Trauma raquimedular
A lesão primária acontece no instante do impacto e não pode ser desfeita. Tudo o que a equipe faz nas primeiras horas mira a lesão secundária — a que se instala depois, por hipoxemia, hipotensão e compressão persistente. Imobilizar, oxigenar, sustentar a pressão de perfusão medular e descomprimir cedo é o que ainda muda o desfecho funcional.
Imobilizar com critério
- Restrição de movimento, não "colar em todo mundo"
- Colar cervical, cabeça alinhada e prancha só para transporte
- Rolamento em bloco com equipe treinada
- Retirar a prancha rígida o quanto antes
Via aérea e ventilação
- Lesão acima de C5 ameaça o diafragma
- Intubar com estabilização manual em linha
- Vigiar capacidade vital e tosse ineficaz
- Hipoxemia é lesão secundária
Sustentar a perfusão
- Alvo de PAM 85–90 mmHg por até 7 dias
- Choque neurogênico: hipotensão com bradicardia
- Excluir hemorragia antes de assumir neurogênico
- Noradrenalina como vasopressor de escolha
Documentar e descomprimir
- Exame ASIA completo, com horário
- Toque retal e sensibilidade perianal
- Tomografia; ressonância para a medula
- Descompressão precoce, idealmente em 24 h
Definições que precisam ficar claras
Trauma raquimedular é o termo guarda-chuva para lesão traumática da coluna vertebral com ou sem comprometimento neurológico. Nem toda fratura de coluna cursa com lesão medular, e — o inverso é mais perigoso — pode haver lesão medular sem alteração radiográfica, situação clássica em crianças e em idosos com canal estreito.
Fratura, luxação ou lesão ligamentar dos elementos ósseos e discoligamentares. Pode ser estável ou instável.
Comprometimento neurológico da medula ou da cauda equina, com déficit motor, sensitivo e autonômico abaixo do nível acometido.
Lesão primária e lesão secundária
A lesão primária é o dano mecânico do impacto: contusão, laceração, compressão, distração ou isquemia direta. Ela está consumada quando o paciente chega — nenhuma intervenção a desfaz.
A lesão secundária se instala nas horas e dias seguintes: edema, isquemia por queda da pressão de perfusão medular, excitotoxicidade, estresse oxidativo, inflamação e apoptose. É ela que a equipe pode limitar — e por isso hipoxemia, hipotensão e compressão persistente são os três inimigos da primeira semana.
O que agrava a lesão secundária
- Hipotensão — a medula lesada perde a autorregulação e passa a depender da pressão sistêmica.
- Hipoxemia — soma-se à isquemia local e amplia a área de penumbra.
- Compressão mantida — fragmento ósseo, hérnia traumática ou hematoma epidural.
- Hipertermia e hiperglicemia — aumentam a demanda metabólica do tecido em risco.
- Mobilização inadequada — pode converter uma lesão incompleta em completa.
Pressão de perfusão medular = PAM − pressão do líquor. Como não medimos rotineiramente a pressão liquórica, sustentamos a PAM. Daí o alvo de 85–90 mmHg, mantido nos primeiros dias.
Epidemiologia
O segmento cervical é o mais acometido, seguido pelo torácico e pelo lombar. A junção toracolombar (T11–L2) concentra fraturas por ser a transição entre um segmento rígido e um móvel. A distribuição é bimodal: adultos jovens do sexo masculino em trauma de alta energia (trânsito, mergulho em água rasa, queda de altura, violência) e idosos em quedas de baixa energia, frequentemente com lesão cervical alta ou por hiperextensão em canal já estreitado.
Cervical, seguido de torácico e lombar.
Trânsito, mergulho em água rasa, queda e violência.
Queda da própria altura com hiperextensão cervical.
Fraturas não contíguas em outros níveis são frequentes — examine toda a coluna.
Traumatismo cranioencefálico e intoxicação mascaram o exame e aumentam o risco de diagnóstico perdido.
