Angina Instável
É isquemia miocárdica transitória sem necrose detectável pela troponina — o único membro da tríade das síndromes coronarianas agudas definido por aquilo que não tem. Com a troponina ultrassensível, o diagnóstico encolheu: boa parte do que se chamava angina instável hoje é infarto sem supradesnivelamento. O que sobrou continua sendo perigoso, e o erro que mais custa vidas é dar alta ao paciente errado.
Reconhecer
- Angina de repouso prolongada, recente ou em crescendo
- ECG em até 10 minutos do primeiro contato médico
- Troponina seriada permanece negativa
- Não use "dor atípica" nem classificação A/B/C/D
Ler o ECG
- Infra de ST e inversão de T são os achados típicos
- ECG normal em mais de 90% dos protocolos de dor
- Procure equivalentes de oclusão: De Winter, Wellens, Aslanger
- Seriar a cada 15 a 30 minutos se a dor persistir
Estratificar
- HEART é o escore preferido na emergência
- HEART até 3 com troponina normal permite alta
- TIMI e GRACE orientam o tempo do cateterismo
- GRACE acima de 140 indica invasiva em até 24 horas
Tratar
- AAS imediato mais anticoagulação parenteral
- Nitrato e betabloqueador para a isquemia
- Estatina de alta potência ainda na internação
- Instabilidade ou dor refratária: cateterismo em 2 horas
O que é angina instável
Angina instável é a isquemia miocárdica transitória que reduz o fluxo coronariano sem produzir mionecrose detectável pela troponina circulante. É o extremo menos grave do espectro das síndromes coronarianas agudas, que reúne, em ordem crescente de gravidade, a angina instável, o infarto sem supradesnivelamento do segmento ST e o infarto com supradesnivelamento.
A definição é, portanto, de exclusão: mesmo quadro clínico e mesma fisiopatologia do infarto sem supra, mas com curva de troponina negativa. Isso tem uma consequência prática direta — o diagnóstico só pode ser fechado depois da segunda ou terceira dosagem, e nunca na primeira avaliação.
Por que o diagnóstico encolheu
Com os ensaios de troponina ultrassensível, elevações antes indetectáveis passaram a ser identificadas. Muitos pacientes que há uma década seriam rotulados como angina instável hoje preenchem critério de infarto sem supradesnivelamento — o que muda a estratificação, a terapia antitrombótica e o prognóstico declarado.
O que mudou
- A proporção de angina instável dentro das síndromes sem supra caiu de forma expressiva.
- O grupo remanescente é mais heterogêneo e inclui isquemia por mecanismos não trombóticos.
- Aumentou o peso dos escores de risco e dos protocolos de alta segura, já que o biomarcador deixou de separar bem os grupos.
- A diretriz da ACC e da AHA de 2025 reuniu angina instável, infarto sem supra e infarto com supra em um documento único, reconhecendo que a avaliação inicial e boa parte do tratamento são comuns.
O que não mudou
- O paciente com troponina negativa não é necessariamente de baixo risco: pode ter lesão de tronco ou triarterial.
- O ECG continua sendo o exame mais urgente, com meta de 10 minutos.
- A dor refratária e a instabilidade hemodinâmica continuam sendo indicação de cateterismo imediato, independentemente da troponina.
- A alta inadvertida continua sendo a complicação mais temida do protocolo de dor torácica.
Fisiopatologia
O mecanismo dominante é a instabilização da placa aterosclerótica, por ruptura da capa fibrosa ou por erosão endotelial, com formação de trombo plaquetário que obstrui parcialmente a luz — ou que oclui de forma intermitente, com lise espontânea.
- Trombo suboclusivo sobre placa rota ou erodida — o mecanismo clássico, que responde à terapia antitrombótica.
- Microembolização distal de material plaquetário, que pode produzir pequenas áreas de necrose e elevar a troponina.
- Obstrução dinâmica por vasoespasmo focal, epicárdico ou microvascular.
- Obstrução mecânica progressiva, como reestenose intrastent.
- Isquemia secundária por aumento da demanda ou queda da oferta — anemia, taquiarritmia, febre, tireotoxicose, hipotensão, hipoxemia.
As três apresentações clássicas
Reconhecer qualquer uma delas em paciente com dor torácica muda o cenário de "investigar" para "suspeitar ativamente".
- Angina de repouso — ocorre sem esforço e habitualmente dura mais de 20 minutos, com episódio na última semana.
