Taquicardia Ventricular com Pulso
A regra que resolve a maior parte dos casos cabe em uma frase: toda taquicardia regular de QRS largo é ventricular até prova em contrário. Errar para o lado da TV custa pouco; errar para o lado da supraventricular e administrar verapamil pode custar a vida do paciente. E mesmo a TV bem tolerada é para ser revertida agora.
Reconhecer
- QRS de 120 ms ou mais, regular, sem onda P conduzida
- Dissociação AV é o achado mais específico
- Batimentos de captura e de fusão são quase diagnósticos
- Cardiopatia prévia eleva a probabilidade acima de 90%
Classificar
- Monomórfica: QRS idêntico em todos os batimentos
- Polimórfica: morfologia variável, alta instabilidade
- Torsades exige QT longo e sulfato de magnésio
- Sustentada: acima de 30 segundos ou com instabilidade
Reverter
- Instável: cardioversão sincronizada com 100 J
- Polimórfica: desfibrilação não sincronizada
- Estável: reverter mesmo assim, e sem demora
- Procainamida vem à frente da amiodarona
Investigar
- Procure isquemia, eletrólitos e fármacos que alargam o QT
- Ecocardiograma em todos; ressonância em muitos
- TV sem causa reversível costuma indicar CDI
- Coração normal levanta TV idiopática ou canalopatia
O que é taquicardia ventricular
Taquicardia ventricular é o ritmo com frequência acima de 100 batimentos por minuto originado abaixo da bifurcação do feixe de His — no miocárdio ventricular ou no sistema de Purkinje distal —, formado por três ou mais batimentos consecutivos. O QRS é largo porque a ativação ventricular ocorre fora do sistema de condução normal, célula a célula.
Este artigo trata da TV com pulso. A TV sem pulso é ritmo de parada cardiorrespiratória e segue o protocolo de desfibrilação e reanimação, não o descrito aqui.
Como classificar
Duas classificações organizam a conduta: pela morfologia do QRS e pela duração do episódio.
| Tipo | Definição | Implicação prática |
|---|---|---|
| Monomórfica | QRS com morfologia idêntica em todos os batimentos. Sugere circuito fixo de reentrada, tipicamente ao redor de uma cicatriz. | Aponta para cardiopatia estrutural, sobretudo infarto prévio. É a forma que responde à ablação do substrato. |
| Polimórfica | QRS com morfologia variável batimento a batimento. Instabilidade elétrica difusa. | Mais instável, com maior chance de degenerar em fibrilação ventricular. Procure isquemia aguda e distúrbios eletrolíticos. |
| Torsades de pointes | Subtipo de polimórfica com QT longo de base e eixo do QRS que gira em torno da linha isoelétrica. | Tratamento próprio: sulfato de magnésio, correção de eletrólitos e suspensão dos fármacos que alargam o QT. |
| Sustentada | Dura mais de 30 segundos ou exige intervenção antes disso por instabilidade. | Indicação de reversão imediata, mesmo quando bem tolerada. |
| Não sustentada | Três ou mais batimentos consecutivos, com menos de 30 segundos e sem instabilidade. | Marcador de risco: investigue a cardiopatia de base em vez de apenas tratar o episódio. |
| Bidirecional | Alternância batimento a batimento do eixo do QRS. | Sugere fortemente intoxicação digitálica ou taquicardia ventricular polimórfica catecolaminérgica. |
| Incessante | Presente na maior parte do tempo, com breves interrupções. | Risco de cardiomiopatia induzida por taquicardia; indicação de ablação precoce. |
Os mecanismos
- Reentrada em torno de cicatriz — o mecanismo dominante na TV monomórfica sustentada. Tecido fibrótico cria zonas de condução lenta e bloqueio unidirecional, tipicamente na borda de um infarto antigo. É o alvo da ablação.
- Automatismo anormal — foco ventricular que dispara mais rápido que o nó sinusal, favorecido por isquemia aguda, catecolaminas e distúrbios eletrolíticos.
- Atividade deflagrada — pós-despolarizações precoces, que sustentam a torsades de pointes no QT longo, ou tardias, associadas à sobrecarga de cálcio da intoxicação digitálica.
