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Crise Hipertensiva

A pergunta não é "quanto está a pressão", e sim existe lesão aguda de órgão-alvo? Com lesão, é emergência: monitorização, droga intravenosa e meta definida pelo órgão acometido. Sem lesão, o número isolado não é emergência — e baixar a pressão às pressas faz mais mal do que bem.

Procurar lesão de órgão-alvo Meta depende do cenário Nifedipino sublingual, nunca Reduzir devagar, exceto na dissecção
Tempo de leitura: 21 min
Atualizado em: 21/08/2026

Classificar certo

  • Emergência: pressão alta com lesão aguda de órgão
  • Hipertensão grave: número alto, sem lesão aguda
  • Pseudocrise: pressão sobe por dor, ansiedade ou retenção
  • O termo "urgência hipertensiva" foi aposentado

Procurar a lesão

  • Cérebro, coração, aorta, rim e retina
  • Exame neurológico e fundoscopia dirigidos
  • Eletrocardiograma, troponina e creatinina
  • Gestante: pensar sempre em pré-eclâmpsia

Meta por cenário

  • Regra geral: reduzir até 25% na primeira hora
  • Dissecção aórtica: sistólica abaixo de 120 rápido
  • AVC isquêmico: quase sempre não tratar
  • Meta errada causa isquemia de órgão

O que não fazer

  • Nifedipino sublingual está proscrito
  • Sem lesão de órgão, não use droga intravenosa
  • Não tratar número isolado em assintomático
  • Reduzir rápido demais provoca isquemia

A terminologia mudou

Durante décadas, "crise hipertensiva" foi dividida em emergência e urgência. A diretriz americana de 2025 aposentou o termo urgência hipertensiva, substituindo-o por hipertensão grave sem lesão aguda de órgão-alvo. A mudança não é cosmética: a palavra "urgência" induzia a tratar o número com pressa, gerando encaminhamentos desnecessários ao pronto-socorro, internações evitáveis e reduções pressóricas rápidas que causavam mais dano do que benefício.

Categoria Definição Conduta
Emergência hipertensiva Elevação importante da pressão — habitualmente acima de 180/120 mmHg — com lesão aguda de órgão-alvo. Monitorização contínua, droga intravenosa titulável e meta definida pelo órgão acometido.
Hipertensão grave sem lesão aguda Pressão acima de 180/120 mmHg sem lesão aguda de órgão-alvo. Substitui o antigo termo "urgência hipertensiva". Ambiente calmo, remedir corretamente, ajustar ou reintroduzir tratamento oral e garantir seguimento. Sem droga intravenosa.
Pseudocrise hipertensiva Elevação pressórica reativa a dor, ansiedade, retenção urinária, abstinência, hipoxemia ou uso de substâncias. Tratar a causa, não o número. A pressão cai sozinha quando o gatilho é resolvido.
Pressão elevada assintomática Achado isolado, sem sintomas nem lesão, em consulta ou internação. Confirmar a medida, revisar o tratamento de base e encaminhar para seguimento ambulatorial.
O que define emergência hipertensiva é a lesão aguda de órgão-alvo, e não o valor numérico. Uma gestante com 150/100 mmHg e sinais de pré-eclâmpsia grave é emergência; um hipertenso crônico com 210/120 mmHg, assintomático e sem lesão, não é.

Calculadora — classificação e conduta inicial

Classificação de 2025 Conduta imediata

Informe a pressão medida corretamente e marque o que estiver presente. Qualquer sinal de lesão aguda caracteriza emergência hipertensiva, independentemente do valor numérico.

Sinais de lesão aguda de órgão-alvo

Fatores que elevam a pressão de forma reativa

Classificação
Ferramenta de apoio. A pressão deve ser medida com técnica adequada, manguito de tamanho correto e repetida após alguns minutos de repouso — boa parte das "crises" desaparece na segunda medida. A classificação orienta a conduta, mas não substitui o exame clínico completo.

