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ITU Complicada

A definição mudou: complicada não é mais "homem, diabético ou sondado" — é infecção que ultrapassou a bexiga. E o tratamento encurtou: para quem melhora, 7 dias bastam na maioria dos casos. O que não mudou foi o essencial — urocultura antes do antibiótico, descalonamento assim que sai o resultado e controle de foco quando há obstrução.

Urocultura sempre 7 dias na maioria Troca precoce para via oral Desobstruir é prioridade
Tempo de leitura: 19 min
Atualizado em: 18/08/2026

Classificar certo

  • Não complicada é infecção restrita à bexiga
  • Complicada é infecção além da bexiga
  • Febre, dor lombar e bacteremia complicam
  • Sexo masculino, por si só, não complica mais

Colher urocultura

  • Sempre antes da primeira dose do antibiótico
  • Hemoculturas se houver sepse ou dúvida
  • Jato médio, sonda recém-trocada ou punção
  • Sem cultura não existe descalonamento

Buscar obstrução

  • Ultrassom precoce em quem não melhora
  • Cálculo, tumor e estenose são armadilhas
  • Pionefrose exige drenagem de urgência
  • Antibiótico não vence obstrução

Tratar curto

  • 7 dias na maioria dos que melhoram
  • 5 a 7 dias com fluoroquinolona
  • Troca para via oral assim que possível
  • Descalonar com o antibiograma na mão

A definição mudou em 2025

Por décadas, "ITU complicada" foi um rótulo baseado em quem era o paciente: homem, diabético, gestante, imunossuprimido, portador de alteração anatômica. A diretriz de 2025 da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas abandonou essa lógica e adotou um critério anatômico e clínico, muito mais simples de aplicar à beira do leito.

ITU não complicada

Infecção restrita à bexiga, com sintomas locais — disúria, urgência, polaciúria e dor suprapúbica — e sem sinais sistêmicos. Aplica-se agora tanto a mulheres quanto a homens.

ITU complicada

Infecção que ultrapassou a bexiga: febre, sinais sistêmicos, bacteremia, dor lombar, ou presença de sonda vesical, cateter duplo J, nefrostomia e cateterismo intermitente. Inclui a pielonefrite aguda.

Diabetes, imunossupressão, sexo masculino e alterações urológicas deixaram de classificar automaticamente a infecção como complicada. Continuam influenciando decisões — escolha do antimicrobiano, duração, necessidade de imagem —, mas não definem mais a categoria.

Calculadora — esta ITU é complicada?

Classificação de 2025 Resultado imediato

Marque o que está presente. Qualquer item indica que a infecção ultrapassou a bexiga e caracteriza ITU complicada. Os dois últimos itens sinalizam gravidade e mudam a escolha empírica.

Classificação
Sem critérios marcados
Quadro compatível com ITU não complicada, restrita à bexiga — tratamento curto e via oral costumam ser suficientes
Ferramenta de apoio. A classificação orienta a escolha empírica e a duração, mas não substitui o julgamento clínico. Gestantes, transplantados, neutropênicos e pacientes com obstrução seguem regras próprias, descritas na aba de cenários especiais.

Por que isso importa

A ITU é uma das infecções bacterianas mais frequentes e uma das principais causas de prescrição de antimicrobiano no mundo. É também um dos campos onde mais se prescreve por tempo excessivo e com espectro largo demais — com consequências diretas sobre resistência, disbiose e efeitos adversos.

Frequência

Cerca de metade das mulheres terá pelo menos um episódio ao longo da vida.

Homens

Risco cresce com a idade e passou a ser contemplado nas diretrizes atuais.

Duração

7 dias substituem os clássicos 10 a 14 na maioria dos pacientes que melhoram.

Resistência

Prevalência crescente de betalactamase de espectro estendido, inclusive na comunidade.

Urossepse

Causa importante de sepse comunitária, sobretudo em idosos e obstruídos.

As primeiras horas

Classificar e colher

Defina se a infecção ultrapassou a bexiga e se há sepse. Colha urina tipo I e urocultura antes do antibiótico; acrescente hemoculturas se houver sinais sistêmicos.

Tratar conforme a gravidade

Aplique os quatro passos de escolha empírica: gravidade, risco de resistência, fatores do paciente e antibiograma local. Em sepse, a primeira dose é prioridade absoluta.

Procurar o que precisa de foco

Ultrassom ou tomografia diante de sepse, cálculo conhecido, rim único, insuficiência renal ou ausência de melhora em 48 a 72 horas. Obstrução exige drenagem.

