Endocardite Infecciosa
O diagnóstico depende de duas coisas simples e frequentemente mal feitas: hemoculturas colhidas corretamente antes do antibiótico e um ecocardiograma pedido no momento certo. O prognóstico, por sua vez, depende de reconhecer cedo quem precisa de cirurgia — porque o antibiótico sozinho não resolve insuficiência cardíaca, abscesso nem infecção não controlada.
Suspeitar
- Febre sem foco com sopro novo ou prótese valvar
- Bacteremia por S. aureus é endocardite até prova contrária
- Fenômenos embólicos e vasculares periféricos
- Usuário de droga injetável e portador de dispositivo
Colher direito
- Três pares de hemocultura antes do antibiótico
- Punções distintas, sem esperar pico febril
- Volume adequado por frasco é o que mais rende
- Hemocultura negativa exige investigação dirigida
Imagem certa
- Ecocardiograma transtorácico como primeiro exame
- Transesofágico quase sempre necessário
- PET-CT e angiotomografia em prótese e dúvida
- Repetir o eco diante de piora ou nova complicação
Decidir cirurgia
- Insuficiência cardíaca é a principal indicação
- Infecção não controlada e abscesso perianular
- Prevenção de embolia em vegetação grande
- Discussão em time multidisciplinar desde o início
O que é e por que ainda mata
Endocardite infecciosa é a infecção do endocárdio — quase sempre valvar, mas também de próteses, cordoalhas, defeitos congênitos e eletrodos de dispositivos cardíacos. A lesão característica é a vegetação: um agregado de plaquetas, fibrina e microrganismos que cresce sobre endotélio lesado e libera êmbolos sépticos à distância.
Apesar de todo o avanço em imagem e antimicrobianos, a mortalidade hospitalar permanece alta, na faixa de 15 a 30% conforme a série e o perfil do paciente. As razões são recorrentes e evitáveis: atraso diagnóstico em febre sem foco, hemoculturas colhidas depois do antibiótico e indicação cirúrgica reconhecida tarde demais.
Como se organiza
- Válvula nativa esquerda — mitral e aórtica; forma mais comum e com maior risco de embolia cerebral.
- Válvula protética — precoce, até 12 meses da cirurgia, com predomínio de estafilococos; e tardia, com perfil mais parecido ao da nativa.
- Endocardite direita — tricúspide, típica de usuário de droga injetável e de cateteres; cursa com êmbolos pulmonares e melhor prognóstico.
- Relacionada a dispositivo — marca-passo e desfibrilador; exige extração do sistema além do antimicrobiano.
- Relacionada à assistência — cateteres, hemodiálise e procedimentos, com agentes hospitalares e maior letalidade.
As três perguntas que estruturam o caso
- Qual é o agente? Define o esquema, a duração e boa parte do prognóstico. Sem hemocultura, o caso fica cego.
- Qual é o dano anatômico? Vegetação, regurgitação, abscesso, fístula e deiscência. É o que responde se há indicação cirúrgica.
- Onde já embolizou? Cérebro, baço, rins, pulmão e coluna. Muda a conduta e o momento da cirurgia.
Casos complicados devem ser conduzidos por equipe multidisciplinar — infectologia, cardiologia, cirurgia cardíaca, imagem e, quando necessário, neurologia. A discussão precoce e conjunta é uma das poucas medidas com impacto demonstrado sobre mortalidade.
Números que orientam a conduta
Três pares antes do antibiótico rendem a grande maioria dos diagnósticos microbiológicos.
Transtorácico primeiro; transesofágico é necessário na maioria dos casos e obrigatório na prótese.
Cerca de metade dos pacientes tem indicação cirúrgica ao longo da internação.
O risco é maior nas duas primeiras semanas e cai rapidamente com antibiótico eficaz.
De 15 a 30% na internação, sendo maior em prótese, S. aureus e insuficiência cardíaca.
As primeiras 24 horas
Três pares de hemocultura em punções distintas. No paciente estável, vale esperar as culturas antes do antibiótico; no paciente séptico ou com complicação, colha rápido e trate em seguida.
Ecocardiograma transtorácico no mesmo dia da suspeita; transesofágico assim que possível, sobretudo em prótese, dispositivo e transtorácico não conclusivo.
