Abordagem ao paciente intoxicado
A pergunta que organiza o atendimento não é "o que ele tomou?" — é "o que esperar nas próximas horas e o que precisa estar pronto quando acontecer?". Essa mudança de foco, chamada de avaliação de risco, define monitorização, exames, tempo de observação e destino. E responde à parte que mais gera erro na prática: quando é seguro dar alta.
Avaliar o risco
- Agente, dose, tempo, paciente e curso clínico
- Prever o que vem, não só descrever o agora
- A pior evolução plausível guia a conduta
- Assintomático não é sinônimo de seguro
Ressuscitar diferente
- Reanimação prolongada é razoável
- Bicarbonato no bloqueio de canal de sódio
- Insulina em dose alta no betabloqueador e no cálcio
- ECMO venoarterial no choque refratário
Observar o tempo certo
- A janela depende do agente e da formulação
- Liberação prolongada exige o dobro ou mais
- Sulfonilureia e metadona pedem 24 horas
- Reavalie sinais vitais antes de decidir
Decidir o destino
- Alta exige critérios clínicos e psíquicos
- Avaliação de risco de suicídio é obrigatória
- Notificação compulsória em intoxicações
- Nunca dê alta com o efeito ainda em curva ascendente
Avaliação de risco: a mudança de foco
Durante décadas o ensino da toxicologia foi organizado por agente: uma lista de substâncias, cada uma com sua conduta. O problema é que na emergência real quase nunca se sabe qual é o agente — e, quando se sabe, a lista não responde às perguntas que realmente importam.
A avaliação de risco inverte a lógica. Em vez de perguntar "o que ele tomou?", pergunta "qual é a pior evolução plausível deste caso, em quanto tempo ela apareceria, e o que precisa estar pronto quando acontecer?". É uma previsão, não uma descrição — e é ela que define monitorização, exames, tempo de observação e destino.
Os cinco eixos da avaliação
- Agente — qual substância, e com que perfil de toxicidade. Considere sempre a possibilidade de mais de uma.
- Dose — quantidade em relação à dose tóxica, e não em números absolutos. Na dúvida, assuma o pior cenário plausível.
- Tempo — quanto se passou desde a exposição, e em que ponto da curva de absorção o paciente está.
- Paciente — idade, peso, comorbidade, gestação, medicações de uso contínuo e reserva funcional.
- Curso clínico — o que já apareceu, o que está aparecendo agora e a velocidade da mudança.
Feita a avaliação, tudo se resume a quatro decisões: que monitorização este paciente precisa, quais exames mudam a conduta, por quanto tempo observar e onde ele deve ficar. Todo o resto é consequência dessas quatro respostas.
O que este artigo cobre
Este texto trata do processo: ressuscitação, história, avaliação de risco, monitorização e disposição. O reconhecimento de padrões clínicos — as toxíndromes — e as técnicas de descontaminação têm artigos próprios, referenciados na barra lateral.
O erro mais caro da prática
Não é errar o agente. É dar alta cedo demais, no paciente que ainda está na fase ascendente do efeito, ou internar sem necessidade quem já passou pela janela de risco. Ambos decorrem da mesma falha: não ter feito a avaliação de risco de forma explícita.
A sequência do atendimento
| Etapa | Pergunta que responde | O que se faz |
|---|---|---|
| 1. Segurança | A cena e a equipe estão seguras? | Proteção individual e descontaminação externa em exposição a agrotóxico, corrosivo ou agente volátil |
| 2. Ressuscitação | O paciente está morrendo agora? | Via aérea, ventilação, circulação, glicemia capilar e temperatura central. Antídotos de ressuscitação quando indicados |
| 3. Avaliação de risco | O que esperar nas próximas horas? | Agente, dose, tempo, paciente e curso clínico. Define tudo o que vem depois |
| 4. Investigação dirigida | Quais exames mudam a conduta? | Eletrocardiograma, glicemia, eletrólitos, gasometria, ânion gap, paracetamol sérico e beta-hCG |
| 5. Descontaminação | Vale a pena impedir mais absorção? | Decisão baseada em substância, dose, tempo, contraindicações e segurança do procedimento |
| 6. Antídoto | Existe tratamento específico? | Apenas com indicação clara e compatibilidade clínica. Suporte sempre vem antes |
| 7. Eliminação aumentada | Vale retirar o que já foi absorvido? | Doses múltiplas de carvão, alcalinização urinária ou diálise, conforme a cinética do agente |
| 8. Monitorização | O que vigiar e por quanto tempo? | Parâmetros e janela definidos pela avaliação de risco, com reavaliação seriada |
| 9. Disposição | Para onde vai este paciente? | Alta, observação, enfermaria ou terapia intensiva, com avaliação psíquica e notificação |
O que orienta as decisões
Resolve a grande maioria das intoxicações, com ou sem diagnóstico do agente.