Reserve na cabeça três marcos: urocultura antes da primeira dose, reavaliação em 48 a 72 horas com o antibiograma para descalonar e trocar para via oral, e parada em 7 dias quando a evolução foi favorável.

Quem causa

Agente Contexto típico Observação prática
Escherichia coli Agente dominante em todos os cenários, comunitário e hospitalar. Responsável pela maioria dos casos; a resistência crescente a quinolonas e cefalosporinas é o principal problema.
Klebsiella pneumoniae Comunitário e, sobretudo, relacionado à assistência. Alta frequência de betalactamase de espectro estendido e de carbapenemase em ambiente hospitalar.
Proteus mirabilis Sondados, cálculos e infecção recorrente. Produz urease, alcaliniza a urina e forma cálculos de estruvita; resistente à nitrofurantoína.
Pseudomonas aeruginosa Manipulação urológica, sonda de longa permanência, internação prévia. Exige antimicrobiano com atividade antipseudomonas; não é coberta por ceftriaxona nem por ertapenem.
Enterococcus spp. Idosos, sondados, uso prévio de cefalosporina. Cefalosporinas não cobrem enterococo — lembrar quando o paciente piora em uso de ceftriaxona.
Staphylococcus saprophyticus Mulheres jovens, quadro geralmente restrito à bexiga. Raramente causa doença além da bexiga.
Staphylococcus aureus na urina Achado incomum e que deve levantar suspeita. Pode indicar disseminação hematogênica e abscesso renal — investigue bacteremia e endocardite.
Candida spp. Sondados, diabéticos, uso prolongado de antimicrobiano. Na maioria das vezes é colonização; tratar apenas com doença comprovada ou paciente de alto risco.
A regra prática mais útil sobre Candida na urina: candidúria assintomática em paciente sondado não se trata com antifúngico — troca-se ou retira-se a sonda e reavalia-se. Exceções incluem neutropênicos, neonatos e pacientes que serão submetidos a manipulação urológica.

Fatores de risco para uropatógeno resistente

Este é o passo que mais muda a escolha empírica. Reconhecer o paciente com risco elevado de betalactamase de espectro estendido evita tanto o subtratamento quanto o uso desnecessário de carbapenêmico.

  • Isolamento prévio de germe multirresistente — o dado mais preditivo de todos; procure culturas dos últimos 6 a 12 meses no prontuário.
  • Uso de antimicrobiano nos últimos 90 dias, especialmente cefalosporina e quinolona.
  • Internação recente ou residência em instituição de longa permanência.
  • Dispositivo urinário permanente — sonda, duplo J e nefrostomia.
  • Procedimento urológico recente, incluindo litotripsia e biópsia de próstata.
  • Viagem recente para região de alta prevalência de resistência.
  • Infecção urinária de repetição com múltiplos tratamentos prévios.
  • Hemodiálise e imunossupressão relevante.
Antes de escolher o esquema empírico, abra a cultura anterior do paciente. Um isolamento prévio de E. coli produtora de betalactamase de espectro estendido muda completamente a decisão — e é a informação mais frequentemente ignorada no plantão.

Mecanismos de resistência que importam

Betalactamase de espectro estendido

Hidrolisa penicilinas e cefalosporinas, inclusive ceftriaxona e cefepima. Carbapenêmico é o tratamento consolidado; na infecção limitada ao trato urinário há alternativas discutidas com a infectologia.

AmpC

Presente em Enterobacter, Citrobacter e Serratia. Pode ser induzida durante o tratamento com cefalosporina, gerando falha após melhora inicial.

Carbapenemase

Resistência a carbapenêmicos, com opções limitadas: novas associações de betalactâmico com inibidor, cefiderocol e, em casos selecionados, polimixina. Sempre com infectologia.

Resistência a quinolona

Prevalência alta em várias regiões do Brasil, o que limita o uso empírico. Como classe, permanece excelente quando o antibiograma confirma sensibilidade.

Antimicrobianos que atingem altas concentrações urinárias — como fosfomicina, nitrofurantoína e aminoglicosídeos — podem funcionar em infecção de bexiga mesmo com sensibilidade limítrofe. Isso não vale para pielonefrite, abscesso e prostatite, onde é preciso concentração tecidual adequada.

Quadro clínico

Sintomas de bexiga

  • Disúria, urgência e polaciúria.
  • Dor suprapúbica e urina turva ou com odor forte.
  • Hematúria macroscópica em parte dos casos.
  • Sem febre e sem sinais sistêmicos.