Procure insuficiência cardíaca, novo bloqueio de condução ao eletrocardiograma e sinais de embolia sistêmica. São esses achados que definem urgência cirúrgica.
Agentes por cenário
| Cenário | Agentes mais frequentes | Implicação prática |
|---|---|---|
| Válvula nativa comunitária | Staphylococcus aureus, estreptococos do grupo viridans, Enterococcus faecalis, Streptococcus gallolyticus. | Esquema empírico com cobertura de estafilococo, estreptococo e enterococo. |
| Prótese precoce (até 12 meses) | Estafilococos coagulase-negativos, S. aureus, bacilos gram-negativos, fungos. | Cobertura ampliada com vancomicina, gentamicina e rifampicina; alto risco de abscesso. |
| Prótese tardia (após 12 meses) | Perfil semelhante ao da válvula nativa, com participação relevante de estafilococos. | Investigar porta de entrada dentária, cutânea e digestiva. |
| Usuário de droga injetável | S. aureus predominante, além de gram-negativos, Pseudomonas, polimicrobiana e Candida. | Predomínio tricúspide; procurar embolia pulmonar séptica e testar HIV e hepatites. |
| Dispositivo cardíaco | Estafilococos, sobretudo coagulase-negativos e S. aureus. | A extração completa do sistema costuma ser indispensável. |
| Relacionada à assistência | S. aureus incluindo resistente à oxacilina, enterococo, gram-negativos e Candida. | Procurar cateter, acesso de hemodiálise e procedimento recente como porta de entrada. |
| Hemocultura negativa | Coxiella burnetii, Bartonella, Brucella, Tropheryma whipplei, fungos e agentes fastidiosos. | Sorologias dirigidas, biologia molecular e discussão com a microbiologia. |
Condições predisponentes
Alto risco
- Endocardite infecciosa prévia.
- Prótese valvar cirúrgica ou transcateter, e reparo valvar com material protético.
- Cardiopatia congênita cianótica não corrigida, ou corrigida com material protético.
- Dispositivo de assistência ventricular.
Risco intermediário
- Valvopatia reumática, degenerativa ou bicúspide aórtica.
- Cardiopatia congênita não cianótica, exceto comunicação interatrial isolada.
- Cardiomiopatia hipertrófica.
- Marca-passo, desfibrilador e cateter de longa permanência.
- Uso de droga injetável e hemodiálise.
Portas de entrada a procurar
- Cavidade oral — cáries, doença periodontal e procedimentos dentários; avaliação odontológica faz parte da investigação.
- Pele — feridas, dermatite, uso de droga injetável e infecção de sítio de punção.
- Cateteres e acessos vasculares — cateter central, port e acesso de hemodiálise; considerar remoção.
- Trato digestivo — S. gallolyticus e Enterococcus obrigam investigação de neoplasia e de doença colônica.
- Trato urinário e manipulação urológica — enterococo é o agente clássico.
- Contato com animais e produtos não pasteurizados — Coxiella, Brucella e Bartonella.
Apresentação clínica
A endocardite tem duas faces. A aguda, geralmente estafilocócica, evolui em dias com toxemia, sepse e complicações precoces. A subaguda, geralmente estreptocócica, arrasta-se por semanas com febre baixa, emagrecimento, anemia e astenia — e costuma ser rotulada de "síndrome consumptiva" ou "febre de origem indeterminada" antes do diagnóstico.
Achados frequentes
- Febre, presente na grande maioria dos casos.
- Sopro cardíaco, novo ou com mudança de característica.
- Astenia, emagrecimento, sudorese e anorexia.
- Esplenomegalia e anemia normocrômica.
- Insuficiência cardíaca de instalação recente.
Fenômenos periféricos
- Manchas de Janeway — máculas hemorrágicas indolores em palmas e plantas, de origem embólica.
- Nódulos de Osler — nódulos dolorosos em polpas digitais, de origem imunológica.
- Manchas de Roth — hemorragias retinianas com centro claro.
- Hemorragias subungueais em lasca e petéquias conjuntivais.
- Glomerulonefrite por imunocomplexos, com hematúria.
Hemoculturas: o exame que decide
- Colha três pares (aeróbio e anaeróbio) por punções venosas periféricas distintas.
