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Cocaína e estimulantes

Não existe antídoto. O tratamento da toxíndrome simpaticomimética se apoia em três pilares que funcionam quase sempre: benzodiazepínico titulado, resfriamento agressivo e correção das complicações de órgão-alvo. O erro que mata não é a droga em si — é deixar de medir a temperatura central, subdosar a sedação e tratar o paciente como caso psiquiátrico.

Benzodiazepínico é a base Temperatura central sempre ECG em todos Betabloqueador na fase aguda: não
Tempo de leitura: 18 min
Atualizado em: 17/08/2026

Reconhecer

  • Agitação, midríase, taquicardia, hipertensão
  • Pele quente e suada — o que separa do anticolinérgico
  • Hipertermia é o sinal de maior letalidade
  • Não confie no exame toxicológico para decidir

Sedar

  • Benzodiazepínico é a primeira linha, sem exceção
  • Titular a cada 5 a 10 minutos até o paciente acalmar
  • Subdosar é o erro mais comum de todos
  • Cetamina quando a agitação impede o cuidado

Resfriar

  • Temperatura central retal ou esofágica, não axilar
  • Acima de 40 °C: emergência de minutos
  • Imersão em água gelada é o método mais rápido
  • Antitérmico não funciona nesse contexto

Procurar as lesões

  • ECG, troponina, CK, sódio, função renal
  • Isquemia miocárdica, AVC, dissecção de aorta
  • Rabdomiólise e lesão renal aguda
  • Hiponatremia grave nos casos de MDMA

A toxíndrome simpaticomimética

Cocaína, anfetaminas e catinonas sintéticas compartilham um mesmo desfecho fisiológico: excesso de catecolaminas na fenda sináptica. O quadro resultante é estereotipado e reconhecível à beira do leito, independentemente de qual substância específica foi usada — e é por isso que o tratamento inicial é o mesmo para todas.

Os cinco pilares da toxíndrome são agitação, taquicardia, hipertensão, midríase e hipertermia com sudorese. O detalhe que mais orienta na prática é a pele: quente e úmida na toxíndrome simpaticomimética, quente e seca na anticolinérgica. Junto disso, o peristaltismo costuma estar preservado ou aumentado, ao contrário do íleo anticolinérgico.

Não existe antídoto. O que salva vida é sedação adequada com benzodiazepínico, resfriamento agressivo quando há hipertermia e o tratamento das complicações de órgão-alvo. Tratar esse paciente como "surto psiquiátrico" e contê-lo fisicamente sem sedar é uma das sequências de eventos mais letais da emergência.

Por que acontece

Os mecanismos diferem entre as classes, e isso tem consequência clínica direta:

  • Cocaína — bloqueia a recaptação de noradrenalina, dopamina e serotonina, e ainda bloqueia os canais rápidos de sódio (efeito de anestésico local). Esse segundo mecanismo é o que explica o alargamento do QRS e as arritmias de complexo largo.
  • Anfetaminas e metanfetamina — promovem liberação maciça de catecolaminas e revertem o sentido dos transportadores; o efeito é mais prolongado que o da cocaína.
  • MDMA — predomínio serotoninérgico, com risco adicional de síndrome serotoninérgica, hipertermia extrema e hiponatremia.
  • Catinonas sintéticas — potência variável e imprevisível, agitação prolongada e ausência de detecção nos exames de triagem habituais.
O que faz o paciente morrer

Em ordem prática de urgência: hipertermia não reconhecida, arritmia ventricular, evento neurológico agudo, isquemia miocárdica e rabdomiólise com lesão renal. Todas essas complicações pioram com agitação persistente — o que faz da sedação uma medida terapêutica, e não apenas de contenção.

Cocaína e álcool: cocaetileno

Quando cocaína e álcool são usados juntos — combinação muito comum —, o fígado produz cocaetileno, metabólito ativo com meia-vida mais longa que a da cocaína e cardiotoxicidade pelo menos equivalente. Isso amplia a janela de risco cardiovascular e ajuda a explicar por que o paciente pode piorar horas depois de "já estar melhorando".

Adulterantes: o que vem junto

A cocaína de rua raramente é pura. No Brasil já foram documentados levamisol, cafeína, fenacetina, lidocaína e fármacos diversos nas amostras apreendidas. Em junho de 2026, a Senad emitiu alerta nacional após a confirmação de fentanil misturado à cocaína em apreensão no Espírito Santo — descrito até então como caso isolado, mas suficiente para mudar o raciocínio à beira do leito.

Paciente que usou "cocaína" mas chega com miose, bradipneia e rebaixamento não tem toxíndrome simpaticomimética: pense em opioide adulterante e considere naloxona.

O que importa na primeira hora

A avaliação inicial é curta e tem alvos definidos. Cada item abaixo corresponde a uma decisão que muda conduta imediatamente.

Temperatura central

Retal ou esofágica. A axilar subestima e atrasa o diagnóstico de hipertermia.

Glicemia capilar

Obrigatória em todo agitado: hipoglicemia imita e agrava qualquer quadro.

