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Capilaríase | Guia de Zoonoses
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Capilaríase

Helmintíase zoonótica causada por nematódeos capilarídeos, com destaque para a forma intestinal por Capillaria philippinensis e a forma hepática por Calodium hepaticum, associadas a diarreia crônica, perda ponderal ou acometimento hepático febril.

Zoonose parasitária Peixe cru ou malcozido Diarreia crônica Forma hepática rara
Tempo de leitura: 8 min
Atualizado em: 28/06/2026
Capilaríase

Quadro clínico principal

  • Diarreia crônica ou recorrente
  • Dor abdominal e borborigmos
  • Perda de peso e anorexia
  • Edema por hipoalbuminemia
  • Febre e hepatomegalia na forma hepática

Diagnóstico

  • Parasitológico de fezes na forma intestinal
  • Identificação de ovos, larvas ou adultos
  • Biópsia intestinal em casos selecionados
  • Biópsia hepática na forma hepática verdadeira

Tratamento

  • Intestinal: albendazol ou mebendazol
  • Hepática: albendazol ou tiabendazol
  • Associar corticosteroide na forma hepática
  • Corrigir desidratação e eletrólitos

Complicações

  • Enteropatia perdedora de proteínas
  • Hipocalemia e desidratação
  • Caquexia e edema
  • Necrose e disfunção hepática grave

O que é

A capilaríase é uma infecção causada por nematódeos da família Capillariidae. Em humanos, as apresentações de maior importância clínica são a capilaríase intestinal, geralmente relacionada a Capillaria philippinensis, e a capilaríase hepática, associada a Calodium hepaticum (também descrito como Capillaria hepatica).

A forma intestinal causa enteropatia com diarreia crônica, perda de peso e distúrbios hidroeletrolíticos. A forma hepática é rara, mas potencialmente grave, cursando com febre persistente, hepatomegalia, eosinofilia e lesão granulomatosa hepática.

Agente etiológico

Os agentes envolvidos são nematódeos finos, de pequeno tamanho, com tropismo variável conforme a espécie.

  • Capillaria philippinensis: forma intestinal; também chamada Paracapillaria philippinensis em algumas classificações.
  • Calodium hepaticum: forma hepática; historicamente denominado Capillaria hepatica.
  • Reservatórios: aves aquáticas, peixes e humanos na forma intestinal; roedores e outros mamíferos na forma hepática.
  • Característica clínica: a forma intestinal pode manter autoinfecção e produzir doença prolongada.
Agente etiológico da capilaríase

Epidemiologia

A capilaríase intestinal é descrita principalmente em áreas da Ásia e do Oriente Médio, mas casos esporádicos podem ocorrer em viajantes ou regiões com hábito de consumo de peixe cru ou malcozido. A forma hepática é rara em humanos e pode ser subdiagnosticada pela dificuldade de confirmação.

Distribuição

Casos em áreas endêmicas e relatos esporádicos.

Risco alimentar

Peixe cru, malcozido ou sem preparo seguro.

Forma hepática

Associada a ciclos com roedores e ambiente contaminado.

Gravidade

Fatal se houver atraso diagnóstico em formas graves.

Desafio

Baixa suspeição e sintomas inespecíficos.

Reservatórios e transmissão

Principais reservatórios

  • Aves aquáticas e peixes de água doce na forma intestinal.
  • Humanos podem atuar como hospedeiros definitivos na capilaríase intestinal.
  • Roedores são reservatórios importantes na capilaríase hepática.
  • Cães, gatos e outros mamíferos podem participar do ciclo ambiental da forma hepática.

Formas de transmissão

  • Ingestão de peixe cru ou malcozido contendo larvas infectantes.
  • Ingestão de ovos embrionados presentes em solo, água ou alimentos contaminados.
  • Exposição ambiental relacionada a roedores e saneamento inadequado.
  • Infecção espúria pode ocorrer após ingestão de fígado contaminado, sem doença hepática verdadeira.
Na capilaríase hepática verdadeira, os ovos ficam retidos no fígado; ovos nas fezes podem indicar infecção espúria após ingestão de fígado contaminado.

Fisiopatologia

Na forma intestinal, larvas ingeridas por meio de peixe contaminado amadurecem no intestino delgado. O parasito pode produzir ovos, larvas e vermes adultos no lúmen intestinal, favorecendo alta carga parasitária e enteropatia com má absorção.

