ITU Complicada
A definição mudou: complicada não é mais "homem, diabético ou sondado" — é infecção que ultrapassou a bexiga. E o tratamento encurtou: para quem melhora, 7 dias bastam na maioria dos casos. O que não mudou foi o essencial — urocultura antes do antibiótico, descalonamento assim que sai o resultado e controle de foco quando há obstrução.
Classificar certo
- Não complicada é infecção restrita à bexiga
- Complicada é infecção além da bexiga
- Febre, dor lombar e bacteremia complicam
- Sexo masculino, por si só, não complica mais
Colher urocultura
- Sempre antes da primeira dose do antibiótico
- Hemoculturas se houver sepse ou dúvida
- Jato médio, sonda recém-trocada ou punção
- Sem cultura não existe descalonamento
Buscar obstrução
- Ultrassom precoce em quem não melhora
- Cálculo, tumor e estenose são armadilhas
- Pionefrose exige drenagem de urgência
- Antibiótico não vence obstrução
Tratar curto
- 7 dias na maioria dos que melhoram
- 5 a 7 dias com fluoroquinolona
- Troca para via oral assim que possível
- Descalonar com o antibiograma na mão
A definição mudou em 2025
Por décadas, "ITU complicada" foi um rótulo baseado em quem era o paciente: homem, diabético, gestante, imunossuprimido, portador de alteração anatômica. A diretriz de 2025 da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas abandonou essa lógica e adotou um critério anatômico e clínico, muito mais simples de aplicar à beira do leito.
ITU não complicada
Infecção restrita à bexiga, com sintomas locais — disúria, urgência, polaciúria e dor suprapúbica — e sem sinais sistêmicos. Aplica-se agora tanto a mulheres quanto a homens.
ITU complicada
Infecção que ultrapassou a bexiga: febre, sinais sistêmicos, bacteremia, dor lombar, ou presença de sonda vesical, cateter duplo J, nefrostomia e cateterismo intermitente. Inclui a pielonefrite aguda.
Calculadora — esta ITU é complicada?
Marque o que está presente. Qualquer item indica que a infecção ultrapassou a bexiga e caracteriza ITU complicada. Os dois últimos itens sinalizam gravidade e mudam a escolha empírica.
Por que isso importa
A ITU é uma das infecções bacterianas mais frequentes e uma das principais causas de prescrição de antimicrobiano no mundo. É também um dos campos onde mais se prescreve por tempo excessivo e com espectro largo demais — com consequências diretas sobre resistência, disbiose e efeitos adversos.
Cerca de metade das mulheres terá pelo menos um episódio ao longo da vida.
Risco cresce com a idade e passou a ser contemplado nas diretrizes atuais.
7 dias substituem os clássicos 10 a 14 na maioria dos pacientes que melhoram.
Prevalência crescente de betalactamase de espectro estendido, inclusive na comunidade.
Causa importante de sepse comunitária, sobretudo em idosos e obstruídos.
As primeiras horas
Defina se a infecção ultrapassou a bexiga e se há sepse. Colha urina tipo I e urocultura antes do antibiótico; acrescente hemoculturas se houver sinais sistêmicos.
Aplique os quatro passos de escolha empírica: gravidade, risco de resistência, fatores do paciente e antibiograma local. Em sepse, a primeira dose é prioridade absoluta.
Ultrassom ou tomografia diante de sepse, cálculo conhecido, rim único, insuficiência renal ou ausência de melhora em 48 a 72 horas. Obstrução exige drenagem.
