Parada Cardiorrespiratória
Duas intervenções mudam sobrevida: compressão de alta qualidade e desfibrilação precoce. Todo o resto — droga, via aérea, monitorização — é adjuvante. As diretrizes de 2025 reforçam justamente isso, e acrescentam algo que o plantão costuma esquecer: procurar a causa reversível desde o primeiro ciclo.
Comprimir bem
- 100 a 120 por minuto, 5 a 6 cm de profundidade
- Retorno completo do tórax a cada compressão
- Interrupções abaixo de 10 segundos
- Revezar o compressor a cada 2 minutos
Desfibrilar cedo
- Chocável: fibrilação ventricular e TV sem pulso
- Cada minuto de atraso reduz a sobrevida
- Retomar compressões imediatamente após o choque
- Não checar pulso logo depois do choque
Achar a causa
- Cinco H e cinco T revisados a cada ciclo
- Ultrassom à beira do leito nas pausas
- Atividade elétrica sem pulso quase sempre tem causa
- Tratar a causa é o que reverte a parada
Cuidar depois
- Oxigenação e pressão com alvos definidos
- Eletrocardiograma imediato e coronariografia se indicada
- Controle de temperatura por pelo menos 36 horas
- Prognóstico neurológico nunca é precoce
O que realmente muda desfecho
A reanimação acumulou décadas de estudos, mas a lista de intervenções com impacto consistente sobre sobrevida com bom desfecho neurológico continua curta: reconhecimento imediato, compressões torácicas de alta qualidade e desfibrilação precoce nos ritmos chocáveis. Drogas, via aérea avançada e monitorização ocupam um papel adjuvante — importante, mas secundário.
As diretrizes de 2025 reorganizaram a apresentação em torno dessa hierarquia e unificaram a cadeia de sobrevivência em um único modelo, aplicável a adultos e crianças, dentro e fora do hospital. A mensagem prática é simples: quem faz a diferença é quem comprime bem, cedo, e quem desfibrila sem demora.
Cadeia de sobrevivência
| Elo | Ação | Por que importa |
|---|---|---|
| 1 | Reconhecimento e acionamento | Reconhecer a parada e acionar ajuda imediatamente; o atraso aqui compromete todos os elos seguintes. |
| 2 | RCP imediata de alta qualidade | Mantém perfusão coronariana e cerebral até que a desfibrilação ou o tratamento da causa aconteça. |
| 3 | Desfibrilação precoce | Único tratamento eficaz da fibrilação ventricular; a chance de sucesso cai a cada minuto. |
| 4 | Suporte avançado | Drogas, via aérea, monitorização e tratamento da causa reversível. |
| 5 | Cuidados pós-parada | Onde se perde ou se ganha o desfecho neurológico de quem já teve retorno de circulação. |
| 6 | Recuperação | Reabilitação, suporte psicológico e seguimento de sobreviventes e familiares. |
Reconhecer a parada
- Irresponsivo ao chamado e ao estímulo.
- Respiração ausente ou anormal — o gasping agônico é sinal de parada, não de respiração preservada, e é a principal armadilha do reconhecimento.
- Pulso central ausente — checagem de no máximo 10 segundos, feita simultaneamente à avaliação da respiração.
- Na dúvida, comprima — o dano de comprimir alguém que tem pulso é muito menor do que o de não comprimir quem está em parada.
- No monitor, atenção à dissociação entre ritmo organizado e ausência de pulso: é atividade elétrica sem pulso.
- Acione a equipe e peça o desfibrilador no mesmo momento em que inicia as compressões, não depois.
Os primeiros dois minutos
Inicie compressões imediatamente sobre superfície firme, acione a equipe e peça o desfibrilador ou o desfibrilador externo automático.
Coloque as pás ou os eletrodos assim que o aparelho chegar. Ritmo chocável significa choque imediato; ritmo não chocável significa manter compressões e buscar a causa.
Defina em voz alta: quem comprime, quem ventila, quem faz o acesso e as drogas, quem controla o tempo e quem lidera. Liderança clara reduz interrupções.
