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Infecção de Pele Grave

A pergunta que organiza tudo não é "qual antibiótico", e sim isto precisa ir para o centro cirúrgico agora? Na infecção necrosante, o desbridamento precoce é a única intervenção que muda mortalidade — e a decisão é clínica, nunca de um escore ou de um exame de imagem que atrasa a sala.

Cirurgia é o tratamento Dor desproporcional é alarme Purulenta x não purulenta 5 a 6 dias na celulite
Tempo de leitura: 20 min
Atualizado em: 21/08/2026

Reconhecer o necrosante

  • Dor desproporcional ao achado de pele
  • Toxemia, hipotensão e progressão em horas
  • Bolhas hemorrágicas, crepitação e anestesia
  • Escore normal não afasta o diagnóstico

Classificar

  • Purulenta: abscesso, furúnculo e carbúnculo
  • Não purulenta: celulite e erisipela
  • Gravidade define via, internação e espectro
  • Cobertura de MRSA só quando há motivo

Operar cedo

  • Desbridamento precoce muda mortalidade
  • Imagem não pode atrasar a sala
  • Reexploração programada em 12 a 24 horas
  • Antibiótico não substitui o bisturi

Antibiótico certo

  • Amplo espectro na suspeita de necrosante
  • Antitoxina: clindamicina ou linezolida
  • Celulite simples: 5 a 6 dias bastam
  • Descalonar assim que sair a cultura

Um espectro, não uma doença

As infecções de pele e partes moles vão do impetigo autolimitado à fasciíte necrosante com choque. O que separa esses extremos não é o antibiótico escolhido, e sim a profundidade do acometimento e a velocidade de progressão. Por isso a avaliação começa sempre pela mesma pergunta: existe infecção necrosante aqui?

Camada acometida Entidade Marcador clínico
EpidermeImpetigo, ectimaCrostas melicéricas, lesões superficiais.
Derme superficial e linfáticosErisipelaPlaca eritematosa com borda bem delimitada e elevada.
Derme profunda e subcutâneoCeluliteEritema de bordas mal definidas, calor, edema e dor.
Folículo e subcutâneoFurúnculo, carbúnculo, abscessoColeção purulenta, flutuação — o tratamento é drenagem.
FásciaFasciíte necrosanteDor desproporcional, toxemia, progressão em horas.
MúsculoPiomiosite, mionecrose clostrídicaDor profunda, crepitação, elevação de creatinoquinase.
A infecção necrosante quase nunca é reconhecida na admissão. A pele pode parecer apenas uma celulite nas primeiras horas, enquanto a destruição já avança pela fáscia. Desconfiar cedo é a habilidade que salva o membro e a vida.

As duas perguntas da classificação

Há pus?

Purulenta — abscesso, furúnculo, carbúnculo e celulite com drenagem. O agente predominante é o Staphylococcus aureus, e o tratamento central é a drenagem.

Não purulenta — erisipela e celulite sem coleção. O agente predominante é o estreptococo beta-hemolítico, e a cobertura empírica de MRSA geralmente não é necessária.

Qual a gravidade?

Leve — sem sinais sistêmicos.

Moderada — com sinais sistêmicos, como febre, taquicardia, taquipneia ou leucocitose.

Grave — falha do esquema oral, imunossupressão, sinais de toxicidade sistêmica, hipotensão ou suspeita de infecção profunda ou necrosante.

Purulência e gravidade formam uma matriz simples: purulenta define se drena e se cobre estafilococo; gravidade define a via, a internação e a amplitude do espectro. Quase toda decisão inicial cabe nessas duas perguntas.

Calculadora — classificação e conduta inicial

Purulência Gravidade Conduta sugerida

Selecione o tipo e marque o que estiver presente. A presença de qualquer critério de gravidade muda a via e a necessidade de internação; suspeita de necrosante muda tudo.

Classificação
Não purulenta leve
Tratamento oral ambulatorial dirigido a estreptococo, com marcação da borda e reavaliação em 48 a 72 horas
Ferramenta de apoio. A classificação orienta a via e o espectro, mas não substitui o exame físico seriado. Diabéticos, neutropênicos e usuários de imunossupressor podem ter infecção grave com poucos sinais inflamatórios.

