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Endocardite Infecciosa

O diagnóstico depende de duas coisas simples e frequentemente mal feitas: hemoculturas colhidas corretamente antes do antibiótico e um ecocardiograma pedido no momento certo. O prognóstico, por sua vez, depende de reconhecer cedo quem precisa de cirurgia — porque o antibiótico sozinho não resolve insuficiência cardíaca, abscesso nem infecção não controlada.

3 pares de hemocultura Ecocardiograma precoce Duke-ISCVID 2023 Time de endocardite
Tempo de leitura: 20 min
Atualizado em: 18/08/2026

Suspeitar

  • Febre sem foco com sopro novo ou prótese valvar
  • Bacteremia por S. aureus é endocardite até prova contrária
  • Fenômenos embólicos e vasculares periféricos
  • Usuário de droga injetável e portador de dispositivo

Colher direito

  • Três pares de hemocultura antes do antibiótico
  • Punções distintas, sem esperar pico febril
  • Volume adequado por frasco é o que mais rende
  • Hemocultura negativa exige investigação dirigida

Imagem certa

  • Ecocardiograma transtorácico como primeiro exame
  • Transesofágico quase sempre necessário
  • PET-CT e angiotomografia em prótese e dúvida
  • Repetir o eco diante de piora ou nova complicação

Decidir cirurgia

  • Insuficiência cardíaca é a principal indicação
  • Infecção não controlada e abscesso perianular
  • Prevenção de embolia em vegetação grande
  • Discussão em time multidisciplinar desde o início

O que é e por que ainda mata

Endocardite infecciosa é a infecção do endocárdio — quase sempre valvar, mas também de próteses, cordoalhas, defeitos congênitos e eletrodos de dispositivos cardíacos. A lesão característica é a vegetação: um agregado de plaquetas, fibrina e microrganismos que cresce sobre endotélio lesado e libera êmbolos sépticos à distância.

Apesar de todo o avanço em imagem e antimicrobianos, a mortalidade hospitalar permanece alta, na faixa de 15 a 30% conforme a série e o perfil do paciente. As razões são recorrentes e evitáveis: atraso diagnóstico em febre sem foco, hemoculturas colhidas depois do antibiótico e indicação cirúrgica reconhecida tarde demais.

A epidemiologia mudou: hoje predomina o paciente idoso, com prótese ou dispositivo, e com infecção relacionada à assistência à saúde. O Staphylococcus aureus tomou o lugar dos estreptococos como agente mais frequente em boa parte do mundo — e é o de pior prognóstico.

Como se organiza

  • Válvula nativa esquerda — mitral e aórtica; forma mais comum e com maior risco de embolia cerebral.
  • Válvula protética — precoce, até 12 meses da cirurgia, com predomínio de estafilococos; e tardia, com perfil mais parecido ao da nativa.
  • Endocardite direita — tricúspide, típica de usuário de droga injetável e de cateteres; cursa com êmbolos pulmonares e melhor prognóstico.
  • Relacionada a dispositivo — marca-passo e desfibrilador; exige extração do sistema além do antimicrobiano.
  • Relacionada à assistência — cateteres, hemodiálise e procedimentos, com agentes hospitalares e maior letalidade.

As três perguntas que estruturam o caso

  • Qual é o agente? Define o esquema, a duração e boa parte do prognóstico. Sem hemocultura, o caso fica cego.
  • Qual é o dano anatômico? Vegetação, regurgitação, abscesso, fístula e deiscência. É o que responde se há indicação cirúrgica.
  • Onde já embolizou? Cérebro, baço, rins, pulmão e coluna. Muda a conduta e o momento da cirurgia.
O time de endocardite

Casos complicados devem ser conduzidos por equipe multidisciplinar — infectologia, cardiologia, cirurgia cardíaca, imagem e, quando necessário, neurologia. A discussão precoce e conjunta é uma das poucas medidas com impacto demonstrado sobre mortalidade.

Números que orientam a conduta

Hemoculturas

Três pares antes do antibiótico rendem a grande maioria dos diagnósticos microbiológicos.

Ecocardiograma

Transtorácico primeiro; transesofágico é necessário na maioria dos casos e obrigatório na prótese.

Cirurgia

Cerca de metade dos pacientes tem indicação cirúrgica ao longo da internação.

Embolia

O risco é maior nas duas primeiras semanas e cai rapidamente com antibiótico eficaz.

Mortalidade

De 15 a 30% na internação, sendo maior em prótese, S. aureus e insuficiência cardíaca.