Métricas da compressão
| Parâmetro | Alvo | Erro comum |
|---|---|---|
| Frequência | 100 a 120 por minuto | Comprimir rápido demais, o que reduz o enchimento e a profundidade. |
| Profundidade | 5 a 6 cm no adulto | Compressão superficial, sobretudo com o passar dos minutos e com fadiga. |
| Retorno do tórax | Completo a cada compressão | Apoiar-se no tórax entre compressões, o que impede o enchimento cardíaco. |
| Fração de compressão | Acima de 60%, idealmente 80% | Pausas longas para checar pulso, intubar ou trocar de compressor. |
| Pausas | Menos de 10 segundos | Pausa pré e pós-choque prolongada — uma das mais deletérias. |
| Troca de compressor | A cada 2 minutos | Manter o mesmo profissional além do ciclo, com queda progressiva da qualidade. |
| Superfície | Firme, com tábua se necessário | Comprimir sobre colchão macio, o que dissipa a força aplicada. |
| Posição do socorrista | Braços estendidos, ombros sobre o esterno | Comprimir com o cotovelo fletido ou em altura inadequada da maca. |
Ventilação
Sem via aérea avançada
- Relação de 30 compressões para 2 ventilações no adulto.
- Cada ventilação em cerca de 1 segundo, com elevação visível do tórax.
- Bolsa-válvula-máscara com reservatório, vedação de duas mãos e oxigênio no fluxo máximo.
- Cânula orofaríngea facilita muito a ventilação.
Com via aérea avançada
- Compressões contínuas, sem pausa para ventilar.
- Uma ventilação a cada 6 segundos, ou seja, 10 por minuto.
- Evitar hiperventilação: aumenta a pressão intratorácica e reduz o retorno venoso.
- Capnografia em onda conectada e monitorizada continuamente.
Capnografia durante a reanimação
- Confirma a via aérea — curva sustentada indica tubo na traqueia.
- Mede a qualidade da compressão — valores muito baixos sugerem compressão ineficaz ou fração de compressão ruim.
- Sinaliza retorno de circulação — elevação abrupta e sustentada do valor durante as compressões é um dos sinais mais precoces.
- Apoia o prognóstico — valores persistentemente muito baixos após 20 minutos de reanimação adequada associam-se a prognóstico ruim, mas não devem ser usados isoladamente para decidir o término.
- Evita hiperventilação — o traçado mostra a frequência real das ventilações administradas.
- Cuidado com falsos negativos — em parada prolongada, embolia pulmonar maciça e baixo débito, o valor pode ser baixo mesmo com o tubo bem posicionado.
Obstrução de via aérea por corpo estranho
A pessoa tosse de forma eficaz e consegue falar. Conduta: encorajar a tosse e observar de perto, sem interferir.
Tosse ineficaz, incapacidade de falar, estridor ou cianose. Conduta: alternar 5 golpes nas costas e 5 compressões abdominais até desobstruir.
Deite a pessoa no chão, inicie RCP e verifique a boca a cada abertura de via aérea, removendo o corpo estranho apenas se visível.
Alternar 5 golpes nas costas e 5 compressões torácicas; não realizar compressões abdominais nessa faixa etária.
A divisão que organiza tudo
Toda a conduta na parada se bifurca a partir de uma única pergunta: o ritmo é chocável ou não? Essa resposta define o próximo gesto e a prioridade terapêutica.
Chocáveis
- Fibrilação ventricular — atividade elétrica caótica, sem complexos identificáveis.
- Taquicardia ventricular sem pulso — complexos largos, regulares e rápidos, sem pulso.
- Conduta: choque imediato, seguido de retomada instantânea das compressões.
- Melhor prognóstico, sobretudo quando presenciada e desfibrilada cedo.
Não chocáveis
- Assistolia — ausência de atividade elétrica; confirme ganho, derivação e conexões antes de assumir.
- Atividade elétrica sem pulso — ritmo organizado no monitor sem pulso palpável.
- Conduta: compressões, adrenalina e busca ativa da causa.
- Prognóstico pior, mas a atividade elétrica sem pulso frequentemente tem causa tratável.
Desfibrilação na prática
- Mantenha as compressões enquanto o desfibrilador é preparado e as pás são posicionadas.
- Use pás adesivas quando disponíveis: reduzem a pausa e permitem monitorização contínua.
- Posicionamento anterolateral é o padrão; a posição anteroposterior é alternativa aceitável.
- Carregue o aparelho durante as compressões, e não com a equipe parada esperando.