As três perguntas da primeira hora
Restrição de movimento adequada, rolamento em bloco, retirada precoce da prancha rígida e cuidado redobrado em cada transferência, exame e procedimento — inclusive na intubação.
Exame neurológico padronizado pelo ASIA, com força de dez miótomos, sensibilidade de vinte e oito dermátomos, sensibilidade perianal e contração anal voluntária. Documente com horário — a evolução importa mais que o instantâneo.
Corrija hipoxemia e hipotensão. Antes de atribuir a hipotensão ao choque neurogênico, descarte hemorragia: no politraumatizado, sangramento é a causa até prova em contrário.
Os primeiros dez minutos
A coluna é protegida em paralelo ao xABCDE — nunca antes dele. Hemorragia exsanguinante e via aérea perdida matam mais rápido que uma mobilização imperfeita.
- Controle de hemorragia exsanguinante e restrição de movimento da coluna cervical desde o primeiro contato.
- A — via aérea com estabilização manual em linha; retire a parte anterior do colar durante a laringoscopia e reposicione depois.
- B — avalie o padrão respiratório: respiração diafragmática, tosse ineficaz e queda da capacidade vital antecedem a falência ventilatória. Oxigênio se SpO₂ < 94%.
- C — dois acessos calibrosos. Hipotensão no politraumatizado é hemorragia até prova em contrário; só depois considere choque neurogênico.
- D — exame neurológico dirigido: Glasgow, pupilas, força e sensibilidade dos quatro membros, sensibilidade perianal e tônus esfincteriano.
- E — exposição com prevenção ativa de hipotermia; rolamento em bloco para inspecionar o dorso e palpar toda a coluna.
- Retire a prancha rígida assim que possível e use superfície acolchoada — a prancha causa úlcera por pressão em poucas horas.
- Sonda vesical (após excluir lesão uretral) e sonda gástrica: retenção urinária e íleo são precoces.
- Defina a necessidade de imagem, acione a neurocirurgia ou a ortopedia de coluna e estabeleça as metas de PAM.
Restrição de movimento da coluna
O conceito atual é de restrição seletiva do movimento, e não de imobilização indiscriminada. A prancha rígida é dispositivo de transporte, não de tratamento.
Mecanismo compatível com dor cervical ou dorsal, déficit neurológico, alteração do nível de consciência, intoxicação, lesão distratora dolorosa ou incapacidade de comunicação confiável.
Colar cervical de tamanho adequado, cabeça em posição neutra, coxins laterais e rolamento em bloco com equipe coordenada por quem controla a cabeça.
Retire a prancha rígida na chegada. O colar permanece até a coluna ser liberada por exame clínico confiável ou por imagem.
Úlcera por pressão, dor, agitação, aumento da pressão intracraniana, restrição ventilatória, dificuldade de acesso à via aérea e broncoaspiração.
Em espondilite anquilosante e outras deformidades fixas, imobilize na posição em que o paciente habitualmente se encontra — forçar a neutralidade pode fraturar ou deslocar a coluna. Em trauma penetrante isolado, a imobilização rotineira não é recomendada: retarda o atendimento sem benefício demonstrado.
Via aérea e função ventilatória
| Nível da lesão | Repercussão ventilatória | Conduta |
|---|---|---|
| Acima de C3 | Perda do estímulo diafragmático (nervo frênico, C3–C5): apneia. | Via aérea definitiva imediata e ventilação mecânica; a dependência costuma ser permanente. |
| C3–C5 | Diafragma parcialmente comprometido, com fadiga progressiva. | Intubação precoce e programada; evite esperar a exaustão. |
| C6–C8 | Diafragma preservado, mas há perda de intercostais e de musculatura abdominal: tosse ineficaz e atelectasia. | Fisioterapia, tosse assistida, aspiração e vigilância da capacidade vital. |
| Torácica alta | Redução da reserva ventilatória e da capacidade de eliminar secreção. | Suporte respiratório conforme a evolução; atenção às lesões torácicas associadas. |
Choque neurogênico x choque medular
São entidades diferentes, com nomes parecidos — e confundi-las gera erro de conduta.