- Angina de início recente — surgida nos últimos dois meses, limitando de forma importante a atividade habitual, ou seja, classe III ou IV da Sociedade Canadense de Cardiologia.
- Angina em crescendo — angina previamente estável que se tornou mais frequente, mais intensa, mais prolongada ou desencadeada por esforços progressivamente menores.
"Mudou alguma coisa na sua dor no último mês?" Frequência, intensidade, duração e limiar de esforço são as quatro variáveis que separam a angina estável da instável.
Por que isso importa
A dor torácica responde por milhões de atendimentos por ano no Brasil, e apenas uma fração corresponde a síndrome coronariana. O desafio é duplo: não liberar quem está infartando e não internar quem não precisa.
Cerca de 5 a 8 milhões de atendimentos por dor torácica por ano no Brasil.
Apenas 5% a 20% dos casos correspondem de fato a síndrome coronariana aguda.
Mais de 90% dos pacientes do protocolo de dor têm ECG não diagnóstico.
Cerca de metade dos casos confirmados chega com ECG não diagnóstico.
Associa-se a aumento expressivo da mortalidade e é a principal causa de litígio na emergência.
Os quatro passos do protocolo brasileiro
ECG de 12 derivações em até 10 minutos do primeiro contato, interpretado por médico experiente. Procure supradesnivelamento e também os equivalentes de oclusão coronariana aguda.
Dor persistente, ECG preocupante, instabilidade hemodinâmica, má perfusão, congestão pulmonar aguda e taquiarritmias ou bradiarritmias no contexto da dor exigem investigação acelerada, ECG seriado e ultrassom à beira do leito.
Estimar a probabilidade diagnóstica com ferramentas validadas — HEART para síndrome coronariana, Wells e PERC para tromboembolismo, ADD-RS para síndrome aórtica — e dosar troponina ultrassensível seriada.
Nos pacientes de zona intermediária, definir entre observação prolongada, teste funcional, angiotomografia de coronárias ou cateterismo, conforme o risco e a disponibilidade local.
Caracterizando a dor
A anamnese continua sendo a ferramenta mais poderosa da emergência, mas nenhuma característica isolada confirma ou exclui isquemia. O que importa é o conjunto, transposto para uma estimativa de probabilidade.
Aumenta a suspeita
- Desconforto retroesternal em aperto, peso, opressão ou queimação.
- Irradiação para ambos os braços, ombros, mandíbula ou dorso.
- Desencadeada por esforço ou estresse emocional.
- Acompanhada de sudorese fria, náusea, vômito ou dispneia.
- Semelhante a evento isquêmico prévio já documentado.
- Duração de minutos a algumas horas, contínua.
Reduz a suspeita
- Dor pleurítica, que piora com a respiração.
- Dor posicional, que muda com o decúbito.
- Reprodutível à palpação da parede torácica.
- Em pontada, muito localizada, apontada com a ponta do dedo.
- Duração de segundos, ou dor contínua por dias sem variação.
- Irradiação para membros inferiores.
Equivalentes anginosos e apresentações silenciosas
Em pacientes com 45 anos ou mais ou com fatores de risco, alguns sintomas devem ser tratados como equivalentes anginosos quando não há diagnóstico alternativo evidente.
É o equivalente anginoso mais comum, sobretudo em idosos, diabéticos e mulheres. Dispneia de início súbito sem causa respiratória merece ECG e troponina.
Epigastralgia, náusea, vômito e sensação de indigestão, especialmente na parede inferior. Alívio com antiácido não afasta isquemia.
Podem refletir arritmia isquêmica ou queda do débito. Exigem ECG e avaliação de risco.
Sudorese fria profusa é sinal de descarga adrenérgica e tem valor preditivo relevante.
Podem apresentar apenas confusão mental, queda, fraqueza ou piora funcional aguda.
A neuropatia autonômica atenua a dor; a isquemia silenciosa é mais frequente e o diagnóstico, mais tardio.