Reconhecer o mecanismo antecipa a resposta ao tratamento: a reentrada responde à cardioversão e à ablação; a atividade deflagrada responde à correção do substrato, como magnésio e eletrólitos.
Por que o paciente descompensa
- Perda do sincronismo atrioventricular — a contração atrial deixa de contribuir para o enchimento ventricular, custando parte importante do débito.
- Contração ventricular dessincronizada, com ativação célula a célula, menos eficiente que a condução pelo sistema de His-Purkinje.
- Diástole encurtada, reduzindo enchimento e perfusão coronariana.
- Isquemia secundária, que aumenta ainda mais a instabilidade elétrica e fecha um ciclo vicioso.
A diretriz europeia de 2022 traz recomendação de classe I para terminar prontamente a TV monomórfica sustentada, ainda que bem tolerada — porque a deterioração hemodinâmica pode ocorrer de forma súbita e imprevisível.
As quatro perguntas da beira do leito
Sem pulso, é ritmo de parada: desfibrilação imediata e protocolo de reanimação. Com pulso, siga o caminho descrito neste artigo.
Hipotensão, rebaixamento agudo, dor isquêmica, congestão aguda ou choque indicam cardioversão sincronizada imediata, com sedação sempre que possível.
Define a modalidade do choque e o tratamento farmacológico. Polimórfica com QT longo é torsades, e tem conduta própria.
Isquemia aguda, distúrbios eletrolíticos, fármacos que alargam o QT, intoxicação e cardiopatia estrutural. A causa define o tratamento definitivo.
O problema da taquicardia de QRS largo
Diante de uma taquicardia regular com QRS de 120 ms ou mais, existem quatro possibilidades — e a distribuição delas já orienta a conduta.
| Possibilidade | Frequência relativa | Pista principal |
|---|---|---|
| Taquicardia ventricular | A maioria dos casos — cerca de 80% no geral e mais de 90% com cardiopatia estrutural. | Dissociação atrioventricular, batimentos de captura ou fusão, história de infarto. |
| TSV com aberrância | Minoria dos casos. | Morfologia idêntica a bloqueio de ramo prévio documentado. |
| TSV com bloqueio de ramo prévio | Minoria. | Traçado antigo em ritmo sinusal já mostrava o mesmo QRS largo. |
| Taquicardia pré-excitada | Rara, mas perigosa. | Reentrada antidrômica ou fibrilação atrial pré-excitada, esta última irregular. |
Os achados que fecham o diagnóstico
Três achados são altamente específicos de TV. Quando presentes, encerram a discussão — mas são vistos em uma minoria dos traçados, o que exige procurá-los ativamente.
Praticamente diagnósticos
- Dissociação atrioventricular — ondas P em frequência própria, mais lenta e independente do QRS. É o achado mais específico. Procure deformações sutis e regulares no segmento ST e na onda T.
- Batimento de captura — um QRS estreito no meio da taquicardia, quando um impulso atrial consegue despolarizar o ventrículo pelo sistema normal.
- Batimento de fusão — QRS de morfologia intermediária, resultado da ativação simultânea pelo foco ventricular e pelo impulso supraventricular.
Fortemente sugestivos
- Concordância positiva ou negativa em todas as derivações precordiais.
- QRS muito largo: acima de 140 ms com padrão de bloqueio de ramo direito, ou de 160 ms com padrão de bloqueio esquerdo.
- Eixo no quadrante noroeste, entre menos 90 e menos 180 graus.
- Morfologia do QRS que não corresponde a nenhum padrão típico de bloqueio de ramo.
- Ausência de complexo RS em todas as precordiais.
