Tularemia
Zoonose bacteriana causada por Francisella tularensis, associada ao contato com animais silvestres, picadas de carrapatos e moscas, inalação de aerossóis ou ingestão de água e alimentos contaminados.
Quadro clínico principal
- Febre de início súbito
- Mal-estar, calafrios e cefaleia
- Úlcera cutânea no local de inoculação
- Linfadenopatia dolorosa
- Formas oculoglandular, orofaríngea ou pulmonar
- Pneumonia em casos graves
Diagnóstico
- Suspeita clínica + exposição epidemiológica
- Sorologia com soroconversão ou aumento de títulos
- PCR em amostras clínicas selecionadas
- Cultura apenas em laboratório com biossegurança
Tratamento
- Gentamicina ou estreptomicina nas formas graves
- Doxiciclina ou ciprofloxacino em quadros leves
- Duração conforme gravidade e forma clínica
- Avaliar internação se pneumonia ou sepse
Complicações
- Pneumonia e insuficiência respiratória
- Sepse e choque em casos graves
- Supuração linfonodal
- Meningite, pericardite ou osteomielite raras
O que é
A tularemia é uma zoonose bacteriana infecciosa causada pela bactéria Francisella tularensis, um cocobacilo Gram-negativo altamente infeccioso. A doença acomete principalmente pequenos mamíferos silvestres, como coelhos, lebres e roedores, podendo ser transmitida ao ser humano por diferentes vias.
É considerada uma doença potencialmente grave devido à sua alta infectividade, especialmente quando ocorre acometimento pulmonar ou sistêmico.
Agente etiológico
A bactéria responsável é a Francisella tularensis, um microrganismo intracelular facultativo extremamente virulento.
- F. tularensis subsp. tularensis (Tipo A) — mais virulenta, predominante na América do Norte.
- F. tularensis subsp. holarctica (Tipo B) — menos agressiva, associada à Europa e Ásia.
- Pequena quantidade bacteriana já é suficiente para causar infecção.
- Possui alta capacidade de sobrevivência intracelular.
Epidemiologia
A tularemia ocorre principalmente no hemisfério norte, sendo mais frequente em áreas rurais e florestais da América do Norte, Europa e Ásia.
América do Norte, Europa e Ásia.
Carrapatos, moscas e contato com animais silvestres.
Forma pulmonar e septicêmica.
Caçadores, veterinários e trabalhadores rurais.
Alta infectividade e potencial uso biológico.
Reservatórios e transmissão
Principais reservatórios
- Coelhos e lebres.
- Roedores silvestres.
- Castores e esquilos.
- Animais domésticos ocasionalmente infectados.
Formas de transmissão
- Picada de carrapatos e insetos hematófagos.
- Contato direto com animais infectados.
- Inalação de aerossóis contaminados.
- Ingestão de água ou alimentos contaminados.
Fisiopatologia
A Francisella tularensis penetra no organismo pela pele, mucosas, trato respiratório ou trato gastrointestinal.
Após a invasão, a bactéria é fagocitada por macrófagos, onde consegue sobreviver e se multiplicar intracelularmente, disseminando-se para linfonodos, fígado, baço e pulmões.
A intensa resposta inflamatória pode levar à formação de granulomas, necrose tecidual e sepse em casos graves.
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Como ocorre a transmissão
A tularemia é transmitida ao ser humano principalmente por contato com animais infectados, picadas de vetores artrópodes e exposição a materiais contaminados.
A bactéria possui alta infectividade, sendo necessária uma quantidade muito pequena de microrganismos para causar doença.
Principais vias de infecção
Picada de carrapatos, moscas-de-veado e outros artrópodes hematófagos infectados.
Manipulação de coelhos, lebres, roedores ou tecidos animais contaminados.
Inalação de aerossóis contaminados durante jardinagem, corte de grama, atividades rurais ou laboratoriais.
Ingestão de água ou alimentos contaminados pela bactéria.
Grupos de maior risco
- Caçadores e manipuladores de animais silvestres.
- Veterinários e profissionais da fauna silvestre.
- Trabalhadores rurais e agricultores.
- Profissionais de laboratório.
- Pessoas expostas a carrapatos em áreas florestais.
- Jardineiros e trabalhadores que utilizam cortadores de grama em áreas contaminadas.
Vetores envolvidos
Principais artrópodes
- Carrapatos do gênero Dermacentor.
- Carrapatos do gênero Amblyomma.
- Moscas-de-veado.
- Outros insetos hematófagos.
Animais associados
- Coelhos e lebres.
- Roedores silvestres.
- Castores.
- Esquilos e pequenos mamíferos.
Quadro clínico
A apresentação clínica da tularemia varia conforme a via de entrada da bactéria, carga infecciosa e resposta imunológica do paciente.
O início geralmente é súbito, com febre alta, calafrios, fadiga intensa e sintomas sistêmicos importantes.
Sintomas mais comuns
Geralmente súbita, acompanhada de calafrios e mal-estar intenso.
Dor de cabeça importante, frequentemente associada à febre elevada.
Fraqueza intensa, cansaço e redução importante do estado geral.
