Bloqueios Atrioventriculares
A pergunta que separa o benigno do perigoso não é o grau do bloqueio: é onde ele acontece. Bloqueio acima do His costuma ser vagal, transitório e responde à atropina. Bloqueio abaixo do His tende a progredir, tem escape lento e instável, e a atropina pode até piorar. Duas pistas resolvem a maior parte: a largura do QRS e o comportamento do PR.
Classificar
- Primeiro grau: PR acima de 200 ms, todas as P conduzem
- Mobitz I: PR alarga progressivamente até falhar
- Mobitz II: PR constante e P bloqueada de surpresa
- Terceiro grau: dissociação com escape regular
Localizar
- QRS estreito sugere bloqueio no nó, acima do His
- QRS largo sugere bloqueio no His-Purkinje
- Supra-hissiano melhora com atropina e esforço
- Infra-hissiano piora com atropina e com esforço
Estabilizar
- Instável: atropina 1 mg enquanto prepara o marca-passo
- Sem resposta: dopamina, adrenalina ou estimulação
- Marca-passo transcutâneo exige sedação e captura confirmada
- Transvenoso é a ponte definitiva até o dispositivo
Investigar
- Fármacos são a causa reversível mais frequente
- Hipercalemia, isquemia e hipotireoidismo
- Inferior costuma reverter; anterior costuma não
- Sem causa reversível, Mobitz II e BAVT pedem marca-passo
O que é bloqueio atrioventricular
Bloqueio atrioventricular é o atraso ou a interrupção da condução do impulso elétrico entre os átrios e os ventrículos. O impulso nasce normalmente no nó sinusal, mas encontra obstáculo em algum ponto do caminho — no nó atrioventricular ou no sistema His-Purkinje.
Essa localização anatômica é o que realmente importa. O grau do bloqueio descreve quanto da condução se perdeu; a localização determina o prognóstico, a resposta ao tratamento e a necessidade de dispositivo.
O caminho do impulso
Entender a anatomia da condução explica por que o mesmo grau de bloqueio tem prognósticos tão diferentes conforme o nível em que ocorre.
| Estrutura | Características | Comportamento quando bloqueia |
|---|---|---|
| Nó atrioventricular | Condução lenta e decremental, ricamente inervado pelo vago e pelo simpático. Irrigado pela coronária direita na maioria das pessoas. | Bloqueio supra-hissiano. Escape juncional a 40 a 60 bpm, com QRS estreito e razoavelmente confiável. Responde à atropina e ao esforço. |
| Feixe de His | Zona de transição curta, com irrigação dupla. | Bloqueio intra-hissiano. Comportamento intermediário; frequentemente exige estudo eletrofisiológico para caracterizar. |
| Ramos e fascículos | Condução rápida, pouca inervação autonômica. Território mais suscetível à fibrose degenerativa e ao infarto anterior. | Bloqueio infra-hissiano. Escape ventricular a 20 a 40 bpm, com QRS largo e pouco confiável. Não responde à atropina. |
Como o paciente se apresenta
O espectro vai do achado incidental completamente assintomático até a síncope recorrente e a parada cardíaca.
- Assintomático — comum no bloqueio de primeiro grau e no Mobitz I, frequentemente descobertos em exame de rotina.
- Fadiga, intolerância ao esforço e dispneia — expressão da incompetência cronotrópica e da queda do débito.
- Tontura e pré-síncope, sobretudo aos esforços.
- Síncope de Stokes-Adams — perda súbita da consciência, sem pródromos e com recuperação rápida, causada por pausa ventricular. É achado de alarme.
- Insuficiência cardíaca por bradicardia sustentada e perda do sincronismo atrioventricular.
- Angina por redução do débito em paciente com doença coronariana.
- Parada cardíaca por assistolia ou por torsades bradicardia-dependente.
Achados do exame físico
Alguns sinais clássicos, hoje pouco valorizados, ainda ajudam à beira do leito no bloqueio completo.
- Bradicardia regular que não varia com o esforço nem com a emoção.
- Ondas A em canhão irregulares no pulso venoso jugular, produzidas quando o átrio contrai contra a valva tricúspide fechada.
