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Trauma pélvico

A fratura de anel pélvico instável é uma das poucas lesões capazes de matar por hemorragia que não se vê. O sangramento é predominantemente venoso e ósseo, ocorre em um espaço retroperitoneal que comporta litros, e o tratamento inicial não é cirúrgico: é fechar o anel, transfundir sangue e escolher rápido entre packing, angioembolização e fixação.

Cinta pélvica precoce Sangue, não cristaloide Não "testar" a pelve Decisão em minutos
Tempo de leitura: 14 min
Atualizado em: 12/08/2026

Suspeitar

  • Trauma de alta energia ou queda em idoso
  • Dor pélvica, deformidade ou discrepância de membros
  • Sangue no meato, hematoma perineal, equimose escrotal
  • Choque sem fonte externa aparente

Fechar o anel

  • Cinta pélvica ao nível dos grandes trocânteres
  • Aplicar já na suspeita, antes da imagem
  • Nunca palpar ou mobilizar repetidamente a pelve
  • Aproximar e amarrar os joelhos

Ressuscitar com sangue

  • Protocolo de transfusão maciça em proporção equilibrada
  • Ácido tranexâmico em até 3 horas
  • Hipotensão permissiva até o controle do foco
  • Prevenir a tríade letal

Decidir a rota

  • FAST positivo com instabilidade: laparotomia primeiro
  • FAST negativo com instabilidade: packing ou angioembolização
  • REBOA em zona III como ponte
  • Estável: tomografia com contraste

Por que a pelve mata

O anel pélvico é uma estrutura fechada formada pelos dois ossos ilíacos e pelo sacro, unidos por ligamentos muito resistentes — sobretudo o complexo sacroilíaco posterior, que é o verdadeiro sustentáculo da estabilidade. Romper esse anel exige energia elevada, e essa mesma energia lesa o que passa por dentro dele: plexo venoso pré-sacral, artérias ilíacas e seus ramos, bexiga, uretra, reto, vagina e raízes nervosas.

A hemorragia da fratura pélvica é predominantemente venosa e das superfícies ósseas fraturadas (em torno de 80–90% dos casos); apenas a minoria é arterial. Isso explica por que a primeira medida eficaz é mecânica — fechar o anel e reduzir o volume retroperitoneal — e não a angiografia.

O retroperitônio pélvico é um espaço complacente: pode acomodar vários litros de sangue sem qualquer distensão abdominal visível. A ausência de abdome distendido não afasta hemorragia pélvica maciça.

Anatomia que importa na sala

A estabilidade depende dos ligamentos posteriores: sacroilíacos posteriores, sacroespinhoso e sacrotuberoso. Lesões anteriores isoladas (sínfise, ramos púbicos) costumam ser hemodinamicamente menos graves; a disrupção posterior é a que sangra e a que instabiliza.

Do ponto de vista vascular, os ramos da ilíaca interna são os principais culpados no sangramento arterial: glútea superior (mais frequente nas lesões posteriores), pudenda interna e obturatória (mais associadas às lesões anteriores).

O que está em risco dentro do anel

  • Plexo venoso pré-sacral — fonte principal do sangramento; não é embolizável.
  • Ramos da artéria ilíaca interna — alvo da angioembolização.
  • Bexiga e uretra — lesadas em fraturas de ramos e disjunção de sínfise.
  • Reto, ânus e vagina — comunicação com o foco fraturário caracteriza fratura exposta.
  • Plexo lombossacral — déficit neurológico em lesões do sacro, sobretudo zona III de Denis.
A regra que organiza a conduta

Instabilidade mecânica e instabilidade hemodinâmica são coisas diferentes. Existe fratura muito instável em paciente estável — e paciente in extremis com fratura aparentemente simples. É a hemodinâmica que dita o ritmo do atendimento.

Epidemiologia e desfechos

As fraturas de pelve representam uma minoria das fraturas em geral, mas concentram mortalidade desproporcional. Nos padrões instáveis com choque, a letalidade descrita chega a 30–40%, e em séries com open book ou lesões por cisalhamento vertical pode ser ainda maior. Há uma distribuição bimodal: alta energia em jovens (acidentes de trânsito, atropelamento, queda de altura, esmagamento) e baixa energia em idosos osteoporóticos, nos quais uma queda da própria altura já produz fratura.

Mortalidade

Até 30–40% nas fraturas instáveis com instabilidade hemodinâmica.

Mecanismo

Alta energia em jovens; queda simples em idosos osteoporóticos.

