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Amebíase | Guia de Zoonoses
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Amebíase

Infecção parasitária causada por Entamoeba histolytica, transmitida principalmente pela via fecal-oral, por ingestão de água ou alimentos contaminados. Pode variar de infecção assintomática a colite invasiva, abscesso hepático e formas extraintestinais graves.

Protozoose intestinal Água e alimentos contaminados Diarreia ou disenteria Abscesso hepático
Tempo de leitura: 10 min
Atualizado em: 01/07/2026
Amebíase por Entamoeba histolytica

Quadro clínico principal

  • Infecção assintomática
  • Dor abdominal e diarreia aquosa
  • Disenteria com sangue e muco
  • Colite fulminante e megacólon tóxico
  • Abscesso hepático amebiano
  • Formas pleuropulmonar, cerebral e geniturinária

Diagnóstico

  • PCR em fezes ou aspirado
  • Detecção de antígeno de E. histolytica
  • Microscopia seriada de fezes
  • Sorologia em formas invasivas
  • USG/TC para abscesso hepático

Tratamento

  • Metronidazol, tinidazol, secnidazol ou nitazoxanida
  • Ajuste conforme forma intestinal ou extraintestinal
  • Internação se colite grave, peritonite ou ruptura
  • Drenagem em abscessos selecionados

Complicações

  • Colite fulminante e perfuração intestinal
  • Megacólon tóxico
  • Ameboma e fístulas
  • Ruptura de abscesso hepático
  • Pericardite, abscesso cerebral e doença pulmonar

O que é

A amebíase é uma infecção causada pelo protozoário Entamoeba histolytica. O espectro clínico é amplo: a maioria dos infectados permanece assintomática, mas alguns desenvolvem colite amebiana, disenteria, colite fulminante, ameboma ou acometimento extraintestinal, especialmente abscesso hepático amebiano.

A diferenciação entre E. histolytica e espécies morfologicamente semelhantes, como Entamoeba dispar, é importante porque a visualização de cistos ao exame parasitológico não confirma, isoladamente, doença invasiva.

Agente etiológico

O agente causador é Entamoeba histolytica, protozoário intestinal capaz de invadir a mucosa colônica e, em alguns casos, disseminar-se para órgãos extraintestinais.

  • Forma infectante: cisto maduro, resistente no ambiente e transmitido por água ou alimentos contaminados.
  • Forma invasiva: trofozoíta, capaz de aderir à mucosa, causar ulceração e fagocitar hemácias.
  • Espécies semelhantes: E. dispar e E. moshkovskii podem ter aparência semelhante na microscopia, mas não têm o mesmo potencial invasivo.
  • Principal sítio: intestino grosso, com possibilidade de disseminação portal para o fígado.
Entamoeba histolytica - agente etiológico Imagem do agente etiológico: Entamoeba histolytica.

Epidemiologia e fatores de risco

A amebíase está associada a condições inadequadas de saneamento, contaminação fecal da água, higiene precária e maior exposição em áreas endêmicas. Crianças pequenas, idosos, gestantes, desnutridos e pacientes em uso crônico de corticoides apresentam maior risco de formas graves.

Assintomática

Representa a maior parte das infecções.

Risco ambiental

Água, alimentos e mãos contaminadas.

Maior gravidade

Crianças, idosos e imunossuprimidos.

Predisposição

Gestação, desnutrição e corticoide crônico.

Forma invasiva

Abscesso hepático é a forma extraintestinal mais comum.

Fisiopatologia

Após a ingestão dos cistos, ocorre desencistamento no intestino. Os trofozoítas colonizam o cólon, aderem à mucosa e podem provocar destruição tecidual por mecanismos citotóxicos e inflamatórios. A invasão da mucosa e submucosa leva à formação de úlceras, sangramento e disenteria.

Quando os trofozoítas atingem a circulação portal, podem alcançar o fígado e formar abscesso hepático amebiano. A ruptura do abscesso pode gerar acometimento pleural, pulmonar, peritoneal ou pericárdico.

Fisiopatologia da amebíase Imagem da fisiopatologia: invasão intestinal e disseminação hepática.

Como ocorre a transmissão

A transmissão ocorre principalmente pela via fecal-oral, com ingestão de cistos maduros de Entamoeba histolytica presentes em água, alimentos ou superfícies contaminadas por fezes.

Água contaminada

É uma das principais vias em locais com saneamento inadequado, abastecimento inseguro ou descarte irregular de esgoto.

Alimentos contaminados

Frutas, verduras e alimentos manipulados sem higiene podem carregar cistos viáveis.

Mãos e superfícies

A transmissão pode ocorrer por higiene inadequada das mãos após evacuação ou troca de fraldas.

Contato pessoa-pessoa

Pode ocorrer em ambientes com aglomeração, higiene precária ou contato fecal-oral direto.

A visualização de cistos de Entamoeba nas fezes não diferencia E. histolytica de E. dispar, por isso métodos específicos como antígeno ou PCR são importantes.