- Variação da intensidade da primeira bulha, decorrente da relação variável entre sístole atrial e ventricular.
- Pressão de pulso alargada, com hipertensão sistólica pelo aumento do volume de ejeção.
"Os sintomas coincidem com a bradicardia?" Bradicardia assintomática em atleta jovem é adaptação fisiológica. Bradicardia com síncope é emergência — e a correlação entre sintoma e ritmo é o que define a indicação de dispositivo.
As quatro perguntas da beira do leito
Hipotensão, alteração aguda do nível de consciência, dor isquêmica, congestão pulmonar aguda ou choque atribuíveis à bradicardia exigem intervenção imediata.
Mobitz I e Mobitz II parecem semelhantes numa tira curta, mas têm prognósticos opostos. Analise o comportamento do intervalo PR ao longo do traçado.
QRS estreito sugere nível nodal, com escape confiável. QRS largo sugere nível infra-hissiano, com escape lento e risco de assistolia.
Fármacos, hipercalemia, isquemia, hipotireoidismo e infecção. Corrigi-las pode dispensar completamente o marca-passo definitivo.
Classificação por grau
| Grau | Eletrocardiograma | Significado |
|---|---|---|
| Primeiro grau | Intervalo PR acima de 200 ms, constante, com todas as ondas P conduzindo. | Rigorosamente, é um atraso, não um bloqueio. Habitualmente benigno; PR muito longo, acima de 300 ms, pode gerar sintomas. |
| Segundo grau — Mobitz I (Wenckebach) |
PR alarga progressivamente a cada batimento até que uma onda P não conduza. O intervalo RR encurta progressivamente, e a pausa é menor que o dobro do RR precedente. | Quase sempre supra-hissiano. Curso habitualmente benigno; frequentemente vagal ou medicamentoso. |
| Segundo grau — Mobitz II | PR constante nos batimentos conduzidos, com onda P bloqueada de forma súbita e inesperada. QRS frequentemente largo. | Quase sempre infra-hissiano. Alto risco de progressão para bloqueio completo — indicação de marca-passo. |
| Segundo grau 2:1 | Uma onda P conduz e a seguinte é bloqueada, alternadamente. Não é possível classificar como I ou II apenas por essa tira. | Exige manobras e pistas indiretas para localizar o nível — ver a seção específica. |
| Alto grau (avançado) | Duas ou mais ondas P consecutivas bloqueadas, com condução ainda presente em alguns batimentos. Relação P para QRS de 3:1 ou maior. | Comportamento próximo ao do bloqueio completo. Indicação de marca-passo. |
| Terceiro grau (bloqueio completo) |
Nenhuma onda P conduz. Dissociação atrioventricular completa, com frequência atrial maior que a ventricular e ritmo de escape regular. | Indicação de marca-passo definitivo, salvo causa completamente reversível. |
Mobitz I contra Mobitz II
Esta é a distinção mais cobrada e a de maior impacto prático, porque separa o acompanhamento clínico da indicação de dispositivo.
| Característica | Mobitz I (Wenckebach) | Mobitz II |
|---|---|---|
| Intervalo PR | Alarga progressivamente até a P bloqueada; o primeiro PR após a pausa é o mais curto. | Constante em todos os batimentos conduzidos, antes e depois da pausa. |
| Intervalo RR | Encurta progressivamente antes da pausa; a pausa é menor que o dobro do RR precedente. | Constante; a pausa equivale exatamente ao dobro do intervalo PP. |
| Largura do QRS | Habitualmente estreito. | Frequentemente largo, com padrão de bloqueio de ramo. |
| Localização | Supra-hissiana (nó atrioventricular) na grande maioria. | Infra-hissiana (His-Purkinje) na grande maioria. |
| Resposta à atropina | Melhora — a condução se recupera. | Não melhora e pode piorar — a aceleração atrial aumenta o grau de bloqueio. |
| Resposta ao esforço | Melhora. | Piora — sinal muito útil na diferenciação. |
| Resposta à manobra vagal | Piora. | Pode melhorar paradoxalmente, ao lentificar a chegada de impulsos ao His. |
| Prognóstico | Habitualmente benigno; progressão infrequente. | Alto risco de progressão para bloqueio completo, com assistolia. |
| Conduta | Tratar a causa; marca-passo apenas se sintomático ou se o bloqueio for intra ou infra-hissiano. | Marca-passo definitivo, salvo causa completamente reversível. |
O problema do bloqueio 2:1
Com uma P conduzida e a seguinte bloqueada, não existe PR sucessivo para comparar — e por isso o bloqueio 2:1 não pode ser rotulado como Mobitz I ou II apenas pela tira. É preciso recorrer a pistas indiretas.