Fonte do sangramento

Venosa e óssea em cerca de 80–90% dos casos.

Lesões associadas

Frequentes: abdome, tórax, crânio, urogenital e coluna.

Tempo

A demora na estabilização mecânica e na transfusão é o principal fator modificável.

As três perguntas da primeira hora

A pelve está fechada?

Diante de qualquer suspeita, aplique a cinta pélvica antes de qualquer exame de imagem. É rápido, barato, reversível e reduz o volume retroperitoneal disponível para o sangramento.

A pelve é a fonte do choque?

O politraumatizado sangra em cinco lugares: tórax, abdome, retroperitônio/pelve, ossos longos e "no chão" (externo). O FAST, a radiografia de tórax e a de pelve respondem em minutos qual compartimento priorizar.

Qual é a rota de controle?

Laparotomia, packing pré-peritoneal, angioembolização, fixação externa ou combinação — a decisão depende da hemodinâmica, do FAST e, sobretudo, dos recursos disponíveis naquele hospital, naquele momento.

Em serviço sem angiografia disponível 24 horas, a decisão correta muitas vezes é estabilizar, fazer packing e transferir — e não esperar por um recurso que não existe.

Young-Burgess — classificação pelo mecanismo

É a mais usada na emergência porque parte do vetor da energia e prediz o padrão de sangramento e as lesões associadas.

Padrão Mecanismo Achado radiológico Comportamento clínico
Compressão anteroposterior (APC)
"livro aberto"
Impacto frontal, atropelamento, queda com impacto anterior. Diástase da sínfise púbica. APC I < 2,5 cm; APC II com abertura dos sacroilíacos anteriores; APC III com disrupção completa posterior. O que mais sangra: aumenta o volume pélvico. Grande necessidade transfusional e alto risco de lesão vesical e uretral.
Compressão lateral (LC) Impacto lateral — colisão em T, atropelamento lateral. Fraturas de ramos com impactação sacral ipsilateral (LC I), fratura de asa ilíaca em crescente (LC II) ou padrão em "alça de balde" com componente contralateral (LC III). Mais frequente. Reduz o volume pélvico, mas as lesões abdominais e cranianas associadas são comuns e podem dominar o quadro.
Cisalhamento vertical (VS) Queda de altura com impacto em membro inferior estendido. Deslocamento cranial de uma hemipelve, com disrupção completa das estruturas posteriores. Altamente instável, com grande sangramento e lesão neurológica frequente. Discrepância de comprimento dos membros ao exame.
Mecanismo combinado (CM) Vetores múltiplos. Combinação dos padrões acima. Trate pelo componente mais instável.
Regra de bolso: APC e VS aumentam o volume pélvico e sangram mais — são os padrões que mais se beneficiam da cinta. LC já reduz o volume, e a cinta pode, em teoria, aumentar o desvio; ainda assim, na dúvida sobre o padrão, aplicar a cinta é a conduta mais segura.

Tile e AO/OTA — classificação pela estabilidade

Tipo Definição Implicação
Tile AAnel pélvico estável; estruturas posteriores íntegras (fraturas de ramos isoladas, avulsões, fratura de asa ilíaca).Tratamento habitualmente conservador, com carga conforme a dor. Atenção ao idoso, que pode sangrar mesmo em padrão "estável".
Tile BInstabilidade rotacional com estabilidade vertical; complexo posterior parcialmente íntegro (livro aberto, compressão lateral).Cinta pélvica e, frequentemente, fixação. Sangramento significativo possível.
Tile CInstabilidade rotacional e vertical; disrupção completa do complexo posterior.Máxima instabilidade e máximo risco hemorrágico. Fixação e controle de dano.
Classificação de Denis para fraturas do sacro

Zona I — lateral ao forame (risco neurológico baixo, cerca de 6%). Zona II — transforaminal (risco intermediário, em torno de 28%). Zona III — medial ao forame, atingindo o canal (maior risco, cerca de 57%, com disfunção vesical, intestinal e sexual). Documente sempre o exame neurológico e o tônus esfincteriano.

Classificação da WSES — a que orienta a conduta

Combina a estabilidade mecânica com a hemodinâmica, e por isso é a mais útil à beira do leito.

