Tromboembolismo Pulmonar
O TEP quase nunca mata pelo pulmão: mata pelo ventrículo direito. Uma câmara fina, feita para bombear contra quase nenhuma resistência, encontra de repente uma pós-carga que não consegue vencer — e entra em espiral. Entender isso explica por que a fluidoterapia generosa piora, por que a indução anestésica pode ser fatal e por que a decisão de reperfundir tem hora certa.
Calcular antes de pedir
- Probabilidade pré-teste define o próximo exame
- Wells ou Genebra revisado, sempre antes do D-dímero
- PERC exclui TEP sem exame nenhum na baixa probabilidade
- D-dímero com corte ajustado por idade acima de 50 anos
Olhar o ventrículo direito
- É o VD que determina o prognóstico, não o tamanho do trombo
- Relação VD/VE ≥ 1,0 e TAPSE abaixo de 16 mm
- Troponina e BNP elevados marcam sofrimento miocárdico
- Ecocardiograma é preferido à tomografia para avaliar o VD
Classificar de A a E
- Diretriz de 2026 aposentou "maciço" e "submaciço"
- Cinco categorias, da subclínica à falência cardiopulmonar
- Cada categoria tem destino e terapia próprios
- Modificador respiratório "R" quando há hipoxemia
Anticoagular e reperfundir
- Heparina de baixo peso preferida à não fracionada
- Anticoagulante oral direto preferido à varfarina
- Trombólise só nas categorias mais graves
- Cuidado extremo com sedação e intubação
O que é tromboembolismo pulmonar
Tromboembolismo pulmonar é a obstrução da circulação arterial pulmonar por material embólico, na imensa maioria das vezes um trombo originado no sistema venoso profundo dos membros inferiores ou da pelve. Junto com a trombose venosa profunda, compõe o tromboembolismo venoso — duas manifestações da mesma doença.
É a terceira causa cardiovascular de morte, atrás apenas do infarto e do acidente vascular cerebral. E é uma das grandes simuladoras da medicina: pode se apresentar como dispneia isolada, dor torácica pleurítica, síncope, choque ou simplesmente parada cardiorrespiratória.
A espiral do ventrículo direito
O ventrículo direito é uma câmara de parede fina, projetada para bombear contra uma resistência muito baixa. Diante de um aumento súbito de pós-carga, ele não tem reserva — e entra em um ciclo que se autoalimenta:
- Obstrução mecânica e vasoconstrição — o trombo obstrui e a liberação de serotonina, tromboxano e endotelina causa vasoconstrição pulmonar adicional. A resistência vascular pulmonar dispara.
- Dilatação do VD — a câmara se dilata para manter o volume sistólico, aumentando a tensão de parede e o consumo de oxigênio.
- Isquemia do VD — a perfusão coronariana direita cai (pressão aórtica menor, pressão intracavitária maior) justamente quando a demanda aumenta.
- Interdependência ventricular — o VD dilatado desvia o septo para a esquerda, reduzindo o enchimento do ventrículo esquerdo.
- Queda do débito sistêmico — menor pré-carga esquerda significa menor débito, menor pressão aórtica e ainda menos perfusão coronariana para o VD.
- Colapso — o ciclo se fecha e evolui para atividade elétrica sem pulso.
Três consequências práticas
Volume em excesso piora
Encher um VD já dilatado aumenta a tensão de parede e agrava o desvio septal. Limite a reposição a 250 a 500 mL e reavalie; se não houver resposta, pare e vá para vasopressor.
A indução anestésica pode matar
A sedação abole a descarga simpática que está mantendo o paciente vivo, e a pressão positiva reduz ainda mais o retorno venoso. Séries descrevem parada cardíaca em 19% a 28% após indução em TEP com disfunção de VD.
A hipoxemia é multifatorial
Espaço morto aumentado, desequilíbrio entre ventilação e perfusão, shunt por forame oval patente e baixo débito. Nem sempre proporcional à extensão do trombo.
Números que importam
Chega a cerca de 30% sem tratamento e cai para menos de 5% quando diagnosticado e tratado adequadamente.
Cerca de 5% dos casos, com mortalidade hospitalar que ultrapassa 25% a 50% no choque e na parada.
Boa parte dos casos fatais só é reconhecida na necrópsia; a apresentação inespecífica é a principal razão.
Risco elevado nos primeiros meses e maior quando não há fator de risco reversível identificado.
