Síndromes toxicológicas
Na maioria dos atendimentos você não sabe o que o paciente tomou — e não vai descobrir a tempo. A toxíndrome é a ferramenta que resolve isso: um conjunto reconhecível de sinais vitais, pupilas, pele, peristaltismo e estado mental que aponta a classe do agente e a conduta, antes de qualquer exame. Cinco segundos de exame físico dirigido valem mais que um painel toxicológico.
Os cinco pilares
- Estado mental, pupilas e pele
- Peristaltismo e sinais vitais completos
- Temperatura central, não axilar
- O exame vale mais que a triagem urinária
As seis clássicas
- Anticolinérgica e colinérgica
- Simpaticomimética e opioide
- Sedativo-hipnótica e serotoninérgica
- Cada uma com um achado que a define
Os pares que confundem
- Pele seca separa anticolinérgico de simpaticomimético
- Clônus separa serotoninérgico de neuroléptica maligna
- Peristaltismo separa colinérgico de opioide
- Sudorese e miose andam juntas no colinérgico
Agir sem diagnóstico
- Glicemia capilar e oxigênio em todos
- Eletrocardiograma procurando QRS e QT
- Ânion gap e gap osmolar quando há acidose
- Antídoto só com toxíndrome compatível
O que é uma toxíndrome
Toxíndrome é a combinação de sinais e sintomas que resulta do efeito de uma classe farmacológica sobre os sistemas nervoso autônomo e central. Ela não identifica a molécula — identifica o mecanismo, que é exatamente o que orienta a conduta.
Isso importa porque a realidade da emergência é quase sempre a mesma: paciente encontrado inconsciente, história ausente ou não confiável, exame toxicológico indisponível ou pouco útil. Nesse cenário, o exame físico dirigido é o melhor teste diagnóstico disponível — e é imediato.
Os cinco pilares do exame
São cinco domínios que, examinados em sequência, fecham o raciocínio em menos de um minuto.
Deprimido, agitado ou delirante? O delirium agitado com fala arrastada e alucinações táteis é anticolinérgico; a agitação com hipervigilância é simpaticomimética; a depressão sem outros achados é sedativa.
Midríase no anticolinérgico, simpaticomimético e serotoninérgico. Miose no opioide e no colinérgico. Normal na maioria dos sedativos. A miose puntiforme é praticamente patognomônica de opioide.
O achado que mais diferencia. Quente e seca no anticolinérgico; quente e suada no simpaticomimético e no serotoninérgico; fria e encharcada no colinérgico.
Ausente no anticolinérgico e reduzido no opioide; hiperativo com diarreia no colinérgico e no serotoninérgico. Ausculte o abdome — é rápido e decide muito.
Frequência cardíaca, pressão arterial, frequência respiratória e temperatura central. A frequência respiratória é o sinal mais negligenciado e o que mais rapidamente aponta opioide.
Clônus e hiperreflexia apontam serotoninérgico; rigidez em cano de chumbo aponta síndrome neuroléptica maligna; fasciculações apontam colinérgico.
A matriz dos sinais vitais
Esta é a tabela que vale memorizar. As setas indicam o comportamento típico de cada parâmetro em cada toxíndrome.
| Toxíndrome | FC | PA | FR | Temp. | Pupila | Pele |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Anticolinérgica | ↑ | ↑ | = | ↑ | Midríase | Seca |
| Colinérgica | ↓ | ↓ | ↓ | = | Miose | Encharcada |
| Simpaticomimética | ↑ | ↑ | ↑ | ↑ | Midríase | Suada |
| Opioide | ↓ | ↓ | ↓↓ | ↓ | Miose puntiforme | Normal |
| Sedativo-hipnótica | = | = ou ↓ | ↓ | = ou ↓ | Normal | Normal |
| Serotoninérgica | ↑ | ↑ | ↑ | ↑↑ | Midríase | Suada |
| Abstinência de sedativos | ↑ | ↑ | ↑ | ↑ | Midríase | Suada |
Abordagem do paciente intoxicado indiferenciado
- Segurança da equipe. Em suspeita de agrotóxico ou agente corrosivo, use proteção adequada e considere descontaminação externa antes do atendimento assistencial.
