MedFoco

Emergência & UTI • Arritmias

Bloqueios Atrioventriculares

A pergunta que separa o benigno do perigoso não é o grau do bloqueio: é onde ele acontece. Bloqueio acima do His costuma ser vagal, transitório e responde à atropina. Bloqueio abaixo do His tende a progredir, tem escape lento e instável, e a atropina pode até piorar. Duas pistas resolvem a maior parte: a largura do QRS e o comportamento do PR.

Supra ou infra-hissiano Largura do QRS decide Atropina 1 mg, até 3 mg Mobitz II e BAVT: marca-passo
Tempo de leitura: 21 min
Atualizado em: 26/08/2026

Classificar

  • Primeiro grau: PR acima de 200 ms, todas as P conduzem
  • Mobitz I: PR alarga progressivamente até falhar
  • Mobitz II: PR constante e P bloqueada de surpresa
  • Terceiro grau: dissociação com escape regular

Localizar

  • QRS estreito sugere bloqueio no nó, acima do His
  • QRS largo sugere bloqueio no His-Purkinje
  • Supra-hissiano melhora com atropina e esforço
  • Infra-hissiano piora com atropina e com esforço

Estabilizar

  • Instável: atropina 1 mg enquanto prepara o marca-passo
  • Sem resposta: dopamina, adrenalina ou estimulação
  • Marca-passo transcutâneo exige sedação e captura confirmada
  • Transvenoso é a ponte definitiva até o dispositivo

Investigar

  • Fármacos são a causa reversível mais frequente
  • Hipercalemia, isquemia e hipotireoidismo
  • Inferior costuma reverter; anterior costuma não
  • Sem causa reversível, Mobitz II e BAVT pedem marca-passo

O que é bloqueio atrioventricular

Bloqueio atrioventricular é o atraso ou a interrupção da condução do impulso elétrico entre os átrios e os ventrículos. O impulso nasce normalmente no nó sinusal, mas encontra obstáculo em algum ponto do caminho — no nó atrioventricular ou no sistema His-Purkinje.

Essa localização anatômica é o que realmente importa. O grau do bloqueio descreve quanto da condução se perdeu; a localização determina o prognóstico, a resposta ao tratamento e a necessidade de dispositivo.

A pergunta que organiza tudo: o bloqueio é acima ou abaixo do feixe de His? Bloqueio supra-hissiano costuma ser vagal, transitório, com escape juncional estável e boa resposta à atropina. Bloqueio infra-hissiano tende a progredir, tem escape ventricular lento e instável, e a atropina pode agravá-lo.

O caminho do impulso

Entender a anatomia da condução explica por que o mesmo grau de bloqueio tem prognósticos tão diferentes conforme o nível em que ocorre.

Estrutura Características Comportamento quando bloqueia
Nó atrioventricular Condução lenta e decremental, ricamente inervado pelo vago e pelo simpático. Irrigado pela coronária direita na maioria das pessoas. Bloqueio supra-hissiano. Escape juncional a 40 a 60 bpm, com QRS estreito e razoavelmente confiável. Responde à atropina e ao esforço.
Feixe de His Zona de transição curta, com irrigação dupla. Bloqueio intra-hissiano. Comportamento intermediário; frequentemente exige estudo eletrofisiológico para caracterizar.
Ramos e fascículos Condução rápida, pouca inervação autonômica. Território mais suscetível à fibrose degenerativa e ao infarto anterior. Bloqueio infra-hissiano. Escape ventricular a 20 a 40 bpm, com QRS largo e pouco confiável. Não responde à atropina.
Como o nó atrioventricular é ricamente inervado pelo vago, ele responde a estímulos autonômicos — e é por isso que o bloqueio supra-hissiano melhora com atropina, esforço e emoção, enquanto o infra-hissiano não. O sistema His-Purkinje é praticamente surdo ao sistema nervoso autônomo.

Como o paciente se apresenta

O espectro vai do achado incidental completamente assintomático até a síncope recorrente e a parada cardíaca.

  • Assintomático — comum no bloqueio de primeiro grau e no Mobitz I, frequentemente descobertos em exame de rotina.
  • Fadiga, intolerância ao esforço e dispneia — expressão da incompetência cronotrópica e da queda do débito.
  • Tontura e pré-síncope, sobretudo aos esforços.
  • Síncope de Stokes-Adams — perda súbita da consciência, sem pródromos e com recuperação rápida, causada por pausa ventricular. É achado de alarme.
  • Insuficiência cardíaca por bradicardia sustentada e perda do sincronismo atrioventricular.
  • Angina por redução do débito em paciente com doença coronariana.
  • Parada cardíaca por assistolia ou por torsades bradicardia-dependente.

Achados do exame físico

Alguns sinais clássicos, hoje pouco valorizados, ainda ajudam à beira do leito no bloqueio completo.

