. Escolha testes sensíveis: sorologia costuma ser útil na triagem; fezes seriadas e técnicas específicas aumentam a sensibilidade.
  4. Não espere eosinofilia na forma grave: hiperinfecção sob corticosteroide frequentemente cursa sem eosinofilia periférica.
  5. Se a imunossupressão não puder esperar: em paciente de alto risco, a decisão sobre tratamento presuntivo deve seguir protocolo local e avaliação clínica.
Não existe um único regime universal de “profilaxia” aplicável a todos os imunossuprimidos. Protocolos brasileiros específicos podem adotar esquemas preventivos em contextos definidos; isso não deve ser confundido com tratamento padrão da infecção não complicada.

Infecção aguda e crônica

Fase cutânea

Lesão eritematosa e pruriginosa no ponto de penetração pode ser a primeira manifestação da infecção aguda.

Migração pulmonar

Tosse seca, irritação traqueal, sibilância ou sintomas respiratórios transitórios podem acompanhar a migração larvária.

Intestinal

Dor epigástrica/abdominal, plenitude, diarreia intermitente, constipação, náuseas e anorexia podem ocorrer.

A infecção crônica é frequentemente assintomática. Quando sintomática, predomina o envolvimento gastrointestinal e cutâneo. Eosinofilia leve ou aumento de IgE são comuns, mas a ausência desses achados não exclui doença.

Larva currens

É uma erupção urticariforme ou maculopapular, serpiginosa e recorrente, geralmente em nádegas, períneo ou coxas, causada pela migração rápida de larvas durante a autoinfecção. Pode avançar vários centímetros por hora e é uma pista clínica de alto valor quando presente.

Diferença prática:

a velocidade de progressão e o padrão recorrente ajudam a diferenciar larva currens de outras dermatites serpiginosas, embora o diagnóstico final deva integrar epidemiologia e exames.

Hiperinfecção e doença disseminada

CenárioDefinição práticaAchados de alerta
HiperinfecçãoAceleração intensa do ciclo de autoinfecção, com grande carga larvária principalmente no trato gastrointestinal e pulmões.Diarreia/vômitos, íleo, hemorragia GI, pneumonite, hemoptise, hipoxemia, insuficiência respiratória.
DisseminadaLarvas atingem órgãos fora do trajeto habitual GI–pulmão.Meningite, alteração neurológica, choque, envolvimento multiorgânico, larvas em sítios ectópicos.
Complicação bacterianaTranslocação bacteriana facilitada pela lesão intestinal e migração larvária.Bacteremia/sepse recorrente por Gram-negativos e meningite bacteriana, por vezes sem foco óbvio.
Cenário clássico de emergência: paciente com exposição epidemiológica, uso recente de corticosteroide, piora respiratória/intestinal e bacteremia por Gram-negativos. A eosinofilia pode estar ausente. Não aguarde confirmação perfeita para discutir tratamento quando a suspeita de hiperinfecção for alta.

Sinais de gravidade

  • Hipoxemia, hemoptise, infiltrados difusos ou insuficiência respiratória.
  • Íleo, obstrução, sangramento digestivo, peritonite ou dor abdominal desproporcional.
  • Choque, bacteremia ou sepse — especialmente recorrente por bacilos Gram-negativos.
  • Meningismo, alteração de consciência ou déficit neurológico.
  • Imunossupressão importante, particularmente corticosteroides, transplante, HTLV-1 ou neoplasia hematológica.
  • Identificação de larvas em escarro, lavado broncoalveolar ou outros sítios extraintestinais.

O diagnóstico exige sensibilidade

A eliminação de larvas pode ser baixa e intermitente. Por isso, um parasitológico de fezes convencional isolado tem sensibilidade limitada. O CDC considera o exame seriado de fezes a referência parasitológica, mas ressalta que métodos tradicionais podem exigir várias amostras para alcançar boa sensibilidade.

