Quando suspeitar
Fungemia, pneumonia ou lesões cutâneas em imunossuprimido, especialmente com neutropenia, neoplasia hematológica ou diabetes descompensado.
Micose oportunista rara causada principalmente por Geotrichum candidum, fungo artroconidial ambiental que pode colonizar pele e tratos respiratório e gastrointestinal. A doença invasiva ocorre sobretudo em hospedeiros imunocomprometidos e exige confirmação microbiológica, definição da extensão e terapia antifúngica rápida.
Fungemia, pneumonia ou lesões cutâneas em imunossuprimido, especialmente com neutropenia, neoplasia hematológica ou diabetes descompensado.
Cultura de sangue, tecido ou material de sítio estéril é central. Histologia sugere micose, mas não define geotricose isoladamente.
Anfotericina B lipossomal ± flucitosina ou voriconazol são opções de primeira linha; equinocandinas não são recomendadas.
Não há vacina ou PEP específica. A prevenção se concentra em barreiras, controle de fontes e redução de riscos no imunocomprometido.
Geotricose é a infecção causada por fungos do gênero Geotrichum, especialmente Geotrichum candidum. Trata-se de uma micose rara e oportunista. O microrganismo é encontrado no ambiente e em alimentos e pode colonizar seres humanos sem causar doença, o que torna fundamental diferenciar colonização de infecção verdadeira.
Na doença invasiva, o quadro pode incluir fungemia, comprometimento pulmonar, lesões cutâneas e disseminação para órgãos profundos. A evidência disponível vem principalmente de relatos e séries de casos, portanto as recomendações terapêuticas têm grau de certeza limitado e precisam ser individualizadas.
A nomenclatura desses fungos mudou ao longo do tempo. Nomes antigos podem aparecer em artigos e laudos, o que favorece confusão entre Geotrichum, Magnusiomyces, Saprochaete e Trichosporon. Geotrichum capitatum, por exemplo, foi reclassificado e não deve ser tratado como sinônimo atual de G. candidum.
A revisão taxonômica de 2024 reforçou a separação filogenética entre o grupo de Geotrichum e o grupo de Magnusiomyces/Saprochaete. Na prática clínica, isso importa porque epidemiologia, suscetibilidade e recomendações terapêuticas não devem ser misturadas entre gêneros diferentes.
tricosporonose por Trichosporon spp. e geotricose por Geotrichum spp. são entidades distintas, embora ambas possam formar artroconídios.
G. candidum é um fungo leveduriforme/filamentoso artroconidial, urease-negativo, capaz de formar hifas hialinas septadas que se fragmentam em artroconídios retangulares de tamanhos variáveis. A ausência de blastoconídios ajuda no raciocínio morfológico.
É ubíquo em solo, matéria orgânica em decomposição e alimentos, incluindo produtos lácteos. Também pode colonizar pele e mucosas dos tratos respiratório e gastrointestinal sem causar doença.
A doença surge quando um fungo de baixa virulência relativa encontra um hospedeiro vulnerável ou uma barreira anatômica rompida. Em imunossuprimidos, colonização respiratória ou gastrointestinal pode preceder invasão; em doença cutânea localizada, trauma e lesão de barreira podem atuar como portas de entrada.
A geotricose invasiva é muito rara. Em séries de fungos emergentes, G. candidum representa pequena fração dos casos, e a literatura é dominada por relatos individuais. A mortalidade descrita é elevada sobretudo em pacientes onco-hematológicos, refletindo tanto a agressividade da infecção quanto a gravidade do hospedeiro.
Uma das apresentações invasivas mais relevantes.
Sítio frequentemente acometido em imunocomprometidos.
Fator de risco importante em séries de micoses raras.
Não há período de incubação clínico padronizado.
G. candidum é ambiental e pode ser encontrado em solo, matéria orgânica, vegetais e alimentos. A geotricose não apresenta uma cadeia de transmissão típica comparável às zoonoses clássicas e não há evidência para considerar a transmissão pessoa a pessoa como mecanismo habitual.
Solo e matéria orgânica constituem reservatórios ambientais relevantes.
O fungo pode estar presente em produtos alimentares e é utilizado em determinados processos de maturação de queijos.
Pele e tratos respiratório e gastrointestinal podem ser colonizados sem doença invasiva.
a geotricose deve ser entendida aqui como micose ambiental/oportunista. O vínculo com animais não é requisito para suspeita clínica.
Grupo clássico de maior risco para doença invasiva e disseminada.
Quimioterapia, transplante e imunossupressão intensa aumentam a vulnerabilidade.
Descrito entre os fatores predisponentes em casos de geotricose invasiva e cutânea.
Podem favorecer formas mucosas, pulmonares ou disseminadas.
Rompimento de barreiras pode permitir inoculação e infecção localizada.
Hospitalização prolongada, dispositivos invasivos e múltiplas exposições antimicrobianas podem coexistir nos casos invasivos.
O espectro clínico varia de infecção localizada a doença invasiva multissistêmica. Os achados são inespecíficos; em pacientes de alto risco, a combinação de febre persistente, fungemia, alterações pulmonares e lesões cutâneas deve ampliar o diferencial para fungos raros.
