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FA com Resposta Ventricular Rápida

A pergunta que define o plantão inteiro não é qual droga usar: é se a fibrilação atrial é a causa da deterioração ou a consequência dela. Bloquear o nó de um paciente séptico, hipovolêmico ou com embolia pulmonar retira o mecanismo compensatório e pode levar ao colapso — e esse é o erro mais frequente e mais evitável dessa arritmia.

Causa ou consequência Escolha guiada pela fração de ejeção Alvo leniente abaixo de 110 Nada de nó AV na pré-excitada
Tempo de leitura: 21 min
Atualizado em: 25/08/2026

Decidir a direção

  • A FA é a causa ou a consequência do quadro?
  • Sepse, embolia, hipovolemia e dor aceleram o ritmo
  • Nesses casos, o alvo é a doença, não a frequência
  • Bloquear o nó do paciente errado precipita colapso

Avaliar a estabilidade

  • Hipotensão, rebaixamento, isquemia ou congestão aguda
  • Instável e atribuível à FA: cardioversão imediata
  • Cuidado: choque séptico com FA raramente é indicação
  • Irregular e de QRS largo levanta pré-excitação

Escolher o fármaco

  • A fração de ejeção comanda a escolha
  • Diltiazem e verapamil são proibidos se FE reduzida
  • Betabloqueador é o mais versátil
  • Digoxina ajuda no hipotenso e na disfunção

Definir o alvo

  • Controle leniente: frequência abaixo de 110 em repouso
  • Estrito só se persistirem sintomas ou disfunção
  • Reavalie a fração de ejeção após o controle
  • Considere controle de ritmo precoce em selecionados

O que é FA com resposta ventricular rápida

Fibrilação atrial é a arritmia sustentada mais comum da prática clínica, caracterizada por ativação atrial caótica e desorganizada, sem contração atrial efetiva, com condução irregular ao ventrículo. Chama-se resposta ventricular rápida quando a frequência ventricular ultrapassa 100 a 110 batimentos por minuto, geralmente com repercussão clínica.

Na emergência, a FA com resposta rápida não é um diagnóstico completo: é um achado. O trabalho clínico consiste em descobrir por que aquele paciente está com essa frequência hoje — e, com muita frequência, a resposta não está no coração.

A pergunta que organiza toda a conduta: a fibrilação atrial é a causa da deterioração do paciente, ou é a consequência de outra doença aguda? Bloquear o nó atrioventricular de um paciente séptico, hipovolêmico ou com embolia pulmonar retira o mecanismo compensatório e pode precipitar colapso hemodinâmico.

Classificação pela duração

A nomenclatura importa porque define a estratégia de reversão, a necessidade de anticoagulação prévia e a chance de sucesso do controle de ritmo.

Forma Definição Implicação prática
Primeiro diagnóstico Primeira detecção documentada, independentemente da duração ou dos sintomas. Investigação etiológica completa e avaliação de risco tromboembólico desde o primeiro episódio.
Paroxística Reverte espontaneamente ou com intervenção em até 7 dias. Melhor candidata ao controle de ritmo e à ablação; alta chance de reversão espontânea.
Persistente Mantém-se por mais de 7 dias, incluindo os casos revertidos por cardioversão após esse período. Reversão exige intervenção; atenção redobrada à anticoagulação prévia à cardioversão.
Persistente de longa duração Mais de 12 meses contínuos, com decisão de tentar controle de ritmo. Menor chance de manter o ritmo sinusal; considerar centro especializado.
Permanente Aceita-se, em decisão compartilhada, não tentar mais restaurar o ritmo sinusal. Não é uma característica da arritmia, e sim uma decisão terapêutica — que pode ser revista.
A classificação em "permanente" descreve uma escolha, e não uma propriedade da arritmia. Se o paciente se torna mais sintomático ou surge nova indicação, a decisão pode e deve ser reavaliada — inclusive porque a evidência atual favorece o controle de ritmo precoce em pacientes selecionados.

Por que a frequência sobe

Na fibrilação atrial, os átrios geram entre 350 e 600 impulsos por minuto. O nó atrioventricular funciona como filtro, e a frequência ventricular resultante depende de quanto ele deixa passar.

  • Tônus adrenérgico elevado — dor, febre, sepse, hipovolemia, ansiedade e uso de estimulantes reduzem o período refratário do nó e aceleram a condução.
  • Redução do tônus vagal — no mesmo sentido, aumenta a condução.
  • Suspensão ou má adesão ao bloqueador do nó em uso crônico.
  • Via acessória — na fibrilação atrial pré-excitada, os impulsos contornam o nó e a resposta pode ser catastrófica.
  • Perda da contração atrial — custa até 30% do débito cardíaco em corações pouco complacentes, o que agrava a descompensação.

