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Choque Neurogênico

É o choque que não taquicardiza. A perda súbita do tônus simpático abaixo da lesão medular deixa o paciente hipotenso, bradicárdico e quente — exatamente o oposto do que se espera no politraumatizado. No trauma, porém, ele é sempre um diagnóstico de exclusão: presumir choque neurogênico antes de afastar hemorragia é um erro que mata.

Hipotensão com bradicardia Extremidades quentes Sangramento primeiro Perfusão medular é o alvo
Tempo de leitura: 18 min
Atualizado em: 16/08/2026

Reconhecer

  • Hipotensão sem taquicardia, muitas vezes com bradicardia
  • Pele quente, seca e corada abaixo da lesão
  • Lesão medular acima de T6, tipicamente cervical
  • Pressão de pulso alargada, não estreitada

Não confundir

  • Choque neurogênico é hemodinâmico e sistêmico
  • Choque medular é neurológico: arreflexia transitória
  • São fenômenos distintos, com nomes parecidos
  • Podem coexistir no mesmo paciente

Excluir hemorragia

  • No trauma, é sempre diagnóstico de exclusão
  • Hemorragia e lesão medular coexistem com frequência
  • FAST, radiografias e reavaliação seriada
  • Bradicardia não afasta sangramento ativo

Perfundir a medula

  • Volume até a euvolemia, sem sobrecarregar
  • Noradrenalina como vasopressor de escolha
  • Meta de pressão arterial média por vários dias
  • Atropina para bradicardia sintomática

O que é choque neurogênico

Choque neurogênico é um choque distributivo causado pela perda súbita do tônus simpático abaixo de uma lesão do sistema nervoso central, tipicamente da medula espinhal. Sem a descarga simpática, o leito vascular perde o tônus, a resistência vascular sistêmica despenca e o sangue se acumula na periferia — há volume circulante suficiente, mas ele está no lugar errado.

O que torna esse choque peculiar é a ausência da resposta compensatória. Nos demais choques, o organismo responde com taquicardia e vasoconstrição. Aqui, as fibras simpáticas cardioaceleradoras que saem de T1 a T4 também estão desconectadas, e o tônus vagal, mediado pelo nervo vago, fica sem oposição. O resultado é a assinatura clássica: hipotensão com bradicardia e pele quente.

No paciente traumatizado, choque neurogênico é sempre diagnóstico de exclusão. Hemorragia e lesão medular coexistem com frequência, e atribuir a hipotensão à medula antes de afastar sangramento é um dos erros mais graves da sala de emergência.

Por que acontece

A cadeia de eventos é direta e explica cada achado do exame físico.

  1. A lesão medular interrompe as vias simpáticas descendentes que trafegam pela coluna intermediolateral, entre T1 e L2.
  2. Abaixo da lesão, arteríolas e vênulas perdem o tônus vasoconstritor: cai a resistência vascular sistêmica e o sangue se acumula no leito venoso de capacitância.
  3. Cai o retorno venoso e, com ele, a pré-carga e o débito cardíaco — apesar de a volemia total estar preservada.
  4. Em lesões acima de T6, as fibras cardioaceleradoras de T1 a T4 também são perdidas: o coração não consegue taquicardizar para compensar.
  5. O tônus vagal, que chega ao coração pelo nervo vago e independe da medula, passa a agir sem oposição — daí a bradicardia paradoxal.
  6. Sem vasoconstrição cutânea, a pele fica quente, seca e corada, e o paciente perde a capacidade de regular a própria temperatura.
  7. A hipoperfusão da medula já lesada agrava a lesão secundária, fechando um ciclo em que a hipotensão piora o desfecho neurológico.
Esse último passo é a razão de todo o esforço hemodinâmico. Diferentemente de outros choques, aqui a meta pressórica não visa apenas o rim e o cérebro: visa salvar tecido medular ainda viável, e é uma das poucas intervenções capazes de mudar o desfecho funcional.

Choque neurogênico não é choque medular

Os dois termos são confundidos com enorme frequência, inclusive em prontuário. São fenômenos diferentes, que podem ocorrer no mesmo paciente e ao mesmo tempo, mas descrevem coisas distintas.