ECG de 12 derivações

Procure QRS largo, QT longo e alterações isquêmicas.

Sedação titulada

Benzodiazepínico repetido a cada 5 a 10 minutos até controle da agitação.

Laboratório dirigido

Sódio, potássio, função renal, CK, troponina, gasometria e lactato.

Regra prática: sedar bem resolve a maior parte do resto. Frequência cardíaca, pressão arterial, temperatura, consumo de oxigênio e produção de lactato caem juntos quando a agitação cede. Antes de escalar para vasodilatador ou antiarrítmico, pergunte-se se a dose de benzodiazepínico já foi realmente suficiente.

Diferenciar das toxíndromes vizinhas

Toxíndrome Pele e pupilas Achado que diferencia Exemplos
Simpaticomimética Pele quente e suada, midríase reativa Peristaltismo preservado ou aumentado; agitação com hipertensão e taquicardia Cocaína, anfetaminas, MDMA, catinonas
Anticolinérgica Pele quente e seca, midríase pouco reativa Retenção urinária, íleo, mucosas secas, delirium com fala arrastada Anti-histamínicos, escopolamina, antidepressivos tricíclicos
Serotoninérgica Sudorese, midríase Clônus e hiperreflexia com predomínio em membros inferiores; rigidez MDMA, inibidores da recaptação de serotonina, linezolida, tramadol
Abstinência de álcool ou benzodiazepínico Sudorese profusa, midríase Tremor grosseiro, relação temporal com a última dose, alucinações visuais Etanol, benzodiazepínicos, barbitúricos
Síndrome neuroléptica maligna Sudorese, pupilas normais Rigidez em "cano de chumbo", instalação em dias, uso de antipsicótico Haloperidol, antipsicóticos atípicos
Hipoglicemia, sepse, meningoencefalite, hemorragia subaracnóidea, tempestade tireotóxica e traumatismo cranioencefálico entram no diferencial de todo agitado hipertérmico. Atribuir o quadro à droga sem excluir essas causas é uma das armadilhas mais frequentes.

As principais substâncias

O tratamento inicial é comum a todas, mas conhecer as particularidades muda o tempo de observação, os exames pedidos e as complicações procuradas ativamente.

Cocaína (cloridrato)

Inalação nasalEndovenosa

Por via nasal, o efeito começa em minutos e dura cerca de 1 a 2 horas; por via endovenosa, o início é em segundos e o efeito é mais curto e intenso. A meia-vida é curta, mas os metabólitos permanecem detectáveis por dias.

Particularidade: bloqueio de canais de sódio com risco de QRS alargado e arritmia; vasoespasmo coronariano e cerebral; perfuração do septo nasal no uso crônico.

Crack (cocaína base)

Fumado

Absorção pulmonar quase instantânea, pico em segundos e duração muito curta — o que favorece o uso repetido em sequência e a escalada rápida de dose.

Particularidade: lesão pulmonar aguda ("pulmão do crack"), pneumotórax e pneumomediastino por manobra de Valsalva, queimadura de lábios e via aérea, alta prevalência de comorbidade social e infecciosa.

Metanfetamina e anfetaminas

FumadoOralEndovenosa

Duração de efeito muito mais longa que a da cocaína — frequentemente de 8 a 12 horas ou mais —, o que prolonga a janela de agitação, hipertermia e demanda de sedação.

Particularidade: psicose por estimulante com alucinações e paranoia que podem persistir por dias; cardiomiopatia e hipertensão pulmonar no uso crônico; grave deterioração dentária.

MDMA (ecstasy, "bala")

OralContexto de festa

Efeito entactogênico com forte componente serotoninérgico. O contexto de uso — esforço físico prolongado, ambiente quente, ingestão excessiva de água livre — é parte da fisiopatologia das complicações.

Particularidade: hiponatremia por secreção inapropriada de hormônio antidiurético somada a ingestão de água; hipertermia extrema; síndrome serotoninérgica; hepatotoxicidade.

Catinonas sintéticas

Novas substâncias psicoativas

Vendidas sob nomes comerciais variados e com composição instável entre lotes. A duração e a intensidade dos efeitos são imprevisíveis.

Particularidade: agitação intensa e prolongada, com necessidade de doses de sedativo muito acima do habitual; não são detectadas nos testes de triagem para anfetaminas; alto potencial de hipertermia e rabdomiólise.

Estimulantes de prescrição

MetilfenidatoLisdexanfetamina

Superdosagem intencional ou acidental, uso não médico para desempenho acadêmico e ingestão acidental em crianças. O quadro é o mesmo, geralmente mais brando, mas a apresentação de liberação prolongada exige observação estendida.

Particularidade: em formulações de liberação prolongada, o pico pode ocorrer tardiamente — não libere o paciente com base apenas nas primeiras horas.