Sinais de acometimento além da bexiga

  • Febre, calafrios, náuseas e vômitos.
  • Dor lombar e sinal de Giordano positivo.
  • Taquicardia, hipotensão e confusão mental.
  • Dor perineal, retal ou próstata dolorosa ao toque.
No idoso, o quadro é frequentemente atípico: confusão, queda, prostração e descompensação de doença de base, muitas vezes sem febre e sem sintomas urinários. Mas atenção — delirium isolado com urina alterada não autoriza diagnóstico automático de ITU; é preciso afastar outras causas.

Exames de urina

  1. Colha urina tipo I e urocultura com antibiograma em todo caso de ITU complicada.
  2. A UROCULTURA VEM ANTES DA PRIMEIRA DOSE. Sem ela, não há como descalonar nem como interpretar uma eventual falha terapêutica.
  3. Prefira o jato médio após higiene; em paciente sondado, colhe-se pelo dispositivo recém-trocado, nunca da bolsa coletora.
  4. Piúria apoia o diagnóstico, mas é inespecífica: aparece também em nefrolitíase, tumor, tuberculose urinária e uretrite.
  5. Nitrito positivo é bastante específico de enterobactéria, porém pouco sensível — negativo não afasta nada.
  6. Ausência de piúria em paciente imunocompetente torna o diagnóstico de ITU improvável; reveja a hipótese.
  7. Colha hemoculturas quando houver febre, sepse, imunossupressão ou dúvida diagnóstica.
  8. Reavalie a cultura em 48 a 72 horas para descalonar e confirmar que o esquema está adequado.

Bacteriúria assintomática: quando NÃO tratar

Este é provavelmente o maior gerador de prescrição desnecessária em toda a medicina interna. Bacteriúria sem sintomas atribuíveis ao trato urinário é colonização, e tratá-la não melhora desfecho — apenas seleciona resistência e expõe a efeitos adversos.

Tratar a bacteriúria assintomática

  • Gestantes — rastrear e tratar, pelo risco de pielonefrite e de desfecho obstétrico adverso.
  • Antes de procedimento urológico com previsão de lesão de mucosa, como ressecção transuretral.
  • Situações pontuais definidas em protocolo, como certos transplantados nos primeiros meses.

Não tratar

  • Idosos institucionalizados, com ou sem urina de aspecto alterado.
  • Pacientes com sonda vesical de demora e sem sintomas.
  • Diabéticos e portadores de bexiga neurogênica assintomáticos.
  • Confusão mental isolada, sem outros sinais de infecção urinária.
  • Antes de cirurgia não urológica, incluindo artroplastia e cirurgia cardíaca.
"Urina fedendo" e "urina turva" não são indicações de antibiótico. Também não são: piúria isolada, urocultura positiva sem sintomas e sondado com urina alterada. Nesses casos, procure outra explicação para o quadro do paciente.

Quando pedir imagem

Situação Exame O que procurar
Sepse ou choque de origem urinária Ultrassom imediato; tomografia se disponível e o paciente permitir. Hidronefrose, pionefrose e cálculo obstrutivo — situações que exigem drenagem de urgência.
Sem melhora após 48 a 72 horas Tomografia com contraste, salvo contraindicação. Abscesso renal ou perinéfrico, obstrução não suspeitada, pielonefrite enfisematosa.
História de cálculo, rim único ou transplante Ultrassom precoce. Obstrução, dilatação e perda de função.
Insuficiência renal aguda Ultrassom. Componente obstrutivo potencialmente reversível.
Diabético com quadro grave Tomografia. Pielonefrite enfisematosa — gás no parênquima renal, com alta letalidade.
Gestante Ultrassom ou ressonância. Evitar radiação; a dilatação fisiológica da gestação pode confundir.
ITU de repetição em homem Ultrassom com avaliação de resíduo pós-miccional e encaminhamento urológico. Obstrução prostática, retenção urinária e cálculo.
Nem toda pielonefrite precisa de imagem. Em paciente jovem, sem comorbidade urológica e com boa resposta em 48 horas, o exame de imagem não muda a conduta — a indicação nasce da gravidade ou da má evolução.

Diagnósticos diferenciais

  • Cólica renal — dor em cólica com irradiação para a virilha, hematúria e ausência de febre nas fases iniciais; pode coexistir com infecção.
  • Prostatite bacteriana aguda — febre alta, dor perineal e próstata muito dolorosa ao toque; exige tratamento mais prolongado.
  • Doença inflamatória pélvica e cervicite — corrimento, dor pélvica e dispareunia; investigar infecção sexualmente transmissível.
  • Apendicite e diverticulite — podem cursar com piúria estéril por contiguidade.
  • Uretrite — disúria com corrimento, geralmente por Chlamydia ou gonococo.
  • Cistite não infecciosa — actínica, medicamentosa e síndrome da bexiga dolorosa, com urocultura negativa.
  • Tuberculose urinária — piúria com cultura convencional negativa e curso arrastado.
  • Herpes genital — disúria intensa com lesões vesiculares.