As primeiras horas

Avaliar profundidade

Procure ativamente sinais de necrosante. Marque a borda do eritema com caneta e registre o horário — a progressão em poucas horas é dado diagnóstico.

Coletar e tratar

Hemoculturas e culturas de material drenado ou de tecido nos casos graves. Antibiótico conforme purulência e gravidade, sem atrasar a avaliação cirúrgica.

Decidir sobre o centro cirúrgico

Suspeita de necrosante é consulta cirúrgica imediata. Exame de imagem só é aceitável se não atrasar a exploração em paciente instável.

Dois gestos simples e muito úteis: marcar a borda do eritema com data e hora e reavaliar pessoalmente em algumas horas. Progressão que ultrapassa a marcação em vigência de antibiótico adequado é sinal de alarme.

Quem causa o quê

Agente Quadro típico Implicação terapêutica
Estreptococo beta-hemolítico Erisipela e celulite não purulenta; fasciíte necrosante tipo II e síndrome do choque tóxico. Penicilina e cefalosporina de primeira geração; associar antitoxina nas formas graves.
Staphylococcus aureus sensível Abscesso, furúnculo, carbúnculo e celulite purulenta. Oxacilina ou cefazolina; drenagem é o pilar do tratamento.
S. aureus resistente à oxacilina Abscessos recorrentes, infecção associada à assistência, usuários de droga injetável. Vancomicina, linezolida ou daptomicina; cobrir empiricamente apenas com motivo.
Polimicrobiana com anaeróbios Fasciíte tipo I: períneo, abdome, pé diabético e pós-operatório. Esquema de amplo espectro com cobertura anaeróbia e gram-negativa.
Clostridium perfringens Mionecrose com crepitação e gás, após trauma ou cirurgia contaminada. Cirurgia imediata, penicilina em dose alta associada a clindamicina.
Vibrio vulnificus Exposição a água salgada ou frutos do mar, sobretudo em hepatopata; bolhas hemorrágicas de evolução fulminante. Doxiciclina associada a ceftriaxona ou ceftazidima, com cirurgia precoce.
Aeromonas hydrophila Ferimento em contato com água doce. Doxiciclina ou quinolona associada a cefalosporina.
Pasteurella multocida Mordedura de gato e de cão, com celulite de instalação muito rápida. Amoxicilina com clavulanato é a escolha; cefalexina isolada não cobre.
Eikenella corrodens Mordedura humana e ferimento por soco em boca alheia. Amoxicilina com clavulanato ou ampicilina com sulbactam; avaliar acometimento articular.
Nas formas necrosantes, a divisão clássica é entre tipo I, polimicrobiana e típica de períneo, abdome e diabéticos, e tipo II, monomicrobiana por estreptococo do grupo A, que acomete também jovens previamente hígidos e evolui de forma fulminante.

Quando cobrir MRSA empiricamente

A cobertura indiscriminada de estafilococo resistente é uma das principais fontes de uso desnecessário de vancomicina. Na celulite não purulenta, o agente é quase sempre estreptococo, e a cobertura de MRSA não traz benefício demonstrado.

  • Infecção purulenta — abscesso, furúnculo e celulite com drenagem, sobretudo em áreas de alta prevalência.
  • Colonização ou infecção prévia documentada por MRSA.
  • Infecção grave com sinais de toxicidade sistêmica ou suspeita de necrosante.
  • Uso de droga injetável e situação de rua.
  • Internação recente, hemodiálise ou residência em instituição de longa permanência.
  • Falha de esquema dirigido apenas a estreptococo.
  • Imunossupressão relevante ou presença de dispositivo protético.
Na ausência desses fatores, a celulite não purulenta responde bem a antimicrobiano dirigido a estreptococo. Se não houver melhora em 48 a 72 horas, reavalie — a resposta muitas vezes é lenta e a falta de melhora imediata não significa necessariamente cobertura inadequada.

Fatores de risco a procurar

Barreira cutânea rompida

Micose interdigital, fissuras, eczema, úlcera, ferida operatória e sítio de punção. Tratar a porta de entrada evita recorrência.