Classificação de Braunwald
Classificação clássica da angina instável, ainda cobrada em provas e útil para comunicar gravidade de forma padronizada. Combina três eixos: gravidade, circunstância clínica e intensidade do tratamento em uso.
| Eixo | Categoria | Definição |
|---|---|---|
| Gravidade | I | Angina de início recente, grave ou em crescendo, sem dor em repouso. |
| II | Angina de repouso no último mês, mas não nas últimas 48 horas — angina de repouso subaguda. | |
| III | Angina de repouso nas últimas 48 horas — angina de repouso aguda, o subgrupo de maior risco. | |
| Circunstância | A | Secundária — precipitada por condição extracoronariana: anemia, febre, taquiarritmia, tireotoxicose, hipoxemia, hipotensão. |
| B | Primária — sem fator precipitante extracoronariano identificável. | |
| C | Pós-infarto — ocorre nas duas semanas seguintes a um infarto agudo do miocárdio. | |
| Tratamento | 1 | Ausência de tratamento ou tratamento mínimo para angina crônica estável. |
| 2 | Sintomas apesar de terapia antianginosa habitual por via oral. | |
| 3 | Sintomas apesar de terapia máxima, incluindo nitrato intravenoso. |
Diagnóstico diferencial da dor torácica
Antes de fechar angina instável, percorra as causas letais. O ultrassom à beira do leito resolve boa parte delas em minutos.
| Condição | Pistas | Conduta |
|---|---|---|
| Síndrome aórtica aguda | Dor súbita, lancinante, migratória para o dorso, sem fator de melhora; assimetria de pulsos, sopro de insuficiência aórtica, alargamento de mediastino. | Aplicar o escore ADD-RS; angiotomografia. Anticoagular por engano é catastrófico. |
| Tromboembolismo pulmonar | Dor pleurítica, dispneia, taquipneia, hipoxemia, fatores de risco para trombose. | Escores de Wells e PERC; D-dímero se probabilidade baixa, angiotomografia se maior. |
| Pneumotórax hipertensivo | Assimetria de murmúrio, timpanismo, desvio de traqueia, instabilidade. | Descompressão imediata, sem aguardar imagem. |
| Tamponamento cardíaco | Hipotensão, turgência jugular, pulmões limpos, pulso paradoxal. | Ecocardiograma imediato e pericardiocentese. |
| Pericardite e miopericardite | Dor pleurítica que alivia inclinado para a frente, atrito, supra difuso côncavo com infra de PR. | PCR e troponina; razão PCR sobre troponina elevada favorece miopericardite. |
| Ruptura de esôfago | Vômitos intensos precedendo a dor, enfisema subcutâneo, derrame pleural à esquerda. | Tomografia com contraste; mortalidade alta se o diagnóstico atrasa. |
| Espasmo esofágico e refluxo | Relação com alimentação e decúbito, disfagia, pirose. | Diagnóstico de exclusão — nunca antes de afastar as causas cardiovasculares. |
| Causas musculoesqueléticas | Dor reprodutível à palpação, relação com movimento, história de trauma ou esforço. | Lembre que a reprodutibilidade à palpação não exclui isquemia concomitante. |
| Ansiedade e transtorno de pânico | Parestesias, sensação de morte iminente, hiperventilação, episódios recorrentes semelhantes. | Diagnóstico de exclusão em paciente com fatores de risco cardiovascular. |
Eletrocardiograma na angina instável
O ECG deve ser realizado e interpretado em até 10 minutos do primeiro contato médico. Ele não confirma angina instável — confirma ou afasta o supradesnivelamento e identifica os padrões de alto risco.
| Achado | Significado | Conduta |
|---|---|---|
| Infradesnivelamento de ST | Horizontal ou descendente, igual ou maior que 0,5 mm em duas derivações contíguas. É o achado mais característico e um marcador de risco; quanto maior a magnitude e o número de derivações, pior o prognóstico. | Interna e estratifica como risco elevado. Infra difuso com supra em aVR sugere lesão de tronco ou triarterial. |
| Inversão de onda T | Simétrica e profunda, maior que 2 mm nas derivações precordiais, sugere isquemia. Inversões leves e inespecíficas têm baixo valor. | Valorize a dinâmica: alteração que aparece com a dor e regride com o alívio tem alto valor. |
| Supra de ST transitório | Supradesnivelamento que aparece e regride, tipicamente por vasoespasmo ou oclusão intermitente. É critério de muito alto risco. | Cateterismo imediato, em até 2 horas. |
| ECG normal | Ocorre em mais de 90% dos pacientes do protocolo de dor torácica e em cerca de metade das síndromes coronarianas confirmadas. | Não exclui o diagnóstico. Seriar o traçado e aplicar escore de risco. |
| Bloqueio de ramo esquerdo novo | Dificulta a leitura de isquemia; quando novo e com sintomas típicos, deve ser tratado como equivalente de oclusão. | Aplique os critérios de Sgarbossa e compare com traçados prévios. |
Equivalentes de oclusão coronariana aguda
A diretriz brasileira de 2025 foi a primeira a recomendar formalmente a busca por padrões de oclusão coronariana aguda sem supradesnivelamento clássico. São traçados que parecem "sem supra", mas correspondem a artéria ocluída ou criticamente obstruída.