Aspecto Choque neurogênico Choque medular
Natureza Fenômeno hemodinâmico e sistêmico Fenômeno neurológico e local
Definição Hipotensão com hipoperfusão por perda do tônus simpático Perda transitória de toda a função medular abaixo da lesão, com flacidez e arreflexia
Achados Hipotensão, bradicardia, pele quente e seca, pressão de pulso alargada Paralisia flácida, arreflexia, anestesia e perda do tônus esfincteriano
Nível da lesão Sobretudo acima de T6 Qualquer nível medular
Duração Dias a semanas, conforme a lesão Dias a semanas, até o retorno dos reflexos
Marcador da resolução Estabilidade hemodinâmica sem vasopressor Retorno do reflexo bulbocavernoso, geralmente o primeiro a voltar
Tratamento Volume, vasopressor e meta de pressão arterial média Não há tratamento próprio: é um estado transitório a ser aguardado
Enquanto persiste o choque medular, a arreflexia impede a determinação definitiva da extensão da lesão. Por isso a classificação neurológica precisa ser repetida ao longo dos dias: um exame feito nas primeiras horas subestima o potencial de recuperação.

Comparando com os outros choques

Do ponto de vista hemodinâmico, o choque neurogênico é distributivo — como o séptico e o anafilático. O que o separa dos demais é a frequência cardíaca e a temperatura da pele.

Tipo Frequência Pele Resistência vascular Pressão de pulso
Hemorrágico Taquicardia Fria e pálida Alta Estreitada
Cardiogênico Taquicardia Fria e úmida Alta Estreitada
Séptico Taquicardia Quente no início Baixa Alargada
Neurogênico Bradicardia ou normocardia Quente e seca Baixa Alargada
A pele seca é um detalhe que diferencia do séptico e do anafilático: sem tônus simpático não há sudorese abaixo da lesão. Vale passar a mão no tórax e nos membros — a linha de transição entre pele suada e pele seca costuma indicar o nível da lesão.

Por que isso importa

Lesão secundária

Cada episódio de hipotensão agrava a isquemia da medula já lesada e piora a recuperação funcional.

Janela terapêutica

A meta pressórica é uma das poucas intervenções disponíveis capazes de influenciar o desfecho neurológico.

Armadilha

Presumir choque neurogênico em politraumatizado atrasa o diagnóstico de hemorragia.

Via aérea

Lesões cervicais altas comprometem o diafragma e exigem antecipação da intubação.

Duração

A necessidade de vasopressor costuma se estender por dias, não por horas.

De onde vem

A causa mais frequente é, de longe, o trauma raquimedular cervical ou torácico alto. Mas existe um conjunto relevante de causas não traumáticas, algumas iatrogênicas, que aparecem em contextos completamente diferentes da sala de trauma.

Trauma raquimedular

Acidentes de trânsito, quedas de altura, mergulho em água rasa, ferimentos por arma de fogo e trauma esportivo.

Predomina em lesões cervicais e torácicas altas. Quanto mais alta e mais completa a lesão, maior a probabilidade e a gravidade do choque.

É a causa mais comum e a que exige exclusão obrigatória de hemorragia.

Bloqueio neuroeixo alto

Raquianestesia ou peridural com dispersão cefálica excessiva, produzindo simpatectomia farmacológica extensa.

É a causa iatrogênica clássica, com quadro de instalação rápida no centro cirúrgico e habitualmente reversível.

Reconhecimento imediato e suporte precoce evitam evolução para parada.

Causas não traumáticas

Mielite transversa, isquemia medular, abscesso e hematoma epidural, tumor com compressão medular e síndrome de Guillain-Barré com disautonomia.

A instalação costuma ser mais gradual, o que faz o quadro passar despercebido por mais tempo.

Nesses casos, a compressão medular tratável é a hipótese que não pode ser perdida.