- MINIMIZE A PAUSA PERI-CHOQUE — o alvo é menos de 5 segundos entre parar de comprimir, chocar e retomar.
- Avise em voz alta, confirme visualmente que ninguém está em contato e aplique o choque.
- Retome as compressões imediatamente após o choque, sem checar pulso nem ritmo.
- Reavalie o ritmo apenas ao final do ciclo de 2 minutos.
Calculadora — energia e doses
Selecione a faixa etária e informe o peso quando aplicável. As doses e energias seguem os algoritmos vigentes — confira sempre o manual do desfibrilador do seu serviço, pois a energia recomendada varia entre aparelhos.
Fibrilação ventricular refratária
Define-se pela persistência do ritmo chocável após três ou mais choques com reanimação adequada. É um cenário em que vale reavaliar sistematicamente o básico antes de partir para estratégias avançadas.
- Revise a qualidade da compressão — profundidade, frequência, retorno do tórax e fração de compressão.
- Confira o contato das pás — pele seca, pelos, adesivo mal aplicado e posicionamento inadequado reduzem a energia entregue.
- Considere trocar a posição das pás de anterolateral para anteroposterior.
- Antiarrítmico — amiodarona é a opção habitual, com lidocaína como alternativa.
- Corrija eletrólitos — potássio e magnésio; considere sulfato de magnésio se houver torsades de pointes.
- Pense em isquemia — a causa mais frequente; considere coronariografia se houver retorno de circulação, e discuta suporte extracorpóreo em serviços com o recurso.
- Desfibrilação sequencial dupla — estratégia estudada em serviços selecionados, ainda sem recomendação universal; siga o protocolo institucional.
Ritmos peri-parada
| Situação | Reconhecimento | Conduta |
|---|---|---|
| Bradicardia instável | Frequência baixa com hipotensão, alteração do nível de consciência, dor torácica ou sinais de choque. | Atropina; se não responder, marca-passo transcutâneo ou infusão de cronotrópico. |
| Taquicardia instável | Frequência alta com sinais de instabilidade atribuíveis à arritmia. | Cardioversão elétrica sincronizada, com sedação sempre que possível. |
| Taquicardia estável de complexo estreito | Regular, sem sinais de instabilidade. | Manobra vagal e adenosina; investigar e tratar a causa. |
| Taquicardia estável de complexo largo | Considere taquicardia ventricular até prova em contrário. | Antiarrítmico conforme protocolo, com desfibrilador imediatamente disponível. |
| Torsades de pointes | Taquicardia polimórfica com QT longo de base. | Sulfato de magnésio, correção de eletrólitos e suspensão de drogas que prolongam o QT. |
Acesso vascular
- Priorize o acesso venoso periférico — as diretrizes de 2025 passaram a recomendar a tentativa de acesso intravenoso antes do intraósseo no adulto em parada.
- Intraósseo permanece excelente alternativa quando o acesso venoso não é obtido rapidamente.
- Via endotraqueal é último recurso, com absorção errática e doses maiores; evite sempre que houver alternativa.
- Lave com solução salina após cada droga e eleve o membro, para favorecer a chegada da medicação à circulação central.
- Nunca interrompa compressões para obter acesso — são tarefas paralelas, executadas por profissionais diferentes.
Drogas do algoritmo
| Droga | Quando | Observações |
|---|---|---|
| Adrenalina | Ritmo não chocável: assim que possível. Ritmo chocável: após o segundo choque. | Repetir a cada 3 a 5 minutos. Aumenta a taxa de retorno de circulação; o efeito sobre sobrevida com bom desfecho neurológico é mais modesto, e a administração precoce nos ritmos não chocáveis é o ponto de maior impacto. |
| Amiodarona | Fibrilação ventricular ou TV sem pulso refratária ao choque. | Primeira dose de 300 mg, com segunda dose de 150 mg se necessário. Aumenta a sobrevida à admissão hospitalar. |
| Lidocaína | Alternativa à amiodarona no ritmo chocável refratário. | Desempenho semelhante nos estudos comparativos; use a que estiver disponível e com a qual a equipe tem familiaridade. |
| Sulfato de magnésio | Torsades de pointes e suspeita de hipomagnesemia. | Não é droga de rotina na parada; o uso indiscriminado não traz benefício. |
| Bicarbonato de sódio | Hipercalemia, intoxicação por antidepressivo tricíclico e acidose metabólica grave preexistente. | Não usar de rotina: pode piorar acidose intracelular e desviar a curva de dissociação da hemoglobina. |
| Cálcio | Hipercalemia, hipocalcemia e intoxicação por bloqueador de canal de cálcio. | Sem indicação de rotina; reserve para as situações específicas acima. |
| Naloxona | Parada com suspeita de intoxicação por opioide. | As diretrizes de 2025 ampliaram a ênfase no uso precoce e no acesso público; não substitui as compressões nem a ventilação. |
| Trombolítico | Suspeita forte de embolia pulmonar como causa da parada. | Se administrado, considere prolongar a reanimação por 60 a 90 minutos antes de decidir o término. |
Via aérea durante a parada
Estratégia inicial adequada na maioria dos casos. Vedação de duas mãos, cânula orofaríngea e oxigênio no fluxo máximo.