Os quatro passos da escolha empírica

A diretriz de 2025 substituiu a lista fixa de antimicrobianos por um processo em quatro etapas. A lógica é escolher o menor espectro que ainda seja confiavelmente eficaz para aquele paciente, naquele serviço.

1

Gravidade do quadro

Há sepse? Há choque? Quanto maior a gravidade, menor a tolerância a errar o espectro — e maior a exigência de cobertura no passo 4.

2

Risco de uropatógeno resistente

Cultura prévia com germe multirresistente, antimicrobiano nos últimos 90 dias, internação recente, dispositivo urinário, procedimento urológico e viagem para área de alta resistência. A cultura anterior é o dado mais preditivo.

3

Fatores específicos do paciente

Alergia, função renal e hepática, gestação e amamentação, risco de prolongamento do intervalo QT, interações, tendinopatia prévia e via de administração disponível.

4

Antibiograma local

Último filtro. Na sepse sem choque, escolha um agente com sensibilidade de pelo menos 80% para os patógenos relevantes. Na sepse com choque, o limiar sobe para 90%.

Nos quadros sem sepse, a orientação é explícita: prefira cefalosporina de terceira ou quarta geração, piperacilina-tazobactam ou fluoroquinolona, em vez de carbapenêmicos, agentes novos e aminoglicosídeos. Guardar o carbapenêmico é parte do tratamento.

Calculadora — sugestão de esquema empírico

Gravidade + risco Perfil de resistência

Informe a gravidade e marque os fatores de risco presentes. A sugestão segue os quatro passos, mas o antibiograma do seu serviço é sempre o filtro final.

Fatores de risco para resistência

Perfil do caso
Sem sepse, sem fator de risco para resistência
Prefira o menor espectro eficaz e reserve o carbapenêmico
Ferramenta de apoio à decisão. As sugestões pressupõem função renal preservada e ausência de alergia — o passo 3 é seu. Sempre confira o antibiograma institucional e a cultura prévia do próprio paciente antes de prescrever.

O que usar e o que evitar

Antimicrobiano Papel na ITU complicada Ressalvas
Ceftriaxona Opção empírica clássica em quadro sem sepse e sem risco de resistência. Não cobre enterococo, Pseudomonas nem produtores de betalactamase de espectro estendido.
Cefepima Útil quando há risco de Pseudomonas, como sondados e pós-manipulação. Também não cobre enterococo; neurotoxicidade em disfunção renal sem ajuste.
Piperacilina-tazobactam Amplo espectro, cobre enterococo sensível e Pseudomonas. Evidência inferior ao carbapenêmico em infecção grave por produtor de betalactamase de espectro estendido.
Fluoroquinolonas Excelente penetração renal e prostática; permitem curso de 5 a 7 dias e uso oral. Resistência local frequentemente alta; tendinopatia, aneurisma de aorta, prolongamento do QT e neuropatia.
Carbapenêmicos Reservados para sepse, choque ou risco documentado de betalactamase de espectro estendido. Ertapenem não cobre Pseudomonas nem enterococo; descalonar assim que a cultura permitir.
Aminoglicosídeos Alternativa em alergia grave e em associação pontual; ótima concentração urinária. Nefrotoxicidade e ototoxicidade; não recomendados como escolha empírica isolada de rotina.
Sulfametoxazol-trimetoprima Boa opção oral de descalonamento quando o antibiograma confirma sensibilidade. Resistência comunitária elevada; cuidado com hipercalemia, disfunção renal e interações.
Nitrofurantoína e fosfomicina Boas para cistite — infecção restrita à bexiga. Não usar em pielonefrite, abscesso ou prostatite: não atingem concentração tecidual adequada.
Erro clássico e frequente: tratar pielonefrite com nitrofurantoína ou fosfomicina. Esses agentes concentram-se na urina, mas não no parênquima renal nem na próstata — a falha terapêutica é previsível.