Panorama das causas

Causa Contexto típico Observação
Trauma cervical Colisão automobilística, queda, mergulho em água rasa, atropelamento Maior risco de choque neurogênico e de comprometimento respiratório; lesões acima de C5 ameaçam o diafragma
Trauma torácico alto Trauma de alta energia com fratura ou luxação vertebral Lesões acima de T6 concentram o risco; abaixo disso, o quadro tende a ser mais brando
Ferimento por arma de fogo Trauma penetrante de tronco e pescoço Alta chance de lesão vascular e hemorragia associadas — a exclusão de sangramento é ainda mais crítica
Raquianestesia alta Cesariana, cirurgia ortopédica e urológica sob bloqueio Instalação em minutos, com bradicardia e náusea; a gestante tem risco somado de compressão aortocava
Hematoma ou abscesso epidural Anticoagulação, punção neuroaxial, bacteremia, usuário de droga injetável Dor local com déficit progressivo; a descompressão cirúrgica é urgente e tempo-dependente
Compressão medular por tumor Neoplasia com metástase vertebral, mieloma Déficit progressivo com dor prévia; corticoide e radioterapia ou cirurgia conforme o caso
Isquemia medular Cirurgia de aorta, dissecção aórtica, hipotensão prolongada Frequentemente compromete o território da artéria espinhal anterior, poupando a propriocepção
Mielite transversa Quadro pós-infeccioso ou desmielinizante Instalação em horas a dias; a disautonomia pode ser expressiva
Síndrome de Guillain-Barré Fraqueza ascendente após quadro infeccioso Disautonomia com oscilação entre hipertensão e hipotensão, além de arritmias
Manipulação cirúrgica da medula Cirurgia de coluna com lesão intraoperatória A elevação imediata da pressão arterial é a primeira medida diante de perda de sinais no monitoramento neurofisiológico
Lesões medulares abaixo de T6 raramente produzem choque neurogênico significativo, porque preservam as fibras cardioaceleradoras e boa parte do leito esplâncnico. Diante de hipotensão em lesão baixa, procure outra causa antes de aceitar o rótulo.

O que imita choque neurogênico

Choque hemorrágico com betabloqueador

O paciente em uso crônico de betabloqueador pode sangrar sem taquicardizar. A pele, porém, permanece fria e a pressão de pulso, estreitada.

Reflexo vasovagal

Hipotensão com bradicardia de curta duração, com recuperação espontânea e sem déficit neurológico associado.

Pneumotórax hipertensivo

Hipotensão no politraumatizado com jugulares distendidas e murmúrio abolido — choque obstrutivo, não distributivo.

Reflexo de Cushing

Hipertensão com bradicardia por hipertensão intracraniana. É o oposto pressórico do choque neurogênico e exige conduta distinta.

Intoxicações

Betabloqueadores, bloqueadores de canal de cálcio, clonidina e opioides cursam com hipotensão e bradicardia.

Hipotermia

Bradicardia e hipotensão em vítima exposta; frequentemente coexiste com o próprio trauma raquimedular.

A abordagem inicial

No trauma, a sequência do xABCDE não muda. O que muda é a interpretação: diante de hipotensão, a hemorragia continua sendo a hipótese principal até ser afastada, e o choque neurogênico entra depois.

  1. Controle de hemorragia exsanguinante, via aérea com proteção da coluna cervical e ventilação — nessa ordem.
  2. PROCURE SANGRAMENTO PRIMEIRO: tórax, abdome, pelve, retroperitônio, ossos longos e ferimentos externos. FAST e radiografias na sala.
  3. Observe o padrão hemodinâmico: hipotensão com bradicardia e pele quente aponta para neurogênico; taquicardia com pele fria aponta para hemorragia.
  4. Faça o exame neurológico dirigido: força por miótomos, sensibilidade por dermátomos, tônus retal e reflexo bulbocavernoso.
  5. Defina o nível neurológico da lesão e se ela é completa ou incompleta, registrando o horário do exame.
  6. Inicie a reposição volêmica até a euvolemia e associe vasopressor precocemente se a hipotensão persistir.
  7. Solicite imagem: tomografia de coluna para o osso, ressonância magnética para medula, ligamentos e compressão.
  8. Acione a neurocirurgia ou a cirurgia de coluna desde o primeiro momento — o tempo até a descompressão importa.
Bradicardia não afasta hemorragia. Um paciente pode ter lesão medular cervical e ruptura esplênica simultaneamente, e a resposta à expansão volêmica costuma ser o primeiro sinal de que existe sangramento em curso.

