Flutter Atrial
É a arritmia que mais se disfarça: a frequência atrial em torno de 300 com condução 2:1 gera um ventrículo exatamente a 150 batimentos, regular e de QRS estreito — indistinguível de uma taquicardia supraventricular comum. Reverte com energias baixas, quase sempre é curável por ablação do istmo, e o risco tromboembólico é tratado exatamente como o da fibrilação atrial.
Reconhecer
- Ondas em dente de serra em DII, DIII e aVF
- Frequência atrial habitual de 250 a 350 bpm
- Ventrículo a 150 bpm sugere condução 2:1
- Manobra vagal ou adenosina desmascara o flutter
Controlar
- Controle de frequência é mais difícil que na FA
- Betabloqueador, diltiazem ou verapamil
- Antiarrítmico IC sozinho pode gerar condução 1:1
- Instável significa cardioversão imediata
Anticoagular
- Mesmos critérios da fibrilação atrial
- ESC 2024 adotou o escore CHA₂DS₂-VA
- Anticoagular se 2 ou mais; considerar se 1
- Quatro semanas após qualquer cardioversão
Curar
- Ablação do istmo cavotricuspídeo no flutter típico
- Sucesso acima de 95%, com baixa recorrência
- Metade evolui para fibrilação atrial mesmo assim
- Ablação não encerra a indicação de anticoagulação
O que é o flutter atrial
Flutter atrial é uma macrorreentrada atrial — um circuito elétrico amplo e organizado que gira dentro do átrio, tipicamente a uma frequência de 250 a 350 batimentos por minuto, com padrão regular e morfologia constante. O nó atrioventricular funciona como filtro e determina quantos desses impulsos chegam ao ventrículo.
Essa organização é o que separa o flutter da fibrilação atrial: no flutter há um circuito único e previsível, com ondas atriais idênticas entre si; na fibrilação, múltiplos circuitos caóticos sem atividade atrial organizada. A consequência prática é que o flutter reverte com energias mais baixas, é mais difícil de controlar em frequência e é mais curável por ablação.
Flutter contra fibrilação atrial
| Característica | Flutter atrial | Fibrilação atrial |
|---|---|---|
| Mecanismo | Macrorreentrada organizada, com circuito único e previsível. | Múltiplos circuitos caóticos, sem organização atrial. |
| Atividade atrial | Ondas F idênticas entre si, em dente de serra, a 250 a 350 bpm. | Ondas f irregulares, de amplitude e morfologia variáveis, a 350 a 600 bpm. |
| Ritmo ventricular | Habitualmente regular, por condução fixa; pode ser irregular se a condução for variável. | Classicamente irregularmente irregular. |
| Controle de frequência | Mais difícil, frequentemente exigindo doses maiores ou associação de fármacos. | Habitualmente mais responsivo aos bloqueadores do nó. |
| Cardioversão elétrica | Energias baixas, tipicamente 50 a 100 J bifásico. | Energias mais altas, tipicamente 120 a 200 J bifásico. |
| Ablação | Istmo cavotricuspídeo no flutter típico, com sucesso acima de 95% e procedimento relativamente simples. | Isolamento de veias pulmonares, tecnicamente mais complexo e com mais recorrências. |
| Anticoagulação | Mesmos critérios e mesmos limiares para as duas arritmias. | |
O circuito do flutter típico
No flutter típico, o circuito percorre o átrio direito ao redor do anel tricuspídeo, passando obrigatoriamente por uma faixa estreita de miocárdio entre a valva tricúspide e a veia cava inferior: o istmo cavotricuspídeo.
- Esse istmo é uma zona de condução lenta e é o elo vulnerável do circuito.
- Interromper o istmo com uma linha de ablação torna o circuito impossível — daí a alta taxa de sucesso do procedimento.
- A crista terminal e a válvula de Eustáquio funcionam como barreiras anatômicas que delimitam o circuito.
- A frequência atrial em torno de 300 bpm corresponde a um ciclo de aproximadamente 200 milissegundos.