  • Bradicardia regular que não varia com o esforço nem com a emoção.
  • Ondas A em canhão irregulares no pulso venoso jugular, produzidas quando o átrio contrai contra a valva tricúspide fechada.
  • Variação da intensidade da primeira bulha, decorrente da relação variável entre sístole atrial e ventricular.
  • Pressão de pulso alargada, com hipertensão sistólica pelo aumento do volume de ejeção.
A pergunta que muda a conduta

"Os sintomas coincidem com a bradicardia?" Bradicardia assintomática em atleta jovem é adaptação fisiológica. Bradicardia com síncope é emergência — e a correlação entre sintoma e ritmo é o que define a indicação de dispositivo.

As quatro perguntas da beira do leito

O paciente está instável?

Hipotensão, alteração aguda do nível de consciência, dor isquêmica, congestão pulmonar aguda ou choque atribuíveis à bradicardia exigem intervenção imediata.

Qual o grau e o tipo?

Mobitz I e Mobitz II parecem semelhantes numa tira curta, mas têm prognósticos opostos. Analise o comportamento do intervalo PR ao longo do traçado.

Onde está o bloqueio?

QRS estreito sugere nível nodal, com escape confiável. QRS largo sugere nível infra-hissiano, com escape lento e risco de assistolia.

Existe causa reversível?

Fármacos, hipercalemia, isquemia, hipotireoidismo e infecção. Corrigi-las pode dispensar completamente o marca-passo definitivo.

Antes de indicar dispositivo, revise a prescrição inteira. Fármacos bradicardizantes são a causa reversível mais frequente — betabloqueadores, antagonistas de cálcio não di-hidropiridínicos, digoxina, amiodarona, clonidina e colinesterásicos. Suspendê-los resolve uma parcela relevante dos casos.

Classificação por grau

Grau Eletrocardiograma Significado
Primeiro grau Intervalo PR acima de 200 ms, constante, com todas as ondas P conduzindo. Rigorosamente, é um atraso, não um bloqueio. Habitualmente benigno; PR muito longo, acima de 300 ms, pode gerar sintomas.
Segundo grau — Mobitz I
(Wenckebach)
PR alarga progressivamente a cada batimento até que uma onda P não conduza. O intervalo RR encurta progressivamente, e a pausa é menor que o dobro do RR precedente. Quase sempre supra-hissiano. Curso habitualmente benigno; frequentemente vagal ou medicamentoso.
Segundo grau — Mobitz II PR constante nos batimentos conduzidos, com onda P bloqueada de forma súbita e inesperada. QRS frequentemente largo. Quase sempre infra-hissiano. Alto risco de progressão para bloqueio completo — indicação de marca-passo.
Segundo grau 2:1 Uma onda P conduz e a seguinte é bloqueada, alternadamente. Não é possível classificar como I ou II apenas por essa tira. Exige manobras e pistas indiretas para localizar o nível — ver a seção específica.
Alto grau (avançado) Duas ou mais ondas P consecutivas bloqueadas, com condução ainda presente em alguns batimentos. Relação P para QRS de 3:1 ou maior. Comportamento próximo ao do bloqueio completo. Indicação de marca-passo.
Terceiro grau
(bloqueio completo)
Nenhuma onda P conduz. Dissociação atrioventricular completa, com frequência atrial maior que a ventricular e ritmo de escape regular. Indicação de marca-passo definitivo, salvo causa completamente reversível.
Nem toda dissociação atrioventricular é bloqueio completo. Na dissociação isorrítmica e na dissociação por interferência, o ritmo juncional ou ventricular é mais rápido que o sinusal e simplesmente compete com ele. No bloqueio completo verdadeiro, a frequência atrial é maior que a ventricular — e as P nunca conduzem.

Mobitz I contra Mobitz II

Esta é a distinção mais cobrada e a de maior impacto prático, porque separa o acompanhamento clínico da indicação de dispositivo.

Característica Mobitz I (Wenckebach) Mobitz II
Intervalo PR Alarga progressivamente até a P bloqueada; o primeiro PR após a pausa é o mais curto. Constante em todos os batimentos conduzidos, antes e depois da pausa.
Intervalo RR Encurta progressivamente antes da pausa; a pausa é menor que o dobro do RR precedente. Constante; a pausa equivale exatamente ao dobro do intervalo PP.
Largura do QRS Habitualmente estreito. Frequentemente largo, com padrão de bloqueio de ramo.
Localização Supra-hissiana (nó atrioventricular) na grande maioria. Infra-hissiana (His-Purkinje) na grande maioria.
Resposta à atropina Melhora — a condução se recupera. Não melhora e pode piorar — a aceleração atrial aumenta o grau de bloqueio.
Resposta ao esforço Melhora. Piora — sinal muito útil na diferenciação.
Resposta à manobra vagal Piora. Pode melhorar paradoxalmente, ao lentificar a chegada de impulsos ao His.
Prognóstico Habitualmente benigno; progressão infrequente. Alto risco de progressão para bloqueio completo, com assistolia.
Conduta Tratar a causa; marca-passo apenas se sintomático ou se o bloqueio for intra ou infra-hissiano. Marca-passo definitivo, salvo causa completamente reversível.
Cuidado com a armadilha da tira curta: um Wenckebach com incremento mínimo do PR pode parecer Mobitz II se você só vir dois batimentos conduzidos. Analise um traçado longo, compare o PR do batimento imediatamente antes da pausa com o do imediatamente depois — no Mobitz I eles são diferentes, no Mobitz II são iguais.