Algoritmos eletrocardiográficos
Vários algoritmos foram propostos para sistematizar a leitura. Todos têm desempenho inferior na prática ao relatado nos estudos originais, e nenhum substitui o princípio de tratar como TV na dúvida.
| Algoritmo | Como funciona | Observação |
|---|---|---|
| Brugada (4 passos) |
Passos sequenciais: ausência de RS nas precordiais; intervalo do início do R ao nadir do S maior que 100 ms; dissociação atrioventricular; e critérios morfológicos em V1 e V6. Qualquer resposta positiva encerra o algoritmo com diagnóstico de TV. | O mais difundido e cobrado em provas. Disponível como calculadora neste artigo. |
| Vereckei em aVR (4 passos) |
Usa apenas aVR: presença de onda R inicial; onda r ou q inicial maior que 40 ms; entalhe na porção descendente de um QRS predominantemente negativo; e razão entre a velocidade de ativação inicial e terminal igual ou menor que 1. | Mais simples por usar uma única derivação; útil quando o traçado completo não está disponível. |
| Pava (R em DII) |
Tempo do início do QRS até o pico da onda R em DII igual ou maior que 50 ms favorece TV. | Critério único, de aplicação muito rápida à beira do leito. |
Armadilhas do raciocínio
- Concluir que é supraventricular porque o paciente está estável — jovens com bom ventrículo toleram TV por horas.
- Concluir que é supraventricular porque o paciente é jovem — TV idiopática e canalopatias acometem jovens sem cardiopatia.
- Concluir que é supraventricular porque a frequência é muito alta — a frequência não separa os dois grupos.
- Achar que reverter com adenosina prova origem supraventricular — a TV da via de saída do ventrículo direito pode responder à adenosina.
- Achar que responder ao verapamil prova origem supraventricular — a TV fascicular é sensível ao verapamil.
- Deixar de procurar dissociação atrioventricular por não haver ondas P óbvias — elas aparecem como deformações regulares do ST e da onda T.
- Não comparar com um eletrocardiograma prévio em ritmo sinusal, que resolve boa parte dos casos de bloqueio de ramo preexistente.
- Não registrar um traçado de 12 derivações durante a taquicardia, perdendo a única chance de documentar o mecanismo.
Sequência de abordagem
- CONFIRME O PULSO. Sem pulso, é ritmo de parada: desfibrilação imediata e protocolo de reanimação — não a rota deste artigo.
- Monitorização contínua, acesso venoso, oximetria, oxigênio se saturação abaixo de 90% e desfibrilador ao lado.
- Registre o eletrocardiograma de 12 derivações durante a taquicardia sempre que a estabilidade permitir — é o documento que define o mecanismo depois.
- AVALIE A ESTABILIDADE: hipotensão, rebaixamento agudo, dor isquêmica, congestão pulmonar aguda ou choque indicam CARDIOVERSÃO SINCRONIZADA IMEDIATA, com sedação sempre que possível.
- Classifique: monomórfica recebe cardioversão sincronizada; polimórfica recebe desfibrilação não sincronizada.
- Colha eletrólitos com potássio, magnésio e cálcio, além de função renal, e corrija imediatamente as alterações.
- Procure e trate isquemia aguda: eletrocardiograma pós-reversão, troponina e avaliação de síndrome coronariana.
- Revise a prescrição em busca de fármacos que alargam o QT ou que sejam pró-arrítmicos, e suspenda-os.
- Paciente estável: reverter mesmo assim, e sem demora — a diretriz de 2022 traz recomendação de classe I para terminação pronta, ainda que a TV seja bem tolerada.
- Na reversão farmacológica da TV monomórfica de causa desconhecida, a procainamida vem à frente da amiodarona.
- Após a reversão: eletrocardiograma em ritmo sinusal, ecocardiograma, e investigação da causa.
- Defina a prevenção secundária — cardiodesfibrilador implantável e ablação quando indicados.
