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Zoonoses

Peste

Infecção bacteriana zoonótica causada por Yersinia pestis, transmitida principalmente pela picada de pulgas infectadas, contato com animais contaminados ou, na forma pneumônica, por gotículas respiratórias.

Pulgas infectadas Zoonose Bactéria Forma pneumônica
Tempo de leitura: 8 min
Atualizado em: 20/05/2026
Peste causada por Yersinia pestis

Quadro clínico principal

  • Febre alta de início súbito
  • Calafrios e mal-estar intenso
  • Cefaleia e mialgia
  • Linfadenite dolorosa — bubão
  • Prostração importante
  • Tosse, dispneia e hemoptise na forma pneumônica

Diagnóstico

  • Suspeita clínica + vínculo epidemiológico
  • Cultura de aspirado de bubão, sangue ou escarro
  • PCR para Yersinia pestis
  • Sorologia com aumento de títulos em amostras pareadas

Tratamento

  • Iniciar antibiótico imediatamente na suspeita
  • Gentamicina ou estreptomicina como opções clássicas
  • Doxiciclina ou ciprofloxacino em casos selecionados
  • Isolamento respiratório na suspeita de peste pneumônica

Complicações

  • Septicemia e choque séptico
  • Pneumonia grave e insuficiência respiratória
  • Meningite por Yersinia pestis
  • Coagulação intravascular disseminada

O que é

A brucelose é uma zoonose bacteriana sistêmica, causada por espécies do gênero Brucella, que afeta humanos e diversos animais domésticos e selvagens. É uma doença de evolução subaguda ou crônica, que pode acometer múltiplos órgãos e gerar incapacidades significativas.

Agente etiológico

Bactéria Gram-negativa, aeróbica e intracelular facultativa do gênero Brucella.

  • Brucella melitensis — mais virulenta; associada a ovinos e caprinos.
  • Brucella abortus — relacionada a bovinos, mais comum no Brasil.
  • Brucella suis — associada a suínos.
  • Brucella canis — associada a cães, menos frequente em humanos.
Bactéria Brucella

Epidemiologia

Endêmica em regiões com baixo controle sanitário agropecuário e consumo de produtos animais crus.

Incidência mundial

~500 mil novos casos/ano.

Incidência no Brasil

Subnotificada, prevalente em áreas rurais.

Mortalidade

Baixa; risco em endocardite.

Morbidade

Alta sem tratamento adequado.

Perfil típico

Adulto exposto a animais ou produtos crus.

Reservatórios e transmissão

Principais reservatórios

  • Bovinos — Brucella abortus.
  • Caprinos e ovinos — Brucella melitensis.
  • Suínos — Brucella suis.
  • Cães — Brucella canis.

Formas de transmissão

  • Ingestão de leite cru ou derivados não pasteurizados.
  • Contato com secreções, placenta, urina ou sangue de animais infectados.
  • Inalação de aerossóis em ambientes rurais ou laboratórios.
  • Acidentes laboratoriais.
Não há transmissão interpessoal habitual.

Fisiopatologia

A Brucella penetra por mucosas, pele lesionada ou trato digestivo. É fagocitada por macrófagos mas resiste à destruição intracelular e se replica no interior das células fagocíticas.

Dissemina-se por via linfática e hematogênica, alcançando fígado, baço, linfonodos, medula óssea e testículos.

Ciclo de vida e fisiopatologia da brucelose Clique para ampliar

Como ocorre a transmissão

A bactéria penetra no organismo por mucosas, pele lesionada, via digestiva ou respiratória, por contato direto ou indireto com animais infectados e seus produtos.

Principais vias de infecção

Via alimentar

Consumo de leite cru, queijo artesanal não inspecionado ou outros derivados contaminados.

Via ocupacional

Contato com sangue, placenta, secreções uterinas, fetos abortados ou carcaças de animais infectados.

Via inalatória

Inalação de aerossóis contaminados em currais, frigoríficos ou laboratórios.

Acidente laboratorial

Manipulação de culturas ou amostras contaminadas sem proteção adequada.

Grupos de maior risco

  • Trabalhadores rurais.
  • Veterinários e estudantes de veterinária.
  • Funcionários de frigoríficos e abatedouros.
  • Ordenhadores e produtores de leite.
  • Profissionais de laboratório.
  • Pessoas que consomem leite ou queijo artesanal sem inspeção sanitária.
A transmissão entre pessoas é extremamente rara e não é a forma habitual de disseminação.