Sugere nível NODAL (mais benigno)
- QRS estreito, abaixo de 120 ms.
- PR longo nos batimentos conduzidos, acima de 300 ms.
- Presença de períodos de Wenckebach em outros momentos do traçado ou no Holter.
- Melhora com atropina ou com o esforço.
- Piora com manobra vagal.
- Contexto de tônus vagal elevado, fármacos ou infarto inferior.
Sugere nível INFRA-HISSIANO (perigoso)
- QRS largo, com padrão de bloqueio de ramo.
- PR normal nos batimentos conduzidos.
- Presença de bloqueio bifascicular associado.
- Piora com atropina ou com o esforço.
- Pode melhorar com manobra vagal.
- Contexto de infarto anterior, doença degenerativa ou pós-operatório valvar.
A distinção que muda tudo
Duas situações com o mesmo rótulo eletrocardiográfico podem ter prognósticos opostos. O que separa é o nível anatômico do bloqueio, e as consequências práticas são imediatas.
| Característica | Supra-hissiano (nodal) | Infra-hissiano (His-Purkinje) |
|---|---|---|
| Largura do QRS | Habitualmente estreito. | Habitualmente largo, com padrão de bloqueio de ramo. |
| Ritmo de escape | Juncional, a 40 a 60 bpm, com QRS estreito e razoavelmente confiável. | Ventricular, a 20 a 40 bpm, com QRS largo e pouco confiável. Risco real de assistolia. |
| Resposta à atropina | Melhora a condução. | Não melhora; pode agravar ao acelerar a chegada de impulsos a um sistema que não os conduz. |
| Resposta ao esforço | Melhora. | Piora. |
| Resposta à manobra vagal | Piora. | Pode melhorar paradoxalmente. |
| Causas típicas | Tônus vagal elevado, fármacos bradicardizantes, infarto inferior, atleta, hipercalemia. | Doença degenerativa do sistema de condução, infarto anterior, pós-operatório valvar, doenças infiltrativas. |
| Evolução | Frequentemente transitório e reversível com a correção da causa. | Frequentemente progressivo e irreversível. |
| Marca-passo definitivo | Apenas se sintomático e sem causa reversível. | Indicado na maioria dos casos, mesmo sem sintomas. |
O ritmo de escape conta a história
Quando a condução falha, um marca-passo subsidiário assume. Quanto mais distal a origem do escape, mais lento e menos confiável ele é — e essa é uma das informações prognósticas mais úteis do traçado.
| Origem do escape | Frequência | QRS | Confiabilidade |
|---|---|---|---|
| Juncional alto | 50 a 60 bpm | Estreito | Boa. Costuma manter débito adequado em repouso. |
| Juncional baixo | 40 a 50 bpm | Estreito | Razoável, mas com pouca reserva ao esforço. |
| Fascicular | 30 a 40 bpm | Largo | Limitada. Sintomas frequentes; prepare estimulação. |
| Ventricular distal | 20 a 30 bpm | Muito largo | Ruim. Instável, com risco real de assistolia — estimulação sem demora. |
| Ausente | — | — | Assistolia — protocolo de parada cardiorrespiratória. |
Manobras para localizar o bloqueio
Quando o eletrocardiograma não resolve, algumas manobras à beira do leito ajudam — sempre com monitorização contínua e material de estimulação disponível.
- Registre um traçado longo de ritmo, em pelo menos duas derivações, antes de qualquer manobra.