Edema e linfedema

Insuficiência venosa e linfedema são os principais fatores de recorrência de erisipela em membros inferiores.

Uso de droga injetável

Abscessos, MRSA, infecção necrosante e risco associado de endocardite e de tétano.

Diabetes e neuropatia

Úlcera indolor, isquemia associada e infecção polimicrobiana com risco de osteomielite.

Imunossupressão

Neutropenia, transplante e cirrose: apresentação atenuada e espectro de agentes ampliado, incluindo fungos.

Cirurgia recente

Infecção de sítio cirúrgico com dor intensa e febre precoce, nas primeiras 48 horas, sugere agente necrosante.

O que separa celulite de necrosante

Nenhum sinal isolado tem sensibilidade suficiente para afastar infecção necrosante, e os achados mais específicos — bolhas hemorrágicas, crepitação, necrose e hipotensão — costumam ser tardios. O diagnóstico é de suspeição, e a suspeição se constrói pela combinação de achados com a velocidade de evolução.

Achado Celulite comum Infecção necrosante
DorProporcional ao eritema.Desproporcional ao achado de pele, intensa e mal controlada; pode evoluir para anestesia.
VelocidadeProgressão em dias.Progressão em horas, ultrapassando a marcação da borda.
Estado geralPreservado ou pouco alterado.Toxemia, confusão, taquicardia desproporcional e hipotensão.
PeleEritema quente e homogêneo.Coloração violácea ou acinzentada, bolhas hemorrágicas, necrose e áreas de anestesia.
PalpaçãoEdema difuso.Edema além do eritema, endurecimento lenhoso e crepitação.
Resposta ao antibióticoMelhora em 48 a 72 horas.Progressão apesar de antimicrobiano adequado.
A combinação mais perigosa e mais subestimada é dor intensa desproporcional com pele quase normal em paciente toxêmico. É exatamente nessa fase que a cirurgia precoce muda o desfecho — e exatamente nela que o diagnóstico costuma ser adiado.

Calculadora — sinais de alarme para infecção necrosante

8 sinais Decide a cirurgia

Marque o que está presente. Os itens em destaque são alarmes maiores e, isoladamente, já justificam avaliação cirúrgica imediata.

Conduta sugerida
Nenhum sinal de alarme marcado
Conduza como infecção não necrosante, mas marque a borda do eritema e reavalie pessoalmente em poucas horas
Ferramenta de apoio. Ausência de sinais não exclui infecção necrosante em fase inicial: se a impressão clínica for de gravidade, chame a cirurgia mesmo com a lista vazia. A exploração cirúrgica continua sendo o padrão diagnóstico.

Calculadora — escore LRINEC

6 variáveis laboratoriais Sensibilidade limitada

O Laboratory Risk Indicator for Necrotizing Fasciitis foi criado para apoiar a diferenciação entre infecção necrosante e não necrosante. Vale conhecer, mas com uma ressalva central: escore baixo não afasta o diagnóstico.

Escore LRINEC
0
Risco baixo
Escore baixo NÃO afasta infecção necrosante — a decisão continua sendo clínica e cirúrgica
0 a 5 pontos: risco baixo pelo escore — mantenha a vigilância clínica, pois a sensibilidade é insuficiente para excluir o diagnóstico.
6 a 7 pontos: risco intermediário — considere avaliação cirúrgica e observação em ambiente monitorizado.
8 pontos ou mais: risco alto — a probabilidade de infecção necrosante é elevada e a exploração cirúrgica deve ser acionada.
Composição do escore: proteína C reativa de 150 mg/L ou mais soma 4 pontos; leucócitos de 15.000 a 25.000 somam 1 e acima de 25.000 somam 2; hemoglobina de 11 a 13,5 soma 1 e abaixo de 11 soma 2; sódio abaixo de 135 soma 2; creatinina acima de 1,6 soma 2; e glicemia acima de 180 soma 1. Diretrizes recentes desaconselham usar o escore para excluir o diagnóstico — ele serve, no máximo, como reforço de suspeita.

Papel dos exames complementares

Radiografia simples

Pode mostrar gás em partes moles, achado bastante específico porém pouco sensível. Não serve para afastar.