Quadro clínico

A brucelose apresenta sintomas inespecíficos. O quadro pode ser agudo, subagudo ou crônico, com evolução arrastada e períodos de melhora e piora.

Sintomas mais comuns

Febre ondulante

Irregular, recorrente, muitas vezes vespertina ou noturna.

Sudorese noturna

Geralmente intensa e com odor característico.

Astenia

Cansaço persistente, fraqueza e queda do rendimento físico.

Dores articulares

Artralgia, lombalgia, dor sacroilíaca ou dor em grandes articulações.

Cefaleia

Acompanha febre, mal-estar e dor muscular.

Perda ponderal

Em quadros prolongados ou sem tratamento adequado.

Formas clínicas

  • Aguda: febre, mal-estar, sudorese, mialgia e sintomas gerais.
  • Subaguda: evolução mais lenta, sintomas persistentes por semanas.
  • Crônica: sintomas por meses, fadiga, dor osteoarticular e recaídas.
  • Focal: acometimento de órgão específico — coluna, articulações, SNC ou coração.

Suspeita diagnóstica

Deve ser suspeitada em pacientes com febre prolongada, sudorese, sintomas osteoarticulares e história de exposição a animais ou consumo de leite/derivados não pasteurizados.

Exames utilizados

Hemocultura

Pode confirmar o diagnóstico na fase aguda; pode exigir incubação prolongada.

Teste de Rosa Bengala

Triagem sorológica, especialmente em contextos epidemiológicos compatíveis.

Soroaglutinação

Auxilia na confirmação diagnóstica e acompanhamento.

PCR

Útil em cenários específicos, especialmente em centros especializados.

Diagnósticos diferenciais

  • Tuberculose.
  • Febre Q.
  • Leptospirose.
  • Endocardite infecciosa.
  • Malária em áreas endêmicas.
  • Linfomas e outras causas de febre prolongada.
A associação entre clínica, exposição epidemiológica e exames laboratoriais é essencial para evitar atraso diagnóstico.

Princípios do tratamento

Antibioticoterapia prolongada e combinada para erradicação do agente e prevenção de recaídas. A duração depende da forma clínica e das complicações.

Tratamento ambulatorial

Indicado para formas leves sem envolvimento de outros sistemas. Doxiciclina associada a 1 antibiótico:

Doxiciclina

100 mg VO de 12/12 h, por 6 semanas.

Escolha uma das opções:

Gentamicina

5 mg/kg IM/EV de 24/24 h, por 7–10 dias.

Estreptomicina

1 g IM/EV de 24/24 h, por 14–21 dias.

Rifampicina

600–900 mg VO de 24/24 h, por 6 semanas.

Intolerância a aminoglicosídeos:

Ciprofloxacino

500 mg VO de 12/12 h.

Ofloxacino

200 mg VO de 12/12 h.

Recorrência ou refratariedade

Terapia tripla com o esquema anterior acrescido de:

Sulfametoxazol + Trimetoprima

800 + 160 mg VO de 12/12 h, por 6 semanas.

Profilaxia pós-exposição laboratorial

Preferencial

  • Doxiciclina: 100 mg VO de 12/12 h, por 3 semanas.
  • Rifampicina: 600–900 mg VO de 24/24 h, por 3 semanas.

Alternativa

  • SMX + TMP: 800 + 160 mg VO de 12/12 h, por 3 semanas.
  • Rifampicina: 600–900 mg VO de 24/24 h, por 3 semanas (opcional).

Tratamento hospitalar

Indicado em infecções graves, alteração neurológica ou endocardite. Pode-se usar o mesmo esquema ambulatorial com administração EV.

Neurobrucelose

Terapia tripla por 3–6 meses: doxiciclina + rifampicina + ceftriaxona, com dexametasona adjuvante.

Doxiciclina

100 mg VO/EV de 12/12 h.

Rifampicina

600–900 mg VO de 24/24 h.

Ceftriaxona

2 g EV/IM de 12/12 h.

Dexametasona

3 mg/kg EV, depois 1 mg/kg EV de 6/6 h por 48 h.

Endocardite por brucelose

Terapia tripla: doxiciclina + rifampicina + estreptomicina ou gentamicina.

Doxiciclina

100 mg VO/EV de 12/12 h, ≥ 12 semanas.