Choque neurogênico
Fenômeno hemodinâmico: perda do tônus simpático em lesões acima de T6, com vasodilatação e, frequentemente, bradicardia por predomínio vagal. Cursa com hipotensão, bradicardia e extremidades quentes e secas — perfil oposto ao do choque hemorrágico. Tratamento: volume criterioso, vasopressor e atropina se bradicardia sintomática.
Choque medular
Fenômeno neurológico e transitório: arreflexia e flacidez completas abaixo da lesão, com perda dos reflexos, inclusive o bulbocavernoso. Não é hipotensão. Enquanto perdura, não é possível classificar a lesão como completa. O retorno do reflexo bulbocavernoso marca o fim da fase.
Calculadora — PAM alvo e noradrenalina em bomba
PAM estimada por PAD + (PAS − PAD) / 3. Para a noradrenalina, mL/h = (dose em mcg/kg/min × peso × 60) ÷ concentração em mcg/mL, considerando ampola de 4 mg/4 mL diluída até o volume final indicado.
O padrão internacional (ISNCSCI)
O exame da American Spinal Injury Association padroniza a avaliação e permite comparar o paciente consigo mesmo ao longo do tempo. Ele responde a quatro perguntas: qual o nível motor, qual o nível sensitivo, qual o nível neurológico e se a lesão é completa ou incompleta.
Dez miótomos-chave de cada lado, graduados de 0 a 5. Escore máximo de 50 por lado e 100 no total.
Vinte e oito dermátomos de cada lado, testados para tato leve e sensibilidade dolorosa (agulha), graduados de 0 a 2.
Sensibilidade em S4-S5, pressão anal profunda e contração anal voluntária — definem completude.
Documente na admissão com horário, repita de forma seriada e sempre antes e depois de qualquer procedimento ou mobilização importante.
Miótomos-chave e força
| Nível | Movimento testado | Graduação da força |
|---|---|---|
| C5 | Flexão do cotovelo (bíceps) | 0 — paralisia total 1 — contração visível ou palpável 2 — movimento ativo sem vencer a gravidade 3 — movimento ativo contra a gravidade 4 — movimento contra resistência moderada 5 — força normal NT — não testável |
| C6 | Extensão do punho | |
| C7 | Extensão do cotovelo (tríceps) | |
| C8 | Flexão da falange distal do dedo médio | |
| T1 | Abdução do quinto dedo | |
| L2 | Flexão do quadril (iliopsoas) | |
| L3 | Extensão do joelho (quadríceps) | |
| L4 | Dorsiflexão do tornozelo (tibial anterior) | |
| L5 | Extensão do hálux (extensor longo) | |
| S1 | Flexão plantar do tornozelo |
Calculadora — escore motor ASIA
Preencha a força de cada miótomo-chave, de 0 a 5. O escore motor total é a soma dos dois lados; o de membros superiores vai até 50 e o de membros inferiores, até 50. É a variável que melhor acompanha a recuperação funcional ao longo das semanas.
Escala de comprometimento (AIS)
| Grau | Denominação | Definição |
|---|---|---|
| A | Completa | Nenhuma função motora ou sensitiva preservada nos segmentos sacrais S4-S5. |
| B | Incompleta sensitiva | Sensibilidade preservada abaixo do nível neurológico, incluindo S4-S5, sem função motora preservada mais de três níveis abaixo do nível motor. |
| C | Incompleta motora | Função motora preservada abaixo do nível, com mais da metade dos músculos-chave abaixo do nível neurológico apresentando força menor que 3. |
| D | Incompleta motora | Função motora preservada abaixo do nível, com pelo menos metade dos músculos-chave abaixo do nível neurológico apresentando força ≥ 3. |
| E | Normal | Funções motora e sensitiva normais em paciente com déficit prévio documentado. |
Preservação sacral — o achado que muda o prognóstico
A presença de qualquer função nos segmentos sacrais mais baixos define a lesão como incompleta e melhora substancialmente o prognóstico de recuperação. Procure ativamente: sensibilidade na região perianal, pressão anal profunda percebida pelo paciente, contração anal voluntária ao comando e flexão voluntária do hálux. Esse é o motivo pelo qual o toque retal com avaliação do tônus e da contração voluntária é obrigatório em todo trauma raquimedular — e é uma das etapas mais frequentemente puladas na sala de emergência.
