Pneumonia
Infecção aguda do parênquima pulmonar — alvéolos, bronquíolos e interstício — que gera consolidação e prejudica as trocas gasosas. É uma das principais causas de internação e morte por doença infecciosa no mundo. O manejo se apoia em três eixos: confirmar o diagnóstico clínico-radiológico, estratificar a gravidade (CURB-65) e iniciar antibiótico empírico conforme o local de aquisição e o risco.
Reconhecimento
- Febre + tosse + dispneia ± dor pleurítica
- Infiltrado/consolidação novos à imagem
- Idoso pode ter só confusão mental
- Classificar por local: PAC, PAH, PAV
Diagnóstico
- Clínico-radiológico (RX de tórax)
- Consolidação, broncograma aéreo
- Labs/microbiologia conforme gravidade
- Baixo risco: tratar empiricamente
Gravidade
- CURB-65: 1 ponto por critério
- 0–1 baixo · 2 intermediário · ≥3 alto
- Orienta ambulatorial × internação
- Integra SatO₂, comorbidades e social
Tratamento
- Empírico por local e gravidade
- Início precoce; cobrir típico + atípico
- Reavaliar em 48–72h; descalonar
- PAC não complicada: 5–7 dias
O que é a pneumonia
A pneumonia é uma infecção aguda do parênquima pulmonar — alvéolos, bronquíolos respiratórios e interstício — que provoca resposta inflamatória, preenchimento dos espaços aéreos por exsudato e comprometimento das trocas gasosas. Diferente de uma infecção das vias aéreas superiores, aqui o processo atinge a unidade funcional de troca.
O resultado clínico combina sinais sistêmicos de infecção (febre, prostração), sintomas respiratórios (tosse, dispneia, dor pleurítica) e, nos casos graves, hipoxemia e insuficiência respiratória. É uma das principais causas de internação e a principal causa infecciosa isolada de morte em crianças menores de 5 anos no mundo.
Classificação por local de aquisição
A classificação mais útil na prática baseia-se no local de aquisição, pois prediz os patógenos prováveis e o risco de resistência — a base do tratamento empírico.
Fora do hospital ou nas primeiras 48h de internação. Agente mais comum: S. pneumoniae.
Surge ≥ 48h após a internação. Maior risco de Gram-negativos e MRSA.
Surge ≥ 48h após intubação e início da ventilação mecânica.
Aspiração de conteúdo orofaríngeo/gástrico; comum em disfagia e rebaixamento.
Fisiopatologia
A pneumonia resulta do desequilíbrio entre a carga/virulência do microrganismo e as defesas do hospedeiro (filtração das vias aéreas, tosse, clearance mucociliar, macrófagos alveolares e imunidade adaptativa). A infecção ocorre quando essas defesas são suplantadas.
O mecanismo central da hipoxemia é o efeito shunt: nas áreas consolidadas, o sangue perfunde alvéolos preenchidos por exsudato e não se oxigena, misturando-se ao sangue das áreas saudáveis — por isso a hipoxemia extensa responde mal à oferta de oxigênio.
Sequência de instalação
- Colonização e invasão do alvéolo, superando as defesas locais.
- Resposta inflamatória com recrutamento de neutrófilos e ↑ da permeabilidade capilar.
- Exsudação alveolar — preenchimento por exsudato fibrinopurulento (consolidação).
- Distúrbio V/Q e shunt → hipoxemia.
- Repercussão sistêmica — febre, taquipneia; nos graves, sepse e disfunção orgânica.
Microaspiração de secreções orofaríngeas (mais comum), inalação de aerossóis (Legionella, vírus, TB), disseminação hematogênica (ex.: S. aureus) e, raramente, por contiguidade.
Números que importam
Principal causa infecciosa de morte em crianças < 5 anos.
S. pneumoniae é o mais comum em todas as idades.
CURB-65 orienta ambulatorial × internação.
48–72h para julgar a resposta ao antibiótico.
Picos no inverno, acompanhando vírus respiratórios.