Quando o circuito gira no sentido anti-horário visto de frente, as ondas F são negativas nas derivações inferiores — o padrão clássico. No sentido horário, elas se tornam positivas.
O papel do nó atrioventricular
É o nó que decide quantos dos 300 impulsos atriais por minuto chegam ao ventrículo, e essa relação define a apresentação clínica.
- 2:1 — a mais comum na apresentação inicial, gera cerca de 150 bpm. É justamente a que se disfarça de taquicardia supraventricular comum.
- 3:1 — cerca de 100 bpm.
- 4:1 — cerca de 75 bpm, frequentemente em pacientes já medicados com bloqueadores do nó.
- Variável — gera ritmo irregular e pode ser confundido com fibrilação atrial.
- 1:1 — emergência: cerca de 300 bpm, geralmente com alargamento do QRS, com risco de colapso hemodinâmico.
Antiarrítmicos da classe IC, como propafenona e flecainida, lentificam o circuito atrial para algo em torno de 200 bpm — frequência que o nó consegue conduzir integralmente. O resultado é uma resposta ventricular catastrófica.
Quem tem flutter
Nitidamente mais frequente em homens, com incidência que aumenta com a idade.
Doença pulmonar obstrutiva crônica é uma das associações mais fortes.
Insuficiência cardíaca, valvopatias e cirurgia cardíaca prévia.
Frequente após cirurgia cardíaca e após ablação de fibrilação atrial.
Sucesso acima de 95% no flutter típico, com recorrência baixa.
As quatro perguntas da beira do leito
Frequência regular próxima de 150 bpm obriga a procurar ondas F escondidas no QRS e na onda T. Manobra vagal ou adenosina aumentam o grau de bloqueio e desmascaram a atividade atrial.
Hipotensão, rebaixamento agudo, dor isquêmica, congestão pulmonar aguda ou choque atribuíveis à arritmia indicam cardioversão sincronizada imediata.
Duração acima de 48 horas ou indeterminada muda toda a estratégia de cardioversão: exige anticoagulação prévia por 3 semanas ou ecocardiograma transesofágico.
Aplique o escore de risco tromboembólico com os mesmos critérios da fibrilação atrial. A decisão independe de o ritmo ter sido revertido.
Classificação
A divisão mais útil é entre o flutter que depende do istmo cavotricuspídeo — e portanto é curável por uma linha de ablação bem definida — e todos os demais.
| Tipo | Circuito e características | Eletrocardiograma e conduta |
|---|---|---|
| Típico anti-horário (comum) |
Macrorreentrada no átrio direito ao redor do anel tricuspídeo, girando no sentido anti-horário e passando pelo istmo cavotricuspídeo. Responde pela grande maioria dos casos. | Ondas F negativas em DII, DIII e aVF, com o clássico dente de serra, e positivas em V1. Ablação do istmo com sucesso acima de 95%. |
| Típico horário (reverso) |
Mesmo circuito e mesmo istmo, girando no sentido oposto. Bem menos frequente. | Ondas F positivas nas derivações inferiores e negativas em V1. Também curável pela ablação do istmo. |
| Atípico do átrio direito | Circuitos que não dependem do istmo — ao redor de cicatrizes cirúrgicas, de áreas de fibrose ou de estruturas anatômicas. | Morfologia variável, sem o padrão clássico. Exige mapeamento eletroanatômico; ablação mais complexa. |
| Atípico do átrio esquerdo | Frequentemente após ablação de fibrilação atrial, ao redor do anel mitral, do teto atrial ou de lesões prévias. | Ondas F de baixa amplitude, por vezes difíceis de identificar. Ablação em centro especializado. |
| Pós-incisional | Reentrada ao redor de cicatriz de atriotomia, comum em cardiopatias congênitas operadas. | Circuito individualizado; exige mapeamento e planejamento cuidadoso. |
Anti-horário ou horário — como diferenciar
A distinção é feita pela polaridade das ondas F e tem importância sobretudo para o eletrofisiologista. Ambos os padrões dependem do istmo e têm o mesmo alvo de ablação.
