Choque Obstrutivo
É o único tipo de choque em que a droga vasoativa não resolve nada: o coração está bom, o sangue está lá, mas alguma coisa mecânica impede o enchimento ou o esvaziamento. Enquanto o obstáculo não for removido, o paciente continua morrendo — e o tempo entre reconhecer e desobstruir é quase todo o prognóstico.
Suspeitar
- Choque com veias jugulares cheias e pulmões limpos
- Hipotensão que não responde a volume nem a vasopressor
- Piora súbita logo após intubar ou ventilar
- Assistolia ou AESP com QRS estreito e rápido
As três principais
- Tromboembolismo pulmonar de alto risco
- Tamponamento cardíaco
- Pneumotórax hipertensivo
- Não esquecer auto-PEEP e hiperinsuflação dinâmica
Confirmar à beira do leito
- Ultrassom point-of-care é o exame que decide
- Derrame pericárdico com colapso das câmaras direitas
- VD dilatado com septo em D e VCI pletórica
- Ausência de deslizamento pleural com ponto pulmonar
Desobstruir
- Tratamento é remover o obstáculo, não titular droga
- Volume com cautela: 250 a 500 mL e reavaliação
- Noradrenalina para manter a perfusão coronariana do VD
- Ventilação com volume e pressão baixos
O que é choque obstrutivo
Choque obstrutivo é o estado de hipoperfusão tecidual causado por um obstáculo mecânico ao fluxo sanguíneo central, e não por falha da bomba, por perda de volume ou por vasodilatação. O miocárdio costuma estar íntegro e a volemia costuma ser adequada; o problema é que algo impede o sangue de entrar no coração, de sair dele ou de atravessar a circulação pulmonar.
É o menos frequente dos quatro grandes tipos de choque, mas o de raciocínio mais decisivo: as causas são poucas, reconhecíveis à beira do leito e reversíveis em minutos. Um paciente com tamponamento ou pneumotórax hipertensivo pode passar de moribundo a estável com um procedimento de dois minutos — e morrer se esse procedimento demorar.
Onde está o obstáculo
Vale organizar mentalmente por onde o fluxo é interrompido. Isso separa as causas em dois mecanismos, com consequências práticas diferentes.
Obstáculo ao enchimento (pré-carga)
O sangue não consegue voltar ao coração ou o coração não consegue se encher. A pressão externa sobre as câmaras ou a compressão das veias cavas reduz o volume diastólico final.
- Tamponamento cardíaco
- Pneumotórax hipertensivo
- Hiperinsuflação dinâmica e auto-PEEP
- Pericardite constritiva descompensada
- Síndrome compartimental abdominal
- Compressão da veia cava — útero gravídico, massa tumoral
Obstáculo ao esvaziamento (pós-carga)
O ventrículo se enche, mas não consegue ejetar contra uma resistência súbita. O ventrículo direito, fino e pouco adaptado a sobrecarga aguda de pressão, é a vítima habitual.
- Tromboembolismo pulmonar de alto risco
- Embolia gasosa, gordurosa e por líquido amniótico
- Hipertensão pulmonar aguda descompensada
- Trombose de prótese valvar e mixoma atrial
- Dissecção de aorta com comprometimento do fluxo
- Obstrução dinâmica da via de saída do VE em hipovolemia
A espiral de morte do ventrículo direito
Na maioria dos choques obstrutivos, o desfecho final é a falência do ventrículo direito. Entender essa cadeia orienta cada decisão terapêutica.
- A obstrução aumenta de forma súbita a pós-carga do VD, que é uma câmara de parede fina e sem reserva para sobrecarga aguda de pressão.
- O VD dilata para tentar manter o volume ejetado, e a insuficiência tricúspide funcional agrava a congestão retrógrada.
- O septo interventricular é empurrado para a esquerda — o clássico sinal do D — e a interdependência ventricular reduz o enchimento do VE.
- Cai o débito do VE, cai a pressão aórtica e, com ela, cai a pressão de perfusão coronariana do VD, que depende principalmente da diástole sistêmica.
- O VD isquemia, contrai menos, dilata mais, e o ciclo se fecha: hipotensão gera isquemia, que gera mais hipotensão. É a espiral de morte.