- Via aérea, ventilação e circulação, com oxigênio suplementar e monitorização contínua.
- GLICEMIA CAPILAR EM TODOS. Hipoglicemia imita qualquer toxíndrome e é a causa reversível mais rápida de rebaixamento.
- Temperatura central, retal ou esofágica. A axilar subestima e faz perder hipertermia grave.
- Exame dirigido: estado mental, pupilas, pele, peristaltismo, reflexos, tônus e clônus.
- Eletrocardiograma de 12 derivações, procurando QRS alargado, QT prolongado e alterações isquêmicas.
- Naloxona se houver depressão respiratória com miose — titulada para restaurar ventilação, não para despertar.
- Tiamina antes de glicose no paciente com risco de desnutrição ou etilismo crônico.
- Laboratório dirigido: eletrólitos, função renal, gasometria, lactato, ânion gap, e paracetamol sérico em toda tentativa de suicídio.
- Acione o centro de informação toxicológica — o Disque-Intoxicação funciona 24 horas, no 0800 722 6001.
Limites do raciocínio sindrômico
Policonsumo é a regra. Achados contraditórios — miose com taquicardia, agitação com bradipneia — sugerem mais de um agente, e não um exame mal feito.
A toxíndrome muda com o tempo. O simpaticomimético pode virar quadro de exaustão; o anticolinérgico pode iniciar com agitação e evoluir para coma.
Sedativo dado na ambulância, atropina administrada antes da chegada e restrição física alteram completamente o quadro que você examina.
Sepse, traumatismo cranioencefálico, encefalopatia e distúrbio metabólico imitam e se sobrepõem. Toxíndrome não exclui outra doença.
Cada card abre o detalhamento com indicação, dose, alvo e cuidados. As doses são referências para adultos: confira a apresentação disponível e o protocolo do seu serviço antes de prescrever.
Abordagem inicial
O que fazer nos primeiros minutos, antes de saber qual é o agente — e que resolve a maior parte dos casos.
As seis toxíndromes clássicas
Cada uma tem um achado que a define e um erro clássico associado. Conhecer os dois é mais útil do que decorar listas de agentes.
Anticolinérgica
Antagonismo muscarínico
Quadro: delirium agitado com fala arrastada, alucinações visuais e táteis, midríase pouco reativa, pele quente e seca, mucosas secas, retenção urinária, íleo, hipertermia e taquicardia.
Agentes: anti-histamínicos de primeira geração, escopolamina, atropina, antidepressivos tricíclicos, antipsicóticos de baixa potência, antiespasmódicos, Datura (trombeteira).
Achado que define: pele e mucosas secas com retenção urinária.
Colinérgica
Inibição da acetilcolinesterase
Quadro muscarínico: a mnemônica clássica reúne diarreia, sudorese profusa, sialorreia, lacrimejamento, broncorreia, broncoespasmo, miose, bradicardia, vômitos e incontinência urinária.
Quadro nicotínico: fasciculações, fraqueza, cãibras, taquicardia e hipertensão — que podem mascarar o componente muscarínico.
Agentes: organofosforados e carbamatos (o "chumbinho"), gases dos nervos, fisostigmina, alguns cogumelos.
Achado que define: secreções em excesso. A causa de morte é a broncorreia, não a bradicardia.
Simpaticomimética
Excesso de catecolaminas
Quadro: agitação com hipervigilância, midríase reativa, pele quente e úmida, taquicardia, hipertensão, hipertermia, peristaltismo preservado ou aumentado.
Agentes: cocaína, anfetaminas e metanfetamina, MDMA, catinonas sintéticas, cafeína em dose alta, teofilina, descongestionantes.
Achado que define: sudorese preservada — é o que separa do anticolinérgico.
Opioide
Agonismo em receptores mu
Quadro: a tríade clássica é rebaixamento do nível de consciência, miose puntiforme e depressão respiratória. Somam-se hipotermia, bradicardia, hipotensão e redução do peristaltismo.
