Quando suspeitar
Eosinofilia, sintomas gastrointestinais ou urticária/larva currens em pessoa com exposição a solo de área endêmica; em imunossuprimidos, pensar também diante de deterioração pulmonar ou sepse por Gram-negativos.
Helmintíase causada principalmente por Strongyloides stercoralis, adquirida pela penetração cutânea de larvas presentes em solo contaminado. A autoinfecção permite persistência por décadas e explica o risco de hiperinfecção potencialmente fatal após corticosteroides ou outras formas de imunossupressão. O diagnóstico exige métodos sensíveis e a ivermectina é o tratamento de primeira escolha.
Eosinofilia, sintomas gastrointestinais ou urticária/larva currens em pessoa com exposição a solo de área endêmica; em imunossuprimidos, pensar também diante de deterioração pulmonar ou sepse por Gram-negativos.
Exames seriados de fezes com métodos de maior sensibilidade, como Baermann ou cultura em ágar, associados à sorologia quando apropriado. Um único exame negativo não exclui a infecção.
Doença aguda/crônica não complicada: ivermectina 200 µg/kg VO por 1–2 dias. Na hiperinfecção/disseminação, usar diariamente até fezes e/ou escarro permanecerem negativos por 2 semanas.
Saneamento, destino adequado de fezes, calçados e identificação de infecção crônica antes de imunossupressão em pessoas expostas. Estratégias populacionais da OMS são distintas da profilaxia clínica individual.
A estrongiloidíase é uma helmintíase transmitida pelo solo, causada principalmente por Strongyloides stercoralis. A infecção pode ser assintomática ou produzir manifestações cutâneas, gastrointestinais e respiratórias. Seu diferencial biológico é a capacidade de completar um ciclo de autoinfecção dentro do hospedeiro, permitindo que a parasitose persista por décadas mesmo após a pessoa deixar uma área endêmica.
Essa persistência tem implicação clínica direta: uma infecção aparentemente silenciosa pode transformar-se em síndrome de hiperinfecção ou doença disseminada quando a imunidade é comprometida, especialmente após uso de corticosteroides. Nessas formas graves, eosinofilia pode estar ausente e complicações bacterianas invasivas são frequentes.
Strongyloides stercoralis é um nematódeo pequeno com ciclo de vida incomum, alternando fases parasitárias e de vida livre. No hospedeiro humano, as fêmeas parasitárias ficam na mucosa do intestino delgado e reproduzem-se por partenogênese. Os ovos eclodem ainda na mucosa, de modo que o achado clássico nas fezes é a larva rabditoide, não o ovo.
A espécie é primariamente um parasito humano. Cães podem albergar linhagens geneticamente relacionadas às encontradas em humanos, mas a importância epidemiológica da transmissão cão–humano permanece incerta. Já S. fuelleborni subsp. fuelleborni é uma espécie zoonótica rara associada a primatas não humanos.
larvas rabditoides são as formas mais encontradas em fezes na infecção intestinal; larvas filarioides infectantes aparecem no ambiente e podem ser vistas em amostras respiratórias durante hiperinfecção/disseminação.
O ciclo combina uma fase ambiental com um ciclo parasitário humano. A característica decisiva para a prática clínica é a transformação de parte das larvas em formas infectantes ainda dentro do hospedeiro, sustentando a autoinfecção.
A estrongiloidíase é mais frequente em regiões tropicais e subtropicais, especialmente onde há clima quente e úmido, saneamento inadequado e contato com solo contaminado por fezes humanas. A distribuição é heterogênea e a carga global é estimada em centenas de milhões de pessoas.
A infecção pode persistir indefinidamente por autoinfecção.
A penetração cutânea de larvas é a principal via de aquisição.
São os principais territórios da hiperinfecção.
Formas disseminadas podem ser fatais, sobretudo quando o diagnóstico atrasa.
A transmissão típica ocorre quando a pele entra em contato com solo contaminado por larvas filarioides infectantes. As larvas derivam de fezes humanas contendo formas rabditoides que completam desenvolvimento no ambiente.
