Capilaríase
Helmintíase zoonótica causada por nematódeos capilarídeos, com destaque para a forma intestinal por Capillaria philippinensis e a forma hepática por Calodium hepaticum, associadas a diarreia crônica, perda ponderal ou acometimento hepático febril.
Quadro clínico principal
- Diarreia crônica ou recorrente
- Dor abdominal e borborigmos
- Perda de peso e anorexia
- Edema por hipoalbuminemia
- Febre e hepatomegalia na forma hepática
Diagnóstico
- Parasitológico de fezes na forma intestinal
- Identificação de ovos, larvas ou adultos
- Biópsia intestinal em casos selecionados
- Biópsia hepática na forma hepática verdadeira
Tratamento
- Intestinal: albendazol ou mebendazol
- Hepática: albendazol ou tiabendazol
- Associar corticosteroide na forma hepática
- Corrigir desidratação e eletrólitos
Complicações
- Enteropatia perdedora de proteínas
- Hipocalemia e desidratação
- Caquexia e edema
- Necrose e disfunção hepática grave
O que é
A capilaríase é uma infecção causada por nematódeos da família Capillariidae. Em humanos, as apresentações de maior importância clínica são a capilaríase intestinal, geralmente relacionada a Capillaria philippinensis, e a capilaríase hepática, associada a Calodium hepaticum (também descrito como Capillaria hepatica).
A forma intestinal causa enteropatia com diarreia crônica, perda de peso e distúrbios hidroeletrolíticos. A forma hepática é rara, mas potencialmente grave, cursando com febre persistente, hepatomegalia, eosinofilia e lesão granulomatosa hepática.
Agente etiológico
Os agentes envolvidos são nematódeos finos, de pequeno tamanho, com tropismo variável conforme a espécie.
- Capillaria philippinensis: forma intestinal; também chamada Paracapillaria philippinensis em algumas classificações.
- Calodium hepaticum: forma hepática; historicamente denominado Capillaria hepatica.
- Reservatórios: aves aquáticas, peixes e humanos na forma intestinal; roedores e outros mamíferos na forma hepática.
- Característica clínica: a forma intestinal pode manter autoinfecção e produzir doença prolongada.
Epidemiologia
A capilaríase intestinal é descrita principalmente em áreas da Ásia e do Oriente Médio, mas casos esporádicos podem ocorrer em viajantes ou regiões com hábito de consumo de peixe cru ou malcozido. A forma hepática é rara em humanos e pode ser subdiagnosticada pela dificuldade de confirmação.
Casos em áreas endêmicas e relatos esporádicos.
Peixe cru, malcozido ou sem preparo seguro.
Associada a ciclos com roedores e ambiente contaminado.
Fatal se houver atraso diagnóstico em formas graves.
Baixa suspeição e sintomas inespecíficos.
Reservatórios e transmissão
Principais reservatórios
- Aves aquáticas e peixes de água doce na forma intestinal.
- Humanos podem atuar como hospedeiros definitivos na capilaríase intestinal.
- Roedores são reservatórios importantes na capilaríase hepática.
- Cães, gatos e outros mamíferos podem participar do ciclo ambiental da forma hepática.
Formas de transmissão
- Ingestão de peixe cru ou malcozido contendo larvas infectantes.
- Ingestão de ovos embrionados presentes em solo, água ou alimentos contaminados.
- Exposição ambiental relacionada a roedores e saneamento inadequado.
- Infecção espúria pode ocorrer após ingestão de fígado contaminado, sem doença hepática verdadeira.
Fisiopatologia
Na forma intestinal, larvas ingeridas por meio de peixe contaminado amadurecem no intestino delgado. O parasito pode produzir ovos, larvas e vermes adultos no lúmen intestinal, favorecendo alta carga parasitária e enteropatia com má absorção.
Na forma hepática, ovos embrionados ingeridos liberam larvas que migram para o fígado. A deposição de ovos no parênquima hepático induz resposta granulomatosa, necrose, eosinofilia e, em infecções intensas, disfunção hepática.
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Como ocorre a transmissão
A transmissão varia conforme a forma clínica. A capilaríase intestinal está relacionada à ingestão de peixe cru ou malcozido contendo larvas infectantes. A forma hepática ocorre pela ingestão de ovos embrionados presentes no ambiente contaminado.
Principais vias de infecção
Consumo de pequenos peixes de água doce crus, malcozidos, fermentados ou preparados sem controle sanitário adequado.
Ingestão acidental de ovos embrionados presentes em solo, água ou alimentos contaminados por fezes de animais.
Roedores são reservatórios importantes da forma hepática e contribuem para a manutenção ambiental do parasito.
Ovos podem aparecer nas fezes após ingestão de fígado animal infectado, sem necessariamente indicar doença hepática verdadeira.
Grupos de maior risco
- Pessoas que consomem peixe cru ou malcozido em áreas endêmicas.
- Viajantes com exposição alimentar de risco.
- Populações com saneamento inadequado e contato com solo contaminado.
- Crianças expostas a ambientes contaminados por roedores.
- Pessoas com atraso diagnóstico de diarreia crônica e perda ponderal.
Quadro clínico
Os sintomas dependem do órgão acometido. A forma intestinal costuma produzir doença arrastada, com diarreia persistente e má absorção. A forma hepática pode simular hepatite febril, com eosinofilia e hepatomegalia.
Sintomas mais comuns
Pode ser aquosa, recorrente e associada a perdas hidroeletrolíticas importantes.
Cólicas, desconforto difuso e borborigmos são frequentes na forma intestinal.
Relacionada à má absorção, anorexia e enteropatia perdedora de proteínas.
Pode ocorrer por hipoalbuminemia em doença intestinal grave.