Achados que sustentam o diagnóstico

Hipotensão sem taquicardia: pressão sistólica abaixo de 90 mmHg com frequência cardíaca normal ou baixa. É o achado que mais chama atenção e o que separa do choque hemorrágico.
Bradicardia: presente sobretudo em lesões acima de T6, por perda das fibras cardioaceleradoras de T1 a T4 com tônus vagal sem oposição. Pode ser desencadeada ou agravada por aspiração traqueal e mudança de decúbito.
Pele quente, seca e corada: a vasodilatação abaixo da lesão elimina a palidez e a sudorese. A transição entre pele úmida e pele seca frequentemente marca o nível da lesão.
Pressão de pulso alargada: a queda da resistência vascular reduz mais a diastólica que a sistólica — o oposto do choque hemorrágico, em que o pulso é fino e a pressão de pulso, estreitada.
Déficit neurológico compatível: paraplegia ou tetraplegia, nível sensitivo definido, arreflexia, priapismo e perda do tônus do esfíncter anal.
Poiquilotermia: incapacidade de regular a temperatura abaixo da lesão, com tendência à hipotermia em ambiente frio e à hipertermia em ambiente quente.
Padrão respiratório: respiração diafragmática com uso paradoxal do abdome sugere lesão cervical com perda da musculatura intercostal.
Ausência de resposta ao volume: hipotensão que persiste após reposição adequada, sem sinais de sangramento, reforça a origem distributiva.
O priapismo é um achado pouco sensível, porém bastante sugestivo de lesão medular no contexto de trauma. Vale procurá-lo na exposição do paciente.

Neurogênico versus hemorrágico

Parâmetro Choque neurogênico Choque hemorrágico
Frequência cardíacaBradicardia ou normocardiaTaquicardia progressiva
PeleQuente, seca e corada abaixo da lesãoFria, pálida e úmida
Tempo de enchimento capilarNormal ou rápidoProlongado
Pressão de pulsoAlargadaEstreitada
Resposta ao volumeParcial e transitóriaBoa, se o sangramento estiver controlado
LactatoFrequentemente normal ou pouco elevadoElevado e proporcional à gravidade
Hemoglobina seriadaEstávelEm queda
FAST e imagemSem foco de sangramentoLíquido livre, hemotórax, fratura pélvica
Déficit neurológicoPresente e com nível definidoAusente, salvo trauma associado
Na prática, os dois coexistem com frequência. O raciocínio correto não é escolher entre eles, e sim tratar a hemorragia enquanto se sustenta a perfusão medular — e reavaliar de forma seriada, porque o quadro muda ao longo das primeiras horas.

Exames e monitorização

Tomografia de coluna

Exame inicial para avaliar fraturas, luxações e alinhamento. Costuma ser feita em conjunto com a tomografia de corpo inteiro no politraumatizado.

Ressonância magnética

Padrão para avaliar a medula, ligamentos, hérnia discal traumática, hematoma e compressão persistente. Ideal antes da cirurgia, desde que não atrase a descompressão.

Ultrassom FAST

Rastreio de sangramento em cavidades. Um exame negativo não exclui hemorragia retroperitoneal ou pélvica.

Pressão arterial invasiva

Recomendada sempre que houver meta pressórica a ser mantida por dias, porque permite titulação contínua do vasopressor.

Lactato e gasometria

Lactato persistentemente elevado sugere hemorragia oculta ou outra causa de hipoperfusão, e não apenas vasoplegia.

Função respiratória

Capacidade vital, força inspiratória e padrão ventilatório orientam a necessidade de intubação em lesões cervicais.

Registre o exame neurológico com horário e nível a cada avaliação. A comparação seriada é o que documenta melhora ou deterioração — e a deterioração é indicação de reavaliar compressão medular e a meta pressórica.

Calculadora — pressão arterial média e meta de perfusão

Meta de perfusão medular Alerta de bradicardia Beira do leito

Informe os dados e escolha a meta adotada pelo seu serviço. A calculadora mostra a pressão arterial média atual, a distância até a meta e sinaliza bradicardia relevante.

Pressão arterial média
Diferença para a meta
Pressão de pulso
Leitura
Preencha as pressões
A meta pressórica só faz sentido depois de excluída hemorragia ativa
A pressão arterial média é estimada por (PAS + 2 × PAD) ÷ 3. A recomendação clássica de 2013 era manter entre 85 e 90 mmHg por 7 dias; a atualização de 2023 sugere um limite inferior de 75 a 80 mmHg e um limite superior de 90 a 95 mmHg, por 3 a 7 dias, reconhecendo que a evidência é de qualidade muito baixa. Siga o protocolo institucional do seu serviço.