Anti-horário (comum)
- Ondas F negativas em DII, DIII e aVF, com descida lenta e subida rápida — o dente de serra clássico.
- Ondas F positivas em V1.
- Ondas F negativas em V6.
- Responde pela grande maioria dos casos de flutter típico.
Horário (reverso)
- Ondas F positivas nas derivações inferiores, com aspecto mais arredondado e menos serrilhado.
- Ondas F negativas ou bifásicas em V1.
- Ondas F positivas em V6.
- Bem menos frequente, mas com o mesmo alvo terapêutico.
O que procurar como causa
- Doença pulmonar obstrutiva crônica e outras pneumopatias — uma das associações mais fortes; procure hipoxemia e hipercapnia.
- Insuficiência cardíaca e cardiopatia estrutural, com dilatação atrial.
- Valvopatias, sobretudo as que sobrecarregam o átrio direito.
- Cirurgia cardíaca recente — o flutter pós-operatório é frequente e habitualmente transitório.
- Ablação prévia de fibrilação atrial — causa comum de flutter atípico do átrio esquerdo.
- Hipertireoidismo — dose de hormônio tireoestimulante em todo paciente com flutter novo.
- Tromboembolismo pulmonar e outras causas de sobrecarga aguda de câmaras direitas.
- Apneia obstrutiva do sono, obesidade e consumo excessivo de álcool.
- Distúrbios eletrolíticos, pericardite e uso de antiarrítmicos.
- Cardiopatia congênita operada — pense em flutter pós-incisional.
Lendo o flutter
O achado que define o diagnóstico é a atividade atrial contínua e organizada, sem linha de base isoelétrica entre as ondas, formando o padrão em dente de serra melhor visto em DII, DIII e aVF.
| Achado | Como identificar | Significado |
|---|---|---|
| Ondas F em dente de serra | Atividade atrial contínua, sem retorno à linha de base, a 250 a 350 bpm. Melhor visualizada nas derivações inferiores. | Achado diagnóstico do flutter típico. |
| Ondas F em V1 | Nessa derivação as ondas costumam ser discretas e bem separadas, o que ajuda a contar a frequência atrial. | V1 é frequentemente a melhor derivação para contar as ondas F. |
| Frequência ventricular de 150 bpm | Ritmo regular, QRS estreito, sem onda P aparente. | Suspeite de condução 2:1 — é a armadilha clássica do flutter. |
| Ritmo irregular | Condução variável, com intervalos RR que são múltiplos do ciclo atrial. | Pode ser confundido com fibrilação atrial; a diferença é a presença de ondas F organizadas. |
| QRS largo | Aberrância, bloqueio de ramo prévio ou condução muito rápida. | Em frequência muito alta com QRS largo, considere condução 1:1 — emergência. |
| Alterações de repolarização | Ondas F sobrepostas ao segmento ST simulando infra ou supradesnivelamento. | Cuidado ao interpretar isquemia durante o flutter; reavalie após a reversão. |
Como desmascarar o flutter
Quando a condução 2:1 esconde as ondas F, aumentar transitoriamente o grau de bloqueio no nó atrioventricular revela a atividade atrial. A arritmia não reverte — e é exatamente esse o achado diagnóstico.
- Registre um eletrocardiograma de 12 derivações e uma tira longa de ritmo em DII e V1.
- Meça o intervalo entre duas ondas atriais consecutivas e calcule a frequência atrial; próximo de 300 bpm é altamente sugestivo.
- Compare a morfologia da onda T com um traçado prévio em ritmo sinusal — uma onda F sobreposta deforma a T de maneira reconhecível.
- Aplique a manobra de Valsalva modificada mantendo registro contínuo do ritmo.
- Se necessário, administre adenosina em bolus rápido: ela aumenta o bloqueio no nó e revela as ondas F por alguns segundos.
- A adenosina NÃO reverte o flutter — o circuito não depende do nó atrioventricular. Reverter com adenosina afasta o diagnóstico e aponta para reentrada nodal ou atrioventricular.
- Registre o traçado durante a manobra: é ele que documenta o diagnóstico para quem vier depois.