Cardioversão e desfibrilação
A modalidade do choque depende da morfologia, e confundi-las tem consequência prática imediata: o aparelho em modo sincronizado pode não disparar diante de um ritmo caótico, porque não encontra onda R para sincronizar.
| Situação | Modalidade | Energia e observações |
|---|---|---|
| TV monomórfica com pulso | Cardioversão sincronizada | 100 J bifásico, escalonando se necessário. Sedação e analgesia no paciente consciente. |
| TV polimórfica com pulso | Desfibrilação NÃO sincronizada | Carga alta. O ritmo irregular não permite sincronização confiável. |
| TV sem pulso | Desfibrilação e protocolo de parada | Carga máxima, com compressões torácicas imediatamente após o choque. |
| Torsades de pointes | Desfibrilação se instável, além do tratamento específico | Sulfato de magnésio, correção de eletrólitos e suspensão dos fármacos que alargam o QT. |
A escolha farmacológica no paciente estável
Esta é a recomendação que mais mudou. O ensaio que comparou os dois agentes na taquicardia de QRS largo bem tolerada mostrou menos eventos adversos cardíacos maiores e maior taxa de término em 40 minutos com a procainamida.
| Fármaco | Posição atual | Quando evitar |
|---|---|---|
| Procainamida | Preferida na TV monomórfica bem tolerada de causa desconhecida — classe IIa, contra IIb da amiodarona. | Insuficiência cardíaca grave, infarto agudo do miocárdio e doença renal em estágio terminal. |
| Amiodarona | Alternativa, e a escolha preferencial justamente nos cenários em que a procainamida é evitada. | Hipotensão durante infusão rápida; atenção às interações e ao uso prolongado. |
| Lidocaína | Opção de segunda linha, com melhor desempenho relativo na TV associada a isquemia aguda. | Eficácia global inferior; atenção a toxicidade neurológica em idosos e hepatopatas. |
| Sulfato de magnésio | Tratamento de escolha da torsades de pointes, independentemente da magnesemia. | Sem papel definido na TV monomórfica com QT normal. |
| Betabloqueador | Papel central na tempestade elétrica e nas TVs mediadas por catecolaminas. | Cautela na descompensação aguda e na hipotensão. |
Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, critérios de suspensão e cuidados. Confira sempre a bula, a apresentação disponível e o protocolo institucional antes de prescrever.
Reversão aguda
A instabilidade atravessa toda a escala e leva direto ao choque. No paciente estável, a reversão continua sendo prioritária — apenas com mais opções.
Situações específicas e tratamento definitivo
Cenários com conduta própria e as decisões que determinam o prognóstico depois da alta.
Torsades de pointes
É a taquicardia ventricular polimórfica que ocorre no contexto de intervalo QT prolongado, com o eixo do QRS girando progressivamente em torno da linha isoelétrica — daí o nome, torção das pontas. O tratamento é distinto do da TV monomórfica, e aplicar o protocolo errado piora o quadro.
- SE INSTÁVEL OU SEM PULSO: DESFIBRILAÇÃO IMEDIATA, não sincronizada — o ritmo irregular não permite sincronização confiável.
- Administre sulfato de magnésio por via intravenosa, independentemente do valor da magnesemia.
- Corrija agressivamente potássio e cálcio, mantendo o potássio na faixa alta do normal.
- SUSPENDA TODOS OS FÁRMACOS QUE ALARGAM O QT. Revise a prescrição inteira, incluindo antieméticos, antipsicóticos e antibióticos.
- Considere aceleração da frequência cardíaca — o QT encurta com frequências mais altas, o que quebra o mecanismo de pausa que deflagra a arritmia.
- A aceleração pode ser feita por marca-passo transvenoso em frequência elevada ou, transitoriamente, por infusão de isoproterenol, quando disponível e não houver contraindicação.
- Trate bradicardia e bloqueios que gerem pausas, pois elas são o gatilho clássico.
- Investigue QT longo congênito quando não houver causa adquirida evidente, sobretudo em jovens e diante de história familiar.
O que alarga o QT
A lista é longa e cresce a cada revisão. Vale conhecer as classes e conferir cada prescrição em fonte atualizada, sobretudo quando há mais de um fármaco associado.
Amiodarona, sotalol, quinidina, procainamida, ibutilida e dofetilida. Os de classe III são os mais associados.
Haloperidol — especialmente por via intravenosa —, quetiapina, risperidona e ziprasidona.
Citalopram e escitalopram, com efeito dependente da dose, além dos tricíclicos.
Macrolídeos, como azitromicina e claritromicina, e quinolonas, como levofloxacino e moxifloxacino.