O problema do bloqueio 2:1

Com uma P conduzida e a seguinte bloqueada, não existe PR sucessivo para comparar — e por isso o bloqueio 2:1 não pode ser rotulado como Mobitz I ou II apenas pela tira. É preciso recorrer a pistas indiretas.

Sugere nível NODAL (mais benigno)

  • QRS estreito, abaixo de 120 ms.
  • PR longo nos batimentos conduzidos, acima de 300 ms.
  • Presença de períodos de Wenckebach em outros momentos do traçado ou no Holter.
  • Melhora com atropina ou com o esforço.
  • Piora com manobra vagal.
  • Contexto de tônus vagal elevado, fármacos ou infarto inferior.

Sugere nível INFRA-HISSIANO (perigoso)

  • QRS largo, com padrão de bloqueio de ramo.
  • PR normal nos batimentos conduzidos.
  • Presença de bloqueio bifascicular associado.
  • Piora com atropina ou com o esforço.
  • Pode melhorar com manobra vagal.
  • Contexto de infarto anterior, doença degenerativa ou pós-operatório valvar.
Quando as pistas não bastam e a decisão sobre dispositivo depende do resultado, o estudo eletrofisiológico com medida do intervalo HV resolve. Um HV igual ou superior a 70 ms, ou a demonstração de bloqueio intra ou infra-hissiano durante estimulação atrial, indica marca-passo.

A distinção que muda tudo

Duas situações com o mesmo rótulo eletrocardiográfico podem ter prognósticos opostos. O que separa é o nível anatômico do bloqueio, e as consequências práticas são imediatas.

Característica Supra-hissiano (nodal) Infra-hissiano (His-Purkinje)
Largura do QRS Habitualmente estreito. Habitualmente largo, com padrão de bloqueio de ramo.
Ritmo de escape Juncional, a 40 a 60 bpm, com QRS estreito e razoavelmente confiável. Ventricular, a 20 a 40 bpm, com QRS largo e pouco confiável. Risco real de assistolia.
Resposta à atropina Melhora a condução. Não melhora; pode agravar ao acelerar a chegada de impulsos a um sistema que não os conduz.
Resposta ao esforço Melhora. Piora.
Resposta à manobra vagal Piora. Pode melhorar paradoxalmente.
Causas típicas Tônus vagal elevado, fármacos bradicardizantes, infarto inferior, atleta, hipercalemia. Doença degenerativa do sistema de condução, infarto anterior, pós-operatório valvar, doenças infiltrativas.
Evolução Frequentemente transitório e reversível com a correção da causa. Frequentemente progressivo e irreversível.
Marca-passo definitivo Apenas se sintomático e sem causa reversível. Indicado na maioria dos casos, mesmo sem sintomas.
A consequência mais perigosa da confusão: administrar atropina num bloqueio infra-hissiano. A droga acelera o nó sinusal e aumenta o número de impulsos que chegam a um sistema His-Purkinje incapaz de conduzi-los — o resultado pode ser aumento do grau de bloqueio e queda adicional da frequência ventricular.

O ritmo de escape conta a história

Quando a condução falha, um marca-passo subsidiário assume. Quanto mais distal a origem do escape, mais lento e menos confiável ele é — e essa é uma das informações prognósticas mais úteis do traçado.

Origem do escape Frequência QRS Confiabilidade
Juncional alto 50 a 60 bpm Estreito Boa. Costuma manter débito adequado em repouso.
Juncional baixo 40 a 50 bpm Estreito Razoável, mas com pouca reserva ao esforço.
Fascicular 30 a 40 bpm Largo Limitada. Sintomas frequentes; prepare estimulação.
Ventricular distal 20 a 30 bpm Muito largo Ruim. Instável, com risco real de assistolia — estimulação sem demora.
Ausente Assistolia — protocolo de parada cardiorrespiratória.
Um escape ventricular largo e lento em paciente com bloqueio completo é sinal de que o único gerador remanescente está muito distal. Esse paciente precisa de estimulação preparada e ao lado, ainda que esteja momentaneamente estável — a margem entre 25 bpm e a assistolia é estreita.

Manobras para localizar o bloqueio

Quando o eletrocardiograma não resolve, algumas manobras à beira do leito ajudam — sempre com monitorização contínua e material de estimulação disponível.

  1. Registre um traçado longo de ritmo, em pelo menos duas derivações, antes de qualquer manobra.
  2. Meça e anote o intervalo PR dos batimentos conduzidos e a largura do QRS.
  3. Procure, no traçado ou no Holter, períodos de Wenckebach que confirmem nível nodal.
  4. Esforço leve ou manobra que aumente o tônus adrenérgico: melhora aponta nível nodal; piora aponta infra-hissiano.
  5. ATROPINA COMO TESTE: só com marca-passo transcutâneo posicionado e pronto. A resposta paradoxal do bloqueio infra-hissiano pode reduzir ainda mais a frequência.
  6. Manobra vagal, com cautela: piora no nodal, possível melhora paradoxal no infra-hissiano.
  7. Diante de dúvida persistente com impacto na decisão sobre dispositivo, encaminhe para estudo eletrofisiológico com medida do intervalo HV.
  8. Considere monitorização prolongada — Holter, monitor de eventos ou monitor implantável — quando os sintomas são intermitentes e o traçado de repouso é normal.
Nunca use atropina como teste diagnóstico em paciente com bloqueio de alto grau sem ter a estimulação transcutânea posicionada e testada. O objetivo da manobra é informação; o risco é uma queda adicional da frequência em quem já tem pouca reserva.

