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Anafilaxia

Reação de hipersensibilidade sistêmica grave, de início rápido, com risco de morte por comprometimento respiratório e/ou circulatório. A adrenalina intramuscular é o tratamento de primeira linha, não tem contraindicação absoluta e não deve ser adiada por nenhuma outra medida.

Adrenalina IM primeiro Risco de via aérea Choque distributivo Reação bifásica
Tempo de leitura: 9 min
Atualizado em: 13/07/2026

Reconhecimento

  • Início agudo (minutos a horas)
  • Pele/mucosa + respiratório, cardiovascular ou GI grave
  • Ou hipotensão, broncoespasmo ou edema laríngeo após alérgeno conhecido
  • Ausência de urticária não exclui

Primeira medida

  • Adrenalina IM no vasto lateral da coxa
  • Adulto: 0,3–0,5 mg = 0,3–0,5 mL (1 mg/mL)
  • Criança: 0,01 mg/kg = 0,01 mL/kg (máx. 0,5 mL)
  • Repetir a cada 5–15 min se necessário

Suporte imediato

  • Retirar o agente e chamar ajuda
  • Decúbito dorsal com pernas elevadas
  • Oxigênio e monitorização contínua
  • Cristaloide em bolus se hipotensão

Depois de estabilizar

  • Observação pelo risco de reação bifásica
  • Triptase sérica quando disponível
  • Autoinjetor e plano de ação escrito
  • Encaminhamento ao alergista

O que é

A anafilaxia é uma reação de hipersensibilidade sistêmica grave, geralmente de início rápido, capaz de causar comprometimento respiratório e/ou circulatório com risco de morte. Na maioria dos casos é mediada por IgE, com degranulação de mastócitos e basófilos, mas também pode ocorrer por mecanismos não mediados por IgE (reações antes chamadas de "anafilactoides"), cujo manejo é idêntico.

É um diagnóstico clínico e uma emergência: nenhum exame deve atrasar o tratamento. As diretrizes atuais reforçam que não é necessário preencher formalmente os critérios diagnósticos para indicar a adrenalina quando a suspeita é razoável.

O atraso na administração da adrenalina é o fator mais consistentemente associado à mortalidade na anafilaxia.

Principais desencadeantes

Variam com a idade e o contexto. Em qualquer episódio, identificar o agente faz parte do tratamento — a exposição deve ser interrompida imediatamente.

  • Alimentos — leite, ovo, amendoim, castanhas, frutos do mar, trigo; causa mais comum em crianças.
  • Medicamentos — antibióticos (betalactâmicos), AINEs, contrastes iodados e, no perioperatório, bloqueadores neuromusculares.
  • Ferroadas de insetos — himenópteros (abelhas, vespas, formigas).
  • Látex — atenção em profissionais de saúde e pacientes multioperados.
  • Cofatores — exercício, álcool, AINEs, infecção aguda e menstruação podem amplificar a reação.
  • Idiopática — quando nenhum gatilho é identificado após investigação alergológica.
Fluxograma de manejo da anafilaxia Clique para ampliar o fluxograma

Epidemiologia

A prevalência estimada ao longo da vida situa-se em torno de 1,6% a 5,1% da população. A anafilaxia fatal é rara, mas o subtratamento é frequente: a adrenalina segue subutilizada tanto no ambiente pré-hospitalar quanto na emergência.

Prevalência

~1,6–5,1% ao longo da vida.

Letalidade

Baixa, mas evitável; ligada ao atraso da adrenalina.

Crianças

Alimentos são o gatilho mais frequente.

Adultos

Medicamentos e ferroadas ganham peso.

Reação bifásica

Minoria dos casos; mais provável em quadros graves.

Fisiopatologia

A reexposição ao alérgeno provoca ligação cruzada de IgE na superfície de mastócitos e basófilos, com degranulação e liberação maciça de histamina, triptase, leucotrienos, prostaglandinas e PAF.

O resultado é vasodilatação, aumento da permeabilidade capilar (com extravasamento de grande parte do volume intravascular em minutos), broncoconstrição, edema de mucosa e depressão miocárdica — combinação que produz choque distributivo e obstrução de via aérea.

Consequências clínicas diretas

  • Vasodilatação + extravasamento → hipotensão e choque.
  • Edema de mucosa → estridor, rouquidão, obstrução de via aérea.
  • Broncoconstrição → sibilos, hipoxemia, insuficiência respiratória.
  • Hiperpermeabilidade cutânea → urticária, angioedema, prurido, rubor.
  • Ação sobre músculo liso GI → cólica, vômitos, diarreia.
Por que a adrenalina funciona

Ação α1 (vasoconstrição, reduz edema de mucosa), β1 (inotropismo e cronotropismo) e β2 (broncodilatação e inibição da liberação de mediadores) — reverte simultaneamente os quatro eixos do quadro.