Alternativa rápida e com menor interrupção; boa opção quando não há operador experiente em intubação.
Permite compressões contínuas e proteção da via aérea, mas só se puder ser feita sem interromper as compressões e por operador experiente.
Capnografia em onda em qualquer dispositivo avançado — é também o melhor monitor de qualidade da reanimação.
Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, momento de administração e cuidados. Confira apresentação, diluição e protocolo do seu serviço antes de administrar.
Drogas da parada
As medicações do algoritmo, com o detalhe que mais importa em cada uma: quando entrar, quanto dar e o que a evidência realmente mostra.
Situações e estratégias
Condutas que fogem do algoritmo padrão: causas específicas, suporte extracorpóreo, cuidados imediatos após o retorno de circulação e a decisão de encerrar.
Os cinco H e os cinco T
Revisar as causas reversíveis não é um exercício acadêmico para o final da reanimação: é a tarefa que, na atividade elétrica sem pulso e na assistolia, tem maior chance de reverter o quadro. Faça a revisão em voz alta, a cada checagem de ritmo.
| Causa | Pistas | Tratamento imediato |
|---|---|---|
| Hipovolemia | Trauma, sangramento, desidratação, veia cava colabada ao ultrassom. | Volume em infusão rápida e controle da fonte de sangramento; hemoderivados se hemorrágica. |
| Hipóxia | Insuficiência respiratória prévia, obstrução de via aérea, afogamento. | Via aérea pérvia, oxigênio a 100% e ventilação eficaz. |
| Hidrogênio (acidose) | Acidose metabólica grave conhecida, insuficiência renal, cetoacidose. | Ventilação adequada; bicarbonato apenas em situações selecionadas. |
| Hipo ou hipercalemia | Doença renal, diálise, drogas, alterações prévias no eletrocardiograma. | Cálcio, insulina com glicose e bicarbonato na hipercalemia; reposição cautelosa na hipocalemia. |
| Hipotermia | Exposição ao frio, afogamento em água gelada, temperatura central baixa. | Reaquecimento ativo; reanimação prolongada — não se declara óbito antes do reaquecimento. |
| Tensão no tórax (pneumotórax) | Trauma, ventilação mecânica, desvio de traqueia, ausência de deslizamento pleural. | Descompressão imediata seguida de drenagem torácica. |
| Tamponamento cardíaco | Trauma, neoplasia, pós-operatório cardíaco; derrame ao ultrassom. | Pericardiocentese ou toracotomia, conforme o contexto. |
| Toxinas | Intoxicação, superdosagem, opioides, bloqueadores de canal de cálcio e betabloqueadores. | Antídoto específico: naloxona, cálcio, glucagon, emulsão lipídica e bicarbonato conforme o agente. |
| Trombose pulmonar | Fatores de risco, dispneia súbita prévia, ventrículo direito dilatado ao ultrassom. | Trombolítico e, quando disponível, suporte extracorpóreo ou trombectomia. |
| Trombose coronariana | Dor torácica prévia, alterações isquêmicas conhecidas, ritmo chocável refratário. | Coronariografia após retorno de circulação; discutir suporte extracorpóreo em casos selecionados. |
Calculadora — checklist de causas reversíveis
Marque as causas suspeitas neste paciente. O resultado gera a lista de condutas específicas correspondentes, para ser executada em paralelo às compressões.