As primeiras 24 horas

Colher antes de tratar

Três pares de hemocultura em punções distintas. No paciente estável, vale esperar as culturas antes do antibiótico; no paciente séptico ou com complicação, colha rápido e trate em seguida.

Imagem sem demora

Ecocardiograma transtorácico no mesmo dia da suspeita; transesofágico assim que possível, sobretudo em prótese, dispositivo e transtorácico não conclusivo.

Avaliar dano e embolia

Procure insuficiência cardíaca, novo bloqueio de condução ao eletrocardiograma e sinais de embolia sistêmica. São esses achados que definem urgência cirúrgica.

Regra de bolso: bacteremia por S. aureus sem foco claro merece ecocardiograma. E toda bacteremia por Enterococcus faecalis ou Streptococcus gallolyticus pede investigação de endocardite — a segunda, também de neoplasia colorretal.

Agentes por cenário

Cenário Agentes mais frequentes Implicação prática
Válvula nativa comunitária Staphylococcus aureus, estreptococos do grupo viridans, Enterococcus faecalis, Streptococcus gallolyticus. Esquema empírico com cobertura de estafilococo, estreptococo e enterococo.
Prótese precoce (até 12 meses) Estafilococos coagulase-negativos, S. aureus, bacilos gram-negativos, fungos. Cobertura ampliada com vancomicina, gentamicina e rifampicina; alto risco de abscesso.
Prótese tardia (após 12 meses) Perfil semelhante ao da válvula nativa, com participação relevante de estafilococos. Investigar porta de entrada dentária, cutânea e digestiva.
Usuário de droga injetável S. aureus predominante, além de gram-negativos, Pseudomonas, polimicrobiana e Candida. Predomínio tricúspide; procurar embolia pulmonar séptica e testar HIV e hepatites.
Dispositivo cardíaco Estafilococos, sobretudo coagulase-negativos e S. aureus. A extração completa do sistema costuma ser indispensável.
Relacionada à assistência S. aureus incluindo resistente à oxacilina, enterococo, gram-negativos e Candida. Procurar cateter, acesso de hemodiálise e procedimento recente como porta de entrada.
Hemocultura negativa Coxiella burnetii, Bartonella, Brucella, Tropheryma whipplei, fungos e agentes fastidiosos. Sorologias dirigidas, biologia molecular e discussão com a microbiologia.
Os antigos agentes do grupo HACEK — Haemophilus, Aggregatibacter, Cardiobacterium, Eikenella e Kingella — são fastidiosos, mas crescem nos sistemas automatizados atuais. Não são mais causa habitual de hemocultura negativa.

Condições predisponentes

Alto risco

  • Endocardite infecciosa prévia.
  • Prótese valvar cirúrgica ou transcateter, e reparo valvar com material protético.
  • Cardiopatia congênita cianótica não corrigida, ou corrigida com material protético.
  • Dispositivo de assistência ventricular.

Risco intermediário

  • Valvopatia reumática, degenerativa ou bicúspide aórtica.
  • Cardiopatia congênita não cianótica, exceto comunicação interatrial isolada.
  • Cardiomiopatia hipertrófica.
  • Marca-passo, desfibrilador e cateter de longa permanência.
  • Uso de droga injetável e hemodiálise.
No Brasil, a doença reumática continua sendo um substrato importante, sobretudo em pacientes mais jovens e em regiões com menor cobertura assistencial. Não assuma o perfil epidemiológico europeu como universal.

Portas de entrada a procurar

  • Cavidade oral — cáries, doença periodontal e procedimentos dentários; avaliação odontológica faz parte da investigação.
  • Pele — feridas, dermatite, uso de droga injetável e infecção de sítio de punção.
  • Cateteres e acessos vasculares — cateter central, port e acesso de hemodiálise; considerar remoção.
  • Trato digestivoS. gallolyticus e Enterococcus obrigam investigação de neoplasia e de doença colônica.
  • Trato urinário e manipulação urológica — enterococo é o agente clássico.
  • Contato com animais e produtos não pasteurizadosCoxiella, Brucella e Bartonella.
Identificar a porta de entrada não é detalhe acadêmico: sem tratá-la, a chance de recidiva após o término do antimicrobiano aumenta significativamente.