Ondas T altas, simétricas e proeminentes precedidas de infradesnivelamento ascendente do ponto J em derivações precordiais. Corresponde a oclusão proximal da descendente anterior.
Ondas T profundamente invertidas ou bifásicas em V2 e V3, tipicamente sem dor no momento do registro. Indica obstrução crítica da descendente anterior — teste ergométrico é contraindicado.
Supradesnivelamento isolado em DIII, com infradesnivelamento em outras derivações. Sugere infarto inferior com doença multiarterial.
Infra de ST em V1 a V3 com ondas R altas e T positivas. Registre as derivações V7, V8 e V9 para confirmar.
Supradesnivelamento em aVR com infra difuso em 6 ou mais derivações sugere lesão de tronco de coronária esquerda ou doença triarterial.
Qualquer alteração que aparece e desaparece acompanhando a dor é sinal de alto risco, mesmo que cada traçado isolado pareça normal.
Troponina — a peça que define o diagnóstico
Na angina instável, a troponina permanece negativa em curva. Isso significa duas dosagens, não uma. A dosagem única na chegada é insuficiente e é fonte frequente de alta inadvertida.
- Colha a troponina, preferencialmente ultrassensível, na chegada (tempo zero).
- Repita conforme o algoritmo do seu ensaio: habitualmente em 1 hora (protocolo 0/1h) ou em 2 horas (protocolo 0/2h).
- Nos casos de zona intermediária, colha uma terceira amostra, tipicamente em 3 horas.
- Interprete a variação entre as amostras, e não apenas o valor absoluto — a diretriz brasileira considera curva positiva a variação igual ou superior a 20%.
- Pela 4ª Definição Universal, o infarto exige elevação ou queda com pelo menos UM valor acima do percentil 99 do ensaio, somada a evidência clínica de isquemia.
- Troponina que permanece estável e abaixo do percentil 99, com quadro clínico compatível, sustenta o diagnóstico de angina instável.
- Use sempre os pontos de corte do ensaio do seu laboratório: valores de kits diferentes não são intercambiáveis.
Troponina elevada nem sempre é infarto tipo 1
Se a troponina positivar, o diagnóstico deixa de ser angina instável — mas não necessariamente vira infarto por ruptura de placa. Vale percorrer as alternativas antes de acionar a hemodinâmica.
Causas cardíacas
- Infarto tipo 2 — desequilíbrio entre oferta e demanda: taquiarritmia, anemia grave, sepse, hipotensão, crise hipertensiva.
- Miocardite e miopericardite.
- Insuficiência cardíaca descompensada.
- Cardiomiopatia de estresse (takotsubo).
- Taquiarritmias sustentadas e cardioversão elétrica.
- Contusão miocárdica e procedimentos cardíacos.
Causas não cardíacas
- Tromboembolismo pulmonar e hipertensão pulmonar.
- Doença renal crônica — elevação basal crônica; o que importa é a variação.
- Sepse e choque de qualquer origem.
- Acidente vascular cerebral e hemorragia subaracnóidea.
- Exercício extenuante.
- Rabdomiólise com acometimento cardíaco.
Outros exames na avaliação inicial
- Radiografia de tórax — avalia congestão, alargamento de mediastino, pneumotórax e outras causas de dor.
- Ultrassom à beira do leito — central nos pacientes instáveis; procura alteração segmentar da contratilidade, derrame pericárdico, disfunção de ventrículo direito, dissecção e pneumotórax.
- Ecocardiograma transtorácico — alteração segmentar nova sustenta isquemia; exame normal durante a dor reduz a probabilidade.
- Laboratório complementar — hemograma, função renal e eletrólitos (antes do contraste), glicemia, perfil lipídico e função tireoidiana quando pertinente.
- Angiotomografia de coronárias — alto valor preditivo negativo; útil em pacientes de risco baixo a intermediário com anatomia favorável.
- Testes funcionais — ergometria, cintilografia ou eco de estresse para os pacientes estáveis, nunca durante a dor ou com ECG isquêmico.
- Cateterismo — definidor da anatomia e da conduta nos pacientes de risco elevado.