Agentes: morfina, codeína, tramadol, metadona, fentanil e análogos sintéticos, loperamida em dose alta.
Achado que define: bradipneia. A miose pode faltar com meperidina, tramadol e em coingestões.
Sedativo-hipnótica
Facilitação GABAérgica
Quadro: sonolência despertável, disartria, ataxia, nistagmo, com sinais vitais essencialmente preservados e pupilas normais.
Agentes: benzodiazepínicos, medicamentos Z, barbitúricos, etanol, gama-hidroxibutirato, gabapentinoides.
Achado que define: a ausência de achados autonômicos. Coma profundo com instabilidade sugere barbitúrico ou coingestão.
Serotoninérgica
Excesso de serotonina
Quadro: tríade de alteração do estado mental, hiperatividade autonômica e anormalidade neuromuscular, com clônus e hiperreflexia de predomínio em membros inferiores.
Agentes: inibidores da recaptação de serotonina, inibidores da monoaminoxidase, tramadol, linezolida, triptanos, MDMA, lítio, dextrometorfano.
Achado que define: clônus. Teste no tornozelo — leva cinco segundos e resolve o diferencial.
Os pares que mais confundem
| Par | Por que confunde | O que separa |
|---|---|---|
| Anticolinérgica × simpaticomimética | Ambas com agitação, midríase, taquicardia, hipertensão e hipertermia | Pele e peristaltismo. Seca com íleo é anticolinérgica; suada com peristaltismo presente é simpaticomimética |
| Colinérgica × opioide | Ambas com miose, bradicardia e depressão respiratória | Secreções e peristaltismo. Broncorreia, sialorreia, diarreia e fasciculações são colinérgicas; opioide é "seco e parado" |
| Serotoninérgica × neuroléptica maligna | Ambas com hipertermia, rigidez, alteração mental e instabilidade autonômica | Clônus e tempo. Serotoninérgica instala em horas com clônus e hiperreflexia; neuroléptica maligna instala em dias com rigidez em cano de chumbo e hiporreflexia |
| Simpaticomimética × abstinência de sedativos | Sinais vitais praticamente idênticos | História e temporalidade. Pergunte quando foi a última dose de álcool ou de benzodiazepínico; tremor grosseiro e alucinações visuais favorecem abstinência |
| Sedativo-hipnótica × opioide | Ambas com rebaixamento do nível de consciência | Pupila e frequência respiratória. Miose puntiforme com bradipneia é opioide; pupila normal com respiração preservada é sedativo |
| Anticolinérgica × sepse ou psicose | Delirium agitado com febre e taquicardia | Pele seca, íleo e retenção urinária apontam anticolinérgico. Na dúvida, trate a hipótese infecciosa em paralelo |
Outras síndromes que vale reconhecer
Cianeto e monóxido de carbono. Acidose láctica grave desproporcional ao exame, com saturação de oxigênio normal ou falsamente elevada. Suspeite em incêndio em ambiente fechado e em cefaleia coletiva.
Alucinações com senso de realidade preservado ou parcialmente preservado, midríase, taquicardia leve e sinais autonômicos discretos. LSD, psilocibina, mescalina.
Distonia aguda, torcicolo, crise oculógira, acatisia e parkinsonismo, sem alteração do nível de consciência. Antipsicóticos e metoclopramida. Responde a anticolinérgico e a anti-histamínico.
De álcool, benzodiazepínico e opioide. As duas primeiras podem ser fatais; a terceira é muito sintomática, mas raramente letal em adultos.
Não é toxíndrome clássica, mas o padrão de QRS alargado com onda R em aVR aponta antidepressivo tricíclico, cocaína, difenidramina, cloroquina — e tem tratamento próprio.
Paracetamol, amanitina e paraquat cursam com fase inicial pobre e deterioração em 24 a 72 horas. A ausência de toxíndrome não afasta intoxicação grave.