Sequência de abordagem

  1. Monitorização contínua, acesso venoso, oximetria, oxigênio se saturação abaixo de 90% e material de estimulação ao lado.
  2. Registre o eletrocardiograma de 12 derivações e uma tira longa de ritmo em duas derivações.
  3. AVALIE A ESTABILIDADE: hipotensão, alteração aguda do nível de consciência, dor isquêmica, congestão pulmonar aguda ou choque ATRIBUÍVEIS à bradicardia exigem intervenção imediata.
  4. Classifique o grau e o tipo, e estime o nível do bloqueio pela largura do QRS e pelo comportamento do PR.
  5. Instável: atropina 1 mg por via intravenosa, repetindo a cada 3 a 5 minutos até o máximo de 3 mg, enquanto prepara a estimulação.
  6. NÃO ATRASE A ESTIMULAÇÃO por causa da atropina. Em bloqueio infra-hissiano ela não funciona e pode piorar — a atropina é medida de ponte, não a solução.
  7. Sem resposta: marca-passo transcutâneo com sedação e analgesia, ou infusão de dopamina ou adrenalina.
  8. Confirme a captura elétrica e mecânica — espícula seguida de QRS alargado e pulso palpável correspondente.
  9. Revise a prescrição e suspenda os fármacos bradicardizantes; considere antídotos específicos nas intoxicações.
  10. Colha potássio, função renal, hormônio tireoestimulante, troponina e digoxinemia quando aplicável.
  11. Investigue isquemia aguda — o bloqueio pode ser a manifestação de um infarto em curso.
  12. Providencie marca-passo transvenoso como ponte quando a dependência de estimulação for prolongada.
  13. Defina a necessidade de marca-passo definitivo depois de excluídas ou corrigidas as causas reversíveis.

Quando a bradicardia é a culpada

Assim como nas taquiarritmias, o critério é a atribuição: os sinais de instabilidade precisam decorrer da bradicardia, e não de outra doença que apenas coexiste com ela.

Sinais de instabilidade

  • Hipotensão com sinais de má perfusão.
  • Alteração aguda do nível de consciência, síncope ou pré-síncope.
  • Dor torácica isquêmica em curso.
  • Congestão pulmonar aguda ou insuficiência cardíaca descompensada.
  • Sinais de choque: oligúria, livedo, lactato elevado.
  • Arritmias ventriculares bradicardia-dependentes, como torsades por pausa.

Cuidado com a atribuição

  • Atleta bem treinado com bradicardia sinusal assintomática é adaptação fisiológica.
  • Bradicardia durante o sono, incluindo Wenckebach noturno, pode ser fisiológica.
  • Hipotensão por sepse ou hipovolemia com bradicardia associada exige tratar a causa, não apenas acelerar o ritmo.
  • Hipoxemia grave pode causar bradicardia pré-terminal — o tratamento é oxigenar e ventilar, não atropinizar.
  • Em hipertensão intracraniana, a bradicardia é sinal de gravidade neurológica, não alvo primário.
Bradicardia com hipoxemia grave é frequentemente pré-parada. A conduta é oxigenação e ventilação imediatas — administrar atropina sem corrigir a hipóxia trata o número no monitor e ignora a causa.
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, técnica e cuidados. Confira sempre a bula, a apresentação disponível e o protocolo institucional antes de prescrever.

Estabilização aguda

A atropina é ponte, não solução. Nos bloqueios infra-hissianos, a estimulação é o tratamento — e deve ser preparada em paralelo, não depois.

Causas reversíveis e tratamento definitivo

Antes de indicar dispositivo, esgote as causas corrigíveis — elas respondem por uma parcela relevante dos bloqueios atendidos na emergência.

Classificador do bloqueio

Grau e tipo Nível provável

Informe o padrão observado no traçado. A ferramenta identifica o grau, o tipo e estima o nível anatômico provável do bloqueio, que é o dado que orienta o prognóstico e a conduta.

Grau e tipo
Nível provável
Leitura
Ferramenta de apoio à leitura, não substitui a interpretação por profissional experiente. Analise sempre um traçado longo: um Wenckebach com incremento mínimo do PR pode parecer Mobitz II numa tira curta. A estimativa do nível é probabilística — quando a decisão sobre dispositivo depende dela, o estudo eletrofisiológico com medida do intervalo HV é o exame definitivo.

Ritmo de escape — origem e confiabilidade

Frequência e QRS Risco de assistolia

Quanto mais distal a origem do escape, mais lento e menos confiável ele é. Informe a frequência ventricular e a largura do QRS para estimar a origem e o grau de urgência da estimulação.