Agentes etiológicos
Os patógenos variam com o contexto de aquisição, a idade e o estado imunológico. Conhecer o agente provável é a base do tratamento empírico. Em muitos casos, nenhum agente é identificado.
| Agente | Tipo | Contexto típico |
|---|---|---|
| Streptococcus pneumoniae | Bactéria típica | Causa mais comum da PAC em todas as idades (~40%). |
| Mycoplasma pneumoniae | Atípico | Jovens, surtos em coletividades; quadro arrastado. |
| Haemophilus influenzae | Bactéria típica | DPOC, tabagistas, idosos. |
| Legionella pneumophila | Atípico | Quadro grave, sintomas GI, hiponatremia; água contaminada. |
| Vírus (Influenza, VSR, SARS-CoV-2) | Viral | Sazonal; pode complicar com pneumonia bacteriana secundária. |
| Staphylococcus aureus | Bactéria típica | Pós-influenza, drogas EV, PAV; risco de necrose. |
| Klebsiella / Gram-negativos | Bactéria típica | Etilistas, comorbidades, ambiente hospitalar. |
| Anaeróbios da orofaringe | Mistos | Broncoaspiração, má higiene dental; risco de abscesso. |
Pneumonia típica × atípica
A distinção clássica é didática (e limitada), mas ajuda a montar o raciocínio terapêutico.
Início abrupto, febre alta com calafrios, tosse produtiva purulenta, dor pleurítica e consolidação lobar à imagem. Agente clássico: S. pneumoniae.
Início insidioso, febre baixa, tosse seca persistente, dissociação clínico-radiológica e infiltrado intersticial difuso. Agentes: Mycoplasma, Legionella, vírus.
Fatores de risco
Diversas condições aumentam a suscetibilidade e a gravidade. Reconhecê-las orienta a profilaxia, a escolha terapêutica e a decisão de internar.
Maior incidência e letalidade.
Prejuízo do clearance mucociliar e doença estrutural.
Amplia o espectro de agentes, incluindo oportunistas.
Rebaixamento de consciência, má higiene oral.
Comorbidade que agrava e favorece infecção.
Risco de anaeróbios e Gram-negativos.
Apresentação clínica
O quadro combina sintomas respiratórios e manifestações sistêmicas de infecção. A intensidade varia conforme o agente, a extensão e o hospedeiro.
Frequentemente alta, com calafrios nas formas típicas.
Produtiva/purulenta na típica; seca na atípica.
Proporcional à extensão e ao prejuízo das trocas.
Piora à inspiração; sugere acometimento pleural.
Astenia, mialgia, anorexia, mal-estar.
Às vezes a única manifestação — alto índice de suspeição.
Tempo de evolução
A velocidade de instalação é uma pista etiológica importante e ajuda a diferenciar de outras causas respiratórias.
Início abrupto, febre alta e calafrios. Típico das bacterianas, sobretudo o pneumococo.
Instalação arrastada, tosse seca. Sugere atípicos (Mycoplasma) e vírus.
Emagrecimento/sintomas constitucionais — descartar TB, micoses, abscesso e neoplasia.
Exame físico — síndrome de consolidação
| Manobra | Achado na consolidação |
|---|---|
| Inspeção | Taquipneia, uso de musculatura acessória, ↓ da expansibilidade do lado afetado. |
| Palpação | Frêmito tóraco-vocal aumentado sobre a área consolidada. |
| Percussão | Submacicez / macicez na região acometida. |
| Ausculta | Estertores crepitantes, sopro tubário, broncofonia e pectorilóquia áfona. |
Situações especiais
Taquipneia é o sinal mais sensível; tiragem, batimento de asa de nariz e gemência indicam gravidade.
Apresentação atenuada/atípica; ampliar para oportunistas (P. jirovecii, fungos, micobactérias).
Disfagia, rebaixamento, má higiene oral; acomete segmentos dependentes da gravidade e pode abscedar.
Abordagem diagnóstica
O diagnóstico é clínico-radiológico: sintomas/sinais compatíveis + infiltrado novo na imagem. Os exames complementares confirmam a suspeita, avaliam a gravidade e, quando indicado, identificam o agente. Nem todo caso ambulatorial exige investigação microbiológica.
Imagem
Método padrão. Demonstra consolidação, infiltrados, derrame e complicações. Pode ser normal em fase precoce ou desidratação.
Maior sensibilidade; útil em dúvida diagnóstica, suspeita de complicação ou má resposta.
Beira-leito, sem radiação; bom para consolidação e derrame, útil na emergência e UTI.
Broncograma aéreo, consolidação lobar, padrão intersticial difuso conforme a etiologia.
Padrões radiológicos
Consolidação de todo/quase todo o lobo com broncograma aéreo; sugere pneumococo em > 90%. Klebsiella pode abaular fissuras ("lobo pesado") e cavitar; Legionella tem resolução radiográfica lenta.
Padrão multifocal de margens irregulares, sem broncograma; maior risco de abscesso/pneumatoceles (pneumococo, atípicos, S. aureus, P. aeruginosa).
Infiltrado em segmentos dependentes; acomete ~2× mais o lobo direito (maior diâmetro brônquico à direita).