Síndromes medulares incompletas
| Síndrome | Mecanismo típico | Quadro clínico | Prognóstico |
|---|---|---|---|
| Medular central | Hiperextensão cervical em idoso com canal estreito; a mais frequente das incompletas. | Fraqueza desproporcionalmente maior nos membros superiores que nos inferiores, sobretudo nas mãos, com graus variáveis de alteração sensitiva e disfunção vesical. | Habitualmente favorável, com recuperação em sentido caudo-cranial; as mãos são as últimas a melhorar. |
| Medular anterior | Oclusão ou lesão da artéria espinhal anterior; flexão com compressão anterior. | Paralisia abaixo da lesão com perda de dor e temperatura, e preservação de propriocepção, vibração e tato profundo (cordões posteriores íntegros). | O pior entre as síndromes incompletas. |
| Brown-Séquard | Hemissecção medular, classicamente por trauma penetrante. | Perda motora e proprioceptiva ipsilateral, com perda de dor e temperatura contralateral, um a dois níveis abaixo. | O melhor prognóstico funcional entre as síndromes incompletas. |
| Medular posterior | Rara; hiperextensão ou lesão vascular posterior. | Perda de propriocepção e vibração, com ataxia sensitiva e força relativamente preservada. | Variável; a marcha fica comprometida pela ataxia. |
| Cone medular | Lesão em T12–L2. | Disfunção vesical e intestinal precoce e simétrica, anestesia em sela, déficit motor de membros inferiores frequentemente discreto. Reflexos podem estar preservados. | Recuperação limitada da função esfincteriana. |
| Cauda equina | Lesão abaixo de L2 — acomete raízes, não a medula. | Quadro assimétrico, com dor radicular intensa, arreflexia, anestesia em sela e retenção urinária. É lesão de neurônio motor inferior. | Emergência cirúrgica: a descompressão precoce melhora o desfecho esfincteriano. |
SCIWORA e o paciente com canal estreito
Lesão medular sem alteração radiográfica: típica de crianças, pela elasticidade ligamentar e maior mobilidade da coluna cervical. Exige ressonância magnética diante de déficit com tomografia normal.
Canal já estreitado: uma hiperextensão simples produz síndrome medular central sem fratura visível. Não libere a coluna apenas pela tomografia normal quando há déficit.
Coluna rígida e frágil: fraturas transdiscais altamente instáveis por traumas mínimos, com alto risco de lesão neurológica tardia e de hematoma epidural.
Fraturas não contíguas são frequentes: encontrar uma lesão obriga a examinar radiologicamente toda a coluna.
Quem precisa de imagem
Duas regras de decisão validadas evitam tomografias desnecessárias em pacientes de baixo risco. Ambas se aplicam apenas ao trauma cervical fechado em paciente alerta e estável.
NEXUS
Dispensa imagem se todos os cinco critérios estiverem ausentes: dor à palpação da linha média posterior cervical, sinal de intoxicação, alteração do nível de consciência, déficit neurológico focal e lesão distratora dolorosa.
Canadian C-Spine
Estrutura em três etapas: fatores de alto risco que obrigam imagem; fatores de baixo risco que permitem avaliar a rotação; e teste de rotação ativa de 45° para cada lado. Aplicável apenas ao paciente alerta, estável e sem déficit.