Tomografia

Melhor acurácia entre os exames de imagem: gás, espessamento e realce fascial, coleções. Útil no paciente estável, nunca no instável.

Ressonância

Sensível para acometimento fascial, mas demorada e frequentemente indisponível na urgência.

Ultrassom à beira do leito

Ajuda a identificar coleções drenáveis e líquido ao longo da fáscia; operador-dependente.

Teste do dedo

Incisão sob anestesia local até a fáscia: ausência de resistência ao dedo, líquido acinzentado e ausência de sangramento sugerem fortemente necrose.

Laboratório

Hemoculturas, cultura de tecido, lactato, creatinoquinase, função renal e proteína C reativa. Sustentam a gravidade, mas não decidem a cirurgia.

Regra que não deve ser flexibilizada: em paciente com suspeita clínica forte e instabilidade, exame de imagem não pode atrasar a ida ao centro cirúrgico. A exploração é simultaneamente o exame diagnóstico definitivo e o tratamento.

Celulite e erisipela

A distinção entre as duas é mais didática do que prática: a erisipela acomete derme superficial e linfáticos, com placa de bordas elevadas e bem delimitadas; a celulite é mais profunda, com bordas mal definidas. Ambas são predominantemente estreptocócicas e recebem tratamento semelhante.

  • Marque a borda do eritema com caneta, com data e hora — é o melhor parâmetro objetivo de evolução.
  • Eleve o membro acometido: reduz edema e acelera a resposta, e é frequentemente esquecido.
  • Trate a porta de entrada, sobretudo micose interdigital, fissuras e eczema.
  • Culturas de rotina não são necessárias na celulite típica sem sinais sistêmicos.
  • Hemoculturas em quadros graves, imunossuprimidos, exposição a água ou mordedura, e em falha terapêutica.
  • Duração de 5 a 6 dias na celulite não complicada com boa resposta — cursos mais longos não trazem benefício.
  • Piora nas primeiras 24 a 48 horas pode ocorrer por lise bacteriana e liberação de toxinas; reavalie, mas não troque o esquema automaticamente.
  • Bilateralidade em membros inferiores é rara em celulite — pense em dermatite de estase.
Anti-inflamatório não esteroidal pode mascarar a evolução de uma infecção necrosante, atenuando dor e febre. Em quadro grave ou com dúvida diagnóstica, evite prescrevê-lo até que a hipótese esteja afastada.

Abscesso cutâneo

O tratamento do abscesso é a incisão e drenagem. O antibiótico é adjuvante, e não substituto — drenar mal e prescrever antimicrobiano é a receita clássica da recorrência.

Sempre drenar

  • Incisão ampla o bastante, com quebra de loculações.
  • Lavagem da cavidade e curativo apropriado.
  • Enviar material para cultura nos casos graves, recorrentes ou em imunossuprimidos.
  • Ultrassom à beira do leito ajuda quando há dúvida sobre coleção.

Quando associar antibiótico

  • Sinais sistêmicos de infecção.
  • Celulite extensa ao redor da coleção.
  • Abscessos múltiplos ou de grandes dimensões.
  • Imunossupressão, extremos de idade e comorbidade relevante.
  • Áreas de difícil drenagem, como face, mãos e genitália.
  • Falha da drenagem isolada.
Quando o antibiótico é indicado após a drenagem, deve cobrir estafilococo, incluindo cepas resistentes à oxacilina conforme o perfil local. Sulfametoxazol-trimetoprima e doxiciclina são opções orais frequentes.

O que imita celulite

Uma parcela relevante dos diagnósticos de celulite em membros inferiores está incorreta. Reconhecer os imitadores evita internação, antibiótico desnecessário e atraso no tratamento correto.