Calculadora — escore motor ASIA

10 miótomos por lado Total de 0 a 100 Comparação seriada

Pontue cada músculo-chave de 0 a 5 conforme a escala de força. O escore motor total varia de 0 a 100 pontos e é a principal medida objetiva para acompanhar a evolução ao longo dos dias.

Membros superiores

Miótomo e músculo-chave Direito Esquerdo
C5 Flexores do cotovelo
C6 Extensores do punho
C7 Extensores do cotovelo
C8 Flexores dos dedos
T1 Abdutores do dedo mínimo

Membros inferiores

Miótomo e músculo-chave Direito Esquerdo
L2 Flexores do quadril
L3 Extensores do joelho
L4 Dorsiflexores do tornozelo
L5 Extensor longo do hálux
S1 Flexores plantares do tornozelo
Membros superiores
50
Membros inferiores
50
Escore motor total
100
Leitura
Força motora preservada
Escore máximo em todos os miótomos avaliados
Escala de força: 0 sem contração, 1 contração visível ou palpável, 2 movimento sem vencer a gravidade, 3 movimento contra a gravidade, 4 movimento contra resistência parcial, 5 força normal. Esta ferramenta calcula apenas o componente motor: a classificação completa exige também o exame sensitivo por dermátomos, o toque retal e a determinação do nível neurológico e do grau na escala de deficiência.

Escala de deficiência ASIA

A classificação em graus de A a E define se a lesão é completa ou incompleta e é o principal preditor de recuperação funcional. Ela depende da preservação sacral, que deve ser sempre pesquisada.

Grau Denominação Definição
ACompletaNenhuma função motora ou sensitiva preservada nos segmentos sacrais S4 e S5.
BIncompleta sensitivaSensibilidade preservada abaixo do nível neurológico, incluindo S4 e S5, sem função motora preservada.
CIncompleta motoraFunção motora preservada abaixo do nível, com mais da metade dos músculos-chave com força menor que 3.
DIncompleta motoraFunção motora preservada abaixo do nível, com pelo menos metade dos músculos-chave com força de 3 ou mais.
ENormalFunção motora e sensitiva normais em paciente que teve déficit prévio documentado.
Durante o choque medular, a arreflexia impede classificar a lesão como definitivamente completa. O exame precisa ser repetido depois do retorno dos reflexos — o bulbocavernoso costuma ser o primeiro a voltar e marca o fim dessa fase.

A meta pressórica e sua controvérsia

A lógica é a de pressão de perfusão medular: a medula lesada tem autorregulação comprometida, o edema eleva a pressão intraespinhal e o fluxo passa a depender diretamente da pressão arterial média. Manter a pressão alta busca salvar tecido na zona de penumbra ao redor da lesão.

Recomendação clássica de 2013: a diretriz conjunta das sociedades americanas de neurocirurgia recomendava corrigir prontamente pressão sistólica abaixo de 90 mmHg e manter a pressão arterial média entre 85 e 90 mmHg pelos primeiros 7 dias. É a meta mais difundida e a mais cobrada em provas.
Atualização de 2023: o grupo AO Spine-Praxis revisou a evidência e passou a sugerir um limite inferior de 75 a 80 mmHg e um limite superior de 90 a 95 mmHg, por 3 a 7 dias. A mudança reconhece que a faixa estreita de 85 a 90 era difícil de manter e que a qualidade da evidência é muito baixa — a recomendação é fraca.
O que é consenso: hipotensão faz mal à medula lesada e deve ser evitada. A divergência é sobre quanto elevar e por quanto tempo, não sobre o princípio.
O custo da meta: manter pressão alta por dias exige vasopressor prolongado, com risco de arritmia, isquemia e complicações de acesso central. O balanço deve ser individualizado, sobretudo em idosos e cardiopatas.
Pressão de perfusão medular: conceitualmente é a pressão arterial média menos a pressão intraespinhal, de forma análoga à perfusão cerebral. A medida direta ainda é experimental e restrita a centros de pesquisa.
Monitorização: pressão arterial invasiva é fortemente recomendada quando há meta a cumprir, porque a medida não invasiva intermitente perde episódios curtos de hipotensão que somados fazem diferença.
Na prática brasileira, a maioria dos protocolos ainda adota pressão arterial média de pelo menos 85 mmHg por 7 dias. Se o seu serviço já incorporou a faixa mais permissiva de 2023, o essencial é que a meta esteja escrita, seja monitorada e tenha responsável definido.