Os cinco H
Os cinco T
Ultrassom durante a parada
- Use apenas nas pausas de checagem de ritmo, com a janela subxifoide já preparada e o aparelho posicionado antes da pausa.
- Limite a 10 segundos — o exame não pode prolongar a interrupção das compressões.
- Procure alvos específicos: derrame pericárdico, ventrículo direito dilatado, ausência de deslizamento pleural, veia cava colabada e contratilidade cardíaca.
- Contratilidade organizada sem pulso palpável sugere pseudoatividade elétrica sem pulso, com melhor prognóstico e maior chance de causa reversível.
- Ausência total de movimento cardíaco associa-se a prognóstico ruim, mas não deve ser usada isoladamente para encerrar a reanimação.
- Designe um operador exclusivo para o ultrassom, para que ele não compita com as demais tarefas.
Situações com manejo próprio
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Gestante | O útero gravídico comprime a veia cava e reduz drasticamente o retorno venoso. | Deslocamento uterino manual à esquerda, compressões um pouco mais cefálicas e cesárea perimortem considerada em torno de 4 minutos sem retorno de circulação, se a altura uterina alcança a cicatriz umbilical. |
| Trauma | Causa quase sempre mecânica: hipovolemia, pneumotórax hipertensivo ou tamponamento. | Priorizar controle de hemorragia, descompressão torácica bilateral, hemoderivados e, em serviços habilitados, toracotomia de reanimação em indicações selecionadas. |
| Hipotermia grave | Metabolismo reduzido protege o cérebro; a recuperação neurológica completa é possível após reanimação muito prolongada. | Reaquecimento ativo e reanimação prolongada — o paciente só é considerado irrecuperável após aquecimento adequado. Considerar suporte extracorpóreo. |
| Afogamento | A causa é hipóxica; a ventilação tem papel proporcionalmente maior. | Iniciar com ventilações, priorizar oxigenação e considerar hipotermia associada. |
| Intoxicação por opioide | Parada tipicamente precedida por depressão respiratória. | Naloxona precoce associada a ventilação e compressões; as diretrizes de 2025 reforçaram o acesso público ao antídoto. |
| Hipercalemia | Frequente em renal crônico e dialítico; alterações prévias no eletrocardiograma. | Cálcio imediato, seguido de insulina com glicose e bicarbonato; diálise após a estabilização. |
| Anafilaxia | Vasoplegia intensa com broncoespasmo e edema de via aérea. | Adrenalina, volume em grande quantidade e via aérea precoce, pela evolução rápida do edema. |
| Intoxicação por anestésico local | Arritmias refratárias após bloqueio ou infiltração. | Emulsão lipídica intravenosa conforme protocolo, com reanimação prolongada. |
| Dispositivo de assistência ventricular | Ausência de pulso pode ser normal; avalie o funcionamento do dispositivo antes de comprimir. | Seguir protocolo específico e acionar a equipe responsável; as compressões não estão automaticamente contraindicadas. |
Particularidades pediátricas
A parada na criança é habitualmente hipóxica, secundária a insuficiência respiratória ou choque — daí a ênfase maior na ventilação.
30 para 2 com um socorrista e 15 para 2 com dois socorristas; profundidade de cerca de um terço do diâmetro anteroposterior do tórax.
Primeiro choque de 2 J/kg, seguido de 4 J/kg, podendo escalonar até a dose do adulto conforme protocolo.
0,01 mg/kg por via intravenosa ou intraóssea a cada 3 a 5 minutos, com dose máxima correspondente à do adulto.
Frequência abaixo de 60 por minuto com sinais de má perfusão apesar de oxigenação e ventilação adequadas é indicação de iniciar compressões.
As diretrizes de 2025 trouxeram, pela primeira vez, recomendações específicas sobre prognóstico neurológico após parada em pediatria.