Por que a mudança importa

Volume

Pressão elevada é queixa frequente no pronto-socorro, e a maioria dos casos não é emergência.

Proporção

Apenas uma minoria dos pacientes com pressão acima de 180/120 apresenta lesão aguda de órgão.

Risco do tratamento

Redução rápida em paciente assintomático associa-se a isquemia cerebral, coronariana e renal.

Mortalidade

A emergência hipertensiva verdadeira tem letalidade relevante e exige terapia intravenosa monitorizada.

Onde está o ganho

No seguimento ambulatorial e na adesão ao tratamento, não na dose administrada na sala de emergência.

Os primeiros minutos

Medir direito

Manguito adequado ao braço, paciente sentado e em repouso, medida em ambos os braços na suspeita de dissecção. Repita após alguns minutos antes de qualquer decisão.

Procurar lesão de órgão

Exame neurológico, ausculta cardíaca e pulmonar, palpação de pulsos, fundoscopia quando possível, eletrocardiograma, creatinina e urina.

Decidir a via

Com lesão aguda: droga intravenosa titulável em ambiente monitorizado. Sem lesão aguda: ajuste do tratamento oral e seguimento.

Uma pergunta simples resolve a maior parte dos casos: o que mudou hoje neste paciente além do número? Se nada mudou — sem sintoma novo, sem exame alterado —, o problema é de acompanhamento ambulatorial, não de sala de emergência.

Medir corretamente antes de decidir

  • Manguito adequado — a bolsa inflável deve cobrir cerca de 80% da circunferência do braço; manguito pequeno em braço grosso superestima a pressão de forma expressiva.
  • Paciente sentado, com as costas apoiadas, pés no chão, braço na altura do coração e sem falar durante a medida.
  • Repouso de alguns minutos antes da primeira medida, e repetição após intervalo — muitas "crises" desaparecem na segunda aferição.
  • Medir nos dois braços na suspeita de dissecção aórtica; diferença importante entre eles é achado relevante.
  • Confirmar com método auscultatório quando o valor automático parecer discrepante do quadro clínico.
  • Tratar a dor e a ansiedade primeiro, quando presentes — e remedir depois.
  • Verificar bexiga cheia, que é causa clássica e reversível de elevação pressórica.
Uma parcela relevante das condutas equivocadas nasce de uma medida mal feita: manguito inadequado, paciente com dor, logo após caminhar, ou com a bexiga cheia. Antes de prescrever, refaça a medida com técnica correta.

Onde procurar lesão de órgão-alvo

Órgão O que procurar Como investigar
Cérebro Déficit focal, rebaixamento, crise epiléptica, cefaleia intensa, alteração visual, confusão — encefalopatia hipertensiva, acidente vascular isquêmico ou hemorrágico. Exame neurológico completo e tomografia de crânio; ressonância quando indicada.
Coração Dor torácica isquêmica, dispneia, congestão pulmonar, terceira bulha, estertores. Eletrocardiograma, troponina, radiografia de tórax e ecocardiograma quando disponível.
Aorta Dor lancinante de início súbito irradiada para o dorso, assimetria de pulsos ou de pressão entre os braços, sopro aórtico novo. Angiotomografia de aorta; ecocardiograma transesofágico como alternativa.
Rim Elevação aguda da creatinina, oligúria, hematúria e proteinúria nova. Creatinina e ureia, urina tipo I, relação albumina-creatinina e ultrassom quando indicado.
Retina Hemorragias, exsudatos algodonosos e papiledema — marcadores clássicos de hipertensão maligna. Fundoscopia, subutilizada e de alto valor diagnóstico nesse contexto.
Sangue Anemia hemolítica microangiopática com esquizócitos e plaquetopenia. Hemograma com esfregaço, desidrogenase láctica, haptoglobina e bilirrubinas.
Gestação Pré-eclâmpsia grave, eclâmpsia e síndrome HELLP em gestantes e puérperas. Proteinúria, plaquetas, transaminases, creatinina e avaliação obstétrica imediata.
A hipertensão maligna é definida pela combinação de pressão muito elevada com retinopatia avançada — hemorragias, exsudatos ou papiledema —, frequentemente acompanhada de lesão renal e microangiopatia. É emergência mesmo quando o paciente parece relativamente bem.