Tempo de efeito e janela de risco

Substância e via Início Duração aproximada Implicação prática
Cocaína nasal3 a 5 minutos1 a 2 horasRisco cardiovascular concentrado nas primeiras horas, mas o vasoespasmo pode persistir além do efeito eufórico
Crack fumadoSegundos15 a 30 minutosUso repetitivo em sequência; avalie o total consumido, não a última dose
Cocaína endovenosaSegundos20 a 40 minutosMaior risco de arritmia e de complicações infecciosas do acesso
MetanfetaminaMinutos (fumada) a 30 minutos (oral)8 a 12 horas ou maisSedação e monitorização por período muito mais longo
MDMA oral30 a 60 minutos4 a 6 horasDosar sódio; atenção ao redose, comum nesse contexto
Catinonas sintéticasVariávelImprevisível, frequentemente prolongadaPlaneje sedação escalonada e leito monitorizado
Os tempos são aproximados e servem para planejar observação, não para liberar paciente. Policonsumo é a regra: álcool, benzodiazepínico, maconha e opioide costumam estar associados e alteram tanto a apresentação quanto a duração.

Adulterantes e contaminantes

Levamisol

Anti-helmíntico usado como adulterante e já identificado em cocaína apreendida com usuários no Brasil. Causa agranulocitose e vasculite cutânea com púrpura retiforme, tipicamente em orelhas, nariz e face. Diante de neutropenia febril inexplicada em usuário de cocaína, pense nele.

Fentanil e nitazenos

Alerta nacional da Senad em junho de 2026 após confirmação de fentanil misturado à cocaína em apreensão no Espírito Santo, descrito como caso isolado. Muda o raciocínio: agitação que evolui para rebaixamento com miose e bradipneia pede naloxona.

Cafeína e fenacetina

Adulterantes de volume frequentes. A cafeína soma efeito estimulante e ajuda a explicar taquicardia desproporcional; a fenacetina tem potencial nefrotóxico e metemoglobinizante.

Anestésicos locais

Lidocaína e benzocaína são adicionados para reproduzir o efeito anestésico da mucosa. A benzocaína pode causar metemoglobinemia: cianose que não melhora com oxigênio e diferença entre a saturação do oxímetro e a da gasometria.

O paciente não sabe o que usou, e o traficante também não. Trate a síndrome clínica que está na sua frente e mantenha aberta a hipótese de coingestão com efeito oposto — sobretudo opioide.

O que o exame toxicológico responde — e o que não responde

Situação O que esperar Consequência prática
Triagem urinária para cocaínaDetecta o metabólito benzoilecgonina por cerca de 2 a 4 dias, e por mais tempo em uso pesado e crônicoUm resultado positivo não prova que o quadro atual é por cocaína — pode refletir uso de dias atrás
Triagem para anfetaminasSujeita a falso-positivo com bupropiona, pseudoefedrina, selegilina e outros fármacosConfirme com a clínica e com a história; não rotule o paciente por um resultado isolado
Catinonas e novas substânciasHabitualmente não detectadas nos painéis de triagemUm exame negativo não exclui intoxicação por estimulante
Quantificação séricaSem correlação útil com gravidade e sem disponibilidade em tempo hábilNão deve orientar decisão terapêutica na emergência
O exame toxicológico raramente muda a conduta na emergência. Os exames que realmente mudam são glicemia, sódio, potássio, função renal, CK, troponina, ECG e gasometria.

Avaliação inicial estruturada

Este é um dos poucos cenários em que sedar faz parte da avaliação, e não vem depois dela. Sem controle da agitação não há exame físico confiável, não há acesso venoso, não há ECG interpretável e não há resfriamento eficaz.

  1. Segurança da cena e da equipe. Ambiente com espaço, número suficiente de profissionais e material de sedação preparado antes da abordagem.
  2. MEÇA A TEMPERATURA CENTRAL, retal ou esofágica. A axilar subestima e é a causa mais frequente de hipertermia não reconhecida.
  3. Glicemia capilar em todo paciente agitado ou com nível de consciência alterado.
  4. Sedação com benzodiazepínico, titulada e repetida a cada 5 a 10 minutos até obter um paciente calmo e cooperativo.
  5. Monitorização contínua com oximetria, cardioscopia, pressão arterial e temperatura seriada.
  6. Acesso venoso e cristaloide; hidratação orientada pelo estado volêmico e pela presença de rabdomiólise.
  7. ECG de 12 derivações em todos: avalie duração do QRS, intervalo QT corrigido e alterações do segmento ST.
  8. Exame físico completo após a sedação, incluindo pele, narinas, marcas de punção, sinais de trauma e exame neurológico dirigido.
  9. Laboratório e imagem conforme o quadro, com limiar baixo para tomografia de crânio diante de cefaleia intensa, déficit focal ou rebaixamento persistente.
Contenção física sem sedação é perigosa. A luta contra a contenção aumenta produção de calor, lactato e potássio, e há relatos consistentes de parada cardiorrespiratória nesse contexto. Se for necessário conter, contenha e sede imediatamente, mantendo o paciente em decúbito dorsal ou lateral, nunca em prona com pressão sobre o tórax, sob monitorização contínua.