Quem causa
| Agente | Contexto típico | Observação prática |
|---|---|---|
| Escherichia coli | Agente dominante em todos os cenários, comunitário e hospitalar. | Responsável pela maioria dos casos; a resistência crescente a quinolonas e cefalosporinas é o principal problema. |
| Klebsiella pneumoniae | Comunitário e, sobretudo, relacionado à assistência. | Alta frequência de betalactamase de espectro estendido e de carbapenemase em ambiente hospitalar. |
| Proteus mirabilis | Sondados, cálculos e infecção recorrente. | Produz urease, alcaliniza a urina e forma cálculos de estruvita; resistente à nitrofurantoína. |
| Pseudomonas aeruginosa | Manipulação urológica, sonda de longa permanência, internação prévia. | Exige antimicrobiano com atividade antipseudomonas; não é coberta por ceftriaxona nem por ertapenem. |
| Enterococcus spp. | Idosos, sondados, uso prévio de cefalosporina. | Cefalosporinas não cobrem enterococo — lembrar quando o paciente piora em uso de ceftriaxona. |
| Staphylococcus saprophyticus | Mulheres jovens, quadro geralmente restrito à bexiga. | Raramente causa doença além da bexiga. |
| Staphylococcus aureus na urina | Achado incomum e que deve levantar suspeita. | Pode indicar disseminação hematogênica e abscesso renal — investigue bacteremia e endocardite. |
| Candida spp. | Sondados, diabéticos, uso prolongado de antimicrobiano. | Na maioria das vezes é colonização; tratar apenas com doença comprovada ou paciente de alto risco. |
Fatores de risco para uropatógeno resistente
Este é o passo que mais muda a escolha empírica. Reconhecer o paciente com risco elevado de betalactamase de espectro estendido evita tanto o subtratamento quanto o uso desnecessário de carbapenêmico.
- Isolamento prévio de germe multirresistente — o dado mais preditivo de todos; procure culturas dos últimos 6 a 12 meses no prontuário.
- Uso de antimicrobiano nos últimos 90 dias, especialmente cefalosporina e quinolona.
- Internação recente ou residência em instituição de longa permanência.
- Dispositivo urinário permanente — sonda, duplo J e nefrostomia.
- Procedimento urológico recente, incluindo litotripsia e biópsia de próstata.
- Viagem recente para região de alta prevalência de resistência.
- Infecção urinária de repetição com múltiplos tratamentos prévios.
- Hemodiálise e imunossupressão relevante.
Mecanismos de resistência que importam
Hidrolisa penicilinas e cefalosporinas, inclusive ceftriaxona e cefepima. Carbapenêmico é o tratamento consolidado; na infecção limitada ao trato urinário há alternativas discutidas com a infectologia.
Presente em Enterobacter, Citrobacter e Serratia. Pode ser induzida durante o tratamento com cefalosporina, gerando falha após melhora inicial.
Resistência a carbapenêmicos, com opções limitadas: novas associações de betalactâmico com inibidor, cefiderocol e, em casos selecionados, polimixina. Sempre com infectologia.
Prevalência alta em várias regiões do Brasil, o que limita o uso empírico. Como classe, permanece excelente quando o antibiograma confirma sensibilidade.
Quadro clínico
Sintomas de bexiga
- Disúria, urgência e polaciúria.
- Dor suprapúbica e urina turva ou com odor forte.
- Hematúria macroscópica em parte dos casos.
- Sem febre e sem sinais sistêmicos.
Sinais de acometimento além da bexiga
- Febre, calafrios, náuseas e vômitos.
- Dor lombar e sinal de Giordano positivo.
- Taquicardia, hipotensão e confusão mental.
- Dor perineal, retal ou próstata dolorosa ao toque.
Exames de urina
- Colha urina tipo I e urocultura com antibiograma em todo caso de ITU complicada.
- A UROCULTURA VEM ANTES DA PRIMEIRA DOSE. Sem ela, não há como descalonar nem como interpretar uma eventual falha terapêutica.
- Prefira o jato médio após higiene; em paciente sondado, colhe-se pelo dispositivo recém-trocado, nunca da bolsa coletora.
- Piúria apoia o diagnóstico, mas é inespecífica: aparece também em nefrolitíase, tumor, tuberculose urinária e uretrite.
- Nitrito positivo é bastante específico de enterobactéria, porém pouco sensível — negativo não afasta nada.
- Ausência de piúria em paciente imunocompetente torna o diagnóstico de ITU improvável; reveja a hipótese.
- Colha hemoculturas quando houver febre, sepse, imunossupressão ou dúvida diagnóstica.
- Reavalie a cultura em 48 a 72 horas para descalonar e confirmar que o esquema está adequado.