- Meça e anote o intervalo PR dos batimentos conduzidos e a largura do QRS.
- Procure, no traçado ou no Holter, períodos de Wenckebach que confirmem nível nodal.
- Esforço leve ou manobra que aumente o tônus adrenérgico: melhora aponta nível nodal; piora aponta infra-hissiano.
- ATROPINA COMO TESTE: só com marca-passo transcutâneo posicionado e pronto. A resposta paradoxal do bloqueio infra-hissiano pode reduzir ainda mais a frequência.
- Manobra vagal, com cautela: piora no nodal, possível melhora paradoxal no infra-hissiano.
- Diante de dúvida persistente com impacto na decisão sobre dispositivo, encaminhe para estudo eletrofisiológico com medida do intervalo HV.
- Considere monitorização prolongada — Holter, monitor de eventos ou monitor implantável — quando os sintomas são intermitentes e o traçado de repouso é normal.
Sequência de abordagem
- Monitorização contínua, acesso venoso, oximetria, oxigênio se saturação abaixo de 90% e material de estimulação ao lado.
- Registre o eletrocardiograma de 12 derivações e uma tira longa de ritmo em duas derivações.
- AVALIE A ESTABILIDADE: hipotensão, alteração aguda do nível de consciência, dor isquêmica, congestão pulmonar aguda ou choque ATRIBUÍVEIS à bradicardia exigem intervenção imediata.
- Classifique o grau e o tipo, e estime o nível do bloqueio pela largura do QRS e pelo comportamento do PR.
- Instável: atropina 1 mg por via intravenosa, repetindo a cada 3 a 5 minutos até o máximo de 3 mg, enquanto prepara a estimulação.
- NÃO ATRASE A ESTIMULAÇÃO por causa da atropina. Em bloqueio infra-hissiano ela não funciona e pode piorar — a atropina é medida de ponte, não a solução.
- Sem resposta: marca-passo transcutâneo com sedação e analgesia, ou infusão de dopamina ou adrenalina.
- Confirme a captura elétrica e mecânica — espícula seguida de QRS alargado e pulso palpável correspondente.
- Revise a prescrição e suspenda os fármacos bradicardizantes; considere antídotos específicos nas intoxicações.
- Colha potássio, função renal, hormônio tireoestimulante, troponina e digoxinemia quando aplicável.
- Investigue isquemia aguda — o bloqueio pode ser a manifestação de um infarto em curso.
- Providencie marca-passo transvenoso como ponte quando a dependência de estimulação for prolongada.
- Defina a necessidade de marca-passo definitivo depois de excluídas ou corrigidas as causas reversíveis.
Quando a bradicardia é a culpada
Assim como nas taquiarritmias, o critério é a atribuição: os sinais de instabilidade precisam decorrer da bradicardia, e não de outra doença que apenas coexiste com ela.
Sinais de instabilidade
- Hipotensão com sinais de má perfusão.
- Alteração aguda do nível de consciência, síncope ou pré-síncope.
- Dor torácica isquêmica em curso.
- Congestão pulmonar aguda ou insuficiência cardíaca descompensada.
- Sinais de choque: oligúria, livedo, lactato elevado.
- Arritmias ventriculares bradicardia-dependentes, como torsades por pausa.
Cuidado com a atribuição
- Atleta bem treinado com bradicardia sinusal assintomática é adaptação fisiológica.
- Bradicardia durante o sono, incluindo Wenckebach noturno, pode ser fisiológica.
- Hipotensão por sepse ou hipovolemia com bradicardia associada exige tratar a causa, não apenas acelerar o ritmo.
- Hipoxemia grave pode causar bradicardia pré-terminal — o tratamento é oxigenar e ventilar, não atropinizar.
- Em hipertensão intracraniana, a bradicardia é sinal de gravidade neurológica, não alvo primário.
Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, técnica e cuidados. Confira sempre a bula, a apresentação disponível e o protocolo institucional antes de prescrever.
Estabilização aguda
A atropina é ponte, não solução. Nos bloqueios infra-hissianos, a estimulação é o tratamento — e deve ser preparada em paralelo, não depois.