Condição Como diferenciar Conduta
Dermatite de estase Bilateral, crônica, com hiperpigmentação, descamação e prurido; sem febre. Compressão, corticoide tópico e cuidados de pele.
Trombose venosa profunda Edema com dor à palpação profunda, sem eritema bem delimitado. Ultrassom com Doppler e anticoagulação quando confirmada.
Dermatite de contato Prurido predominante, limites correspondendo à área de exposição. Afastar o agente e usar corticoide tópico.
Gota e artrite séptica Dor articular intensa com eritema periarticular e limitação de movimento. Exame do líquido sinovial quando indicado.
Lipodermatoesclerose Endurecimento crônico em "garrafa invertida", geralmente bilateral. Compressão e tratamento da insuficiência venosa.
Reação a picada Lesão central, prurido, evolução limitada e ausência de toxemia. Sintomáticos e observação.
Erupção medicamentosa Distribuição simétrica, relação temporal com nova droga. Suspender o agente suspeito.
Três pistas fortes de que não é celulite: quadro bilateral, curso crônico e ausência de febre com prurido predominante. Nesses casos, reavalie antes de manter o antibiótico.

Celulite de repetição

  • Trate a porta de entrada — micose interdigital é a causa evitável mais comum e frequentemente ignorada.
  • Controle o edema com compressão elástica, elevação e manejo da insuficiência venosa e do linfedema.
  • Cuide da pele com hidratação e tratamento de eczema e fissuras.
  • Controle comorbidades, sobretudo obesidade e diabetes.
  • Profilaxia antimicrobiana pode ser considerada em pacientes com episódios frequentes apesar das medidas acima, com benefício que tende a se perder após a suspensão.
Antes de indicar profilaxia contínua, confirme que os episódios prévios foram realmente celulites — muitos casos de "erisipela de repetição" são, na verdade, dermatite de estase tratada repetidamente como infecção.

A cirurgia é o tratamento

Na infecção necrosante, a única intervenção com impacto consistente sobre mortalidade é o desbridamento precoce e completo. Antimicrobiano, suporte hemodinâmico e adjuvantes são complementos — nenhum deles compensa cirurgia adiada.

  1. Suspeitou: acione a cirurgia imediatamente, em paralelo à reanimação, e não em sequência a ela.
  2. NÃO ATRASE A EXPLORAÇÃO POR EXAME DE IMAGEM em paciente instável ou com suspeita clínica forte.
  3. Colha hemoculturas e inicie antimicrobiano de amplo espectro associado a agente antitoxina.
  4. Reanime com fluidos e vasopressor conforme necessário; a perda para o terceiro espaço é volumosa.
  5. No intraoperatório, o achado característico é fáscia acinzentada, sem resistência ao dedo, com líquido turvo e ausência de sangramento.
  6. O desbridamento deve alcançar tecido viável e sangrante em todas as direções, sem economia de margem.
  7. Envie material para cultura e histopatológico obtidos do próprio tecido.
  8. PROGRAME REEXPLORAÇÃO EM 12 A 24 HORAS — a necessidade de novos desbridamentos é a regra, não a exceção.
  9. Encaminhe para terapia intensiva, com reavaliação diária da ferida e planejamento de cobertura definitiva.

Tipos e apresentações

Tipo Microbiologia e contexto Particularidade
Tipo I — polimicrobiana Aeróbios e anaeróbios combinados. Diabéticos, idosos, períneo, abdome e pós-operatório. Forma mais comum; inclui a gangrena de Fournier.
Tipo II — monomicrobiana Estreptococo do grupo A, isolado ou com S. aureus. Pode acometer jovens hígidos. Evolução fulminante, frequentemente com síndrome do choque tóxico.
Tipo III — Vibrio Exposição a água salgada ou frutos do mar, sobretudo em hepatopatas. Bolhas hemorrágicas de instalação muito rápida e alta letalidade.
Mionecrose clostrídica Clostridium perfringens, após trauma contaminado ou cirurgia. Gás abundante, dor intensa, secreção com odor característico e hemólise.
Gangrena de Fournier Períneo, escroto e região perianal; polimicrobiana. Origem urogenital ou anorretal; exige avaliação de colostomia e cistostomia em casos selecionados.
Piomiosite Abscesso muscular, geralmente estafilocócico. Dor profunda com pele pouco alterada; diagnóstico por imagem e drenagem.
Na gangrena de Fournier, procure ativamente a origem: abscesso perianal, fístula, infecção urinária obstrutiva, trauma e procedimento urológico recente. O controle da fonte faz parte do tratamento cirúrgico.