Rifampicina

600–900 mg VO de 24/24 h, ≥ 12 semanas.

Estreptomicina

1 g IM/EV de 24/24 h, por 4 semanas.

Gentamicina

5 mg/kg EV de 24/24 h, 1–3 doses nas primeiras 4 semanas.

Doença focal osteoarticular

Esquema com doxiciclina

  • Doxiciclina: 100 mg VO/EV de 12/12 h, ≥ 3 meses.
  • Rifampicina: 600–900 mg VO de 24/24 h, ≥ 3 meses.
  • Gentamicina: 5 mg/kg IM/EV de 24/24 h, por 7–14 dias.

Esquema com quinolona

  • Ciprofloxacino: 750 mg VO de 12/12 h ou 400 mg EV de 12/12 h, ≥ 3 meses.
  • Rifampicina: 600–900 mg VO de 24/24 h, ≥ 3 meses.
Tratamentos curtos ou com monoterapia aumentam o risco de falha terapêutica e recaída.

Complicações da brucelose

São mais frequentes quando há atraso diagnóstico, tratamento inadequado ou doença prolongada.

Principais acometimentos

Osteoarticular

Sacroileíte, espondilodiscite, artrite periférica e dor lombar persistente.

Cardíaco

Endocardite — rara, mas principal causa de morte relacionada à brucelose.

Neurológico

Meningite, encefalite, radiculopatia ou neuropatias periféricas.

Geniturinário

Orquite, epididimite e prostatite, especialmente em homens.

Hepatoesplênico

Hepatomegalia, esplenomegalia, elevação de transaminases e granulomas hepáticos.

Hematológico

Anemia, leucopenia, plaquetopenia e marcadores inflamatórios elevados.

Dor lombar persistente em paciente com brucelose deve levantar suspeita de acometimento osteoarticular.

Como prevenir

A prevenção depende do controle sanitário dos rebanhos, inspeção de produtos de origem animal e medidas de proteção individual para expostos ocupacionalmente.

Medidas individuais

  • Consumir apenas leite pasteurizado ou fervido.
  • Evitar queijos artesanais sem inspeção sanitária.
  • Utilizar luvas, botas, máscara e proteção ocular ao lidar com animais.
  • Higienizar mãos, utensílios e superfícies após contato com produtos de origem animal.
  • Não manipular fetos abortados, placenta ou secreções sem proteção adequada.

Medidas coletivas

Vacinação animal

Reduz a circulação da doença nos rebanhos e protege indiretamente os humanos.

Controle veterinário

Testagem, notificação e eliminação de focos em rebanhos infectados.

Inspeção sanitária

Fiscalização de leite, carne, derivados e estabelecimentos produtores.

Educação em saúde

Orientação de produtores, trabalhadores rurais e consumidores.

Não existe vacina humana amplamente disponível para prevenção da brucelose.

Importante

A brucelose pode se tornar crônica se não tratada adequadamente, causando complicações graves como comprometimento osteoarticular, endocardite e neurobrucelose.

Referências bibliográficas

Ver todas as referências utilizadas neste artigo

Em provas / residência

Brucelose → febre ondulante + sudorese noturna + exposição ocupacional ou ingestão de leite não pasteurizado.

Lembre-se das complicações osteoarticulares e da necessidade de tratamento prolongado.

Mais informações nas abas acima do artigo.

Referências bibliográficas

  1. Al Dahouk S, Nöckler K. Implications of laboratory diagnosis on brucellosis therapy. Expert Rev Anti Infect Ther. 2011;9(7):833-845.
  2. Bosilkovski M, Keramat F, Arapović J. The current therapeutical strategies in human brucellosis. Infection. 2021;49(5):823-832.
  3. Yagupsky P, Morata P, Colmenero JD. Laboratory Diagnosis of Human Brucellosis. Clin Microbiol Rev. 2019;33(1):e00073-19.
  4. Corbel MJ. Brucellosis in humans and animals. WHO/CDS/EPR, 2006.
  5. Ministério da Saúde. Manual de Vigilância Epidemiológica de Brucelose Humana. 2019.
  6. Pappas G et al. Brucellosis. N Engl J Med. 2005;352(22):2325-2336.
  7. Franco MP et al. Human brucellosis. Lancet Infect Dis. 2007;7(12):775-786.
  8. World Health Organization (WHO). Brucellosis Fact Sheet. 2022.
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