Investigação inicial e desencadeantes

Exames iniciais

  • Eletrocardiograma de doze derivações.
  • Creatinina, ureia, sódio, potássio e glicemia.
  • Hemograma com pesquisa de esquizócitos quando houver suspeita.
  • Urina tipo I com pesquisa de proteinúria e hematúria.
  • Troponina e radiografia de tórax conforme o quadro.
  • Imagem dirigida: tomografia de crânio ou angiotomografia de aorta.

Desencadeantes a procurar

  • Má adesão ou suspensão abrupta do tratamento — a causa mais frequente.
  • Dor, ansiedade, retenção urinária e abstinência.
  • Substâncias: cocaína, anfetaminas, descongestionantes e anti-inflamatórios.
  • Suspensão abrupta de betabloqueador ou de clonidina, com hipertensão de rebote.
  • Excesso de sal e ingestão alcoólica.
  • Hipertensão secundária não diagnosticada.
Investigue hipertensão secundária diante de início antes dos 30 anos, hipertensão resistente, hipocalemia não explicada, sopro abdominal, episódios paroxísticos com sudorese e palpitações, ou lesão de órgão desproporcional ao tempo de doença. As causas mais comuns são hiperaldosteronismo primário e apneia obstrutiva do sono.

O princípio da autorregulação

No hipertenso crônico, a curva de autorregulação cerebral e renal está deslocada para a direita: os órgãos se adaptaram a operar com pressões mais altas. Reduzir a pressão rapidamente para valores considerados "normais" pode levar o paciente para abaixo do limite inferior de autorregulação e provocar isquemia cerebral, coronariana ou renal — exatamente o dano que se pretendia evitar.

Daí a regra geral: na maioria das emergências hipertensivas, a redução é gradual e escalonada. As exceções são poucas, bem definidas, e existem porque nelas o dano da pressão alta é imediato e mecânico.

A regra geral é reduzir no máximo 25% da pressão arterial média na primeira hora, chegar a cerca de 160/100 a 110 mmHg nas próximas 2 a 6 horas e normalizar em 24 a 48 horas. As exceções — dissecção aórtica, eclâmpsia e alguns cenários neurológicos — exigem metas próprias.

Calculadora — meta pressórica por cenário

9 cenários Cálculo da PAM Velocidade de redução

Informe a pressão atual e selecione o cenário clínico. A calculadora estima a pressão arterial média e sugere a meta correspondente ao órgão acometido.

PAM atual
Meta principal
Prazo
Cenário selecionado
Ferramenta de apoio. A pressão arterial média é estimada pela fórmula convencional, que soma a diastólica a um terço da diferença entre sistólica e diastólica. As metas seguem as diretrizes vigentes, mas devem ser individualizadas conforme comorbidades, pressão habitual do paciente e resposta clínica — queda de perfusão é tão perigosa quanto pressão alta.