- Romper o ciclo exige duas coisas simultâneas: restaurar a pressão arterial com vasopressor precoce e remover a obstrução.
Diferenciando dos outros tipos de choque
O perfil hemodinâmico do choque obstrutivo se parece com o cardiogênico em quase tudo — débito baixo, resistência alta, pressões de enchimento altas. A diferença está no coração: no cardiogênico ele falha; no obstrutivo ele é impedido.
| Tipo | Débito cardíaco | Resistência vascular | Pré-carga / VCI | Pele e perfusão |
|---|---|---|---|---|
| Hipovolêmico | Baixo | Alta | Baixa — VCI colabada | Fria, tempo de enchimento capilar lento |
| Cardiogênico | Baixo | Alta | Alta — VCI pletórica | Fria, com congestão pulmonar frequente |
| Distributivo | Normal ou alto | Baixa | Variável, geralmente baixa | Quente no início, com pulso amplo |
| Obstrutivo | Baixo | Alta | Alta — VCI pletórica | Fria, tipicamente sem congestão pulmonar |
Por que isso importa
Pneumotórax hipertensivo e tamponamento matam em minutos; o tratamento leva menos tempo que o exame de imagem.
São causas potencialmente reversíveis — os "Ts" e o "T" de trombose das causas de parada cardíaca.
O ultrassom à beira do leito responde às três principais hipóteses em poucos minutos.
É o único choque em que a reposição volêmica generosa pode piorar diretamente o débito.
A pressão positiva pode ser o gatilho da descompensação e precisa de estratégia própria.
As três grandes
Na prática de emergência e de terapia intensiva, três diagnósticos respondem pela quase totalidade dos casos. Em todo choque indiferenciado com pré-carga aparentemente cheia, eles devem ser ativamente descartados antes de qualquer outra coisa.
TEP de alto risco
Trombo ocluindo o leito arterial pulmonar com repercussão hemodinâmica. Dispneia súbita, dor torácica, síncope, hipoxemia com radiografia pouco alterada.
Procure fatores de risco: imobilização, cirurgia recente, neoplasia, trombofilia, gestação, uso de estrogênio e trombose venosa profunda.
Chave: VD dilatado, sinal do D, VCI pletórica e pulmões sem congestão.Tamponamento cardíaco
Líquido no saco pericárdico com pressão suficiente para impedir o enchimento diastólico. O que importa é a velocidade de acúmulo, não o volume absoluto.
Causas: trauma penetrante, dissecção de aorta, pericardite, neoplasia, uremia, pós-procedimento cardíaco e pós-operatório.
Chave: derrame pericárdico com colapso do átrio e do ventrículo direitos.Pneumotórax hipertensivo
Ar sob pressão no espaço pleural, com desvio do mediastino e compressão das veias cavas. Diagnóstico é clínico: não espere a radiografia.
Causas: trauma torácico, barotrauma sob ventilação mecânica, punção de acesso central e procedimentos torácicos.
Chave: hipotensão com murmúrio abolido, timpanismo e desvio da traqueia.Panorama completo das causas
| Causa | Mecanismo | Pista clínica | Tratamento definitivo |
|---|---|---|---|
| TEP de alto risco | Aumento súbito da pós-carga do VD | Dispneia e síncope, hipoxemia, VD dilatado ao ultrassom, trombose venosa profunda | Trombólise, trombectomia ou embolectomia |
| Tamponamento cardíaco | Compressão externa das câmaras cardíacas | Bulhas abafadas, jugulares distendidas, pulso paradoxal, alternância elétrica | Pericardiocentese ou janela pericárdica |
| Pneumotórax hipertensivo | Compressão das cavas e desvio do mediastino | Murmúrio abolido, timpanismo, enfisema subcutâneo, pico de pressão alto no ventilador | Descompressão imediata e drenagem torácica |