Três escores, três perguntas diferentes
É comum confundi-los. Cada um responde a uma pergunta distinta e se aplica a um momento distinto do atendimento.
| Escore | A quem se aplica | O que prevê | Para que serve |
|---|---|---|---|
| HEART | Dor torácica indiferenciada, ainda sem diagnóstico de síndrome coronariana. | Eventos cardiovasculares maiores em 6 semanas. | Decidir sobre alta segura na emergência. É o escore preferido pela diretriz brasileira. |
| TIMI | Síndrome coronariana já diagnosticada, sem supradesnivelamento. | Morte, infarto ou revascularização de urgência em 14 dias. | Estratificar gravidade e apoiar a decisão sobre estratégia invasiva. |
| GRACE | Síndrome coronariana já diagnosticada. | Mortalidade intra-hospitalar e em 1 ano. | Definir o tempo da estratégia invasiva; acima de 140 indica cateterismo em até 24 horas. |
Escore HEART em detalhe
Cinco domínios, cada um valendo de 0 a 2 pontos, totalizando de 0 a 10. É o escore mais bem estudado na população com dor torácica aguda.
| Domínio | 0 ponto | 1 ponto | 2 pontos |
|---|---|---|---|
| História | Pouco suspeita | Moderadamente suspeita | Altamente suspeita |
| ECG | Normal | Alteração inespecífica de repolarização ou bloqueio de ramo | Infradesnivelamento significativo de ST |
| Idade | Menos de 45 anos | De 45 a 64 anos | 65 anos ou mais |
| Fatores de risco | Nenhum | 1 ou 2 fatores | 3 ou mais fatores, ou aterosclerose já estabelecida |
| Troponina | Normal | De 1 a 3 vezes o limite | Mais de 3 vezes o limite |
Interpretação
- 0 a 3 pontos — baixo risco. Com troponina seriada normal, risco de eventos abaixo de 2% em 6 semanas; considerar alta com seguimento.
- 4 a 6 pontos — risco intermediário. Observação, seriar troponina e considerar estratificação não invasiva.
- 7 a 10 pontos — risco elevado. Internação e estratégia invasiva.
Cuidados de uso
- Não aplicar em paciente com supradesnivelamento ou diagnóstico já firmado.
- Exige experiência para caracterizar a história e ler o ECG.
- Escore baixo não substitui a troponina seriada nem o julgamento clínico.
- Reavalie se a dor recorrer ou o ECG mudar durante a observação.
GRACE e os critérios de muito alto risco
O escore GRACE combina idade, frequência cardíaca, pressão arterial sistólica, creatinina, classe de Killip, desvio do segmento ST, elevação de marcadores e parada cardíaca à admissão. O cálculo usa equações de regressão e deve ser feito na calculadora oficial, não estimado de cabeça.
Faixas do GRACE
- Abaixo de 109 — baixo risco de mortalidade intra-hospitalar.
- De 109 a 140 — risco intermediário.
- Acima de 140 — alto risco; indica estratégia invasiva em até 24 horas.
Muito alto risco — cateterismo em até 2 horas
- Angina refratária ao tratamento clínico otimizado.
- Instabilidade hemodinâmica ou choque cardiogênico.
- Instabilidade elétrica: arritmias ventriculares graves ou parada cardíaca recuperada.
- Insuficiência cardíaca aguda ou edema agudo de pulmão atribuível à isquemia.
- Supradesnivelamento de ST transitório ou alterações dinâmicas recorrentes.
- Complicação mecânica associada.
Escore HEART
Para dor torácica indiferenciada, sem diagnóstico firmado de síndrome coronariana. Não aplicar em paciente com supradesnivelamento de ST ou com troponina já claramente positiva.
Escore TIMI para SCA sem supradesnivelamento
Aplica-se ao paciente com síndrome coronariana já diagnosticada sem supradesnivelamento. Prevê morte, infarto novo ou recorrente e necessidade de revascularização de urgência em 14 dias. Na angina instável, por definição, o item de marcadores não pontua.
Quando levar ao cateterismo
Marque os achados presentes. A ferramenta aplica a hierarquia das diretrizes: os critérios de muito alto risco se sobrepõem a qualquer escore, e os de alto risco definem a janela de 24 horas.
Curva de troponina — variação entre amostras
Informe as duas dosagens e o percentil 99 do ensaio do seu laboratório, todos na mesma unidade. A ferramenta calcula a variação e aplica os dois critérios em uso: a variação igual ou superior a 20% proposta pela diretriz brasileira e a exigência de pelo menos um valor acima do percentil 99 da 4ª Definição Universal de Infarto.
Sequência de abordagem
O tratamento tem três frentes simultâneas: reduzir a isquemia, bloquear a trombose e definir a anatomia. Nenhuma delas espera a outra terminar.