O ciclo que se retroalimenta

Entender essa alça explica por que tratar apenas a frequência às vezes não resolve — e por que às vezes resolve tudo.

  • A frequência alta encurta a diástole, reduzindo o enchimento ventricular e a perfusão coronariana.
  • O débito cai, ativando ainda mais o sistema adrenérgico.
  • O estímulo adrenérgico acelera a condução pelo nó, elevando ainda mais a frequência.
  • Se a frequência elevada persistir por semanas, instala-se a cardiomiopatia induzida por taquicardia, com disfunção ventricular potencialmente reversível.
A distinção decisiva

Quando o ciclo começou na arritmia, controlar a frequência quebra a alça e o paciente melhora. Quando começou em outra doença, a arritmia é apenas o termômetro — e baixar o termômetro não trata a febre.

Dimensão do problema

Prevalência

É a arritmia sustentada mais comum, e sua frequência aumenta acentuadamente com a idade.

Emergência

Causa frequente de atendimento por palpitação, dispneia e mal-estar.

Risco de AVC

Aumenta de forma substancial o risco de acidente vascular cerebral cardioembólico.

Insuficiência cardíaca

Relação bidirecional: cada uma causa e agrava a outra.

Silenciosa

Parcela relevante dos episódios é assintomática e só é detectada por monitorização.

A diretriz europeia de 2024 organiza o cuidado pelo acrônimo AF-CARE: manejar Comorbidades e fatores de risco, Avitar acidente vascular cerebral e tromboembolismo, Reduzir sintomas com controle de frequência e de ritmo, e Evaluation, ou seja, reavaliação dinâmica e periódica. Os quatro pilares valem tanto na emergência quanto no ambulatório.

As cinco perguntas da beira do leito

A FA é a causa ou a consequência?

É a pergunta que muda tudo. Procure sepse, embolia pulmonar, hipovolemia, dor, tireotoxicose, anemia e síndrome coronariana antes de simplesmente bloquear o nó.

O paciente está instável?

Hipotensão, rebaixamento agudo, isquemia ou congestão pulmonar aguda atribuíveis à arritmia indicam cardioversão sincronizada imediata.

Qual é a fração de ejeção?

Ela comanda a escolha do fármaco. Diltiazem e verapamil são proibidos com fração reduzida, e essa é uma das prescrições perigosas mais comuns na emergência.

Há quanto tempo começou?

Acima de 48 horas ou de duração indeterminada, a cardioversão eletiva exige anticoagulação prévia ou ecocardiograma transesofágico.

O QRS é largo e irregular?

Levanta fibrilação atrial pré-excitada: bloqueadores do nó atrioventricular são proibidos, e a conduta é cardioversão ou procainamida.

A decisão que define o plantão

Diante de um paciente taquicárdico e fibrilado, existem dois cenários clinicamente opostos que exigem condutas opostas. Confundi-los é o erro mais frequente e mais evitável dessa arritmia.

A FA é a CAUSA

  • Paciente previamente compensado que descompensou ao entrar em FA.
  • Sintomas começaram junto com a palpitação, de forma súbita.
  • Ausência de doença aguda concorrente identificável.
  • Frequência muito elevada, frequentemente acima de 150 bpm.
  • Ausência de febre, hipoxemia, sinais de sepse ou de hipovolemia.
  • Conduta: controlar a frequência ou reverter o ritmo resolve o quadro.

A FA é a CONSEQUÊNCIA

  • Existe doença aguda em curso: sepse, pneumonia, embolia pulmonar, sangramento, dor intensa, pós-operatório.
  • Os sintomas da doença de base precederam a arritmia.
  • Febre, hipoxemia, hipotensão, lactato elevado ou sinais de hipovolemia.
  • A frequência é proporcional ao estímulo adrenérgico.
  • Conduta: tratar a doença de base. A frequência cai junto com a correção do fator precipitante.
No paciente em que a FA é consequência, o bloqueio agressivo do nó atrioventricular retira a taquicardia compensatória que sustenta o débito cardíaco. O resultado pode ser hipotensão refratária e colapso. Nesses casos, a prioridade é volume, oxigênio, antibiótico e correção da causa — não diltiazem.

Precipitantes a procurar ativamente

Infecção e sepse

Pneumonia e infecção urinária são causas clássicas. A FA pode ser a primeira manifestação em idosos, antes mesmo da febre.