Calculadora — infusão de droga vasoativa

Ajuste por peso Diluições padrão Resultado em mL/h

Converte a dose desejada em velocidade de bomba de infusão, usando as diluições mais comuns. Confira sempre a diluição padronizada no seu serviço antes de aplicar.

Velocidade na bomba
Dose por minuto
Concentração
64 mcg/mL
Leitura
Informe peso e dose
A faixa habitual de cada droga aparece aqui conforme a seleção
Fórmula: mL/h = dose (mcg/kg/min) × peso (kg) × 60 ÷ concentração (mcg/mL). A fenilefrina é frequentemente prescrita em microgramas por minuto, e não por quilo — a calculadora converte para a mesma unidade das demais, mas verifique a forma de prescrição adotada no seu serviço. Ferramenta de apoio: a prescrição final deve sempre ser conferida.

Escolha do vasopressor

Droga Perfil Vantagem Cuidado
Noradrenalina Alfa potente com beta-1 discreto Primeira escolha: corrige a vasoplegia e ainda sustenta a frequência cardíaca Necessita acesso central para uso prolongado; risco de isquemia periférica
Fenilefrina Alfa-1 puro Prática, disponível e útil em bólus na sala de anestesia Sem atividade beta: causa bradicardia reflexa e pode agravar o quadro em lesão cervical
Dopamina Dose-dependente, com efeito beta e alfa Aumenta a frequência cardíaca, o que interessa na bradicardia associada Mais arritmias que a noradrenalina; caiu em desuso como primeira linha
Adrenalina Alfa e beta potentes Reserva para hipotensão refratária com bradicardia grave Taquiarritmias, hiperlactatemia e hiperglicemia
Dobutamina Beta-1 predominante Considerada quando há disfunção contrátil associada Vasodilatação com piora da hipotensão — não é vasopressor
Vasopressina Receptores V1, independente do sistema adrenérgico Adjuvante poupador de catecolamina em vasoplegia refratária Não corrige bradicardia; risco de isquemia digital e mesentérica
A diretriz de 2023 concluiu que a evidência disponível não permite recomendar formalmente um vasopressor específico. Ainda assim, a prática predominante e o raciocínio fisiológico favorecem a noradrenalina em lesões acima de T6, justamente por evitar a bradicardia reflexa da fenilefrina.

Sequência de abordagem

Duas prioridades correm em paralelo: sustentar a perfusão da medula e remover a compressão, sem nunca perder de vista que a hemorragia vem primeiro no politraumatizado.

  1. Imobilização da coluna e cuidado com transferências em bloco, mantendo a restrição do movimento até a liberação por imagem e exame.
  2. EXCLUA HEMORRAGIA: FAST, radiografia de tórax e pelve, exame dirigido. Não rotule como neurogênico sem essa etapa.
  3. Reposição volêmica até a euvolemia, com cristaloide em alíquotas e reavaliação — evitando tanto a hipovolemia quanto a sobrecarga.
  4. Vasopressor precoce se a hipotensão persistir após volume adequado. Noradrenalina é a escolha preferencial.
  5. Trate a bradicardia sintomática com atropina; considere marca-passo transcutâneo ou transvenoso nos casos refratários.
  6. Estabeleça e registre a meta de pressão arterial média, com pressão invasiva e reavaliação contínua.
  7. Avalie a via aérea e a mecânica respiratória: lesões cervicais altas exigem antecipar a intubação, e não esperar a fadiga.
  8. ACIONE A CIRURGIA DE COLUNA: a descompressão dentro de 24 horas melhora o desfecho neurológico de forma consistente.
  9. Inicie os cuidados de suporte: prevenção de lesão por pressão, profilaxia de tromboembolismo venoso, sonda vesical, controle térmico e profilaxia gástrica.
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, alvo e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional, a apresentação disponível no seu serviço e a bula vigente.

Perfusão e ritmo

O objetivo não é apenas normalizar a pressão: é manter uma meta elevada por dias para preservar tecido medular ainda viável.

Medula, via aérea e suporte

O que define o desfecho funcional a longo prazo: descompressão no tempo certo, ventilação antecipada e prevenção rigorosa de complicações.