- ECG DE 12 DERIVAÇÕES EM ATÉ 10 MINUTOS. Se houver supradesnivelamento ou equivalente de oclusão, acione a hemodinâmica imediatamente — o caminho é outro.
- Aplique o MOVE: monitorização contínua, oxigênio apenas se saturação abaixo de 90%, acesso venoso e eletrocardiograma.
- Administre AAS em dose de ataque assim que a suspeita for levantada, salvo contraindicação.
- Colha troponina em curva e os demais exames iniciais; faça radiografia de tórax e ultrassom à beira do leito nos instáveis.
- Trate a isquemia: nitrato para a dor e betabloqueador nas primeiras 24 horas, respeitando as contraindicações.
- Inicie anticoagulação parenteral em todo paciente com síndrome coronariana sem supradesnivelamento confirmada ou fortemente suspeita.
- Defina o inibidor de P2Y12 e o momento de administrá-lo, em conjunto com a hemodinâmica.
- Prescreva estatina de alta potência ainda na internação, independentemente do LDL basal.
- ESTRATIFIQUE: muito alto risco vai para cateterismo em 2 horas; alto risco em 24 horas; intermediário durante a internação.
- Procure e trate os fatores precipitantes: anemia, taquiarritmia, febre, tireotoxicose, hipoxemia e crise hipertensiva.
- Programe a prevenção secundária e a reabilitação cardiovascular antes da alta.
Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, contraindicações e cuidados. Confira sempre a bula, a apresentação disponível e o protocolo institucional antes de prescrever.
Terapia anti-isquêmica e adjuvante
Reduz o consumo de oxigênio do miocárdio e melhora a oferta. Alivia o sintoma e, no caso do betabloqueador e da estatina, também modifica desfecho.
Antitrombóticos e estratégia invasiva
É a frente que muda desfecho duro. A escolha e o momento de cada agente devem ser combinados com a equipe de hemodinâmica.
Isquemia contra sangramento
Toda decisão antitrombótica é uma troca. Registre em prontuário o raciocínio que sustentou a escolha, sobretudo quando o paciente tem alto risco hemorrágico.
Marcadores de risco isquêmico
- Diabetes, doença renal crônica e doença multiarterial.
- Infarto prévio, revascularização prévia e trombose de stent.
- Fração de ejeção reduzida.
- Anatomia complexa: tronco, bifurcação, stents longos ou múltiplos.
- Apresentação com angina recorrente apesar do tratamento.
Marcadores de risco hemorrágico
- Idade avançada, baixo peso e fragilidade.
- Anemia, plaquetopenia e sangramento prévio.
- Doença renal crônica avançada e hepatopatia.
- Uso concomitante de anticoagulante oral.
- Neoplasia ativa, doença ulcerosa e acidente vascular hemorrágico prévio.
Prevenção secundária antes da alta
- Estatina de alta potência — atorvastatina 40 a 80 mg ou rosuvastatina 20 a 40 mg; considerar ezetimiba associada. Reavaliar o perfil lipídico em 4 a 8 semanas.
- Dupla antiagregação — definir duração e registrar a data prevista de reavaliação.
- Betabloqueador — mantido, sobretudo se houver disfunção ventricular.
- Inibidor da enzima conversora ou bloqueador do receptor — indicado em disfunção ventricular, hipertensão, diabetes ou doença renal crônica.
- Cessação do tabagismo — a intervenção isolada de maior impacto; ofereça suporte farmacológico.
- Reabilitação cardiovascular — encaminhamento formal, com programa estruturado de exercício.
- Controle de diabetes, pressão e peso — metas definidas e registradas no plano de alta.
- Educação sobre sintomas de alarme — quando e como acionar o serviço de emergência.
- Consulta precoce — retorno com cardiologista programado antes da alta, não deixado a cargo do paciente.