Quadro clínico por sistema

Pele e mucosas

Urticária, prurido, rubor, angioedema de lábios, língua e úvula. Presente na maioria — mas pode faltar, sobretudo no choque de instalação muito rápida.

Respiratório

Dispneia, sibilos, tosse, estridor, rouquidão, sensação de "aperto na garganta", hipoxemia.

Cardiovascular

Hipotensão, taquicardia, tontura, síncope, hipoperfusão, incontinência; raramente bradicardia e parada cardíaca.

Gastrointestinal

Cólica abdominal intensa, náuseas, vômitos e diarreia — sintomas persistentes contam como órgão-alvo nos critérios.

Neurológico

Sensação de morte iminente, agitação, confusão e rebaixamento do nível de consciência.

Lactentes

Manifestações inespecíficas: irritabilidade, choro persistente, hipotonia súbita, regurgitação e sonolência — exigem alto índice de suspeição.

Critérios diagnósticos

Diagnóstico clínico. A anafilaxia é altamente provável quando qualquer um dos dois critérios abaixo está presente (critérios revisados da WAO, incorporados à atualização de 2023 do Practice Parameter da AAAAI/ACAAI).

# Cenário Achados necessários (início agudo: minutos a poucas horas)
1 Sem alérgeno conhecido
Exposição não identificada ou não confirmada
Acometimento de pele e/ou mucosa (urticária generalizada, prurido, rubor, edema de lábios, língua ou úvula)
E pelo menos um dos seguintes:
Respiratório: dispneia, broncoespasmo, estridor, hipoxemia;
Cardiovascular: hipotensão ou sinais de hipoperfusão (síncope, colapso, incontinência);
Gastrointestinal grave: cólica abdominal intensa ou vômitos repetidos (sobretudo após alérgeno não alimentar).
2 Alérgeno conhecido ou altamente provável para aquele paciente Pelo menos um dos seguintes, mesmo sem acometimento de pele:
Hipotensão (ver tabela por faixa etária abaixo);
Broncoespasmo;
Envolvimento laríngeo — estridor, disfonia, sensação de aperto na garganta, disfagia.
Os critérios servem para padronizar o diagnóstico, não para autorizar o tratamento: diante de suspeita razoável, a adrenalina é indicada ainda que os critérios não estejam formalmente preenchidos.
Uma parcela relevante dos episódios cursa sem urticária ou angioedema. A ausência de manifestações cutâneas nunca afasta anafilaxia.

Definição de hipotensão por faixa etária

Faixa etária Pressão arterial sistólica (PAS)
1 mês a 1 ano< 70 mmHg
1 a 10 anos< 70 mmHg + (2 × idade em anos)
11 a 17 anos< 90 mmHg
Adulto< 90 mmHg ou queda > 30% da PAS basal do paciente
Hipotensão isolada, após exposição a alérgeno conhecido, já é suficiente para o diagnóstico.

Papel dos exames

Nenhum exame confirma ou exclui a anafilaxia na sala de emergência — o tratamento é sempre clínico e imediato. A triptase serve para documentar o episódio e investigar doença mastocitária.

Triptase sérica aguda

Colher o mais precocemente possível, idealmente dentro de 2 horas do início dos sintomas. Nunca retardar o tratamento para colher.

Triptase basal

Nova dosagem após a recuperação completa (habitualmente ≥ 24 h) serve de comparação. Elevação persistente sugere investigar mastocitose ou síndrome de ativação mastocitária.

Diagnósticos diferenciais

  • Crise de asma grave (sem outros sistemas envolvidos).
  • Angioedema hereditário ou induzido por IECA (sem urticária, sem resposta à adrenalina).
  • Síncope vasovagal (bradicardia, palidez, sem urticária ou broncoespasmo).
  • Outros choques: séptico, cardiogênico, hipovolêmico.
  • Crise de pânico, disfunção de cordas vocais e síndrome de hiperventilação.
  • Síndrome escombroide (peixe malconservado) e síndrome carcinoide.
  • Corpo estranho em via aérea.
Na dúvida entre anafilaxia e um diferencial, a adrenalina IM tem margem de segurança elevada — o risco de tratar é muito menor que o de não tratar.

Sequência inicial

Aplique a abordagem ABCDE em paralelo às medidas abaixo. A adrenalina IM é a única intervenção que não pode ser adiada por nenhuma outra.