Antimicrobiano na infecção necrosante

O esquema empírico precisa ser amplo, porque a etiologia é frequentemente polimicrobiana, e precisa incluir um agente com ação sobre a produção de toxinas, porque a carga bacteriana elevada reduz a eficácia dos betalactâmicos.

Cobertura gram-positiva incluindo resistentes

Vancomicina, linezolida ou daptomicina, conforme perfil local e disponibilidade.

Cobertura gram-negativa e anaeróbia

Piperacilina-tazobactam, ou carbapenêmico nos casos graves e com risco de resistência.

Agente antitoxina

Clindamicina é a opção clássica por inibir a síntese proteica e reduzir a produção de toxinas. A linezolida tem efeito semelhante e ganhou espaço diante da resistência crescente à clindamicina.

Atenção a uma mudança relevante: a resistência à clindamicina vem aumentando de forma expressiva em estreptococo do grupo A, estreptococo do grupo B e S. aureus. Vários serviços passaram a preferir linezolida como agente antitoxina. Verifique o perfil de sensibilidade da sua instituição.
Após identificação do agente, descalone. Em fasciíte por estreptococo do grupo A confirmada, o esquema clássico passa a ser penicilina em dose alta associada ao agente antitoxina.

Síndrome do choque tóxico

Mediada por superantígenos, cursa com hipotensão precoce, disfunção de múltiplos órgãos e, na forma estafilocócica, exantema difuso com descamação tardia em palmas e plantas. Pode acompanhar infecção necrosante ou surgir com foco discreto.

Estreptocócica

  • Frequentemente associada a infecção de partes moles evidente.
  • Hipotensão precoce com dor intensa no sítio acometido.
  • Letalidade elevada, mesmo com tratamento adequado.

Estafilocócica

  • Pode ocorrer com foco mínimo, incluindo tampão nasal e uso de absorvente interno.
  • Exantema macular difuso com descamação tardia.
  • Remover o foco — tampão, corpo estranho ou coleção — é parte essencial do tratamento.
  • Suporte intensivo com reposição volêmica volumosa e vasopressor.
  • Controle de foco imediato, cirúrgico ou por remoção do corpo estranho.
  • Antimicrobiano com agente antitoxina associado ao betalactâmico.
  • Imunoglobulina intravenosa pode ser considerada em casos graves, sobretudo estreptocócicos, embora a evidência permaneça controversa e o uso varie entre serviços.

Depois da primeira cirurgia

Reexploração

Programada em 12 a 24 horas e repetida até que não haja mais tecido inviável. Vários desbridamentos são a regra.

Reposição e nutrição

Perdas volumosas, catabolismo intenso e necessidade de suporte nutricional precoce e agressivo.

Cobertura da ferida

Curativos avançados, terapia por pressão negativa e planejamento de enxertia ou retalho após controle da infecção.

Duração do antimicrobiano

Guiada pela resposta clínica e pelo controle cirúrgico; após o desbridamento definitivo e sem bacteremia, tende a ser curta.

Oxigenoterapia hiperbárica

Adjuvante discutido, sobretudo na mionecrose clostrídica; nunca deve adiar ou substituir a cirurgia.

Reabilitação

Sequelas funcionais e estéticas são importantes; fisioterapia e apoio psicológico entram cedo.

Calculadora — doses por peso

Dose por quilo 5 cenários

Informe o peso e o cenário clínico. As doses pressupõem adulto com função renal preservada — ajuste conforme clearance, nível sérico e protocolo institucional.

Ferramenta de apoio ao cálculo. Vancomicina exige monitorização sérica; daptomicina exige acompanhamento de creatinoquinase e não deve ser usada quando há foco pulmonar; linezolida exige atenção a plaquetopenia, interações serotoninérgicas e uso prolongado. Confira sempre a bula e o protocolo do seu serviço.