Calculadora — NEXUS
Marque os critérios presentes. A imagem cervical pode ser dispensada apenas quando nenhum deles está presente.
Qual exame pedir
| Exame | Quando | O que responde |
|---|---|---|
| Tomografia de coluna | Exame de escolha em todo trauma com indicação de imagem | Define fraturas, luxações, alinhamento e comprometimento do canal. Substituiu a radiografia como método inicial no politraumatizado. |
| Ressonância magnética | Déficit neurológico, suspeita de lesão discoligamentar, tomografia normal com déficit, planejamento cirúrgico | Único método que avalia a medula: contusão, edema, hematoma epidural, hérnia traumática e integridade ligamentar. |
| Radiografia simples | Recurso limitado ou triagem em trauma de baixa energia | Baixa sensibilidade, sobretudo na transição cervicotorácica e na coluna cervical alta. Não exclui lesão. |
| Angiotomografia de vasos cervicais | Fratura com extensão ao forame transverso, subluxação, fratura cervical alta, sinais de isquemia posterior | Pesquisa de lesão de artéria vertebral ou carótida, que pode causar acidente vascular cerebral tardio. |
| Radiografias dinâmicas | Após a fase aguda, em paciente colaborativo e sem déficit | Avaliação de instabilidade ligamentar residual. Não devem ser feitas em paciente com dor intensa ou espasmo muscular. |
Liberação da coluna cervical
Sem dor à palpação, sem déficit, sem intoxicação e sem lesão distratora: pode ser liberado clinicamente pelas regras de decisão, com amplitude de movimento ativa e indolor.
Mantenha o colar e reavalie; a persistência da dor pode indicar ressonância para avaliar lesão ligamentar.
Tema controverso. Muitos protocolos aceitam a liberação com tomografia de alta qualidade normal; outros exigem ressonância. Siga o protocolo institucional.
Mantenha a restrição de movimento, com cuidados ativos de pele sob o colar e reavaliação diária da necessidade.
Metas da fase aguda
Todas miram a mesma coisa: preservar o tecido em risco. São simples, mensuráveis e devem constar da prescrição.
| Parâmetro | Alvo | Justificativa |
|---|---|---|
| Pressão arterial média | 85–90 mmHg, por até 7 dias | A medula lesada perde a autorregulação; a perfusão passa a depender diretamente da pressão sistêmica. |
| Pressão sistólica | Evitar PAS < 90 mmHg, mesmo por períodos breves | Episódios curtos de hipotensão se associam a pior desfecho neurológico. |
| Oxigenação | SpO₂ ≥ 94%, evitando hiperóxia sustentada | Hipoxemia amplia a lesão secundária. |
| Temperatura | Normotermia; tratar febre ativamente | Hipertermia aumenta a demanda metabólica do tecido em risco. |
| Glicemia | Evitar hipoglicemia e hiperglicemia sustentada | Ambas agravam a lesão neuronal. |
| Descompressão | Cirurgia precoce, idealmente em até 24 horas | Sugerida pelas diretrizes atuais, independentemente do nível da lesão, com evidência de qualidade limitada mas consistente. |
| Hipotensão permissiva | Contraindicada quando há lesão medular | O alvo pressórico mais alto se sobrepõe à estratégia de hipotensão permissiva do trauma hemorrágico. |
Cada card abre o detalhamento: indicação, técnica ou posologia, alvo e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional e a apresentação disponível no seu serviço.
Suporte hemodinâmico e ventilatório
Sustentar a pressão de perfusão medular e a ventilação é a intervenção com maior impacto na fase aguda — e a mais dependente da vigilância da equipe.
Terapias específicas e decisão cirúrgica
Poucas intervenções demonstraram benefício. As que existem dependem de tempo — e o corticoide segue sendo o tema mais controverso da área.
Cuidados de suporte desde o primeiro dia
Não são "detalhes de enfermaria": são o que define a morbidade dos meses seguintes. Comece todos ainda na sala de emergência ou na admissão.