Grau Gravidade Definição Conduta orientadora
ILeveFratura estável (Tile A / APC I / LC I), paciente estável.Tomografia e manejo conservador na maioria dos casos.
IIModeradaFratura instável (Tile B), paciente hemodinamicamente estável.Tomografia com contraste; angioembolização se houver extravasamento; fixação conforme a ortopedia.
IIIModeradaFratura muito instável (Tile C), paciente hemodinamicamente estável.Mesma lógica do grau II, com maior limiar de vigilância e fixação precoce.
IVGraveQualquer padrão de fratura em paciente hemodinamicamente instável.Estabilização mecânica imediata, transfusão maciça e controle de dano: packing, angioembolização, REBOA ou laparotomia conforme o FAST e os recursos.
A mensagem central da WSES: é a hemodinâmica, e não o padrão radiológico, que define a urgência. Um paciente instável com fratura "simples" é grau IV e recebe tratamento de grau IV.

Os primeiros dez minutos

A pelve entra no C do xABCDE: é uma das fontes de hemorragia exsanguinante. Tudo abaixo acontece em paralelo, com equipe dividida em funções.

  1. Controle de hemorragia externa exsanguinante e via aérea com proteção da coluna cervical.
  2. Ventilação: descarte pneumotórax hipertensivo e hemotórax maciço, que competem com a pelve pela prioridade.
  3. C — na suspeita de fratura pélvica, APLIQUE A CINTA PÉLVICA IMEDIATAMENTE, antes da radiografia.
  4. Dois acessos venosos calibrosos (ou intraósseo) e coleta: tipagem e prova cruzada, gasometria com lactato, hemograma, coagulograma e cálcio ionizado.
  5. Acione o protocolo de transfusão maciça diante de instabilidade e mecanismo compatível — não espere o hematócrito.
  6. Ácido tranexâmico na primeira hora, dentro da janela de 3 horas do trauma.
  7. FAST, radiografia de tórax e radiografia de pelve em anteroposterior na própria sala.
  8. Exame dirigido: períneo, meato uretral, escroto, toque retal e exame vaginal quando indicado, além do exame neurológico dos membros inferiores.
  9. Decida a rota de controle de hemorragia e acione cirurgia, ortopedia, hemodinâmica e banco de sangue simultaneamente.
Não faça a manobra de "abrir e fechar" a pelve. A compressão-distração manual repetida tem baixa acurácia diagnóstica, desloca coágulos já formados e pode reiniciar o sangramento. No máximo, uma única avaliação suave por examinador experiente — e nunca em paciente instável.

Exame físico dirigido

Inspeção

Assimetria das cristas ilíacas, rotação externa ou interna de membro, discrepância de comprimento, equimose em flanco, hematoma perineal e escrotal (sinal de Destot), ferimentos abertos.

Meato uretral

Sangue no meato é o achado mais clássico de lesão uretral. Presença exige uretrografia retrógrada antes de qualquer tentativa de sondagem vesical.

Toque retal

Procure sangue (lesão retal e fratura exposta), fragmentos ósseos palpáveis, tônus esfincteriano reduzido (lesão neurológica) e próstata deslocada.

Exame vaginal

Obrigatório na mulher com fratura pélvica: laceração vaginal com foco fraturário caracteriza fratura exposta e muda completamente o prognóstico infeccioso.

Neurológico

Força, sensibilidade e reflexos dos membros inferiores, sensibilidade perineal em sela e tônus anal — documente antes de sedar.

Vascular

Pulsos femorais, poplíteos e distais; assimetria sugere lesão arterial associada.

O paciente com rebaixamento, intoxicação ou lesão medular não refere dor pélvica. Nesses casos, o mecanismo do trauma vale mais que o exame — trate como fratura até prova em contrário.

Calculadora — índice de choque e classe hemorrágica

Índice de choque Classes do ATLS Volemia estimada

A volemia do adulto é estimada em torno de 70 mL/kg (7% do peso corporal). As classes do ATLS orientam a expectativa de perda, mas devem ser interpretadas com cautela: idosos, betabloqueados, atletas, gestantes e crianças não seguem o padrão clássico.

Índice de choque
1,43
Volemia estimada
4900 mL
Classe provável
Perda estimada nesta classe
Ferramenta de apoio. Índice de choque acima de 0,9–1,0 associa-se a necessidade de transfusão maciça no trauma. A estimativa por classes é imprecisa à beira do leito — a resposta à transfusão e a tendência do lactato informam mais que a tabela.

O que pedir, e quando

A escolha da imagem é ditada pela hemodinâmica: o paciente instável não vai à tomografia. Ele recebe imagem de sala e vai para o controle de hemorragia.