A janela de observação depende do agente e da formulação, não de um número fixo.
Em todos. QRS e QT mudam a conduta na primeira hora.
Obrigatória antes da alta em tentativa de suicídio.
Disque-Intoxicação 0800 722 6001, 24 horas, gratuito.
A ressuscitação do intoxicado é diferente
Em 2023 a American Heart Association publicou uma atualização dedicada exclusivamente a parada cardiorrespiratória e toxicidade ameaçadora à vida por intoxicação — a primeira revisão abrangente do tema em treze anos. Ela organiza doze cenários críticos e formaliza o que a toxicologia já praticava.
Três princípios diferenciam essa ressuscitação da convencional. Primeiro, a causa é frequentemente reversível, o que justifica esforço prolongado. Segundo, existem antídotos de ressuscitação que precisam entrar cedo, e não depois de esgotado o algoritmo padrão. Terceiro, a maior parte da evidência se aplica melhor ao estado pré-parada — hipotensão e arritmia refratárias — do que à parada em si, o que significa que a janela de intervenção é antes.
ABCDE toxicológico
- Segurança da cena. Em agrotóxico, corrosivo ou agente volátil, proteção da equipe e descontaminação externa antes do atendimento assistencial.
- Via aérea. Posicionamento, aspiração, cânula orofaríngea e ventilação com bolsa-válvula-máscara. Intube diante de incapacidade de proteção, hipoventilação progressiva ou necessidade de controle.
- Ventilação. Oxigênio suplementar, oximetria e capnografia quando disponível. Lembre que a oximetria não detecta carboxi-hemoglobina nem metemoglobina.
- Circulação. Acesso venoso, cristaloide conforme a volemia, vasopressor quando necessário. Considere que o choque tóxico pode ser distributivo, cardiogênico ou misto.
- GLICEMIA CAPILAR E TEMPERATURA CENTRAL em todos. São os dois exames de beira de leito que mais rapidamente mudam a conduta.
- Eletrocardiograma de 12 derivações precoce, procurando QRS alargado, QT prolongado e arritmias.
- Exame neurológico dirigido: nível de consciência, pupilas, tônus, reflexos e clônus.
- Exposição e descontaminação externa: retire toda a roupa e examine a pele inteira, procurando adesivos transdérmicos, marcas de punção e lesões químicas.
- Antídotos de ressuscitação conforme o cenário, sem aguardar confirmação laboratorial quando a suspeita é forte.
- Acione a toxicologia cedo. Nos casos graves, a decisão sobre terapias avançadas se beneficia de apoio especializado desde o início.