Fazer e evitar

Fazer

  • Afastar hemorragia antes de aceitar o diagnóstico.
  • Repor volume até a euvolemia e só então escalar vasopressor.
  • Registrar a meta de pressão arterial média em prescrição.
  • Instalar pressão arterial invasiva quando houver meta a cumprir.
  • Acionar a cirurgia de coluna nas primeiras horas.
  • Repetir e datar o exame neurológico.

Evitar

  • Expandir volume indefinidamente para corrigir vasoplegia.
  • Usar fenilefrina isolada em lesão cervical com bradicardia.
  • Confundir choque neurogênico com choque medular no prontuário.
  • Adiar a intubação em lesão cervical alta até a fadiga instalada.
  • Retardar a imagem da medula quando há déficit progressivo.
  • Prescrever corticoide de forma automática, sem discutir riscos.

Situações com manejo próprio

Cenário Particularidade O que fazer diferente
Politraumatizado Hemorragia e lesão medular coexistem com frequência, e a bradicardia pode mascarar o sangramento. Tratar a hemorragia como prioridade e sustentar a perfusão medular em paralelo. Reavaliar de forma seriada, com hemoglobina e lactato.
Lesão cervical alta Acima de C5 há comprometimento do diafragma; entre C5 e T1, perda da musculatura intercostal com respiração paradoxal. Antecipar a intubação com técnica que preserve o alinhamento cervical. Monitorar capacidade vital e força inspiratória.
Raquianestesia alta Simpatectomia farmacológica de instalação rápida, com náusea, bradicardia e hipotensão em minutos. Elevar membros inferiores, expandir volume, administrar vasopressor e atropina. Suporte ventilatório se houver bloqueio motor alto.
Gestante Soma-se a compressão aortocava pelo útero à vasoplegia, agravando a hipotensão. Deslocamento uterino para a esquerda antes de qualquer outra medida. Vasopressor com atenção ao fluxo uteroplacentário.
Criança Pode haver lesão medular sem alteração radiográfica, pela elasticidade da coluna infantil. Valorizar o exame neurológico mesmo com tomografia normal e considerar ressonância magnética. Metas pressóricas ajustadas à idade.
Idoso Síndrome medular central por hiperextensão em queda da própria altura, frequentemente sem fratura evidente. Suspeitar diante de déficit maior em membros superiores que inferiores. Metas pressóricas ponderadas pelo risco cardiovascular.
Fase crônica Após semanas, instala-se o risco de disreflexia autonômica, com hipertensão paroxística grave. Identificar e remover o estímulo desencadeante — bexiga distendida é a causa mais comum — antes de medicar.
Compressão medular não traumática Tumor, abscesso ou hematoma epidural, com déficit progressivo e dor prévia. Imagem urgente e descompressão. Corticoide tem papel específico na compressão neoplásica, diferente do trauma.
Guillain-Barré Disautonomia com oscilação entre crises hipertensivas e hipotensão, além de arritmias. Monitorização contínua, cautela com drogas de meia-vida longa e vigilância da função respiratória.
Cirurgia de coluna eletiva Perda de sinais no monitoramento neurofisiológico intraoperatório sugere sofrimento medular. A primeira medida é elevar imediatamente a pressão arterial, junto com a revisão do gesto cirúrgico.

Erros comuns

  • Rotular a hipotensão como neurogênica antes de excluir hemorragia no politraumatizado.
  • Assumir que a ausência de taquicardia afasta sangramento ativo.
  • Confundir choque neurogênico com choque medular ao registrar em prontuário.
  • Expandir volume de forma indefinida para corrigir um problema que é de tônus vascular.
  • Usar fenilefrina isolada em lesão cervical, agravando a bradicardia por reflexo.
  • Não estabelecer nem registrar a meta de pressão arterial média na prescrição.
  • Manter apenas medida não invasiva intermitente em paciente com meta pressórica a cumprir.
  • Adiar a intubação em lesão cervical alta até que a fadiga respiratória se instale.
  • Retardar o acionamento da cirurgia de coluna e perder a janela de 24 horas.
  • Prescrever metilprednisolona automaticamente, sem discutir a controvérsia e os riscos.
  • Esquecer a profilaxia de tromboembolismo venoso em paciente com risco muito alto.
  • Não avaliar a preservação sacral e classificar a lesão como completa prematuramente.
  • Ignorar a poiquilotermia e deixar o paciente exposto por período prolongado.
  • Não sondar a bexiga e permitir distensão vesical, que é gatilho de bradicardia e de disreflexia.