Dores musculares difusas e desconforto corporal generalizado.
Lesão ulcerada dolorosa no local de inoculação da bactéria.
Aumento doloroso dos linfonodos regionais.
Formas clínicas
- Ulceroglandular: forma mais comum, caracterizada por úlcera cutânea associada a linfonodos aumentados.
- Glandular: linfonodomegalia sem lesão cutânea evidente.
- Oculoglandular: conjuntivite associada a linfonodomegalia regional.
- Orofaringeana: faringite, odinofagia e linfonodos cervicais após ingestão contaminada.
- Pneumônica: tosse, dispneia e pneumonia grave por inalação da bactéria.
- Tifoide: forma sistêmica grave sem foco localizado evidente.
Aspectos clínicos
Algumas formas clínicas apresentam manifestações características que auxiliam fortemente na suspeita diagnóstica.
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Úlcera cutânea dolorosa associada a linfonodomegalia regional.
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Linfonodos aumentados sem lesão ulcerada evidente.
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Conjuntivite dolorosa associada a edema ocular e linfonodomegalia.
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Odinofagia, inflamação orofaríngea e linfonodos cervicais aumentados.
Forma pulmonar
A tularemia pneumônica é uma das apresentações mais graves da doença, podendo ocorrer por inalação direta da bactéria ou disseminação hematogênica.
Tosse seca ou produtiva, frequentemente persistente.
Dificuldade respiratória variável conforme a gravidade pulmonar.
Pode ocorrer em casos de pneumonia extensa.
Casos graves podem evoluir rapidamente com necessidade de suporte intensivo.
Suspeita diagnóstica
A tularemia deve ser suspeitada em pacientes com febre aguda, linfonodomegalia, úlceras cutâneas ou pneumonia associadas a histórico epidemiológico compatível.
Exposição a carrapatos, animais silvestres, atividades rurais ou contato ocupacional aumenta significativamente a suspeita clínica.
Exames utilizados
Principal método diagnóstico. Detecta anticorpos contra Francisella tularensis.
Método rápido e específico, útil principalmente em fases iniciais.
Pode confirmar o diagnóstico, porém exige laboratório especializado devido ao alto risco biológico.
Pode demonstrar granulomas e necrose em tecidos acometidos.
Achados de imagem
Nas formas pulmonares, exames de imagem podem demonstrar pneumonia, infiltrados pulmonares e linfonodomegalias mediastinais.
- Consolidações pulmonares.
- Nódulos pulmonares.
- Derrame pleural.
- Adenomegalias mediastinais.
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Diagnósticos diferenciais
- Peste bubônica.
- Leptospirose.
- Brucelose.
- Esporotricose.
- Tuberculose ganglionar.
- Linfadenites bacterianas.
- Pneumonias atípicas.
Biossegurança laboratorial
A manipulação de amostras suspeitas deve ser realizada com medidas rigorosas de biossegurança, devido ao risco elevado de transmissão laboratorial.
Princípios do tratamento
O tratamento da tularemia é baseado em antibióticos eficazes contra bactérias intracelulares. O início precoce da terapia reduz significativamente a gravidade e a duração da doença.
As drogas de escolha são aminoglicosídeos e fluoroquinolonas. Casos leves podem ser tratados com antibióticos orais, enquanto casos graves ou sistêmicos exigem antibióticos parenterais e, ocasionalmente, drenagem cirúrgica de abscessos linfáticos.
Tratamento ambulatorial
O tratamento ambulatorial é destinado aos pacientes com formas leves da doença sem envolvimento sistêmico.
O tratamento pode ser realizado com monoterapia utilizando doxiciclina ou ciprofloxacino.
100 mg VO de 12/12 horas, por 14–21 dias.
500–750 mg VO de 12/12 horas, por 10–14 dias.
Profilaxia pós-exposição
Em casos de exposição a aerossóis contaminados, pode-se realizar profilaxia antibiótica em monoterapia.
100 mg VO de 12/12 horas, por 14 dias.
500–750 mg VO de 12/12 horas, por 14 dias.
Tratamento hospitalar
O tratamento hospitalar é indicado para pacientes com infecção grave disseminada, meningite tularêmica ou endocardite tularêmica.
As seguintes opções podem ser utilizadas em monoterapia para doença moderada a grave:
10 mg/kg IM de 12/12 horas, por 7–10 dias (dose máxima: 2 g/dia).
5 mg/kg IM/EV de 8/8 horas, por 7–10 dias.
15–25 mg/kg EV de 6/6 horas, por 14–21 dias (dose máxima: 4 g/dia).
Doença disseminada ou meningite tularêmica
Em casos disseminados ou com acometimento neurológico, recomenda-se terapia combinada com gentamicina associada a outro antibiótico.
5 mg/kg IM/EV de 8/8 horas, por 10 dias.
Associar uma das seguintes opções:
15–25 mg/kg EV de 6/6 horas, por 14–21 dias (dose máxima: 4 g/dia).
100 mg VO/EV de 12/12 horas, por 14–21 dias.
400 mg EV de 12/12 horas, por 14–21 dias.
Endocardite tularêmica
A endocardite tularêmica é rara, porém potencialmente fatal, exigindo terapia combinada prolongada.