| Auto-PEEP e hiperinsuflação dinâmica | Pressão intratorácica alta reduz o retorno venoso | Asma e DPOC ventilados, fluxo expiratório que não zera, hipotensão que melhora ao desconectar | Desconectar, reduzir frequência e volume, prolongar a expiração |
| Embolia gasosa | Bloqueio da via de saída do VD por ar | Manipulação de acesso central, neurocirurgia sentada, colapso súbito com sopro em roda de moinho | Decúbito lateral esquerdo com cabeceira baixa, oxigênio a 100%, aspiração pelo cateter |
| Embolia amniótica e gordurosa | Obstrução e reação inflamatória pulmonar | Colapso no periparto ou após fratura de osso longo, com coagulopatia associada | Suporte avançado; considerar circulação extracorpórea |
| Hipertensão pulmonar descompensada | Pós-carga cronicamente alta que descompensa | Doente já conhecido, gatilho infeccioso ou arritmia, VD grande e hipertrofiado | Tratar o gatilho, vasodilatador pulmonar inalado, suporte especializado |
| Trombose de prótese e mixoma atrial | Obstrução intracardíaca ao fluxo | Prótese valvar com anticoagulação inadequada, sopro variável com a postura, síncope | Ecocardiograma urgente, trombólise ou cirurgia |
| Pericardite constritiva | Restrição ao enchimento diastólico | Congestão sistêmica desproporcional, sinal de Kussmaul, calcificação pericárdica | Pericardiectomia eletiva após estabilização |
| Síndrome compartimental abdominal | Pressão abdominal reduz o retorno venoso | Abdome tenso, oligúria, pressão de pico elevada no ventilador | Medidas de descompressão e, se necessário, laparotomia |
| Compressão aortocava | Útero gravídico comprime a veia cava inferior | Gestante a partir do segundo trimestre, hipotensão em decúbito dorsal | Deslocamento uterino para a esquerda |
Na parada cardíaca
Três das causas reversíveis de atividade elétrica sem pulso são obstrutivas. Em toda parada com ritmo não chocável, elas devem ser buscadas ativamente, de preferência com ultrassom durante a checagem de pulso, sem prolongar as pausas.
Descompressão bilateral empírica é aceitável na parada traumática, antes de qualquer confirmação por imagem.
Pericardiocentese guiada por ultrassom; na parada traumática penetrante, considerar toracotomia de reanimação em serviço habilitado.
Trombólise durante a reanimação quando o TEP é a causa presumida, mantendo a massagem por 60 a 90 minutos após a dose.
Parada com atividade elétrica organizada, QRS estreito e frequência preservada sugere causa mecânica, não miocárdica.
A abordagem em cinco minutos
Diante de um choque indiferenciado, a pergunta que separa o obstrutivo dos demais é simples: a pré-carga está cheia e os pulmões estão limpos? Se sim, existe um obstáculo até prova em contrário.
- Reconheça o choque: hipotensão ou sinais de hipoperfusão com lactato elevado, oligúria, pele fria e alteração do sensório.
- Olhe o pescoço e ausculte o tórax. Jugulares distendidas com pulmões limpos orientam fortemente para obstrutivo.
- Se houver murmúrio abolido de um lado, com timpanismo e instabilidade, descomprima imediatamente — não peça radiografia.
- Pegue o ultrassom: janela subxifoide e paraesternal para pericárdio e ventrículo direito; veia cava inferior; pleura bilateral.
- Interprete o conjunto: derrame com colapso das câmaras direitas, VD dilatado com sinal do D, ou ausência de deslizamento pleural com ponto pulmonar.
- Comece o suporte enquanto define a causa: vasopressor precoce, volume cauteloso e oxigenação, sem atrasar o procedimento definitivo.
- Confirme com o exame adequado apenas se o paciente tolerar o transporte — angiotomografia de tórax quando estável o suficiente.