Andar descalço, trabalhar diretamente com terra ou permanecer em locais contaminados facilita a penetração cutânea.
Contaminação do solo por fezes humanas mantém o ciclo ambiental e a exposição comunitária.
Casos raros podem ocorrer por transplante de órgãos e em ambientes institucionais específicos.
Nascimento, residência prolongada ou viagem a áreas tropicais/subtropicais; vida rural; agricultura; saneamento precário; contato frequente com solo.
São um dos desencadeantes mais clássicos de hiperinfecção. Doença grave pode surgir mesmo após infecção assintomática antiga.
Está associado a maior carga parasitária, menor resposta terapêutica e maior risco de formas graves ou recorrentes.
Imunossupressão intensa aumenta risco de hiperinfecção/disseminação e exige baixa tolerância para investigação e tratamento.
O risco deve ser avaliado antes de corticosteroides em dose imunossupressora, transplante, quimioterapia ou outros imunossupressores em pessoas com exposição plausível. O CDC destaca como grupos prioritários para triagem aqueles com história de residência/viagem em áreas endêmicas, eosinofilia persistente sem explicação, HTLV-1, neoplasias hematológicas ou candidatos a transplante.
Lesão eritematosa e pruriginosa no ponto de penetração pode ser a primeira manifestação da infecção aguda.
Tosse seca, irritação traqueal, sibilância ou sintomas respiratórios transitórios podem acompanhar a migração larvária.
Dor epigástrica/abdominal, plenitude, diarreia intermitente, constipação, náuseas e anorexia podem ocorrer.
A infecção crônica é frequentemente assintomática. Quando sintomática, predomina o envolvimento gastrointestinal e cutâneo. Eosinofilia leve ou aumento de IgE são comuns, mas a ausência desses achados não exclui doença.
É uma erupção urticariforme ou maculopapular, serpiginosa e recorrente, geralmente em nádegas, períneo ou coxas, causada pela migração rápida de larvas durante a autoinfecção. Pode avançar vários centímetros por hora e é uma pista clínica de alto valor quando presente.
a velocidade de progressão e o padrão recorrente ajudam a diferenciar larva currens de outras dermatites serpiginosas, embora o diagnóstico final deva integrar epidemiologia e exames.
| Cenário | Definição prática | Achados de alerta |
|---|---|---|
| Hiperinfecção | Aceleração intensa do ciclo de autoinfecção, com grande carga larvária principalmente no trato gastrointestinal e pulmões. | Diarreia/vômitos, íleo, hemorragia GI, pneumonite, hemoptise, hipoxemia, insuficiência respiratória. |
| Disseminada | Larvas atingem órgãos fora do trajeto habitual GI–pulmão. | Meningite, alteração neurológica, choque, envolvimento multiorgânico, larvas em sítios ectópicos. |
| Complicação bacteriana | Translocação bacteriana facilitada pela lesão intestinal e migração larvária. | Bacteremia/sepse recorrente por Gram-negativos e meningite bacteriana, por vezes sem foco óbvio. |
A eliminação de larvas pode ser baixa e intermitente. Por isso, um parasitológico de fezes convencional isolado tem sensibilidade limitada. O CDC considera o exame seriado de fezes a referência parasitológica, mas ressalta que métodos tradicionais podem exigir várias amostras para alcançar boa sensibilidade.