Causas reversíveis e tratamento definitivo
Antes de indicar dispositivo, esgote as causas corrigíveis — elas respondem por uma parcela relevante dos bloqueios atendidos na emergência.
Classificador do bloqueio
Informe o padrão observado no traçado. A ferramenta identifica o grau, o tipo e estima o nível anatômico provável do bloqueio, que é o dado que orienta o prognóstico e a conduta.
Ritmo de escape — origem e confiabilidade
Quanto mais distal a origem do escape, mais lento e menos confiável ele é. Informe a frequência ventricular e a largura do QRS para estimar a origem e o grau de urgência da estimulação.
Fármacos cronotrópicos por peso
Calcula as doses usadas na bradicardia sintomática. Informe o peso e o nível provável do bloqueio — a ferramenta sinaliza quando a atropina tende a ser ineficaz ou até prejudicial.
Indicação de marca-passo definitivo
Marque os achados presentes. O ponto decisivo é que uma causa completamente reversível pode dispensar o dispositivo — e por isso ela precisa ser ativamente procurada antes do encaminhamento.
De onde vem o bloqueio
A busca ativa por causa reversível é o passo que mais muda a conduta — porque pode transformar um paciente candidato a dispositivo permanente em alguém que apenas precisa suspender um comprimido.
| Causa | Como reconhecer | Conduta |
|---|---|---|
| Fármacos | A causa reversível mais frequente. Betabloqueadores, antagonistas de cálcio não di-hidropiridínicos, digoxina, amiodarona, clonidina, colinesterásicos e lítio. | Revisar a prescrição inteira e suspender. Antídotos específicos nas intoxicações. |
| Doença degenerativa | Fibrose progressiva do sistema de condução, associada à idade. Doenças de Lev e de Lenègre. | Causa irreversível — é a indicação clássica de marca-passo definitivo. |
| Isquemia e infarto | Inferior: bloqueio nodal, transitório, com escape estável. Anterior: bloqueio infra-hissiano, com necrose extensa e mau prognóstico. | Reperfusão. No inferior, aguardar recuperação; no anterior, limiar baixo para dispositivo. |
| Hipercalemia | Ondas T apiculadas, achatamento da onda P, alargamento progressivo do QRS até padrão sinusoidal. | Cálcio imediato para estabilizar a membrana, seguido de medidas de deslocamento e remoção do potássio. |
| Tônus vagal elevado | Atletas, sono, dor, náusea, manobra de Valsalva, aspiração traqueal, distensão vesical. | Habitualmente benigno e transitório. Retirar o estímulo desencadeante. |
| Pós-operatório cardíaco | Cirurgia valvar, sobretudo aórtica, e correção de cardiopatia congênita. Trauma direto do sistema de condução. | Período de observação com estimulação temporária; parte se recupera. |
| Implante valvar transcateter | Complicação frequente. Bloqueio de ramo direito prévio é o preditor mais forte. | Monitorização; marca-passo se persistir por 24 a 48 horas ou se surgir bloqueio de ramo alternante. |
| Doenças infiltrativas e inflamatórias | Sarcoidose — considerar em bloqueio de alto grau em paciente com menos de 60 anos —, amiloidose, miocardite e endocardite com abscesso. | Investigação dirigida com imagem; o bloqueio pode ser a primeira manifestação da doença. |
| Doença de Chagas | Relevante no Brasil. Bloqueio de ramo direito com hemibloqueio anterior esquerdo, evoluindo para bloqueio avançado. | Sorologia com epidemiologia compatível; acompanhamento da progressão. |
| Infecciosas | Doença de Lyme em áreas endêmicas, febre reumática aguda, difteria. | Tratamento específico; o bloqueio da doença de Lyme costuma ser reversível com antibiótico. |
| Endócrinas e metabólicas | Hipotireoidismo, insuficiência adrenal, hipotermia. | Corrigir o distúrbio de base; o bloqueio costuma reverter. |
| Congênito | Bloqueio completo congênito, frequentemente associado a lúpus materno. | Acompanhamento especializado desde a infância; indicação de dispositivo por critérios próprios. |
Investigação
- Eletrocardiograma de 12 derivações e tira longa de ritmo em pelo menos duas derivações.