Diagnóstico diferencial
| Condição | Como diferenciar | Consequência prática |
|---|---|---|
| Reentrada nodal | Onda P retrógrada escondida no QRS, com pseudo-r' em V1; ausência de atividade atrial contínua. Reverte com adenosina. | Se reverteu com adenosina, não era flutter. |
| Taquicardia sinusal | Onda P de morfologia sinusal com linha de base isoelétrica; frequência varia com o estímulo e desacelera gradualmente. | Tratar a causa; não cardioverter. |
| Taquicardia atrial focal | Onda P única de morfologia diferente da sinusal, com linha de base isoelétrica entre as ondas. | A presença de linha isoelétrica é o achado que mais separa da macrorreentrada. |
| Fibrilação atrial | Ondas f irregulares em amplitude e morfologia, sem organização, com ritmo irregularmente irregular. | Energias de cardioversão mais altas; anticoagulação com os mesmos critérios. |
| Taquicardia atrial multifocal | Três ou mais morfologias distintas de onda P, com PR variável, em paciente com doença pulmonar avançada. | O tratamento é da doença de base; cardioversão não tem papel. |
| Taquicardia ventricular | QRS largo com dissociação atrioventricular, batimentos de captura ou de fusão. | Flutter com aberrância pode simular — na dúvida, trate como ventricular. |
Sequência de abordagem
- Monitorização contínua, acesso venoso, oximetria e desfibrilador ao lado. Registre o eletrocardiograma de 12 derivações.
- AVALIE A ESTABILIDADE: hipotensão, rebaixamento agudo, dor isquêmica, congestão pulmonar aguda ou choque atribuíveis à arritmia indicam CARDIOVERSÃO SINCRONIZADA imediata, com sedação.
- Confirme o diagnóstico procurando ondas F; use manobra vagal ou adenosina para desmascarar a condução 2:1.
- Determine há quanto tempo a arritmia começou — é o dado que define a estratégia de cardioversão.
- Procure e trate o precipitante: hipoxemia, hipertireoidismo, embolia pulmonar, distúrbio eletrolítico, sepse, álcool e pós-operatório recente.
- Decida entre controle de frequência e controle de ritmo, considerando sintomas, duração, comorbidades e preferência do paciente.
- Inicie controle de frequência com betabloqueador, diltiazem ou verapamil, respeitando a função ventricular.
- NUNCA use antiarrítmico da classe IC isolado — propafenona e flecainida sem bloqueador do nó podem gerar condução 1:1 com colapso hemodinâmico.
- Aplique o escore de risco tromboembólico e defina a anticoagulação, com os mesmos critérios da fibrilação atrial.
- Solicite ecocardiograma transtorácico, função tireoidiana, eletrólitos e hemograma.
- Encaminhe à eletrofisiologia: a ablação do istmo é altamente eficaz e deve ser oferecida precocemente no flutter típico.
Controle de frequência ou de ritmo
No flutter, essa balança pende mais para o controle de ritmo do que na fibrilação atrial — porque o controle de frequência é notoriamente difícil e porque a ablação oferece uma solução definitiva.
Controle de frequência
- Betabloqueador, diltiazem ou verapamil, por via intravenosa na fase aguda e oral na manutenção.
- Betabloqueadores são preferidos quando há insuficiência cardíaca; diltiazem e verapamil devem ser evitados com fração de ejeção reduzida.
- Digoxina como adjuvante, especialmente em disfunção ventricular, com início de ação lento.
- Amiodarona quando os demais são contraindicados.
- Limitação: no flutter, atingir o alvo frequentemente exige doses altas ou associação, e ainda assim a resposta pode ser insatisfatória.
Controle de ritmo
- Cardioversão elétrica sincronizada — a mais eficaz, com energias baixas de 50 a 100 J bifásico.
- Ibutilida é o antiarrítmico com melhor desempenho na reversão do flutter, onde disponível.
- Amiodarona tem eficácia limitada para reverter, mas ajuda no controle de frequência.