Bacteriúria assintomática: quando NÃO tratar
Este é provavelmente o maior gerador de prescrição desnecessária em toda a medicina interna. Bacteriúria sem sintomas atribuíveis ao trato urinário é colonização, e tratá-la não melhora desfecho — apenas seleciona resistência e expõe a efeitos adversos.
Tratar a bacteriúria assintomática
- Gestantes — rastrear e tratar, pelo risco de pielonefrite e de desfecho obstétrico adverso.
- Antes de procedimento urológico com previsão de lesão de mucosa, como ressecção transuretral.
- Situações pontuais definidas em protocolo, como certos transplantados nos primeiros meses.
Não tratar
- Idosos institucionalizados, com ou sem urina de aspecto alterado.
- Pacientes com sonda vesical de demora e sem sintomas.
- Diabéticos e portadores de bexiga neurogênica assintomáticos.
- Confusão mental isolada, sem outros sinais de infecção urinária.
- Antes de cirurgia não urológica, incluindo artroplastia e cirurgia cardíaca.
Quando pedir imagem
| Situação | Exame | O que procurar |
|---|---|---|
| Sepse ou choque de origem urinária | Ultrassom imediato; tomografia se disponível e o paciente permitir. | Hidronefrose, pionefrose e cálculo obstrutivo — situações que exigem drenagem de urgência. |
| Sem melhora após 48 a 72 horas | Tomografia com contraste, salvo contraindicação. | Abscesso renal ou perinéfrico, obstrução não suspeitada, pielonefrite enfisematosa. |
| História de cálculo, rim único ou transplante | Ultrassom precoce. | Obstrução, dilatação e perda de função. |
| Insuficiência renal aguda | Ultrassom. | Componente obstrutivo potencialmente reversível. |
| Diabético com quadro grave | Tomografia. | Pielonefrite enfisematosa — gás no parênquima renal, com alta letalidade. |
| Gestante | Ultrassom ou ressonância. | Evitar radiação; a dilatação fisiológica da gestação pode confundir. |
| ITU de repetição em homem | Ultrassom com avaliação de resíduo pós-miccional e encaminhamento urológico. | Obstrução prostática, retenção urinária e cálculo. |
Diagnósticos diferenciais
- Cólica renal — dor em cólica com irradiação para a virilha, hematúria e ausência de febre nas fases iniciais; pode coexistir com infecção.
- Prostatite bacteriana aguda — febre alta, dor perineal e próstata muito dolorosa ao toque; exige tratamento mais prolongado.
- Doença inflamatória pélvica e cervicite — corrimento, dor pélvica e dispareunia; investigar infecção sexualmente transmissível.
- Apendicite e diverticulite — podem cursar com piúria estéril por contiguidade.
- Uretrite — disúria com corrimento, geralmente por Chlamydia ou gonococo.
- Cistite não infecciosa — actínica, medicamentosa e síndrome da bexiga dolorosa, com urocultura negativa.
- Tuberculose urinária — piúria com cultura convencional negativa e curso arrastado.
- Herpes genital — disúria intensa com lesões vesiculares.
Os quatro passos da escolha empírica
A diretriz de 2025 substituiu a lista fixa de antimicrobianos por um processo em quatro etapas. A lógica é escolher o menor espectro que ainda seja confiavelmente eficaz para aquele paciente, naquele serviço.
Gravidade do quadro
Há sepse? Há choque? Quanto maior a gravidade, menor a tolerância a errar o espectro — e maior a exigência de cobertura no passo 4.
Risco de uropatógeno resistente
Cultura prévia com germe multirresistente, antimicrobiano nos últimos 90 dias, internação recente, dispositivo urinário, procedimento urológico e viagem para área de alta resistência. A cultura anterior é o dado mais preditivo.
Fatores específicos do paciente
Alergia, função renal e hepática, gestação e amamentação, risco de prolongamento do intervalo QT, interações, tendinopatia prévia e via de administração disponível.
Antibiograma local
Último filtro. Na sepse sem choque, escolha um agente com sensibilidade de pelo menos 80% para os patógenos relevantes. Na sepse com choque, o limiar sobe para 90%.