Origem provável
Confiabilidade
Leitura
Informe a frequência ventricular
A largura do QRS indica quão distal é o marca-passo subsidiário
Um escape largo e lento significa que o único gerador remanescente está muito distal, com pouca reserva e risco real de falha. Esse paciente precisa de estimulação preparada e ao lado mesmo que esteja momentaneamente estável. Atenção: um QRS largo pode também refletir bloqueio de ramo preexistente em escape juncional — compare com traçados prévios em ritmo sinusal sempre que possível.

Fármacos cronotrópicos por peso

Doses calculadas Alerta de resposta paradoxal

Calcula as doses usadas na bradicardia sintomática. Informe o peso e o nível provável do bloqueio — a ferramenta sinaliza quando a atropina tende a ser ineficaz ou até prejudicial.

Dopamina — faixa
Adrenalina — faixa
2 a 10 mcg/min
Atropina — dose máxima
3 mg
Recomendação
Informe o peso
O nível do bloqueio define se a atropina tende a funcionar
Esquemas detalhados
Ferramenta de apoio à prescrição, não substitui a conferência da bula nem o protocolo institucional. Nenhum fármaco substitui a estimulação quando ela está indicada — prepare o marca-passo transcutâneo em paralelo, e não depois de esgotar as drogas. Corrija também hipoxemia, distúrbios eletrolíticos e as causas reversíveis, que frequentemente resolvem o quadro sozinhas.

Indicação de marca-passo definitivo

Indicações de classe I Causas reversíveis

Marque os achados presentes. O ponto decisivo é que uma causa completamente reversível pode dispensar o dispositivo — e por isso ela precisa ser ativamente procurada antes do encaminhamento.

Indicações estabelecidas
Indicações a considerar
Causas reversíveis que podem dispensar o dispositivo
Leitura
Marque os achados presentes
A decisão final é do cardiologista ou eletrofisiologista, em avaliação individualizada
Ferramenta de apoio ao encaminhamento, não substitui a avaliação especializada. Quanto ao modo de estimulação: em pacientes com fração de ejeção abaixo de 40% e indicação de estimulação ventricular por bloqueio de alto grau, a terapia de ressincronização é preferida à estimulação isolada do ventrículo direito. A estimulação do sistema de condução — feixe de His ou ramo esquerdo — é alternativa promissora e crescente, ainda em consolidação nas diretrizes.

De onde vem o bloqueio

A busca ativa por causa reversível é o passo que mais muda a conduta — porque pode transformar um paciente candidato a dispositivo permanente em alguém que apenas precisa suspender um comprimido.

Causa Como reconhecer Conduta
Fármacos A causa reversível mais frequente. Betabloqueadores, antagonistas de cálcio não di-hidropiridínicos, digoxina, amiodarona, clonidina, colinesterásicos e lítio. Revisar a prescrição inteira e suspender. Antídotos específicos nas intoxicações.
Doença degenerativa Fibrose progressiva do sistema de condução, associada à idade. Doenças de Lev e de Lenègre. Causa irreversível — é a indicação clássica de marca-passo definitivo.
Isquemia e infarto Inferior: bloqueio nodal, transitório, com escape estável. Anterior: bloqueio infra-hissiano, com necrose extensa e mau prognóstico. Reperfusão. No inferior, aguardar recuperação; no anterior, limiar baixo para dispositivo.
Hipercalemia Ondas T apiculadas, achatamento da onda P, alargamento progressivo do QRS até padrão sinusoidal. Cálcio imediato para estabilizar a membrana, seguido de medidas de deslocamento e remoção do potássio.
Tônus vagal elevado Atletas, sono, dor, náusea, manobra de Valsalva, aspiração traqueal, distensão vesical. Habitualmente benigno e transitório. Retirar o estímulo desencadeante.
Pós-operatório cardíaco Cirurgia valvar, sobretudo aórtica, e correção de cardiopatia congênita. Trauma direto do sistema de condução. Período de observação com estimulação temporária; parte se recupera.
Implante valvar transcateter Complicação frequente. Bloqueio de ramo direito prévio é o preditor mais forte. Monitorização; marca-passo se persistir por 24 a 48 horas ou se surgir bloqueio de ramo alternante.
Doenças infiltrativas e inflamatórias Sarcoidose — considerar em bloqueio de alto grau em paciente com menos de 60 anos —, amiloidose, miocardite e endocardite com abscesso. Investigação dirigida com imagem; o bloqueio pode ser a primeira manifestação da doença.
Doença de Chagas Relevante no Brasil. Bloqueio de ramo direito com hemibloqueio anterior esquerdo, evoluindo para bloqueio avançado. Sorologia com epidemiologia compatível; acompanhamento da progressão.
Infecciosas Doença de Lyme em áreas endêmicas, febre reumática aguda, difteria. Tratamento específico; o bloqueio da doença de Lyme costuma ser reversível com antibiótico.
Endócrinas e metabólicas Hipotireoidismo, insuficiência adrenal, hipotermia. Corrigir o distúrbio de base; o bloqueio costuma reverter.
Congênito Bloqueio completo congênito, frequentemente associado a lúpus materno. Acompanhamento especializado desde a infância; indicação de dispositivo por critérios próprios.
Diante de bloqueio de alto grau em paciente com menos de 60 anos e sem causa evidente, considere ativamente sarcoidose cardíaca. Ela pode se manifestar primeiro pelo distúrbio de condução, e o diagnóstico muda o tratamento — que passa a incluir imunossupressão, além do dispositivo.