Apresentação clínica

A endocardite tem duas faces. A aguda, geralmente estafilocócica, evolui em dias com toxemia, sepse e complicações precoces. A subaguda, geralmente estreptocócica, arrasta-se por semanas com febre baixa, emagrecimento, anemia e astenia — e costuma ser rotulada de "síndrome consumptiva" ou "febre de origem indeterminada" antes do diagnóstico.

Achados frequentes

  • Febre, presente na grande maioria dos casos.
  • Sopro cardíaco, novo ou com mudança de característica.
  • Astenia, emagrecimento, sudorese e anorexia.
  • Esplenomegalia e anemia normocrômica.
  • Insuficiência cardíaca de instalação recente.

Fenômenos periféricos

  • Manchas de Janeway — máculas hemorrágicas indolores em palmas e plantas, de origem embólica.
  • Nódulos de Osler — nódulos dolorosos em polpas digitais, de origem imunológica.
  • Manchas de Roth — hemorragias retinianas com centro claro.
  • Hemorragias subungueais em lasca e petéquias conjuntivais.
  • Glomerulonefrite por imunocomplexos, com hematúria.
Os sinais periféricos clássicos são pouco frequentes hoje e não podem ser exigidos para levantar a hipótese. Sua ausência não afasta nada; sua presença, por outro lado, torna o diagnóstico muito provável.

Hemoculturas: o exame que decide

  1. Colha três pares (aeróbio e anaeróbio) por punções venosas periféricas distintas.
  2. COLHA ANTES DO ANTIBIÓTICO. Uma única dose prévia pode negativar as culturas por dias e comprometer todo o tratamento.
  3. Não é necessário esperar pico febril — a bacteremia da endocardite é contínua.
  4. Respeite o volume por frasco: é a variável que mais aumenta a sensibilidade, mais do que o número de amostras.
  5. Se o paciente estiver estável, é aceitável aguardar as culturas antes de iniciar o antimicrobiano.
  6. Se houver sepse, instabilidade ou complicação, colha em poucos minutos e inicie o esquema empírico.
  7. Culturas negativas após 48 horas em paciente com suspeita alta: comunique o laboratório e amplie a investigação.
  8. Repita as hemoculturas em 48 a 72 horas de tratamento para documentar a negativação — é ela que define o dia zero da contagem da duração.

Quando a hemocultura é negativa

Cerca de um em cada dez casos cursa com hemocultura negativa. A causa mais comum e mais evitável é o uso prévio de antibiótico. Afastada essa hipótese, investigue agentes fastidiosos e intracelulares.

Antibiótico prévio

Causa mais frequente. Considere suspender o antimicrobiano por alguns dias e recolher, sempre que a estabilidade clínica permitir e com o time de endocardite.

Coxiella burnetii

Febre Q. Sorologia com IgG antifase I em títulos elevados é critério maior. Exposição a ruminantes e a produtos não pasteurizados.

Bartonella

Contato com gatos, situação de rua e etilismo. Sorologia e biologia molecular fecham o diagnóstico.

Brucella e Tropheryma

Contexto ocupacional e quadro sistêmico arrastado; exigem métodos específicos e comunicação prévia ao laboratório.

Fungos

Candida e Aspergillus em prótese, imunossupressão e uso de droga injetável. Vegetações grandes e alta letalidade.

Endocardite não infecciosa

Trombótica não bacteriana, associada a neoplasia, e endocardite de Libman-Sacks no lúpus e na síndrome antifosfolípide.

Estratégia de imagem

Exame Quando usar O que esperar
Ecocardiograma transtorácico Primeiro exame em toda suspeita, idealmente no mesmo dia. Boa janela para vegetações maiores e para avaliar função e repercussão; sensibilidade limitada em prótese e em lesões pequenas.
Ecocardiograma transesofágico Transtorácico negativo com suspeita mantida, prótese, dispositivo, e sempre que houver dúvida sobre complicação perianular. Padrão para vegetação pequena, abscesso, pseudoaneurisma, fístula e deiscência protética.
Repetir o ecocardiograma Em 5 a 7 dias se a suspeita persistir com exame inicial negativo; e imediatamente diante de piora clínica. Nova complicação, aumento da vegetação, surgimento de regurgitação.
Angiotomografia cardíaca Suspeita de abscesso e pseudoaneurisma, e planejamento cirúrgico. Excelente definição anatômica perivalvar e das coronárias.
PET-CT com flúor-18-fluordesoxiglicose Prótese valvar e dispositivo com dúvida diagnóstica; também identifica focos embólicos e a porta de entrada. Captação anormal ao redor da prótese; menor utilidade nos primeiros meses do pós-operatório, quando é critério menor.
Imagem de crânio, abdome e coluna Rastreio de embolia sintomática e, em casos selecionados, também assintomática. Infarto e abscesso cerebral, aneurisma micótico, infarto esplênico e espondilodiscite.
Um ecocardiograma transtorácico normal não exclui endocardite. Em paciente com bacteremia por S. aureus, prótese ou dispositivo, a investigação prossegue com transesofágico mesmo diante de exame inicial sem alterações.