Achados de exame que orientam

Pupilas e pele

Midríase reativa com pele quente e úmida confirmam o padrão simpaticomimético. Pele seca aponta para anticolinérgico; miose aponta para opioide associado.

Reflexos e clônus

Hiperreflexia com clônus, sobretudo em membros inferiores, sugere componente serotoninérgico — típico do MDMA e das associações com antidepressivos.

Narinas e boca

Perfuração ou ulceração do septo nasal no uso crônico inalado; queimaduras de lábios e orofaringe no uso de crack.

Ausculta e pulsos

Sopro novo levanta a hipótese de endocardite no usuário endovenoso. Assimetria de pulsos ou de pressão entre membros levanta dissecção de aorta.

Pele e extremidades

Púrpura retiforme em orelhas e nariz sugere vasculite por levamisol. Marcas de punção e celulite orientam investigação infecciosa.

Exame neurológico

Qualquer déficit focal, rigidez de nuca ou cefaleia em trovoada muda a investigação: pense em AVC, hemorragia intracraniana e hemorragia subaracnóidea.

Exames complementares

Exame Por que pedir O que fazer com o resultado
Glicemia capilarHipoglicemia imita e agrava qualquer agitaçãoCorrigir imediatamente antes de qualquer outra hipótese
ECGBloqueio de canal de sódio, prolongamento do QT e isquemiaQRS acima de 100 a 120 ms indica bicarbonato de sódio; alteração isquêmica ativa o protocolo de dor torácica
Eletrólitos e sódioHiponatremia grave é típica do MDMA; potássio se altera na rabdomióliseSódio abaixo de 125 mmol/L com sintoma neurológico exige salina hipertônica
Creatinoquinase (CK)Rabdomiólise é frequente e frequentemente silenciosaValores muito elevados exigem hidratação vigorosa e controle de diurese
Ureia e creatininaLesão renal aguda por rabdomiólise, hipovolemia e vasoconstriçãoOrienta volume, monitorização e necessidade de nefrologia
TroponinaIsquemia miocárdica por vasoespasmo, trombose e demanda aumentadaElevação com clínica compatível ativa o protocolo de síndrome coronariana
Gasometria e lactatoAcidose metabólica da agitação, hipoperfusão e convulsãoAcidose persistente após sedação obriga a procurar outra causa
HemogramaNeutropenia por levamisol; infecção associadaAgranulocitose exige suspensão da exposição e manejo de neutropenia febril
Tomografia de crânioCefaleia intensa, déficit focal, convulsão de início recente ou rebaixamento persistenteDiagnóstico de hemorragia, AVC isquêmico e outras lesões estruturais
Beta-hCGToda mulher em idade fértilMuda a investigação, a imagem escolhida e o manejo obstétrico
Radiografia simples ou tomografia de abdome entram quando há suspeita de transporte de pacotes no trato gastrointestinal, dor abdominal desproporcional ou suspeita de isquemia mesentérica.

Sinais de alarme imediatos

  • Temperatura central igual ou acima de 40 °C — emergência absoluta, com resfriamento em minutos.
  • Convulsão — sobretudo se recorrente ou prolongada; procure hiponatremia e lesão intracraniana.
  • QRS alargado ou arritmia ventricular — efeito de bloqueio de canal de sódio da cocaína.
  • Dor torácica com alteração isquêmica — vasoespasmo, trombose ou dissecção de aorta.
  • Déficit neurológico focal ou cefaleia em trovoada — AVC isquêmico, hemorragia intraparenquimatosa ou subaracnóidea.
  • Rebaixamento com miose e bradipneia — opioide associado; considere naloxona.
  • Oligúria com urina escura — rabdomiólise com risco de lesão renal aguda.
  • Rigidez muscular com clônus — síndrome serotoninérgica sobreposta.
  • Dor abdominal desproporcional ao exame — isquemia mesentérica ou ruptura de pacote ingerido.

Estratificando a gravidade

Não existe escore validado universalmente aceito para intoxicação por estimulantes. O que existe é um conjunto de marcadores de disfunção orgânica bem estabelecidos, que orientam intensidade de monitorização e local de internação. As faixas abaixo organizam esses marcadores.

Leve — observação em sala com monitorização

Agitação leve que responde a ambiente calmo e a uma ou duas doses de benzodiazepínico; temperatura normal; sem dor torácica; ECG sem alterações; sinais vitais que normalizam com a sedação. Observação de algumas horas, com reavaliação antes da alta.

Moderada — leito monitorizado e reavaliação seriada

Agitação que exige doses repetidas de sedativo; temperatura entre 38,5 e 39,9 °C; hipertensão sustentada; taquicardia persistente; CK elevada; dor torácica sem alteração isquêmica documentada. Exige laboratório, ECG seriado e observação prolongada.

Grave ou crítica — vaga em terapia intensiva

Temperatura igual ou acima de 40 °C, convulsão, arritmia ou QRS alargado, isquemia miocárdica, déficit neurológico focal, rebaixamento persistente, rabdomiólise com lesão renal, hiponatremia sintomática ou necessidade de sedação profunda e via aérea avançada.