Exame Quando O que responde e o que não responde
Radiografia de pelve em AP Na sala, no paciente instável ou com mecanismo compatível Identifica a maioria das fraturas com repercussão hemodinâmica e o padrão geral. Pode subestimar lesões posteriores e não avalia sangramento ativo. Cinta já aplicada pode "normalizar" a diástase — anote isso no laudo.
FAST Simultâneo à avaliação primária Responde se há sangue intraperitoneal. É o exame que divide a rota do paciente instável. Não avalia o retroperitônio e não exclui hemorragia pélvica — um FAST negativo com instabilidade aponta justamente para a pelve.
Radiografia de tórax Na sala, junto com a de pelve Exclui as outras fontes torácicas de choque antes de atribuir tudo à pelve.
Tomografia com contraste Somente no paciente estável ou que estabilizou Padrão-ouro: define o padrão fraturário, identifica blush arterial (extravasamento de contraste), hematoma retroperitoneal, lesões associadas e planeja a fixação. A fase excretora avalia bexiga e ureteres.
Uretrografia retrógrada Antes de sondar, diante de suspeita de lesão uretral Define a integridade da uretra. Nunca sonde às cegas quando há sangue no meato.
Cistografia (por TC ou convencional) Hematúria macroscópica com fratura pélvica Diferencia lesão vesical intra de extraperitoneal — distinção que muda a conduta entre cirurgia e sondagem.
Incidências inlet e outlet Planejamento ortopédico, com paciente estável Avaliam deslocamento anteroposterior (inlet) e cranial (outlet) da hemipelve.
A tomografia é um péssimo lugar para um paciente instável parar de responder. Se ele precisa de transfusão contínua para manter pressão, o destino é a sala de cirurgia ou a hemodinâmica — não o tomógrafo.

Achados que mudam a conduta

Blush arterial na TC

Extravasamento de contraste indica sangramento arterial ativo — é a indicação mais direta de angioembolização no paciente estável ou estabilizado.

Hematoma retroperitoneal volumoso

Grandes hematomas pélvicos, mesmo sem blush, se associam a necessidade transfusional e justificam vigilância estreita.

Diástase da sínfise > 2,5 cm

Sugere disrupção dos ligamentos sacroespinhosos e do assoalho pélvico — padrão de "livro aberto" com maior sangramento.

Deslocamento vertical da hemipelve

Padrão de cisalhamento: máxima instabilidade, alto risco neurológico e hemorrágico.

Fratura de sacro e do processo transverso de L5

Marcadores de disrupção posterior e de instabilidade mesmo quando a radiografia parece pouco alterada.

Ar em partes moles pélvicas

Levanta a suspeita de comunicação com reto ou vagina — fratura exposta oculta.

Algoritmo de decisão pelo FAST

Instável + FAST positivo

Existe sangramento intraperitoneal significativo. A prioridade é a laparotomia de controle de dano. A pelve é estabilizada com cinta e o packing pré-peritoneal pode ser feito no mesmo tempo cirúrgico, por incisão separada, sem abrir o hematoma retroperitoneal.

Instável + FAST negativo

A pelve é a fonte mais provável. Mantenha a cinta e siga para packing pré-peritoneal com fixação externa e/ou angioembolização, conforme os recursos. REBOA em zona III pode servir de ponte enquanto a equipe se organiza.

FAST negativo não exclui lesão abdominal, sobretudo de vísceras ocas e de retroperitônio. Se o paciente não melhora após o controle pélvico, reavalie o abdome.

Princípios do controle de dano

Três frentes simultâneas: estabilização mecânica do anel, ressuscitação hemostática com hemocomponentes e controle da fonte. Nenhuma substitui as outras.

  1. Cinta pélvica imediata, ao nível dos grandes trocânteres, com joelhos aproximados e amarrados.
  2. Protocolo de transfusão maciça em proporção equilibrada (1:1:1) — o cristaloide em grande volume é dano, não tratamento.
  3. Ácido tranexâmico dentro da janela de 3 horas do trauma.
  4. Hipotensão permissiva até o controle do foco: PAS em torno de 80–90 mmHg, salvo trauma cranioencefálico ou raquimedular associado.
  5. Combata a tríade letal: aqueça o paciente e os hemocomponentes, corrija a acidose e reponha cálcio ionizado.
  6. Escolha a rota de controle definitivo conforme o FAST, a resposta à transfusão e os recursos locais.
  7. Fixação externa ou C-clamp quando indicado, em conjunto com o packing.
  8. Reavalie continuamente: sem resposta após o controle pélvico, procure outra fonte.