Sequência de abordagem

  1. Classifique: a infecção ultrapassou a bexiga? Há sepse ou choque?
  2. COLHA UROCULTURA — e hemoculturas se houver febre ou sinais sistêmicos — ANTES DA PRIMEIRA DOSE.
  3. Em sepse, administre o antimicrobiano o mais rápido possível, junto com a reposição volêmica.
  4. Escolha o esquema empírico pelos quatro passos: gravidade, risco de resistência, fatores do paciente e antibiograma.
  5. Investigue obstrução com imagem quando houver sepse, cálculo conhecido, rim único ou insuficiência renal.
  6. OBSTRUÇÃO COM INFECÇÃO É EMERGÊNCIA: acione a urologia para drenagem, por cateter duplo J ou nefrostomia.
  7. Reavalie em 48 a 72 horas com o antibiograma: descalone para o menor espectro eficaz.
  8. Troque para via oral assim que houver melhora clínica, tolerância à via e opção oral eficaz.
  9. Encerre em 7 dias na maioria dos casos com boa evolução — ou 5 a 7 dias se estiver usando fluoroquinolona.
  10. Sem melhora em 48 a 72 horas: reveja o agente, a dose, a via e procure foco não controlado.

Calculadora — clearance e ajuste de dose

Cockcroft-Gault Ajuste por faixa

A maioria dos antimicrobianos usados na ITU tem eliminação renal e exige ajuste. Informe os dados para estimar o clearance de creatinina e ver as doses correspondentes.

Clearance estimado
Unidade
mL/min
Faixa de ajuste
Ferramenta de apoio. A fórmula de Cockcroft-Gault superestima o clearance em obesos e o subestima em pacientes com massa muscular reduzida; na lesão renal aguda, a creatinina não reflete a função em tempo real. Confira as doses na bula e no protocolo institucional, e prefira dose plena inicial na sepse, ajustando apenas as doses subsequentes.

Troca de via intravenosa para oral

A troca precoce reduz custo, tempo de internação e complicações relacionadas ao acesso venoso — sem perda de eficácia. Não existe tempo mínimo obrigatório de via intravenosa: o que vale são três condições simultâneas.

Melhora clínica

Afebril ou em clara tendência de melhora, com estabilidade hemodinâmica e redução dos sintomas.

Tolerância à via oral

Sem vômitos, sem íleo e com absorção previsível.

Opção oral eficaz disponível

Agente com sensibilidade documentada no antibiograma e boa concentração no tecido renal.

Melhores opções orais

  • Ciprofloxacino e levofloxacino — alta biodisponibilidade e excelente concentração renal e prostática.
  • Sulfametoxazol-trimetoprima — boa alternativa quando o antibiograma confirma sensibilidade.
  • Betalactâmicos orais, como cefuroxima e amoxicilina com clavulanato — evidência mais limitada; podem exigir curso um pouco mais longo.

Não servem para descalonar

  • Nitrofurantoína — não atinge o parênquima renal.
  • Fosfomicina em dose única — restrita à cistite.
  • Qualquer agente sem sensibilidade comprovada no antibiograma.
  • Via oral em paciente com vômitos, íleo ou instabilidade.
A troca para via oral é recomendada mesmo em pacientes com bacteremia por gram-negativo de foco urinário, desde que estejam melhorando e exista opção oral eficaz. Bacteremia, por si só, não obriga tratamento intravenoso completo.

Duração do tratamento

Situação Duração Observação
ITU complicada com boa evolução, em fluoroquinolona5 a 7 diasContados do primeiro dia de terapia eficaz.
ITU complicada com boa evolução, sem fluoroquinolona7 diasVale também para a maioria das pielonefrites.
ITU complicada com bacteremia por gram-negativo7 diasDesde que haja melhora clínica e controle de foco.
Suspeita de prostatite aguda em homem com febre10 a 14 diasPreferir agente com boa penetração prostática.
Abscesso renal ou perinéfricoIndividualizadaProlongada, guiada por drenagem e resposta clínica.
Obstrução não resolvida ou foco não controladoIndividualizadaA contagem só faz sentido após o controle de foco.
Candidúria com doença comprovadaIndividualizadaDepende da espécie, do sítio e da retirada do dispositivo.
Os estudos que sustentam os cursos curtos excluíram pacientes com sonda de demora, sepse grave, imunossupressão importante, abscesso, doença renal crônica avançada, obstrução completa e procedimento urológico recente. Nessas situações, a duração continua sendo individualizada.
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, ajuste renal e cuidados. Confira sempre o antibiograma, a função renal e o protocolo do seu serviço.

Antimicrobianos

As classes mais usadas, com posologia de ITU complicada, espectro real e as lacunas de cobertura que costumam explicar falha terapêutica.