Metas em resumo

Cenário Meta Droga habitual
Regra geralReduzir até 25% da PAM na 1ª hora; 160/100 a 110 em 2 a 6 h; normalizar em 24 a 48 h.Nitroprussiato, nicardipina ou nitroglicerina.
Dissecção aórticaSistólica abaixo de 120 mmHg e frequência abaixo de 60 bpm, em cerca de 20 minutos.Betabloqueador primeiro — esmolol ou metoprolol —, depois vasodilatador.
AVC isquêmico sem trombóliseTratar apenas se acima de 220/120 mmHg, reduzindo cerca de 15%.Anti-hipertensivo intravenoso titulável.
AVC isquêmico com trombóliseAbaixo de 185/110 mmHg antes, e abaixo de 180/105 nas 24 h seguintes.Anti-hipertensivo intravenoso titulável.
Hemorragia intracerebralSistólica em torno de 130 a 140 mmHg, evitando quedas abaixo de 130.Anti-hipertensivo intravenoso titulável.
Edema agudo de pulmãoRedução rápida da pós-carga, com alívio sintomático.Nitroglicerina ou nitroprussiato, com diurético de alça e ventilação não invasiva.
Síndrome coronariana agudaAlívio da isquemia com redução progressiva.Nitroglicerina e betabloqueador, salvo contraindicação.
Pré-eclâmpsia grave e eclâmpsiaTratar quando ≥160/110 mmHg, mantendo abaixo desse valor sem hipotensão.Hidralazina, nifedipino oral ou labetalol, associados a sulfato de magnésio.
Crise adrenérgicaControle sintomático e pressórico progressivo.Benzodiazepínico e alfabloqueio; nunca betabloqueador isolado.
Duas metas fogem completamente da regra geral e precisam ser memorizadas: dissecção aórtica, que exige redução rápida e agressiva, e acidente vascular isquêmico, em que quase sempre não se trata a pressão elevada, por ser mecanismo compensatório de perfusão da área de penumbra.

Emergências neurológicas

Encefalopatia hipertensiva

Cefaleia, confusão, alteração visual e crises, com edema cerebral posterior à imagem. É diagnóstico de exclusão e melhora com a redução controlada da pressão — a resposta terapêutica confirma o diagnóstico.

AVC isquêmico

A pressão elevada é compensatória, mantendo a perfusão da penumbra. Trate apenas acima de 220/120 mmHg, ou abaixo de 185/110 quando houver trombólise.

Hemorragia intracerebral

Meta de sistólica em torno de 130 a 140 mmHg, com redução suave e sem quedas abruptas; evitar valores abaixo de 130 mmHg.

Hemorragia subaracnóidea

Controlar a pressão até o tratamento do aneurisma, equilibrando risco de ressangramento e de isquemia; conduta em conjunto com a neurocirurgia.

O erro mais grave nas emergências neurológicas é tratar a pressão do acidente vascular isquêmico por reflexo. A hipertensão nesse contexto é, em geral, protetora — reduzi-la agressivamente amplia a área de infarto.

Emergências cardiovasculares

Condição Reconhecimento Conduta
Dissecção aórtica Dor lancinante de início súbito irradiada para o dorso, assimetria de pulsos ou de pressão, sopro aórtico novo, alargamento do mediastino. Betabloqueador primeiro para reduzir a frequência abaixo de 60 bpm e a força de ejeção; só depois vasodilatador. Sistólica abaixo de 120 mmHg em cerca de 20 minutos. Cirurgia de urgência na dissecção proximal.
Edema agudo de pulmão Dispneia intensa, ortopneia, estertores difusos, hipoxemia e congestão radiológica. Nitroglicerina ou nitroprussiato para reduzir a pós-carga, diurético de alça e ventilação não invasiva. Evitar betabloqueador na fase congestiva.
Síndrome coronariana aguda Dor torácica isquêmica com alterações eletrocardiográficas e elevação de troponina. Nitroglicerina e betabloqueador, salvo contraindicação; reperfusão conforme o protocolo. Evitar nitrato se houve uso recente de inibidor de fosfodiesterase.
Lesão renal aguda hipertensiva Elevação da creatinina, proteinúria e hematúria em vigência de pressão muito elevada. Redução gradual conforme a regra geral; atenção à piora inicial da função renal, que pode ser esperada e transitória.
Crise renal esclerodérmica Esclerose sistêmica com elevação abrupta da pressão e lesão renal rapidamente progressiva. Inibidor da enzima conversora de angiotensina — o captopril é a droga de escolha, mesmo com creatinina em elevação.
Na dissecção aórtica, a ordem das drogas é decisiva: administrar vasodilatador antes do betabloqueador provoca taquicardia reflexa, que aumenta a força de cisalhamento sobre a parede aórtica e pode propagar a dissecção.