Investigação

  • Eletrocardiograma de 12 derivações e tira longa de ritmo em pelo menos duas derivações.
  • Revisão completa da prescrição, incluindo colírios com betabloqueador e fitoterápicos — a causa reversível mais frequente é medicamentosa.
  • Potássio, magnésio, cálcio e função renal.
  • Hormônio tireoestimulante — o hipotireoidismo é causa subdiagnosticada.
  • Troponina e avaliação de isquemia — o bloqueio pode ser a manifestação de infarto em curso.
  • Digoxinemia quando aplicável, lembrando que a toxicidade ocorre mesmo com níveis dentro da faixa em pacientes hipocalêmicos.
  • Ecocardiograma transtorácico — avalia função ventricular, valvopatia e cardiopatia estrutural.
  • Ressonância cardíaca quando se suspeita de doença infiltrativa, inflamatória ou de miocardite.
  • Sorologia para Chagas com epidemiologia compatível; sorologia para Lyme em áreas endêmicas.
  • Monitorização prolongada — Holter, monitor de eventos ou monitor implantável quando os sintomas são intermitentes.
  • Teste ergométrico — melhora do bloqueio sugere nível nodal, piora sugere infra-hissiano.
  • Estudo eletrofisiológico com medida do intervalo HV quando o nível do bloqueio define a conduta.

Marca-passo definitivo

Indicações estabelecidas

  • Terceiro grau e Mobitz II, permanentes ou paroxísticos, independentemente de sintomas.
  • Bloqueio de alto grau, com relação de 3:1 ou maior.
  • Bloqueio de ramo alternante, com ou sem sintomas.
  • Síncope com bloqueio bifascicular e HV igual ou superior a 70 ms, ou bloqueio intra ou infra-hissiano ao estudo eletrofisiológico.
  • Após implante valvar transcateter, com bloqueio completo ou de alto grau persistindo por 24 a 48 horas.
  • Mobitz I sintomático ou com bloqueio em nível intra ou infra-hissiano.

Escolha do modo

  • DDD — dupla câmara, preserva o sincronismo atrioventricular; é o padrão no bloqueio com ritmo sinusal presente.
  • VVI — câmara única ventricular, indicado quando há fibrilação atrial permanente associada.
  • Ressincronizaçãopreferida à estimulação isolada do ventrículo direito em pacientes com fração de ejeção abaixo de 40% e indicação de estimulação ventricular por bloqueio de alto grau.
  • Estimulação do sistema de condução — feixe de His ou ramo esquerdo. Alternativa promissora e crescente, que preserva a ativação fisiológica; ainda em consolidação nas diretrizes.
  • Marca-passo sem eletrodo — alternativa quando não há acesso venoso de membro superior ou o risco de infecção de loja é elevado.
  • Minimizar estimulação ventricular desnecessária por programação, quando a condução própria estiver preservada.
O passo mais importante antes do encaminhamento: excluir causa completamente reversível. Um bloqueio de alto grau por betabloqueador em dose excessiva, por hipercalemia ou por infarto inferior pode reverter integralmente — implantar um dispositivo nesse paciente é expô-lo a riscos de procedimento e de longo prazo sem necessidade.

Situações com manejo próprio

Cenário Particularidade O que fazer diferente
Infarto inferior Bloqueio tipicamente nodal, por isquemia do nó ou por reflexo vagal, com escape juncional estável e QRS estreito. Habitualmente transitório — responde à atropina e resolve em dias. Reperfusão é o tratamento. Limiar alto para dispositivo definitivo.
Infarto anterior Bloqueio infra-hissiano, por necrose extensa do septo e dos ramos. Escape ventricular lento e instável. Mau prognóstico — indica infarto extenso. Estimulação preparada precocemente e limiar baixo para dispositivo definitivo.
Hipercalemia Pode causar bloqueio de qualquer grau, com alargamento progressivo do QRS e achatamento da onda P. Cálcio imediato para estabilizar a membrana, seguido das medidas de deslocamento e remoção. A atropina e o marca-passo funcionam mal enquanto o potássio estiver alto.
Intoxicação por betabloqueador Bradicardia, hipotensão e, com propranolol, também alargamento do QRS e convulsões. Glucagon, altas doses de insulina com glicose, cálcio e vasopressores. A atropina isoladamente costuma ser insuficiente.
Intoxicação por antagonista de cálcio Bradicardia com hipotensão marcante; hiperglicemia é pista laboratorial característica. Cálcio em altas doses, insulina com glicose, vasopressores e, em casos refratários, emulsão lipídica.
Intoxicação digitálica Bloqueio de graus variados, taquicardia atrial com bloqueio, TV bidirecional. Toxicidade ocorre mesmo com nível terapêutico se houver hipocalemia. Anticorpo antidigoxina; corrigir potássio e magnésio. Evitar cardioversão eletiva; cautela com cálcio.
Coração transplantado Órgão denervado — a atropina não tem efeito e pode causar bloqueio paradoxal de alto grau ou parada sinusal. Evitar atropina. Use isoproterenol ou estimulação direta.
Atleta Bradicardia sinusal, bloqueio de primeiro grau e Wenckebach noturno são achados fisiológicos, por tônus vagal elevado. Não tratar se assintomático e se o bloqueio desaparecer com o esforço. Persistência ao esforço exige investigação.
Idoso com síncope Bloqueio intermitente pode não aparecer no traçado de repouso nem no Holter de 24 horas. Monitor implantável quando os episódios são raros e o diagnóstico permanece indefinido.
Gestação Bloqueio congênito previamente compensado pode descompensar com o aumento da demanda. Acompanhamento conjunto com cardiologia e obstetrícia; estimulação temporária ou definitiva quando indicada, com proteção contra radiação.