As quatro síndromes hipertérmicas
São o grupo com maior letalidade e maior chance de erro diagnóstico. Todas cursam com hipertermia, alteração do estado mental e instabilidade autonômica — e cada uma tem tratamento específico diferente.
| Síndrome | Instalação | Achado neuromuscular | Agente | Tratamento específico |
|---|---|---|---|---|
| Serotoninérgica | Horas | Clônus e hiperreflexia, predomínio em membros inferiores | Serotoninérgicos, muitas vezes em associação | Suspender o agente, benzodiazepínico, resfriamento; ciproeptadina nos casos moderados |
| Neuroléptica maligna | Dias a semanas | Rigidez em cano de chumbo, hiporreflexia, bradicinesia | Antipsicóticos; ou retirada abrupta de dopaminérgico | Suspender o agente, benzodiazepínico, resfriamento; bromocriptina ou dantroleno em casos graves |
| Hipertermia maligna | Minutos, no intraoperatório | Rigidez com espasmo de masseter, elevação abrupta do gás carbônico expirado | Anestésicos inalatórios halogenados e succinilcolina | Dantroleno, suspensão do agente, resfriamento e correção da hipercalemia |
| Anticolinérgica | Horas | Sem rigidez, sem clônus; mioclonias podem ocorrer | Anti-histamínicos, escopolamina, tricíclicos, Datura | Benzodiazepínico e resfriamento; fisostigmina em casos selecionados |
| Simpaticomimética | Minutos a horas | Sem rigidez; tremor e agitação intensa | Cocaína, anfetaminas, MDMA, catinonas | Benzodiazepínico titulado e resfriamento agressivo |
Diferenciador das síndromes hipertérmicas
Preencha os achados do caso para ver quais síndromes são mais compatíveis. A ferramenta pondera cada achado e devolve um ranking de compatibilidade — não um diagnóstico.
O que é comum a todas
- MEÇA A TEMPERATURA CENTRAL, retal ou esofágica. A axilar subestima e é a causa mais frequente de hipertermia não reconhecida.
- Suspenda o agente desencadeante imediatamente e revise toda a prescrição.
- Resfriamento ativo quando a temperatura central estiver igual ou acima de 39 °C, com meta abaixo de 38,5 °C o mais rápido possível.
- Benzodiazepínico titulado — reduz a produção endógena de calor pela atividade muscular e é a base do tratamento em quase todas.
- Hidratação com cristaloide e monitorização da diurese, pela rabdomiólise associada.
- Não use antitérmicos: o mecanismo não é o de deslocamento do ponto de ajuste hipotalâmico.
- Casos refratários: intubação com sedação profunda e bloqueio neuromuscular não despolarizante, preferindo rocurônio quando há rabdomiólise ou hipercalemia.
- Monitorize creatinoquinase, potássio, função renal, coagulação e gasometria — a coagulação intravascular disseminada é complicação temida.
Síndromes hipertérmicas
Quatro condutas em que a diferenciação correta muda o tratamento específico — e o desfecho.
Identificador de toxíndrome
Preencha os achados do exame físico. A ferramenta pondera cada item conforme o peso diagnóstico que ele tem em cada toxíndrome e devolve as três hipóteses mais compatíveis, com o achado que confirmaria cada uma e a conduta imediata correspondente.
Como usar o resultado
- Compatibilidade alta em uma hipótese — trate como tal, mas mantenha a investigação aberta e reavalie após cada intervenção.
- Duas hipóteses próximas — procure ativamente o achado que as separa: pele, peristaltismo, clônus ou frequência respiratória.
- Compatibilidade baixa em todas — pense em toxíndrome mista, em modificação por tratamento prévio ou em causa não toxicológica.
- Achados contraditórios — miose com taquicardia, agitação com bradipneia — apontam policonsumo, que é a regra e não a exceção.
- Nunca administre antídoto com base apenas no ranking: confirme a compatibilidade clínica e considere as contraindicações.