Emergências obstétricas

  • Considere pré-eclâmpsia em toda gestante com mais de 20 semanas e pressão elevada, e também em puérperas — o quadro pode surgir semanas após o parto.
  • Critério de gravidade — pressão de 160/110 mmHg ou mais, cefaleia persistente, alteração visual, dor epigástrica, plaquetopenia, elevação de transaminases ou de creatinina.
  • Trate a pressão quando estiver em 160/110 mmHg ou acima, com hidralazina, nifedipino oral ou labetalol, mantendo abaixo desse limiar sem provocar hipotensão.
  • Sulfato de magnésio para prevenção e tratamento da eclâmpsia — não é anti-hipertensivo, e sim anticonvulsivante.
  • Evite inibidores da enzima conversora, bloqueadores do receptor de angiotensina, nitroprussiato de sódio e antagonistas mineralocorticoides na gestação.
  • O tratamento definitivo da pré-eclâmpsia é a resolução da gestação, decidida em conjunto com a obstetrícia.
  • Hipertensão crônica na gestação — as diretrizes atuais recomendam tratar a partir de 140/90 mmHg, com labetalol ou nifedipino de liberação prolongada como primeira escolha.

Crises adrenérgicas

Cocaína e simpaticomiméticos

  • Benzodiazepínico é a primeira linha: reduz a descarga adrenérgica central.
  • Vasodilatador — nitroglicerina ou nitroprussiato — se a pressão persistir elevada.
  • Fentolamina como alfabloqueador nos casos refratários.
  • Evitar betabloqueador isolado pelo risco teórico de estímulo alfa sem oposição.

Feocromocitoma

  • Crises paroxísticas com cefaleia, sudorese e palpitações.
  • Alfabloqueio primeiro — fentolamina ou nitroprussiato.
  • Betabloqueador apenas depois do alfabloqueio, para controlar a taquicardia.
  • Investigação bioquímica com metanefrinas após a estabilização.
A regra clássica das crises adrenérgicas: nunca betabloqueador antes do alfabloqueio. O bloqueio beta isolado remove a vasodilatação mediada por receptores beta e deixa o estímulo alfa sem oposição, podendo piorar a hipertensão de forma grave.

Hipertensão de rebote

A suspensão abrupta de algumas classes provoca elevação pressórica intensa, muitas vezes acompanhada de taquicardia, sudorese e ansiedade. É causa frequente e facilmente reversível de pressão muito elevada no pronto-socorro.

  • Clonidina — rebote clássico, com quadro adrenérgico exuberante; a conduta é reintroduzir a droga.
  • Betabloqueadores — suspensão abrupta pode precipitar isquemia miocárdica e taquiarritmias.
  • Conduta — reintrodução do fármaco suspenso e orientação explícita sobre desmame gradual.
  • Prevenção — sempre pergunte, na anamnese, quais medicações foram interrompidas e há quanto tempo.

Calculadora — infusão contínua

Dose por peso Velocidade em mL/h

Informe o peso e selecione a droga. A calculadora usa as diluições mais habituais e converte a dose em velocidade de infusão — confira sempre a padronização do seu serviço.

Dose inicial
Velocidade inicial
Concentração
Ferramenta de apoio ao cálculo. As diluições variam entre instituições — confirme a padronização do seu serviço antes de aplicar estes valores. O nitroprussiato exige proteção da luz e atenção à toxicidade por cianeto e tiocianato em infusões prolongadas ou em disfunção renal.

