Fasciolíase
Zoonose parasitária causada por trematódeos do gênero Fasciola, adquirida principalmente pela ingestão de plantas aquáticas cruas ou água contaminada por metacercárias.
Quadro clínico principal
- Febre e mal-estar na fase aguda
- Dor em hipocôndrio direito
- Hepatomegalia dolorosa
- Eosinofilia periférica
- Náuseas, vômitos e perda ponderal
- Icterícia ou colangite na fase biliar
Diagnóstico
- Sorologia na fase aguda
- Pesquisa de ovos nas fezes na fase crônica
- Eosinofilia e enzimas hepáticas
- Ultrassonografia, TC, RM ou CPRE
Tratamento
- Triclabendazol é o tratamento de escolha
- Nitazoxanida pode ser alternativa em alguns casos
- Praziquantel não é recomendado
- CPRE pode ser necessária em obstrução biliar
Complicações
- Obstrução biliar
- Colangite
- Colecistite
- Abscessos hepáticos
- Pancreatite biliar
- Doença ectópica rara
O que é
A fasciolíase é uma zoonose causada por parasitas trematódeos hepáticos do gênero Fasciola. Em humanos, a infecção ocorre quando metacercárias presentes em plantas aquáticas cruas, como agrião, ou em água contaminada são ingeridas e migram pelo fígado até os ductos biliares.
A doença pode cursar com fase aguda hepática, marcada por dor abdominal, febre, hepatomegalia e eosinofilia, e fase crônica biliar, associada à eliminação de ovos nas fezes e a manifestações obstrutivas das vias biliares.
Agente etiológico
Os principais agentes etiológicos da fasciolíase humana são Fasciola hepatica e Fasciola gigantica, trematódeos que parasitam as vias biliares de mamíferos herbívoros e, acidentalmente, de humanos.
- Fasciola hepatica: espécie mais amplamente distribuída, relacionada a áreas de criação de ovinos e bovinos.
- Fasciola gigantica: mais frequente em regiões tropicais da África e da Ásia.
- Hospedeiro intermediário: caramujos de água doce, essenciais para o desenvolvimento larvário.
- Forma infectante: metacercária aderida a plantas aquáticas ou presente em água contaminada.
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Epidemiologia
A fasciolíase ocorre em áreas onde há criação de ruminantes, presença de caramujos de água doce e consumo de vegetais aquáticos crus ou água sem tratamento. É considerada uma zoonose negligenciada, com importância em regiões rurais e periurbanas.
Cosmopolita, com focos endêmicos em vários continentes.
Áreas úmidas, canais, brejos e plantações irrigadas.
Ovinos, bovinos, caprinos e outros herbívoros.
Acidental, após ingestão da forma infectante.
Comum por sintomas inespecíficos e baixa suspeição clínica.
Reservatórios e ciclo zoonótico
Principais reservatórios
- Ovinos e bovinos, que eliminam ovos nas fezes.
- Caprinos, bubalinos e outros herbívoros em áreas endêmicas.
- Animais silvestres podem manter o ciclo em determinados ecossistemas.
Elementos do ciclo
- Ovos eliminados nas fezes alcançam a água.
- Larvas infectam caramujos de água doce.
- Cercárias saem do caramujo e encistam como metacercárias.
- Humanos se infectam ao ingerir metacercárias.
Fisiopatologia
Após a ingestão, as metacercárias desencistam no duodeno, atravessam a parede intestinal, migram pela cavidade peritoneal e penetram no fígado. Durante a fase hepática, a migração dos parasitas imaturos provoca necrose, inflamação, dor abdominal e eosinofilia.
Na fase crônica, os vermes adultos se alojam nos ductos biliares, onde podem causar hiperplasia ductal, inflamação, obstrução biliar, colangite, colecistite e eliminação de ovos nas fezes.