Doença tromboembólica pulmonar crônica ocorre em cerca de 3% dos casos e exige seguimento estruturado.
As quatro perguntas do atendimento
Este paciente pode ter TEP?
Probabilidade pré-testeAplique Wells ou o escore de Genebra revisado antes de pedir qualquer exame. É a probabilidade pré-teste que define se o próximo passo é o D-dímero ou direto a imagem.
Como confirmar ou afastar?
D-dímero ou imagemProbabilidade baixa ou intermediária: D-dímero com corte ajustado por idade. Probabilidade alta: angiotomografia direto. Instabilidade: ecocardiograma à beira do leito.
Qual a gravidade?
Categorias A a EEscore clínico (sPESI, PESI ou Hestia), biomarcadores, função do VD e estado hemodinâmico. É o que define destino, monitorização e necessidade de reperfusão.
Anticoagular, reperfundir, ou ambos?
TratamentoAnticoagulação para praticamente todos. Reperfusão apenas nas categorias mais graves, com acionamento do time multidisciplinar de TEP.
Fatores de risco
A tríade de Virchow continua organizando o raciocínio: estase venosa, lesão endotelial e hipercoagulabilidade. Identificar se o fator é reversível ou persistente é o que define, depois, a duração da anticoagulação.
| Força | Fatores | Implicação |
|---|---|---|
| Fortes | Fratura de membro inferior, artroplastia de quadril ou joelho, cirurgia de grande porte, trauma maior, lesão medular, infarto ou internação por insuficiência cardíaca nos últimos 3 meses, TEP ou TVP prévios. | Justificam alta suspeição mesmo com quadro clínico frustro. |
| Moderados | Câncer ativo (sobretudo pancreático, gástrico, pulmonar e hematológico), quimioterapia, cateter venoso central, terapia hormonal e contraceptivo oral, gestação e puerpério, fertilização in vitro, doenças autoimunes, doença inflamatória intestinal, infecção grave, trombofilias hereditárias. | Combinam-se entre si; várias juntas elevam bastante o risco. |
| Fracos | Imobilidade por mais de 3 dias, viagem prolongada, idade avançada, obesidade, varizes, gestação anterior ao parto, cirurgia laparoscópica. | Raramente suficientes isoladamente, mas somam. |
| Sem fator identificável | Cerca de um terço dos casos. Chamado de TEP não provocado. | Maior risco de recorrência e principal indicação de anticoagulação estendida. |
Apresentação clínica
Não existe sinal ou sintoma que confirme ou afaste TEP isoladamente. O quadro é montado pela combinação de achados dentro de um contexto de risco — e é exatamente isso que os escores de probabilidade formalizam.
| Manifestação | Frequência e características | Comentário |
|---|---|---|
| Dispneia | Sintoma mais comum; súbita ou progressiva em dias. | Pode ser o único sintoma, sobretudo em TEP central. |
| Dor torácica pleurítica | Frequente; sugere embolia periférica com irritação pleural. | Costuma acompanhar infarto pulmonar; paradoxalmente indica embolia mais distal. |
| Taquicardia e taquipneia | Achados objetivos mais comuns. | Frequência normal não afasta o diagnóstico. |
| Síncope | Menos comum, porém marcador de gravidade. | Indica comprometimento hemodinâmico transitório; associa-se a maior mortalidade. |
| Hemoptise | Pouco frequente; costuma ser de pequeno volume. | Associada a infarto pulmonar. |
| Sinais de TVP | Presentes em parcela minoritária dos pacientes. | Quando presentes, aumentam muito a probabilidade e permitem diagnóstico por ultrassom. |
| Hipotensão e choque | Minoria dos casos, mas define alto risco. | Mortalidade elevada; exige decisão de reperfusão. |
| Febre baixa | Pode ocorrer e induz ao diagnóstico equivocado de pneumonia. | Febre alta com escarro purulento fala contra TEP isolado. |
| Assintomático | TEP incidental em tomografia feita por outro motivo. | Cada vez mais frequente; é a categoria A da nova classificação. |
Exames iniciais e o que eles mostram
Mais frequentemente taquicardia sinusal. Sinais de sobrecarga direita — inversão de T em V1 a V4, padrão S1Q3T3, bloqueio de ramo direito novo — são pouco sensíveis, mas marcam gravidade quando presentes.
Frequentemente normal ou com achados inespecíficos. Serve principalmente para afastar diferenciais como pneumotórax, pneumonia e congestão.