  1. Interromper imediatamente a exposição ao agente suspeito (suspender a infusão, retirar o ferrão, cessar o alimento).
  2. Chamar ajuda e acionar a equipe de emergência.
  3. ADRENALINA IM IMEDIATA — vasto lateral da coxa. Não adiar.
  4. Posicionar em decúbito dorsal com elevação dos membros inferiores. Se houver dispneia, sentar; se gestante, decúbito lateral esquerdo. Nunca deixar de pé ou levantar bruscamente.
  5. Oxigênio de alto fluxo por máscara com reservatório (10–15 L/min), alvo de SpO₂ ≥ 94%.
  6. Monitorização contínua: PA, ECG, SpO₂ e frequência respiratória.
  7. Dois acessos venosos calibrosos e cristaloide em bolus se hipotensão ou má perfusão.
  8. Reavaliar a cada 5 minutos: se resposta inadequada, repetir a adrenalina IM.

Posicionamento — detalhe que salva

Mortes súbitas foram descritas após pacientes anafiláticos serem colocados sentados ou de pé: a vasodilatação maciça reduz o retorno venoso e pode gerar a síndrome do "ventrículo vazio".

Regra geral

Decúbito dorsal com membros inferiores elevados.

Se dispneia

Posição sentada, mantendo o paciente sempre monitorizado.

Gestante

Decúbito lateral esquerdo, para evitar compressão aortocava.

Inconsciente ventilando

Posição lateral de segurança, com via aérea vigiada.

Reposição volêmica

A anafilaxia cursa com vasodilatação e extravasamento capilar. A expansão é associada à adrenalina — nunca em substituição a ela.

Adulto
500–1000 mL
Bolus rápido (5–10 min), repetindo conforme a resposta
SF 0,9% ou Ringer lactato
Pediátrico
20 mL/kg
Bolus rápido; repetir conforme a resposta hemodinâmica
SF 0,9% ou Ringer lactato
Reavaliar perfusão, PA e ausculta pulmonar após cada bolus; atenção à sobrecarga em cardiopatas e nefropatas.

Via aérea — antecipar sempre

O edema de via aérea superior evolui em minutos e pode transformar uma intubação simples em uma via aérea impossível. Diante de sinais de alerta, chame o profissional mais experiente e prepare o material antes da deterioração.

Estridor

Obstrução de via aérea superior já instalada.

Rouquidão / disfonia

Sugere edema laríngeo e de cordas vocais.

Edema de língua e lábios

Angioedema progressivo ameaça a permeabilidade.

Sialorreia / disfagia

Incapacidade de manejar as próprias secreções.

Prepare tubos de menor calibre, videolaringoscópio, dispositivo supraglótico e kit de cricotireoidostomia (cenário "não intubo, não ventilo").

Adrenalina IM — primeira linha

Via de escolha: intramuscular, no vasto lateral (face ântero-lateral da coxa), que garante pico sérico mais rápido e previsível que a via subcutânea ou o deltoide. Concentração para uso IM: 1 mg/mL (1:1000) — nessa apresentação, 1 mg = 1 mL, o que torna o cálculo direto.

Adulto
0,3–0,5 mg
= 0,3–0,5 mL da solução 1 mg/mL (1:1000)
IM — vasto lateral • repetir a cada 5–15 min
Pediátrico
0,01 mg/kg
= 0,01 mL/kg de 1 mg/mL • máx. 0,5 mg (0,5 mL)
IM — vasto lateral • repetir a cada 5–15 min
Repetir a cada 5–15 minutos enquanto a resposta for inadequada. A maioria responde a 1–2 doses; a necessidade de doses repetidas caracteriza anafilaxia refratária e indica adrenalina IV em infusão.

Calculadora — adrenalina IM

Serve para adulto Serve para criança Solução 1 mg/mL (1:1000)

Cálculo por peso (0,01 mg/kg), válido para qualquer faixa etária, com teto de 0,5 mg (0,5 mL) por dose. No adulto, o valor calculado costuma coincidir com a dose usual de 0,3–0,5 mg. Ferramenta de apoio: confira sempre a concentração da ampola disponível no seu serviço.

kg
Dose (0,01 mg/kg)
0,20 mg
Volume a aspirar
0,20 mL
Faixa etária sugerida
Pediátrico
Teto de 0,5 mg (0,5 mL) por dose. Pode ser repetida a cada 5–15 minutos. Em adultos, use 0,3–0,5 mg mesmo que o cálculo por peso resulte no teto.