Complicações por sistema
| Sistema | Complicação | Prevenção e manejo |
|---|---|---|
| Respiratório | Atelectasia, pneumonia, falência ventilatória tardia, tampão mucoso. | Fisioterapia respiratória, tosse assistida, aspiração, vigilância da capacidade vital e limiar baixo para suporte ventilatório. |
| Cardiovascular | Bradicardia sintomática (sobretudo nas primeiras semanas em lesões acima de T6), hipotensão ortostática, tromboembolismo. | Atropina disponível à beira do leito, pré-oxigenação antes de aspirar, mobilização progressiva, tromboprofilaxia precoce. |
| Tegumentar | Úlcera por pressão — pode se instalar em poucas horas sobre prancha rígida ou colar mal ajustado. | Retirada precoce da prancha, colchão adequado, mudança de decúbito programada e inspeção diária da pele sob o colar. |
| Urinário | Retenção urinária, infecção, litíase e disfunção vesical crônica. | Sondagem inicial e transição para cateterismo intermitente limpo; acompanhamento urológico. |
| Digestivo | Íleo paralítico, úlcera de estresse, constipação e impactação fecal. | Sonda gástrica na fase inicial, profilaxia de úlcera de estresse, programa intestinal e nutrição precoce. |
| Musculoesquelético | Espasticidade, contraturas, ossificação heterotópica e osteoporose por desuso. | Reabilitação precoce, posicionamento, alongamento e manejo farmacológico da espasticidade. |
| Neurológico e psíquico | Dor neuropática, siringomielia pós-traumática, depressão e ansiedade. | Analgesia multimodal, reavaliação de déficit novo ou progressivo com ressonância, suporte psicológico e social desde o início. |
| Autonômico | Disreflexia autonômica em lesões acima de T6, tipicamente após a fase de choque medular. | Reconhecimento imediato, sentar o paciente, remover o estímulo desencadeante e tratar a hipertensão. |
Cenários especiais
Cabeça proporcionalmente maior exige coxim sob o tronco para manter a neutralidade cervical. Maior frequência de lesão cervical alta e de SCIWORA; a radiação da tomografia pesa mais na decisão.
Lesão cervical por queda simples, canal estreito, síndrome medular central e uso de anticoagulantes. Limiar baixo para imagem, mesmo com mecanismo aparentemente banal.
Deslocamento uterino para a esquerda mantendo a restrição de movimento em bloco; avaliação obstétrica precoce e atenção ao risco tromboembólico ainda maior.
Espondilite anquilosante e DISH: imobilize na posição habitual do paciente, com limiar baixíssimo para tomografia de toda a coluna e vigilância de hematoma epidural.
Imobilização rotineira não é recomendada; a prioridade é o controle de hemorragia. A instabilidade mecânica costuma ser menor que no trauma fechado.
Mecanismo clássico de lesão cervical em jovens. Retirada da água em bloco, com estabilização desde o resgate.
Erros comuns
- Adiar a via aérea por receio de mobilizar a coluna, deixando o paciente hipoxêmico.
- Assumir choque neurogênico sem antes excluir hemorragia no politraumatizado.
- Aplicar hipotensão permissiva em paciente com lesão medular.
- Manter o paciente sobre prancha rígida por horas.
- Não fazer toque retal nem avaliar a sensibilidade perianal e a contração anal voluntária.
- Classificar a lesão como completa durante a fase de choque medular.
- Registrar apenas "tetraparesia" sem documentar níveis, força por miótomo e horário.
- Liberar a coluna apenas pela tomografia normal em paciente com déficit neurológico.
- Encontrar uma fratura e não examinar radiologicamente o restante da coluna.
- Usar succinilcolina após as primeiras 48 horas da lesão.
- Esquecer a tromboprofilaxia — o risco de tromboembolismo é dos mais altos da medicina.
- Não iniciar reabilitação, suporte psicológico e planejamento social desde a admissão.