- Revisão completa da prescrição, incluindo colírios com betabloqueador e fitoterápicos — a causa reversível mais frequente é medicamentosa.
- Potássio, magnésio, cálcio e função renal.
- Hormônio tireoestimulante — o hipotireoidismo é causa subdiagnosticada.
- Troponina e avaliação de isquemia — o bloqueio pode ser a manifestação de infarto em curso.
- Digoxinemia quando aplicável, lembrando que a toxicidade ocorre mesmo com níveis dentro da faixa em pacientes hipocalêmicos.
- Ecocardiograma transtorácico — avalia função ventricular, valvopatia e cardiopatia estrutural.
- Ressonância cardíaca quando se suspeita de doença infiltrativa, inflamatória ou de miocardite.
- Sorologia para Chagas com epidemiologia compatível; sorologia para Lyme em áreas endêmicas.
- Monitorização prolongada — Holter, monitor de eventos ou monitor implantável quando os sintomas são intermitentes.
- Teste ergométrico — melhora do bloqueio sugere nível nodal, piora sugere infra-hissiano.
- Estudo eletrofisiológico com medida do intervalo HV quando o nível do bloqueio define a conduta.
Marca-passo definitivo
Indicações estabelecidas
- Terceiro grau e Mobitz II, permanentes ou paroxísticos, independentemente de sintomas.
- Bloqueio de alto grau, com relação de 3:1 ou maior.
- Bloqueio de ramo alternante, com ou sem sintomas.
- Síncope com bloqueio bifascicular e HV igual ou superior a 70 ms, ou bloqueio intra ou infra-hissiano ao estudo eletrofisiológico.
- Após implante valvar transcateter, com bloqueio completo ou de alto grau persistindo por 24 a 48 horas.
- Mobitz I sintomático ou com bloqueio em nível intra ou infra-hissiano.
Escolha do modo
- DDD — dupla câmara, preserva o sincronismo atrioventricular; é o padrão no bloqueio com ritmo sinusal presente.
- VVI — câmara única ventricular, indicado quando há fibrilação atrial permanente associada.
- Ressincronização — preferida à estimulação isolada do ventrículo direito em pacientes com fração de ejeção abaixo de 40% e indicação de estimulação ventricular por bloqueio de alto grau.
- Estimulação do sistema de condução — feixe de His ou ramo esquerdo. Alternativa promissora e crescente, que preserva a ativação fisiológica; ainda em consolidação nas diretrizes.
- Marca-passo sem eletrodo — alternativa quando não há acesso venoso de membro superior ou o risco de infecção de loja é elevado.
- Minimizar estimulação ventricular desnecessária por programação, quando a condução própria estiver preservada.
Situações com manejo próprio
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Infarto inferior | Bloqueio tipicamente nodal, por isquemia do nó ou por reflexo vagal, com escape juncional estável e QRS estreito. | Habitualmente transitório — responde à atropina e resolve em dias. Reperfusão é o tratamento. Limiar alto para dispositivo definitivo. |
| Infarto anterior | Bloqueio infra-hissiano, por necrose extensa do septo e dos ramos. Escape ventricular lento e instável. | Mau prognóstico — indica infarto extenso. Estimulação preparada precocemente e limiar baixo para dispositivo definitivo. |
| Hipercalemia | Pode causar bloqueio de qualquer grau, com alargamento progressivo do QRS e achatamento da onda P. | Cálcio imediato para estabilizar a membrana, seguido das medidas de deslocamento e remoção. A atropina e o marca-passo funcionam mal enquanto o potássio estiver alto. |
| Intoxicação por betabloqueador | Bradicardia, hipotensão e, com propranolol, também alargamento do QRS e convulsões. | Glucagon, altas doses de insulina com glicose, cálcio e vasopressores. A atropina isoladamente costuma ser insuficiente. |