Cenários críticos e conduta específica
| Cenário | Conduta recomendada | Observação importante |
|---|---|---|
| Opioides | Naloxona, ventilação e oxigenação. É a intoxicação mais comum e a que mais responde a antídoto | Titule para restaurar ventilação. Duração menor que a do opioide — vigilância prolongada |
| Betabloqueadores | Insulina em dose alta para hipotensão refratária, associada ou não a vasopressor; glucagon em bolus seguido de infusão; atropina e marca-passo na bradicardia | A emulsão lipídica não é recomendada nesse cenário. Hemodiálise pode ser considerada em atenolol e sotalol |
| Bloqueadores de canal de cálcio | Vasopressor e insulina em dose alta; cálcio; atropina na bradicardia significativa; marca-passo na bradicardia refratária | Doses de insulina até dez vezes maiores que as usadas em emergência diabética. Emulsão lipídica não é rotina |
| Bloqueio de canal de sódio | Ressuscitação padrão acrescida de bicarbonato de sódio. Lidocaína pode ser razoável na cardiotoxicidade por agentes das classes I A e I C | Alvo de sódio até 150 a 155 e pH entre 7,50 e 7,55. A ventilação também manipula o pH |
| Anestésicos locais | Emulsão lipídica a 20% — aqui a indicação é forte, sobretudo na toxicidade por bupivacaína | É o cenário em que a emulsão lipídica tem o melhor respaldo. Fora dele, o benefício é incerto |
| Simpaticomiméticos | Sedação com benzodiazepínico para controlar hipertermia e acidose, prevenir rabdomiólise e permitir avaliação | Resfriamento externo rápido na hipertermia grave é a recomendação de maior respaldo |
| Cianeto | Hidroxocobalamina empiricamente diante de suspeita, sem aguardar confirmação | Nitritos são evitados na vítima de incêndio, pela metemoglobinemia somada à carboxi-hemoglobina |
| Digoxina | Fragmentos Fab antidigoxina na toxicidade ameaçadora à vida; atropina na bradicardia | Plasmaférese não é recomendada |
| Organofosforados | Atropina titulada pela secreção brônquica e pralidoxima, com descontaminação e proteção da equipe | Evite succinilcolina pela colinesterase inibida — prefira rocurônio |
| Metemoglobinemia | Azul de metileno | Cianose que não melhora com oxigênio, com discrepância entre oxímetro e gasometria |
| Benzodiazepínicos | Suporte ventilatório. Flumazenil reverte, mas riscos e contraindicações limitam muito o uso | Sem papel na parada cardiorrespiratória. Considere naloxona associada, pela frequência de coingestão |
| Choque refratário | ECMO venoarterial no choque cardiogênico ou arritmia refratários a medidas farmacológicas | A implementação leva tempo: acione cedo, em quem não responde bem às demais terapias |
Cada card abre o detalhamento com indicação, dose, alvo e cuidados. As doses são referências para adultos: confira a apresentação disponível e o protocolo do seu serviço antes de prescrever.
Ressuscitação avançada
Quatro terapias que separam a ressuscitação toxicológica da convencional — e que precisam ser acionadas antes da parada, não depois.
Suporte de órgãos
As quatro decisões de suporte que aparecem em praticamente todo caso grave, independentemente do agente.
As perguntas que mudam a conduta
A história do intoxicado é notoriamente pouco confiável: o paciente minimiza, esquece, está rebaixado ou tem motivo para omitir. Isso não a torna dispensável — torna necessário buscá-la de várias fontes e tratá-la como hipótese, não como fato.
Nome comercial e princípio ativo, apresentação e concentração. Peça para fotografarem as caixas. Pergunte sobre chás, plantas, produtos de limpeza e agrotóxicos, que raramente aparecem sem serem perguntados.
Estime pela diferença entre o que havia e o que sobrou: conte os comprimidos restantes e confira a data de dispensação na receita. Na dúvida, assuma o pior cenário plausível.
Horário da exposição, não da chegada. Se desconhecido, use o último momento em que o paciente foi visto bem — é o que define a janela de risco.
Via de exposição: oral, inalatória, dérmica, ocular ou parenteral. Dose única ou fracionada ao longo do tempo. Intencional, acidental, ocupacional ou terapêutica.
Idade, peso, comorbidades, gestação, medicações de uso contínuo, tentativas prévias e uso de álcool ou outras substâncias.
Família, socorristas, colegas de trabalho, receitas, prontuário eletrônico e farmácia. Ligue para casa e peça para conferirem o armário de medicamentos.
Pistas do exame e do ambiente
- Retire toda a roupa e examine a pele inteira — adesivos transdérmicos, marcas de punção, lesões químicas, púrpura e sinais de trauma.
- Odores característicos — alho nos organofosforados e no arsênio, amêndoas amargas no cianeto, hálito etílico, acetona na cetoacidose.
- Boca e narinas — queimaduras por cáustico, perfuração de septo, resíduos de pó, queimadura de lábios pelo cachimbo.
- Objetos trazidos — frascos, cartelas, seringas, bilhete. Preserve e registre; podem ter valor pericial.
- Contexto da cena — ambiente fechado, aquecedor, gerador, uso de produtos de limpeza misturados, trabalho rural recente.
- Prontuário eletrônico — medicações prescritas, comorbidades, atendimentos prévios e tentativas anteriores.