Cuidados após o retorno de circulação
O retorno de circulação não encerra a reanimação — inicia a fase em que boa parte do desfecho neurológico é definida. A síndrome pós-parada combina lesão cerebral, disfunção miocárdica, resposta inflamatória sistêmica e a persistência da causa que provocou o evento.
| Domínio | Alvo | Observação |
|---|---|---|
| Oxigenação | Saturação entre 92% e 98% | Reduza a FiO₂ assim que possível — a hiperóxia se associa a pior desfecho. |
| Ventilação | Normocapnia | Evitar hiperventilação e hipocapnia, que reduzem o fluxo sanguíneo cerebral. |
| Pressão arterial | Média acima de 65 mmHg, evitando hipotensão | Volume, vasopressor e inotrópico conforme a disfunção miocárdica. |
| Eletrocardiograma | Imediatamente após o retorno | Coronariografia de urgência se houver supradesnivelamento; considerar em casos selecionados sem supra. |
| Temperatura | Controle ativo por pelo menos 36 horas | Nos pacientes que permanecem sem resposta a comandos verbais; evitar febre de forma agressiva. |
| Glicemia | Evitar hipoglicemia e hiperglicemia importantes | Sem alvo estrito; a hipoglicemia é particularmente deletéria. |
| Convulsões | Tratar quando presentes | Eletroencefalograma em quem permanece comatoso; a atividade epileptiforme é frequente. |
| Sedação | Titulada, permitindo avaliação neurológica | Evitar sedação profunda desnecessária, que atrasa o prognóstico. |
Prognóstico neurológico
- Nunca é precoce — a avaliação prognóstica formal só deve ocorrer após pelo menos 72 horas do retorno de circulação, e mais tarde ainda se houve controle de temperatura ou sedação residual.
- Nunca é baseada em um único achado — a abordagem é multimodal, combinando exame neurológico, eletroencefalograma, biomarcadores e neuroimagem.
- Exame clínico — ausência de reflexos pupilar e corneano, e mioclonias precoces e generalizadas, são sinais desfavoráveis quando persistentes.
- Eletroencefalograma — padrões de surto-supressão e status epiléptico refratário têm valor prognóstico.
- Biomarcadores — enolase neurônio-específica seriada, quando disponível.
- Neuroimagem — perda da diferenciação entre substância branca e cinzenta na tomografia e alterações na ressonância.
- Evite a profecia autorrealizável — decisões de limitação baseadas em avaliação precoce produzem exatamente o desfecho que previram.
Calculadora — apoio à decisão de término
Marque os elementos presentes. A ferramenta organiza os fatores que favorecem prolongar e os que favorecem considerar o término, para apoiar uma decisão que continua sendo clínica, compartilhada e contextual.
Favorecem prolongar a reanimação
Favorecem considerar o término
Depois do evento
- Comunicação com a família — clara, sem jargão, em ambiente reservado e com tempo para perguntas.
- Debriefing da equipe — as diretrizes de 2025 acrescentaram recomendações específicas sobre debriefing imediato e tardio após eventos de reanimação.
- Registro estruturado — horários, ritmos, intervenções, tempo até o primeiro choque e desfecho; é o que permite auditoria e melhoria.
- Saúde mental dos profissionais — reanimações malsucedidas, sobretudo de crianças e de pacientes jovens, têm impacto real e merecem suporte institucional.
- Doação de órgãos — considerar e acionar o protocolo institucional quando aplicável.
- Seguimento dos sobreviventes — reabilitação neurológica, cardiológica e psicológica, com atenção também aos familiares.
Erros comuns
- Demorar a reconhecer a parada por interpretar o gasping como respiração.
- Perder tempo checando pulso repetidamente em vez de comprimir.
- Comprimir superficialmente ou sem permitir o retorno completo do tórax.
- Comprimir sobre colchão macio, sem superfície firme.
- Manter o mesmo compressor por muito mais de dois minutos.
- Pausas longas para intubar, obter acesso ou discutir conduta.
- Checar o pulso imediatamente após o choque em vez de retomar as compressões.
- Atrasar a desfibrilação em ritmo chocável enquanto se prepara medicação.
- Hiperventilar o paciente, reduzindo o retorno venoso.
- Adiar a adrenalina em ritmo não chocável.
- Usar bicarbonato, cálcio ou magnésio de rotina, sem indicação específica.
- Recitar os cinco H e cinco T sem de fato investigar nenhuma das causas.
- Prolongar o ultrassom e transformar a pausa de checagem em interrupção longa.
- Encerrar precocemente a reanimação em hipotermia ou intoxicação.
- Manter FiO₂ de 100% por horas depois do retorno de circulação.
- Prognosticar desfecho neurológico nas primeiras 24 a 48 horas.
Resumo do fluxo
- Reconheça a parada em até 10 segundos e acione a equipe pedindo o desfibrilador.