Tromboembolismo pulmonar

Causa subdiagnosticada de FA aguda. Suspeite diante de dispneia, hipoxemia, dor pleurítica ou sobrecarga de câmaras direitas.

Hipovolemia e sangramento

Reduzem a pré-carga e ativam o sistema adrenérgico. Corrigir volume frequentemente já reduz a frequência.

Tireotoxicose

Dose o hormônio tireoestimulante em toda FA de início recente. Enquanto a tireotoxicose persistir, o controle de frequência é notoriamente difícil.

Síndrome coronariana aguda

A isquemia pode desencadear FA, e a FA pode desencadear isquemia por desequilíbrio entre oferta e demanda.

Álcool

A chamada síndrome do coração de fim de semana; o consumo excessivo é fator desencadeante e de recorrência.

Distúrbios eletrolíticos

Potássio e magnésio baixos favorecem e perpetuam a arritmia; corrigi-los é parte do tratamento.

Pós-operatório

Muito frequente após cirurgia cardíaca e torácica, habitualmente transitório e ligado a inflamação e eletrólitos.

Apneia do sono e obesidade

Fatores de risco modificáveis com impacto real sobre recorrência — pilar do AF-CARE.

Avaliação inicial de todos

  • Eletrocardiograma de 12 derivações — confirma o ritmo, mede a frequência, avalia QRS e procura isquemia e pré-excitação.
  • Sinais vitais completos, incluindo temperatura, saturação e frequência respiratória — frequentemente é aqui que a causa aparece.
  • Hemograma — anemia como precipitante e como fator de risco hemorrágico.
  • Eletrólitos, função renal — potássio, magnésio e cálcio; a função renal orienta a dose do anticoagulante.
  • Hormônio tireoestimulante — em toda FA de início recente ou de controle difícil.
  • Troponina — interpretada com cautela: pode subir por desequilíbrio entre oferta e demanda, sem doença coronariana obstrutiva.
  • Radiografia de tórax — congestão, pneumonia e outras causas pulmonares.
  • Ecocardiograma transtorácico — recomendado em todo paciente com FA recém-diagnosticada; define fração de ejeção, valvopatia e tamanho atrial.
  • Investigação dirigida — angiotomografia se houver suspeita de embolia, culturas se houver suspeita de sepse.
A fração de ejeção não é apenas informação prognóstica: é o dado que determina qual fármaco pode ser usado com segurança. Quando ela não é conhecida, o ultrassom à beira do leito com estimativa visual da função ventricular já orienta a escolha inicial.

Sequência de abordagem

  1. Monitorização contínua, acesso venoso, oximetria e desfibrilador ao lado. Eletrocardiograma de 12 derivações.
  2. PERGUNTE PRIMEIRO: a FA é a causa ou a consequência? Procure sepse, embolia pulmonar, hipovolemia, dor, tireotoxicose, anemia e isquemia.
  3. Avalie a estabilidade: hipotensão, rebaixamento agudo, isquemia ou congestão pulmonar aguda atribuíveis à arritmia indicam cardioversão sincronizada imediata.
  4. Confirme o padrão: ritmo irregularmente irregular; QRS largo e irregular levanta pré-excitação.
  5. Corrija o corrigível: volume, oxigênio, potássio, magnésio, dor e febre. Em muitos pacientes, só isso já reduz a frequência.
  6. Estime a fração de ejeção — pelo prontuário, por ecocardiograma prévio ou pelo ultrassom à beira do leito.
  7. Escolha o fármaco guiado pela fração de ejeção e pelas contraindicações.
  8. Defina o alvo: controle leniente, com frequência de repouso abaixo de 110 bpm, é a estratégia inicial na maioria.
  9. SE O QRS FOR LARGO E IRREGULAR: não use adenosina, verapamil, diltiazem, betabloqueador, digoxina ou amiodarona. Cardioversão ou procainamida.
  10. Determine há quanto tempo a arritmia começou, para definir a estratégia de cardioversão e de anticoagulação.
  11. Aplique o escore de risco tromboembólico e defina a anticoagulação, independentemente de o ritmo ter sido revertido.
  12. Decida o destino: alta com seguimento, observação ou internação.

Quando cardioverter na emergência

A instabilidade hemodinâmica indica cardioversão imediata — mas com uma ressalva importante e frequentemente ignorada.