Erros comuns

  • Classificar Mobitz I como Mobitz II por analisar apenas uma tira curta, sem comparar o PR antes e depois da pausa.
  • Rotular bloqueio 2:1 como Mobitz I ou II sem recorrer às pistas indiretas — não é possível classificá-lo só por essa tira.
  • Ignorar a largura do QRS, que é a pista mais acessível sobre o nível do bloqueio.
  • Administrar atropina em bloqueio infra-hissiano, com risco de piora paradoxal.
  • Usar atropina em coração transplantado, podendo causar bloqueio de alto grau ou parada sinusal.
  • Atrasar a estimulação enquanto se repete a atropina no paciente instável.
  • Não preparar o marca-passo transcutâneo em paralelo às medidas farmacológicas.
  • Assumir captura do marca-passo transcutâneo apenas pela espícula, sem confirmar o pulso.
  • Aplicar estimulação transcutânea sem sedação e analgesia em paciente consciente.
  • Confundir artefato muscular com captura no monitor durante a estimulação transcutânea.
  • Não revisar a prescrição em busca de fármacos bradicardizantes — a causa reversível mais frequente.
  • Esquecer colírios com betabloqueador, que têm absorção sistêmica relevante.
  • Não dosar potássio antes de indicar dispositivo.
  • Não investigar isquemia aguda diante de bloqueio novo.
  • Não dosar hormônio tireoestimulante em bloqueio sem causa evidente.
  • Indicar marca-passo definitivo em bloqueio por infarto inferior antes de aguardar a recuperação.
  • Indicar dispositivo sem antes excluir causa completamente reversível.
  • Não considerar sarcoidose cardíaca em bloqueio de alto grau abaixo dos 60 anos.
  • Tratar bradicardia fisiológica de atleta assintomático.
  • Dar alta a paciente com Mobitz II ou bloqueio completo sem encaminhamento à eletrofisiologia.

Resumo do fluxo

  1. Monitorização, acesso venoso, oximetria e material de estimulação ao lado; eletrocardiograma de 12 derivações e tira longa de ritmo.
  2. AVALIE A ESTABILIDADE: instabilidade ATRIBUÍVEL à bradicardia exige intervenção imediata. Corrija antes hipoxemia, hipovolemia e dor.
  3. Classifique o grau e o tipo comparando o PR antes e depois da pausa, num traçado longo.
  4. ESTIME O NÍVEL: QRS ESTREITO sugere nodal, com escape confiável; QRS LARGO sugere infra-hissiano, com escape lento e risco de assistolia.
  5. Instável: atropina 1 mg, repetindo a cada 3 a 5 minutos até 3 mg, enquanto prepara a estimulação.
  6. Lembre que a atropina não funciona no bloqueio infra-hissiano e é contraindicada no coração transplantado.
  7. Sem resposta: marca-passo transcutâneo com sedação, ou dopamina de 5 a 20 mcg/kg/min, ou adrenalina de 2 a 10 mcg/min.
  8. Confirme a captura: espícula seguida de QRS alargado e pulso palpável correspondente.
  9. Revise a prescrição e suspenda os fármacos bradicardizantes; considere antídotos nas intoxicações.
  10. Colha potássio, função renal, hormônio tireoestimulante e troponina; investigue isquemia aguda.
  11. Providencie marca-passo transvenoso se a dependência de estimulação for prolongada.
  12. ANTES DE INDICAR DISPOSITIVO: exclua causa completamente reversível — fármaco, hipercalemia, isquemia inferior, hipotireoidismo.
  13. Sem causa reversível, Mobitz II, alto grau e terceiro grau têm indicação de marca-passo definitivo, independentemente de sintomas.
  14. Encaminhe à eletrofisiologia e, com fração de ejeção abaixo de 40%, discuta ressincronização em vez de estimulação isolada do ventrículo direito.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