Na forma hepática, ovos embrionados ingeridos liberam larvas que migram para o fígado. A deposição de ovos no parênquima hepático induz resposta granulomatosa, necrose, eosinofilia e, em infecções intensas, disfunção hepática.

Ciclo de vida e fisiopatologia da capilaríase Clique para ampliar

Como ocorre a transmissão

A transmissão varia conforme a forma clínica. A capilaríase intestinal está relacionada à ingestão de peixe cru ou malcozido contendo larvas infectantes. A forma hepática ocorre pela ingestão de ovos embrionados presentes no ambiente contaminado.

Principais vias de infecção

Via alimentar intestinal

Consumo de pequenos peixes de água doce crus, malcozidos, fermentados ou preparados sem controle sanitário adequado.

Via ambiental hepática

Ingestão acidental de ovos embrionados presentes em solo, água ou alimentos contaminados por fezes de animais.

Ciclo com roedores

Roedores são reservatórios importantes da forma hepática e contribuem para a manutenção ambiental do parasito.

Infecção espúria

Ovos podem aparecer nas fezes após ingestão de fígado animal infectado, sem necessariamente indicar doença hepática verdadeira.

Grupos de maior risco

  • Pessoas que consomem peixe cru ou malcozido em áreas endêmicas.
  • Viajantes com exposição alimentar de risco.
  • Populações com saneamento inadequado e contato com solo contaminado.
  • Crianças expostas a ambientes contaminados por roedores.
  • Pessoas com atraso diagnóstico de diarreia crônica e perda ponderal.
A prevenção depende de cozimento adequado de peixes, higiene alimentar, saneamento e controle ambiental de roedores.

Quadro clínico

Os sintomas dependem do órgão acometido. A forma intestinal costuma produzir doença arrastada, com diarreia persistente e má absorção. A forma hepática pode simular hepatite febril, com eosinofilia e hepatomegalia.

Sintomas mais comuns

Diarreia crônica

Pode ser aquosa, recorrente e associada a perdas hidroeletrolíticas importantes.

Dor abdominal

Cólicas, desconforto difuso e borborigmos são frequentes na forma intestinal.

Perda de peso

Relacionada à má absorção, anorexia e enteropatia perdedora de proteínas.

Edema

Pode ocorrer por hipoalbuminemia em doença intestinal grave.

Febre persistente

Mais característica da forma hepática, geralmente acompanhada de eosinofilia.

Hepatomegalia

Sugere acometimento hepático e deve motivar investigação especializada.

Sinal característico: diarreia crônica com má absorção

Na capilaríase intestinal, a diarreia crônica associada a perda de peso, hipoalbuminemia, hipocalemia e edema é um conjunto clínico muito sugestivo, especialmente quando há consumo de peixe cru ou malcozido.

Esse quadro ocorre pela lesão da mucosa intestinal, má absorção e perda de proteínas pelo trato gastrointestinal. Sem tratamento, pode evoluir com desidratação grave, caquexia e risco de morte.

Diarreia crônica e má absorção na capilaríase intestinal Clique para ampliar

Formas clínicas

  • Intestinal: diarreia crônica, dor abdominal, borborigmos, perda ponderal, hipoalbuminemia e distúrbios eletrolíticos.
  • Hepática: febre persistente, hepatomegalia, dor abdominal, eosinofilia, granulomas e necrose hepática.
  • Infecção espúria: eliminação de ovos nas fezes após ingestão de fígado infectado, sem invasão hepática verdadeira.
  • Grave: desidratação, caquexia, edema, disfunção hepática ou evolução fatal.

Suspeita diagnóstica

Deve ser suspeitada em pacientes com diarreia crônica, perda de peso, hipoalbuminemia ou hipocalemia após consumo de peixe cru ou malcozido. A forma hepática deve ser lembrada diante de febre prolongada, hepatomegalia e eosinofilia, especialmente em contexto ambiental compatível.

Exames utilizados

Parasitológico de fezes

Na forma intestinal, pode identificar ovos, larvas ou vermes adultos, especialmente em infecções intensas.

Biópsia intestinal

Útil quando a suspeita é alta e os exames de fezes são negativos ou inconclusivos.

Biópsia hepática

Na forma hepática verdadeira, pode revelar ovos no parênquima, granulomas e necrose.

Exames laboratoriais

Podem mostrar eosinofilia, hipoalbuminemia, hipocalemia, anemia e alterações de enzimas hepáticas.