Hipoxemia com hipocapnia e alcalose respiratória são típicas, mas a gasometria pode ser normal. Não use para excluir.
Marcador de hipoperfusão e de gravidade. Na diretriz de 2026 passou a ser medida recomendada nas categorias de maior risco.
Dilatação de VD, sinal de McConnell, septo paradoxal e TAPSE reduzido. No paciente instável, pode autorizar o tratamento sem angiotomografia.
Compressão de veias proximais dos membros inferiores. Trombose proximal em paciente com quadro compatível confirma tromboembolismo venoso e permite iniciar tratamento.
Diagnóstico diferencial
| Condição | Pistas a favor | Como diferenciar |
|---|---|---|
| Síndrome coronariana aguda | Dor opressiva com irradiação, fatores de risco coronarianos, alterações isquêmicas típicas. | Eletrocardiograma seriado e curva de troponina; ecocardiograma com alteração segmentar esquerda. |
| Pneumonia | Febre alta, tosse produtiva, consolidação focal, leucocitose. | Radiografia e ultrassom com consolidação e broncograma aéreo. |
| Edema agudo de pulmão | Ortopneia, crepitações bilaterais, turgência jugular, hipertensão. | Linhas B homogêneas ao ultrassom e peptídeo natriurético muito elevado. |
| Exacerbação de DPOC ou asma | Sibilos, tempo expiratório prolongado, história prévia. | Lembre que TEP é um precipitante frequente de descompensação nesses pacientes. |
| Pneumotórax | Dor súbita, murmúrio abolido unilateral. | Ultrassom sem deslizamento pleural. |
| Dissecção de aorta | Dor lancinante irradiada para o dorso, assimetria de pulsos. | Angiotomografia; considerar antes de anticoagular na dúvida. |
| Tamponamento cardíaco | Turgência jugular com ausculta limpa e bulhas abafadas. | Ultrassom cardíaco com derrame e colapso de câmaras direitas. |
| Costocondrite e dor musculoesquelética | Dor reprodutível à palpação, sem hipoxemia. | Diagnóstico de exclusão em paciente de baixa probabilidade. |
| Crise de ansiedade | Parestesias, alcalose respiratória, exame normal. | Nunca assumir sem afastar TEP em paciente com fator de risco. |
O algoritmo depende da estabilidade
A primeira bifurcação do diagnóstico não é clínica, é hemodinâmica: o paciente está estável? A resposta muda completamente a sequência de exames.
Caminho da probabilidade pré-teste
Calcule Wells ou o escore de Genebra revisado. Probabilidade baixa ou intermediária (ou "TEP improvável"): D-dímero com corte ajustado por idade. Negativo, exclui; positivo, angiotomografia.
Probabilidade alta (ou "TEP provável"): vá direto à angiotomografia. Nesse cenário, um D-dímero negativo não tem valor preditivo negativo suficiente para excluir.
Caminho do ecocardiograma
Paciente em choque ou hipotensão persistente não vai à tomografia. Faça ecocardiograma à beira do leito: se houver disfunção de ventrículo direito compatível e o quadro for sugestivo, isso autoriza o tratamento de reperfusão.
Se o paciente estabilizar e a tomografia for factível com segurança, confirme depois. Trombo móvel em câmaras direitas ao ecocardiograma já é diagnóstico suficiente.
Calculadora — escore de Wells e D-dímero
Marque os critérios presentes e informe idade e D-dímero, se já disponível. A ferramenta devolve a probabilidade pré-teste nas versões de três e de dois níveis, o corte ajustado do D-dímero e o próximo passo.
Calculadora — regra PERC
A regra PERC serve para afastar TEP sem nenhum exame em pacientes de baixa probabilidade clínica. Só é válida quando a probabilidade pré-teste já é baixa e todos os oito critérios estão ausentes.