Cenário Conduta Observação
Instabilidade atribuível à FA Cardioversão sincronizada imediata, com 120 a 200 J bifásico e sedação. Não aguarde anticoagulação nem ecocardiograma; inicie anticoagulação parenteral o quanto antes.
Instabilidade por OUTRA causa, com FA associada Tratar a causa. A cardioversão tende a falhar ou a ser seguida de recorrência imediata enquanto o estímulo persiste. É o erro clássico: cardioverter o paciente séptico, que volta a fibrilar em minutos.
FA pré-excitada Cardioversão elétrica se instável; procainamida se estável. Bloqueadores do nó são proibidos — podem acelerar a condução pela via acessória.
Estável, menos de 48 horas, início documentado Cardioversão eletiva possível sem as 3 semanas prévias de anticoagulação. Iniciar anticoagulação antes ou no momento do procedimento; manter por 4 semanas depois.
Estável, 48 horas ou mais, ou indeterminada 3 semanas de anticoagulação antes, ou ecocardiograma transesofágico afastando trombo. Enquanto isso, controle de frequência e anticoagulação.
Estável, muito sintomático, primeiro episódio recente Considerar controle de ritmo precoce, em decisão compartilhada. A evidência atual favorece o controle de ritmo iniciado no primeiro ano após o diagnóstico em pacientes selecionados.
Uma parcela relevante dos episódios de FA de início recente reverte espontaneamente nas primeiras 24 a 48 horas. Em paciente estável, pouco sintomático e com o precipitante corrigido, observar com controle de frequência é uma estratégia legítima.
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, contraindicações e cuidados. Confira sempre a bula, a apresentação disponível e o protocolo institucional antes de prescrever.

Controle de frequência

A fração de ejeção comanda a escolha. Os quatro fármacos abaixo cobrem praticamente todos os cenários da emergência.

Ritmo e situações específicas

Reversão do ritmo e os cenários em que a rota habitual não se aplica.

A escolha guiada pela fração de ejeção

Esta é a tabela mais prática do artigo. A fração de ejeção determina quais fármacos são seguros, e ignorá-la é a fonte da prescrição perigosa mais comum na emergência.

Cenário Primeira escolha Evitar
Fração de ejeção preservada
(acima de 40%)
Betabloqueador, diltiazem ou verapamil — todos são opções válidas. Nenhum dos três está contraindicado por este critério isolado.
Fração de ejeção reduzida
(40% ou menos)
Betabloqueador em dose cautelosa, digoxina, ou associação dos dois. Diltiazem e verapamil são contraindicados pelo efeito inotrópico negativo.
Congestão pulmonar aguda Digoxina ou amiodarona; tratar a congestão em paralelo. Betabloqueador em dose plena na descompensação aguda; antagonistas de cálcio.
Hipotensão limítrofe Digoxina — é o que menos reduz a pressão; considerar amiodarona. Betabloqueador, diltiazem e verapamil por via intravenosa em bolus.
Broncoespasmo ativo Diltiazem ou verapamil se a função ventricular permitir; digoxina como alternativa. Betabloqueador não seletivo; usar cardiosseletivo com cautela se indispensável.
Tireotoxicose Betabloqueador, que também trata os sintomas adrenérgicos. Enquanto a tireotoxicose não for tratada, o controle será difícil com qualquer fármaco.
FA pré-excitada Cardioversão elétrica ou procainamida. Todos os bloqueadores do nó: adenosina, verapamil, diltiazem, betabloqueador, digoxina e amiodarona.
Antes de prescrever diltiazem ou verapamil, a pergunta é obrigatória: qual é a fração de ejeção deste paciente? Se ela não é conhecida e há qualquer sinal de congestão ou cardiopatia, prefira betabloqueador em dose cautelosa ou digoxina — ou faça o ultrassom à beira do leito antes.

Qual o alvo de frequência

Durante anos se perseguiu o controle estrito. O ensaio que comparou as duas estratégias mostrou que o controle leniente não é inferior em desfechos cardiovasculares, é mais fácil de atingir e exige menos consultas e menos fármacos.

Controle leniente

  • Alvo de frequência de repouso abaixo de 110 bpm.
  • É a estratégia inicial recomendada na maioria dos pacientes.
  • Menos fármacos, menos efeitos adversos e menos consultas de ajuste.
  • Não inferior ao controle estrito em desfechos cardiovasculares maiores.

Quando apertar o alvo

  • Sintomas persistentes apesar da frequência abaixo de 110.
  • Suspeita de cardiomiopatia induzida por taquicardia.
  • Disfunção ventricular que não melhora com o controle leniente.
  • Nesses casos, buscar frequência de repouso abaixo de 80 bpm.
  • Reavalie a fração de ejeção após semanas de controle adequado.
Na emergência, o objetivo realista não é normalizar a frequência: é estabilizar o paciente e aliviar o sintoma. Perseguir 70 bpm no pronto-socorro leva a doses excessivas, hipotensão e bradicardia iatrogênica.