Situações específicas

Cenários em que o esquema padrão não se aplica: multirresistência, gestação, dispositivo urinário e necessidade de drenagem.

Situações com manejo próprio

Cenário Particularidade O que fazer diferente
Gestante Bacteriúria assintomática deve ser rastreada e tratada; pielonefrite é causa importante de parto prematuro e de sepse. Internar a pielonefrite, usar betalactâmico intravenoso, evitar quinolona e sulfa no terceiro trimestre, e programar urocultura de controle.
Sonda vesical de demora Bacteriúria é praticamente universal após alguns dias; o desafio é distinguir colonização de infecção. Tratar só com sintomas atribuíveis; trocar a sonda antes de colher a cultura e reavaliar diariamente a necessidade do dispositivo.
Obstrução urinária Cálculo, tumor, estenose ou coágulo com infecção acima do ponto obstruído. Drenagem urgente por cateter duplo J ou nefrostomia — o antibiótico isolado não resolve.
Pielonefrite enfisematosa Gás no parênquima renal, quase sempre em diabético mal controlado, com alta letalidade. Tomografia, suporte intensivo, controle glicêmico, drenagem percutânea; nefrectomia em casos selecionados.
Abscesso renal ou perinéfrico Suspeitar diante de febre persistente após 72 horas de tratamento adequado. Tomografia com contraste; drenagem percutânea quando a coleção é significativa, com antimicrobiano prolongado.
Prostatite bacteriana aguda Febre alta, dor perineal e próstata muito dolorosa; a barreira prostática limita a penetração dos antimicrobianos. Preferir fluoroquinolona ou sulfametoxazol-trimetoprima conforme antibiograma, por 10 a 14 dias; evitar massagem prostática.
Transplantado renal Enxerto em posição pélvica, imunossupressão e interação com inibidores de calcineurina. Limiar mais baixo para imagem e internação; atenção às interações e à necessidade de tratar bacteriúria nos primeiros meses conforme protocolo.
Bexiga neurogênica Cateterismo intermitente, bacteriúria crônica e sintomas atípicos como espasticidade e disreflexia. Tratar apenas episódios sintomáticos, evitar profilaxia contínua de rotina e otimizar o esvaziamento vesical.
Idoso frágil Apresentação atípica e alto risco de tratamento desnecessário por bacteriúria assintomática. Exigir sintomas atribuíveis ao trato urinário; ajustar doses à função renal e vigiar efeitos adversos.

Urossepse

O trato urinário é uma das principais portas de entrada da sepse comunitária, sobretudo em idosos e em pacientes com obstrução. O manejo segue o pacote de sepse, com uma particularidade decisiva: o controle de foco é urológico.

  • Reconhecimento precoce e monitorização, com lactato e culturas antes do antimicrobiano — sem atrasar a droga.
  • Antimicrobiano de amplo espectro na primeira hora, com escolha guiada pelo risco de resistência.
  • Reposição volêmica conforme protocolo institucional, com reavaliação frequente da resposta.
  • Vasopressor quando persiste hipotensão após a reposição adequada.
  • Imagem urgente para procurar obstrução e coleção — o ultrassom à beira do leito adianta muito.
  • Drenagem imediata se houver pionefrose ou obstrução: nefrostomia ou cateter duplo J, conforme disponibilidade e anatomia.
  • Descalonamento assim que o antibiograma permitir, mantendo a duração contada a partir do controle de foco.
Pionefrose é emergência urológica: pus sob pressão em sistema obstruído. Antibiótico sem drenagem não esteriliza a coleção, e o paciente evolui para choque refratário. Acione a urologia antes de esperar a resposta ao antimicrobiano.

ITU de repetição

Define-se por dois episódios em seis meses ou três em doze meses. Antes de qualquer profilaxia, é preciso confirmar que os episódios foram realmente infecções sintomáticas com cultura positiva — e não bacteriúria tratada repetidamente.

Investigar

Resíduo pós-miccional, cálculo, refluxo, fístula, obstrução prostática e, em homens, sempre avaliação urológica.

Medidas não antimicrobianas

Hidratação adequada, correção de constipação, revisão de espermicida e diafragma, e esvaziamento vesical regular.

Estrogênio tópico

Opção com benefício demonstrado em mulheres na pós-menopausa, com pouca absorção sistêmica.

Profilaxia antimicrobiana

Contínua ou pós-coital, reservada a casos selecionados e por tempo limitado, pesando o risco de resistência.