Achados clínicos que apontam a causa
| Achado | O que sugere | Observação prática |
|---|---|---|
| Turgência jugular com pulmões limpos | Qualquer causa obstrutiva | Pode faltar no paciente hipovolêmico simultâneo — trauma com hemorragia e tamponamento associados. |
| Bulhas abafadas, hipotensão e turgência jugular | Tríade de Beck — tamponamento | A tríade completa é pouco frequente. Ausência não afasta; presença é bastante sugestiva. |
| Pulso paradoxal | Tamponamento, também asma grave e auto-PEEP | Queda inspiratória da pressão sistólica acima de 10 mmHg. Pouco confiável em arritmia e em hipotensão extrema. |
| Murmúrio abolido com timpanismo | Pneumotórax hipertensivo | Desvio de traqueia e enfisema subcutâneo são tardios. Não espere por eles. |
| Elevação súbita da pressão de pico no ventilador | Pneumotórax, auto-PEEP ou obstrução do tubo | Compare pico e platô: pico alto com platô normal aponta resistência; ambos altos apontam complacência reduzida. |
| Hipotensão que melhora ao desconectar do ventilador | Auto-PEEP e hiperinsuflação dinâmica | Teste diagnóstico e terapêutico ao mesmo tempo: desconecte e comprima o tórax por alguns segundos. |
| Hipoxemia desproporcional à radiografia | TEP | A radiografia costuma ser normal ou inespecífica; a discrepância é a própria pista. |
| Síncope com dispneia súbita | TEP de alto risco | Síncope indica repercussão hemodinâmica significativa e deve elevar o nível de alerta. |
| Alternância elétrica no eletrocardiograma | Derrame pericárdico volumoso | Específica, mas pouco sensível. Baixa voltagem e taquicardia sinusal são mais comuns. |
| Sinal de Kussmaul | Constrição pericárdica, TEP e infarto de VD | Aumento paradoxal da turgência jugular à inspiração. É raro no tamponamento puro. |
Ultrassom point-of-care
O ultrassom à beira do leito é o exame que muda a conduta no choque obstrutivo. Protocolos como o RUSH organizam a avaliação em bomba, tanque e canos; para a suspeita de obstrução, quatro janelas respondem quase tudo.
Exames complementares
Lactato acima de 2 mmol/L confirma hipoperfusão e é um dos critérios de gravidade nas categorias mais altas de TEP. A gasometria costuma mostrar hipoxemia com hipocapnia por hiperventilação.
Marcam sofrimento e disfunção do ventrículo direito. São peças da estratificação de risco no TEP, não ferramentas diagnósticas isoladas.
Útil apenas para excluir TEP em probabilidade pré-teste baixa ou intermediária. No paciente em choque, não tem papel: a probabilidade já é alta e o resultado não muda a conduta.
Pode revelar pneumotórax, alargamento da silhueta cardíaca ou congestão. Nunca deve atrasar a descompressão de um pneumotórax hipertensivo suspeitado clinicamente.
Padrão para confirmar TEP e medir a relação VD/VE. Só se o paciente tolerar o transporte; no instável, o ultrassom decide.
Complementa o ultrassom point-of-care na avaliação de próteses, massas intracardíacas e fisiologia constritiva.
Calculadora — índice de choque
O índice de choque é a razão entre frequência cardíaca e pressão arterial sistólica. Não é diagnóstico, mas detecta hipoperfusão antes de a pressão despencar e é especialmente útil no acompanhamento seriado: o que informa é a tendência, e não o valor isolado.
Calculadora — sPESI
O simplified Pulmonary Embolism Severity Index pontua 1 ponto por item presente e estima o risco de mortalidade em 30 dias. Zero ponto identifica um grupo de baixo risco, candidato a alta precoce ou tratamento ambulatorial. Qualquer ponto indica escore clínico de gravidade elevado.
Estratificação do TEP — o que mudou em 2026
A primeira diretriz conjunta da American Heart Association e do American College of Cardiology dedicada ao TEP agudo, publicada em fevereiro de 2026, substituiu a divisão em baixo, intermediário e alto risco por categorias clínicas de A a E, com subcategorias. A lógica é deslocar a decisão da carga anatômica de trombo para o impacto fisiológico sobre o sistema cardiopulmonar.
| Categoria | Definição | Implicação prática |
|---|---|---|
| A | TEP assintomático, habitualmente achado incidental de imagem | Pode receber alta do pronto-socorro sem internação, com anticoagulação e seguimento estruturado |
| B | Sintomático com escore clínico de gravidade baixo — sPESI zero, PESI classe I ou II | Alta precoce em geral apropriada, desde que haja acesso a medicação e seguimento confiável |
| C | Sintomático com escore de gravidade elevado, com ou sem disfunção do VD e biomarcadores alterados | Internar. O benefício de terapias avançadas é incerto: reservar para progressão clínica, com deliberação multidisciplinar |
| D | Falência cardiopulmonar incipiente — deterioração hemodinâmica em curso | Terapias avançadas podem ser consideradas nos subgrupos D1 e D2, individualizando risco de sangramento |
| E | Falência cardiopulmonar estabelecida, com hipotensão persistente | É o choque obstrutivo por TEP. Terapias avançadas são razoáveis na categoria E1: trombólise, terapia por cateter, trombectomia ou embolectomia |
Quando reperfundir
No TEP com hipotensão persistente ou parada cardíaca, ou seja, no choque obstrutivo propriamente dito, a reperfusão é a conduta que muda o desfecho. A trombólise sistêmica reduz mortalidade e recorrência nesse grupo, ao custo de risco relevante de sangramento maior e hemorragia intracraniana.