Calculadora — sugestão de esquema empírico
Informe a gravidade e marque os fatores de risco presentes. A sugestão segue os quatro passos, mas o antibiograma do seu serviço é sempre o filtro final.
Fatores de risco para resistência
O que usar e o que evitar
| Antimicrobiano | Papel na ITU complicada | Ressalvas |
|---|---|---|
| Ceftriaxona | Opção empírica clássica em quadro sem sepse e sem risco de resistência. | Não cobre enterococo, Pseudomonas nem produtores de betalactamase de espectro estendido. |
| Cefepima | Útil quando há risco de Pseudomonas, como sondados e pós-manipulação. | Também não cobre enterococo; neurotoxicidade em disfunção renal sem ajuste. |
| Piperacilina-tazobactam | Amplo espectro, cobre enterococo sensível e Pseudomonas. | Evidência inferior ao carbapenêmico em infecção grave por produtor de betalactamase de espectro estendido. |
| Fluoroquinolonas | Excelente penetração renal e prostática; permitem curso de 5 a 7 dias e uso oral. | Resistência local frequentemente alta; tendinopatia, aneurisma de aorta, prolongamento do QT e neuropatia. |
| Carbapenêmicos | Reservados para sepse, choque ou risco documentado de betalactamase de espectro estendido. | Ertapenem não cobre Pseudomonas nem enterococo; descalonar assim que a cultura permitir. |
| Aminoglicosídeos | Alternativa em alergia grave e em associação pontual; ótima concentração urinária. | Nefrotoxicidade e ototoxicidade; não recomendados como escolha empírica isolada de rotina. |
| Sulfametoxazol-trimetoprima | Boa opção oral de descalonamento quando o antibiograma confirma sensibilidade. | Resistência comunitária elevada; cuidado com hipercalemia, disfunção renal e interações. |
| Nitrofurantoína e fosfomicina | Boas para cistite — infecção restrita à bexiga. | Não usar em pielonefrite, abscesso ou prostatite: não atingem concentração tecidual adequada. |
Sequência de abordagem
- Classifique: a infecção ultrapassou a bexiga? Há sepse ou choque?
- COLHA UROCULTURA — e hemoculturas se houver febre ou sinais sistêmicos — ANTES DA PRIMEIRA DOSE.
- Em sepse, administre o antimicrobiano o mais rápido possível, junto com a reposição volêmica.
- Escolha o esquema empírico pelos quatro passos: gravidade, risco de resistência, fatores do paciente e antibiograma.
- Investigue obstrução com imagem quando houver sepse, cálculo conhecido, rim único ou insuficiência renal.
- OBSTRUÇÃO COM INFECÇÃO É EMERGÊNCIA: acione a urologia para drenagem, por cateter duplo J ou nefrostomia.
- Reavalie em 48 a 72 horas com o antibiograma: descalone para o menor espectro eficaz.
- Troque para via oral assim que houver melhora clínica, tolerância à via e opção oral eficaz.
- Encerre em 7 dias na maioria dos casos com boa evolução — ou 5 a 7 dias se estiver usando fluoroquinolona.
- Sem melhora em 48 a 72 horas: reveja o agente, a dose, a via e procure foco não controlado.
Calculadora — clearance e ajuste de dose
A maioria dos antimicrobianos usados na ITU tem eliminação renal e exige ajuste. Informe os dados para estimar o clearance de creatinina e ver as doses correspondentes.
Troca de via intravenosa para oral
A troca precoce reduz custo, tempo de internação e complicações relacionadas ao acesso venoso — sem perda de eficácia. Não existe tempo mínimo obrigatório de via intravenosa: o que vale são três condições simultâneas.
Afebril ou em clara tendência de melhora, com estabilidade hemodinâmica e redução dos sintomas.
Sem vômitos, sem íleo e com absorção previsível.
Agente com sensibilidade documentada no antibiograma e boa concentração no tecido renal.
Melhores opções orais
- Ciprofloxacino e levofloxacino — alta biodisponibilidade e excelente concentração renal e prostática.