- INICIE COMPRESSÕES IMEDIATAMENTE — superfície firme, 100 a 120 por minuto, 5 a 6 cm, com retorno completo do tórax.
- Monitorize assim que o aparelho chegar e classifique o ritmo em chocável ou não chocável.
- Ritmo chocável: choque imediato e retomada instantânea das compressões, sem checar pulso.
- Ritmo não chocável: mantenha compressões e administre adrenalina o quanto antes.
- Obtenha acesso venoso, priorizando a via periférica, sem interromper as compressões.
- Considere via aérea avançada apenas se puder ser feita sem pausa relevante; conecte capnografia.
- Revise ativamente os cinco H e cinco T a cada checagem de ritmo, com ultrassom dirigido nas pausas.
- Troque o compressor a cada 2 minutos e mantenha as pausas abaixo de 10 segundos.
- Com retorno de circulação: eletrocardiograma imediato, alvos de oxigenação e pressão, controle de temperatura e investigação da causa.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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- Kleinman ME, Buick JE, Huber N, et al. Part 7: adult basic life support: 2025 AHA Guidelines for CPR and ECC. Circulation. 2025;152(suppl 2):S448-S478.
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- Lasa JJ, Dhillon GS, Duff JP, et al. Part 8: pediatric advanced life support: 2025 AHA Guidelines for CPR and ECC. Circulation. 2025;152(suppl 2):S479-S537.
- American Heart Association. Highlights of the 2025 AHA Guidelines for CPR and ECC. 2025.
- Soar J, Böttiger BW, Carli P, et al. European Resuscitation Council guidelines: adult advanced life support, versões vigentes.
- Nolan JP, Sandroni C, Böttiger BW, et al. European Resuscitation Council and European Society of Intensive Care Medicine guidelines: post-resuscitation care, versões vigentes.
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- Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz de ressuscitação cardiopulmonar e cuidados cardiovasculares de emergência, versões vigentes.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais, o treinamento formal em suporte avançado de vida nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, energias e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação.
Informações rápidas
Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Comprimir bem
100 a 120 por minuto, 5 a 6 cm de profundidade, com retorno completo do tórax e sobre superfície firme. Pausas abaixo de 10 segundos e troca do compressor a cada 2 minutos. A fração de compressão ideal fica acima de 80%.
Desfibrilar cedo
Ritmos chocáveis são fibrilação ventricular e TV sem pulso. Carregue o aparelho durante as compressões, minimize a pausa peri-choque e retome as compressões imediatamente após o choque, sem checar pulso.
Achar a causa
Revise os cinco H e cinco T em voz alta a cada checagem de ritmo, com ultrassom dirigido nas pausas e limitado a 10 segundos. Atividade elétrica sem pulso não é diagnóstico — é um achado que exige explicação.
Cuidar depois
Saturação de 92% a 98%, normocapnia, pressão média acima de 65 mmHg, eletrocardiograma imediato e controle de temperatura por pelo menos 36 horas em quem não responde a comandos. Prognóstico neurológico nunca antes de 72 horas.
Números rápidos
Compressão: 100 a 120 por minuto, 5 a 6 cm, com retorno completo.
Ciclos: trocar o compressor a cada 2 minutos; pausas abaixo de 10 segundos.
Ventilação: 30:2 sem via aérea avançada; 1 a cada 6 segundos com via aérea avançada.
Adrenalina: 1 mg a cada 3 a 5 minutos, precoce nos ritmos não chocáveis.
Pós-parada: controle de temperatura por pelo menos 36 horas.
Não esqueça
Não checar pulso logo após o choque — retome as compressões.
Gasping agônico é sinal de parada, não de respiração preservada.
Atividade elétrica sem pulso quase sempre tem causa tratável.
Hipotermia e intoxicação exigem reanimação prolongada antes de qualquer decisão.
Prognóstico neurológico nunca é definido nas primeiras 24 a 48 horas.
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Em provas / residência
A banca cobra as métricas da compressão, a divisão entre ritmos chocáveis e não chocáveis e o momento da adrenalina em cada um deles.
Decore: 100 a 120 por minuto e 5 a 6 cm; adrenalina precoce no não chocável e após o segundo choque no chocável; amiodarona na FV refratária; cesárea perimortem em torno de 4 minutos.