Outros algoritmos e escores
| Ferramenta | Como funciona | Quando usar |
|---|---|---|
| Genebra revisado simplificado | Oito itens objetivos, sem julgamento subjetivo: idade acima de 65 anos, TEP ou TVP prévios, cirurgia ou fratura no último mês, câncer ativo, dor unilateral em membro inferior, hemoptise, frequência cardíaca e dor à palpação venosa profunda com edema unilateral. | Alternativa ao Wells, útil justamente por não depender do julgamento subjetivo "TEP é o diagnóstico mais provável". |
| YEARS | Três itens: sinais clínicos de TVP, hemoptise e TEP como diagnóstico mais provável. Nenhum item presente, o corte do D-dímero é 1000 ng/mL; um ou mais itens, o corte é 500. | Reduz o número de tomografias. Validado também em algoritmo específico para gestantes. |
| PEGeD | Combina probabilidade clínica com cortes diferenciados de D-dímero: 1000 na baixa probabilidade e 500 na intermediária. | Estratégia de segurança demonstrada para reduzir imagem em pacientes de baixo risco. |
| Corte ajustado por idade | Acima de 50 anos, o corte passa a ser idade × 10 ng/mL (por exemplo, 750 aos 75 anos). | Aumenta a especificidade no idoso, em quem o D-dímero é quase sempre positivo pelo corte fixo. |
Exames de imagem
Padrão de referência na prática. Alta sensibilidade e especificidade, avalia diferenciais e permite medir a relação entre ventrículo direito e esquerdo. Limitações: contraste iodado, radiação e disfunção renal.
Alternativa quando há contraindicação ao contraste, na gestante e no jovem, pela menor dose de radiação mamária. Rende melhor com radiografia de tórax normal.
Na instabilidade, pode autorizar o tratamento sem tomografia. Na estratificação, é preferido à tomografia para avaliar o ventrículo direito.
Trombose proximal em paciente com quadro compatível confirma tromboembolismo venoso e permite iniciar tratamento sem imagem torácica.
Uso restrito por disponibilidade limitada, tempo de exame e taxa relevante de exames inconclusivos.
Praticamente abandonada como método diagnóstico isolado; hoje é feita no contexto de tratamento por cateter.
A nova classificação de 2026
A diretriz conjunta publicada em 2026 pela American Heart Association, pelo American College of Cardiology e por outras oito sociedades aposentou os termos "maciço" e "submaciço" e criou as Categorias Clínicas de TEP Agudo, de A a E, com subcategorias.
A razão da mudança é prática: "submaciço" abrigava desde o paciente com troponina discretamente elevada e sensação de bem-estar até aquele hipoxêmico e em deterioração. São situações radicalmente diferentes, e agora cada uma tem nome e caminho terapêutico próprios.
Subclínico
TEP incidental, encontrado em tomografia feita por outro motivo, em paciente assintomático.
Destino: pode receber alta da própria emergência, sem necessidade de internação.
Sintomático com escore de gravidade baixo
PESI classe I ou II, sPESI igual a zero, Hestia igual a zero ou Bova de até 4 pontos.
Destino: alta precoce é geralmente recomendada, com tratamento ambulatorial apoiado em ferramenta de decisão.
Sintomático com escore de gravidade elevado
PESI classe III a V, sPESI de 1 ou mais, Hestia de 1 ou mais, ou Bova acima de 4. Subdividido conforme disfunção de ventrículo direito e biomarcadores: C1 sem nenhum dos dois, C2 com um deles e C3 com ambos.
Destino: internação, com dosagem de biomarcadores, lactato e avaliação por imagem do ventrículo direito.
Falência cardiopulmonar incipiente
D1: hipotensão transitória — sistólica abaixo de 90 mmHg ou queda acima de 40 mmHg, com duração menor que 15 minutos ou revertida com fluido. D2: choque normotenso, com sinais de hipoperfusão como lactato acima de 2 mmol/L, lesão renal aguda, débito urinário abaixo de 0,5 mL/kg/h, alteração do estado mental ou pressão arterial média abaixo de 60 mmHg.
Destino: terapia intensiva. Terapias avançadas podem ser consideradas.
Falência cardiopulmonar
E1: hipotensão persistente com choque cardiogênico. E2: choque refratário ou parada cardiorrespiratória.
Destino: terapias avançadas são razoáveis em E1; em E2, a trombólise sistêmica é razoável e a embolectomia cirúrgica não é recomendada em detrimento de outras opções, como a oxigenação por membrana extracorpórea.