Organizador de gravidade — marque o que está presente

12 marcadores Itens críticos escalonam sozinhos Sugere o nível de cuidado

Os itens marcados com peso 3 são críticos: a presença de qualquer um deles já classifica o caso como grave, independentemente do total. Esta ferramenta não é um escore validado — é um organizador de raciocínio construído a partir dos marcadores de gravidade reconhecidos na literatura de toxicologia clínica.

Itens críticos (peso 3)

Itens maiores (peso 2)

Itens menores (peso 1)

Pontuação total
0
Sem marcadores de gravidade
Observação com monitorização e reavaliação antes da alta
Ferramenta de apoio ao raciocínio, sem validação prospectiva. O julgamento clínico, o contexto social e a disponibilidade de retaguarda prevalecem sobre qualquer pontuação. Um paciente sem nenhum marcador mas sem condições de observação segura também pode precisar de internação.

Calculadora de doses por peso

Sedação Bicarbonato Volume e diurese

Informe o peso para converter as doses habituais em miligramas e mililitros. Os valores são faixas de referência para adultos e devem ser conferidos com o protocolo do seu serviço e com a apresentação disponível.

Midazolam EV (0,05–0,1 mg/kg)
Cetamina EV (1–2 mg/kg)
Cristaloide inicial (20 mL/kg)
Detalhamento

Diazepam é prescrito em dose fixa, e não por peso: 5 a 10 mg por via endovenosa lenta, repetidos a cada 5 a 10 minutos conforme a resposta. Não existe teto rígido — o alvo é o paciente calmo, com via aérea preservada e sinais vitais em queda. Titule sempre com material de via aérea disponível.

Cardiovasculares

A dor torácica é a queixa mais comum do usuário de cocaína na emergência. A maioria não tem infarto, mas a minoria que tem costuma ser jovem, sem fatores de risco clássicos e com apresentação atípica — o que favorece o subdiagnóstico.

Complicação Mecanismo Pontos de atenção
Isquemia e infartoVasoespasmo coronariano, aumento do consumo de oxigênio, agregação plaquetária e trombose; aterosclerose acelerada no uso crônicoRisco maior nas primeiras horas, mas o vasoespasmo pode recorrer. Benzodiazepínico e nitrato antes de escalar
ArritmiasBloqueio de canais de sódio (QRS largo) e de canais de potássio (QT longo), somados ao excesso adrenérgicoQRS acima de 100 a 120 ms indica bicarbonato de sódio; corrija potássio e magnésio
Dissecção de aortaPico hipertensivo abrupto sobre parede arterial vulnerávelDor lacerante com irradiação dorsal, assimetria de pulsos ou de pressão; angiotomografia sem demora
Emergência hipertensivaEstimulação alfa-adrenérgica intensaTrate primeiro com benzodiazepínico; se persistir, vasodilatador. Betabloqueador isolado é evitado na fase aguda
CardiomiopatiaToxicidade direta e isquemia repetida no uso crônicoConsidere ecocardiograma em usuário crônico com dispneia ou sinais de insuficiência cardíaca
EndocarditeUso endovenoso com inóculo bacterianoFebre com sopro novo em usuário endovenoso exige hemoculturas e ecocardiograma
Pacientes com dor torácica associada à cocaína, ECG sem isquemia e marcadores seriados negativos ao longo de 9 a 12 horas de observação apresentam taxa muito baixa de eventos cardíacos a curto prazo, e podem ser encaminhados para seguimento ambulatorial — desde que a orientação sobre cessação seja explícita, já que a persistência do uso é o principal determinante de novos eventos.

Neurológicas

Convulsão

Pode ser precoce, por efeito direto, ou tardia, por hipertermia, hiponatremia ou lesão estrutural. Primeira linha é benzodiazepínico. Convulsão recorrente ou de início tardio obriga a procurar causa secundária.

AVC hemorrágico

Hemorragia intraparenquimatosa e subaracnóidea por pico hipertensivo, frequentemente sobre malformação prévia. Cefaleia em trovoada exige tomografia.

AVC isquêmico

Vasoespasmo, vasculite e cardioembolia. O uso de cocaína não é contraindicação absoluta à trombólise, mas exige exclusão cuidadosa de hemorragia e controle pressórico rigoroso.

Psicose por estimulante

Alucinações e paranoia que podem persistir por dias após a metanfetamina. Exclua causa orgânica antes de rotular como quadro psiquiátrico primário.

Fenitoína não é a escolha em convulsão induzida por toxinas: além de eficácia questionável nesse contexto, o bloqueio adicional de canais de sódio é indesejável na intoxicação por cocaína. Após o benzodiazepínico, prefira fenobarbital ou levetiracetam, conforme o protocolo do serviço.