Drogas intravenosas

Droga Perfil Melhor indicação Cuidados
Nitroprussiato de sódio Vasodilatador arterial e venoso, início imediato e meia-vida muito curta. Emergências em geral, quando se deseja titulação fina. Toxicidade por cianeto em uso prolongado ou disfunção renal e hepática; fotossensível; evitar na gestação.
Nitroglicerina Predomínio venoso em doses baixas, com efeito arterial em doses altas. Edema agudo de pulmão e síndrome coronariana aguda. Cefaleia e taquifilaxia; contraindicada após uso de inibidor de fosfodiesterase.
Esmolol Betabloqueador cardiosseletivo de ação ultracurta, muito titulável. Dissecção aórtica e situações que exigem controle rápido da frequência. Evitar em broncoespasmo grave, bradicardia e insuficiência cardíaca descompensada.
Metoprolol intravenoso Betabloqueador em doses fracionadas, amplamente disponível. Dissecção aórtica e síndrome coronariana, quando não há esmolol. Mesmas contraindicações dos betabloqueadores; efeito menos titulável.
Hidralazina Vasodilatador arterial direto, em bolus, com efeito menos previsível. Pré-eclâmpsia grave e eclâmpsia. Taquicardia reflexa e hipotensão imprevisível; evitar na dissecção aórtica e na coronariopatia.
Labetalol Bloqueio alfa e beta combinado, muito usado internacionalmente. Emergências neurológicas e obstétricas. Disponibilidade limitada no Brasil na apresentação intravenosa.
Nicardipina e clevidipina Bloqueadores de canal de cálcio intravenosos, de titulação fina. Emergências neurológicas, com bom perfil de previsibilidade. Disponibilidade restrita em boa parte dos serviços brasileiros.
Furosemida Diurético de alça. Congestão pulmonar e sobrecarga volêmica. Não é anti-hipertensivo de crise; usar apenas quando há congestão real.
Na prática brasileira, a maior parte das emergências hipertensivas é conduzida com nitroprussiato de sódio, nitroglicerina, metoprolol, esmolol e hidralazina, que são as opções amplamente disponíveis. Nicardipina, clevidipina e labetalol intravenoso aparecem nas diretrizes internacionais, mas com acesso limitado em muitos serviços.
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, titulação e cuidados. Confira apresentação, diluição e padronização do seu serviço antes de prescrever.

Drogas intravenosas

As opções disponíveis na maior parte dos serviços brasileiros, com doses, titulação e as armadilhas que costumam gerar hipotensão ou piora clínica.

Via oral e situações específicas

O que usar quando não há lesão de órgão-alvo, o que está proscrito e como conduzir os cenários com regra própria.

Hipertensão grave sem lesão aguda

Este é o cenário mais frequente e o mais maltratado. Paciente com pressão acima de 180/120 mmHg, assintomático ou com queixas inespecíficas, sem qualquer sinal de lesão aguda de órgão-alvo. A evidência é consistente: reduzir a pressão rapidamente não melhora desfecho e expõe o paciente a hipotensão, isquemia e quedas.

  1. Coloque o paciente em ambiente calmo e trate dor, ansiedade ou retenção urinária, se houver.
  2. Remeça a pressão após alguns minutos de repouso, com manguito adequado e técnica correta.
  3. Faça anamnese e exame dirigidos à busca de lesão aguda de órgão-alvo.
  4. Solicite exames apenas se houver suspeita clínica — a bateria completa não é rotina no assintomático.
  5. NÃO USE ANTI-HIPERTENSIVO INTRAVENOSO nem doses repetidas por via oral apenas para derrubar o número.
  6. Reintroduza ou ajuste o tratamento oral de base, investigando adesão, custo e efeitos adversos.
  7. Considere iniciar ou intensificar medicação oral com seguimento garantido, o que reduz a pressão de forma segura ao longo de dias.
  8. Oriente sinais de alarme e agende retorno ambulatorial próximo, idealmente em dias a poucas semanas.
As diretrizes de 2025 são explícitas: em pacientes internados com hipertensão grave sem lesão aguda de órgão-alvo, não se deve usar anti-hipertensivo intravenoso ou oral em doses intermitentes para redução rápida da pressão. Essa prática se associa a eventos adversos sem benefício demonstrado.