Indicação estabelecida
- TEP com hipotensão persistente apesar de suporte
- Parada cardíaca com TEP como causa presumida
- Deterioração hemodinâmica sob anticoagulação plena
- Categoria E da classificação de 2026
Decisão individualizada
- Risco intermediário-alto com sinais de deterioração
- Alto risco de sangramento — considerar terapia por cateter
- Falha ou contraindicação à trombólise — trombectomia ou embolectomia
- Colapso refratário — circulação extracorpórea como ponte
Calculadora — dose de trombolítico e heparina
Selecione o cenário e informe o peso. As doses seguem os regimes descritos nas diretrizes e nas bulas; confira sempre a apresentação disponível no seu serviço antes de administrar.
Contraindicações à trombólise sistêmica
Absolutas
- Acidente vascular cerebral hemorrágico prévio, em qualquer momento
- Acidente vascular cerebral isquêmico nos últimos 6 meses
- Neoplasia ou lesão estrutural do sistema nervoso central
- Traumatismo craniano ou politrauma maior nas últimas 3 semanas
- Sangramento ativo
- Diátese hemorrágica conhecida
- Suspeita de dissecção de aorta
Relativas
- Ataque isquêmico transitório nos últimos 6 meses
- Anticoagulação oral em curso
- Gestação e primeira semana de pós-parto
- Punção em sítio não compressível
- Reanimação cardiopulmonar traumática ou prolongada
- Hipertensão refratária, com sistólica acima de 180 mmHg
- Doença hepática avançada
- Endocardite infecciosa
- Úlcera péptica ativa
Sequência de abordagem
O suporte hemodinâmico existe para comprar tempo até a desobstrução. Ele deve ser iniciado em paralelo com o preparo do procedimento definitivo, nunca em substituição a ele.
- Monitorização completa, dois acessos calibrosos, oxigênio para manter saturação adequada e coleta de exames incluindo lactato.
- SUSPEITOU DE PNEUMOTÓRAX HIPERTENSIVO: descomprima agora. Não peça imagem, não transporte, não aguarde parecer.
- Volume com cautela: 250 a 500 mL de cristaloide e reavaliação imediata da resposta. Se não melhorou, não repita cegamente.
- Vasopressor precoce — noradrenalina é a primeira escolha para restaurar a pressão de perfusão coronariana do ventrículo direito.
- Considere inotrópico se houver disfunção contrátil do VD com pressão já corrigida: dobutamina em dose baixa, atento ao risco de vasodilatação.
- Se precisar ventilar, use volume corrente baixo, PEEP conservadora e evite hipoxemia, hipercapnia e acidose, que aumentam a resistência pulmonar.
- REMOVA A OBSTRUÇÃO: drenagem, pericardiocentese, trombólise, trombectomia ou desconexão do ventilador, conforme a causa.
- Reavalie com ultrassom após a intervenção e acione a equipe especializada quando houver refratariedade.
Cada card abre o detalhamento: indicação, técnica ou posologia, alvo e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional, a apresentação disponível no seu serviço e a bula vigente.
Suporte hemodinâmico e ventilatório
Medidas de ponte que sustentam a perfusão enquanto o obstáculo é removido. No ventrículo direito falido, a ordem das decisões é diferente da do choque habitual.
Desobstrução — o tratamento de verdade
É o que efetivamente resolve. Cada causa tem um procedimento próprio, e a janela de oportunidade costuma ser medida em minutos.
As armadilhas do suporte
Fazer
- Iniciar vasopressor cedo, antes de encher de volume.