Resumo do fluxo
- Restrição de movimento da coluna desde o primeiro contato, em paralelo ao xABCDE.
- Via aérea com estabilização manual em linha; oxigenar sem hesitar.
- Hipotensão é hemorragia até prova em contrário; só depois considere choque neurogênico.
- Documente o exame ASIA completo com horário, incluindo sensibilidade perianal e contração anal voluntária.
- Tomografia de coluna; ressonância se houver déficit, tomografia normal com sintomas ou suspeita ligamentar.
- Estabeleça as metas: PAM 85–90 mmHg, SpO₂ ≥ 94%, normotermia e controle glicêmico.
- Acione a neurocirurgia ou a ortopedia de coluna para descompressão precoce, idealmente em até 24 horas.
- Inicie desde o primeiro dia tromboprofilaxia, cuidados de pele, manejo vesical e intestinal e reabilitação.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
- American College of Surgeons. Advanced Trauma Life Support (ATLS) — Student Course Manual, 11ª edição.
- Fehlings MG, Tetreault LA, Wilson JR, et al. A clinical practice guideline for the management of acute spinal cord injury: introduction, rationale, and scope. Global Spine J. 2017;7(3 Suppl):84S-94S.
- Fehlings MG, Tetreault LA, Aarabi B, et al. A clinical practice guideline for the management of patients with acute spinal cord injury: recommendations on the type and timing of anatomical decompression. Global Spine J. 2017;7(3 Suppl):195S-202S.
- Fehlings MG, Wilson JR, Harrop JS, et al. Efficacy and safety of methylprednisolone sodium succinate in acute spinal cord injury: a systematic review. Global Spine J. 2017;7(3 Suppl):116S-137S.
- Fehlings MG, Vaccaro A, Wilson JR, et al. Early versus delayed decompression for traumatic cervical spinal cord injury (STASCIS). PLoS One. 2012;7(2):e32037.
- Badhiwala JH, Wilson JR, Witiw CD, et al. The influence of timing of surgical decompression for acute spinal cord injury: a pooled analysis of individual patient data. Lancet Neurol. 2021;20(2):117-126.
- American Spinal Injury Association. International Standards for Neurological Classification of Spinal Cord Injury (ISNCSCI), revisão vigente.
- Hoffman JR, Mower WR, Wolfson AB, et al. Validity of a set of clinical criteria to rule out injury to the cervical spine in patients with blunt trauma (NEXUS). N Engl J Med. 2000;343(2):94-99.
- Stiell IG, Wells GA, Vandemheen KL, et al. The Canadian C-Spine Rule for radiography in alert and stable trauma patients. JAMA. 2001;286(15):1841-1848.
- Walters BC, Hadley MN, Hurlbert RJ, et al. Guidelines for the management of acute cervical spine and spinal cord injuries: 2013 update. Neurosurgery. 2013;60(CN Suppl 1):82-91.
- Consortium for Spinal Cord Medicine. Prevention of venous thromboembolism in individuals with spinal cord injury, versão vigente.
- Sociedade Brasileira de Neurocirurgia e Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia. Diretrizes e protocolos vigentes sobre trauma raquimedular e liberação da coluna cervical.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, escores e condutas cirúrgicas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.
Números rápidos
85–90 mmHg por até 7 dias; evitar PAS < 90 mmHg.
Nervo frênico em C3–C5: lesão acima de C5 ameaça a ventilação.
Lesões acima de T6: hipotensão com bradicardia e extremidades quentes.
Descompressão precoce, idealmente em até 24 horas.
Artigos relacionados
Em provas / residência
A banca cobra: diferenciar choque neurogênico de choque medular, reconhecer a síndrome medular central no idoso e lembrar que a metilprednisolona não é recomendada de rotina.
Decore: Brown-Séquard tem o melhor prognóstico e a síndrome medular anterior o pior; PAM alvo de 85–90 mmHg; preservação sacral define lesão incompleta.