O que fazer e o que evitar

Fazer

  • Confirmar a medida com técnica adequada e repetir após repouso.
  • Buscar e tratar fatores desencadeantes reversíveis.
  • Revisar a prescrição de base e investigar adesão de forma não julgadora.
  • Ajustar ou iniciar tratamento oral, preferindo combinações em dose única diária.
  • Orientar medida domiciliar da pressão e registro.
  • Garantir seguimento ambulatorial e reavaliação em curto prazo.

Evitar

  • Anti-hipertensivo intravenoso sem lesão de órgão-alvo.
  • Doses orais repetidas até "a pressão baixar" antes da alta.
  • Nifedipino sublingual, que está proscrito.
  • Internação apenas pelo valor da pressão.
  • Bateria ampla de exames em paciente assintomático e sem fatores de risco.
  • Alta sem plano terapêutico e sem retorno agendado.
A intervenção com maior impacto neste grupo não acontece na sala de emergência: é o seguimento ambulatorial efetivo, com esquema simplificado, medida domiciliar e retorno agendado. É isso que reduz eventos cardiovasculares — não a dose administrada no plantão.

Adesão: a causa mais comum

  • Pergunte sem julgamento — "muita gente esquece ou para de tomar; com você tem acontecido?" abre a conversa melhor do que "está tomando direitinho?".
  • Investigue custo e acesso — falta de medicação na unidade e dificuldade financeira são causas frequentes e resolvíveis.
  • Procure efeitos adversos — tosse por inibidor da enzima conversora, edema por bloqueador de canal de cálcio e disfunção sexual levam ao abandono silencioso.
  • Simplifique o esquema — combinações em comprimido único e dose única diária melhoram a adesão de forma consistente.
  • Explique a assintomatologia — muitos pacientes tomam a medicação apenas quando "sentem a pressão subir", o que não faz sentido fisiopatológico.
  • Envolva a família e considere estratégias de lembrete quando houver comprometimento cognitivo.

Erros comuns

  • Tratar o número isolado, sem procurar lesão aguda de órgão-alvo.
  • Usar nifedipino sublingual, prática proscrita há décadas pelo risco de queda abrupta e isquemia.
  • Prescrever anti-hipertensivo intravenoso em paciente assintomático e sem lesão de órgão.
  • Repetir doses orais até "a pressão baixar" antes de liberar o paciente.
  • Reduzir a pressão rápido demais na maioria das emergências, provocando isquemia cerebral, coronariana ou renal.
  • Tratar a pressão elevada do acidente vascular isquêmico por reflexo.
  • Administrar vasodilatador antes do betabloqueador na dissecção aórtica.
  • Usar betabloqueador isolado em crise por cocaína ou feocromocitoma.
  • Esquecer de medir a pressão nos dois braços diante de dor torácica com irradiação para o dorso.
  • Não pensar em pré-eclâmpsia em gestante ou puérpera com pressão elevada.
  • Medir com manguito inadequado, em paciente com dor, sem repouso ou com bexiga cheia.
  • Deixar de fazer fundoscopia quando há suspeita de hipertensão maligna.
  • Não investigar o desencadeante, sobretudo suspensão de medicação e uso de substâncias.
  • Internar apenas pelo valor da pressão, sem lesão de órgão.
  • Dar alta sem ajustar o tratamento de base e sem retorno agendado.
  • Não investigar hipertensão secundária em paciente jovem ou com quadro resistente.