Hipertermia, rabdomiólise e rim

A tríade que mais frequentemente leva à terapia intensiva. A hipertermia decorre do aumento da produção de calor pela atividade muscular somado à vasoconstrição cutânea, que impede a dissipação — por isso o antitérmico não funciona: não há ponto de ajuste hipotalâmico deslocado.

  • Meça a temperatura central. Acima de 40 °C, o tempo até o resfriamento é o principal determinante de desfecho.
  • Resfriamento ativo imediato, com meta de temperatura abaixo de 38,5 °C o mais rápido possível.
  • Sedação profunda reduz a produção endógena de calor e é parte do tratamento da hipertermia.
  • Rabdomiólise deve ser procurada ativamente: CK, potássio, cálcio, fósforo, função renal e aspecto da urina.
  • Hidratação vigorosa com cristaloide, guiada por diurese e estado volêmico.
  • Hipercalemia é a complicação aguda mais letal da rabdomiólise: ECG e tratamento imediato quando presente.
  • Dantroleno não está indicado — isto não é hipertermia maligna, e o fármaco não corrige o mecanismo envolvido.

Calculadora — rabdomiólise e hidratação

Alvo de diurese Risco renal

Estima o alvo de diurese e a velocidade inicial de cristaloide, e classifica a magnitude da elevação de CK. A reposição deve ser sempre reavaliada à beira do leito, sobretudo em cardiopata, nefropata e idoso.

Alvo de diurese
Cristaloide inicial
Diurese atual
Interpretação
A alcalinização urinária e o manitol são estratégias de benefício incerto e não devem atrasar a reposição volêmica, que é a única medida com sustentação consistente. Reavalie o balanço a cada poucas horas e considere apoio da nefrologia diante de oligúria persistente, hipercalemia refratária ou acidose grave.

Outros órgãos

Pulmonares

Lesão pulmonar aguda associada ao crack, com tosse, hipoxemia e infiltrado; hemorragia alveolar; pneumotórax e pneumomediastino por manobra de Valsalva; broncoespasmo.

Gastrointestinais

Isquemia mesentérica por vasoconstrição, com dor desproporcional ao exame; úlcera perfurada; colite isquêmica. Suspeite em qualquer dor abdominal intensa nesse contexto.

Renais

Lesão renal aguda por rabdomiólise, hipovolemia e vasoconstrição direta; infarto renal é raro, mas descrito.

Obstétricas

Descolamento prematuro de placenta, trabalho de parto prematuro, restrição de crescimento e sofrimento fetal. Toda gestante exige avaliação obstétrica.

Hematológicas

Agranulocitose e vasculite associadas ao levamisol; metemoglobinemia por benzocaína entre os adulterantes.

Otorrinolaringológicas

Perfuração do septo nasal, destruição de estruturas da linha média e osteonecrose no uso crônico inalado.

Sequência de abordagem

A lógica é sempre a mesma: sedar, resfriar, hidratar e procurar a lesão de órgão. Praticamente todo o restante deriva dessas quatro ações.

  1. Segurança primeiro. Equipe suficiente, ambiente adequado e medicação preparada antes de qualquer abordagem física.
  2. BENZODIAZEPÍNICO TITULADO é a primeira linha para agitação, hipertensão, taquicardia e convulsão. Subdosar é o erro mais frequente.
  3. Temperatura central e glicemia capilar na primeira avaliação, sem exceção.
  4. Resfriamento ativo imediato se a temperatura central estiver igual ou acima de 39 °C, com meta abaixo de 38,5 °C.
  5. Cristaloide conforme volemia e presença de rabdomiólise, com controle de diurese.
  6. ECG e laboratório dirigido; corrija potássio, magnésio e cálcio quando alterados.
  7. Reavalie após a sedação. Hipertensão e taquicardia que persistem em paciente já calmo justificam tratamento específico.
  8. Trate a complicação de órgão-alvo: isquemia, arritmia, evento neurológico, rabdomiólise, hiponatremia.
  9. Agitação refratária apesar de doses altas: considere cetamina e, se necessário, via aérea avançada com sedação profunda.
  10. Planeje a saída: observação adequada, rastreio de risco de suicídio na fase de abstinência e encaminhamento para tratamento do transtorno por uso.
Antes de prescrever qualquer anti-hipertensivo, antiarrítmico ou antipsicótico, pergunte-se: "a sedação já está adequada?". Na maioria dos casos, a resposta é não — e a próxima dose de benzodiazepínico resolve mais do que qualquer fármaco adicional.
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento com indicação, posologia, alvo e cuidados. As doses são referências para adultos: confira sempre a apresentação disponível, a bula vigente e o protocolo do seu serviço antes de prescrever.

Sedação e controle da agitação

A intervenção com maior impacto sobre mortalidade e sobre todas as demais variáveis fisiológicas. Sedação adequada é tratamento, não contenção química.

Hipertermia, volume e complicações metabólicas

Um bloco de medidas simples, baratas e de altíssimo impacto — e justamente por isso frequentemente atrasadas ou aplicadas pela metade.