Como isso se relaciona com a classificação europeia
A classificação da European Society of Cardiology, de 2019, continua amplamente usada e conversa bem com a nova. Vale conhecer as duas.
| Risco (ESC 2019) | Definição | Correspondência aproximada |
|---|---|---|
| Alto risco | Instabilidade hemodinâmica: parada cardiorrespiratória, choque obstrutivo ou hipotensão persistente. | Categorias D2 a E2 da classificação de 2026. |
| Intermediário-alto | Sem instabilidade, com sPESI de 1 ou mais e disfunção de ventrículo direito e biomarcador elevado. | Aproximadamente a categoria C3. |
| Intermediário-baixo | Sem instabilidade, com sPESI de 1 ou mais e apenas um dos dois (disfunção de VD ou biomarcador), ou nenhum deles. | Aproximadamente as categorias C1 e C2. |
| Baixo risco | Sem instabilidade, sPESI igual a zero e sem disfunção de VD. | Categorias A e B. |
Calculadora — sPESI, risco ESC e categoria clínica
Marque os itens do sPESI e informe a situação hemodinâmica, a função do ventrículo direito e os biomarcadores. A ferramenta devolve o sPESI, a classificação europeia e a categoria clínica de 2026, com a conduta correspondente.
sPESI — 1 ponto por item
O que avaliar na estratificação
| Marcador | Achado de mau prognóstico | Comentário |
|---|---|---|
| Ecocardiograma | Relação VD/VE ≥ 1,0, TAPSE abaixo de 16 mm, sinal de McConnell, septo paradoxal, trombo em trânsito. | É o método preferido para avaliar o VD na diretriz de 2026. |
| Angiotomografia | Relação VD/VE ≥ 1,0 associa-se a aumento significativo da mortalidade. | Vantagem de já estar disponível no exame diagnóstico. |
| Troponina | Elevação indica sofrimento miocárdico do ventrículo direito. | Alto valor preditivo negativo quando normal. |
| BNP ou NT-proBNP | Elevação reflete estiramento da parede ventricular. | Útil sobretudo pelo valor preditivo negativo. |
| Lactato | Acima de 2 mmol/L indica hipoperfusão, mesmo com pressão normal. | Passou a ser recomendado nas categorias de maior risco em 2026. |
| Creatinina e débito urinário | Lesão renal aguda e oligúria compõem o conceito de choque normotenso. | Marcadores de disfunção de órgão-alvo. |
| Trombose venosa profunda residual | Presença de trombose proximal concomitante. | Associa-se a maior risco de recorrência e de mortalidade. |
Os princípios que mudaram em 2026
A anticoagulação é o tratamento de praticamente todo TEP. Duas preferências que já eram prática comum passaram a ser recomendações formais de classe 1 na diretriz de 2026.
Calculadora — doses de anticoagulação e trombólise
Informe peso e função renal. A ferramenta devolve as doses de todas as opções parenterais, os esquemas dos anticoagulantes orais diretos e os regimes de trombólise, com volumes e diluições.
Duração da anticoagulação
| Situação | Duração | Comentário |
|---|---|---|
| Fator de risco maior reversível (cirurgia de grande porte, trauma, imobilização prolongada) |
3 meses | Risco de recorrência baixo após a retirada; suspender é a conduta padrão. |
| Fator de risco menor reversível (viagem prolongada, estrogênio, gestação) |
3 a 6 meses | Decisão individualizada, considerando risco de sangramento e preferência do paciente. |
| Não provocado | Estendida, por tempo indefinido | Recorrência elevada após a suspensão. Reavaliar periodicamente risco e benefício. |
| Fator de risco persistente (câncer ativo, síndrome antifosfolípide, trombofilia de alto risco) |
Estendida | Enquanto o fator persistir. No câncer, HBPM ou DOAC conforme o sítio tumoral e o risco de sangramento. |
| Recorrente | Estendida | Segundo episódio praticamente sempre indica anticoagulação por tempo indefinido. |
Anticoagulação em populações especiais
| População | Escolha | Justificativa |
|---|---|---|
| Gestante | HBPM ou heparina não fracionada | DOAC e varfarina são classificados como potencialmente danosos. Manter por pelo menos 6 semanas após o parto, com mínimo total de 3 meses. |
| Câncer ativo | HBPM ou DOAC | DOAC é opção razoável, com cautela em tumores gastrointestinais e geniturinários pelo risco de sangramento. |
| Síndrome antifosfolípide | Varfarina | DOAC associou-se a mais eventos trombóticos arteriais. Exceção possível: perfil de anticorpo único, de baixo risco, sem trombose arterial prévia. |
| Obesidade | DOAC é razoável | Apixabana e rivaroxabana mostraram-se ao menos tão seguras e eficazes quanto a varfarina, inclusive na obesidade grave. |
| Doença renal estágio 2 a 3 | DOAC | Preferido à varfarina, com ajuste de dose conforme a bula. |
| Doença renal estágio 4 a 5 ou diálise | Apixabana pode ser considerada | Dados ainda incertos; alternativa é heparina não fracionada com varfarina. |
| Hepatopatia Child-Pugh A e B | DOAC é razoável | Monitorar função hepática e plaquetas. |
| Hepatopatia Child-Pugh C | Evitar DOAC | Classificado como potencialmente danoso. |
| Trombocitopenia | Individualizar | Reduzir dose ou suspender conforme a contagem plaquetária e o risco trombótico; discutir com hematologia. |
Sangramento e reversão
Suspender a infusão — a meia-vida é curta. Se necessário, protamina 1 mg para cada 100 UI infundidas nas últimas 2 a 3 horas, com dose máxima de 50 mg por administração.