Exames complementares

  • Eletrocardiograma seriado — o surgimento de bloqueio atrioventricular sugere abscesso perianular e é sinal de alarme.
  • Hemograma, proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação — inespecíficos, úteis no acompanhamento da resposta.
  • Função renal e urina tipo I — hematúria e proteinúria sugerem glomerulonefrite; a função renal orienta a dose dos antimicrobianos.
  • Fator reumatoide — critério menor imunológico quando positivo.
  • Sorologias dirigidasCoxiella, Bartonella e Brucella na hemocultura negativa.
  • Avaliação odontológica — foco dentário é porta de entrada tratável e evita recidiva.
  • Colonoscopia — obrigatória diante de Streptococcus gallolyticus, pela associação com neoplasia colorretal.
  • Sorologia para HIV e hepatites — especialmente em usuários de droga injetável.

Critérios de Duke-ISCVID 2023

Os critérios de Duke foram criados em 1994, modificados em 2000 e atualizados em 2023 pela Sociedade Internacional de Doenças Infecciosas Cardiovasculares. A estrutura de maiores e menores permaneceu, mas o conteúdo foi ampliado para incorporar biologia molecular, novas modalidades de imagem e a inspeção intraoperatória.

O que entrou de novo

Domínio cirúrgico como critério maior, PET-CT e angiotomografia cardíaca como imagem maior, biologia molecular e sorologias específicas, e ampliação da lista de agentes típicos.

Agentes típicos ampliados

Além dos clássicos, incluem-se Staphylococcus lugdunensis e o grupo Streptococcus bovis; alguns agentes contam como típicos apenas na presença de prótese intracardíaca.

Uso clínico

Foram concebidos para pesquisa e classificação. Um caso "possível" com alta suspeita clínica deve ser tratado enquanto a investigação avança.

Duas versões vigentes

A diretriz europeia de 2023 mantém uma versão própria dos critérios modificados. As diferenças são pontuais e não mudam a conduta à beira do leito.

Calculadora — classificação diagnóstica

3 critérios maiores 7 critérios menores Resultado imediato

Marque os critérios presentes. Endocardite definida exige 2 maiores, ou 1 maior com 3 menores, ou 5 menores. Endocardite possível exige 1 maior com 1 menor, ou 3 menores.

Critérios maiores

Critérios menores

Maiores
0
Menores
0
Regra atingida
Classificação
Critérios não preenchidos
Considere diagnósticos alternativos — mas mantenha a suspeita se o quadro clínico for compatível
Definida: 2 critérios maiores, ou 1 maior com 3 menores, ou 5 menores.
Possível: 1 critério maior com 1 menor, ou 3 menores.
Não preenchida: abaixo dos limiares acima — reavalie o diagnóstico e procure explicação alternativa firme.
Ferramenta de apoio. Os critérios não substituem o julgamento clínico: casos classificados como possíveis, com suspeita alta, devem ser tratados enquanto a investigação prossegue. A classificação também se modifica ao longo da internação, conforme novas culturas e exames de imagem.

Quem conta como agente típico

Sempre típicos

  • Staphylococcus aureus e Staphylococcus lugdunensis.
  • Estreptococos do grupo viridans e grupo Streptococcus bovis, incluindo S. gallolyticus.
  • Enterococcus faecalis.
  • Granulicatella, Abiotrophia e Gemella.
  • Grupo HACEK.

Típicos apenas com prótese intracardíaca

  • Estafilococos coagulase-negativos.
  • Corynebacterium striatum e C. jeikeium.
  • Serratia marcescens e Pseudomonas aeruginosa.
  • Cutibacterium acnes.
  • Candida spp.
Um estafilococo coagulase-negativo em hemocultura de paciente sem prótese continua sendo, na maioria das vezes, contaminação de coleta. Com prótese, a leitura se inverte: passa a ser agente típico e exige investigação completa.

Princípios do tratamento

A vegetação é um ambiente hostil ao antimicrobiano: alta densidade bacteriana, baixa atividade metabólica e ausência de fagócitos. Daí decorrem as regras que tornam o tratamento da endocardite diferente de qualquer outra infecção.

