Quando suspeitar
Síndrome mononucleose-like, retinocoroidite ou quadro neurológico focal em pessoa com exposição compatível, gestação ou imunossupressão.
Infecção causada pelo protozoário intracelular obrigatório Toxoplasma gondii, geralmente assintomática em imunocompetentes, mas potencialmente grave na gestação, doença ocular e imunossupressão. O diagnóstico combina sorologia, avaliação clínica e PCR conforme o cenário; o tratamento é direcionado à apresentação e ao risco do hospedeiro.
Síndrome mononucleose-like, retinocoroidite ou quadro neurológico focal em pessoa com exposição compatível, gestação ou imunossupressão.
IgG/IgM orientam a investigação; avidez ajuda na gestação inicial. PCR é útil em líquido amniótico, SNC e outros cenários selecionados.
Imunocompetentes leves geralmente não tratam. Gestação, doença ocular relevante e neurotoxoplasmose exigem esquemas específicos.
Cozimento adequado das carnes, água segura, higiene de frutas/verduras e cuidado com solo e fezes de felinos reduzem o risco.
A toxoplasmose é uma infecção causada por Toxoplasma gondii, protozoário intracelular obrigatório capaz de infectar praticamente todos os animais de sangue quente. Na maioria dos imunocompetentes, a infecção primária é assintomática ou autolimitada; a relevância clínica aumenta diante de gestação, imunossupressão, acometimento ocular ou doença visceral.
Após a fase aguda, o parasito pode permanecer por toda a vida em cistos teciduais contendo bradizoítas. Essa persistência explica a possibilidade de reativação quando a imunidade celular se deteriora e também por que os fármacos disponíveis tratam a doença ativa, mas não erradicam os cistos teciduais.
T. gondii pertence ao filo Apicomplexa e apresenta formas biologicamente importantes: taquizoítas, associados à multiplicação rápida e à fase aguda; bradizoítas, presentes em cistos teciduais persistentes; e oocistos, produzidos no ciclo sexuado intestinal dos felídeos.
Felinos domésticos e silvestres são os hospedeiros definitivos. Humanos, aves e outros mamíferos funcionam como hospedeiros intermediários. Oocistos eliminados nas fezes precisam esporular no ambiente antes de se tornarem infectantes, razão pela qual a higiene diária da caixa de areia ajuda a reduzir o risco.
o risco não é simplesmente “ter contato com gato”. A exposição relevante envolve oocistos provenientes de fezes contaminadas, solo/água contaminados ou alimentos que tenham entrado em contato com esse material.
O ciclo combina uma etapa sexuada restrita aos felídeos e uma etapa assexuada que ocorre nos hospedeiros intermediários. A infecção humana é adquirida principalmente pela ingestão de oocistos esporulados no ambiente ou de cistos teciduais presentes em alimentos de origem animal.
As faixas clássicas descritas após exposição oral são de aproximadamente 5–20 dias após ingestão de oocistos e 10–23 dias após ingestão de cistos teciduais. A maioria dos casos em imunocompetentes evolui sem complicações importantes.
É a apresentação mais comum em pessoas imunocompetentes.
Retinocoroidite pode surgir na infecção adquirida ou congênita e recidivar.
A reativação cerebral é forma clássica de doença oportunista em HIV avançado.
O risco de transmissão aumenta com a idade gestacional, enquanto a gravidade tende a ser maior nas infecções mais precoces.
A transmissão humana ocorre sobretudo por via oral e, durante a gestação, por via transplacentária. Formas raras estão associadas a transplante, transfusão, inoculação acidental e aerossóis contaminados.
Carne crua, malpassada ou insuficientemente cozida pode conter bradizoítas em cistos.
Água, solo, frutas, hortaliças e superfícies podem ser contaminados por oocistos provenientes de fezes de felinos.
Taquizoítas podem atravessar a placenta durante infecção materna adquirida na gestação.
Infecção primária durante a gestação pode resultar em transmissão fetal, inclusive sem sintomas maternos.
IgG positiva e CD4 <100 células/mm³ identificam grupo com indicação de profilaxia primária para encefalite toxoplásmica.
Reativação e doença disseminada tornam-se mais prováveis quando a imunidade celular está comprometida.
Podem nascer assintomáticos e desenvolver posteriormente sequelas oculares ou neurológicas.
A infecção é frequentemente assintomática. Quando sintomática, costuma produzir quadro autolimitado semelhante à mononucleose, com linfadenopatia — frequentemente cervical —, febre, mal-estar, fadiga e mialgia. Hepatoesplenomegalia transitória pode ocorrer.
Febre, fadiga, mialgias, sudorese e sintomas inespecíficos.
Pode ser localizada ou generalizada e persistir por semanas.
Retinocoroidite pode causar visão borrada, moscas volantes, dor ou fotofobia.
Miocardite, pneumonite, hepatite e miosite são incomuns em imunocompetentes.