Recorrência precoce com o mesmo agente sugere foco não erradicado — cálculo infectado, abscesso, prostatite crônica ou corpo estranho. Recorrência tardia com agentes diferentes sugere reinfecção, e a abordagem é preventiva.

Prevenção da ITU associada a cateter

A infecção urinária relacionada à assistência é, em grande parte, evitável — e quase toda a prevenção se resume a uma frase: a melhor sonda é a que não foi passada, e a segunda melhor é a que já foi retirada.

  • Indicação criteriosa — retenção urinária, monitorização precisa de diurese em paciente crítico, cirurgia selecionada e cuidados de fim de vida. Incontinência e conveniência da equipe não são indicações.
  • Retirada precoce — reavalie diariamente a necessidade; protocolos de lembrete e de retirada automática reduzem infecção.
  • Técnica asséptica na inserção e sistema de drenagem fechado.
  • Bolsa sempre abaixo do nível da bexiga, sem dobras e sem contato com o chão.
  • Não irrigar a sonda de rotina nem usar antimicrobiano tópico ou sistêmico como profilaxia.
  • Não trocar a sonda em intervalos fixos arbitrários — troque por indicação clínica.
  • Alternativas — cateterismo intermitente e dispositivo externo quando apropriado.
  • Não colher urocultura de rotina em paciente sondado assintomático; a cultura positiva vai gerar tratamento desnecessário.

Uso racional de antimicrobianos

Cultura antes da dose

Sem cultura não há descalonamento possível, e o paciente carrega espectro largo por todo o tratamento.

Descalonar em 48 a 72 horas

Com o antibiograma na mão, reduza para o menor espectro eficaz — inclusive suspendendo o carbapenêmico.

Parar no prazo

7 dias na maioria. Cada dia adicional aumenta risco de efeito adverso, disbiose e resistência, sem ganho de cura.

Não tratar colonização

Bacteriúria assintomática e candidúria em sondado são as duas maiores fontes de prescrição desnecessária.

Não há indicação de urocultura de controle após o tratamento em paciente que evoluiu bem e ficou assintomático. As exceções principais são a gestante e situações específicas definidas em protocolo.

Erros comuns

  • Iniciar antibiótico antes de colher a urocultura.
  • Tratar bacteriúria assintomática em idoso, sondado ou diabético.
  • Diagnosticar ITU apenas por urina turva, com odor forte ou por piúria isolada.
  • Atribuir confusão mental do idoso à ITU sem investigar outras causas.
  • Usar nitrofurantoína ou fosfomicina em pielonefrite e em prostatite.
  • Manter 10 a 14 dias de tratamento em paciente que melhorou bem.
  • Continuar via intravenosa depois que o paciente já está tolerando a via oral.
  • Não descalonar o carbapenêmico depois que a cultura mostra agente sensível a espectro estreito.
  • Iniciar carbapenêmico empírico em quadro leve, sem sepse e sem fator de risco.
  • Esquecer que ceftriaxona não cobre enterococo nem Pseudomonas.
  • Não investigar obstrução em quem não melhora em 48 a 72 horas.
  • Retardar a drenagem urológica na pionefrose, esperando resposta ao antibiótico.
  • Colher urocultura da bolsa coletora ou de sonda antiga.
  • Pedir urocultura de controle de rotina em paciente assintomático.
  • Não avaliar a próstata e o resíduo pós-miccional no homem com ITU de repetição.

Resumo do fluxo

  1. Confirme que há sintomas atribuíveis ao trato urinário — bacteriúria sem sintomas não é infecção.
  2. Classifique: restrita à bexiga ou além dela? Há sepse ou choque?
  3. UROCULTURA ANTES DA PRIMEIRA DOSE, com hemoculturas se houver sinais sistêmicos.
  4. Escolha o esquema pelos quatro passos e administre rápido quando houver sepse.
  5. Investigue obstrução com imagem nas situações de risco e diante de má evolução.
  6. OBSTRUÇÃO INFECTADA EXIGE DRENAGEM — acione a urologia imediatamente.
  7. Reavalie em 48 a 72 horas: descalone com o antibiograma e troque para via oral.
  8. Encerre em 7 dias, ou 5 a 7 com fluoroquinolona, quando a evolução foi favorável.
  9. Sem melhora: reveja agente, dose, via, adesão e procure foco não controlado.
  10. Na alta: oriente sinais de retorno, trate a causa de base e evite urocultura de controle desnecessária.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço, o antibiograma local e as bulas vigentes.