Controle de frequência ou de ritmo

Historicamente, as duas estratégias mostraram desfechos semelhantes. A evidência mais recente qualificou essa conclusão: o controle de ritmo iniciado precocemente, no primeiro ano após o diagnóstico, reduz desfechos cardiovasculares em pacientes selecionados.

Favorece controle de RITMO Favorece controle de FREQUÊNCIA Observação
Diagnóstico recente, no primeiro ano. Arritmia de longa duração, com átrio muito dilatado. Quanto mais tempo em FA, menor a chance de manter o ritmo sinusal.
Paciente muito sintomático apesar do controle de frequência. Paciente pouco sintomático ou assintomático. O grau de sintoma é o principal motor da decisão.
Paciente jovem, ativo, com poucas comorbidades. Idoso frágil, com múltiplas comorbidades. Considerar a tolerância aos antiarrítmicos e ao procedimento.
Suspeita de cardiomiopatia induzida por taquicardia. Controle de frequência já satisfatório e bem tolerado. Restaurar o ritmo pode reverter a disfunção ventricular.
Dificuldade real de controlar a frequência. Múltiplas falhas prévias de reversão. Recorrência repetida sugere substrato atrial avançado.
Preferência informada do paciente. Preferência informada do paciente. Decisão compartilhada em ambos os sentidos.
Qualquer que seja a estratégia, a anticoagulação segue os mesmos critérios e não depende de o ritmo ter sido restaurado. Restaurar o ritmo sinusal não autoriza suspender o anticoagulante em paciente com escore de risco elevado.

A FA é a causa ou a consequência?

Pesa os dois lados Evita o bloqueio perigoso

Marque os achados presentes. A ferramenta pesa os elementos que apontam para a fibrilação atrial como motor da deterioração contra os que apontam para ela como termômetro de outra doença aguda.

Aponta para a FA como CAUSA
Aponta para a FA como CONSEQUÊNCIA
Leitura
0 causa · 0 consequência
Marque os achados presentes
A ferramenta pesa os dois lados e sugere a direção da conduta
Ferramenta de apoio ao raciocínio, sem validação formal — é a sistematização de um julgamento clínico, não um escore publicado. Os dois cenários coexistem com frequência: um paciente com fibrilação atrial crônica pode ter sepse e, ao mesmo tempo, descompensar pela frequência elevada. Nesses casos, trate a causa e ofereça controle de frequência com cautela, monitorizando de perto a resposta hemodinâmica.

Escolha do fármaco para controle de frequência

Guiado pela fração de ejeção Bloqueia o contraindicado

Informe o contexto clínico. A ferramenta indica as opções seguras com posologia e bloqueia explicitamente as contraindicadas.

Recomendação
Opções detalhadas
Ferramenta de apoio à prescrição, não substitui a conferência da bula nem o protocolo institucional. Antes de qualquer fármaco, corrija o corrigível: volume, oxigênio, potássio, magnésio, dor e febre. E lembre-se de que, se a fibrilação atrial for consequência de outra doença aguda, o bloqueio agressivo do nó pode precipitar colapso.

Alvo de frequência e resposta ao tratamento

Leniente x estrito Avalia a resposta

Define qual alvo perseguir e avalia se ele já foi atingido. O controle leniente, com frequência de repouso abaixo de 110 bpm, é a estratégia inicial recomendada na maioria dos pacientes.

Alvo indicado
< 110
Frequência atual
Situação
Leitura
Informe a frequência atual
O alvo leniente é a estratégia inicial na maioria dos pacientes
Na emergência, o objetivo realista é estabilizar e aliviar o sintoma, não normalizar a frequência. Perseguir valores muito baixos no pronto-socorro leva a doses excessivas, hipotensão e bradicardia iatrogênica. O alvo estrito é reservado a quem mantém sintomas apesar do controle leniente ou apresenta disfunção ventricular possivelmente induzida pela taquicardia — e deve ser buscado de forma progressiva, no ambulatório.

Controle de frequência ou de ritmo

Ritmo precoce Decisão compartilhada

Marque os fatores presentes. A ferramenta pesa os elementos que favorecem cada estratégia, considerando a evidência atual de benefício do controle de ritmo iniciado precocemente.