Pode ocorrer isoladamente ou com focos profundos e manifestações cutâneas.
Febre, tosse, dispneia e infiltrados/nódulos inespecíficos, especialmente em imunocomprometidos.
Pode ser primária após ruptura de barreira ou representar disseminação hematogênica.
| Sítio | Possíveis manifestações | Ponto prático |
|---|---|---|
| Pulmão | Pneumonia, nódulos, infiltrados, cavitação ocasional. | TC é preferível à radiografia para definir extensão. |
| Pele / partes moles | Pápulas, nódulos, placas, úlceras ou necrose. | Biopsiar lesões suspeitas e correlacionar com cultura. |
| Olho | Endoftalmite e outras infecções oculares raras. | Emergência oftalmológica; pode exigir intervenção local/cirúrgica. |
| Coração | Endocardite, inclusive em válvula protética. | Ecocardiografia transesofágica é importante quando há suspeita. |
| SNC | Abscesso ou outras formas invasivas raras. | RM é preferida para caracterizar extensão. |
| Osteoarticular | Artrite séptica ou infecção óssea após trauma/inoculação. | Drenagem/debridamento pode ser parte central do controle de foco. |
| Gastrointestinal | Infecção intestinal rara em hospedeiros vulneráveis. | Diferenciar colonização de invasão tecidual. |
O diagnóstico diferencial depende do sítio e do hospedeiro. Em doença invasiva, considerar candidíase, aspergilose, fusariose, mucormicose, tricosporonose e infecções por Magnusiomyces. Em lesões cutâneas, também entram esporotricose, feo-hifomicoses, dermatofitoses profundas e infecções bacterianas.
Hifas hialinas, longas e septadas podem ser vistas em PAS/GMS, mas o aspecto não é específico o suficiente para confirmar geotricose sozinho.
Hifas ramificadas fragmentando-se em artroconídios retangulares; blastoconídios não são típicos.
São relevantes porque fungemia é apresentação importante. O fungo pode crescer em meios de cultura rotineiros.
G. candidum é urease-negativo, característica que pode ajudar na diferenciação inicial de outras leveduras artroconidiais.
sempre que possível, associe visualização tecidual a cultura ou método molecular para identificação.
Sequenciamento das regiões ITS ou D1/D2 do rDNA é uma referência robusta quando a identificação fenotípica ou por MALDI-TOF é duvidosa. Isso é especialmente útil diante das mudanças taxonômicas e do risco de confundir Geotrichum com outros fungos artroconidiais.
Para G. candidum, não existem breakpoints clínicos ou pontos de corte epidemiológicos validados que permitam rotular isolados de forma simples como “sensível” ou “resistente”. A CIM deve ser interpretada em conjunto com o antifúngico utilizado, a literatura, o sítio da infecção e a resposta clínica.
| Suspeita | Exame preferencial | Objetivo |
|---|---|---|
| Pulmão | TC de tórax | Definir nódulos, infiltrados, cavitações e extensão. |
| SNC | RM | Caracterizar abscessos e acometimento profundo. |
| Olho | Avaliação oftalmológica ± imagem dirigida | Detectar endoftalmite e indicar intervenção. |
| Endocardite | Ecocardiografia, preferencialmente transesofágica quando indicada | Pesquisar vegetação e complicações. |
| Foco osteoarticular | RM/TC conforme sítio | Mapear extensão e orientar drenagem/debridamento. |
A diretriz global recomenda repetir imagem durante o seguimento quando houve doença de órgão-alvo.
O tratamento da geotricose invasiva é guiado por diagnóstico, extensão da doença e perfil do hospedeiro. Como não existem ensaios clínicos comparativos, a diretriz global ECMM/ISHAM/ASM baseia as recomendações em séries de casos, experiência clínica e suscetibilidade in vitro.
Para infecção invasiva confirmada ou fortemente suspeita, as opções com suporte moderado são anfotericina B lipossomal com ou sem flucitosina e voriconazol. Anfotericina B desoxicolato pode ser usada quando formulações lipídicas não estão disponíveis, mas apresenta pior perfil de segurança.
| Opção | Dose de referência | Observações |
|---|---|---|
| Anfotericina B lipossomal | 3–5 mg/kg EV a cada 24 h | Primeira linha com suporte moderado; pode ser associada à flucitosina. |
| Flucitosina | 25 mg/kg EV/VO a cada 6 h (100 mg/kg/dia) | Adjuvante possível com anfotericina B; requer ajuste renal e monitorização terapêutica quando disponível. |
| Voriconazol | 6 mg/kg EV/VO a cada 12 h no dia 1; depois 4 mg/kg a cada 12 h | Alternativa de primeira linha com suporte moderado; atenção a interações, função hepática e TDM. |
| Anfotericina B desoxicolato | 1 mg/kg EV a cada 24 h | Alternativa quando formulação lipídica não está disponível; maior nefrotoxicidade. |
Abra os cartões para ver dose, monitorização e pontos de atenção.