Fluconazol, cloroquina e hidroxicloroquina.
Ondansetrona e domperidona — frequentemente esquecidos por serem prescritos de rotina.
Hipocalemia, hipomagnesemia e hipocalcemia. Frequentemente coexistem e se potencializam.
Sexo feminino, idade avançada, bradicardia, disfunção ventricular, hepatopatia e doença renal.
Tempestade elétrica
Define-se por três ou mais episódios de taquicardia ventricular sustentada, fibrilação ventricular ou terapias apropriadas do cardiodesfibrilador em 24 horas. É emergência com mortalidade elevada, e o manejo é multidimensional.
- SEDAÇÃO é recomendação de CLASSE I — reduz o tônus simpático e o sofrimento psicológico, e por si só pode interromper o ciclo. Considere sedação profunda e intubação nos casos refratários.
- Trate imediatamente os episódios conforme a morfologia: cardioversão sincronizada na monomórfica, desfibrilação na polimórfica.
- Administre betabloqueador, preferencialmente não seletivo, como propranolol — o bloqueio simpático é peça central do tratamento.
- Associe amiodarona nos pacientes com cardiopatia estrutural e TV monomórfica.
- Procure e corrija os deflagradores: isquemia aguda, distúrbios eletrolíticos, descompensação da insuficiência cardíaca, infecção e fármacos pró-arrítmicos.
- Nos portadores de dispositivo, interrogue e reprograme o cardiodesfibrilador — choques repetidos aumentam o tônus simpático e alimentam a tempestade.
- TV INCESSANTE OU TEMPESTADE POR TV MONOMÓRFICA RECORRENTE: ABLAÇÃO POR CATETER PRECOCE é recomendação de classe I.
- Considere modulação autonômica, como bloqueio do gânglio estrelado, nos casos refratários.
- Considere suporte circulatório mecânico diante de choque cardiogênico associado.
- Transfira precocemente para centro com eletrofisiologia — a demora piora o prognóstico de forma expressiva.
Critérios de Brugada — TV ou TSV com aberrância
Aplica-se à taquicardia regular de QRS largo. Percorra os passos em ordem: qualquer resposta afirmativa encerra o algoritmo com diagnóstico de taquicardia ventricular. Só se as quatro forem negativas o algoritmo aponta para origem supraventricular.
Intervalo QT corrigido e risco de torsades
Calcula o QT corrigido por quatro fórmulas. A de Bazett é a mais usada, mas superestima o QTc em frequências altas e subestima em frequências baixas — por isso as alternativas importam justamente no paciente taquicárdico.
Antiarrítmicos por peso
Calcula as doses dos agentes usados na TV com pulso. Informe o peso e o contexto clínico — a ferramenta sinaliza qual agente é preferido e quais devem ser evitados.
Indicação de cardiodesfibrilador implantável
Marque os achados presentes. A prevenção secundária aplica-se a quem já teve o evento; a primária, a quem tem risco elevado mas ainda não teve arritmia sustentada documentada.
De onde vem a TV
A investigação etiológica define o tratamento definitivo, e a primeira bifurcação é entre coração estruturalmente doente e coração estruturalmente normal.