Complicações cardiovasculares

Aqui está a maior parte das controvérsias do tema — e também das perguntas de prova. A regra que organiza tudo: benzodiazepínico primeiro, vasodilatador depois.

Situações particulares

Cenários em que a conduta padrão não basta e a decisão precisa ser tomada em conjunto com cirurgia, terapia intensiva ou toxicologia.

O que fazer e o que evitar

Fazer

  • Titular benzodiazepínico até o paciente ficar calmo, sem teto arbitrário.
  • Medir temperatura central e resfriar rápido quando indicado.
  • Hidratar com cristaloide e controlar a diurese.
  • Fazer ECG e corrigir eletrólitos.
  • Usar bicarbonato de sódio quando o QRS está alargado.
  • Rastrear risco de suicídio na fase de abstinência.

Evitar

  • Contenção física prolongada sem sedação concomitante.
  • Betabloqueador isolado na fase aguda.
  • Antipsicótico como primeira linha para a agitação.
  • Fenitoína para convulsão induzida por cocaína.
  • Antitérmico para a hipertermia por estimulante.
  • Alta precoce sem reavaliação de sinais vitais e de temperatura.

Situações com manejo próprio

Cenário Particularidade O que fazer diferente
Gestante Risco de descolamento prematuro de placenta, trabalho de parto prematuro, restrição de crescimento e sofrimento fetal. Avaliação obstétrica e monitorização fetal conforme a idade gestacional. Trate a mãe integralmente — a melhor conduta para o feto é a estabilização materna. Encaminhe para pré-natal de alto risco e tratamento do uso.
Criança Exposição acidental a pó, pedra ou comprimido em domicílio; também exposição passiva à fumaça de crack. Doses por peso, glicemia obrigatória, benzodiazepínico como primeira linha e notificação ao conselho tutelar quando houver suspeita de negligência ou maus-tratos.
Uso concomitante de opioide Combinação intencional ou por adulteração. A apresentação pode ser mista ou bifásica. Miose, bradipneia e rebaixamento pedem naloxona titulada. Mantenha vigilância prolongada: a duração do opioide pode exceder a da naloxona.
Álcool associado Formação de cocaetileno, com meia-vida mais longa e cardiotoxicidade pelo menos equivalente à da cocaína. Estenda a observação cardiovascular e considere abstinência alcoólica como diagnóstico concorrente nas horas seguintes.
Paciente sob custódia policial Contenção prolongada, luta contra restrição e atraso no atendimento aumentam acidose, hipertermia e risco de parada. Priorize o atendimento médico sobre o procedimento policial. Sede precocemente, monitore de forma contínua e nunca mantenha o paciente em prona com pressão torácica.
Idoso e cardiopata Menor reserva cardiovascular, maior risco de isquemia e de complicação hipertensiva; interações medicamentosas frequentes. Titule sedação com cautela pelo risco de depressão respiratória; hidrate com reavaliação frequente; limiar mais baixo para investigação de isquemia.
Fase de abstinência ("crash") Fadiga intensa, hipersonia, aumento de apetite, humor deprimido e ideação suicida, geralmente sem instabilidade autonômica grave. Não há síndrome de abstinência com risco de morte como no álcool, mas o risco de suicídio é real: avalie explicitamente antes da alta e envolva a saúde mental.
Transtorno por uso de estimulante Não há medicamento aprovado com eficácia estabelecida para o transtorno em si. O manejo de contingências é a intervenção com melhor evidência e deve ser o eixo do plano. Terapia cognitivo-comportamental e abordagem de reforço comunitário complementam. Opções farmacológicas fora de bula, como a associação de bupropiona e naltrexona ou o topiramato, podem ser consideradas por serviço especializado.
A passagem pela emergência é uma janela de oportunidade real. Ofereça orientação sobre redução de danos, teste para HIV, hepatites e sífilis quando aplicável, e encaminhamento formal para a rede de atenção psicossocial — em vez de alta com a orientação genérica de "parar de usar".

Decisão de destino

Alta da emergência

Paciente calmo sem sedação recente, sinais vitais e temperatura normais em reavaliações, ECG normal, sem dor torácica, sem alteração laboratorial relevante, com acompanhante e retaguarda social.

Observação prolongada

Sedação repetida, taquicardia ou hipertensão persistentes, CK elevada, dor torácica em investigação, uso de substância de duração prolongada ou de liberação estendida.

Enfermaria

Rabdomiólise sem lesão renal grave, hiponatremia leve em correção, complicação infecciosa, necessidade de investigação cardiológica ou neurológica.

Terapia intensiva

Hipertermia grave, arritmia, isquemia miocárdica, evento neurológico agudo, estado de mal epiléptico, lesão renal aguda, necessidade de via aérea avançada ou de sedação profunda contínua.