Resumo do fluxo

  1. Hipotensão no trauma: procure sangramento primeiro, sempre.
  2. Padrão de hipotensão com bradicardia e pele quente e seca sugere choque neurogênico.
  3. Confirme o déficit neurológico, defina o nível e registre o exame com horário.
  4. Reponha volume até a euvolemia, em alíquotas e com reavaliação.
  5. Inicie noradrenalina se a hipotensão persistir e trate a bradicardia sintomática com atropina.
  6. Estabeleça a meta de pressão arterial média e monitore de forma invasiva.
  7. Avalie a via aérea: lesão cervical alta exige antecipar a intubação.
  8. Acione a cirurgia de coluna: descompressão dentro de 24 horas melhora o desfecho.
  9. Mantenha os cuidados de suporte e reavalie o exame neurológico diariamente.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

  1. Kwon BK, Tetreault LA, Martin AR, et al. A Clinical Practice Guideline for the Management of Patients With Acute Spinal Cord Injury: Recommendations on Hemodynamic Management. Global Spine J. 2024;14(3_suppl):187S-211S.
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  3. Fehlings MG, Moghaddamjou A, Evaniew N, et al. The 2023 AO Spine-Praxis Guidelines in Acute Spinal Cord Injury: What Have We Learned? What Are the Critical Knowledge Gaps and Barriers to Implementation? Global Spine J. 2024;14(3_suppl):223S-230S.
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  5. Fehlings MG, Wilson JR, Tetreault LA, et al. A Clinical Practice Guideline for the Management of Patients With Acute Spinal Cord Injury: Recommendations on the Use of Methylprednisolone Sodium Succinate. Global Spine J. 2017;7(3 Suppl):203S-211S.
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Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, escalas e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação.

Informações rápidas

Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.

O essencial

Reconhecer

A tríade é hipotensão sem taquicardia, frequentemente com bradicardia, e pele quente, seca e corada abaixo da lesão. A pressão de pulso é alargada, e não estreitada. Ocorre sobretudo em lesões medulares acima de T6, tipicamente cervicais.

Não confundir

Choque neurogênico é um fenômeno hemodinâmico e sistêmico, com hipotensão por perda do tônus simpático. Choque medular é um fenômeno neurológico e local: perda transitória de toda a função abaixo da lesão, com flacidez e arreflexia. Podem coexistir no mesmo paciente.

Excluir hemorragia

No trauma é sempre diagnóstico de exclusão. Hemorragia e lesão medular coexistem com frequência, e a bradicardia não afasta sangramento ativo. FAST, radiografias, hemoglobina seriada e reavaliação clínica vêm antes do rótulo.

Perfundir a medula

Volume até a euvolemia sem sobrecarregar, noradrenalina como vasopressor de escolha, atropina para bradicardia sintomática e meta de pressão arterial média mantida por dias. A meta existe para reduzir a lesão medular secundária.

Números rápidos

Meta clássica: pressão arterial média de 85 a 90 mmHg pelos primeiros 7 dias.

Faixa de 2023: limite inferior de 75 a 80 mmHg e superior de 90 a 95, por 3 a 7 dias.

Nível de risco: lesões acima de T6 concentram o choque neurogênico.

Descompressão: cirurgia dentro de 24 horas melhora a recuperação neurológica.

Atropina: 0,5 a 1 mg por via intravenosa, repetível até 3 mg no total.

Não esqueça

No trauma, é sempre diagnóstico de exclusão: hemorragia primeiro.

Choque neurogênico é hemodinâmico; choque medular é neurológico.

Hipotensão com bradicardia e pele quente e seca é a tríade.

Noradrenalina é preferida à fenilefrina em lesões cervicais.

A meta pressórica existe para reduzir a lesão medular secundária.

Em provas / residência

A banca cobra a diferença entre choque neurogênico e choque medular, a tríade de hipotensão com bradicardia e pele quente, e o fato de ser diagnóstico de exclusão no trauma.

Decore: fibras cardioaceleradoras de T1 a T4; lesões acima de T6; meta de pressão arterial média de 85 a 90 mmHg por 7 dias; descompressão em até 24 horas.

Mais informações nas abas do artigo.

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