Favorecem controle de RITMO
Favorecem controle de FREQUÊNCIA
Estratégia sugerida
0 ritmo · 0 frequência
Marque os fatores presentes
A decisão é sempre compartilhada com o paciente
Ferramenta de apoio à discussão, sem validação formal. Qualquer que seja a estratégia escolhida, a anticoagulação segue os mesmos critérios e não depende de o ritmo ter sido restaurado — restaurar o ritmo sinusal não autoriza suspender o anticoagulante em paciente com escore de risco elevado.

Quem pode ir para casa

Boa parte dos pacientes com fibrilação atrial de resposta rápida pode receber alta da emergência com seguimento adequado. A decisão depende menos da frequência isolada e mais do contexto.

Favorece alta

  • Frequência controlada e paciente assintomático ou pouco sintomático em repouso.
  • Ausência de doença aguda concorrente que exija internação.
  • Fração de ejeção conhecida e sem congestão.
  • Anticoagulação definida e iniciada quando indicada.
  • Retorno garantido e paciente capaz de reconhecer sinais de alarme.
  • Precipitante identificado e tratável em regime ambulatorial.

Favorece internação

  • Instabilidade hemodinâmica ou necessidade de vasoativo.
  • Doença aguda concorrente — sepse, embolia pulmonar, síndrome coronariana, sangramento.
  • Congestão pulmonar ou insuficiência cardíaca descompensada.
  • Frequência não controlada apesar de terapia adequada.
  • Pré-excitação identificada.
  • Necessidade de início de antiarrítmico com monitorização.
  • Impossibilidade de garantir seguimento próximo.
O erro mais comum na alta não é liberar o paciente cedo demais: é liberá-lo sem definir a anticoagulação. Toda alta por fibrilação atrial deve registrar explicitamente o escore de risco, a decisão tomada e quem fará o seguimento.

O plano de alta em quatro pilares

A diretriz europeia de 2024 organiza o cuidado longitudinal em quatro eixos, resumidos no acrônimo AF-CARE. Todos devem estar contemplados na alta da emergência.

Pilar O que fazer Registro na alta
C — Comorbidades Hipertensão, diabetes, obesidade, apneia do sono, álcool, sedentarismo e insuficiência cardíaca. Quais fatores foram identificados e a quem cabe o manejo de cada um.
A — Anticoagulação Aplicar o escore de risco tromboembólico e decidir; anticoagulante oral direto como primeira escolha. Escore calculado, decisão tomada, fármaco, dose e data de reavaliação.
R — Redução de sintomas Controle de frequência com alvo definido, ou estratégia de controle de ritmo. Fármaco, dose, alvo de frequência e plano de titulação.
E — Reavaliação Seguimento dinâmico: o escore muda, a fração de ejeção muda, os sintomas mudam. Consulta agendada, exames pendentes e sinais de alarme explicados.
Um exame frequentemente esquecido na alta da emergência: o ecocardiograma transtorácico é recomendado em todo paciente com fibrilação atrial recém-diagnosticada. Se não foi feito na internação, deixe-o solicitado e agendado.

Anticoagulação — o essencial

O risco tromboembólico da fibrilação atrial é avaliado pelos mesmos critérios usados no flutter atrial. A diretriz europeia de 2024 substituiu o CHA₂DS₂-VASc pelo CHA₂DS₂-VA, removendo o sexo feminino como fator de risco independente.

  • Pontuação de 2 ou mais — anticoagulação recomendada, com classe I.
  • Pontuação de 1 — anticoagulação deve ser considerada, em decisão compartilhada.
  • Pontuação 0 — sem indicação pelo escore, com reavaliação periódica.
  • Primeira escolha — anticoagulante oral direto: apixabana, rivaroxabana, dabigatrana ou edoxabana.
  • Antagonista da vitamina K — obrigatório em prótese valvar mecânica e em estenose mitral moderada a grave.
  • Independentemente do escore — anticoagular na cardiomiopatia hipertrófica e na amiloidose cardíaca.
  • Após qualquer cardioversão — manter anticoagulação por pelo menos 4 semanas, mesmo com escore zero.
  • Não reduza a dose sem critério de bula — reduções injustificadas aumentam eventos sem reduzir sangramento.
  • AAS não substitui a anticoagulação na prevenção de embolia.
  • Restaurar o ritmo sinusal não autoriza suspender o anticoagulante — a decisão depende do escore, não do ritmo.
Aplique também o HAS-BLED, não para decidir se anticoagula, mas para identificar e corrigir fatores hemorrágicos modificáveis: pressão descontrolada, uso de anti-inflamatórios e de antiagregantes desnecessários, consumo de álcool e mau controle do INR.