Em pessoas com imunossupressão importante, especialmente HIV avançado com sorologia IgG positiva, a manifestação mais típica é a encefalite por reativação. O início pode ser subagudo e o quadro frequentemente combina cefaleia com sinais focais.
Hemiparesia, déficit sensitivo, alterações de nervos cranianos, afasia ou distúrbios cerebelares.
Podem ocorrer e exigem tratamento anticonvulsivante quando presentes; não se recomenda profilaxia anticonvulsivante de rotina sem crise.
Confusão, sonolência, alterações neuropsiquiátricas ou redução do nível de consciência.
Pneumonite, retinocoroidite, miocardite e doença disseminada são possíveis, embora menos frequentes.
A retinocoroidite toxoplásmica pode ocorrer após infecção congênita ou adquirida e pode apresentar reativações. A gravidade depende especialmente da atividade, localização e tamanho da lesão, intensidade da inflamação e comprometimento da acuidade visual.
lesões próximas à mácula, disco óptico ou grandes vasos, inflamação intensa, grande perda visual, doença em imunossuprimidos e apresentações atípicas exigem avaliação especializada rápida.
A maioria dos recém-nascidos infectados pode não apresentar sinais óbvios ao nascimento. Quando presente, a doença pode afetar olhos e sistema nervoso central, além de produzir manifestações sistêmicas.
Pode comprometer a visão ao nascimento ou surgir/reativar posteriormente.
Hidrocefalia/ventriculomegalia, calcificações intracranianas, convulsões e alterações do desenvolvimento.
Icterícia, hepatoesplenomegalia, anemia, trombocitopenia, rash e baixo peso podem ocorrer.
| Cenário | Diferenciais importantes |
|---|---|
| Mononucleose-like | EBV, CMV, infecção aguda por HIV, sífilis, rubéola e outras causas de linfadenopatia/febre. |
| Lesões cerebrais em HIV | Linfoma primário do SNC, tuberculose, criptococose, abscessos bacterianos/fúngicos e outras infecções oportunistas. |
| Retinocoroidite | CMV, sífilis, tuberculose, necrose retiniana herpética e outras uveítes infecciosas/inflamatórias. |
| Congênita | CMV, sífilis, rubéola e outras infecções congênitas conforme achados clínicos e de imagem. |
O diagnóstico costuma começar pela pesquisa de anticorpos específicos. IgG indica exposição prévia; IgM pode apoiar a hipótese de infecção recente, mas pode persistir por meses e apresentar resultados falso-positivos. Por isso, IgM isolada não deve ser usada para “datar” a infecção sem contexto e confirmação apropriada.
Sem evidência sorológica de infecção prévia; na gestação, indica suscetibilidade e necessidade de prevenção/repetição conforme o pré-natal.
Em geral indica infecção passada; a interpretação na gestação depende do momento da coleta e da história sorológica.
Pode representar infecção recente ou IgM persistente. Em gestação inicial, avidez de IgG e teste confirmatório ajudam a estimar o momento da infecção.
Pode ser infecção muito recente ou IgM falso-positiva; repetir sorologia em laboratório adequado é essencial.
A PCR para T. gondii é usada conforme o sítio e a pergunta clínica. Na suspeita de infecção fetal, o principal material é o líquido amniótico em idade gestacional adequada; no sistema nervoso central, PCR do líquor pode apoiar o diagnóstico, mas sua sensibilidade é limitada e um resultado negativo não exclui neurotoxoplasmose.
Em pessoa com HIV e imunossupressão avançada, o diagnóstico é frequentemente presuntivo diante de síndrome neurológica compatível, IgG anti-Toxoplasma positiva e neuroimagem sugestiva. A ressonância magnética é mais sensível que a tomografia para detectar lesões adicionais.
múltiplas lesões com realce anelar e edema, frequentemente envolvendo gânglios da base. Lesão única não exclui toxoplasmose, mas amplia a preocupação com diagnósticos alternativos, incluindo linfoma primário do SNC.
É predominantemente clínico-oftalmológico, baseado em fundoscopia e avaliação especializada. A sorologia costuma ser apenas de suporte, porque grande parcela da população exposta pode ter IgG positiva sem doença ocular ativa.
Pessoas imunocompetentes com forma linfonodal leve e autolimitada geralmente não precisam de terapia antiparasitária. O tratamento ganha prioridade quando há sintomas intensos/persistentes, doença visceral, imunossupressão, neurotoxoplasmose, gestação, infecção congênita ou toxoplasmose ocular com indicação oftalmológica.
Abra o cartão correspondente para consultar indicação, doses, duração e pontos de monitoramento.
Risco de supressão medular; usar ácido folínico e monitorar hemograma, especialmente em cursos prolongados.
Reações de hipersensibilidade, citopenias e complicações renais podem ocorrer; avaliar função renal, hidratação e interações.
Monitorar rash, citopenias, função renal, potássio e interações conforme perfil do paciente.
Na doença ocular, somente quando indicado pelo oftalmologista; na neurotoxoplasmose, reservar para edema/efeito de massa clinicamente relevante.