- COLHA ANTES DO ANTIBIÓTICO. Uma única dose prévia pode negativar as culturas por dias e comprometer todo o tratamento.
- Não é necessário esperar pico febril — a bacteremia da endocardite é contínua.
- Respeite o volume por frasco: é a variável que mais aumenta a sensibilidade, mais do que o número de amostras.
- Se o paciente estiver estável, é aceitável aguardar as culturas antes de iniciar o antimicrobiano.
- Se houver sepse, instabilidade ou complicação, colha em poucos minutos e inicie o esquema empírico.
- Culturas negativas após 48 horas em paciente com suspeita alta: comunique o laboratório e amplie a investigação.
- Repita as hemoculturas em 48 a 72 horas de tratamento para documentar a negativação — é ela que define o dia zero da contagem da duração.
Quando a hemocultura é negativa
Cerca de um em cada dez casos cursa com hemocultura negativa. A causa mais comum e mais evitável é o uso prévio de antibiótico. Afastada essa hipótese, investigue agentes fastidiosos e intracelulares.
Causa mais frequente. Considere suspender o antimicrobiano por alguns dias e recolher, sempre que a estabilidade clínica permitir e com o time de endocardite.
Febre Q. Sorologia com IgG antifase I em títulos elevados é critério maior. Exposição a ruminantes e a produtos não pasteurizados.
Contato com gatos, situação de rua e etilismo. Sorologia e biologia molecular fecham o diagnóstico.
Contexto ocupacional e quadro sistêmico arrastado; exigem métodos específicos e comunicação prévia ao laboratório.
Candida e Aspergillus em prótese, imunossupressão e uso de droga injetável. Vegetações grandes e alta letalidade.
Trombótica não bacteriana, associada a neoplasia, e endocardite de Libman-Sacks no lúpus e na síndrome antifosfolípide.
Estratégia de imagem
| Exame | Quando usar | O que esperar |
|---|---|---|
| Ecocardiograma transtorácico | Primeiro exame em toda suspeita, idealmente no mesmo dia. | Boa janela para vegetações maiores e para avaliar função e repercussão; sensibilidade limitada em prótese e em lesões pequenas. |
| Ecocardiograma transesofágico | Transtorácico negativo com suspeita mantida, prótese, dispositivo, e sempre que houver dúvida sobre complicação perianular. | Padrão para vegetação pequena, abscesso, pseudoaneurisma, fístula e deiscência protética. |
| Repetir o ecocardiograma | Em 5 a 7 dias se a suspeita persistir com exame inicial negativo; e imediatamente diante de piora clínica. | Nova complicação, aumento da vegetação, surgimento de regurgitação. |
| Angiotomografia cardíaca | Suspeita de abscesso e pseudoaneurisma, e planejamento cirúrgico. | Excelente definição anatômica perivalvar e das coronárias. |
| PET-CT com flúor-18-fluordesoxiglicose | Prótese valvar e dispositivo com dúvida diagnóstica; também identifica focos embólicos e a porta de entrada. | Captação anormal ao redor da prótese; menor utilidade nos primeiros meses do pós-operatório, quando é critério menor. |
| Imagem de crânio, abdome e coluna | Rastreio de embolia sintomática e, em casos selecionados, também assintomática. | Infarto e abscesso cerebral, aneurisma micótico, infarto esplênico e espondilodiscite. |
Exames complementares
- Eletrocardiograma seriado — o surgimento de bloqueio atrioventricular sugere abscesso perianular e é sinal de alarme.
- Hemograma, proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação — inespecíficos, úteis no acompanhamento da resposta.
- Função renal e urina tipo I — hematúria e proteinúria sugerem glomerulonefrite; a função renal orienta a dose dos antimicrobianos.
- Fator reumatoide — critério menor imunológico quando positivo.
- Sorologias dirigidas — Coxiella, Bartonella e Brucella na hemocultura negativa.
- Avaliação odontológica — foco dentário é porta de entrada tratável e evita recidiva.
- Colonoscopia — obrigatória diante de Streptococcus gallolyticus, pela associação com neoplasia colorretal.
- Sorologia para HIV e hepatites — especialmente em usuários de droga injetável.