Volume a aspirar por peso (1 mg/mL)

Peso Dose (mg) Volume (mL)
10 kg0,10 mg0,10 mL
15 kg0,15 mg0,15 mL
20 kg0,20 mg0,20 mL
30 kg0,30 mg0,30 mL
40 kg0,40 mg0,40 mL
≥ 50 kg / adulto0,30–0,50 mg (teto)0,30–0,50 mL
Regra prática: na solução 1 mg/mL, o volume em mL é numericamente igual à dose em mg — e igual a 0,01 × peso (kg), respeitando o teto de 0,5 mL.

Autoinjetor de adrenalina

Indicado para uso extra-hospitalar por pacientes com risco de recorrência. Aplicar através da roupa, na face lateral da coxa, e procurar imediatamente um serviço de emergência após o uso.

Peso Dose do autoinjetor
7,5–25 kg0,15 mg
> 25 kg0,30 mg
Adolescentes e adultos maiores0,30 mg ou 0,50 mg, conforme a apresentação disponível
Recomenda-se que o paciente porte duas unidades. No Brasil o dispositivo tem disponibilidade limitada; quando indisponível, o preparo com ampola e seringa deve ser feito por profissional treinado.

Erros comuns com a adrenalina

  • Adiar a adrenalina para "tentar" anti-histamínico ou corticoide primeiro.
  • Usar a via subcutânea ou o deltoide em vez do vasto lateral.
  • Confundir concentrações: 1 mg/mL (1:1000) para IM e 0,1 mg/mL (1:10.000) para uso IV diluído.
  • Administrar bolus IV da solução não diluída — risco de arritmia, crise hipertensiva e isquemia miocárdica.
  • Não repetir a dose diante de resposta insuficiente.
  • Deixar de tratar por receio em idosos ou coronariopatas — a anafilaxia não tratada é mais perigosa que a adrenalina.

Medicações de segunda linha

Anti-histamínicos aliviam prurido e urticária; corticoides têm início de ação lento e não demonstraram prevenir reações bifásicas. Nenhum dos dois trata obstrução de via aérea, broncoespasmo grave ou choque. São adjuvantes — jamais substitutos da adrenalina.

Nenhum adjuvante deve atrasar a adrenalina, mesmo por poucos minutos.
Como usar esta aba

Cada card abre a posologia completa: apresentação, diluição, dose em mg e em mL (ou mL/kg), frequência e dose máxima. Confira sempre a apresentação disponível no seu serviço antes de administrar.

Anti-histamínicos

Atuam sobre sintomas cutâneos (prurido, urticária, rubor). Não têm efeito sobre hipotensão, estridor ou broncoespasmo. Devem ser administrados após a adrenalina, com o paciente já estabilizado.

Corticoides

Início de ação em horas. As diretrizes atuais não recomendam o uso rotineiro com o objetivo de prevenir reação bifásica, mas eles seguem sendo usados como adjuvantes, sobretudo quando há broncoespasmo importante ou asma associada.

Broncoespasmo e edema de via aérea

Broncoespasmo persistente após a adrenalina IM exige broncodilatador inalatório. Estridor por edema laríngeo pode se beneficiar de adrenalina nebulizada — que é complemento, e não substituto, da adrenalina IM.

Anafilaxia refratária

Definida pela persistência de sintomas graves — hipotensão, hipoxemia ou obstrução de via aérea — apesar de duas ou mais doses adequadas de adrenalina IM e reposição volêmica apropriada.

Antes de escalonar, reveja: dose e via corretas? Concentração certa? Volume suficiente? Exposição realmente interrompida? Paciente em uso de betabloqueador?

O passo seguinte é a adrenalina intravenosa em infusão contínua, sempre em ambiente monitorizado (sala de emergência ou UTI), com bomba de infusão e monitorização cardíaca contínua. Bolus IV de adrenalina fica reservado à parada cardíaca ou ao colapso iminente, sob supervisão experiente.

Adrenalina intravenosa em infusão

Reverte a hipotensão sustentada quando as doses IM já não bastam. Exige diluição correta, bomba de infusão e titulação pela resposta hemodinâmica — o risco de arritmia e isquemia cresce com a dose e com erros de preparo.

Vasopressores e situações especiais

Se a hipotensão persiste apesar da adrenalina em infusão e da expansão volêmica, associe um segundo vasopressor. Pacientes em uso de betabloqueador podem não responder à adrenalina e têm indicação de glucagon.

Onde tratar

Anafilaxia refratária é indicação de vaga em UTI, via aérea definitiva antecipada e reavaliação contínua da volemia. Mantenha a adrenalina IM enquanto a infusão não estiver pronta — não há intervalo terapêutico "vazio".

Reação bifásica e tempo de observação

A reação bifásica é o retorno dos sintomas após resolução completa do episódio inicial, sem nova exposição ao alérgeno. Não existe um período único de observação válido para todos: a decisão é individualizada pela gravidade do quadro e pelos fatores de risco.