- Fundo de olho e pupilas — alterações visuais orientam metanol; pupilas orientam toxíndrome.
Investigação laboratorial dirigida
| Exame | Em quem | Por quê |
|---|---|---|
| Glicemia capilar | Todos | Hipoglicemia imita qualquer quadro e é a causa reversível mais rápida |
| Eletrocardiograma | Todos | QRS alargado indica bloqueio de canal de sódio e bicarbonato; QT longo pede correção de eletrólitos |
| Paracetamol sérico | Toda tentativa de suicídio | Coingestão silenciosa, frequente e tratável. Não depende de história de paracetamol |
| Eletrólitos e função renal | Maioria dos casos | Ânion gap, potássio, e base para decisão sobre diálise |
| Gasometria com lactato | Sintomáticos | Acidose e sua magnitude; lactato desproporcional sugere cianeto, metformina ou monóxido |
| Beta-hCG | Mulheres em idade fértil | Muda investigação, imagem e manejo |
| Creatinoquinase | Agitação, hipertermia, convulsão, imobilização prolongada | Rabdomiólise, frequentemente silenciosa |
| Osmolalidade sérica | Acidose inexplicada | Gap osmolar aponta álcoois tóxicos e antecipa fomepizol e diálise |
| Co-oximetria | Incêndio, cianose, exposição a gás | A oximetria de pulso não detecta carboxi-hemoglobina nem metemoglobina |
| Nível sérico específico | Agentes selecionados | Útil apenas em paracetamol, salicilato, lítio, digoxina, carbamazepina, valproato, ferro, metanol e etilenoglicol |
| Triagem urinária | Raramente | Falso-negativos e falso-positivos frequentes. Não use para excluir nem para decidir conduta |
| Radiografia de abdome | Suspeita específica | Comprimidos radiopacos, pacotes ingeridos, ferro e metais pesados |
Investigação
Quatro frentes de investigação que se complementam — e que juntas substituem com vantagem qualquer painel toxicológico.
Avaliação de risco estruturada
Preencha os cinco eixos do caso. A ferramenta combina o potencial de toxicidade do agente com a magnitude da exposição, o tempo decorrido, o estado clínico atual e os fatores do paciente, e devolve uma faixa de risco com sugestão de monitorização e destino.
Escore de gravidade da intoxicação
O Poison Severity Score, desenvolvido conjuntamente pelo Programa Internacional de Segurança Química e pela associação europeia de centros de toxicologia, gradua a gravidade da intoxicação de 0 a 4. A pontuação final corresponde ao sistema mais acometido, e não à soma. É usado sobretudo para padronizar registro, comunicação e vigilância.
Quanto tempo observar
Não existe um número universal. A janela depende de três coisas: a farmacocinética do agente, a formulação e o momento em que o efeito máximo é esperado. Observar seis horas é adequado para muitos agentes de liberação imediata — e perigosamente insuficiente para vários outros.
Calculadora de tempo de observação
Estima a janela de observação a partir do agente, da formulação e do tempo já decorrido, e mostra quanto ainda falta. Aplica-se ao paciente assintomático ou com sintomas leves — quem já tem toxicidade estabelecida é internado, e a janela deixa de ser a questão.
O que monitorizar
Cardioscopia contínua e eletrocardiograma seriado nos agentes que alargam QRS ou prolongam QT — tricíclicos, antipsicóticos, cloroquina, metadona, antiarrítmicos.
Oximetria contínua e capnografia quando disponível. Frequência respiratória é o parâmetro mais sensível e o mais negligenciado nos depressores do sistema nervoso central.
Nível de consciência com escala padronizada, pupilas e atividade motora. Documente horário de cada reavaliação — a tendência importa mais que o valor isolado.
Central e seriada nos agentes com potencial hipertérmico. Hipertermia de instalação tardia é achado clássico dos estimulantes e dos serotoninérgicos.
Seriada na sulfonilureia, na insulina exógena e no etilismo. A hipoglicemia por sulfonilureia é recorrente e tardia.
Balanço hídrico e creatinina seriada quando há rabdomiólise, hemólise, hipoperfusão ou agente nefrotóxico.
Sinais de que a observação precisa virar internação
- Piora clínica em qualquer momento, ou ausência de melhora quando ela já era esperada.