Critérios de Duke-ISCVID 2023
Os critérios de Duke foram criados em 1994, modificados em 2000 e atualizados em 2023 pela Sociedade Internacional de Doenças Infecciosas Cardiovasculares. A estrutura de maiores e menores permaneceu, mas o conteúdo foi ampliado para incorporar biologia molecular, novas modalidades de imagem e a inspeção intraoperatória.
Domínio cirúrgico como critério maior, PET-CT e angiotomografia cardíaca como imagem maior, biologia molecular e sorologias específicas, e ampliação da lista de agentes típicos.
Além dos clássicos, incluem-se Staphylococcus lugdunensis e o grupo Streptococcus bovis; alguns agentes contam como típicos apenas na presença de prótese intracardíaca.
Foram concebidos para pesquisa e classificação. Um caso "possível" com alta suspeita clínica deve ser tratado enquanto a investigação avança.
A diretriz europeia de 2023 mantém uma versão própria dos critérios modificados. As diferenças são pontuais e não mudam a conduta à beira do leito.
Calculadora — classificação diagnóstica
Marque os critérios presentes. Endocardite definida exige 2 maiores, ou 1 maior com 3 menores, ou 5 menores. Endocardite possível exige 1 maior com 1 menor, ou 3 menores.
Critérios maiores
Critérios menores
Quem conta como agente típico
Sempre típicos
- Staphylococcus aureus e Staphylococcus lugdunensis.
- Estreptococos do grupo viridans e grupo Streptococcus bovis, incluindo S. gallolyticus.
- Enterococcus faecalis.
- Granulicatella, Abiotrophia e Gemella.
- Grupo HACEK.
Típicos apenas com prótese intracardíaca
- Estafilococos coagulase-negativos.
- Corynebacterium striatum e C. jeikeium.
- Serratia marcescens e Pseudomonas aeruginosa.
- Cutibacterium acnes.
- Candida spp.
Princípios do tratamento
A vegetação é um ambiente hostil ao antimicrobiano: alta densidade bacteriana, baixa atividade metabólica e ausência de fagócitos. Daí decorrem as regras que tornam o tratamento da endocardite diferente de qualquer outra infecção.
- Antimicrobiano bactericida, em doses altas e por via intravenosa na maior parte do curso.
- Duração prolongada — geralmente de 4 a 6 semanas, e não menos que 2 semanas em qualquer esquema abreviado.
- Contagem do dia zero a partir da primeira hemocultura negativa; se houver cirurgia com cultura valvar positiva, a contagem recomeça no dia da operação.
- Associação sinérgica em situações específicas, como enterococo e prótese estafilocócica.
- Controle de foco — remoção de cateter, extração de dispositivo, tratamento dentário e cirurgia valvar quando indicada.
- Monitorização de função renal, audição e níveis séricos conforme a droga utilizada.
- Reavaliação com hemoculturas seriadas até documentar a negativação.
Esquema empírico
O esquema empírico é iniciado apenas depois das hemoculturas, e somente quando o paciente está instável, séptico ou com complicação que não permite esperar. No paciente estável, aguardar o agente é a conduta preferível.