- Estimulação atrial rápida em pacientes com marca-passo ou eletrodos epicárdicos no pós-operatório.
- Ablação do istmo como estratégia definitiva no flutter típico.
Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, técnica e cuidados. Confira sempre a bula, a apresentação disponível e o protocolo institucional antes de prescrever.
Manejo agudo
Controlar a frequência, reverter o ritmo ou ambos. A instabilidade hemodinâmica atravessa toda a escala e leva direto à cardioversão.
Anticoagulação e tratamento definitivo
As decisões que se tomam depois de estabilizado o ritmo — e que determinam o prognóstico a longo prazo.
Risco tromboembólico — CHA₂DS₂-VA e CHA₂DS₂-VASc
Aplica-se ao flutter atrial com os mesmos critérios da fibrilação atrial. A diretriz europeia de 2024 substituiu o CHA₂DS₂-VASc pelo CHA₂DS₂-VA, removendo o sexo feminino como fator de risco independente. A ferramenta calcula os dois em paralelo.
Risco hemorrágico — HAS-BLED
Estima o risco de sangramento maior no paciente anticoagulado. Sua função principal não é decidir se anticoagula, e sim identificar e corrigir fatores modificáveis e sinalizar quem precisa de seguimento mais próximo.
Relação de condução atrioventricular
Calcula a relação entre a frequência atrial e a ventricular, ajudando a confirmar o flutter e a reconhecer a armadilha da condução 2:1. Informe a frequência atrial contada nas ondas F ou o intervalo entre duas ondas F consecutivas.
Estratégia de cardioversão e anticoagulação
Cruza a duração da arritmia, o estado de anticoagulação e a estabilidade hemodinâmica para definir se a cardioversão pode ser imediata, guiada por ecocardiograma transesofágico ou precedida de três semanas de anticoagulação.
A regra que organiza tudo
O flutter atrial é anticoagulado com os mesmos critérios, os mesmos escores e os mesmos limiares da fibrilação atrial. Não existe um escore próprio do flutter, nem um limiar mais permissivo.
A diretriz europeia de 2024 trouxe a mudança mais relevante da última década nesse campo: a substituição do CHA₂DS₂-VASc pelo CHA₂DS₂-VA, com a remoção do sexo feminino como fator de risco independente. O raciocínio é que o sexo funciona como modificador de risco dependente da idade, e não como fator isolado — nas faixas em que a diferença aparece, a paciente já teria indicação de anticoagulação por outros critérios.
| Pontuação | Recomendação (ESC 2024) | Observação |
|---|---|---|
| 0 | Anticoagulação não indicada pelo escore. | Reavalie periodicamente — o escore muda com o tempo e com novas comorbidades. |
| 1 | Anticoagulação deve ser considerada, em decisão compartilhada com o paciente. | Recomendação de classe IIa; pese o risco hemorrágico e a preferência informada. |
| ≥ 2 | Anticoagulação recomendada. | Recomendação de classe I; anticoagulante oral direto como primeira escolha. |
Anticoagulação peri-cardioversão
A cardioversão — elétrica ou farmacológica — desencadeia o atordoamento atrial: o átrio recupera o ritmo antes de recuperar a contratilidade, e o risco de embolia persiste por semanas mesmo com o eletrocardiograma em ritmo sinusal.