A infecção materna pode ser totalmente assintomática. A probabilidade de transmissão vertical tende a aumentar com a idade gestacional, enquanto infecções mais precoces estão associadas a maior gravidade fetal. Por isso, rastreamento, tratamento precoce e encaminhamento ao pré-natal de alto risco são centrais.
Em imunocompetente, infecção remota geralmente não implica risco de transmissão na gestação atual.
É o principal cenário de transmissão congênita e exige intervenção mesmo quando a gestante está assintomática.
Líquido amniótico é avaliado a partir de 18 semanas e após intervalo adequado da provável infecção materna.
Seguimento fetal seriado busca ventriculomegalia, calcificações e outros sinais sugestivos.
O tratamento prolongado reduz o risco de sequelas e deve ser acompanhado por equipe pediátrica especializada. Além da terapêutica antiparasitária, o seguimento inclui avaliação oftalmológica e do desenvolvimento, com investigação auditiva/neurológica conforme o caso.
a ausência de sinais clínicos iniciais não exclui infecção congênita nem risco de manifestação ocular/neurológica tardia.
Em pessoas com HIV, IgG anti-Toxoplasma positiva documenta exposição e ajuda a definir risco de reativação. A profilaxia primária é indicada quando o CD4 cai abaixo de 100 células/mm³; após encefalite, todos os pacientes devem receber terapia de manutenção até reconstituição imune adequada.
Indicação de profilaxia primária; TMP-SMX DS 1 comprimido/dia é o esquema preferencial do NIH.
Tratar por pelo menos 6 semanas; prolongar se resposta clínica/radiológica estiver incompleta.
Manutenção é obrigatória até reconstituição imune em resposta à terapia antirretroviral.
Piora na primeira semana ou ausência de melhora em 10–14 dias exige reavaliar diagnóstico e considerar biópsia.
O risco depende da sorologia prévia, do tipo de transplante, da intensidade da imunossupressão e da profilaxia utilizada. Doença do sistema nervoso central, pulmonar, cardíaca ou disseminada requer avaliação especializada e, muitas vezes, manejo hospitalar.
Cozinhar adequadamente, evitar carne crua/malpassada e prevenir contaminação cruzada na cozinha.
Lavar corretamente com água segura antes do consumo, inclusive antes de descascar.
Preferir água tratada; quando a potabilidade não é garantida, seguir orientação sanitária para filtrar/ferver.
Usar luvas em jardinagem e lavar bem as mãos após contato com terra ou areia.
Não oferecer carne crua ao gato, manter caixa limpa diariamente e evitar que gestantes/imunossuprimidos manipulem fezes.
Lavar mãos, bancadas, facas e tábuas após contato com carne crua, solo ou produtos não higienizados.
| Cenário | Seguimento prático |
|---|---|
| Imunocompetente leve | Reavaliar se sintomas persistirem, surgirem sinais focais, alteração ocular ou doença visceral. |
| Ocular | Seguimento oftalmológico; recorrências podem ocorrer e a decisão de retratamento depende de atividade/localização da lesão. |
| Neurotoxoplasmose | Avaliar resposta clínica; imagem de controle pode ser repetida em 3 e 6 semanas ou antes se houver deterioração. |
| Congênita | Tratamento por 12 meses e seguimento prolongado oftalmológico e do neurodesenvolvimento. |
| Gestação | Pré-natal de alto risco, tratamento contínuo conforme protocolo e avaliação fetal seriada. |
No Brasil, a vigilância prioriza toxoplasmose adquirida na gestação e toxoplasmose congênita, com registro no SINAN conforme definições vigentes. Casos adquiridos isolados fora desses cenários não compõem, de forma geral, a mesma rotina de notificação compulsória; suspeitas de surto hídrico/alimentar devem ser comunicadas e investigadas pela vigilância epidemiológica.
Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, infectologia, oftalmologia, obstetrícia/pediatria nem consulta às apresentações disponíveis. Doses por peso, função renal/hepática, interações, citopenias, gestação e formas graves devem ser conferidas antes da prescrição.
O essencial da Toxoplasmose para consulta rápida no celular.
Mononucleose-like, retinocoroidite, gestação com sorologia compatível ou lesão cerebral focal em imunossuprimido.
IgG/IgM + cronologia; avidez na gestação inicial; PCR conforme sítio e contexto.
Leves imunocompetentes geralmente não tratam; gestação, olho e SNC têm protocolos específicos.
Carne bem cozida, água segura, vegetais bem lavados e cuidado com solo/fezes de felinos.
Terapia aguda da neurotoxoplasmose no HIV.
Duração típica do tratamento da toxoplasmose congênita.
Pode persistir e pode ser falso-positiva; não datar infecção apenas por IgM.
Pirimetamina deve ser acompanhada de ácido folínico.
HIV avançado + múltiplas lesões com realce anelar + déficit focal → neurotoxoplasmose até prova em contrário.
Gestação: maior idade gestacional aumenta a transmissão; infecção precoce tende a causar doença fetal mais grave.
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