- Alteração eletrocardiográfica nova — QRS alargando, QT prolongando, arritmia.
- Necessidade de antídoto em infusão contínua ou de doses repetidas.
- Rebaixamento do nível de consciência que exija vigilância de via aérea.
- Instabilidade hemodinâmica, mesmo transitória ou responsiva a volume.
- Hipertermia, convulsão ou rabdomiólise.
- Acidose metabólica que não corrige ou que se aprofunda.
- Lesão de órgão-alvo em qualquer exame seriado.
- Impossibilidade de observação segura no ambiente disponível.
Para onde vai este paciente
Alta da emergência
Assintomático após a janela de observação completa, com sinais vitais normais em reavaliações seriadas, eletrocardiograma normal, exames sem alteração relevante, exposição de baixo risco confirmada, avaliação psíquica concluída e rede de apoio garantida.
Unidade de observação
Sintomas leves em resolução, janela de observação ainda em curso, exposição a agente de liberação prolongada, necessidade de exames seriados ou de reavaliação psiquiátrica em horário posterior.
Enfermaria
Toxicidade estabelecida mas estável, necessidade de antídoto por período prolongado — como a N-acetilcisteína —, distúrbio metabólico em correção, complicação clínica associada ou necessidade de internação psiquiátrica com condição clínica pendente.
Terapia intensiva
Instabilidade hemodinâmica, necessidade de ventilação mecânica ou de vasopressor, arritmia, convulsão recorrente, hipertermia grave, acidose grave, necessidade de diálise, antídoto de alto risco em infusão contínua ou exposição a agente de alta letalidade mesmo com quadro inicial pobre.
Critérios para a alta
- A janela de observação foi cumprida integralmente, considerando agente, formulação e horário real da exposição.
- Sinais vitais normais em pelo menos duas reavaliações separadas, já sem efeito de sedativo administrado no atendimento.
- Eletrocardiograma normal, ou alteração prévia conhecida e inalterada.
- Exames laboratoriais relevantes sem alteração, incluindo paracetamol sérico quando indicado.
- Nível de consciência plenamente recuperado, com deambulação e ingestão oral preservadas.
- AVALIAÇÃO DE RISCO DE SUICÍDIO CONCLUÍDA em toda exposição intencional, com parecer registrado.
- Rede de apoio definida: acompanhante, local seguro e acesso a serviço de saúde.
- Orientação por escrito sobre sinais de alarme e retorno imediato, entregue ao paciente e ao acompanhante.
- Encaminhamento formal para saúde mental, atenção básica ou serviço especializado, com data quando possível.
- Notificação registrada e caso comunicado ao centro de informação toxicológica quando aplicável.
A parte que mais se esquece
Obrigatória em exposição intencional, e deve ser feita com o paciente lúcido e sem sedação residual. Avaliação feita durante o rebaixamento não tem valor. Considere risco de repetição, letalidade do método e intenção declarada.
Retire meios letais do alcance, envolva a família na guarda de medicamentos e oriente prescrição em quantidade limitada. Registre a orientação em prontuário.
Intoxicações exógenas são de notificação compulsória no Brasil. A tentativa de suicídio também. A notificação alimenta a vigilância e ajuda a detectar surtos e produtos adulterados.
Em suspeita de crime, violência, exposição ocupacional ou óbito, preserve frascos e material biológico, registre a cadeia de custódia e comunique conforme a rotina institucional.
Em criança, avalie negligência e acione o conselho tutelar quando indicado. Em idoso e pessoa vulnerável, considere a hipótese de administração intencional por terceiro.
Estabilize antes de transportar, comunique diretamente com o médico receptor, envie a avaliação de risco por escrito e antecipe a deterioração possível durante o trajeto.
Desfecho e continuidade
Quatro tarefas que fecham o atendimento e que costumam ser as primeiras a cair quando o plantão está cheio.