  • Antimicrobiano bactericida, em doses altas e por via intravenosa na maior parte do curso.
  • Duração prolongada — geralmente de 4 a 6 semanas, e não menos que 2 semanas em qualquer esquema abreviado.
  • Contagem do dia zero a partir da primeira hemocultura negativa; se houver cirurgia com cultura valvar positiva, a contagem recomeça no dia da operação.
  • Associação sinérgica em situações específicas, como enterococo e prótese estafilocócica.
  • Controle de foco — remoção de cateter, extração de dispositivo, tratamento dentário e cirurgia valvar quando indicada.
  • Monitorização de função renal, audição e níveis séricos conforme a droga utilizada.
  • Reavaliação com hemoculturas seriadas até documentar a negativação.
Febre persistente após 7 a 10 dias de tratamento adequado não é evolução esperada. Procure abscesso perianular, embolia séptica, infecção de cateter, febre por droga e agente resistente — e reavalie a indicação cirúrgica.

Esquema empírico

O esquema empírico é iniciado apenas depois das hemoculturas, e somente quando o paciente está instável, séptico ou com complicação que não permite esperar. No paciente estável, aguardar o agente é a conduta preferível.

Cenário Esquema empírico Racional
Válvula nativa comunitária Ampicilina associada a oxacilina e a gentamicina; como alternativa em alergia, vancomicina associada a gentamicina. Cobre estafilococo sensível, estreptococo e enterococo.
Prótese precoce (até 12 meses) ou associada à assistência Vancomicina associada a gentamicina e a rifampicina. Cobre estafilococo resistente à oxacilina e agentes hospitalares; a rifampicina age sobre o biofilme.
Prótese tardia (após 12 meses) Conduta semelhante à da válvula nativa, ajustada ao contexto epidemiológico. Perfil microbiológico se aproxima do comunitário.
Suspeita de agente resistente à oxacilina Substituir a oxacilina por vancomicina ou daptomicina. Considere colonização prévia, hemodiálise e internação recente.
A rifampicina em prótese estafilocócica costuma ser iniciada alguns dias depois dos demais antimicrobianos, quando a bacteremia já está controlada, para reduzir a seleção de resistência. Confira o protocolo do seu serviço.

Tratamento dirigido por agente

Agente Esquema de escolha Duração habitual
Estreptococo sensível à penicilina Penicilina G cristalina ou ceftriaxona; associação com gentamicina permite curso abreviado em casos não complicados de válvula nativa. 4 semanas em nativa; 6 semanas em prótese.
S. aureus sensível à oxacilina, válvula nativa Oxacilina; cefazolina como alternativa. Sem gentamicina de rotina. 4 a 6 semanas.
S. aureus resistente à oxacilina, válvula nativa Vancomicina ou daptomicina em dose alta. 4 a 6 semanas.
Estafilococo em prótese Oxacilina ou vancomicina, associadas a rifampicina e a gentamicina nas 2 primeiras semanas. 6 semanas ou mais.
Enterococcus faecalis Ampicilina associada a ceftriaxona — preferida por evitar nefrotoxicidade e por funcionar em cepas com alto grau de resistência a aminoglicosídeo; alternativa é ampicilina com gentamicina. 6 semanas.
Grupo HACEK Ceftriaxona. 4 semanas em nativa; 6 semanas em prótese.
Fungos Anfotericina B lipossomal, geralmente com equinocandina, associada à cirurgia; supressão prolongada com azol. Prolongada, frequentemente por toda a vida em prótese.
Coxiella burnetii Doxiciclina associada a hidroxicloroquina. 18 meses ou mais, com controle sorológico.
A gentamicina foi abandonada no tratamento do S. aureus em válvula nativa: aumentava nefrotoxicidade sem benefício clínico. Permanece indicada em prótese estafilocócica e como opção no enterococo.

Calculadora — doses por peso

Dose por quilo Duração sugerida

Informe o peso e o cenário. As doses são as de endocardite em adulto com função renal preservada — ajuste conforme clearance, nível sérico e protocolo institucional.

Ferramenta de apoio ao cálculo. Vancomicina exige monitorização sérica; gentamicina exige controle de função renal e audição; daptomicina exige acompanhamento de creatinoquinase. Em obesos e na disfunção renal, discuta a dose com a farmácia clínica.