  1. Defina risco epidemiológico e imunológico.
  2. Em infecção crônica: combine sorologia com pesquisa parasitológica sensível quando disponível.
  3. Faça amostras seriadas: a repetição aumenta o rendimento, sobretudo quando a primeira amostra é negativa.
  4. Use técnicas específicas: Baermann e cultura em placa de ágar são métodos coproparasitológicos de maior rendimento que a microscopia convencional.
  5. Na forma grave: procure larvas também em escarro/lavado broncoalveolar e outros materiais conforme o órgão acometido.

Métodos diagnósticos

MétodoUtilidadeLimitação / interpretação
Microscopia de fezesIdentifica larvas; confirma infecção quando positiva.Baixa sensibilidade em infecção não complicada; repetir amostras.
BaermannConcentra larvas móveis e aumenta o rendimento.Exige amostra fresca e experiência técnica.
Cultura em ágarUma das técnicas coproparasitológicas mais sensíveis.Demora mais e exige cuidados de biossegurança no processamento.
Sorologia IgGMuito útil para triagem de infecção crônica e antes de imunossupressão.Pode cruzar com outras helmintíases e permanecer positiva após tratamento; não distingue perfeitamente infecção ativa de passada.
PCRPode aumentar a detecção em laboratórios que dispõem da técnica.A disponibilidade e padronização variam; resultado negativo não deve ser interpretado isoladamente em alto risco.
BAL/escarroLarvas podem ser abundantes na hiperinfecção pulmonar.Achado respiratório em contexto compatível indica doença grave e demanda tratamento imediato.

Eosinofilia: útil, mas não confiável sozinha

Eosinofilia leve é frequente na infecção crônica, mas pode faltar. Na hiperinfecção/disseminação, especialmente sob corticosteroides, a eosinofilia periférica é frequentemente ausente. Portanto:

  • eosinofilia persistente sem explicação em pessoa exposta deve motivar investigação;
  • eosinófilos normais não excluem infecção crônica;
  • eosinopenia ou eosinófilos normais nunca devem afastar hiperinfecção em paciente imunossuprimido;
  • na doença grave, o conjunto clínico-epidemiológico e a demonstração de larvas têm prioridade.

Controle pós-tratamento

Em pacientes com exame de fezes inicialmente positivo e sintomas persistentes, o CDC recomenda repetir o exame parasitológico em 2–4 semanas após o tratamento e retratar se larvas persistirem. A sorologia pode diminuir progressivamente após cura, mas sua negativação não é imediata.

Não use um único exame de fezes negativo como “teste de cura” universal. O método de seguimento deve considerar a carga inicial, técnica disponível, imunossupressão e gravidade.

Princípios do tratamento

A meta é erradicar Strongyloides, porque uma infecção residual pode permanecer silenciosa e futuramente hiperinfestar o hospedeiro. A ivermectina tem maior eficácia que o albendazol e é a primeira escolha nas recomendações atuais.

Doença aguda ou crônica não complicada: ivermectina 200 µg/kg VO uma vez ao dia por 1–2 dias. O esquema com repetição automática no 15º dia não é considerado rotina pelo CDC e não demonstrou superioridade no ensaio Strong Treat para doença não disseminada.

Esquemas terapêuticos

Clique nos cards para abrir dose, duração, monitoramento e observações específicas.

Cálculo rápido — ivermectina 200 µg/kg

Conversor de dose por peso

Calcula apenas a dose teórica de 200 µg/kg (= 0,2 mg/kg) e a equivalência matemática em comprimidos de 6 mg. A prescrição final deve considerar apresentação disponível, possibilidade de fracionamento, contraindicações e protocolo local.

Informe o peso para calcular a dose teórica.

Manejo hospitalar da forma grave

O suporte deve ser dirigido às complicações — não há um volume fixo de hidratação ou uma dieta específica que sirva para todos os casos. Avalie choque, função renal, balanço hídrico, íleo/obstrução, hemorragia, insuficiência respiratória, distúrbios hidroeletrolíticos e risco nutricional.