| Cenário | Antes da cardioversão | Depois da cardioversão |
|---|---|---|
| Instabilidade hemodinâmica | Cardioverter imediatamente, sem aguardar exames ou anticoagulação; iniciar anticoagulação parenteral o quanto antes. | Manter anticoagulação por pelo menos 4 semanas e reavaliar a indicação de longo prazo. |
| Menos de 48 horas, início documentado | Cardioversão pode ser realizada sem as 3 semanas prévias; iniciar anticoagulação antes ou no momento do procedimento. | Anticoagulação por pelo menos 4 semanas, mesmo com escore de risco zero. |
| 48 horas ou mais, ou duração indeterminada | 3 semanas de anticoagulação adequada antes do procedimento, ou ecocardiograma transesofágico afastando trombo atrial. | Anticoagulação por pelo menos 4 semanas, com reavaliação da indicação de longo prazo. |
| Trombo identificado ao ecocardiograma | Adiar a cardioversão eletiva; anticoagular e reavaliar por imagem após algumas semanas. | Prosseguir apenas após a resolução documentada do trombo. |
| Já anticoagulado adequadamente há 3 semanas ou mais | Cardioversão pode ser realizada; confirmar adesão e, no caso de antagonista da vitamina K, o tempo em faixa terapêutica. | Manter a anticoagulação sem interrupção. |
Escolhendo o anticoagulante
Primeira escolha na grande maioria dos pacientes: apixabana, rivaroxabana, dabigatrana e edoxabana. Dispensam controle de INR e têm menos hemorragia intracraniana.
Prótese valvar mecânica e estenose mitral moderada a grave — nesses casos, antagonista da vitamina K com alvo de INR definido.
Ajustar conforme a bula de cada agente, considerando idade, peso e depuração de creatinina. Evite reduções de dose não justificadas — elas aumentam o risco de evento sem reduzir o sangramento.
AAS isolado não é alternativa à anticoagulação na prevenção de embolia. Associar antiagregante ao anticoagulante só com indicação vascular específica.
Escore de risco, função renal, adesão e fatores hemorrágicos modificáveis devem ser reavaliados ao menos anualmente.
Opção em pacientes com contraindicação de longo prazo à anticoagulação, avaliada em centro especializado.
Ablação e o que muda depois
A ablação do istmo cavotricuspídeo tem sucesso acima de 95% no flutter típico, com recorrência baixa e procedimento relativamente simples em comparação à ablação de fibrilação atrial. É oferecida precocemente, e não apenas após falha de medicamentos.
- Indicação ampla — flutter típico sintomático, recorrente, com controle de frequência difícil ou por preferência do paciente.
- Alvo — linha de ablação no istmo, entre a valva tricúspide e a veia cava inferior, com confirmação de bloqueio bidirecional ao final do procedimento.
- Flutter atípico — exige mapeamento eletroanatômico, é tecnicamente mais complexo e tem menor taxa de sucesso.
- Riscos — complicações vasculares no sítio de punção, derrame pericárdico, e bloqueio atrioventricular em circuitos próximos ao nó.
- A anticoagulação NÃO é suspensa automaticamente após a ablação bem-sucedida — a decisão continua sendo do escore de risco.
- Cerca de metade dos pacientes desenvolve fibrilação atrial no seguimento, frequentemente assintomática, o que reforça a manutenção da anticoagulação nos pacientes de risco.
- Seguimento — monitorização ambulatorial periódica para detectar fibrilação atrial silenciosa, sobretudo em pacientes com escore elevado.
Situações com manejo próprio
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Condução 1:1 | Frequência ventricular próxima de 300 bpm, geralmente com QRS alargado e colapso hemodinâmico. Quase sempre precipitada por antiarrítmico da classe IC sem bloqueador do nó. | Cardioversão elétrica imediata. Suspender o antiarrítmico. Considerar bicarbonato de sódio na toxicidade por bloqueio de canal de sódio, conforme o protocolo. |
| Doença pulmonar obstrutiva | Associação forte; hipoxemia e hipercapnia sustentam a arritmia. Betabloqueador pode agravar broncoespasmo. | Corrigir hipoxemia e broncoespasmo primeiro. Preferir diltiazem ou verapamil quando a função ventricular permite; betabloqueador cardiosseletivo com cautela. |