Protamina reverte apenas parcialmente: cerca de 1 mg para cada 1 mg de enoxaparina administrada nas últimas 8 horas, com metade da dose se o intervalo for maior.
Vitamina K endovenosa e complexo protrombínico; plasma fresco congelado apenas quando o complexo não estiver disponível.
Andexanet alfa quando disponível; alternativa é complexo protrombínico. Carvão ativado se a ingestão foi há menos de 2 a 4 horas.
Idarucizumabe é o antídoto específico. A dabigatrana também é dialisável, ao contrário dos inibidores do fator Xa.
Queda de plaquetas entre o 5º e o 10º dia. Suspender toda heparina e trocar por anticoagulante não heparínico — nunca simplesmente reduzir a dose.
Quem reperfundir, segundo as categorias
A grande contribuição prática da classificação de 2026 é vincular cada categoria a uma recomendação de terapia avançada. A regra geral é conservadora: reperfusão só nas categorias mais graves.
| Categoria | Terapias avançadas | Comentário |
|---|---|---|
| A a C2 | Trombólise sistêmica é danosa. Trombólise por cateter e trombectomia mecânica não são recomendadas. | O risco de sangramento supera qualquer benefício. Anticoagulação isolada. |
| C3 | Papel da trombólise sistêmica e das terapias por cateter é incerto. | No estudo PEITHO, a trombólise preveniu colapso cardiovascular ao custo de mais sangramento, incluindo hemorragia intracraniana. Decisão individualizada com o time de TEP. |
| D1 e D2 | Terapias avançadas podem ser consideradas: trombólise sistêmica, trombólise por cateter ou trombectomia mecânica. | Zona de maior debate. Acione o time de TEP e reavalie com frequência. |
| E1 | Terapias avançadas são razoáveis: trombólise sistêmica, por cateter, trombectomia mecânica ou embolectomia cirúrgica. | Aqui o risco de não reperfundir supera o risco de sangramento. |
| E2 | Trombólise sistêmica é razoável. A embolectomia cirúrgica não é recomendada em detrimento de outras opções, como a oxigenação por membrana extracorpórea venoarterial. | Choque refratário ou parada. Considerar ECMO como ponte. |
Cada card abre o detalhamento completo: indicação, posologia, diluição, contraindicações e cuidados. Os cards seguem a ordem em que as intervenções entram no atendimento.
Suporte inicial — proteger o ventrículo direito
Quase tudo que se faz por reflexo no choque piora o VD: volume generoso, sedação profunda e pressão positiva. Aqui, o suporte precisa ser desenhado para a fisiologia certa.
Anticoagulação — o tratamento de praticamente todos
Iniciar cedo é o que mais reduz mortalidade. A escolha entre parenteral e oral depende da gravidade, da função renal e da possibilidade de reperfusão nas próximas horas.
Reperfusão — categorias D e E
Reservada a quem tem falência cardiopulmonar incipiente ou estabelecida. O benefício depende de acertar o momento e o paciente; usada fora de indicação, o sangramento domina.
Decisões de destino e seguimento
Boa parte dos pacientes com TEP pode ir para casa. E quase todos precisam de um plano de seguimento estruturado, que raramente é feito.