- Sulfametoxazol-trimetoprima — boa alternativa quando o antibiograma confirma sensibilidade.
- Betalactâmicos orais, como cefuroxima e amoxicilina com clavulanato — evidência mais limitada; podem exigir curso um pouco mais longo.
Não servem para descalonar
- Nitrofurantoína — não atinge o parênquima renal.
- Fosfomicina em dose única — restrita à cistite.
- Qualquer agente sem sensibilidade comprovada no antibiograma.
- Via oral em paciente com vômitos, íleo ou instabilidade.
Duração do tratamento
| Situação | Duração | Observação |
|---|---|---|
| ITU complicada com boa evolução, em fluoroquinolona | 5 a 7 dias | Contados do primeiro dia de terapia eficaz. |
| ITU complicada com boa evolução, sem fluoroquinolona | 7 dias | Vale também para a maioria das pielonefrites. |
| ITU complicada com bacteremia por gram-negativo | 7 dias | Desde que haja melhora clínica e controle de foco. |
| Suspeita de prostatite aguda em homem com febre | 10 a 14 dias | Preferir agente com boa penetração prostática. |
| Abscesso renal ou perinéfrico | Individualizada | Prolongada, guiada por drenagem e resposta clínica. |
| Obstrução não resolvida ou foco não controlado | Individualizada | A contagem só faz sentido após o controle de foco. |
| Candidúria com doença comprovada | Individualizada | Depende da espécie, do sítio e da retirada do dispositivo. |
Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, ajuste renal e cuidados. Confira sempre o antibiograma, a função renal e o protocolo do seu serviço.
Antimicrobianos
As classes mais usadas, com posologia de ITU complicada, espectro real e as lacunas de cobertura que costumam explicar falha terapêutica.
Situações específicas
Cenários em que o esquema padrão não se aplica: multirresistência, gestação, dispositivo urinário e necessidade de drenagem.
Situações com manejo próprio
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Gestante | Bacteriúria assintomática deve ser rastreada e tratada; pielonefrite é causa importante de parto prematuro e de sepse. | Internar a pielonefrite, usar betalactâmico intravenoso, evitar quinolona e sulfa no terceiro trimestre, e programar urocultura de controle. |
| Sonda vesical de demora | Bacteriúria é praticamente universal após alguns dias; o desafio é distinguir colonização de infecção. | Tratar só com sintomas atribuíveis; trocar a sonda antes de colher a cultura e reavaliar diariamente a necessidade do dispositivo. |
| Obstrução urinária | Cálculo, tumor, estenose ou coágulo com infecção acima do ponto obstruído. | Drenagem urgente por cateter duplo J ou nefrostomia — o antibiótico isolado não resolve. |
| Pielonefrite enfisematosa | Gás no parênquima renal, quase sempre em diabético mal controlado, com alta letalidade. | Tomografia, suporte intensivo, controle glicêmico, drenagem percutânea; nefrectomia em casos selecionados. |
| Abscesso renal ou perinéfrico | Suspeitar diante de febre persistente após 72 horas de tratamento adequado. | Tomografia com contraste; drenagem percutânea quando a coleção é significativa, com antimicrobiano prolongado. |
| Prostatite bacteriana aguda | Febre alta, dor perineal e próstata muito dolorosa; a barreira prostática limita a penetração dos antimicrobianos. | Preferir fluoroquinolona ou sulfametoxazol-trimetoprima conforme antibiograma, por 10 a 14 dias; evitar massagem prostática. |
| Transplantado renal | Enxerto em posição pélvica, imunossupressão e interação com inibidores de calcineurina. | Limiar mais baixo para imagem e internação; atenção às interações e à necessidade de tratar bacteriúria nos primeiros meses conforme protocolo. |
| Bexiga neurogênica | Cateterismo intermitente, bacteriúria crônica e sintomas atípicos como espasticidade e disreflexia. | Tratar apenas episódios sintomáticos, evitar profilaxia contínua de rotina e otimizar o esvaziamento vesical. |
| Idoso frágil | Apresentação atípica e alto risco de tratamento desnecessário por bacteriúria assintomática. | Exigir sintomas atribuíveis ao trato urinário; ajustar doses à função renal e vigiar efeitos adversos. |
Urossepse
O trato urinário é uma das principais portas de entrada da sepse comunitária, sobretudo em idosos e em pacientes com obstrução. O manejo segue o pacote de sepse, com uma particularidade decisiva: o controle de foco é urológico.