Situações com manejo próprio
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Angina vasoespástica (Prinzmetal) | Dor tipicamente em repouso, na madrugada, com supradesnivelamento transitório que regride com nitrato. Mais comum em jovens e tabagistas, com coronárias frequentemente sem obstrução importante. | Nitrato e bloqueador de canal de cálcio são a base. Evitar betabloqueador não seletivo, que pode agravar o espasmo. Cessação do tabagismo é essencial. |
| Dor torácica por cocaína | Vasoespasmo, hipertensão, taquicardia e estado pró-trombótico. Pode causar isquemia com coronárias normais. | Benzodiazepínico e nitrato como primeira linha. Betabloqueador é tradicionalmente evitado pelo risco de estímulo alfa sem oposição — siga o protocolo do seu serviço. |
| Isquemia secundária (tipo 2) | Desequilíbrio entre oferta e demanda: anemia grave, taquiarritmia, sepse, tireotoxicose, hipoxemia, crise hipertensiva. | Tratar o fator precipitante é o cerne. Antitrombóticos intensivos podem ser mais nocivos que úteis; individualize a indicação de cateterismo. |
| MINOCA | Infarto com coronárias sem obstrução significativa. Inclui ruptura de placa sem obstrução, vasoespasmo, dissecção espontânea, embolia e disfunção microvascular. | Investigação adicional com ressonância cardíaca, imagem intracoronária e testes de vasorreatividade. O tratamento depende do mecanismo identificado. |
| Dissecção coronariana espontânea | Mais frequente em mulheres jovens, no periparto e em displasia fibromuscular. Frequentemente sem fatores de risco clássicos. | Manejo preferencialmente conservador; a angioplastia tem alto risco de extensão da dissecção. Encaminhar a centro com experiência. |
| Mulheres | Maior frequência de equivalentes anginosos, de doença microvascular e de dissecção espontânea. Diagnóstico e tratamento historicamente mais tardios. | Limiar mais baixo para investigar. Não descartar por "dor atípica" — termo que a diretriz brasileira recomenda abandonar. |
| Idoso frágil | Apresentação inespecífica, comorbidades, maior risco isquêmico e hemorrágico simultaneamente. | Ajustar doses de anticoagulante por peso e função renal, preferir acesso radial e discutir metas de cuidado com o paciente e a família. |
| Doença renal crônica | Troponina basal elevada, maior risco de sangramento e de nefropatia por contraste. Frequentemente subtratada. | Valorizar a variação da troponina. Ajustar enoxaparina e evitar fondaparinux na disfunção grave; hidratar e minimizar contraste. |
| Uso de anticoagulante oral | A tripla terapia multiplica o risco hemorrágico. | Preferir clopidogrel como P2Y12, encurtar ao máximo o período de tripla terapia e usar protetor gástrico. Decisão compartilhada com o cardiologista. |
| Pós-revascularização | Angina após angioplastia sugere reestenose ou trombose de stent; após cirurgia, sugere oclusão de enxerto. | Trombose de stent é emergência com apresentação frequentemente dramática. Baixo limiar para cateterismo; recupere o laudo do procedimento prévio. |
| Angina refratária ao tratamento | Dor que não cede apesar de nitrato, betabloqueador e antitrombóticos otimizados. | Critério de muito alto risco: cateterismo em até 2 horas, independentemente da troponina e de qualquer escore. |
Erros comuns
- Descartar isquemia com base em uma única troponina negativa na chegada.
- Considerar ECG normal como exclusão, quando ele é normal em cerca de metade das síndromes coronarianas confirmadas.
- Não seriar o eletrocardiograma enquanto a dor persiste.
- Não procurar equivalentes de oclusão coronariana aguda — De Winter, Wellens, Aslanger e infarto posterior.
- Deixar de registrar V7, V8 e V9 diante de infra de ST em V1 a V3 com ondas R altas.
- Usar o escore HEART em paciente que já tem diagnóstico de síndrome coronariana.
- Usar TIMI ou GRACE para decidir alta na emergência, quando eles preveem mortalidade em quem já tem o diagnóstico.
- Adiar o cateterismo do paciente com angina refratária porque "a troponina está negativa".
- Excluir isquemia porque a dor melhorou com antiácido ou é reprodutível à palpação.
- Descartar isquemia em renal crônico porque "a troponina dele sempre é alta", ignorando a variação.
- Prescrever nitrato em paciente que usou inibidor de fosfodiesterase nas últimas 24 a 48 horas.
- Prescrever betabloqueador em paciente com sinais de baixo débito, bradicardia, broncoespasmo grave ou dor por cocaína.
- Oferecer oxigênio a paciente com saturação normal, sem benefício demonstrado e com potencial de dano.
- Usar morfina liberalmente, esquecendo que ela retarda a absorção dos inibidores de P2Y12.
- Solicitar teste ergométrico em paciente com dor em curso, ECG isquêmico ou padrão de Wellens.
- Esquecer de tratar o fator precipitante — anemia, taquiarritmia, febre, tireotoxicose.
- Dar alta sem estatina de alta potência, sem retorno agendado e sem orientação sobre sinais de alarme.