Situações particulares
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Criança pequena | Ingestão exploratória de uma ou duas unidades de medicamento de adulto pode ser letal, pela relação entre dose e peso. | Observação prolongada mesmo se assintomática, sobretudo com tricíclico, bloqueador de canal de cálcio, sulfonilureia, opioide, cânfora e cloroquina. Avalie negligência. |
| Adolescente | Exposição frequentemente intencional e minimizada na história; risco de coingestão e de repetição. | Entreviste a sós em algum momento, rastreie paracetamol independentemente da história e garanta avaliação da saúde mental antes da alta. |
| Idoso | Polifarmácia, interações, menor reserva funcional e apresentação atípica. Erro de dose e confusão entre medicamentos são causas comuns. | Revise a prescrição inteira e considere intoxicação terapêutica crônica, que não tem horário de exposição definido. Limiar mais baixo para internar. |
| Gestante | A melhor conduta para o feto é a estabilização materna. Alguns antídotos têm dados limitados na gestação. | Trate a mãe integralmente, sem retardar antídoto por receio teórico. Avaliação obstétrica e monitorização fetal conforme a idade gestacional. |
| Exposição ocupacional | Agrotóxicos, solventes e gases. O paciente pode contaminar a equipe e outros pacientes. | Descontaminação externa antes do atendimento assistencial, com equipe protegida. Notifique como acidente de trabalho e comunique a vigilância. |
| Vítimas múltiplas | Vários pacientes com quadro semelhante apontam exposição comum — gás, alimento, água ou evento em ambiente fechado. | Não entre no local sem proteção. Acione bombeiros e vigilância. Cefaleia coletiva em ambiente fechado sugere monóxido de carbono. |
| Intoxicação crônica | Lítio, digoxina, carbamazepina, metotrexato e metais pesados podem intoxicar em dose terapêutica, sem evento agudo. | Não há horário de exposição nem janela de observação clássica. A conduta se baseia em nível sérico, função renal e quadro clínico, e a toxicidade ocorre em níveis menores que na aguda. |
| Recusa de tratamento | Paciente que recusa cuidado após exposição intencional, frequentemente com capacidade de decisão comprometida. | Avalie capacidade formalmente, envolva a equipe e a família, e registre. A intoxicação em curso e o risco de morte podem justificar tratamento sem consentimento — discuta com a chefia e a psiquiatria. |
| Recursos limitados | Serviço sem leito monitorizado, sem antídoto ou sem retaguarda de terapia intensiva. | Acione a regulação cedo, antes da deterioração. Estabilize, faça a avaliação de risco por escrito e comunique diretamente com o médico receptor. |
| Paciente sob custódia | História frequentemente omitida, incluindo ingestão de pacotes de drogas. | Priorize o atendimento médico. Considere imagem abdominal diante de quadro inexplicado ou deterioração súbita. |
Erros comuns
- Não fazer a avaliação de risco de forma explícita e conduzir o caso apenas pelo quadro do momento.
- Interpretar paciente assintomático como paciente seguro.
- Dar alta antes de o paciente passar pelo pico esperado do efeito.
- Usar seis horas como janela universal de observação.
- Não considerar a formulação de liberação prolongada ao calcular a janela.
- Deixar de medir a glicemia capilar e a temperatura central.
- Não fazer eletrocardiograma em paciente com quadro aparentemente benigno.
- Não rastrear paracetamol em tentativa de suicídio sem história de paracetamol.
- Confiar na oximetria de pulso em suspeita de monóxido de carbono ou metemoglobinemia.
- Pedir triagem toxicológica urinária esperando que ela mude a conduta.
- Não retirar toda a roupa e perder um adesivo transdérmico.
- Aplicar critérios convencionais de interrupção da reanimação no intoxicado, sem considerar a reversibilidade.
- Acionar ECMO tarde demais, quando a implementação já não é viável.
- Usar emulsão lipídica como terapia genérica, inclusive onde ela é desaconselhada.
- Fazer a avaliação psiquiátrica com o paciente ainda sedado.
- Dar alta sem retirada de meios letais do domicílio e sem encaminhamento formal.
- Deixar de notificar a intoxicação e a tentativa de suicídio.
- Transferir sem estabilizar e sem comunicação direta com o médico receptor.
- Não acionar o centro de informação toxicológica em caso de dúvida.
Resumo do fluxo
- Garanta a segurança da cena e considere descontaminação externa antes da área assistencial.
- RESSUSCITE: via aérea, ventilação, circulação, glicemia capilar e temperatura central, com antídotos de ressuscitação quando indicados.
- Faça o eletrocardiograma de 12 derivações e o exame físico completo, com a roupa retirada.