Situações com manejo próprio
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Gestante | D-dímero fisiologicamente elevado, escores não validados e preocupação com radiação mamária e fetal. | Algoritmo YEARS adaptado à gestação; ultrassom venoso antes da imagem torácica; cintilografia ou angiotomografia com protocolo de baixa dose. Tratar com HBPM — DOAC e varfarina são contraindicados. |
| Parada cardiorrespiratória | TEP é causa reversível clássica de atividade elétrica sem pulso. | Ultrassom durante a pausa mostrando VD dilatado apoia o diagnóstico. Trombólise durante a reanimação é razoável, mantendo compressões por 60 a 90 minutos após a dose. Considerar ECMO. |
| Câncer ativo | Risco trombótico e hemorrágico simultaneamente elevados; recorrência maior mesmo em uso de anticoagulante. | HBPM ou DOAC, com cautela em tumores gastrointestinais e geniturinários. Anticoagulação estendida enquanto o câncer estiver ativo. |
| TEP subsegmentar isolado | Achado cada vez mais frequente com tomografias de alta resolução; significado clínico incerto. | Sem trombose venosa profunda e com baixo risco de recorrência, alguns protocolos aceitam vigilância com ultrassom seriado. Decisão individualizada. |
| TEP incidental em oncologia | Descoberto em tomografia de estadiamento, em paciente assintomático. | Categoria A. Tratar como TEP sintomático na maioria dos casos, com anticoagulação plena — mas alta da emergência é apropriada. |
| Trombo em trânsito | Trombo móvel em câmaras direitas ou cavalgando forame oval patente ao ecocardiograma. | Alto risco de embolização adicional e de embolia paradoxal. Discussão urgente com o time de TEP sobre trombólise ou embolectomia. |
| Alto risco de sangramento | Cirurgia neurológica recente, sangramento ativo, plaquetopenia grave. | Heparina não fracionada pela meia-vida curta e reversibilidade. Filtro de veia cava apenas se a anticoagulação for realmente impossível. |
| Embolia não trombótica | Gordurosa (fratura de ossos longos), amniótica, gasosa, séptica ou tumoral. | Manejo próprio de cada tipo; a anticoagulação convencional pode não ter papel. Reconhecer o contexto é o que muda a conduta. |
| Idoso frágil | Risco de sangramento e de recorrência simultaneamente elevados; função renal frequentemente reduzida. | Ajustar dose pela função renal e pelo peso, revisar interações medicamentosas e reavaliar periodicamente a relação risco-benefício. |
Erros comuns
- Pedir D-dímero sem antes calcular a probabilidade pré-teste.
- Usar D-dímero para tentar excluir TEP em paciente de alta probabilidade.
- Não ajustar o corte do D-dímero pela idade em pacientes acima de 50 anos.
- Aplicar a regra PERC em paciente que não é de baixa probabilidade.
- Atrasar a anticoagulação até a confirmação por imagem em paciente de alta probabilidade.
- Levar paciente instável para a tomografia em vez de fazer ecocardiograma à beira do leito.
- Assumir que o tamanho do trombo define a gravidade, em vez de olhar o ventrículo direito.
- Fazer reposição volêmica generosa em paciente com VD dilatado.
- Intubar sem preparo, sem vasopressor pronto e sem considerar o risco de parada na indução.
- Usar sedação profunda desnecessária nas categorias de maior risco.
- Trombolisar paciente das categorias A a C2, em que a trombólise é considerada danosa.
- Deixar de acionar o time multidisciplinar de TEP nas categorias C a E.
- Colocar filtro de veia cava em paciente que pode ser anticoagulado.
- Esquecer de programar a retirada do filtro quando ele foi colocado.
- Internar paciente de categoria A ou B que poderia ser tratado em casa.
- Manter dose plena de anticoagulante na fase estendida, quando meia dose seria suficiente.
- Dar alta sem plano de seguimento e sem rastreio de sintomas persistentes.
Resumo do fluxo
- Suspeite: dispneia, dor pleurítica, síncope, hipoxemia com ausculta limpa, taquicardia inexplicada ou fator de risco recente.
- Avalie a estabilidade hemodinâmica — é essa a primeira bifurcação do algoritmo.
- INSTÁVEL: ECOCARDIOGRAMA À BEIRA DO LEITO. Disfunção de VD com quadro compatível autoriza a reperfusão sem tomografia.
- Estável: calcule Wells ou Genebra revisado antes de pedir exame.
- Probabilidade baixa com PERC totalmente negativo: TEP afastado, sem nenhum exame adicional.
- Probabilidade baixa ou intermediária: D-dímero com corte ajustado por idade. Negativo exclui; positivo leva à angiotomografia.
- Probabilidade alta: angiotomografia direto.
- ALTA PROBABILIDADE: INICIE A ANTICOAGULAÇÃO ANTES DA CONFIRMAÇÃO, se o risco de sangramento permitir.
- Confirmado: estratifique com escore clínico, biomarcadores, lactato e função do ventrículo direito.