- Reconhecimento precoce e monitorização, com lactato e culturas antes do antimicrobiano — sem atrasar a droga.
- Antimicrobiano de amplo espectro na primeira hora, com escolha guiada pelo risco de resistência.
- Reposição volêmica conforme protocolo institucional, com reavaliação frequente da resposta.
- Vasopressor quando persiste hipotensão após a reposição adequada.
- Imagem urgente para procurar obstrução e coleção — o ultrassom à beira do leito adianta muito.
- Drenagem imediata se houver pionefrose ou obstrução: nefrostomia ou cateter duplo J, conforme disponibilidade e anatomia.
- Descalonamento assim que o antibiograma permitir, mantendo a duração contada a partir do controle de foco.
ITU de repetição
Define-se por dois episódios em seis meses ou três em doze meses. Antes de qualquer profilaxia, é preciso confirmar que os episódios foram realmente infecções sintomáticas com cultura positiva — e não bacteriúria tratada repetidamente.
Resíduo pós-miccional, cálculo, refluxo, fístula, obstrução prostática e, em homens, sempre avaliação urológica.
Hidratação adequada, correção de constipação, revisão de espermicida e diafragma, e esvaziamento vesical regular.
Opção com benefício demonstrado em mulheres na pós-menopausa, com pouca absorção sistêmica.
Contínua ou pós-coital, reservada a casos selecionados e por tempo limitado, pesando o risco de resistência.
Prevenção da ITU associada a cateter
A infecção urinária relacionada à assistência é, em grande parte, evitável — e quase toda a prevenção se resume a uma frase: a melhor sonda é a que não foi passada, e a segunda melhor é a que já foi retirada.
- Indicação criteriosa — retenção urinária, monitorização precisa de diurese em paciente crítico, cirurgia selecionada e cuidados de fim de vida. Incontinência e conveniência da equipe não são indicações.
- Retirada precoce — reavalie diariamente a necessidade; protocolos de lembrete e de retirada automática reduzem infecção.
- Técnica asséptica na inserção e sistema de drenagem fechado.
- Bolsa sempre abaixo do nível da bexiga, sem dobras e sem contato com o chão.
- Não irrigar a sonda de rotina nem usar antimicrobiano tópico ou sistêmico como profilaxia.
- Não trocar a sonda em intervalos fixos arbitrários — troque por indicação clínica.
- Alternativas — cateterismo intermitente e dispositivo externo quando apropriado.
- Não colher urocultura de rotina em paciente sondado assintomático; a cultura positiva vai gerar tratamento desnecessário.
Uso racional de antimicrobianos
Sem cultura não há descalonamento possível, e o paciente carrega espectro largo por todo o tratamento.
Com o antibiograma na mão, reduza para o menor espectro eficaz — inclusive suspendendo o carbapenêmico.
7 dias na maioria. Cada dia adicional aumenta risco de efeito adverso, disbiose e resistência, sem ganho de cura.
Bacteriúria assintomática e candidúria em sondado são as duas maiores fontes de prescrição desnecessária.
Erros comuns
- Iniciar antibiótico antes de colher a urocultura.
- Tratar bacteriúria assintomática em idoso, sondado ou diabético.
- Diagnosticar ITU apenas por urina turva, com odor forte ou por piúria isolada.
- Atribuir confusão mental do idoso à ITU sem investigar outras causas.
- Usar nitrofurantoína ou fosfomicina em pielonefrite e em prostatite.
- Manter 10 a 14 dias de tratamento em paciente que melhorou bem.
- Continuar via intravenosa depois que o paciente já está tolerando a via oral.
- Não descalonar o carbapenêmico depois que a cultura mostra agente sensível a espectro estreito.