Situações com manejo próprio

Cenário Particularidade O que fazer diferente
FA pré-excitada Taquicardia irregular, de QRS largo e morfologia variável, com frequência muito elevada. Risco de degeneração para fibrilação ventricular. Cardioversão elétrica se instável; procainamida se estável. Proibidos adenosina, verapamil, diltiazem, betabloqueador, digoxina e amiodarona.
Sepse e paciente crítico A FA é quase sempre consequência. O bloqueio agressivo do nó retira a compensação e pode precipitar colapso. Prioridade absoluta ao tratamento da causa: volume, antibiótico, oxigênio, correção de eletrólitos. Controle de frequência apenas com cautela e monitorização estreita.
Insuficiência cardíaca descompensada Relação bidirecional: a FA descompensa a insuficiência, e a congestão perpetua a FA. Evitar diltiazem e verapamil. Preferir digoxina ou amiodarona na fase aguda; betabloqueador após a compensação, com titulação cuidadosa.
Tireotoxicose O controle de frequência é notoriamente difícil enquanto a tireotoxicose persistir. Betabloqueador é a escolha, pois trata também os sintomas adrenérgicos. Tratar a tireotoxicose é parte do tratamento da arritmia.
Doença pulmonar obstrutiva Hipoxemia e hipercapnia sustentam a arritmia; betabloqueador pode agravar broncoespasmo. Corrigir hipoxemia e broncoespasmo primeiro. Preferir diltiazem ou verapamil se a função ventricular permitir.
Pós-operatório Muito frequente após cirurgia cardíaca e torácica; habitualmente transitório. Corrigir potássio, magnésio, dor, volemia e hipoxemia — parcela relevante reverte só com isso. Anticoagulação individualizada pelo risco de sangramento cirúrgico.
Cardiomiopatia induzida por taquicardia Disfunção ventricular causada pela própria arritmia persistente, frequentemente confundida com miocardiopatia dilatada primária. Suspeitar diante de FA persistente com disfunção. Buscar alvo estrito ou controle de ritmo; a disfunção costuma ser reversível.
Idoso frágil Maior risco isquêmico e hemorrágico; polifarmácia e função renal reduzida. Doses menores e titulação lenta. A fragilidade não é motivo para não anticoagular — corrija os fatores hemorrágicos modificáveis.
Gestação Incomum, mas exige cuidado com a escolha farmacológica. Cardioversão elétrica é segura em qualquer trimestre, com monitorização fetal. Evitar amiodarona; anticoagulação com heparina de baixo peso molecular, não com anticoagulante oral direto.
Doença renal crônica avançada Maior risco de sangramento e de acúmulo dos anticoagulantes diretos. Ajustar a dose por bula e reavaliar a função renal periodicamente; a escolha do agente considera a depuração de creatinina.

Erros comuns

  • Bloquear o nó atrioventricular do paciente em que a FA é consequência de sepse, embolia ou hipovolemia.
  • Cardioverter o paciente séptico, que volta a fibrilar em minutos porque o estímulo persiste.
  • Prescrever diltiazem ou verapamil sem conhecer a fração de ejeção.
  • Usar antagonista de cálcio em paciente com fração de ejeção reduzida.
  • Usar betabloqueador em dose plena na congestão pulmonar aguda.
  • Administrar bloqueador do nó em fibrilação atrial pré-excitada, com QRS largo e irregular.
  • Perseguir frequência de 70 bpm no pronto-socorro, gerando hipotensão e bradicardia iatrogênica.
  • Esquecer de corrigir potássio, magnésio, volume, dor, febre e hipoxemia antes de escalonar fármacos.
  • Não dosar hormônio tireoestimulante em FA de início recente.
  • Interpretar toda elevação de troponina como síndrome coronariana, sem considerar o desequilíbrio entre oferta e demanda.
  • Cardioverter eletivamente arritmia com mais de 48 horas sem anticoagulação prévia nem ecocardiograma transesofágico.
  • Suspender a anticoagulação assim que o paciente retorna ao ritmo sinusal.
  • Não manter as 4 semanas de anticoagulação obrigatórias após qualquer cardioversão.
  • Dar alta sem calcular o escore de risco tromboembólico e sem registrar a decisão.
  • Não solicitar ecocardiograma transtorácico em fibrilação atrial recém-diagnosticada.
  • Considerar fragilidade ou idade avançada como contraindicação automática à anticoagulação.
  • Reduzir a dose do anticoagulante oral direto sem critério de bula.
  • Deixar de identificar e tratar os fatores de risco modificáveis: obesidade, apneia do sono, álcool e hipertensão.