Resumo do fluxo
- DOR TORÁCICA: eletrocardiograma em até 10 minutos, monitorização, acesso venoso e oxigênio apenas se saturação abaixo de 90%.
- Há supradesnivelamento ou equivalente de oclusão? Se sim, acione a hemodinâmica — este artigo não é o caminho.
- Há critério de instabilidade? Dor persistente, ECG preocupante, má perfusão, congestão aguda ou arritmia levam à investigação acelerada com ultrassom à beira do leito.
- Administre AAS em dose de ataque e colha troponina em curva, com eletrocardiogramas seriados.
- Trate a isquemia com nitrato e betabloqueador; anticoagule quando a síndrome coronariana for confirmada ou fortemente suspeita.
- Estratifique: HEART para decidir alta na dor indiferenciada; GRACE e TIMI para definir o tempo da invasiva no diagnóstico já firmado.
- MUITO ALTO RISCO — angina refratária, instabilidade hemodinâmica ou elétrica, congestão aguda ou supra transitório: cateterismo em até 2 HORAS.
- Alto risco, incluindo curva de troponina positiva, alterações dinâmicas ou GRACE acima de 140: cateterismo em até 24 horas.
- Risco intermediário: estratégia invasiva durante a internação. Baixo risco: invasiva de rotina ou seletiva após estratificação adicional.
- HEART até 3, troponina seriada normal e sem diagnóstico alternativo: considerar alta com seguimento ambulatorial precoce.
- Antes da alta: estatina de alta potência, dupla antiagregação definida, prevenção secundária completa e retorno agendado.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, escores, critérios e condutas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.
Informações rápidas
Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Reconhecer
Três apresentações clássicas: angina de repouso por mais de 20 minutos na última semana, angina de início recente limitante nos últimos dois meses e angina em crescendo. O diagnóstico é por exclusão — troponina em curva negativa. Aplique o MOVE: monitorização, oxigênio só se saturação abaixo de 90%, acesso venoso e eletrocardiograma.
Ler o ECG
Infra de ST e inversão simétrica de T são os achados típicos, e a dinâmica vale mais que o traçado isolado. ECG normal ocorre em cerca de metade das síndromes coronarianas confirmadas. Procure ativamente os equivalentes de oclusão: De Winter, Wellens, Aslanger, infarto posterior e supra em aVR com infra difuso. Seriar a cada 15 a 30 minutos enquanto houver dor.
Estratificar
HEART para dor indiferenciada e decisão de alta: 0 a 3 baixo risco, 4 a 6 intermediário, 7 a 10 elevado. TIMI e GRACE para quem já tem o diagnóstico, orientando o tempo da estratégia invasiva. GRACE acima de 140 indica cateterismo em até 24 horas. Nunca use HEART em paciente com supradesnivelamento ou troponina já positiva.
Tratar
AAS em dose de ataque na suspeita, anticoagulação parenteral, nitrato e betabloqueador para a isquemia, e estatina de alta potência ainda na internação. Angina refratária, instabilidade hemodinâmica ou elétrica, congestão aguda e supra transitório levam ao cateterismo em 2 horas, independentemente da troponina.
Números rápidos
ECG: em até 10 minutos do primeiro contato médico.
HEART: 0 a 3 baixo risco; 4 a 6 intermediário; 7 a 10 elevado.
GRACE: abaixo de 109 baixo; 109 a 140 intermediário; acima de 140 indica invasiva em 24 horas.
Muito alto risco: cateterismo em até 2 horas, independentemente da troponina.
Curva de troponina: variação de 20% ou mais, com pelo menos um valor acima do percentil 99 do ensaio.
Dupla antiagregação: pelo menos 12 meses como estratégia padrão sem alto risco de sangramento.
Não esqueça
Uma troponina só não descarta nada — o diagnóstico exige curva.
ECG normal ocorre em cerca de metade das síndromes coronarianas confirmadas.
Angina refratária vai para o cateterismo mesmo com troponina negativa.
HEART é para dor indiferenciada, não para síndrome coronariana já firmada.
Abandone os termos "dor atípica" e a classificação em tipos A, B, C e D.
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Em provas / residência
A banca cobra a definição por exclusão, as três apresentações clássicas, a classificação de Braunwald e os itens do TIMI e do HEART.
Decore: angina refratária, instabilidade hemodinâmica ou elétrica e supra transitório indicam cateterismo em 2 horas; GRACE acima de 140 indica 24 horas.