| Cenário | Esquema empírico | Racional |
|---|---|---|
| Válvula nativa comunitária | Ampicilina associada a oxacilina e a gentamicina; como alternativa em alergia, vancomicina associada a gentamicina. | Cobre estafilococo sensível, estreptococo e enterococo. |
| Prótese precoce (até 12 meses) ou associada à assistência | Vancomicina associada a gentamicina e a rifampicina. | Cobre estafilococo resistente à oxacilina e agentes hospitalares; a rifampicina age sobre o biofilme. |
| Prótese tardia (após 12 meses) | Conduta semelhante à da válvula nativa, ajustada ao contexto epidemiológico. | Perfil microbiológico se aproxima do comunitário. |
| Suspeita de agente resistente à oxacilina | Substituir a oxacilina por vancomicina ou daptomicina. | Considere colonização prévia, hemodiálise e internação recente. |
Tratamento dirigido por agente
| Agente | Esquema de escolha | Duração habitual |
|---|---|---|
| Estreptococo sensível à penicilina | Penicilina G cristalina ou ceftriaxona; associação com gentamicina permite curso abreviado em casos não complicados de válvula nativa. | 4 semanas em nativa; 6 semanas em prótese. |
| S. aureus sensível à oxacilina, válvula nativa | Oxacilina; cefazolina como alternativa. Sem gentamicina de rotina. | 4 a 6 semanas. |
| S. aureus resistente à oxacilina, válvula nativa | Vancomicina ou daptomicina em dose alta. | 4 a 6 semanas. |
| Estafilococo em prótese | Oxacilina ou vancomicina, associadas a rifampicina e a gentamicina nas 2 primeiras semanas. | 6 semanas ou mais. |
| Enterococcus faecalis | Ampicilina associada a ceftriaxona — preferida por evitar nefrotoxicidade e por funcionar em cepas com alto grau de resistência a aminoglicosídeo; alternativa é ampicilina com gentamicina. | 6 semanas. |
| Grupo HACEK | Ceftriaxona. | 4 semanas em nativa; 6 semanas em prótese. |
| Fungos | Anfotericina B lipossomal, geralmente com equinocandina, associada à cirurgia; supressão prolongada com azol. | Prolongada, frequentemente por toda a vida em prótese. |
| Coxiella burnetii | Doxiciclina associada a hidroxicloroquina. | 18 meses ou mais, com controle sorológico. |
Calculadora — doses por peso
Informe o peso e o cenário. As doses são as de endocardite em adulto com função renal preservada — ajuste conforme clearance, nível sérico e protocolo institucional.
Terapia oral parcial e domiciliar
Uma das mudanças mais relevantes dos últimos anos: pacientes estabilizados podem completar o tratamento fora do hospital, por via oral ou por antimicrobiano parenteral ambulatorial.
Candidato adequado
- Pelo menos 10 dias de tratamento intravenoso, e ao menos 7 dias após a cirurgia quando houve operação.
- Estabilidade clínica, sem febre e com marcadores em queda.
- Agente sensível e previsível: estreptococo, E. faecalis, S. aureus e estafilococo coagulase-negativo.
- Ecocardiograma transesofágico de controle sem complicação nova antes da transição.
- Boa adesão, condições sociais adequadas e seguimento ambulatorial garantido.
Manter internado
- Insuficiência cardíaca, abscesso e infecção não controlada.
- Hemoculturas ainda positivas.
- Indicação cirúrgica pendente.
- Endocardite fúngica ou por agente multirresistente.
- Complicação neurológica recente ou instabilidade clínica.
Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, duração e cuidados. Confira sempre o antibiograma, a função renal e o protocolo institucional antes de prescrever.
Esquemas por agente
Depois que a hemocultura identifica o agente, o tratamento deixa de ser empírico e passa a seguir esquemas consagrados, com duração definida pelo microrganismo e pelo tipo de válvula.
Estratégia e situações especiais
Cenários em que o esquema padrão não se aplica: início empírico, material protético, endocardite fúngica e a transição para tratamento fora do hospital.
As três razões para operar
Cerca de metade dos pacientes com endocardite tem indicação cirúrgica, e as indicações se organizam em três grandes grupos. Reconhecê-las cedo é o que separa uma cirurgia eletiva bem planejada de uma operação de resgate em choque.
É a indicação mais frequente e a de maior impacto sobre a mortalidade. Regurgitação aguda grave, obstrução valvar ou fístula com repercussão hemodinâmica não são tratáveis com antimicrobiano.
Abscesso perianular, pseudoaneurisma, fístula, vegetação em crescimento, hemocultura persistentemente positiva apesar de terapia adequada, e agentes de difícil erradicação como fungos e multirresistentes.
Vegetação grande, sobretudo à esquerda e após um episódio embólico já ocorrido em vigência de antimicrobiano adequado.
Calculadora — indicação e momento da cirurgia
Marque o que está presente. O resultado indica o prazo mais urgente entre os achados marcados: emergência significa em até 24 horas; urgência, dentro de poucos dias; e não urgente, durante a mesma internação, após dias de antimicrobiano.