| Método | Utilidade | Limitação / interpretação |
|---|---|---|
| Microscopia de fezes | Identifica larvas; confirma infecção quando positiva. | Baixa sensibilidade em infecção não complicada; repetir amostras. |
| Baermann | Concentra larvas móveis e aumenta o rendimento. | Exige amostra fresca e experiência técnica. |
| Cultura em ágar | Uma das técnicas coproparasitológicas mais sensíveis. | Demora mais e exige cuidados de biossegurança no processamento. |
| Sorologia IgG | Muito útil para triagem de infecção crônica e antes de imunossupressão. | Pode cruzar com outras helmintíases e permanecer positiva após tratamento; não distingue perfeitamente infecção ativa de passada. |
| PCR | Pode aumentar a detecção em laboratórios que dispõem da técnica. | A disponibilidade e padronização variam; resultado negativo não deve ser interpretado isoladamente em alto risco. |
| BAL/escarro | Larvas podem ser abundantes na hiperinfecção pulmonar. | Achado respiratório em contexto compatível indica doença grave e demanda tratamento imediato. |
Eosinofilia leve é frequente na infecção crônica, mas pode faltar. Na hiperinfecção/disseminação, especialmente sob corticosteroides, a eosinofilia periférica é frequentemente ausente. Portanto:
Em pacientes com exame de fezes inicialmente positivo e sintomas persistentes, o CDC recomenda repetir o exame parasitológico em 2–4 semanas após o tratamento e retratar se larvas persistirem. A sorologia pode diminuir progressivamente após cura, mas sua negativação não é imediata.
A meta é erradicar Strongyloides, porque uma infecção residual pode permanecer silenciosa e futuramente hiperinfestar o hospedeiro. A ivermectina tem maior eficácia que o albendazol e é a primeira escolha nas recomendações atuais.
Clique nos cards para abrir dose, duração, monitoramento e observações específicas.
Calcula apenas a dose teórica de 200 µg/kg (= 0,2 mg/kg) e a equivalência matemática em comprimidos de 6 mg. A prescrição final deve considerar apresentação disponível, possibilidade de fracionamento, contraindicações e protocolo local.
O suporte deve ser dirigido às complicações — não há um volume fixo de hidratação ou uma dieta específica que sirva para todos os casos. Avalie choque, função renal, balanço hídrico, íleo/obstrução, hemorragia, insuficiência respiratória, distúrbios hidroeletrolíticos e risco nutricional.
Corticosteroides são o gatilho clássico de hiperinfecção. Em pessoa com exposição epidemiológica relevante, a investigação deve ocorrer antes da imunossupressão sempre que o tempo clínico permitir. Se houver necessidade urgente de imunossuprimir e risco alto de infecção latente, a estratégia deve ser individualizada.
O Brasil não possui um único PCDT nacional de estrongiloidíase que padronize profilaxia para toda forma de imunossupressão. Alguns protocolos de doenças específicas adotam estratégias diferentes, o que explica parte da variação encontrada na prática.
| Contexto | Esquema citado no PCDT | Como interpretar |
|---|---|---|
| Hanseníase com início de prednisona | Albendazol 400 mg/dia por 3 dias ou ivermectina 200 µg/kg em dose única. | Profilaxia vinculada ao início da corticoterapia nesse PCDT; não equivale a esquema universal para toda imunossupressão. |
| Síndrome nefrótica primária em adultos | O documento descreve ivermectina 0,2 mg/kg nos dias 1 e 15 e repetição a cada 6 meses enquanto persistir imunossupressão em cenário de risco; também cita albendazol. | Exemplo de regime preventivo específico do protocolo e da população-alvo; não sustenta ivermectina mensal como regra geral. |
Associa-se a maior dificuldade de erradicação e formas recorrentes ou graves. O seguimento deve ser mais cuidadoso.
Pode haver reativação de infecção crônica ou, raramente, transmissão pelo órgão. Triagem de doador/receptor segue protocolos próprios.
Quimioterapia e imunossupressão intensa aumentam o risco; não deixar a investigação para depois do início da terapia quando houver tempo.
A carga larvária pode ser elevada e a eosinofilia ausente. Amostras respiratórias e fezes podem tornar-se francamente positivas.
O CDC considera gestação/lactação e peso abaixo de 15 kg como contraindicações relativas à ivermectina, refletindo limitações de dados e a necessidade de avaliação individual de risco–benefício. O albendazol deve ser evitado no primeiro trimestre segundo a mesma referência.
não extrapole automaticamente esquemas de adultos. Em doença grave, o risco da infecção pode superar o risco medicamentoso; discutir infectologia, obstetrícia/pediatria e fontes farmacológicas atualizadas.