- Testar a resposta a volume com alíquotas pequenas e reavaliação.
- Corrigir hipoxemia, hipercapnia e acidose, que pioram a resistência pulmonar.
- Preparar o procedimento definitivo em paralelo ao suporte.
- Reavaliar com ultrassom após cada intervenção.
Evitar
- Repetir expansões volêmicas sem resposta documentada.
- Intubar sem vasopressor pronto e sem corrigir a causa quando possível.
- Usar PEEP alta e volume corrente elevado no ventrículo direito falido.
- Adiar a descompressão pleural para confirmar por imagem.
- Tratar hipotensão persistente apenas com aumento de dose da droga vasoativa.
Situações com manejo próprio
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Trauma torácico | Pneumotórax hipertensivo e tamponamento coexistem com hemorragia, e a hipovolemia pode mascarar a turgência jugular. | Descompressão empírica diante de instabilidade com murmúrio abolido. Em ferimento penetrante precordial com parada, considerar toracotomia de reanimação. |
| Gestante | A partir do segundo trimestre, o útero comprime a veia cava inferior em decúbito dorsal. O TEP é causa importante de mortalidade materna. | Deslocamento uterino para a esquerda antes de qualquer outra medida. Anticoagular com heparina — os anticoagulantes orais diretos e a varfarina são contraindicados na gestação. |
| Ventilação mecânica | Descompensação súbita sob pressão positiva sugere barotrauma, auto-PEEP, deslocamento ou obstrução do tubo. | Desconectar do ventilador e ventilar com bolsa. Se a pressão melhora ao desconectar, o diagnóstico é hiperinsuflação dinâmica. |
| Asma e DPOC graves | Aprisionamento aéreo gera auto-PEEP com hipotensão, facilmente confundida com choque séptico ou hipovolêmico. | Reduzir frequência respiratória e volume corrente, prolongar o tempo expiratório e tratar o broncoespasmo. Não subir a PEEP às cegas. |
| Pós-operatório de cirurgia cardíaca | Tamponamento pode ser localizado e com derrame pequeno; o ecocardiograma transtorácico tem acurácia limitada nas primeiras horas. | Alta suspeição diante de queda do débito dos drenos seguida de instabilidade. Ecocardiograma transesofágico e reexploração cirúrgica precoce. |
| Hipertensão pulmonar crônica | O VD é hipertrofiado e dependente de pré-carga e de ritmo sinusal; descompensa por infecção, arritmia ou suspensão de medicação. | Manter a medicação específica, restaurar o ritmo sinusal, evitar hipoxemia e acidose, e envolver o centro de referência precocemente. |
| Doente oncológico | Derrame pericárdico neoplásico, trombose associada ao câncer e compressão de veia cava superior por massa mediastinal. | Drenagem com cateter de permanência e avaliação da janela pericárdica. Anticoagulação exige avaliação individual do risco de sangramento. |
| Prótese valvar | Trombose de prótese pode se manifestar como choque súbito, com sopro novo ou variável e história de anticoagulação inadequada. | Ecocardiograma urgente, incluindo transesofágico. Trombólise ou cirurgia conforme o lado acometido, o tamanho do trombo e a gravidade. |
| Grande queimado e abdome agudo | Pressão intra-abdominal elevada reduz o retorno venoso e eleva as pressões no ventilador. | Medir a pressão intravesical, otimizar sedação e analgesia, drenar coleções e considerar descompressão cirúrgica. |
| Criança | A hipotensão é achado tardio: taquicardia e má perfusão precedem a queda de pressão. | Para descompressão por agulha, o segundo espaço intercostal na linha hemiclavicular segue recomendado, com agulha e dreno de calibre adequado à idade. |
Erros comuns
- Encher o paciente de volume porque "está hipotenso", sem olhar a veia cava inferior nem o ventrículo direito.
- Pedir radiografia antes de descomprimir um pneumotórax hipertensivo clinicamente evidente.
- Atribuir a turgência jugular à insuficiência cardíaca sem examinar os pulmões — que no obstrutivo estão limpos.
- Interpretar dilatação do ventrículo direito como sinal exclusivo de TEP, esquecendo infarto de VD e hipertensão pulmonar crônica.
- Pedir dímero-D em paciente já em choque, quando o resultado não muda a conduta.