Insuficiência cardíaca
Infecção não controlada
Prevenção de embolia
Complicação neurológica e momento da cirurgia
A embolia cerebral é a complicação extracardíaca mais frequente e a que mais gera dúvida sobre o momento operatório. A orientação atual é bem menos conservadora do que se praticava no passado.
| Situação neurológica | Conduta quanto à cirurgia | Observação |
|---|---|---|
| Embolia silenciosa ou acidente isquêmico transitório | Não adiar a cirurgia se houver indicação. | Achado frequente em imagem de rastreio. |
| Acidente vascular isquêmico sem hemorragia | Cirurgia sem adiamento quando há indicação de emergência ou urgência, sobretudo em infarto pequeno. | O risco de nova embolia costuma superar o risco de piora da lesão. |
| Infarto extenso ou com transformação hemorrágica | Discussão individualizada; frequentemente adia-se por algumas semanas quando a condição cardíaca permite. | Envolva a neurologia na decisão. |
| Hemorragia intracraniana | Adiamento habitual de cerca de um mês, salvo situação cardíaca crítica. | Pesquisar aneurisma micótico com angiografia. |
| Coma sem prognóstico definido | Reavaliar antes de indicar cirurgia de grande porte. | Decisão compartilhada com a família. |
Outras complicações
Mais comum na válvula aórtica e em prótese. Suspeite diante de febre persistente e de novo distúrbio de condução; confirme com transesofágico ou angiotomografia.
Típica da endocardite direita: infiltrados múltiplos, periféricos e cavitados, com dor pleurítica e hipoxemia.
Glomerulonefrite por imunocomplexos, infarto renal embólico e nefrotoxicidade por vancomicina e aminoglicosídeo.
Cerebral ou visceral; investigue diante de cefaleia persistente, déficit focal ou hemorragia. Pode exigir tratamento endovascular.
Dor lombar persistente em paciente com endocardite exige ressonância — a coexistência é frequente e prolonga o tratamento.
Recidiva ocorre nas primeiras semanas pelo mesmo agente, geralmente por tratamento insuficiente. Reinfecção é episódio novo, mais tardio, e reforça a necessidade de tratar a porta de entrada.
Profilaxia antibiótica
A profilaxia deixou de ser universal e passou a ser restrita: indicada apenas para pacientes de alto risco submetidos a procedimentos odontológicos invasivos. A diretriz europeia de 2023 reforçou essa indicação, elevando-a a recomendação de classe I.
| Quem recebe | Em quais procedimentos | Esquema |
|---|---|---|
| Endocardite prévia | Procedimentos odontológicos com manipulação da gengiva, da região periapical ou com perfuração da mucosa oral. | Amoxicilina 2 g por via oral, 30 a 60 minutos antes; ou ampicilina 2 g por via intravenosa. Em crianças, 50 mg/kg. Na alergia à penicilina, alternativas incluem cefalexina, azitromicina, claritromicina ou doxiciclina, conforme o protocolo adotado. |
| Prótese valvar, cirúrgica ou transcateter, e reparo com material protético. | ||
| Cardiopatia congênita cianótica não corrigida, ou corrigida com material protético. | ||
| Dispositivo de assistência ventricular. | ||
| Demais pacientes | Procedimentos respiratórios, digestivos, geniturinários, dermatológicos e ecocardiograma transesofágico. | Não há indicação de profilaxia antibiótica de rotina. |
Prevenção no cuidado hospitalar
- Assepsia rigorosa na inserção e na manutenção de cateteres vasculares.
- Retirada precoce de todo cateter sem indicação — o dispositivo desnecessário é porta de entrada.
- Investigação de bacteremia por S. aureus com ecocardiograma, mesmo sem sopro.
- Preparo pré-operatório adequado antes de implante de prótese ou de dispositivo cardíaco.
- Avaliação odontológica antes de cirurgia valvar eletiva e implante de dispositivo.
- Orientação ao paciente de risco — cartão de identificação, alerta sobre febre persistente e contraindicação de automedicação com antibiótico.
Erros comuns
- Iniciar antibiótico antes de colher as hemoculturas em paciente estável.
- Colher uma única amostra de hemocultura, ou colher todas do mesmo acesso.
- Esperar o pico febril para colher, atrasando o diagnóstico sem ganho de sensibilidade.
- Considerar endocardite afastada por um ecocardiograma transtorácico normal.
- Não solicitar transesofágico em portador de prótese ou de dispositivo cardíaco.