Os exames que realmente mudam conduta
A triagem toxicológica urinária quase nunca muda a conduta na emergência. Os exames abaixo, sim — e todos estão disponíveis na maioria dos serviços.
| Exame | O que procura | Consequência prática |
|---|---|---|
| Glicemia capilar | Hipoglicemia, que imita qualquer toxíndrome | Obrigatória em todo rebaixamento. Corrija antes de qualquer outra hipótese |
| Eletrocardiograma | QRS alargado com onda R em aVR; QT prolongado; arritmias | QRS acima de 100 a 120 ms indica bloqueio de canal de sódio e bicarbonato de sódio; QT longo pede correção de potássio e magnésio |
| Gasometria com lactato | Acidose metabólica e sua magnitude | Acidose láctica grave desproporcional ao exame sugere cianeto, metformina ou monóxido de carbono |
| Eletrólitos com ânion gap | Acidose metabólica com ânion gap elevado | Direciona para álcoois tóxicos, salicilato, metformina, ferro e isoniazida |
| Osmolalidade sérica | Gap osmolar elevado | Sugere metanol, etilenoglicol, etanol ou isopropanol — e antecipa fomepizol e diálise |
| Paracetamol sérico | Coingestão silenciosa e tratável | Rastreio em toda tentativa de suicídio por ingestão, mesmo sem história de paracetamol |
| Creatinoquinase | Rabdomiólise | Frequente em agitação, hipertermia e convulsão; orienta hidratação e vigilância renal |
| Co-oximetria | Carboxi-hemoglobina e metemoglobina | A oximetria de pulso não detecta nenhuma das duas e pode dar falsa segurança |
| Beta-hCG | Gestação | Muda investigação, imagem e manejo |
| Triagem urinária | Classes de drogas de abuso | Raramente muda conduta. Falso-negativos e falso-positivos são frequentes; não use para excluir |
Calculadora de ânion gap e gap osmolar
Informe os valores do paciente. O ânion gap é corrigido pela albumina, porque a hipoalbuminemia mascara acidoses com ânion gap elevado — armadilha frequente no paciente crítico.
Acidose com ânion gap elevado: as causas tóxicas
Diante de acidose metabólica com ânion gap elevado em paciente intoxicado, percorra sistematicamente esta lista antes de assumir causa clínica.
- Metanol — acidose grave, alteração visual, gap osmolar elevado. Antídoto: fomepizol ou etanol, com diálise.
- Etilenoglicol — acidose grave, cristais de oxalato na urina, lesão renal aguda, gap osmolar elevado.
- Salicilatos — alcalose respiratória somada a acidose metabólica, zumbido, hipertermia. Alcalinização urinária e diálise nos casos graves.
- Metformina — acidose láctica grave, geralmente com disfunção renal associada. Diálise nos casos graves.
- Ferro — acidose, vômitos, hematêmese, comprimidos radiopacos à imagem. Antídoto: desferroxamina.
- Isoniazida — convulsão refratária com acidose láctica. Antídoto: piridoxina em dose alta.
- Cianeto e monóxido de carbono — lactato muito elevado com exame relativamente pobre.
- Cetoacidose alcoólica — contexto de etilismo, jejum e vômitos, frequentemente confundida com intoxicação.
O eletrocardiograma como exame toxicológico
Bloqueio de canal de sódio. Onda R em aVR maior que 3 mm reforça. Agentes: antidepressivos tricíclicos, cocaína, difenidramina, cloroquina, bupropiona, flecainida. Conduta: bicarbonato de sódio 1 a 2 mEq/kg.
Bloqueio de canal de potássio, com risco de torsades de pointes. Agentes: antipsicóticos, metadona, antiarrítmicos, macrolídeos, antieméticos. Conduta: corrigir potássio e magnésio, suspender o agente.
Betabloqueador, bloqueador de canal de cálcio, digoxina, clonidina, organofosforado, opioide. Cada um tem antídoto ou conduta própria.
Impregnação digitálica com bradiarritmia e extrassístoles; padrão de Brugada induzido por bloqueadores de sódio; isquemia por vasoespasmo na cocaína.