Resumo do fluxo

  1. Meça a pressão com técnica correta, manguito adequado e repouso; repita após alguns minutos.
  2. Trate dor, ansiedade e retenção urinária, e remeça — muitas elevações são reativas.
  3. PROCURE LESÃO AGUDA DE ÓRGÃO-ALVO: cérebro, coração, aorta, rim, retina e, na gestante, pré-eclâmpsia.
  4. Com lesão aguda: monitorize, obtenha acesso e inicie droga intravenosa titulável em ambiente adequado.
  5. Defina a meta pelo órgão acometido — regra geral de até 25% na primeira hora, com as exceções conhecidas.
  6. Sem lesão aguda: não use via intravenosa; ajuste ou reintroduza o tratamento oral.
  7. Investigue o desencadeante: adesão, suspensão de droga, substâncias e causas secundárias.
  8. Reavalie a resposta e evite quedas excessivas — hipotensão iatrogênica é complicação real.
  9. Defina o destino: terapia intensiva na emergência hipertensiva, alta com seguimento nos demais casos.
  10. Na alta: esquema simplificado, orientação sobre sinais de alarme e retorno ambulatorial agendado.

Destino e seguimento

Terapia intensiva

Emergência hipertensiva confirmada, com necessidade de monitorização contínua e droga intravenosa titulável.

Internação em enfermaria

Lesão de órgão em investigação, resposta incerta ou comorbidade que exija observação.

Alta com seguimento

Hipertensão grave sem lesão aguda, com tratamento ajustado e retorno garantido em dias a poucas semanas.

Reavaliação

As diretrizes recomendam reavaliação mensal após início ou ajuste de medicação, até o controle pressórico.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

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Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, metas e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação.

Informações rápidas

Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.

O essencial

Classificar certo

Emergência é pressão elevada com lesão aguda de órgão-alvo. Hipertensão grave sem lesão aguda substituiu o termo "urgência hipertensiva". Pseudocrise é elevação reativa a dor, ansiedade ou retenção — trate a causa, não o número.

Procurar a lesão

Cérebro, coração, aorta, rim e retina. Exame neurológico, ausculta, pulsos, fundoscopia, eletrocardiograma, troponina, creatinina e urina. Em gestante ou puérpera, pense sempre em pré-eclâmpsia.

Meta por cenário

Regra geral: reduzir até 25% da PAM na primeira hora, chegar a 160/100 a 110 em 2 a 6 h e normalizar em 24 a 48 h. Exceções: dissecção aórtica exige sistólica abaixo de 120 rapidamente; AVC isquêmico quase nunca se trata.

O que não fazer

Nifedipino sublingual está proscrito. Sem lesão de órgão, não use anti-hipertensivo intravenoso nem doses orais repetidas para derrubar o número. Reduzir rápido demais provoca isquemia cerebral, coronariana e renal.

Números rápidos

Definição: emergência exige lesão aguda de órgão-alvo, não apenas número alto.

Regra geral: até 25% da PAM na 1ª hora; 160/100 a 110 em 2 a 6 h.

Dissecção aórtica: sistólica abaixo de 120 e frequência abaixo de 60, em cerca de 20 minutos.

AVC isquêmico: tratar só acima de 220/120; abaixo de 185/110 se houver trombólise.

Pré-eclâmpsia: tratar a partir de 160/110 e associar sulfato de magnésio.

Não esqueça

Nifedipino sublingual está proscrito.

Sem lesão de órgão-alvo, não se usa droga intravenosa.

Na dissecção aórtica, betabloqueador vem antes do vasodilatador.

Nunca betabloqueador isolado na crise por cocaína ou feocromocitoma.

Gestante e puérpera com pressão alta: pense em pré-eclâmpsia.

Em provas / residência

A banca cobra a diferença entre emergência e hipertensão grave sem lesão, as metas por cenário e a proscrição do nifedipino sublingual.

Decore: 25% na primeira hora como regra geral; dissecção exige betabloqueador primeiro; AVC isquêmico quase nunca se trata; crise adrenérgica nunca começa com betabloqueador.

Mais informações nas abas do artigo.

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