Cadeia de transmissão

  • Eliminação de cistos nas fezes por indivíduos infectados.
  • Contaminação de água, alimentos, mãos ou utensílios.
  • Ingestão dos cistos por novo hospedeiro.
  • Desencistamento intestinal e colonização do cólon.
  • Possível invasão da mucosa e disseminação extraintestinal.

Apresentação clínica

A infecção por E. histolytica varia de assintomática a formas graves. A maioria dos casos é assintomática, mas a doença invasiva pode causar colite amebiana, disenteria, colite fulminante, ameboma e manifestações extraintestinais.

Formas intestinais

  • Infecção assintomática.
  • Diarreia aquosa, cólicas e dor abdominal.
  • Disenteria com sangue e muco.
  • Colite fulminante com dor intensa, febre e peritonite.
  • Megacólon tóxico.
  • Colite crônica não disentérica.
  • Ameboma.
  • Ulceração perianal.

Formas extraintestinais

  • Abscesso hepático amebiano.
  • Doença pleuropulmonar.
  • Peritonite.
  • Pericardite.
  • Abscesso cerebral.
  • Doença geniturinária.

Colite amebiana

Costuma evoluir gradualmente ao longo de 1 a 2 semanas. A diarreia é a manifestação mais comum, podendo ser aquosa ou sanguinolenta. Cólica abdominal, perda ponderal, anorexia e desconforto abdominal são frequentes. Febre ocorre em parte dos pacientes e o quadro pode mimetizar apendicite.

A forma fulminante é rara, mas grave, com início agudo de diarreia sanguinolenta intensa, dor abdominal importante, febre, peritonite, risco de perfuração intestinal e megacólon tóxico, especialmente em pacientes que usam corticoides.

Manifestação característica: abscesso hepático amebiano

É a forma extraintestinal mais comum. Em geral, manifesta-se com febre, dor no quadrante superior direito, desconforto abdominal, perda de peso e anorexia. Pode haver dor pleurítica à direita ou dor referida no ombro quando há acometimento da superfície diafragmática hepática.

O abscesso pode romper para cavidade peritoneal, pleura, pulmão ou pericárdio, causando complicações graves. A resolução radiológica completa pode demorar meses a anos.

Abscesso hepático amebiano Imagem característica: abscesso hepático amebiano em exame de imagem.

Achados ao exame físico

  • Colite amebiana: desconforto em quadrantes inferiores, febre, perda ponderal e, na forma fulminante, distensão e descompressão dolorosa.
  • Abscesso hepático: febre, hepatomegalia, dor ou desconforto intercostal direito posterior, perda de peso; anemia e icterícia podem ocorrer, mas são menos comuns.
  • Amebíase pleuropulmonar: derrame pleural à direita, empiema, atelectasia basilar, pneumonia ou abscesso pulmonar.
  • Peritonite amebiana: febre, distensão abdominal, dor e tensão à palpação.
  • Pericardite amebiana: dor torácica, atrito pericárdico e sinais de insuficiência cardíaca congestiva.
  • Amebíase cerebral: alteração do nível de consciência e sinais neurológicos focais.
  • Amebíase geniturinária: úlceras genitais dolorosas com secreção profusa.

Abordagem diagnóstica

O diagnóstico deve combinar suspeita clínica, contexto epidemiológico e exames laboratoriais. A detecção específica de Entamoeba histolytica por antígeno ou PCR é preferível, pois a microscopia isolada não diferencia adequadamente E. histolytica de espécies não patogênicas.

Mensagem prática

PCR em fezes ou aspirado, quando disponível, é o método de maior utilidade para diferenciar E. histolytica. Em abscesso hepático, sorologia e imagem têm papel central.

Métodos laboratoriais

Exames de sangue

Podem mostrar leucocitose sem eosinofilia, anemia moderada, VHS elevado, aumento de fosfatase alcalina, transaminases e bilirrubinas.

Microscopia de fezes

Pesquisa trofozoítas e cistos. Trofozoítas com hemácias internalizadas sugerem E. histolytica, mas a sensibilidade é limitada e melhora com três amostras.

Cultura

Pode ser feita em fezes, biópsia retal ou aspirado hepático, mas tem menor aplicabilidade prática e sensibilidade variável.

Detecção de antígeno

Testes por ELISA podem identificar antígenos específicos de E. histolytica em fezes, soro ou aspirado hepático.

Sorologia

Útil em doença invasiva, especialmente no abscesso hepático amebiano, no qual os anticorpos costumam estar presentes.

PCR

Permite identificação específica de E. histolytica em material fecal ou aspirado de abscesso, sendo recomendada quando disponível.