Erros comuns

  • Medir apenas a temperatura axilar e deixar passar uma hipertermia grave.
  • Subdosar o benzodiazepínico por medo de depressão respiratória, mantendo o paciente agitado por horas.
  • Conter fisicamente sem sedar, ou manter contenção prolongada em prona.
  • Tratar o paciente como caso psiquiátrico primário e não investigar causa orgânica.
  • Prescrever antipsicótico como primeira linha, com risco de convulsão, prolongamento do QT e piora da termorregulação.
  • Usar betabloqueador isolado para controlar a hipertensão da fase aguda.
  • Dar antitérmico para hipertermia por estimulante, esperando resposta que não vem.
  • Usar fenitoína para convulsão induzida por cocaína.
  • Esquecer de dosar sódio no paciente com MDMA e convulsão.
  • Não pedir CK e perder uma rabdomiólise silenciosa.
  • Confiar no exame toxicológico negativo para excluir intoxicação por catinona sintética.
  • Interpretar rebaixamento com miose como "efeito da droga" e deixar de considerar opioide associado.
  • Dar alta sem reavaliar sinais vitais depois que o efeito da sedação passou.
  • Não perguntar sobre ideação suicida na fase de abstinência.
  • Encerrar o atendimento sem qualquer encaminhamento para tratamento do uso.

Resumo do fluxo

  1. Garanta a segurança da equipe e prepare a medicação antes da abordagem.
  2. Meça temperatura central e glicemia capilar já na primeira avaliação.
  3. Sede com benzodiazepínico titulado a cada 5 a 10 minutos até o paciente ficar calmo.
  4. Resfrie ativamente se a temperatura central estiver igual ou acima de 39 °C.
  5. Obtenha acesso venoso, inicie cristaloide e monitorize de forma contínua.
  6. Faça ECG e o laboratório dirigido; corrija eletrólitos.
  7. Reavalie: o que persiste depois da sedação adequada exige tratamento específico.
  8. Trate a complicação de órgão-alvo identificada, acionando a especialidade quando indicado.
  9. Defina o destino conforme os marcadores de gravidade e a retaguarda disponível.
  10. Antes da alta, avalie risco de suicídio, ofereça redução de danos e encaminhe para tratamento.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

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  16. Associação Brasileira de Medicina de Emergência (ABRAMEDE) e Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Recomendações vigentes sobre agitação psicomotora e intoxicações exógenas.

Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional, destinada a profissionais de saúde. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, escalas e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação. Em caso de intoxicação, o Centro de Informação e Assistência Toxicológica de referência pode ser acionado pelo Disque-Intoxicação, no número 0800 722 6001.

Informações rápidas

Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.

O essencial

Reconhecer

Agitação, midríase, taquicardia, hipertensão e hipertermia com pele quente e suada — é a sudorese preservada que separa a toxíndrome simpaticomimética da anticolinérgica. A hipertermia é o achado de maior letalidade, e o exame toxicológico raramente muda a conduta.

Sedar

Benzodiazepínico é a primeira linha sem exceção, titulado a cada 5 a 10 minutos até o paciente ficar calmo. Subdosar é o erro mais comum de todos. A cetamina entra quando a agitação impede o cuidado ou não há acesso venoso.

Resfriar

Meça a temperatura central, retal ou esofágica — a axilar subestima. Acima de 40 °C é emergência de minutos, e a imersão em água gelada é o método mais rápido. Antitérmico não funciona nesse mecanismo.

Procurar as lesões

ECG, troponina, CK, sódio, potássio e função renal em todos os casos relevantes. Procure ativamente isquemia miocárdica, arritmia, AVC, dissecção de aorta, rabdomiólise com lesão renal e hiponatremia nos casos de MDMA.

Números rápidos

Diazepam: 5 a 10 mg por via endovenosa lenta, repetidos a cada 5 a 10 minutos, sem teto rígido.

Cetamina: 4 a 5 mg/kg por via intramuscular, ou 1 a 2 mg/kg por via endovenosa.

Hipertermia: igual ou acima de 40 °C é emergência; meta abaixo de 38,5 °C o mais rápido possível.

QRS alargado: acima de 100 a 120 ms indica bicarbonato de sódio 1 a 2 mEq/kg em bolus.

Rabdomiólise: alvo de diurese de 200 a 300 mL/h, ou de 1 a 3 mL/kg/h.

Dor torácica: observação de 9 a 12 horas com ECG e marcadores seriados nos casos de baixo risco.

Não esqueça

Temperatura central em todo agitado — nunca apenas a axilar.

Benzodiazepínico é primeira linha para agitação, hipertensão, taquicardia e convulsão.

Betabloqueador isolado é evitado na fase aguda.

Exame toxicológico negativo não exclui intoxicação por estimulante.

Miose e bradipneia apontam opioide associado, não estimulante.

Avalie risco de suicídio antes da alta, na fase de abstinência.

Em provas / residência

A banca cobra benzodiazepínico como primeira linha, a contraindicação relativa ao betabloqueador na fase aguda e o bicarbonato de sódio para o QRS alargado.

Decore: pele quente e suada separa simpaticomimético de anticolinérgico; MDMA cursa com hiponatremia; catinonas sintéticas não aparecem na triagem urinária.

Mais informações nas abas do artigo.

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