  • Reduzir ou interromper imunossupressão quando clinicamente possível, especialmente corticosteroides.
  • Ivermectina diária é o eixo terapêutico até negativação parasitológica sustentada.
  • Sepse/bacteremia/meningite: coletar culturas e iniciar antimicrobianos conforme síndrome, epidemiologia e protocolo institucional.
  • Insuficiência respiratória: oferecer suporte ventilatório e investigar larvas em secreções respiratórias.
  • Íleo ou má absorção: discutir estratégias alternativas de administração de ivermectina com infectologia/farmácia e órgãos regulatórios quando necessário.
Albendazol não é equivalente à ivermectina na hiperinfecção. Combinação rotineira ivermectina + albendazol também não é recomendação padrão das diretrizes utilizadas aqui.

Corticosteroides e outros imunossupressores

Corticosteroides são o gatilho clássico de hiperinfecção. Em pessoa com exposição epidemiológica relevante, a investigação deve ocorrer antes da imunossupressão sempre que o tempo clínico permitir. Se houver necessidade urgente de imunossuprimir e risco alto de infecção latente, a estratégia deve ser individualizada.

Piora pulmonar ou gastrointestinal após início de corticoide, associada a sepse/bacteremia por Gram-negativos, deve elevar imediatamente a suspeita de hiperinfecção.

Protocolos brasileiros específicos antes de corticoterapia

O Brasil não possui um único PCDT nacional de estrongiloidíase que padronize profilaxia para toda forma de imunossupressão. Alguns protocolos de doenças específicas adotam estratégias diferentes, o que explica parte da variação encontrada na prática.

ContextoEsquema citado no PCDTComo interpretar
Hanseníase com início de prednisonaAlbendazol 400 mg/dia por 3 dias ou ivermectina 200 µg/kg em dose única.Profilaxia vinculada ao início da corticoterapia nesse PCDT; não equivale a esquema universal para toda imunossupressão.
Síndrome nefrótica primária em adultosO documento descreve ivermectina 0,2 mg/kg nos dias 1 e 15 e repetição a cada 6 meses enquanto persistir imunossupressão em cenário de risco; também cita albendazol.Exemplo de regime preventivo específico do protocolo e da população-alvo; não sustenta ivermectina mensal como regra geral.
Quando houver protocolo institucional ou PCDT específico para a doença de base, siga esse documento. Para tratamento da estrongiloidíase não complicada já diagnosticada, o esquema clínico apresentado neste artigo segue o CDC.

HTLV-1, transplante e neoplasias hematológicas

HTLV-1

Associa-se a maior dificuldade de erradicação e formas recorrentes ou graves. O seguimento deve ser mais cuidadoso.

Transplante

Pode haver reativação de infecção crônica ou, raramente, transmissão pelo órgão. Triagem de doador/receptor segue protocolos próprios.

Neoplasias hematológicas

Quimioterapia e imunossupressão intensa aumentam o risco; não deixar a investigação para depois do início da terapia quando houver tempo.

Doença grave

A carga larvária pode ser elevada e a eosinofilia ausente. Amostras respiratórias e fezes podem tornar-se francamente positivas.

Gestação, lactação e crianças pequenas

O CDC considera gestação/lactação e peso abaixo de 15 kg como contraindicações relativas à ivermectina, refletindo limitações de dados e a necessidade de avaliação individual de risco–benefício. O albendazol deve ser evitado no primeiro trimestre segundo a mesma referência.

Conduta:

não extrapole automaticamente esquemas de adultos. Em doença grave, o risco da infecção pode superar o risco medicamentoso; discutir infectologia, obstetrícia/pediatria e fontes farmacológicas atualizadas.

Risco de Loa loa

Em pessoas com exposição a áreas endêmicas para Loa loa, especialmente partes da África Central e Ocidental, altas microfilaremias podem tornar a ivermectina perigosa por risco de encefalopatia grave. Antes do tratamento presuntivo, avalie a epidemiologia e siga protocolo específico para exclusão de loíase quando aplicável.

Seguimento após tratamento

Fezes positivas + sintomas

Repetir exame em 2–4 semanas; persistência de larvas indica necessidade de novo tratamento e reavaliação.

Sorologia

Os títulos tendem a cair após cura e parte dos pacientes negativam em meses, mas anticorpos persistentes exigem interpretação clínica.