Padrão reticular difuso, insidioso, por infiltração dos septos; mais comum em germes atípicos.
Exames laboratoriais e microbiológicos
| Exame | Para que serve | Quando |
|---|---|---|
| Hemograma + PCR | Avaliar resposta inflamatória e gravidade. | Internados |
| Função renal / eletrólitos | Compõem escores; hiponatremia sugere Legionella. | Internados |
| Gasometria / SatO₂ | Avaliar troca gasosa e hipoxemia. | Conf. gravidade |
| Hemoculturas | Identificar agente e bacteremia. | Graves / UTI |
| Escarro (Gram/cultura) | Identificar agente e ajustar antibiótico. | Selecionados |
| Antígenos urinários | Pneumococo e Legionella. | Graves |
| Painel viral / PCR | Influenza, SARS-CoV-2. | Conf. contexto |
Fluxo diagnóstico e diferenciais
- Suspeita clínica — febre, tosse, dispneia, dor pleurítica ± achados de consolidação.
- Radiografia de tórax — pesquisa de infiltrado/consolidação novos.
- Infiltrado presente — confirma pneumonia → estratificar gravidade (CURB-65) e tratar.
- Imagem duvidosa — considerar TC/USG e reavaliar diagnósticos diferenciais.
Diagnósticos diferenciais
- Bronquite aguda e exacerbação de DPOC.
- Tromboembolismo pulmonar (infiltrado + dor pleurítica).
- Insuficiência cardíaca / edema pulmonar.
- Tuberculose pulmonar.
- Neoplasia com pneumonia obstrutiva; atelectasia e pneumonites não infecciosas.
Estratificação de gravidade
Definir a gravidade orienta a decisão de internação, o local de tratamento e a amplitude da investigação. Os escores são ferramentas de apoio que complementam — nunca substituem — o julgamento clínico, os fatores sociais e as comorbidades.
Calculadora interativa — CURB-65
Marque os critérios presentes para estimar o risco e o local de tratamento sugerido (1 ponto por critério):
Interpretação e outros escores
| CURB-65 | Risco | Conduta sugerida |
|---|---|---|
| 0–1 | Baixo | Tratamento ambulatorial geralmente apropriado. |
| 2 | Intermediário | Considerar internação ou observação hospitalar. |
| ≥ 3 | Alto | Internação; avaliar necessidade de UTI. |
Outras ferramentas úteis
- CRB-65: versão sem ureia, útil no ambiente ambulatorial/pré-hospitalar.
- PSI / PORT: mais detalhado e validado para mortalidade, porém mais complexo.
- Critérios de PAC grave (ATS/IDSA): ajudam a indicar UTI (ex.: vasopressor ou ventilação mecânica como critérios maiores).
Princípios do tratamento
O tratamento é majoritariamente empírico, baseado no local de aquisição, na gravidade e nos fatores de risco para germes resistentes.
Antibiótico o quanto antes após o diagnóstico, sobretudo nos graves.
Direcionada aos agentes prováveis do contexto clínico.
Ajustar conforme culturas e evolução; preferir via oral assim que possível.
Duração, suporte e medidas associadas
Geralmente 5–7 dias na PAC não complicada, com estabilidade clínica; prolongar nos casos complicados.
Manter alvos de saturação; suporte ventilatório conforme gravidade.
Hidratação, analgesia/antitérmico e cuidado com comorbidades descompensadas.
Oseltamivir quando influenza confirmada/suspeita em paciente elegível.
As doses de cada esquema (ambulatorial, hospitalar e dirigido por agente) estão na aba Medicações, em cards que abrem a posologia completa.
Toque em cada card para ver o esquema com doses. Escolha pelo contexto do paciente: tratamento ambulatorial (sem critérios de internação), hospitalar (enfermaria/UTI) e dirigido por agente identificado. Confirme sempre doses, ajustes renais e contraindicações no protocolo da sua instituição.
Ambulatorial — sem critérios de internação
Acompanhamento próximo com revisão em 48–72h. A escolha considera comorbidades, uso recente de antibiótico e fatores epidemiológicos. Evitar fluoroquinolona como 1ª escolha quando possível.
Hospitalar — com critérios de internação
Identificar precocemente o risco de insuficiência respiratória (escore PSI). Colher Gram/cultura de escarro, hemoculturas e antígenos urinários quando indicado; descartar vírus.
Dirigido — por agente identificado
Ajuste do esquema conforme cultura/antibiograma e o agente resistente identificado.
Acompanhamento e resposta
A maioria melhora clinicamente em 48–72h. Parâmetros: queda da febre, ↓ FR e FC, normalização da PA, melhora da saturação e retorno do apetite e do estado mental.