Duração do tratamento

Situação Duração Observação
Celulite não complicada com boa resposta5 a 6 diasProlongar não melhora desfecho; estender apenas se a resposta for lenta.
Abscesso drenado sem sinais sistêmicosNenhuma ou curtaA drenagem é o tratamento; antibiótico conforme os critérios de associação.
Abscesso drenado com celulite ou sinais sistêmicos5 a 7 diasCobrir estafilococo conforme o perfil local.
Infecção necrosante após desbridamento definitivoCurtaSem bacteremia nem celulite residual, pode ser suspenso em poucos dias após o último desbridamento.
Bacteremia por S. aureus associadaProlongadaSegue as regras da bacteremia estafilocócica, com investigação de foco secundário.
Pé diabético com infecção de partes moles1 a 2 semanasConforme resposta e desbridamento; osteomielite exige esquema mais longo.
Mordedura infectada5 a 7 diasMais longo se houver acometimento articular, tendíneo ou ósseo.
A tendência atual é de cursos mais curtos em quase todos os cenários, desde que haja controle de foco adequado e boa resposta clínica. O tempo prolongado costuma compensar drenagem insuficiente — e não deveria.

Medidas que não são antibiótico

  • Drenagem e desbridamento — o determinante mais importante do desfecho em qualquer coleção ou necrose.
  • Elevação do membro e controle do edema, subestimados e muito eficazes.
  • Tratamento da porta de entrada, incluindo micose interdigital e fissuras.
  • Controle glicêmico e otimização de comorbidades.
  • Avaliação vascular nos membros inferiores, sobretudo em diabéticos: isquemia impede a cicatrização.
  • Profilaxia antitetânica conforme o esquema vacinal e o tipo de ferimento.
  • Analgesia adequada, com cautela quanto a anti-inflamatórios enquanto houver dúvida sobre necrosante.
  • Profilaxia de tromboembolismo no paciente internado e imobilizado.
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, cuidados e limitações. Confira sempre o antibiograma local, a função renal e o protocolo do seu serviço.

Antimicrobianos

As drogas mais usadas nas formas graves, com o detalhe que mais importa em cada uma: espectro real, papel antitoxina e limitações práticas.

Situações específicas

Cenários em que o esquema padrão muda: necessidade de cirurgia, feridas contaminadas, pé diabético e paciente imunossuprimido.

Situações com manejo próprio

Cenário Particularidade O que fazer diferente
Pé diabético infectado Neuropatia mascara a dor, isquemia limita a cicatrização e a infecção costuma ser polimicrobiana. Classificar a gravidade, avaliar perfusão, sondar a úlcera em busca de osso exposto e desbridar; investigar osteomielite.
Mordedura de cão e gato Pasteurella multocida causa celulite de instalação muito rápida, em poucas horas. Amoxicilina com clavulanato, avaliação de estruturas profundas, profilaxia antitetânica e antirrábica conforme o protocolo.
Mordedura humana Alta taxa de infecção, sobretudo em ferimento sobre articulação metacarpofalangiana. Nunca suturar primariamente sem avaliação, considerar exploração cirúrgica e avaliar profilaxia para HIV e hepatites.
Exposição a água Água salgada sugere Vibrio, sobretudo em hepatopata; água doce sugere Aeromonas. Ampliar o espectro com doxiciclina associada a cefalosporina; suspeitar de evolução fulminante.
Neutropênico Sinais inflamatórios atenuados, com risco de Pseudomonas e de agentes fúngicos. Espectro ampliado com cobertura antipseudomonas; considerar biópsia de lesão para cultura e histologia.
Usuário de droga injetável Abscessos múltiplos, MRSA, necrosante e risco associado de endocardite. Drenagem, cobertura de MRSA, hemoculturas e limiar baixo para ecocardiograma e testagem sorológica.
Cirrose e hepatopatia Risco elevado de infecção grave e de Vibrio após exposição a frutos do mar. Internação com limiar baixo, espectro ampliado e vigilância para descompensação.
Infecção de sítio cirúrgico precoce Dor intensa e febre nas primeiras 48 horas após a operação sugerem agente necrosante. Abrir a ferida, explorar e acionar o cirurgião — não tratar apenas com antimicrobiano.