Terapia oral parcial e domiciliar

Uma das mudanças mais relevantes dos últimos anos: pacientes estabilizados podem completar o tratamento fora do hospital, por via oral ou por antimicrobiano parenteral ambulatorial.

Candidato adequado

  • Pelo menos 10 dias de tratamento intravenoso, e ao menos 7 dias após a cirurgia quando houve operação.
  • Estabilidade clínica, sem febre e com marcadores em queda.
  • Agente sensível e previsível: estreptococo, E. faecalis, S. aureus e estafilococo coagulase-negativo.
  • Ecocardiograma transesofágico de controle sem complicação nova antes da transição.
  • Boa adesão, condições sociais adequadas e seguimento ambulatorial garantido.

Manter internado

  • Insuficiência cardíaca, abscesso e infecção não controlada.
  • Hemoculturas ainda positivas.
  • Indicação cirúrgica pendente.
  • Endocardite fúngica ou por agente multirresistente.
  • Complicação neurológica recente ou instabilidade clínica.
A transição para via oral só é segura dentro de um programa estruturado, com esquema definido pela infectologia, controle ambulatorial próximo e retorno imediato garantido em caso de febre — não é simplesmente "trocar por comprimido e dar alta".
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, duração e cuidados. Confira sempre o antibiograma, a função renal e o protocolo institucional antes de prescrever.

Esquemas por agente

Depois que a hemocultura identifica o agente, o tratamento deixa de ser empírico e passa a seguir esquemas consagrados, com duração definida pelo microrganismo e pelo tipo de válvula.

Estratégia e situações especiais

Cenários em que o esquema padrão não se aplica: início empírico, material protético, endocardite fúngica e a transição para tratamento fora do hospital.

As três razões para operar

Cerca de metade dos pacientes com endocardite tem indicação cirúrgica, e as indicações se organizam em três grandes grupos. Reconhecê-las cedo é o que separa uma cirurgia eletiva bem planejada de uma operação de resgate em choque.

1. Insuficiência cardíaca

É a indicação mais frequente e a de maior impacto sobre a mortalidade. Regurgitação aguda grave, obstrução valvar ou fístula com repercussão hemodinâmica não são tratáveis com antimicrobiano.

2. Infecção não controlada

Abscesso perianular, pseudoaneurisma, fístula, vegetação em crescimento, hemocultura persistentemente positiva apesar de terapia adequada, e agentes de difícil erradicação como fungos e multirresistentes.

3. Prevenção de embolia

Vegetação grande, sobretudo à esquerda e após um episódio embólico já ocorrido em vigência de antimicrobiano adequado.

Não existe "tempo mínimo de antibiótico" antes de operar. Diante de indicação de emergência ou urgência, a cirurgia não deve ser adiada para completar dias de tratamento — o adiamento é uma das causas mais frequentes de morte evitável.

Calculadora — indicação e momento da cirurgia

Define a urgência Apoio à discussão do time

Marque o que está presente. O resultado indica o prazo mais urgente entre os achados marcados: emergência significa em até 24 horas; urgência, dentro de poucos dias; e não urgente, durante a mesma internação, após dias de antimicrobiano.

Insuficiência cardíaca

Infecção não controlada

Prevenção de embolia

Momento sugerido
Nenhuma indicação marcada
Mantenha tratamento clínico, hemoculturas seriadas e reavaliação ecocardiográfica — a indicação pode surgir a qualquer momento
Ferramenta de apoio à discussão, não substitui o time de endocardite. O risco cirúrgico individual, as comorbidades, o estado neurológico e a vontade do paciente pesam tanto quanto a indicação anatômica.

Complicação neurológica e momento da cirurgia

A embolia cerebral é a complicação extracardíaca mais frequente e a que mais gera dúvida sobre o momento operatório. A orientação atual é bem menos conservadora do que se praticava no passado.

Situação neurológica Conduta quanto à cirurgia Observação
Embolia silenciosa ou acidente isquêmico transitório Não adiar a cirurgia se houver indicação. Achado frequente em imagem de rastreio.
Acidente vascular isquêmico sem hemorragia Cirurgia sem adiamento quando há indicação de emergência ou urgência, sobretudo em infarto pequeno. O risco de nova embolia costuma superar o risco de piora da lesão.
Infarto extenso ou com transformação hemorrágica Discussão individualizada; frequentemente adia-se por algumas semanas quando a condição cardíaca permite. Envolva a neurologia na decisão.
Hemorragia intracraniana Adiamento habitual de cerca de um mês, salvo situação cardíaca crítica. Pesquisar aneurisma micótico com angiografia.
Coma sem prognóstico definido Reavaliar antes de indicar cirurgia de grande porte. Decisão compartilhada com a família.
Anticoagulação em endocardite é assunto delicado: a indicação prévia deve ser reavaliada caso a caso, e a suspensão temporária é frequente diante de embolia cerebral, sobretudo por S. aureus. Não há indicação de iniciar anticoagulação apenas por existir vegetação.