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Como ocorre a transmissão
A transmissão ocorre pela ingestão de metacercárias de Fasciola presentes em vegetais aquáticos crus, especialmente agrião, ou em água contaminada. A infecção humana é acidental e depende da manutenção do ciclo entre animais, caramujos de água doce e ambiente aquático.
Principais vias de infecção
Agrião e outros vegetais cultivados ou coletados em água contaminada podem carrear metacercárias aderidas à superfície.
Ingestão de água sem tratamento em áreas com caramujos infectados e presença de fezes de animais parasitados.
Vegetais irrigados com água contaminada podem servir como veículo de transmissão, especialmente quando consumidos crus.
Ingestão de fígado animal infectado pode gerar achado transitório de ovos nas fezes, confundindo o diagnóstico, mas não é a forma infectante clássica.
Grupos de maior risco
- Pessoas que consomem agrião ou plantas aquáticas cruas de origem não inspecionada.
- Moradores de áreas rurais com criação de bovinos, ovinos ou caprinos.
- Populações que utilizam água de rios, canais, brejos ou fontes sem tratamento.
- Trabalhadores rurais expostos a ambientes úmidos contaminados.
- Familiares ou corresidentes de caso confirmado, quando compartilham a mesma fonte de exposição.
Quadro clínico
A apresentação clínica varia conforme a fase da doença. A fase aguda ocorre durante a migração hepática dos parasitas imaturos; a fase crônica ocorre quando vermes adultos permanecem nos ductos biliares.
Sintomas mais comuns
Pode ocorrer na fase aguda, associada a mal-estar, astenia e sintomas sistêmicos.
Sugere acometimento hepático ou biliar, especialmente quando associada a hepatomegalia.
Fígado aumentado e doloroso pode estar presente durante a fase de migração hepática.
Achado laboratorial importante, especialmente na fase aguda ou em quadros com inflamação tecidual intensa.
Náuseas, vômitos, anorexia, perda de peso, diarreia ou desconforto abdominal.
Pode ocorrer quando há obstrução biliar, colangite ou acometimento dos ductos biliares.
Formas clínicas
- Fase aguda ou hepática: dor abdominal, febre, hepatomegalia, eosinofilia, urticária, sintomas respiratórios ocasionais e alterações inflamatórias.
- Fase crônica ou biliar: dor tipo cólica biliar, náuseas, icterícia, colangite, colecistite e eliminação de ovos nas fezes.
- Forma ectópica: rara, quando o parasita migra para locais não habituais, como tecido subcutâneo, pulmões, olhos ou sistema nervoso.
- Infecção assintomática: pode ocorrer, especialmente em familiares ou corresidentes expostos à mesma fonte ambiental.
Suspeita diagnóstica
Deve-se suspeitar de fasciolíase em pacientes com dor abdominal, febre, hepatomegalia, eosinofilia ou manifestações biliares, especialmente quando há consumo de agrião ou plantas aquáticas cruas, ingestão de água não tratada, residência em área rural ou contato com ambientes de criação de ruminantes.
Exames utilizados
Útil na fase aguda, quando ainda não há eliminação de ovos nas fezes. Auxilia a confirmação em pacientes com quadro compatível e eosinofilia.
Identifica ovos na fase crônica biliar. Pode exigir amostras seriadas e técnica adequada de sedimentação.
Eosinofilia, leucocitose, elevação de transaminases, fosfatase alcalina, GGT ou bilirrubinas podem apoiar a suspeita.
Avalia fígado, vesícula e vias biliares; é útil no seguimento e na investigação de complicações.
Podem demonstrar lesões hepáticas migratórias, alterações inflamatórias ou obstrução biliar.
Pode ter papel diagnóstico e terapêutico em casos com obstrução biliar por vermes adultos.
Diagnósticos diferenciais
- Hepatites virais e hepatites medicamentosas.
- Abscesso hepático piogênico ou amebiano.
- Colangite, colecistite e coledocolitíase.