- Classifique de A a E e defina o destino: alta da emergência, alta precoce, enfermaria ou terapia intensiva.
- Categorias C a E: acione o time de TEP, meça lactato e avalie o VD preferencialmente por ecocardiograma.
- Reperfusão apenas em D e E, com trombólise, cateter, embolectomia ou ECMO conforme o caso.
- Evite sedação profunda e intubação desnecessárias; se intubar, tenha vasopressor e plano de resgate prontos.
- Defina a duração da anticoagulação pelo tipo de fator de risco e programe o seguimento com consulta na primeira semana.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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- Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Protocolos vigentes de tromboembolismo pulmonar e disfunção de ventrículo direito.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, diluições, escores e condutas devem ser sempre conferidos antes da aplicação, considerando a apresentação farmacêutica efetivamente disponível no serviço.
Informações rápidas
Resumo do artigo e escores de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Calcular antes de pedir
Aplique Wells ou o escore de Genebra revisado antes de qualquer exame. Baixa probabilidade com PERC totalmente negativo afasta TEP sem nenhum exame. Baixa ou intermediária: D-dímero com corte ajustado por idade (idade × 10 ng/mL acima de 50 anos). Alta probabilidade: angiotomografia direto — aqui o D-dímero negativo não exclui.
Olhar o ventrículo direito
O prognóstico é do VD, não do tamanho do trombo. Procure relação VD/VE ≥ 1,0, TAPSE abaixo de 16 mm, sinal de McConnell, troponina e BNP elevados e lactato acima de 2 mmol/L. O ecocardiograma é o método preferido para essa avaliação — e, no paciente instável, autoriza o tratamento sem tomografia.
Classificar de A a E
A diretriz de 2026 aposentou "maciço" e "submaciço". A subclínico, alta da emergência. B sintomático com escore baixo, alta precoce. C escore elevado, internação, subdividido por VD e biomarcadores. D falência incipiente e choque normotenso. E falência cardiopulmonar, com E2 em choque refratário ou parada. Modificador R quando há hipoxemia.
Anticoagular e reperfundir
Heparina de baixo peso é preferida à não fracionada, e o anticoagulante oral direto é preferido à varfarina. Em alta probabilidade, anticoagule antes da confirmação. Trombólise apenas nas categorias D e E — de A a C2 ela é considerada danosa. Evite sedação profunda e intubação desnecessárias.
Números rápidos
Wells: até 4 pontos TEP improvável; acima de 4, TEP provável.
D-dímero: corte de 500 ng/mL; acima de 50 anos, idade × 10.
YEARS: sem nenhum dos 3 itens, o corte do D-dímero sobe para 1000.
sPESI: zero é baixo risco (mortalidade ~1%); 1 ou mais, ~10%.
Disfunção de VD: relação VD/VE ≥ 1,0 ou TAPSE abaixo de 16 mm.
Enoxaparina: 1 mg/kg SC de 12/12 h, ou 1,5 mg/kg 1×/dia.
HNF: bólus de 80 UI/kg e infusão de 18 UI/kg/h, ajustada por TTPa.
Alteplase: 100 mg em 2 h; 0,6 mg/kg em 15 min (máx 50 mg) na instabilidade extrema; 50 mg em bólus na parada.
Rivaroxabana: 15 mg 12/12 h por 21 dias, depois 20 mg/dia.
Apixabana: 10 mg 12/12 h por 7 dias, depois 5 mg 12/12 h.
Não esqueça
Probabilidade pré-teste antes de qualquer exame.
Quem manda no prognóstico é o ventrículo direito, não o tamanho do trombo.
Alta probabilidade: anticoagule antes de confirmar.
Paciente instável não vai à tomografia — faça ecocardiograma à beira do leito.
Volume em excesso piora o ventrículo direito dilatado: limite a 250 a 500 mL.
Sedação profunda e intubação podem precipitar parada — parada em 19% a 28% após indução nas séries.
Trombólise só nas categorias D e E; de A a C2 é considerada danosa.
Nada de filtro de veia cava em quem pode ser anticoagulado.
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Em provas / residência
A banca cobra o escore de Wells, o corte do D-dímero ajustado por idade, o sPESI e a indicação de trombólise apenas no TEP de alto risco.
Decore: Wells acima de 4 é TEP provável; corte do D-dímero acima de 50 anos é idade × 10; sPESI zero permite tratamento ambulatorial; paciente instável faz ecocardiograma, e não tomografia.