Outras complicações

Abscesso perianular

Mais comum na válvula aórtica e em prótese. Suspeite diante de febre persistente e de novo distúrbio de condução; confirme com transesofágico ou angiotomografia.

Embolia pulmonar séptica

Típica da endocardite direita: infiltrados múltiplos, periféricos e cavitados, com dor pleurítica e hipoxemia.

Comprometimento renal

Glomerulonefrite por imunocomplexos, infarto renal embólico e nefrotoxicidade por vancomicina e aminoglicosídeo.

Aneurisma micótico

Cerebral ou visceral; investigue diante de cefaleia persistente, déficit focal ou hemorragia. Pode exigir tratamento endovascular.

Espondilodiscite

Dor lombar persistente em paciente com endocardite exige ressonância — a coexistência é frequente e prolonga o tratamento.

Recidiva e reinfecção

Recidiva ocorre nas primeiras semanas pelo mesmo agente, geralmente por tratamento insuficiente. Reinfecção é episódio novo, mais tardio, e reforça a necessidade de tratar a porta de entrada.

Profilaxia antibiótica

A profilaxia deixou de ser universal e passou a ser restrita: indicada apenas para pacientes de alto risco submetidos a procedimentos odontológicos invasivos. A diretriz europeia de 2023 reforçou essa indicação, elevando-a a recomendação de classe I.

Quem recebe Em quais procedimentos Esquema
Endocardite prévia Procedimentos odontológicos com manipulação da gengiva, da região periapical ou com perfuração da mucosa oral. Amoxicilina 2 g por via oral, 30 a 60 minutos antes; ou ampicilina 2 g por via intravenosa. Em crianças, 50 mg/kg. Na alergia à penicilina, alternativas incluem cefalexina, azitromicina, claritromicina ou doxiciclina, conforme o protocolo adotado.
Prótese valvar, cirúrgica ou transcateter, e reparo com material protético.
Cardiopatia congênita cianótica não corrigida, ou corrigida com material protético.
Dispositivo de assistência ventricular.
Demais pacientes Procedimentos respiratórios, digestivos, geniturinários, dermatológicos e ecocardiograma transesofágico. Não há indicação de profilaxia antibiótica de rotina.
A medida com maior impacto populacional não é o comprimido antes do dentista: é a higiene oral regular, a consulta odontológica periódica e o cuidado com feridas, cateteres e sítios de punção em pacientes de risco.

Prevenção no cuidado hospitalar

  • Assepsia rigorosa na inserção e na manutenção de cateteres vasculares.
  • Retirada precoce de todo cateter sem indicação — o dispositivo desnecessário é porta de entrada.
  • Investigação de bacteremia por S. aureus com ecocardiograma, mesmo sem sopro.
  • Preparo pré-operatório adequado antes de implante de prótese ou de dispositivo cardíaco.
  • Avaliação odontológica antes de cirurgia valvar eletiva e implante de dispositivo.
  • Orientação ao paciente de risco — cartão de identificação, alerta sobre febre persistente e contraindicação de automedicação com antibiótico.
Oriente o paciente de risco a nunca tomar antibiótico por conta própria diante de febre. Além de não tratar a endocardite, a dose isolada negativa as hemoculturas e transforma um caso diagnosticável em um caso de hemocultura negativa.

Erros comuns

  • Iniciar antibiótico antes de colher as hemoculturas em paciente estável.
  • Colher uma única amostra de hemocultura, ou colher todas do mesmo acesso.
  • Esperar o pico febril para colher, atrasando o diagnóstico sem ganho de sensibilidade.
  • Considerar endocardite afastada por um ecocardiograma transtorácico normal.
  • Não solicitar transesofágico em portador de prótese ou de dispositivo cardíaco.
  • Tratar bacteremia por S. aureus como infecção de cateter sem investigar o coração.
  • Interpretar estafilococo coagulase-negativo como contaminação em paciente com prótese.
  • Usar gentamicina de rotina no S. aureus em válvula nativa.
  • Contar a duração do tratamento a partir do primeiro dia de antibiótico, e não da negativação das culturas.
  • Adiar cirurgia indicada para "completar o antibiótico".
  • Não repetir o ecocardiograma diante de febre persistente ou de novo sopro.
  • Ignorar novo bloqueio atrioventricular no eletrocardiograma diário.
  • Dar alta sem tratar a porta de entrada, sobretudo o foco dentário.
  • Não solicitar colonoscopia após endocardite por Streptococcus gallolyticus.