Resumo do fluxo

  1. Monitorização, acesso venoso, oximetria e desfibrilador ao lado; eletrocardiograma de 12 derivações.
  2. PERGUNTE ANTES DE PRESCREVER: a FA é a causa ou a consequência? Procure sepse, embolia pulmonar, hipovolemia, dor, tireotoxicose, anemia e isquemia.
  3. Avalie a estabilidade. Instabilidade atribuível à arritmia indica cardioversão sincronizada imediata com 120 a 200 J.
  4. Verifique se o QRS é largo e irregular — nesse caso, pense em pré-excitação e não use bloqueador do nó.
  5. Corrija o corrigível: volume, oxigênio, potássio, magnésio, dor e febre.
  6. Estime a fração de ejeção antes de escolher o fármaco.
  7. FE preservada: betabloqueador, diltiazem ou verapamil. FE reduzida: betabloqueador cauteloso, digoxina ou ambos.
  8. Alvo inicial leniente: frequência de repouso abaixo de 110 bpm. Aperte o alvo só se persistirem sintomas ou disfunção.
  9. Determine há quanto tempo começou, para definir a estratégia de cardioversão.
  10. Acima de 48 horas ou indeterminada: 3 semanas de anticoagulação prévia ou ecocardiograma transesofágico.
  11. Aplique o escore de risco tromboembólico e defina a anticoagulação, independentemente da reversão do ritmo.
  12. Após qualquer cardioversão, mantenha anticoagulação por pelo menos 4 semanas.
  13. Solicite ecocardiograma transtorácico, função tireoidiana, eletrólitos e hemograma.
  14. Na alta, contemple os quatro pilares: comorbidades, anticoagulação, redução de sintomas e reavaliação agendada.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

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Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, energias, escores e condutas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.

Informações rápidas

Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.

O essencial

Decidir a direção

A pergunta que define tudo: a fibrilação atrial é a causa da deterioração ou a consequência de outra doença aguda? Sepse, embolia pulmonar, hipovolemia, dor, tireotoxicose e anemia elevam a frequência de forma compensatória. Nesses casos, o alvo é a doença de base — bloquear o nó retira a compensação e pode precipitar colapso.

Avaliar a estabilidade

Hipotensão, rebaixamento agudo, isquemia ou congestão pulmonar aguda atribuíveis à arritmia indicam cardioversão sincronizada imediata com 120 a 200 J bifásico e sedação. Atenção: cardioverter o paciente séptico costuma falhar, porque o estímulo persiste. Se o QRS for largo e irregular, pense em pré-excitação.

Escolher o fármaco

A fração de ejeção comanda a escolha. Com FE preservada: betabloqueador, diltiazem ou verapamil. Com FE reduzida: betabloqueador cauteloso, digoxina ou ambos — diltiazem e verapamil são contraindicados. Na hipotensão limítrofe, a digoxina é a que menos reduz a pressão. Na FA pré-excitada, todos os bloqueadores do nó são proibidos.

Definir o alvo

Controle leniente, com frequência de repouso abaixo de 110 bpm, é a estratégia inicial recomendada — não é inferior ao controle estrito e exige menos fármacos. Aperte o alvo para abaixo de 80 bpm apenas se persistirem sintomas ou houver disfunção ventricular possivelmente induzida pela taquicardia.

Números rápidos

Alvo leniente: frequência de repouso abaixo de 110 bpm.

Alvo estrito: abaixo de 80 bpm, só se houver sintomas persistentes ou disfunção.

Cardioversão: 120 a 200 J bifásico, sincronizada e com sedação.

Corte de 48 horas: acima disso, anticoagulação prévia por 3 semanas ou eco transesofágico.

Pós-cardioversão: anticoagulação por pelo menos 4 semanas, mesmo com escore zero.

Anticoagulação: CHA₂DS₂-VA de 2 ou mais recomenda; 1 considera.

Não esqueça

Pergunte se a FA é a causa ou a consequência antes de prescrever.

A fração de ejeção comanda a escolha do fármaco.

Diltiazem e verapamil são proibidos com fração de ejeção reduzida.

QRS largo e irregular: nada de bloqueador do nó atrioventricular.

Reverter o ritmo não autoriza suspender o anticoagulante.

Em provas / residência

A banca cobra o ritmo irregularmente irregular, a contraindicação dos antagonistas de cálcio na fração de ejeção reduzida, o alvo leniente e as drogas proibidas na FA pré-excitada.

Decore: alvo inicial abaixo de 110 bpm; corte de 48 horas para cardioversão; 4 semanas de anticoagulação após reverter.

Mais informações nas abas do artigo.

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