Antídotos por toxíndrome e por agente
Antídoto é a exceção, não a regra: a maioria das intoxicações se trata com suporte. Quando existe, porém, costuma mudar o desfecho de forma decisiva — e o atraso custa caro.
| Agente ou toxíndrome | Antídoto | Observação |
|---|---|---|
| Opioides | Naloxona | Titular para restaurar ventilação, não para despertar. Duração menor que a da maioria dos opioides |
| Organofosforados e carbamatos | Atropina e pralidoxima | Atropina titulada pela secreção brônquica, não pela frequência cardíaca. Pralidoxima apenas nos organofosforados |
| Paracetamol | N-acetilcisteína | Eficácia máxima nas primeiras 8 a 10 horas. Guiada pelo nomograma quando o horário é conhecido |
| Metanol e etilenoglicol | Fomepizol ou etanol | Associar cofatores e considerar hemodiálise. Iniciar antes da confirmação laboratorial quando a suspeita é forte |
| Bloqueio de canal de sódio | Bicarbonato de sódio | 1 a 2 mEq/kg em bolus para QRS acima de 100 a 120 ms, repetido conforme o eletrocardiograma |
| Cianeto | Hidroxocobalamina | Alternativa: tiossulfato de sódio. Suspeite em incêndio em ambiente fechado com lactato muito elevado |
| Monóxido de carbono | Oxigênio a 100% | Câmara hiperbárica em casos selecionados. A oximetria de pulso não detecta carboxi-hemoglobina |
| Metemoglobinemia | Azul de metileno | Cianose que não melhora com oxigênio, com diferença entre a saturação do oxímetro e a da gasometria |
| Betabloqueadores | Glucagon | Associar cálcio, vasopressor e, em casos refratários, insulina em dose alta com glicose |
| Bloqueadores de canal de cálcio | Cálcio e insulina em dose alta | A terapia com insulina em dose alta e glicose é central nos casos graves |
| Digoxina | Fragmentos Fab antidigoxina | Indicado em arritmia ameaçadora, hipercalemia significativa ou ingestão maciça |
| Ferro | Desferroxamina | Casos com acidose, choque ou concentração sérica elevada |
| Isoniazida | Piridoxina | Convulsão refratária a benzodiazepínico. Dose grama a grama da isoniazida ingerida |
| Anticolinérgica | Fisostigmina | Casos selecionados, com delirium puro e sem sinais de bloqueio de canal de sódio no eletrocardiograma |
| Síndrome serotoninérgica | Ciproeptadina | Adjuvante. A base é suspender o agente, sedar com benzodiazepínico e resfriar |
| Benzodiazepínicos | Flumazenil | Raramente indicado. Contraindicado no usuário crônico e na coingestão proconvulsivante |
Regras gerais sobre antídotos
- Suporte primeiro. Nenhum antídoto substitui via aérea, ventilação, volume e correção metabólica.
- Toxíndrome compatível é pré-requisito. Antídoto administrado às cegas troca um risco conhecido por outro desconhecido.
- Titule pelo alvo fisiológico, não pela dose no papel — vale sobretudo para naloxona e atropina.
- Considere a duração relativa: naloxona e flumazenil duram menos que os agentes que antagonizam, e a ressedação é esperada.
- Alguns antídotos têm risco próprio significativo: flumazenil precipita convulsão, fisostigmina pode causar bradicardia e assistolia.
- Não atrase o antídoto esperando confirmação laboratorial quando a suspeita é forte e o tempo importa — como nos álcoois tóxicos e no paracetamol.
- Acione a toxicologia: a decisão sobre antídotos de uso incomum é exatamente o que o centro de informação existe para apoiar.
Antídotos por toxíndrome
Cinco situações em que o antídoto é decisivo — e em que a dose e o alvo de titulação importam tanto quanto a indicação.