| Grupo | Exemplos | Pistas e investigação |
|---|---|---|
| Cardiopatia isquêmica | Reentrada em torno de cicatriz de infarto prévio — a causa mais comum de TV monomórfica sustentada. | História de infarto, ondas Q, alteração segmentar ao ecocardiograma. Avaliar isquemia residual. |
| Cardiomiopatia dilatada | Fibrose difusa ou cicatriz mediomural. | Ecocardiograma e ressonância cardíaca com realce tardio; considerar teste genético. |
| Cardiomiopatia hipertrófica | Desarranjo miofibrilar e fibrose. | Ecocardiograma, ressonância e aplicação do escore de risco específico de morte súbita. |
| Cardiomiopatia arritmogênica | Substituição fibrogordurosa, classicamente do ventrículo direito. | Ondas épsilon, inversão de T em precordiais direitas, ressonância e teste genético. |
| Doença de Chagas | Fibrose e aneurisma apical — causa relevante no Brasil, frequentemente subestimada. | Epidemiologia, sorologia, bloqueio de ramo direito com hemibloqueio anterior esquerdo, aneurisma de ponta. |
| Canalopatias | QT longo congênito, síndrome de Brugada, TV polimórfica catecolaminérgica, QT curto. | Coração estruturalmente normal, história familiar de morte súbita, eletrocardiograma característico, teste genético. |
| TV idiopática | TV da via de saída do ventrículo direito e TV fascicular. | Coração normal, morfologia característica, bom prognóstico e alta taxa de cura por ablação. |
| Causas reversíveis | Isquemia aguda, distúrbios eletrolíticos, fármacos, intoxicações, sepse e hipoxemia. | Identificá-las muda a indicação de dispositivo — procure ativamente antes de encaminhar. |
Investigação após o episódio
- Eletrocardiograma em ritmo sinusal — procura ondas Q, bloqueios, pré-excitação, padrão de Brugada, QT longo ou curto e ondas épsilon.
- Eletrólitos completos — potássio, magnésio e cálcio, com correção agressiva e recontrole.
- Função renal, hepática e tireoidiana.
- Troponina — lembrando que pode elevar-se pela própria taquicardia, por desequilíbrio entre oferta e demanda.
- Ecocardiograma transtorácico — obrigatório em todos: define fração de ejeção, alterações segmentares e cardiopatia estrutural.
- Ressonância cardíaca com realce tardio — identifica fibrose e cicatriz não vistas ao ecocardiograma; alto rendimento quando o eco é normal ou inconclusivo.
- Investigação de isquemia — cateterismo ou avaliação funcional conforme a probabilidade pré-teste.
- Revisão completa da prescrição — procure fármacos pró-arrítmicos e os que alargam o QT.
- Sorologia para Chagas quando houver epidemiologia compatível.
- Monitorização ambulatorial — Holter ou monitor de eventos para detectar episódios não sustentados.
- Teste genético e rastreamento familiar — em canalopatias, cardiomiopatias hereditárias e história familiar de morte súbita.
- Estudo eletrofisiológico — define o mecanismo, estratifica risco em cenários selecionados e permite a ablação no mesmo tempo.
Prevenção de novos eventos
Cardiodesfibrilador implantável
- Trata o evento arrítmico, mas não previne sua ocorrência.
- Prevenção secundária: sobreviventes de parada por FV ou TV sem causa reversível, e TV sustentada com instabilidade em cardiopatia estrutural.
- Prevenção primária: fração de ejeção reduzida apesar de terapia otimizada por pelo menos 3 meses, e cardiomiopatias com marcadores de alto risco.
- Exige expectativa de vida razoável com boa qualidade funcional.
- Choques repetidos têm impacto psicológico relevante e podem alimentar tempestade elétrica.
Ablação e terapia medicamentosa
- Ablação reduz recorrência de TV e o número de choques; é recomendada preferencialmente ao escalonamento de antiarrítmico na doença coronariana com TV recorrente apesar de amiodarona.
- Na TV incessante e na tempestade elétrica por TV monomórfica, a ablação precoce é recomendação de classe I.
- TV idiopática — da via de saída ou fascicular — tem alta taxa de cura por ablação em coração normal.
- Betabloqueador é a base do tratamento medicamentoso e deve ser mantido e titulado.
- Amiodarona reduz recorrências, mas tem toxicidade cumulativa relevante no uso prolongado.
- Terapia da cardiopatia de base otimizada é parte indissociável da prevenção.