  1. Trautner BW, Cortés-Penfield NW, Gupta K, et al. Clinical practice guideline by IDSA: 2025 guideline on management and treatment of complicated urinary tract infections — selection of antibiotic therapy. Clin Infect Dis. 2025.
  2. Trautner BW, Cortés-Penfield NW, Gupta K, et al. IDSA 2025 guideline on complicated UTI — timing of intravenous to oral antibiotics transition. Clin Infect Dis. 2025.
  3. Trautner BW, Cortés-Penfield NW, Gupta K, et al. IDSA 2025 guideline on complicated UTI — duration of antibiotics. Clin Infect Dis. 2025.
  4. European Association of Urology. EAU Guidelines on Urological Infections, edições de 2025 e 2026.
  5. Nicolle LE, Gupta K, Bradley SF, et al. Clinical practice guideline for the management of asymptomatic bacteriuria: 2019 update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2019;68(10):e83-e110.
  6. Hooton TM, Bradley SF, Cardenas DD, et al. Diagnosis, prevention, and treatment of catheter-associated urinary tract infection in adults: 2009 international clinical practice guidelines from the IDSA. Clin Infect Dis. 2010;50(5):625-663.
  7. Gupta K, Hooton TM, Naber KG, et al. International clinical practice guidelines for the treatment of acute uncomplicated cystitis and pyelonephritis in women. Clin Infect Dis. 2011;52(5):e103-e120.
  8. Tamma PD, Heil EL, Justo JA, et al. IDSA guidance on the treatment of antimicrobial-resistant gram-negative infections, versão vigente.
  9. Sandberg T, Skoog G, Hermansson AB, et al. Ciprofloxacin for 7 days versus 14 days in women with acute pyelonephritis. Lancet. 2012;380(9840):484-490.
  10. Eliakim-Raz N, Yahav D, Paul M, Leibovici L. Duration of antibiotic treatment for acute pyelonephritis and septic urinary tract infection. J Antimicrob Chemother. 2013;68(10):2183-2191.
  11. Evans L, Rhodes A, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign: international guidelines for management of sepsis and septic shock 2021. Crit Care Med. 2021;49(11):e1063-e1143.
  12. Ministério da Saúde (Brasil) e Anvisa. Medidas de prevenção de infecção relacionada à assistência à saúde e diretrizes de uso racional de antimicrobianos, documentos vigentes.

Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, critérios e condutas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.

Informações rápidas

Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.

O essencial

Classificar certo

A definição de 2025 é anatômica: não complicada é a infecção restrita à bexiga; complicada é a que ultrapassou a bexiga — febre, dor lombar, bacteremia ou dispositivo urinário. Pielonefrite entra como complicada. Sexo masculino, diabetes e imunossupressão, isoladamente, não classificam mais.

Colher urocultura

Sempre antes da primeira dose, com hemoculturas se houver sinais sistêmicos. Jato médio, sonda recém-trocada ou punção — nunca da bolsa coletora. Sem cultura não existe descalonamento.

Buscar obstrução

Imagem em sepse, cálculo conhecido, rim único, insuficiência renal ou ausência de melhora em 48 a 72 horas. Obstrução infectada é emergência e exige drenagem por cateter duplo J ou nefrostomia — antibiótico isolado não resolve.

Tratar curto

7 dias na maioria dos que melhoram, ou 5 a 7 dias com fluoroquinolona, contados do primeiro dia de terapia eficaz. Troque para via oral assim que houver melhora, tolerância e opção eficaz — inclusive na bacteremia por gram-negativo.

Números rápidos

Definição: complicada é a infecção além da bexiga, incluindo pielonefrite.

Duração: 7 dias na maioria; 5 a 7 dias com fluoroquinolona.

Antibiograma: alvo de 80% de sensibilidade na sepse e 90% no choque.

Reavaliação: 48 a 72 horas para descalonar e trocar para via oral.

Obstrução: infecção acima de obstrução exige drenagem urgente.

Não esqueça

Urocultura antes da primeira dose, sempre.

Bacteriúria assintomática não se trata, salvo gestante e pré-procedimento urológico.

Nitrofurantoína e fosfomicina não servem para pielonefrite nem prostatite.

Ceftriaxona não cobre enterococo nem Pseudomonas.

Sem melhora em 72 horas: procure obstrução ou abscesso.

Em provas / residência

A banca cobra a nova definição de 2025, a proibição de tratar bacteriúria assintomática e o erro de usar nitrofurantoína em pielonefrite.

Decore: complicada é além da bexiga; 7 dias na maioria; gestante é a exceção que trata bacteriúria assintomática; obstrução infectada exige drenagem.

Mais informações nas abas do artigo.

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