Diagnósticos diferenciais

  • Giardíase e outras causas de diarreia crônica.
  • Doença celíaca e síndromes de má absorção.
  • Doença inflamatória intestinal.
  • Estrongiloidíase e outras helmintíases intestinais.
  • Hepatites, abscesso hepático e toxocaríase visceral na forma hepática.
  • Neoplasias e outras causas de febre prolongada com eosinofilia.
Ovos nas fezes sugerem capilaríase intestinal; na capilaríase hepática verdadeira, o diagnóstico fecal geralmente não confirma a doença, pois os ovos ficam retidos no fígado.

Princípios do tratamento

A capilaríase intestinal deve ser tratada com albendazol ou mebendazol. A capilaríase hepática deve receber albendazol ou tiabendazol, associados a corticosteroides para controle da resposta inflamatória.

Como usar esta aba

As explicações principais ficam visíveis em cada categoria. As doses e durações foram organizadas nos popups para manter o visual limpo e facilitar a comparação entre esquemas.

Capilaríase intestinal — tratamento ambulatorial

Indicado para pacientes com forma intestinal sem sinais de instabilidade clínica grave. Além do antiparasitário, é importante corrigir desidratação, eletrólitos e alterações nutricionais.

Capilaríase hepática — tratamento empírico

A forma hepática é rara, de difícil confirmação e potencialmente grave. O tratamento envolve antiparasitário associado a prednisona, com acompanhamento clínico e laboratorial.

Suporte clínico e acompanhamento

O suporte é fundamental em pacientes com diarreia intensa, desidratação, hipocalemia, hipoalbuminemia, edema, perda ponderal importante ou suspeita de disfunção hepática.

Casos graves, com caquexia, edema importante, distúrbios eletrolíticos ou disfunção hepática, exigem avaliação especializada e possível tratamento hospitalar.

Complicações da capilaríase

As complicações dependem da forma clínica, da carga parasitária e do tempo até o diagnóstico. A forma intestinal pode evoluir com desnutrição grave, enquanto a forma hepática pode causar lesão hepática progressiva.

Principais acometimentos

Desidratação

Resultado de diarreia persistente e perdas gastrointestinais prolongadas.

Hipocalemia

Pode causar fraqueza, arritmias e piora clínica em casos graves.

Edema

Decorre de hipoalbuminemia por enteropatia perdedora de proteínas.

Caquexia

Perda ponderal intensa por má absorção e doença arrastada.

Necrose hepática

Na forma hepática, ovos no parênquima podem induzir granulomas e necrose.

Óbito

Pode ocorrer em doença não reconhecida ou tratada tardiamente.

Diarreia crônica com edema, hipocalemia e perda de peso deve ser investigada rapidamente, especialmente se houver exposição alimentar de risco.

Como prevenir

A prevenção envolve segurança alimentar, saneamento e controle ambiental. Como a forma intestinal é fortemente relacionada ao consumo de peixe cru ou malcozido, o preparo adequado dos alimentos é a principal medida preventiva.

Medidas práticas

  • Cozinhar adequadamente peixes de água doce antes do consumo.
  • Evitar peixe cru, fermentado ou malcozido em áreas endêmicas.
  • Higienizar mãos, utensílios e superfícies após manipular alimentos crus.
  • Garantir água tratada e boas condições de saneamento.
  • Controlar roedores em domicílios, depósitos, cozinhas e áreas rurais.
  • Evitar ingestão de vísceras cruas ou malcozidas de animais.

Educação em saúde

Em áreas com risco alimentar, orientar a população sobre a relação entre peixe cru/malcozido e capilaríase intestinal ajuda a reduzir casos. Em serviços de saúde, diarreia crônica com perda de peso deve motivar investigação parasitológica adequada.

Referências

  1. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Care of Capillariasis. Atualizado em 16 fev. 2024.
  2. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). About Capillariasis. Atualizado em 23 jan. 2024.
  3. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). DPDx: Hepatic Capillariasis. Atualizado em 1 out. 2019.
  4. MSD Veterinary Manual. Zoonotic Diseases: Parasitic Diseases. Tabela de zoonoses parasitárias.
  5. Belizario VY Jr. et al. Intestinal Capillariasis, Western Mindanao, the Philippines. Emerging Infectious Diseases. 2010.

Em provas / residência

Capilaríase intestinal → diarreia crônica + má absorção + perda de peso + exposição a peixe cru ou malcozido.

Na forma hepática, lembre-se de febre persistente, hepatomegalia e eosinofilia.

Mais informações nas abas abaixo do artigo.

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