  1. Glikson M, Nielsen JC, Kronborg MB, et al. 2021 ESC Guidelines on cardiac pacing and cardiac resynchronization therapy. Eur Heart J. 2021;42(35):3427-3520.
  2. Kusumoto FM, Schoenfeld MH, Barrett C, et al. 2018 ACC/AHA/HRS Guideline on the Evaluation and Management of Patients With Bradycardia and Cardiac Conduction Delay. Circulation. 2019;140(8):e382-e482.
  3. Greif R, et al. Part 9: Adult Advanced Life Support — 2025 American Heart Association Guidelines for CPR and Emergency Cardiovascular Care. Circulation. 2025;152(16 Suppl 2):S538-S577.
  4. Panchal AR, Bartos JA, Cabañas JG, et al. Part 3: Adult Basic and Advanced Life Support — 2020 AHA Guidelines for CPR and ECC. Circulation. 2020;142(16 Suppl 2):S366-S468.
  5. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretrizes Brasileiras de Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis e Diretrizes Brasileiras de Arritmias Cardíacas — versões vigentes. Arq Bras Cardiol.
  6. Barold SS, Hayes DL. Second-degree atrioventricular block: a reappraisal. Mayo Clin Proc. 2001;76(1):44-57.
  7. Josephson ME. Clinical Cardiac Electrophysiology: Techniques and Interpretations. Wolters Kluwer.
  8. Vijayaraman P, Chung MK, Dandamudi G, et al. His bundle pacing. J Am Coll Cardiol. 2018;72(8):927-947.
  9. Curtis AB, Worley SJ, Adamson PB, et al. Biventricular pacing for atrioventricular block and systolic dysfunction (BLOCK HF). N Engl J Med. 2013;368(17):1585-1593.
  10. Brignole M, Moya A, de Lange FJ, et al. 2018 ESC Guidelines for the diagnosis and management of syncope. Eur Heart J. 2018;39(21):1883-1948.
  11. Birnie DH, Sauer WH, Bogun F, et al. HRS expert consensus statement on the diagnosis and management of arrhythmias associated with cardiac sarcoidosis. Heart Rhythm. 2014;11(7):1305-1323.
  12. Graham CA, Cheung CS. Bradyarrhythmias in the emergency department. Emerg Med Clin North Am.
  13. Rassi A Jr, Rassi A, Marin-Neto JA. Chagas disease. Lancet. 2010;375(9723):1388-1402.
  14. Auffret V, Puri R, Urena M, et al. Conduction disturbances after transcatheter aortic valve replacement. Circulation. 2017;136(11):1049-1069.

Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, parâmetros de estimulação, critérios e condutas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.

Informações rápidas

Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.

O essencial

Classificar

Primeiro grau: PR acima de 200 ms com todas as P conduzindo. Mobitz I: PR alarga progressivamente até uma P bloquear. Mobitz II: PR constante com P bloqueada de forma súbita. Alto grau: duas ou mais P consecutivas bloqueadas. Terceiro grau: nenhuma P conduz, com dissociação e escape regular. O 2:1 não pode ser classificado como I ou II apenas pela tira.

Localizar

O nível importa mais que o grau. QRS estreito e PR longo sugerem bloqueio nodal, com escape juncional de 40 a 60 bpm, razoavelmente confiável, que melhora com atropina e esforço. QRS largo sugere bloqueio infra-hissiano, com escape ventricular de 20 a 40 bpm, instável, que não melhora e pode piorar com atropina.

Estabilizar

Instabilidade atribuível à bradicardia: atropina 1 mg a cada 3 a 5 minutos, até 3 mg, enquanto prepara a estimulação — ela é ponte, não solução. Sem resposta: marca-passo transcutâneo com sedação, dopamina de 5 a 20 mcg/kg/min ou adrenalina de 2 a 10 mcg/min. Confirme a captura pelo pulso, não apenas pela espícula no monitor.

Investigar

Fármacos são a causa reversível mais frequente — revise a prescrição inteira, incluindo colírios. Procure hipercalemia, isquemia, hipotireoidismo e infecção. O bloqueio do infarto inferior costuma ser nodal e transitório; o do anterior é infra-hissiano e de mau prognóstico. Sem causa reversível, Mobitz II, alto grau e BAVT indicam marca-passo mesmo sem sintomas.

Números rápidos

Primeiro grau: PR acima de 200 ms, com todas as P conduzindo.

Atropina: 1 mg a cada 3 a 5 minutos, até o máximo de 3 mg.

Dopamina: 5 a 20 mcg/kg/min. Adrenalina: 2 a 10 mcg/min.

Escape juncional: 40 a 60 bpm, QRS estreito, razoavelmente confiável.

Escape ventricular: 20 a 40 bpm, QRS largo, instável.

HV patológico: igual ou superior a 70 ms na síncope com bloqueio bifascicular.

Não esqueça

O nível do bloqueio importa mais que o grau.

QRS largo sugere infra-hissiano, com escape lento e risco de assistolia.

Atropina pode piorar o bloqueio infra-hissiano e é contraindicada no coração transplantado.

Confirme a captura do marca-passo pelo pulso, não apenas pela espícula.

Exclua causa completamente reversível antes de indicar o dispositivo.

Em provas / residência

A banca cobra a diferença entre Mobitz I e Mobitz II, a localização pelo QRS, a resposta paradoxal à atropina e as indicações de marca-passo definitivo.

Decore: Mobitz I alarga o PR e é nodal; Mobitz II tem PR fixo e é infra-hissiano; Mobitz II e BAVT indicam marca-passo mesmo sem sintomas.

Mais informações nas abas do artigo.

Rolar para cima