- Esquistossomose hepatoesplênica.
- Toxocaríase e outras causas de eosinofilia.
- Neoplasias hepatobiliares em quadros obstrutivos prolongados.
Princípios do tratamento
O tratamento da fasciolíase deve eliminar parasitas imaturos e adultos, reduzir complicações hepatobiliares e confirmar resposta clínica, laboratorial e parasitológica. O triclabendazol é o tratamento de escolha; a nitazoxanida pode ser considerada alternativa quando o triclabendazol não estiver disponível ou em situações selecionadas.
As condutas gerais ficam visíveis. As doses, duração e observações práticas foram organizadas em popups para manter o mesmo padrão visual do artigo de referência.
Tratamento antiparasitário específico
Indicado para casos confirmados ou fortemente suspeitos, incluindo pacientes sintomáticos e assintomáticos com sorologia positiva, para reduzir o risco de complicações futuras.
Medicamentos com baixa eficácia
Alguns antiparasitários usados em outras helmintíases não apresentam bons resultados contra Fasciola spp. e não devem ser utilizados como esquema principal.
Internação, alta e doença complicada
A internação deve ser considerada quando há necessidade de investigação diagnóstica, doença complicada ou sinais de gravidade. A alta depende de estabilidade clínica, hemodinâmica e laboratorial, com conduta terapêutica adequada e seguimento definido.
Seguimento e avaliação de contatos
Após a alta ou o tratamento ambulatorial, é necessário acompanhar resposta clínica e laboratorial. Familiares ou corresidentes devem ser avaliados quando compartilham fonte de exposição.
Complicações da fasciolíase
As complicações são mais prováveis quando há atraso diagnóstico, alta carga parasitária, fase biliar prolongada ou obstrução das vias biliares por vermes adultos.
Principais acometimentos
Lesões migratórias, hepatomegalia dolorosa, elevação de enzimas hepáticas e abscessos em casos complicados.
Vermes adultos podem causar obstrução dos ductos biliares, dor, icterícia e colestase.
Infecção/inflamação das vias biliares, com febre, dor e icterícia, podendo exigir internação.
Acometimento da vesícula biliar, com dor em hipocôndrio direito, náuseas e sinais inflamatórios.
Rara, relacionada a obstrução ou inflamação na região periampular.
Migração para locais incomuns, como tecido subcutâneo, pulmões, olhos ou sistema nervoso.
Prevenção
A prevenção envolve medidas individuais, sanitárias e ambientais para interromper o ciclo entre ruminantes, caramujos de água doce e alimentos contaminados.
Medidas principais
Não consumir agrião ou vegetais aquáticos de origem desconhecida, especialmente em áreas endêmicas.
Utilizar água tratada, filtrada ou fervida, evitando fontes naturais sem controle sanitário.
Lavar adequadamente vegetais, lembrando que a simples lavagem pode não eliminar metacercárias aderidas.
Diagnóstico e tratamento de rebanhos, manejo de pastagens úmidas e redução da contaminação ambiental.
Medidas ambientais e sanitárias em áreas de risco podem reduzir a presença do hospedeiro intermediário.
Avaliar familiares, corresidentes e pessoas que compartilharam alimentos ou fontes de água suspeitas.
Referências principais
- Centers for Disease Control and Prevention. Clinical Overview of Fasciola. Atualizado em 2024.
- World Health Organization. Report of the WHO Informal Meeting on use of triclabendazole in fascioliasis control. WHO/CDS/NTD/PCT/2007.1.
- MSD Manual Professional Edition. Fascioliasis. Seção de doenças infecciosas por trematódeos.
- FDA. EGATEN™ (triclabendazole) tablets, prescribing information. Aprovação inicial: 2019.
- Gandhi P, Schmitt EK, Chen CW, Samantray S, Venishetty VK, Hughes D. Triclabendazole in the treatment of human fascioliasis: a review. Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene. 2019.