5 mg/kg IM/EV de 8/8 horas, por 14 dias.
400 mg EV de 12/12 horas, por 4–6 semanas.
Seguimento clínico
O seguimento clínico inclui avaliação da resposta terapêutica, resolução da febre e regressão das linfadenopatias.
Critérios de falha terapêutica
- Persistência de febre após 72 horas de antibiótico adequado.
- Ausência de regressão das lesões locais.
- Piora clínica progressiva.
Critérios de cura
- Resolução dos sintomas sistêmicos.
- Melhora das lesões locais e linfonodos.
- Ausência de recidiva após término do tratamento.
Complicações da tularemia
As complicações da tularemia ocorrem principalmente em pacientes sem tratamento precoce, imunossuprimidos ou com formas disseminadas da doença.
O acometimento pulmonar e sistêmico está associado às maiores taxas de morbidade e gravidade clínica.
Principais complicações
Pode evoluir com insuficiência respiratória, derrame pleural e necessidade de suporte intensivo.
Disseminação sistêmica da bactéria com instabilidade hemodinâmica e risco elevado de óbito.
Complicação neurológica grave com febre, rigidez de nuca e alteração do nível de consciência.
Forma rara, porém potencialmente fatal, associada a alta mortalidade.
Linfonodos podem evoluir com necrose, flutuação e drenagem espontânea.
Ceratite, conjuntivite intensa e inflamação ocular persistente.
Forma pulmonar grave
A tularemia pneumônica representa uma das apresentações mais graves da doença e pode ocorrer por inalação direta da bactéria ou disseminação hematogênica.
Possíveis complicações respiratórias
- Pneumonia necrosante.
- Derrame pleural.
- Insuficiência respiratória aguda.
- Síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA).
Achados clínicos associados
- Hipoxemia importante.
- Taquipneia.
- Febre persistente.
- Necessidade de suporte ventilatório.
Complicações neurológicas
Embora incomuns, manifestações neurológicas podem ocorrer especialmente em formas disseminadas.
- Meningite bacteriana.
- Encefalite.
- Alteração do estado mental.
- Convulsões em casos graves.
Fatores associados à gravidade
O atraso terapêutico aumenta significativamente o risco de disseminação.
Pacientes imunossuprimidos possuem maior risco de formas graves.
A forma pulmonar geralmente apresenta evolução mais agressiva.
Tratamentos inadequados podem favorecer recidivas e persistência da infecção.
Como prevenir
A prevenção da tularemia é baseada principalmente na redução da exposição a animais infectados, vetores artrópodes e materiais contaminados.
Medidas de proteção individual e controle ambiental são fundamentais, especialmente em áreas endêmicas.
Medidas individuais
- Utilizar repelentes e roupas de manga longa em áreas com carrapatos.
- Realizar inspeção corporal após atividades em áreas florestais ou rurais.
- Utilizar luvas ao manipular animais silvestres ou carcaças.
- Evitar contato direto com coelhos, lebres e roedores doentes.
- Consumir apenas água tratada e alimentos adequadamente higienizados.
- Utilizar máscara em atividades com risco de aerossóis contaminados.
Prevenção contra carrapatos
Proteção pessoal
- Uso de repelentes contendo DEET ou permetrina.
- Roupas claras para facilitar visualização de carrapatos.
- Botas e calças compridas em áreas de risco.
- Remoção rápida e adequada dos carrapatos.
Cuidados ambientais
- Evitar áreas com grande infestação de vetores.
- Controle de roedores em áreas domiciliares.
- Redução de vegetação alta ao redor de residências.
- Proteção de animais domésticos contra ectoparasitas.
Biossegurança ocupacional
Profissionais expostos ocupacionalmente possuem maior risco de infecção, especialmente em laboratórios, atividades rurais e manejo de animais.
Manipulação de amostras deve ocorrer com medidas rigorosas de biossegurança.
Utilizar equipamentos de proteção individual durante contato com animais.
Evitar procedimentos que favoreçam dispersão aérea da bactéria.
Expostos devem ser monitorados em caso de acidentes laboratoriais.
Vacinação
Atualmente não existe vacina amplamente disponível para uso populacional contra a tularemia.
Algumas vacinas experimentais foram desenvolvidas para grupos específicos, principalmente em cenários militares e laboratoriais.
Importante
A tularemia pode evoluir rapidamente para formas graves, especialmente pulmonares e sistêmicas, tornando o diagnóstico precoce e o tratamento imediato fundamentais.
Referências bibliográficas
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Em provas / residência
Tularemia → febre + úlcera cutânea + linfonodomegalia após exposição a carrapatos ou animais silvestres.
Lembre-se das formas pneumônicas graves e do tratamento com aminoglicosídeos.
Resultado final
Revisão das questões
Referências bibliográficas
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Tularemia — Clinical Overview. Atlanta: CDC; 2024.
- World Health Organization (WHO). WHO Guidelines on Tularemia. Geneva: WHO; 2023.
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- Dennis DT et al. Tularemia as a biological weapon: medical and public health management. JAMA. 2001;285(21):2763-2773.