Mais característica da forma hepática, geralmente acompanhada de eosinofilia.
Sugere acometimento hepático e deve motivar investigação especializada.
Sinal característico: diarreia crônica com má absorção
Na capilaríase intestinal, a diarreia crônica associada a perda de peso, hipoalbuminemia, hipocalemia e edema é um conjunto clínico muito sugestivo, especialmente quando há consumo de peixe cru ou malcozido.
Esse quadro ocorre pela lesão da mucosa intestinal, má absorção e perda de proteínas pelo trato gastrointestinal. Sem tratamento, pode evoluir com desidratação grave, caquexia e risco de morte.
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Formas clínicas
- Intestinal: diarreia crônica, dor abdominal, borborigmos, perda ponderal, hipoalbuminemia e distúrbios eletrolíticos.
- Hepática: febre persistente, hepatomegalia, dor abdominal, eosinofilia, granulomas e necrose hepática.
- Infecção espúria: eliminação de ovos nas fezes após ingestão de fígado infectado, sem invasão hepática verdadeira.
- Grave: desidratação, caquexia, edema, disfunção hepática ou evolução fatal.
Suspeita diagnóstica
Deve ser suspeitada em pacientes com diarreia crônica, perda de peso, hipoalbuminemia ou hipocalemia após consumo de peixe cru ou malcozido. A forma hepática deve ser lembrada diante de febre prolongada, hepatomegalia e eosinofilia, especialmente em contexto ambiental compatível.
Exames utilizados
Na forma intestinal, pode identificar ovos, larvas ou vermes adultos, especialmente em infecções intensas.
Útil quando a suspeita é alta e os exames de fezes são negativos ou inconclusivos.
Na forma hepática verdadeira, pode revelar ovos no parênquima, granulomas e necrose.
Podem mostrar eosinofilia, hipoalbuminemia, hipocalemia, anemia e alterações de enzimas hepáticas.
Diagnósticos diferenciais
- Giardíase e outras causas de diarreia crônica.
- Doença celíaca e síndromes de má absorção.
- Doença inflamatória intestinal.
- Estrongiloidíase e outras helmintíases intestinais.
- Hepatites, abscesso hepático e toxocaríase visceral na forma hepática.
- Neoplasias e outras causas de febre prolongada com eosinofilia.
Princípios do tratamento
A capilaríase intestinal deve ser tratada com albendazol ou mebendazol. A capilaríase hepática deve receber albendazol ou tiabendazol, associados a corticosteroides para controle da resposta inflamatória.
As explicações principais ficam visíveis em cada categoria. As doses e durações foram organizadas nos popups para manter o visual limpo e facilitar a comparação entre esquemas.
Capilaríase intestinal — tratamento ambulatorial
Indicado para pacientes com forma intestinal sem sinais de instabilidade clínica grave. Além do antiparasitário, é importante corrigir desidratação, eletrólitos e alterações nutricionais.
Capilaríase hepática — tratamento empírico
A forma hepática é rara, de difícil confirmação e potencialmente grave. O tratamento envolve antiparasitário associado a prednisona, com acompanhamento clínico e laboratorial.
Suporte clínico e acompanhamento
O suporte é fundamental em pacientes com diarreia intensa, desidratação, hipocalemia, hipoalbuminemia, edema, perda ponderal importante ou suspeita de disfunção hepática.
Complicações da capilaríase
As complicações dependem da forma clínica, da carga parasitária e do tempo até o diagnóstico. A forma intestinal pode evoluir com desnutrição grave, enquanto a forma hepática pode causar lesão hepática progressiva.
Principais acometimentos
Resultado de diarreia persistente e perdas gastrointestinais prolongadas.
Pode causar fraqueza, arritmias e piora clínica em casos graves.
Decorre de hipoalbuminemia por enteropatia perdedora de proteínas.
Perda ponderal intensa por má absorção e doença arrastada.
Na forma hepática, ovos no parênquima podem induzir granulomas e necrose.
Pode ocorrer em doença não reconhecida ou tratada tardiamente.
Como prevenir
A prevenção envolve segurança alimentar, saneamento e controle ambiental. Como a forma intestinal é fortemente relacionada ao consumo de peixe cru ou malcozido, o preparo adequado dos alimentos é a principal medida preventiva.
Medidas práticas
- Cozinhar adequadamente peixes de água doce antes do consumo.
- Evitar peixe cru, fermentado ou malcozido em áreas endêmicas.
- Higienizar mãos, utensílios e superfícies após manipular alimentos crus.
- Garantir água tratada e boas condições de saneamento.
- Controlar roedores em domicílios, depósitos, cozinhas e áreas rurais.
- Evitar ingestão de vísceras cruas ou malcozidas de animais.
Educação em saúde
Em áreas com risco alimentar, orientar a população sobre a relação entre peixe cru/malcozido e capilaríase intestinal ajuda a reduzir casos. Em serviços de saúde, diarreia crônica com perda de peso deve motivar investigação parasitológica adequada.
Referências
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Care of Capillariasis. Atualizado em 16 fev. 2024.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). About Capillariasis. Atualizado em 23 jan. 2024.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). DPDx: Hepatic Capillariasis. Atualizado em 1 out. 2019.
- MSD Veterinary Manual. Zoonotic Diseases: Parasitic Diseases. Tabela de zoonoses parasitárias.
- Belizario VY Jr. et al. Intestinal Capillariasis, Western Mindanao, the Philippines. Emerging Infectious Diseases. 2010.
Artigos relacionados
Em provas / residência
Capilaríase intestinal → diarreia crônica + má absorção + perda de peso + exposição a peixe cru ou malcozido.
Na forma hepática, lembre-se de febre persistente, hepatomegalia e eosinofilia.