| Insuficiência cardíaca | A arritmia piora a congestão, e a congestão perpetua a arritmia. | Evitar diltiazem e verapamil com fração de ejeção reduzida. Preferir betabloqueador, digoxina ou amiodarona; limiar mais baixo para cardioversão. |
| Pós-operatório de cirurgia cardíaca | Frequente nos primeiros dias, habitualmente transitório e relacionado a inflamação, distúrbio eletrolítico e catecolaminas. | Corrigir potássio e magnésio, tratar dor e hipovolemia. Estimulação atrial rápida pelos eletrodos epicárdicos é opção elegante quando disponível. |
| Após ablação de fibrilação atrial | Causa comum de flutter atípico do átrio esquerdo, por circuitos ao redor das linhas de ablação prévias. | Encaminhar ao centro que realizou o procedimento; exige mapeamento eletroanatômico. |
| Hipertireoidismo | Pode ser a única manifestação; o controle de frequência é particularmente difícil enquanto a tireotoxicose persiste. | Dosar hormônio tireoestimulante em todo flutter novo. Tratar a tireotoxicose é parte do tratamento da arritmia. |
| Cardiomiopatia induzida por taquicardia | Disfunção ventricular causada pela própria arritmia persistente, frequentemente confundida com miocardiopatia dilatada primária. | Suspeitar diante de flutter persistente com disfunção ventricular. A ablação costuma reverter a disfunção. |
| Cardiopatia congênita operada | Flutter pós-incisional, ao redor de cicatrizes de atriotomia; anatomia complexa. | Encaminhar a centro com experiência em cardiopatias congênitas do adulto. |
| Gestação | Incomum, mas exige cuidado com a escolha farmacológica. | Cardioversão elétrica é segura em qualquer trimestre, com monitorização fetal. Evitar amiodarona; anticoagulação com heparina de baixo peso molecular, e não com anticoagulante oral direto. |
Erros comuns
- Rotular como taquicardia supraventricular comum um flutter com condução 2:1 a 150 bpm.
- Não procurar ondas F escondidas dentro do QRS e da onda T diante de ritmo regular a 150 bpm.
- Esperar que a adenosina reverta o flutter — ela apenas desmascara, porque o circuito não depende do nó.
- Presumir que o flutter tem risco embólico menor que a fibrilação atrial e deixar de anticoagular.
- Suspender a anticoagulação assim que o paciente retorna ao ritmo sinusal.
- Suspender a anticoagulação após ablação bem-sucedida do istmo, ignorando o escore de risco.
- Não manter as 4 semanas de anticoagulação obrigatórias após qualquer cardioversão.
- Cardioverter eletivamente arritmia com mais de 48 horas sem anticoagulação prévia nem ecocardiograma transesofágico.
- Prescrever propafenona ou flecainida sem associar bloqueador do nó atrioventricular, com risco de condução 1:1.
- Usar diltiazem ou verapamil em paciente com fração de ejeção reduzida.
- Insistir indefinidamente no controle de frequência, que no flutter é notoriamente difícil, em vez de considerar reversão ou ablação.
- Não dosar função tireoidiana em flutter de início recente.
- Não solicitar ecocardiograma transtorácico em todo paciente com flutter.
- Interpretar como isquemia as alterações de ST causadas pelas ondas F sobrepostas.
- Não corrigir hipoxemia e broncoespasmo antes de escalonar antiarrítmicos no pneumopata.
- Reduzir a dose do anticoagulante oral direto sem critério de bula, aumentando o risco de evento.
- Considerar HAS-BLED elevado como contraindicação à anticoagulação, em vez de sinal para corrigir fatores modificáveis.
- Não encaminhar à eletrofisiologia um paciente com flutter típico recorrente, apesar da alta taxa de cura.
Resumo do fluxo
- Monitorização, acesso venoso, oximetria e desfibrilador ao lado; eletrocardiograma de 12 derivações com tira longa em DII e V1.
- AVALIE A ESTABILIDADE: instabilidade atribuível à arritmia indica CARDIOVERSÃO SINCRONIZADA imediata com 50 a 100 J, sob sedação.
- Confirme o flutter procurando ondas F em dente de serra; use manobra vagal ou adenosina para desmascarar a condução 2:1.
- Calcule a relação de condução; frequência ventricular próxima da atrial indica condução 1:1 e é emergência.
- Determine há quanto tempo começou — é o dado que define toda a estratégia de cardioversão.
- Procure precipitantes: hipoxemia, hipertireoidismo, embolia pulmonar, distúrbio eletrolítico, pós-operatório e álcool.