- Transportar para a tomografia um paciente instável que ainda não foi estabilizado.
- Intubar antes de instalar vasopressor e antes de tentar remover o obstáculo.
- Usar PEEP alta e volume corrente elevado em ventrículo direito falido.
- Subir indefinidamente a dose de vasopressor sem revisar por que o choque não responde.
- Descartar tamponamento por ausência da tríade de Beck, que é pouco frequente.
- Esquecer a auto-PEEP no asmático ventilado que fica hipotenso após a intubação.
- Deixar a agulha de descompressão no lugar e considerar o caso resolvido, sem drenagem torácica definitiva.
- Não acionar precocemente a equipe de resposta ao TEP e a retaguarda cirúrgica ou hemodinâmica.
Resumo do fluxo
- Choque com jugulares cheias e pulmões limpos: pense em obstrução até prova em contrário.
- Ultrassom à beira do leito nas quatro janelas — pericárdio, ventrículo direito, veia cava inferior e pleura.
- Pneumotórax hipertensivo suspeitado: descomprima imediatamente, sem imagem prévia.
- Tamponamento confirmado: pericardiocentese guiada por ultrassom ou drenagem cirúrgica.
- TEP com hipotensão persistente: anticoagule e indique reperfusão — trombólise, cateter ou embolectomia.
- Suporte em paralelo: volume em alíquotas pequenas, noradrenalina precoce e ventilação protetora.
- Sob ventilação e hipotenso: desconecte do ventilador e avalie hiperinsuflação dinâmica.
- Reavalie com ultrassom depois de cada intervenção e acione a equipe especializada se não houver resposta.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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- Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) e Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Protocolos e diretrizes vigentes sobre choque, tromboembolismo pulmonar e doenças do pericárdio.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, escalas e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação.
Informações rápidas
Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Suspeitar
Pense em choque obstrutivo diante de jugulares distendidas com pulmões limpos, de hipotensão que não responde a volume nem a vasopressor, de piora súbita logo após intubar ou ventilar, e de parada em atividade elétrica sem pulso com QRS estreito e rápido.
As três principais
TEP de alto risco, tamponamento cardíaco e pneumotórax hipertensivo respondem pela quase totalidade dos casos. Não esqueça da auto-PEEP e da hiperinsuflação dinâmica no paciente ventilado, que é a causa mais subdiagnosticada de todas.
Confirmar à beira do leito
O ultrassom decide em minutos: derrame pericárdico com colapso das câmaras direitas, ventrículo direito dilatado com septo em sinal do D, veia cava inferior pletórica, e ausência de deslizamento pleural com ponto pulmonar.
Desobstruir
O tratamento é remover o obstáculo, não titular droga. Volume com cautela, em alíquotas de 250 a 500 mL com reavaliação; noradrenalina precoce para proteger a perfusão coronariana do ventrículo direito; ventilação com volume e pressão baixos.
Números rápidos
Volume de teste: 250 a 500 mL de cristaloide, com reavaliação imediata da resposta.
VD dilatado: relação VD/VE acima de 0,9 a 1,0 na janela apical de 4 câmaras.
VCI pletórica: diâmetro acima de 2 cm com colapso inspiratório mínimo.
Alteplase: 100 mg em 2 horas; na parada cardíaca, 50 mg em bólus, repetível.
Descompressão no adulto: 5º espaço intercostal, à frente da linha axilar média, com agulha longa.
Não esqueça
Jugular cheia com pulmão limpo é choque obstrutivo até prova em contrário.
Pneumotórax hipertensivo é diagnóstico clínico: descomprima antes da imagem.
Vasopressor entra cedo para proteger a perfusão coronariana do ventrículo direito.
Volume em excesso piora o débito no ventrículo direito já dilatado.
Intubar sem corrigir o obstáculo pode precipitar parada cardíaca.
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A banca cobra o perfil hemodinâmico (débito baixo, resistência alta, pré-carga alta), a tríade de Beck e a descompressão imediata do pneumotórax hipertensivo sem radiografia.
Decore: no obstrutivo o tratamento é o procedimento; alteplase 100 mg em 2 horas; ventrículo direito dilatado com septo em D e veia cava inferior pletórica.