Em pessoas com exposição a áreas endêmicas para Loa loa, especialmente partes da África Central e Ocidental, altas microfilaremias podem tornar a ivermectina perigosa por risco de encefalopatia grave. Antes do tratamento presuntivo, avalie a epidemiologia e siga protocolo específico para exclusão de loíase quando aplicável.
Repetir exame em 2–4 semanas; persistência de larvas indica necessidade de novo tratamento e reavaliação.
Os títulos tendem a cair após cura e parte dos pacientes negativam em meses, mas anticorpos persistentes exigem interpretação clínica.
Podem necessitar confirmação mais rigorosa de erradicação e seguimento individualizado devido ao risco de recorrência/hiperinfecção.
Reduzem contato direto da pele com solo potencialmente contaminado.
Destino sanitário adequado das fezes humanas reduz a contaminação ambiental e interrompe a transmissão.
Evitar contato desnecessário com solo contaminado e adotar medidas de higiene após trabalho rural.
Reconhecer e tratar infecção crônica é uma das medidas mais importantes para prevenir hiperinfecção.
Em 2024, a OMS publicou sua primeira diretriz de controle populacional da estrongiloidíase. Para áreas endêmicas com prevalência de S. stercoralis igual ou superior a 5% medida por métodos recomendados, a organização propõe administração em massa anual de ivermectina 200 µg/kg em dose única para pessoas a partir de 5 anos, como intervenção de saúde pública.
A estrongiloidíase não consta na Lista Nacional de Notificação Compulsória vigente em 2026. Documentos brasileiros históricos também a classificam como não compulsória. Serviços devem, entretanto, verificar normas estaduais/municipais e comunicar surtos ou eventos de saúde pública conforme regras locais.
| Erro | Por que é um problema | Como evitar |
|---|---|---|
| Confiar em uma única amostra de fezes | A eliminação de larvas é baixa/intermitente. | Usar amostras seriadas e técnicas mais sensíveis; associar sorologia quando indicada. |
| Excluir pela ausência de eosinofilia | Eosinófilos podem estar normais, sobretudo na hiperinfecção sob corticoide. | Priorizar epidemiologia e síndrome clínica. |
| Iniciar corticoide sem avaliar risco | Pode precipitar hiperinfecção fatal em infecção latente. | Triar pessoas de risco antes da imunossupressão sempre que possível. |
| Repetir ivermectina no dia 15 como regra universal | Não é o esquema padrão atual para doença não disseminada e não mostrou superioridade em ensaio randomizado. | Usar 200 µg/kg por 1–2 dias na forma não complicada e individualizar cenários especiais. |
| Tratar hiperinfecção por “14 dias fixos” | A duração depende da negativação parasitológica sustentada. | Manter ivermectina diariamente até fezes/escarro negativos por pelo menos 2 semanas. |
Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Doses por peso, função renal/hepática, formas focais graves, gestação e profilaxia após exposição devem ser conferidas antes da prescrição.
O essencial de Estrongiloidíase para consulta rápida no celular.
Exposição a solo + eosinofilia, sintomas GI ou larva currens; em imunossuprimidos, considerar mesmo sem eosinofilia.
Fezes seriadas com técnicas sensíveis + sorologia conforme contexto. Uma amostra negativa não exclui.
Ivermectina 200 µg/kg VO por 1–2 dias na forma não complicada.
Ivermectina diária até fezes/escarro negativos por pelo menos 2 semanas.
Dose de ivermectina dos principais esquemas.
Infecção aguda/crônica não complicada.
Critério de duração na hiperinfecção/disseminação.
Triar pessoas com risco epidemiológico sempre que possível.
Pode estar ausente na hiperinfecção grave.
Estrongiloidíase → autoinfecção + exposição a solo + larva currens/eosinofilia.
Lembre-se de que corticosteroides podem precipitar hiperinfecção com insuficiência respiratória e sepse por Gram-negativos, mesmo sem eosinofilia.
—
—