Situações com manejo próprio
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| TV da via de saída do ventrículo direito | TV idiopática em coração normal, com padrão de bloqueio de ramo esquerdo e eixo inferior. Frequentemente deflagrada por esforço ou estresse. | Pode responder a adenosina e a betabloqueador — mas isso não prova origem supraventricular. Bom prognóstico e alta taxa de cura por ablação. |
| TV fascicular | TV idiopática do fascículo posterior esquerdo, com QRS relativamente estreito e padrão de bloqueio de ramo direito com eixo superior. | Sensível ao verapamil — a exceção que confirma a regra. Também com alta taxa de cura por ablação. |
| Intoxicação digitálica | Pode causar TV bidirecional, taquicardia atrial com bloqueio e arritmias ventriculares variadas. | Corrigir potássio e magnésio; considerar anticorpo antidigoxina. Evitar cardioversão eletiva pelo risco de arritmia ventricular refratária. |
| Toxicidade por bloqueador de canal de sódio | Antidepressivos tricíclicos, antiarrítmicos de classe I e cocaína. QRS muito alargado e onda R em aVR. | Bicarbonato de sódio conforme o protocolo. Evitar os antiarrítmicos que agravam o bloqueio de sódio. |
| Hipercalemia | Alarga o QRS de forma difusa e pode simular TV; ondas T apiculadas e achatamento da onda P. | Tratamento é da hipercalemia — cálcio, insulina com glicose e medidas de remoção. Antiarrítmicos não resolvem. |
| Portador de cardiodesfibrilador | Choques apropriados sinalizam arritmia real; choques inapropriados decorrem de TSV, ruído ou fratura de eletrodo. | Interrogar o dispositivo é obrigatório. Um ímã suspende as terapias de choque, mas deve ser usado sob monitorização e orientação especializada. |
| Gestação | Incomum, mas exige cuidado com a escolha farmacológica. | Cardioversão elétrica é segura em qualquer trimestre, com monitorização fetal. Betabloqueador, sotalol, flecainida ou procainamida podem ser considerados; evitar amiodarona. |
| Pós-operatório de cirurgia cardíaca | Frequentemente ligado a isquemia, distúrbios eletrolíticos e catecolaminas. | Corrigir potássio e magnésio, avaliar isquemia perioperatória e revisar drogas vasoativas. |
| TV em coração normal com síncope | Levanta canalopatia e cardiomiopatia oculta. | Ressonância cardíaca, investigação genética e rastreamento familiar — pode salvar outras vidas na mesma família. |
Erros comuns
- Tratar taquicardia de QRS largo como supraventricular sem diagnóstico seguro.
- Administrar verapamil em taquicardia de QRS largo, com risco de colapso e parada.
- Concluir que é supraventricular porque o paciente está estável ou é jovem.
- Achar que reverter com adenosina ou com verapamil prova origem supraventricular.
- Não procurar dissociação atrioventricular, batimentos de captura e de fusão.
- Não registrar eletrocardiograma de 12 derivações durante a taquicardia.
- Não comparar com traçado prévio em ritmo sinusal, que resolveria o caso de bloqueio de ramo preexistente.
- Adiar a reversão da TV sustentada porque o paciente está bem tolerado.
- Usar cardioversão sincronizada em TV polimórfica, quando o aparelho pode não disparar.
- Esquecer de reativar o sincronismo antes de cada novo choque.
- Administrar amiodarona na torsades, agravando o prolongamento do QT.
- Não administrar magnésio na torsades por a magnesemia estar normal.
- Não revisar a prescrição em busca de fármacos que alargam o QT, incluindo antieméticos.
- Não corrigir potássio, magnésio e cálcio, ou corrigir apenas o potássio.
- Não sedar o paciente na tempestade elétrica, mantendo o ciclo de choques e descarga adrenérgica.
- Não interrogar o cardiodesfibrilador do paciente que chega com choques.
- Não investigar isquemia aguda após o episódio.
- Deixar de fazer ecocardiograma e, quando indicado, ressonância cardíaca.
- Indicar dispositivo sem antes procurar causa completamente reversível.
- Dar alta sem definir a prevenção secundária e sem encaminhamento à eletrofisiologia.
Resumo do fluxo
- CONFIRME O PULSO. Sem pulso, desfibrilação imediata e protocolo de parada.
- Monitorização, acesso venoso, oximetria e desfibrilador ao lado; eletrocardiograma de 12 derivações durante a taquicardia.
- TODA TAQUICARDIA REGULAR DE QRS LARGO É VENTRICULAR ATÉ PROVA EM CONTRÁRIO. Na dúvida, nunca use verapamil.