Não existe duração padronizada. A recomendação é individualizar conforme resposta clínica, sítio e extensão, depuração de hemoculturas, controle de foco e estado imune atual e esperado. Relatos de cura variam de algumas semanas a meses, com cursos mais longos para doença de órgão-alvo.
Não há duração universal validada; documente depuração e avalie focos ocultos antes de definir o total.
Exigem tratamento prolongado, abordagem multidisciplinar e frequentemente intervenção de controle de foco.
Casos profundos podem necessitar meses de terapia e debridamento, especialmente em imunossuprimidos.
Reveja identificação, suscetibilidade, exposição farmacológica, interações, controle de foco e recuperação imune.
Quando houver lesão localizada passível de abordagem, a diretriz apoia fortemente o envolvimento cirúrgico além do antifúngico sistêmico. Isso pode incluir debridamento de tecido, drenagem de artrite/abscesso, cirurgia ocular e intervenção valvar conforme o caso.
antifúngico adequado não compensa um foco profundo não controlado quando existe indicação de intervenção.
A diretriz global aplica os mesmos princípios de escolha antifúngica e controle de foco usados em adultos, mas ressalta que a farmacocinética pediátrica é diferente. Em doença invasiva, infectologia pediátrica e farmácia clínica devem participar da prescrição.
| Agente | Referência pediátrica | Ponto de atenção |
|---|---|---|
| Anfotericina B lipossomal | 3–5 mg/kg/dia EV | Monitorar função renal, potássio e magnésio. |
| Flucitosina | 100–150 mg/kg/dia em 3–4 doses | Ajuste renal e TDM são particularmente importantes. |
| Voriconazol 2–<12 anos ou 12–14 anos <50 kg | Dia 1: 9 mg/kg EV 12/12 h; depois 8 mg/kg EV 12/12 h. Via oral requer esquema pediátrico específico. | Alta variabilidade; TDM é fortemente recomendado. |
| Voriconazol ≥15 anos ou 12–14 anos ≥50 kg | Regime equivalente ao adulto: 6 mg/kg EV 12/12 h no dia 1; depois 4 mg/kg 12/12 h. | Ajustar conforme formulação, função hepática, interações e níveis. |
É o cenário mais associado à geotricose invasiva grave. Além do antifúngico ativo, devem ser buscados recuperação da neutropenia quando possível, controle de focos e revisão de dispositivos intravasculares no contexto de fungemia.
Nefrotoxicidade e distúrbios de potássio/magnésio exigem monitorização seriada; formulação lipossomal é preferida quando disponível.
Eliminação renal, risco de acúmulo e toxicidade hematológica/hepática; ajustar e utilizar TDM quando disponível.
Interações medicamentosas, hepatotoxicidade, efeitos visuais/neurológicos e alterações de QT devem ser considerados; TDM melhora segurança e exposição.
Absorção oral, interações, suporte extracorpóreo e disfunção de órgãos podem alterar exposição e escolha da formulação.
São formas raras que exigem estratégia individualizada e tratamento prolongado. Endocardite pode necessitar cirurgia valvar; endoftalmite pode exigir terapia intravítrea e vitrectomia; artrite/osteomielite podem precisar drenagem ou debridamento. Em todos os casos, a duração deve ser guiada por resposta clínica e radiológica.
O seguimento deve combinar evolução clínica, depuração microbiológica e reavaliação do órgão acometido. Em fungemia, obtenha hemoculturas seriadas até negativação. Em doença profunda, repita imagem de acordo com o sítio e a resposta.
Documentar negativação e investigar persistência.
Comparar extensão e resolução de focos profundos.
Função renal/hepática, eletrólitos, hemograma e níveis conforme antifúngico.
Não existem medidas específicas validadas para prevenir geotricose além do controle de riscos gerais de infecção fúngica oportunista. A prevenção é centrada em proteger barreiras, reduzir exposições evitáveis em imunossuprimidos e aplicar boas práticas de cuidado de dispositivos e feridas.
Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Doses por peso, função renal/hepática, formas focais graves, gestação e profilaxia após exposição devem ser conferidas antes da prescrição.
O essencial de Geotricose para consulta rápida no celular.
Fungemia, pneumonia ou lesões cutâneas em neutropenia, neoplasia hematológica ou imunossupressão.
Cultura + identificação confiável; histologia demonstra invasão, mas não define espécie sozinha.
L-AmB ± flucitosina ou voriconazol; equinocandinas não são primeira linha.
Considere drenagem/debridamento/cirurgia conforme o sítio.
Anfotericina B lipossomal EV.
Voriconazol: ataque no dia 1 e manutenção a partir do dia 2.
Não extrapole esquemas de tricosporonose para geotricose.
A CIM deve ser interpretada com contexto clínico e microbiológico.
Geotricose → fungo artroconidial + imunossupressão + cultura com artroconídios retangulares.
Na forma invasiva, pense em anfotericina B lipossomal ± flucitosina ou voriconazol e confirme identificação para não confundir com outros fungos artroconidiais.
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