Resumo do fluxo

  1. Suspeitou: febre sem foco com prótese, sopro novo, dispositivo, uso de droga injetável ou bacteremia por agente típico.
  2. COLHA TRÊS PARES DE HEMOCULTURA ANTES DO ANTIBIÓTICO — em punções distintas e com volume adequado.
  3. Solicite ecocardiograma transtorácico no mesmo dia e programe o transesofágico.
  4. Inicie o esquema empírico apenas se houver instabilidade, sepse ou complicação; no estável, aguarde o agente.
  5. Aplique os critérios de Duke-ISCVID e reclassifique conforme novos resultados.
  6. Procure complicações: insuficiência cardíaca, bloqueio novo, abscesso e embolia sistêmica.
  7. Acione o time de endocardite desde o início e discuta a indicação e o momento da cirurgia.
  8. Ajuste o esquema ao antibiograma, repita hemoculturas e conte a duração a partir da negativação.
  9. Trate a porta de entrada, avalie transição oral ou domiciliar e programe o seguimento.
  10. Na alta: ecocardiograma de referência, orientação sobre profilaxia e retorno imediato diante de febre.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço, o antibiograma local e as bulas vigentes.

  1. Delgado V, Ajmone Marsan N, de Waha S, et al. 2023 ESC Guidelines for the management of endocarditis. Eur Heart J. 2023;44(39):3948-4042.
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  3. Baddour LM, Wilson WR, Bayer AS, et al. Infective endocarditis in adults: diagnosis, antimicrobial therapy, and management of complications. Circulation. 2015;132(15):1435-1486.
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  12. Ministério da Saúde (Brasil) e Anvisa. Diretrizes para diagnóstico e prevenção de infecções relacionadas à assistência à saúde e uso racional de antimicrobianos, documentos vigentes.

Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, critérios e condutas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.

Informações rápidas

Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.

O essencial

Suspeitar

Febre sem foco com sopro novo, prótese valvar ou dispositivo cardíaco. Bacteremia por S. aureus é endocardite até prova em contrário, e bacteremia por Enterococcus faecalis ou Streptococcus gallolyticus também pede investigação.

Colher direito

Três pares de hemocultura, em punções distintas, antes do antibiótico e sem esperar pico febril — a bacteremia é contínua. O volume por frasco é o que mais aumenta a sensibilidade.

Imagem certa

Transtorácico no mesmo dia da suspeita e transesofágico na maioria dos casos — obrigatório em prótese e dispositivo. Transtorácico normal não afasta o diagnóstico. PET-CT e angiotomografia ajudam na prótese e no planejamento cirúrgico.

Decidir cirurgia

Três razões: insuficiência cardíaca, infecção não controlada e prevenção de embolia. Indicação de emergência ou urgência não espera completar dias de antibiótico. Discuta com o time de endocardite desde o início.

Números rápidos

Hemoculturas: 3 pares, punções distintas, antes do antibiótico.

Duke definida: 2 maiores, ou 1 maior com 3 menores, ou 5 menores.

Vegetação: 10 mm ou mais à esquerda com embolia prévia indica cirurgia.

Duração: 4 a 6 semanas, contadas da primeira hemocultura negativa.

Prótese precoce: até 12 meses — vancomicina, gentamicina e rifampicina.

Não esqueça

Transtorácico normal não afasta endocardite.

Bacteremia por S. aureus pede ecocardiograma.

Bloqueio atrioventricular novo sugere abscesso perianular.

Cirurgia indicada não espera "terminar o antibiótico".

Trate a porta de entrada para evitar recidiva.

Em provas / residência

A banca cobra os critérios de Duke, as três indicações cirúrgicas e a associação entre S. gallolyticus e neoplasia colorretal.

Decore: 3 pares de hemocultura antes do antibiótico; nódulo de Osler é doloroso e imunológico, mancha de Janeway é indolor e embólica; enterococo trata com ampicilina e ceftriaxona.

Mais informações nas abas do artigo.

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