- Inicie controle de frequência com betabloqueador, diltiazem ou verapamil, respeitando a fração de ejeção.
- NUNCA prescreva classe IC isolada — sempre associada a bloqueador do nó atrioventricular.
- Aplique o escore de risco tromboembólico com os mesmos critérios da fibrilação atrial e defina a anticoagulação.
- Para cardioversão eletiva com mais de 48 horas de arritmia: 3 semanas de anticoagulação prévia ou ecocardiograma transesofágico.
- Após qualquer cardioversão, mantenha anticoagulação por pelo menos 4 semanas.
- Solicite ecocardiograma transtorácico, função tireoidiana, eletrólitos e hemograma.
- Encaminhe à eletrofisiologia: a ablação do istmo cura mais de 95% dos flutters típicos.
- Explique ao paciente que a ablação não encerra, por si só, a indicação de anticoagulação.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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- Regitz-Zagrosek V, Roos-Hesselink JW, Bauersachs J, et al. 2018 ESC Guidelines for the management of cardiovascular diseases during pregnancy. Eur Heart J. 2018;39(34):3165-3241.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, energias, escores e condutas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.
Informações rápidas
Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Reconhecer
Ondas F em dente de serra em DII, DIII e aVF, sem linha de base isoelétrica, a 250 a 350 bpm. V1 costuma ser a melhor derivação para contar as ondas. Ritmo regular a 150 bpm obriga a suspeitar de condução 2:1. Manobra vagal ou adenosina aumentam o bloqueio e desmascaram a atividade atrial — mas não revertem o flutter.
Controlar
O controle de frequência no flutter é notoriamente mais difícil que na fibrilação atrial. Use betabloqueador, diltiazem ou verapamil, evitando os dois últimos com fração de ejeção reduzida. Instabilidade atribuível à arritmia indica cardioversão sincronizada imediata. Nunca prescreva propafenona ou flecainida sem bloqueador do nó, pelo risco de condução 1:1.
Anticoagular
Mesmos critérios da fibrilação atrial. A ESC 2024 adotou o CHA₂DS₂-VA, sem o critério sexo: anticoagular com 2 ou mais, considerar com 1. Cardioversão eletiva com mais de 48 horas de arritmia exige 3 semanas de anticoagulação prévia ou ecocardiograma transesofágico. Mantenha 4 semanas de anticoagulação após qualquer cardioversão.
Curar
A ablação do istmo cavotricuspídeo cura mais de 95% dos flutters típicos, com procedimento relativamente simples e baixa recorrência. Deve ser oferecida precocemente. Atenção: cerca de metade dos pacientes desenvolve fibrilação atrial no seguimento, e por isso a ablação bem-sucedida não encerra, por si só, a indicação de anticoagulação.
Números rápidos
Frequência atrial: 250 a 350 bpm; o flutter típico gira em torno de 300.
Condução 2:1: ventrículo a cerca de 150 bpm — a armadilha clássica.
Cardioversão: 50 a 100 J bifásico, sincronizada e com sedação.
Anticoagulação: CHA₂DS₂-VA de 2 ou mais recomenda; 1 considera.
Pós-cardioversão: pelo menos 4 semanas de anticoagulação, mesmo com escore zero.
Ablação do istmo: sucesso acima de 95% no flutter típico.
Não esqueça
Ritmo regular a 150 bpm: procure ondas F escondidas no QRS e na onda T.
Adenosina desmascara, mas não reverte o flutter.
Anticoagula com os mesmos critérios da fibrilação atrial.
Classe IC sem bloqueador do nó pode gerar condução 1:1.
Ablação bem-sucedida não encerra a indicação de anticoagulação.
Artigos relacionados
Em provas / residência
A banca cobra o dente de serra nas derivações inferiores, a condução 2:1 a 150 bpm, a energia baixa de cardioversão e a anticoagulação idêntica à da fibrilação atrial.
Decore: adenosina desmascara mas não reverte; classe IC sem bloqueador do nó gera condução 1:1; ablação do istmo cura mais de 95%.