- Avalie a estabilidade: instabilidade atribuível à arritmia indica cardioversão sincronizada imediata com 100 J e sedação.
- Classifique a morfologia: monomórfica recebe cardioversão sincronizada; polimórfica recebe desfibrilação não sincronizada.
- Se houver QT longo, trate como torsades: sulfato de magnésio, correção de eletrólitos, suspensão dos fármacos e aceleração da frequência.
- Paciente estável com TV monomórfica: reverta mesmo assim, sem demora — a terminação pronta é recomendação de classe I.
- Na reversão farmacológica de causa desconhecida, procainamida à frente da amiodarona; use amiodarona na insuficiência cardíaca grave, no infarto agudo e na doença renal terminal.
- Corrija potássio, magnésio e cálcio; revise a prescrição em busca de fármacos pró-arrítmicos.
- Três ou mais episódios em 24 horas configuram tempestade elétrica: sedação, betabloqueador não seletivo, amiodarona e ablação precoce.
- Após a reversão: eletrocardiograma em ritmo sinusal, ecocardiograma em todos e ressonância cardíaca quando indicada.
- Investigue isquemia aguda e, com epidemiologia compatível, solicite sorologia para doença de Chagas.
- Procure causa completamente reversível antes de indicar dispositivo — ela muda a conduta.
- Defina a prevenção secundária: cardiodesfibrilador e ablação conforme indicação, com encaminhamento à eletrofisiologia.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, energias, escores e condutas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.
Informações rápidas
Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Reconhecer
Toda taquicardia regular de QRS largo é ventricular até prova em contrário — com cardiopatia estrutural, a probabilidade passa de 90%. Os achados mais específicos são dissociação atrioventricular, batimentos de captura e de fusão. Estabilidade hemodinâmica, idade jovem e frequência muito alta não afastam TV.
Classificar
Monomórfica tem QRS idêntico em todos os batimentos e sugere reentrada em cicatriz. Polimórfica tem morfologia variável, é mais instável e pede busca ativa de isquemia aguda. Torsades é a polimórfica com QT longo e tem tratamento próprio. Sustentada é aquela com mais de 30 segundos ou com instabilidade antes disso.
Reverter
Instável: cardioversão sincronizada com 100 J e sedação. Polimórfica: desfibrilação NÃO sincronizada, porque o aparelho não encontra onda R. Estável: reverter mesmo assim, sem demora — é recomendação de classe I. Na reversão farmacológica de causa desconhecida, a procainamida vem à frente da amiodarona, exceto na insuficiência cardíaca grave, no infarto agudo e na doença renal terminal.
Investigar
Corrija potássio, magnésio e cálcio; procure isquemia aguda e revise a prescrição em busca de fármacos que alargam o QT. Ecocardiograma em todos; ressonância cardíaca quando o eco é normal ou inconclusivo. No Brasil, considere doença de Chagas. Procure causa completamente reversível antes de indicar cardiodesfibrilador.
Números rápidos
QRS largo: 120 ms ou mais; acima de 140 ou 160 ms favorece TV.
Cardioversão: 100 J bifásico sincronizado na TV monomórfica com pulso.
Polimórfica: desfibrilação não sincronizada em carga alta.
Sustentada: mais de 30 segundos, ou com instabilidade antes disso.
Tempestade elétrica: três ou mais episódios em 24 horas.
QTc: acima de 500 ms indica risco elevado de torsades.
Não esqueça
QRS largo é ventricular até prova em contrário — nunca verapamil na dúvida.
Estabilidade hemodinâmica não é critério diagnóstico.
Reverta a TV sustentada mesmo quando bem tolerada.
Amiodarona é contraindicada na torsades — o tratamento é magnésio.
Procure causa completamente reversível antes de indicar o dispositivo.
Artigos relacionados
Em provas / residência
A banca cobra os critérios de Brugada, a dissociação atrioventricular como achado mais específico, a diferença entre cardioversão sincronizada e desfibrilação, e o tratamento da torsades.
Decore: TV monomórfica com pulso, 100 J sincronizado; polimórfica, desfibrilação; torsades, sulfato de magnésio e nunca amiodarona.