Risco habitual

Quadro não grave, resposta rápida a uma única dose de adrenalina e paciente assintomático: observação mais curta (a partir de cerca de 1 hora após a resolução) pode ser razoável, desde que haja plano de ação, autoinjetor e acesso a serviço de emergência.

Alto risco

Observação prolongada (6 horas ou mais, frequentemente 12–24 h em casos graves): reação grave, hipotensão, hipoxemia, necessidade de mais de uma dose de adrenalina, asma associada, retardo no tratamento inicial ou dificuldade de acesso ao serviço de saúde.

Fatores de risco para reação bifásica: gravidade do quadro inicial, necessidade de mais de uma dose de adrenalina e atraso no tratamento.

Antes de dar alta

  • Prescrever adrenalina autoinjetável quando disponível — preferencialmente duas unidades — e treinar o uso.
  • Plano de ação escrito: reconhecer sinais precoces, quando aplicar a adrenalina e procurar emergência imediatamente após o uso.
  • Identificar e orientar a evitação do agente desencadeante (alimento, medicamento, látex, inseto).
  • Encaminhar ao alergista para investigação etiológica e, quando indicado, imunoterapia com veneno de himenópteros.
  • Considerar triptase basal após a recuperação, sobretudo em anafilaxia grave por ferroada ou de causa indeterminada.
  • Registrar a alergia em prontuário e orientar identificação (cartão ou pulseira).

Prevenção de novos episódios

Evitação do gatilho

Leitura de rótulos, comunicação em restaurantes e alerta em toda prescrição e procedimento.

Autoinjetor acessível

Portátil, dentro da validade e conhecido por familiares, escola ou trabalho.

Imunoterapia com veneno

Reduz de forma expressiva o risco de nova anafilaxia por ferroada de himenópteros.

Perioperatório e contrastes

Após anafilaxia perioperatória, a reexposição depende de investigação alergológica e decisão compartilhada.

Erros fatais no atendimento

  • Atrasar a adrenalina — a principal causa evitável de morte.
  • Tratar apenas com anti-histamínico e/ou corticoide.
  • Sentar ou levantar o paciente hipotenso.
  • Subestimar o edema de via aérea e perder a janela de intubação.
  • Dar alta precoce sem plano de ação, sem autoinjetor e sem encaminhamento.
  • Não registrar a alergia no prontuário e nas orientações de alta.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

  1. Golden DBK, Wang J, Waserman S, et al. Anaphylaxis: a 2023 practice parameter update. Ann Allergy Asthma Immunol. 2024;132(2):124-176.
  2. Cardona V, Ansotegui IJ, Ebisawa M, et al. World Allergy Organization anaphylaxis guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472.
  3. Muraro A, Worm M, Alviani C, et al. EAACI guidelines: anaphylaxis (2021 update). Allergy. 2022;77(2):357-377.
  4. Shaker MS, Wallace DV, Golden DBK, et al. Anaphylaxis — a 2020 practice parameter update, systematic review, and GRADE analysis. J Allergy Clin Immunol. 2020;145(4):1082-1123.
  5. Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) / Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Guia prático de atualização: Anafilaxia. 2021.
  6. Resuscitation Council UK. Emergency treatment of anaphylaxis: guidelines for healthcare providers. 2021.
  7. Campbell RL, Kelso JM. Anaphylaxis: emergency treatment. UpToDate, 2024.
  8. Ministério da Saúde (Brasil). Protocolo de atendimento às reações anafiláticas. Brasília, 2013 (com atualizações locais).

Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, diluições e velocidades de infusão devem ser sempre conferidas antes da administração.

Dose rápida

Adrenalina IM (adulto)

0,3–0,5 mg = 0,3–0,5 mL de 1 mg/mL. Repetir a cada 5–15 min.

Adrenalina IM (criança)

0,01 mg/kg = 0,01 mL/kg. Máx. 0,5 mg (0,5 mL) por dose.

Volume

Adulto 500–1000 mL; criança 20 mL/kg em bolus.

Adrenalina IV (refratária)

6 mg em SF até 100 mL (60 mcg/mL) → 1–10 mcg/min = 1–10 mL/h.

Em provas / residência

Anafilaxia → adrenalina IM no vasto lateral, 0,01 mg/kg (máx. 0,5 mg), solução 1:1000. A questão quase sempre testa se você adia a adrenalina.

Decore: ausência de urticária não exclui; corticoide não previne reação bifásica; glucagon no paciente betabloqueado.

Mais informações nas abas do artigo.

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