Situações particulares
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Criança pequena | Ingestão exploratória de dose única de medicamento de adulto pode ser letal — a chamada regra do "um comprimido pode matar". | Atenção redobrada com antidepressivos tricíclicos, bloqueadores de canal de cálcio, sulfonilureias, opioides, cânfora, teofilina e cloroquina. Observação prolongada mesmo se assintomática. |
| Idoso | Toxíndromes atenuadas ou atípicas; polifarmácia; interações; menor reserva funcional. | Rebaixamento no idoso pode ser intoxicação, sepse, distúrbio metabólico ou as três coisas. Revise a prescrição inteira e considere efeito anticolinérgico somado. |
| Gestante | A melhor conduta para o feto é a estabilização materna. Alguns antídotos têm dados limitados na gestação. | Trate a mãe integralmente, sem retardar antídoto por receio teórico. Associe avaliação obstétrica e monitorização fetal conforme a idade gestacional. |
| Exposição ocupacional | Agrotóxicos, solventes e gases. O paciente pode contaminar a equipe. | Descontaminação externa antes do atendimento assistencial, com equipe protegida. Notifique como acidente de trabalho. |
| Vítimas múltiplas | Vários pacientes com o mesmo quadro apontam exposição comum — gás, alimento, água, evento em ambiente fechado. | Não entre no local sem proteção. Acione bombeiros e vigilância. Cefaleia coletiva em ambiente fechado sugere monóxido de carbono. |
| Paciente sob custódia | História frequentemente omitida, incluindo ingestão de pacotes de drogas. | Priorize o atendimento médico. Considere imagem abdominal diante de toxíndrome inexplicada ou deterioração súbita. |
| Tentativa de suicídio | Coingestão múltipla é a regra; a história é frequentemente incompleta ou minimizada. | Rastreie paracetamol, faça eletrocardiograma e calcule o ânion gap em todos. Avaliação de risco de suicídio antes da alta, com a saúde mental. |
| Intoxicação sem toxíndrome | Paracetamol, metanol, etilenoglicol, paraquat, amanitina e ferro cursam com fase inicial pobre e deterioração tardia. | Ausência de toxíndrome não afasta intoxicação grave. Baseie-se na história, no laboratório e no tempo decorrido. |
| Toxíndrome mista | Achados contraditórios, com compatibilidade baixa em todas as hipóteses. | Trate o achado mais ameaçador primeiro — via aérea, convulsão, arritmia, hipertermia — e reavalie com frequência. |
| Uso de plantas e produtos caseiros | Datura (trombeteira) causa toxíndrome anticolinérgica intensa; chumbinho é carbamato; produtos de limpeza misturados liberam gases irritantes. | Pergunte ativamente sobre chás, plantas e produtos domésticos. É informação que raramente aparece sem ser solicitada. |
Erros comuns
- Iniciar o raciocínio sindrômico antes de estabilizar via aérea, ventilação e circulação.
- Deixar de medir a glicemia capilar em paciente com rebaixamento do nível de consciência.
- Medir apenas a temperatura axilar e perder uma hipertermia grave.
- Não auscultar o abdome — o peristaltismo separa toxíndromes que os sinais vitais não separam.
- Não tocar a pele do paciente e confundir anticolinérgico com simpaticomimético.
- Não testar clônus e confundir síndrome serotoninérgica com neuroléptica maligna.
- Excluir intoxicação porque a triagem urinária veio negativa.
- Confiar na oximetria de pulso em suspeita de monóxido de carbono ou metemoglobinemia.
- Usar flumazenil como teste diagnóstico em coma de causa indeterminada.
- Titular atropina pela frequência cardíaca em vez da secreção brônquica na intoxicação colinérgica.
- Não fazer eletrocardiograma em paciente com toxíndrome aparentemente benigna.
- Não rastrear paracetamol em tentativa de suicídio sem história de paracetamol.
- Não calcular o ânion gap diante de acidose metabólica em paciente intoxicado.
- Interpretar gap osmolar normal como exclusão de intoxicação por álcool tóxico.
- Usar dantroleno como tratamento genérico de hipertermia.
- Prescrever antipsicótico para agitação em síndrome hipertérmica.
- Fechar o diagnóstico na toxíndrome e deixar de investigar sepse, trauma e causa metabólica.
- Não acionar o centro de informação toxicológica em caso de dúvida.
Resumo do fluxo
- Proteja a equipe e considere descontaminação externa antes de trazer o paciente para a área assistencial.
- ESTABILIZE: via aérea, ventilação, circulação, glicemia capilar e temperatura central vêm antes de qualquer raciocínio sindrômico.
- Faça o exame dirigido dos cinco pilares: estado mental, pupilas, pele, peristaltismo e sinais vitais completos.
- Acrescente o exame neuromuscular: clônus, rigidez, fasciculações e tremor.