Imunossuprimidos

Podem necessitar confirmação mais rigorosa de erradicação e seguimento individualizado devido ao risco de recorrência/hiperinfecção.

Prevenção individual e ambiental

Calçados

Reduzem contato direto da pele com solo potencialmente contaminado.

Saneamento

Destino sanitário adequado das fezes humanas reduz a contaminação ambiental e interrompe a transmissão.

Higiene ambiental

Evitar contato desnecessário com solo contaminado e adotar medidas de higiene após trabalho rural.

Triagem antes de imunossupressão

Reconhecer e tratar infecção crônica é uma das medidas mais importantes para prevenir hiperinfecção.

Prevenção coletiva — orientação da OMS

Em 2024, a OMS publicou sua primeira diretriz de controle populacional da estrongiloidíase. Para áreas endêmicas com prevalência de S. stercoralis igual ou superior a 5% medida por métodos recomendados, a organização propõe administração em massa anual de ivermectina 200 µg/kg em dose única para pessoas a partir de 5 anos, como intervenção de saúde pública.

Esse esquema é uma estratégia de quimioterapia preventiva populacional. Ele não substitui o tratamento individual da infecção clínica e não significa que toda pessoa exposta deva receber “profilaxia” repetida no 15º dia.

Vigilância e notificação no Brasil

A estrongiloidíase não consta na Lista Nacional de Notificação Compulsória vigente em 2026. Documentos brasileiros históricos também a classificam como não compulsória. Serviços devem, entretanto, verificar normas estaduais/municipais e comunicar surtos ou eventos de saúde pública conforme regras locais.

Erros comuns

ErroPor que é um problemaComo evitar
Confiar em uma única amostra de fezesA eliminação de larvas é baixa/intermitente.Usar amostras seriadas e técnicas mais sensíveis; associar sorologia quando indicada.
Excluir pela ausência de eosinofiliaEosinófilos podem estar normais, sobretudo na hiperinfecção sob corticoide.Priorizar epidemiologia e síndrome clínica.
Iniciar corticoide sem avaliar riscoPode precipitar hiperinfecção fatal em infecção latente.Triar pessoas de risco antes da imunossupressão sempre que possível.
Repetir ivermectina no dia 15 como regra universalNão é o esquema padrão atual para doença não disseminada e não mostrou superioridade em ensaio randomizado.Usar 200 µg/kg por 1–2 dias na forma não complicada e individualizar cenários especiais.
Tratar hiperinfecção por “14 dias fixos”A duração depende da negativação parasitológica sustentada.Manter ivermectina diariamente até fezes/escarro negativos por pelo menos 2 semanas.

Referências principais

  1. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Overview of Strongyloides. Atualizado em 11 fev. 2026.
  2. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Care of Strongyloides. Atualizado em 16 fev. 2024.
  3. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). DPDx — Strongyloidiasis. Ciclo de vida, espécies, diagnóstico laboratorial e morfologia.
  4. World Health Organization (WHO). Guideline on preventive chemotherapy for public health control of strongyloidiasis. 2024.
  5. World Health Organization (WHO). Strongyloidiasis — Control of Neglected Tropical Diseases. Informações sobre tratamento e controle.
  6. Buonfrate D, Salas-Coronas J, Muñoz J, et al. Multiple-dose versus single-dose ivermectin for Strongyloides stercoralis infection (Strong Treat 1 to 4): a multicentre, open-label, phase 3, randomised controlled superiority trial. Lancet Infect Dis. 2019.
  7. Bradbury RS, Streit A, et al. Human, canine and feline strongyloidiasis: beyond Strongyloides stercoralis. Revisão contemporânea sobre espécies e interface humano–animal.
  8. Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase. 2022. Inclui profilaxia de estrongiloidíase em contexto específico de corticoterapia.
  9. Brasil. Ministério da Saúde / Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome Nefrótica Primária em Adultos. Inclui estratégia antiparasitária no contexto de imunossupressão.
  10. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Lista Nacional de Notificação Compulsória vigente.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Doses por peso, função renal/hepática, formas focais graves, gestação e profilaxia após exposição devem ser conferidas antes da prescrição.

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