Critérios de estabilidade clínica
- Temperatura ≤ 37,8 °C.
- Frequência cardíaca ≤ 100 bpm.
- Frequência respiratória ≤ 24 irpm.
- PAS ≥ 90 mmHg sem vasopressor.
- Saturação adequada / retorno ao basal.
- Capacidade de ingestão oral e estado mental basal.
Falha terapêutica
Ausência de melhora ou piora após 72h exige reavaliação ativa. Pense em:
Patógeno fora do espectro empírico ou resistência.
Derrame parapneumônico, empiema ou abscesso.
TEP, neoplasia, ICC, TB — reconsiderar a hipótese.
Imunossupressão, foco não drenado, má adesão.
Complicações
Coleção pleural reacional que pode infectar e exigir drenagem.
Necrose e cavitação; mais comum em aspiração e germes específicos.
Hipoxemia grave por acometimento extenso; pode exigir ventilação.
Disfunção orgânica; principal causa de óbito.
Derrame parapneumônico — estágios
| Fase | Características | Conduta |
|---|---|---|
| Não complicado | Exsudato estéril, fluido livre. | Antibiótico isolado. |
| Complicado | Invasão bacteriana, pH/glicose baixos. | Drenagem. |
| Empiema | Pus na cavidade pleural. | Drenagem ± cirurgia. |
Prevenção
Idosos e grupos de risco; reduz doença invasiva.
Previne a infecção e a pneumonia bacteriana secundária.
Conforme recomendação vigente para grupos elegíveis.
Pneumocócica conjugada e anti-Hib reduziram muito a incidência.
Medidas individuais
- Cessação do tabagismo.
- Controle de comorbidades (diabetes, DPOC).
- Higiene das mãos e etiqueta respiratória.
- Higiene oral adequada.
Hospitalares (PAH/PAV)
- Cabeceira elevada (30–45°) no ventilado.
- Higiene oral com antisséptico em intubados.
- Desmame precoce e redução do tempo de ventilação.
- Protocolos de prevenção de aspiração.
Erros a evitar
- Interpretar RX normal precoce como ausência de pneumonia sem correlação clínica.
- Atrasar o antibiótico no paciente grave/instável.
- Confiar na distinção típica/atípica só pela clínica para definir o agente.
- Não reavaliar a resposta em 48–72h.
- Repetir RX de rotina em quem evolui bem e tomar imagem residual como falha.
- Ignorar febre persistente (pensar em empiema/abscesso).
- Usar amplo espectro de rotina invocando a antiga categoria PACS/HCAP.
Referências
- Metlay JP, Waterer GW, Long AC, et al. Diagnosis and Treatment of Adults with Community-acquired Pneumonia. An Official Clinical Practice Guideline of the ATS/IDSA. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45–e67.
- Lim WS, van der Eerden MM, Laing R, et al. Defining community acquired pneumonia severity on presentation to hospital: an international derivation and validation study (CURB-65). Thorax. 2003;58(5):377–382.
- Mandell LA, Niederman MS. Aspiration Pneumonia. N Engl J Med. 2019;380(7):651–663.
- Torres A, Cilloniz C, Niederman MS, et al. Pneumonia. Nat Rev Dis Primers. 2021;7(1):25.
- Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT). Diretrizes brasileiras para pneumonia adquirida na comunidade.
- Kalil AC, Metersky ML, Klompas M, et al. Management of Adults With Hospital-acquired and Ventilator-associated Pneumonia (IDSA/ATS). Clin Infect Dis. 2016;63(5):e61–e111.
- Uranga A, España PP, Bilbao A, et al. Duration of Antibiotic Treatment in Community-Acquired Pneumonia: A Randomized Clinical Trial. JAMA Intern Med. 2016;176(9):1257–1265.
- World Health Organization (WHO). Pneumonia in children — Fact sheet.
CURB-65 interativo
Estratifique a gravidade e o local de tratamento marcando os cinco critérios na aba Gravidade & CURB-65.
Conduta rápida
Clínica compatível + infiltrado novo na imagem.
CURB-65 orienta ambulatorial × internação × UTI.
Antibiótico empírico precoce por local e gravidade.
Resposta em 48–72h; descalonar e switch VO.
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PAC → agente nº 1 é o pneumococo. CURB-65 estratifica: 0–1 ambulatorial, 2 observação, ≥3 internação (avaliar UTI).
Decore: melhora clínica em 48–72h; Legionella → hiponatremia + sintomas GI; frêmito aumentado na consolidação.