- Formule a hipótese sindrômica e identifique o achado que a confirmaria ou a afastaria.
- Faça eletrocardiograma em todos e colha laboratório dirigido, com paracetamol em tentativa de suicídio.
- Calcule ânion gap e, quando houver acidose inexplicada, gap osmolar.
- Trate a toxíndrome: suporte sempre, antídoto quando houver indicação clara e compatibilidade clínica.
- Reavalie com frequência — a toxíndrome muda com o tempo e com o tratamento administrado.
- Acione o centro de informação toxicológica, avalie risco de suicídio e defina destino e seguimento.
Situações particulares
Três contextos em que o raciocínio padrão precisa ser explicitamente ajustado.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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- Ministério da Saúde e Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica (RENACIAT). Orientações vigentes sobre atendimento ao paciente intoxicado — Disque-Intoxicação 0800 722 6001.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional, destinada a profissionais de saúde. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. As ferramentas interativas deste artigo não são escores validados e servem apenas para organizar o raciocínio. Doses e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação. Em caso de intoxicação, acione o Centro de Informação e Assistência Toxicológica de referência pelo Disque-Intoxicação, 0800 722 6001. Se você ou alguém que você conhece estiver em sofrimento psíquico, o CVV pode ser acionado pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Informações rápidas
Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Os cinco pilares
Estado mental, pupilas, pele, peristaltismo e sinais vitais completos, incluindo temperatura central e frequência respiratória. Some o exame neuromuscular: clônus, rigidez, fasciculações e tremor. Isso leva menos de um minuto e vale mais que qualquer triagem urinária.
As seis clássicas
Anticolinérgica (pele seca, íleo, retenção), colinérgica (secreções, miose, fasciculações), simpaticomimética (suor, midríase, hipertermia), opioide (miose puntiforme, bradipneia), sedativo-hipnótica (sonolência sem achado autonômico) e serotoninérgica (clônus e hiperreflexia).
Os pares que confundem
Pele seca separa anticolinérgico de simpaticomimético. Secreções e peristaltismo separam colinérgico de opioide. Clônus separa serotoninérgica de neuroléptica maligna. Pupila e frequência respiratória separam opioide de sedativo.
Agir sem diagnóstico
Glicemia capilar, oxigênio, temperatura central e eletrocardiograma em todos. Naloxona se houver bradipneia com miose. Nada de flumazenil como teste diagnóstico. Rastreie paracetamol em toda tentativa de suicídio e calcule o ânion gap diante de acidose.
Números rápidos
Pele: seca é anticolinérgico; suada é simpaticomimético; encharcada é colinérgico.
Pupilas: miose puntiforme com bradipneia é opioide até prova em contrário.
Neuromuscular: clônus é serotoninérgico; rigidez em cano de chumbo é neuroléptica maligna.
QRS alargado: acima de 100 a 120 ms indica bicarbonato de sódio 1 a 2 mEq/kg em bolus.
Ânion gap: normal de 8 a 12 mEq/L; some 2,5 para cada 1 g/dL de albumina abaixo de 4.
Gap osmolar: acima de 10 mOsm/kg sugere álcool tóxico; normal não exclui chegada tardia.
Não esqueça
Glicemia capilar e temperatura central em todos.
Ausculte o abdome — o peristaltismo decide o que os sinais vitais não decidem.
As intoxicações mais letais frequentemente não têm toxíndrome: paracetamol, metanol, paraquat.
Triagem urinária negativa não exclui intoxicação.
Oximetria de pulso não detecta carboxi-hemoglobina nem metemoglobina.
A toxíndrome abre o raciocínio; não o fecha. Sepse e trauma coexistem.
Artigos relacionados
Em provas / residência
A banca cobra a diferenciação entre anticolinérgico e simpaticomimético pela pele, e entre serotoninérgica e neuroléptica maligna pelo clônus e pelo tempo de instalação.
Decore: a mnemônica colinérgica das secreções; QRS alargado pede bicarbonato de sódio; gap osmolar elevado aponta álcool tóxico; oximetria normal não afasta monóxido de carbono.