| Intoxicação por antagonista de cálcio | Bradicardia com hipotensão marcante; hiperglicemia é pista laboratorial característica. | Cálcio em altas doses, insulina com glicose, vasopressores e, em casos refratários, emulsão lipídica. |
| Intoxicação digitálica | Bloqueio de graus variados, taquicardia atrial com bloqueio, TV bidirecional. Toxicidade ocorre mesmo com nível terapêutico se houver hipocalemia. | Anticorpo antidigoxina; corrigir potássio e magnésio. Evitar cardioversão eletiva; cautela com cálcio. |
| Coração transplantado | Órgão denervado — a atropina não tem efeito e pode causar bloqueio paradoxal de alto grau ou parada sinusal. | Evitar atropina. Use isoproterenol ou estimulação direta. |
| Atleta | Bradicardia sinusal, bloqueio de primeiro grau e Wenckebach noturno são achados fisiológicos, por tônus vagal elevado. | Não tratar se assintomático e se o bloqueio desaparecer com o esforço. Persistência ao esforço exige investigação. |
| Idoso com síncope | Bloqueio intermitente pode não aparecer no traçado de repouso nem no Holter de 24 horas. | Monitor implantável quando os episódios são raros e o diagnóstico permanece indefinido. |
| Gestação | Bloqueio congênito previamente compensado pode descompensar com o aumento da demanda. | Acompanhamento conjunto com cardiologia e obstetrícia; estimulação temporária ou definitiva quando indicada, com proteção contra radiação. |
Erros comuns
- Classificar Mobitz I como Mobitz II por analisar apenas uma tira curta, sem comparar o PR antes e depois da pausa.
- Rotular bloqueio 2:1 como Mobitz I ou II sem recorrer às pistas indiretas — não é possível classificá-lo só por essa tira.
- Ignorar a largura do QRS, que é a pista mais acessível sobre o nível do bloqueio.
- Administrar atropina em bloqueio infra-hissiano, com risco de piora paradoxal.
- Usar atropina em coração transplantado, podendo causar bloqueio de alto grau ou parada sinusal.
- Atrasar a estimulação enquanto se repete a atropina no paciente instável.
- Não preparar o marca-passo transcutâneo em paralelo às medidas farmacológicas.
- Assumir captura do marca-passo transcutâneo apenas pela espícula, sem confirmar o pulso.
- Aplicar estimulação transcutânea sem sedação e analgesia em paciente consciente.
- Confundir artefato muscular com captura no monitor durante a estimulação transcutânea.
- Não revisar a prescrição em busca de fármacos bradicardizantes — a causa reversível mais frequente.
- Esquecer colírios com betabloqueador, que têm absorção sistêmica relevante.
- Não dosar potássio antes de indicar dispositivo.
- Não investigar isquemia aguda diante de bloqueio novo.
- Não dosar hormônio tireoestimulante em bloqueio sem causa evidente.
- Indicar marca-passo definitivo em bloqueio por infarto inferior antes de aguardar a recuperação.
- Indicar dispositivo sem antes excluir causa completamente reversível.
- Não considerar sarcoidose cardíaca em bloqueio de alto grau abaixo dos 60 anos.
- Tratar bradicardia fisiológica de atleta assintomático.
- Dar alta a paciente com Mobitz II ou bloqueio completo sem encaminhamento à eletrofisiologia.
Resumo do fluxo
- Monitorização, acesso venoso, oximetria e material de estimulação ao lado; eletrocardiograma de 12 derivações e tira longa de ritmo.
- AVALIE A ESTABILIDADE: instabilidade ATRIBUÍVEL à bradicardia exige intervenção imediata. Corrija antes hipoxemia, hipovolemia e dor.
- Classifique o grau e o tipo comparando o PR antes e depois da pausa, num traçado longo.
- ESTIME O NÍVEL: QRS ESTREITO sugere nodal, com escape confiável; QRS LARGO sugere infra-hissiano, com escape lento e risco de assistolia.
- Instável: atropina 1 mg, repetindo a cada 3 a 5 minutos até 3 mg, enquanto prepara a estimulação.
- Lembre que a atropina não funciona no bloqueio infra-hissiano e é contraindicada no coração transplantado.