- Tratar bacteremia por S. aureus como infecção de cateter sem investigar o coração.
- Interpretar estafilococo coagulase-negativo como contaminação em paciente com prótese.
- Usar gentamicina de rotina no S. aureus em válvula nativa.
- Contar a duração do tratamento a partir do primeiro dia de antibiótico, e não da negativação das culturas.
- Adiar cirurgia indicada para "completar o antibiótico".
- Não repetir o ecocardiograma diante de febre persistente ou de novo sopro.
- Ignorar novo bloqueio atrioventricular no eletrocardiograma diário.
- Dar alta sem tratar a porta de entrada, sobretudo o foco dentário.
- Não solicitar colonoscopia após endocardite por Streptococcus gallolyticus.
Resumo do fluxo
- Suspeitou: febre sem foco com prótese, sopro novo, dispositivo, uso de droga injetável ou bacteremia por agente típico.
- COLHA TRÊS PARES DE HEMOCULTURA ANTES DO ANTIBIÓTICO — em punções distintas e com volume adequado.
- Solicite ecocardiograma transtorácico no mesmo dia e programe o transesofágico.
- Inicie o esquema empírico apenas se houver instabilidade, sepse ou complicação; no estável, aguarde o agente.
- Aplique os critérios de Duke-ISCVID e reclassifique conforme novos resultados.
- Procure complicações: insuficiência cardíaca, bloqueio novo, abscesso e embolia sistêmica.
- Acione o time de endocardite desde o início e discuta a indicação e o momento da cirurgia.
- Ajuste o esquema ao antibiograma, repita hemoculturas e conte a duração a partir da negativação.
- Trate a porta de entrada, avalie transição oral ou domiciliar e programe o seguimento.
- Na alta: ecocardiograma de referência, orientação sobre profilaxia e retorno imediato diante de febre.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço, o antibiograma local e as bulas vigentes.
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- Ministério da Saúde (Brasil) e Anvisa. Diretrizes para diagnóstico e prevenção de infecções relacionadas à assistência à saúde e uso racional de antimicrobianos, documentos vigentes.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, critérios e condutas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.
Informações rápidas
Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Suspeitar
Febre sem foco com sopro novo, prótese valvar ou dispositivo cardíaco. Bacteremia por S. aureus é endocardite até prova em contrário, e bacteremia por Enterococcus faecalis ou Streptococcus gallolyticus também pede investigação.
Colher direito
Três pares de hemocultura, em punções distintas, antes do antibiótico e sem esperar pico febril — a bacteremia é contínua. O volume por frasco é o que mais aumenta a sensibilidade.
Imagem certa
Transtorácico no mesmo dia da suspeita e transesofágico na maioria dos casos — obrigatório em prótese e dispositivo. Transtorácico normal não afasta o diagnóstico. PET-CT e angiotomografia ajudam na prótese e no planejamento cirúrgico.
Decidir cirurgia
Três razões: insuficiência cardíaca, infecção não controlada e prevenção de embolia. Indicação de emergência ou urgência não espera completar dias de antibiótico. Discuta com o time de endocardite desde o início.
Números rápidos
Hemoculturas: 3 pares, punções distintas, antes do antibiótico.
Duke definida: 2 maiores, ou 1 maior com 3 menores, ou 5 menores.
Vegetação: 10 mm ou mais à esquerda com embolia prévia indica cirurgia.
Duração: 4 a 6 semanas, contadas da primeira hemocultura negativa.
Prótese precoce: até 12 meses — vancomicina, gentamicina e rifampicina.
Não esqueça
Transtorácico normal não afasta endocardite.
Bacteremia por S. aureus pede ecocardiograma.
Bloqueio atrioventricular novo sugere abscesso perianular.
Cirurgia indicada não espera "terminar o antibiótico".
Trate a porta de entrada para evitar recidiva.
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Em provas / residência
A banca cobra os critérios de Duke, as três indicações cirúrgicas e a associação entre S. gallolyticus e neoplasia colorretal.
Decore: 3 pares de hemocultura antes do antibiótico; nódulo de Osler é doloroso e imunológico, mancha de Janeway é indolor e embólica; enterococo trata com ampicilina e ceftriaxona.