- Iniciar carbapenêmico empírico em quadro leve, sem sepse e sem fator de risco.
- Esquecer que ceftriaxona não cobre enterococo nem Pseudomonas.
- Não investigar obstrução em quem não melhora em 48 a 72 horas.
- Retardar a drenagem urológica na pionefrose, esperando resposta ao antibiótico.
- Colher urocultura da bolsa coletora ou de sonda antiga.
- Pedir urocultura de controle de rotina em paciente assintomático.
- Não avaliar a próstata e o resíduo pós-miccional no homem com ITU de repetição.
Resumo do fluxo
- Confirme que há sintomas atribuíveis ao trato urinário — bacteriúria sem sintomas não é infecção.
- Classifique: restrita à bexiga ou além dela? Há sepse ou choque?
- UROCULTURA ANTES DA PRIMEIRA DOSE, com hemoculturas se houver sinais sistêmicos.
- Escolha o esquema pelos quatro passos e administre rápido quando houver sepse.
- Investigue obstrução com imagem nas situações de risco e diante de má evolução.
- OBSTRUÇÃO INFECTADA EXIGE DRENAGEM — acione a urologia imediatamente.
- Reavalie em 48 a 72 horas: descalone com o antibiograma e troque para via oral.
- Encerre em 7 dias, ou 5 a 7 com fluoroquinolona, quando a evolução foi favorável.
- Sem melhora: reveja agente, dose, via, adesão e procure foco não controlado.
- Na alta: oriente sinais de retorno, trate a causa de base e evite urocultura de controle desnecessária.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço, o antibiograma local e as bulas vigentes.
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- Trautner BW, Cortés-Penfield NW, Gupta K, et al. IDSA 2025 guideline on complicated UTI — timing of intravenous to oral antibiotics transition. Clin Infect Dis. 2025.
- Trautner BW, Cortés-Penfield NW, Gupta K, et al. IDSA 2025 guideline on complicated UTI — duration of antibiotics. Clin Infect Dis. 2025.
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- Ministério da Saúde (Brasil) e Anvisa. Medidas de prevenção de infecção relacionada à assistência à saúde e diretrizes de uso racional de antimicrobianos, documentos vigentes.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, critérios e condutas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.
Informações rápidas
Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Classificar certo
A definição de 2025 é anatômica: não complicada é a infecção restrita à bexiga; complicada é a que ultrapassou a bexiga — febre, dor lombar, bacteremia ou dispositivo urinário. Pielonefrite entra como complicada. Sexo masculino, diabetes e imunossupressão, isoladamente, não classificam mais.
Colher urocultura
Sempre antes da primeira dose, com hemoculturas se houver sinais sistêmicos. Jato médio, sonda recém-trocada ou punção — nunca da bolsa coletora. Sem cultura não existe descalonamento.
Buscar obstrução
Imagem em sepse, cálculo conhecido, rim único, insuficiência renal ou ausência de melhora em 48 a 72 horas. Obstrução infectada é emergência e exige drenagem por cateter duplo J ou nefrostomia — antibiótico isolado não resolve.
Tratar curto
7 dias na maioria dos que melhoram, ou 5 a 7 dias com fluoroquinolona, contados do primeiro dia de terapia eficaz. Troque para via oral assim que houver melhora, tolerância e opção eficaz — inclusive na bacteremia por gram-negativo.
Números rápidos
Definição: complicada é a infecção além da bexiga, incluindo pielonefrite.
Duração: 7 dias na maioria; 5 a 7 dias com fluoroquinolona.
Antibiograma: alvo de 80% de sensibilidade na sepse e 90% no choque.
Reavaliação: 48 a 72 horas para descalonar e trocar para via oral.
Obstrução: infecção acima de obstrução exige drenagem urgente.
Não esqueça
Urocultura antes da primeira dose, sempre.
Bacteriúria assintomática não se trata, salvo gestante e pré-procedimento urológico.
Nitrofurantoína e fosfomicina não servem para pielonefrite nem prostatite.
Ceftriaxona não cobre enterococo nem Pseudomonas.
Sem melhora em 72 horas: procure obstrução ou abscesso.
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