- Sem resposta: marca-passo transcutâneo com sedação, ou dopamina de 5 a 20 mcg/kg/min, ou adrenalina de 2 a 10 mcg/min.
- Confirme a captura: espícula seguida de QRS alargado e pulso palpável correspondente.
- Revise a prescrição e suspenda os fármacos bradicardizantes; considere antídotos nas intoxicações.
- Colha potássio, função renal, hormônio tireoestimulante e troponina; investigue isquemia aguda.
- Providencie marca-passo transvenoso se a dependência de estimulação for prolongada.
- ANTES DE INDICAR DISPOSITIVO: exclua causa completamente reversível — fármaco, hipercalemia, isquemia inferior, hipotireoidismo.
- Sem causa reversível, Mobitz II, alto grau e terceiro grau têm indicação de marca-passo definitivo, independentemente de sintomas.
- Encaminhe à eletrofisiologia e, com fração de ejeção abaixo de 40%, discuta ressincronização em vez de estimulação isolada do ventrículo direito.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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- Auffret V, Puri R, Urena M, et al. Conduction disturbances after transcatheter aortic valve replacement. Circulation. 2017;136(11):1049-1069.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, parâmetros de estimulação, critérios e condutas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.
Informações rápidas
Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Classificar
Primeiro grau: PR acima de 200 ms com todas as P conduzindo. Mobitz I: PR alarga progressivamente até uma P bloquear. Mobitz II: PR constante com P bloqueada de forma súbita. Alto grau: duas ou mais P consecutivas bloqueadas. Terceiro grau: nenhuma P conduz, com dissociação e escape regular. O 2:1 não pode ser classificado como I ou II apenas pela tira.
Localizar
O nível importa mais que o grau. QRS estreito e PR longo sugerem bloqueio nodal, com escape juncional de 40 a 60 bpm, razoavelmente confiável, que melhora com atropina e esforço. QRS largo sugere bloqueio infra-hissiano, com escape ventricular de 20 a 40 bpm, instável, que não melhora e pode piorar com atropina.
Estabilizar
Instabilidade atribuível à bradicardia: atropina 1 mg a cada 3 a 5 minutos, até 3 mg, enquanto prepara a estimulação — ela é ponte, não solução. Sem resposta: marca-passo transcutâneo com sedação, dopamina de 5 a 20 mcg/kg/min ou adrenalina de 2 a 10 mcg/min. Confirme a captura pelo pulso, não apenas pela espícula no monitor.
Investigar
Fármacos são a causa reversível mais frequente — revise a prescrição inteira, incluindo colírios. Procure hipercalemia, isquemia, hipotireoidismo e infecção. O bloqueio do infarto inferior costuma ser nodal e transitório; o do anterior é infra-hissiano e de mau prognóstico. Sem causa reversível, Mobitz II, alto grau e BAVT indicam marca-passo mesmo sem sintomas.
Números rápidos
Primeiro grau: PR acima de 200 ms, com todas as P conduzindo.
Atropina: 1 mg a cada 3 a 5 minutos, até o máximo de 3 mg.
Dopamina: 5 a 20 mcg/kg/min. Adrenalina: 2 a 10 mcg/min.
Escape juncional: 40 a 60 bpm, QRS estreito, razoavelmente confiável.
Escape ventricular: 20 a 40 bpm, QRS largo, instável.
HV patológico: igual ou superior a 70 ms na síncope com bloqueio bifascicular.
Não esqueça
O nível do bloqueio importa mais que o grau.
QRS largo sugere infra-hissiano, com escape lento e risco de assistolia.
Atropina pode piorar o bloqueio infra-hissiano e é contraindicada no coração transplantado.
Confirme a captura do marca-passo pelo pulso, não apenas pela espícula.
Exclua causa completamente reversível antes de indicar o dispositivo.
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Em provas / residência
A banca cobra a diferença entre Mobitz I e Mobitz II, a localização pelo QRS, a resposta paradoxal à atropina e as indicações de marca-passo definitivo.
Decore: Mobitz I alarga o PR e é nodal; Mobitz II tem PR fixo e é infra-hissiano; Mobitz II e BAVT indicam marca-passo mesmo sem sintomas.