Exames de imagem e procedimentos

  • Radiografia de tórax: pode mostrar derrame pleural direito e elevação do hemidiafragma direito em abscesso hepático.
  • Ultrassonografia abdominal: exame preferencial inicial por baixo custo, rapidez e ausência de radiação; pode mostrar lesão hipoecoica, geralmente no lobo hepático direito.
  • Tomografia computadorizada: sensível para detecção e caracterização de abscessos, mas não específica para etiologia amebiana.
  • TC de crânio: pode demonstrar lesões irregulares em abscesso cerebral amebiano.
  • Aspirado hepático: indicado em abscesso grande, localização em lobo esquerdo, ruptura iminente ou falha terapêutica; enviar material para microscopia, cultura, antígeno e PCR.
  • Retossigmoidoscopia/colonoscopia: útil em casos selecionados, especialmente quando fezes são negativas, há massa colônica/cecal ou necessidade diagnóstica urgente.
  • Histologia: pode mostrar úlceras, necrose, inflamação e trofozoítas nas bordas das lesões; invasão da mucosa e submucosa é característica.
Em suspeita de doença inflamatória intestinal, investigar amebíase antes de iniciar corticoide. Colonoscopia é relativamente contraindicada na colite fulminante pelo risco de perfuração.

Abordagem terapêutica

O tratamento da amebíase depende da apresentação clínica. A maioria dos pacientes com doença intestinal não complicada pode ser tratada ambulatorialmente. Casos graves, complicados ou extraintestinais podem exigir internação, hidratação venosa, antibioticoterapia parenteral, drenagem ou cirurgia.

Controle após o tratamento

A avaliação laboratorial das fezes após o tratamento é recomendada para confirmar erradicação. Em áreas endêmicas, infecções assintomáticas podem não ser tratadas de rotina, conforme contexto clínico e epidemiológico.

Quando internar

A internação é indicada quando há risco de desidratação, complicações abdominais, doença extraintestinal grave ou suspeita de ruptura de abscesso.

Prescrição ambulatorial

Indicada para amebíase intestinal não complicada e pacientes estáveis. A escolha do esquema depende da forma clínica, tolerância, disponibilidade e julgamento médico.

Prescrição hospitalar

Necessária em amebíase intestinal complicada, colite grave, hipovolemia, doença extraintestinal grave, suspeita de ruptura ou necessidade de intervenção.

Principais complicações

As complicações dependem do local de invasão. As formas intestinais podem evoluir com necrose, perfuração, megacólon tóxico e ameboma. As formas hepáticas podem romper para cavidade torácica, peritoneal ou pericárdica.

Colite fulminante

Forma rara e grave, com diarreia sanguinolenta intensa, dor abdominal, febre, peritonite e risco de perfuração intestinal.

Megacólon tóxico

Pode ocorrer em formas graves, especialmente associado ao uso de corticoides.

Ameboma

Massa inflamatória colônica que pode simular carcinoma, tuberculose, doença de Crohn, actinomicose ou linfoma.

Ruptura de abscesso hepático

Pode causar peritonite, empiema, doença pleuropulmonar, pericardite ou infecção secundária.

Amebíase cerebral

Complicação rara por disseminação hematogênica, com cefaleia, vômitos, alteração mental e evolução rápida.

Amebíase geniturinária

Pode provocar úlceras genitais dolorosas e acometimento das tubas uterinas.

Sinais de gravidade

  • Diarreia sanguinolenta intensa ou piora rápida do estado geral.
  • Dor abdominal intensa, distensão, defesa ou descompressão dolorosa.
  • Hipovolemia, hipotensão ou incapacidade de hidratação oral.
  • Febre persistente associada a dor em hipocôndrio direito.
  • Suspeita de ruptura de abscesso hepático.
  • Alteração do estado mental ou sinais neurológicos focais.
  • Dor torácica, dispneia ou sinais de insuficiência cardíaca.

Prevenção

A prevenção se baseia em saneamento básico, água segura, higiene das mãos e manipulação adequada dos alimentos. A redução da transmissão fecal-oral é a principal medida para evitar novos casos.

  • Consumir água filtrada, fervida ou tratada.
  • Lavar frutas, verduras e alimentos consumidos crus.
  • Higienizar as mãos após evacuar, trocar fraldas e antes de preparar alimentos.
  • Evitar consumo de alimentos de procedência duvidosa em áreas de risco.
  • Melhorar saneamento, descarte de fezes e abastecimento de água.
  • Investigar e manejar adequadamente casos sintomáticos para reduzir transmissão.

Orientações ao paciente

Pacientes com diarreia devem manter hidratação, evitar automedicação com corticoides ou antidiarreicos sem orientação e procurar atendimento se houver sangue nas fezes, febre persistente, dor abdominal intensa, sinais de desidratação ou dor no quadrante superior direito.

Referências bibliográficas

Lista de referências utilizadas na construção do artigo.

  1. Stanley SL Jr. Amoebiasis. Lancet. 2003;361(9362):1025-1034.
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  3. Haque R, Huston CD, Hughes M, Houpt E, Petri WA Jr. Amebiasis. N Engl J Med. 2003;348(16):1565-1573.
  4. World Health Organization. Amoebiasis. Wkly Epidemiol Rec. 1997;72:97-99.
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  6. Ministério da Saúde. Doenças infecciosas e parasitárias: guia de bolso.
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Tratamento

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