Erros comuns

  • Tratar infecção necrosante apenas com antibiótico, sem acionar a cirurgia.
  • Esperar exame de imagem antes de explorar paciente instável com suspeita clínica forte.
  • Usar escore LRINEC baixo para afastar o diagnóstico.
  • Ignorar dor desproporcional ao achado de pele.
  • Não marcar a borda do eritema e perder o parâmetro de progressão.
  • Prescrever antibiótico para abscesso sem drená-lo adequadamente.
  • Cobrir MRSA empiricamente em toda celulite não purulenta.
  • Manter 10 a 14 dias de antibiótico em celulite não complicada que já melhorou.
  • Diagnosticar celulite bilateral em membros inferiores sem considerar dermatite de estase.
  • Prescrever anti-inflamatório e mascarar a evolução de uma infecção profunda.
  • Esquecer de tratar a porta de entrada, sobretudo a micose interdigital.
  • Não elevar o membro acometido nem controlar o edema.
  • Usar cefalexina isolada em mordedura de cão ou gato, sem cobrir Pasteurella.
  • Não programar reexploração cirúrgica após o primeiro desbridamento.
  • Esquecer profilaxia antitetânica e, quando indicado, antirrábica.
  • Não avaliar perfusão arterial na úlcera infectada do pé diabético.

Resumo do fluxo

  1. Avalie profundidade e velocidade: existe suspeita de infecção necrosante?
  2. SE HÁ SUSPEITA, ACIONE A CIRURGIA IMEDIATAMENTE — em paralelo à reanimação e ao antimicrobiano.
  3. Classifique o restante dos casos: purulenta ou não purulenta, leve, moderada ou grave.
  4. Drene toda coleção e envie material para cultura nos casos graves ou recorrentes.
  5. Colha hemoculturas nas formas graves, em imunossuprimidos e diante de exposição especial.
  6. Escolha o antimicrobiano pela purulência, gravidade e fatores de risco para MRSA.
  7. Marque a borda do eritema com data e hora, eleve o membro e reavalie pessoalmente.
  8. Reavalie em 48 a 72 horas: sem melhora, reveja diagnóstico, coleção não drenada e cobertura.
  9. Descalone com a cultura e encerre em 5 a 6 dias na celulite não complicada.
  10. Antes da alta: trate a porta de entrada, controle o edema e programe seguimento.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço, o antibiograma local e as bulas vigentes.

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Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, escores e condutas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.

Informações rápidas

Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.

O essencial

Reconhecer o necrosante

Dor desproporcional ao achado de pele é o alarme mais precoce. Some toxemia, progressão em horas, bolhas hemorrágicas, crepitação, anestesia cutânea e necrose. Escore normal e imagem sem alterações não afastam o diagnóstico.

Classificar

Purulenta — abscesso, furúnculo e carbúnculo: drenar e cobrir estafilococo. Não purulenta — celulite e erisipela: predominam estreptococos e a cobertura de MRSA geralmente é dispensável. A gravidade define via, internação e amplitude do espectro.

Operar cedo

O desbridamento precoce é a única intervenção com impacto consistente sobre mortalidade. Imagem não pode atrasar a sala em paciente instável. Programe reexploração em 12 a 24 horas — vários desbridamentos são a regra.

Antibiótico certo

Na suspeita de necrosante: amplo espectro com cobertura gram-positiva resistente, gram-negativa e anaeróbia, associado a agente antitoxina — clindamicina ou linezolida. Na celulite não complicada, 5 a 6 dias bastam.

Números rápidos

Cirurgia: desbridamento precoce é a medida que muda mortalidade.

Reexploração: programada em 12 a 24 horas.

LRINEC: 0 a 5 baixo, 6 a 7 intermediário, 8 ou mais alto — não serve para excluir.

Celulite: 5 a 6 dias na forma não complicada com boa resposta.

Abscesso: drenagem é o tratamento; antibiótico só por critério.

Não esqueça

Dor desproporcional é o alarme mais precoce.

Escore normal não afasta infecção necrosante.

Imagem não pode atrasar o centro cirúrgico.

Celulite não purulenta raramente precisa de cobertura para MRSA.

Marque a borda do eritema com data e hora e reavalie pessoalmente.

Em provas / residência

A banca cobra a dor desproporcional como sinal precoce, a limitação do LRINEC e a prioridade absoluta do desbridamento cirúrgico.

Decore: purulenta drena e cobre estafilococo; não purulenta é estreptococo; clindamicina ou linezolida como antitoxina; Pasteurella exige amoxicilina com clavulanato.

Mais informações nas abas do artigo.

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