- Construa a avaliação de risco: agente, dose, tempo, paciente e curso clínico.
- Peça apenas os exames que mudam a conduta, incluindo paracetamol sérico na exposição intencional.
- Decida sobre descontaminação, antídoto e eliminação aumentada — nessa ordem de raridade.
- Defina os parâmetros de monitorização e a janela de observação conforme agente e formulação.
- Reavalie de forma seriada e registre a tendência, não apenas valores isolados.
- Decida o destino pelos critérios de alta, observação, enfermaria ou terapia intensiva.
- Antes de liberar: avaliação psíquica, retirada de meios letais, orientação escrita, encaminhamento e notificação.
Situações particulares
Três contextos em que a avaliação de risco padrão precisa ser explicitamente reconstruída.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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- Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes para o cuidado às pessoas com risco de suicídio e tentativa de suicídio nos serviços de urgência e emergência.
- Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica (RENACIAT) e Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox). Orientações vigentes — Disque-Intoxicação 0800 722 6001.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional, destinada a profissionais de saúde. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. As ferramentas interativas deste artigo não são escores validados — com exceção do escore de gravidade da intoxicação, que é uma ferramenta de registro e não de decisão terapêutica — e servem apenas para organizar o raciocínio. Doses, janelas de observação e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação. Em caso de intoxicação, acione o Centro de Informação e Assistência Toxicológica de referência pelo Disque-Intoxicação, 0800 722 6001. Se você ou alguém que você conhece estiver em sofrimento psíquico, o CVV pode ser acionado pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Informações rápidas
Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Avaliar o risco
A pergunta é o que esperar nas próximas horas, não o que está acontecendo agora. Cinco eixos: agente, dose, tempo, paciente e curso clínico. Eles definem monitorização, exames, janela de observação e destino. Assintomático não é seguro — paracetamol, metanol, ferro e sulfonilureia chegam conversando.
Ressuscitar diferente
Reanimação prolongada é razoável, porque a causa costuma ser reversível. Insulina em dose alta no betabloqueador e no bloqueador de cálcio; bicarbonato no bloqueio de canal de sódio; emulsão lipídica no anestésico local; ECMO venoarterial no choque refratário — acionada cedo, porque leva tempo para montar.
Observar o tempo certo
De 4 a 6 horas resolve muitos agentes de liberação imediata, mas liberação prolongada exige o dobro ou mais. Sulfonilureia, metadona e bloqueadores de canal de cálcio de liberação prolongada pedem 24 horas. A pergunta correta é se o paciente já passou pelo pico esperado.
Decidir o destino
Alta exige janela cumprida, sinais vitais normais em duas reavaliações, eletrocardiograma normal, exames sem alteração e avaliação psíquica com o paciente lúcido. Some retirada de meios letais, orientação escrita, encaminhamento e notificação — que é compulsória.
Números rápidos
Observação padrão: 4 a 6 horas para liberação imediata; o dobro ou mais para liberação prolongada.
Janelas longas: sulfonilureia, metadona, bloqueador de cálcio e betabloqueador de liberação prolongada pedem 24 horas.
Paracetamol: nível sérico a partir de 4 horas da ingestão, em toda tentativa de suicídio.
QRS alargado: acima de 100 a 120 ms indica bicarbonato de sódio 1 a 2 mEq/kg em bolus.
Insulina em dose alta: betabloqueador e bloqueador de canal de cálcio, com doses até 10 vezes as habituais.
Emulsão lipídica: indicação forte no anestésico local; desaconselhada no betabloqueador.
Não esqueça
Assintomático não é sinônimo de seguro.
Nunca dê alta com o paciente na fase ascendente do efeito.
Retire toda a roupa e procure adesivos transdérmicos.
Reanimação prolongada é razoável no intoxicado — a causa costuma ser reversível.
Acione ECMO cedo: a implementação leva tempo.
Avaliação psíquica feita com o paciente sedado não tem valor.
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Em provas / residência
A banca cobra critérios de alta, tempo de observação por classe de agente e as particularidades da ressuscitação toxicológica.
Decore: insulina em dose alta no betabloqueador e no bloqueador de cálcio; bicarbonato no bloqueio de canal de sódio; emulsão lipídica no anestésico local; ECMO venoarterial no choque refratário.