Calculadora — escore ABC para transfusão maciça

4 critérios objetivos Aplicável na sala de trauma

O escore Assessment of Blood Consumption usa apenas dados disponíveis nos primeiros minutos, sem depender de laboratório. Pontuação ≥ 2 prediz necessidade de transfusão maciça e justifica acionar o protocolo imediatamente.

Pontuação total
0
Transfusão maciça pouco provável
Mantenha vigilância e reavalie a cada resposta à ressuscitação
Escore de apoio: pontuação baixa não impede acionar o protocolo diante de julgamento clínico contrário. Sangramento pélvico com FAST negativo pode cursar com escore de apenas 2 pontos e ainda assim exigir transfusão maciça.
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento: indicação, técnica ou posologia, alvo e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional e a apresentação disponível no seu serviço.

Estabilização mecânica

Primeira medida e a mais custo-efetiva. Reduz o volume pélvico, aproxima as superfícies fraturadas e favorece o tamponamento do hematoma retroperitoneal.

Ressuscitação hemostática

O paciente que sangra precisa de sangue. Cristaloide em grande volume dilui fatores, desloca coágulos e agrava a coagulopatia.

Controle definitivo da fonte

Quatro ferramentas complementares, não excludentes. A escolha depende do FAST, da resposta à transfusão e — decisivamente — do que existe disponível no seu hospital agora.

Packing ou angioembolização?

Critério Packing pré-peritoneal Angioembolização
Fonte controladaVenosa e óssea — a maioria dos casosArterial — a minoria, mas a de sangramento mais rápido
Tempo até o controleMinutos; feito na própria sala de cirurgiaDepende da equipe e da sala de hemodinâmica estarem prontas
DisponibilidadeQualquer hospital com centro cirúrgico e cirurgião treinadoRestrita a serviços com hemodinâmica em regime integral
Paciente in extremisPreferível — não exige transporte para outro setorArriscado transportar paciente que não sustenta pressão
CombinaçãoSão complementares: quem persiste sangrando após o packing segue para angioembolização, e quem sangra após a angiografia pode precisar de packing.
Em serviços sem angiografia disponível, o packing associado à estabilização mecânica é a estratégia de escolha — e frequentemente o que permite ao paciente sobreviver até a transferência.

A pelve nunca vem sozinha

Fratura de pelve é marcador de energia elevada. Procure ativamente as lesões que a acompanham — várias delas mudam a conduta imediata e o prognóstico funcional.

Lesão Como reconhecer Conduta
Lesão uretral Sangue no meato, hematoma perineal, retenção urinária, próstata deslocada. Mais frequente no homem, associada a fratura de ramos e disjunção da sínfise. Não sonde às cegas. Uretrografia retrógrada; se confirmada, cistostomia suprapúbica ou passagem de sonda por urologista experiente.
Lesão vesical Hematúria macroscópica com fratura pélvica. A extraperitoneal é a mais comum e se associa a fratura de ramos. Cistografia. Extraperitoneal: habitualmente sondagem por 10–14 dias. Intraperitoneal: reparo cirúrgico.
Lesão retal ou anal Sangue ao toque retal, fragmento ósseo palpável, ar em partes moles na tomografia. Caracteriza fratura exposta. Antibiótico, desbridamento, reparo e frequentemente colostomia derivativa.
Laceração vaginal Exame vaginal com sangramento ou laceração comunicando com o foco fraturário. Também caracteriza fratura exposta: desbridamento, reparo e antibioticoterapia.
Lesão neurológica Déficit em membros inferiores, hipoestesia em sela e queda do tônus esfincteriano — sobretudo nas fraturas do sacro (Denis II e III). Documente o exame antes de sedar; avaliação neurocirúrgica e ortopédica; considerar descompressão em déficit progressivo.
Lesão vascular de membro Assimetria de pulsos, palidez, dor desproporcional, hematoma expansivo em raiz de coxa. Avaliação vascular imediata; angiotomografia se estável.
Lesão intra-abdominal FAST positivo, dor abdominal, irritação peritoneal, hemodinâmica que não responde ao controle pélvico. Laparotomia de controle de dano.
Morel-Lavallée Descolamento cutâneo-fascial com coleção flutuante em flanco, quadril ou coxa. Alto risco de infecção: identifique cedo, evite incisões cirúrgicas sobre a área e discuta drenagem com a ortopedia.

Fratura pélvica exposta

Definida pela comunicação do foco fraturário com pele, reto, ânus ou vagina. É a apresentação de pior prognóstico, por somar hemorragia e contaminação fecal ou urinária.

Como detectar

Ferida perineal, sangue ao toque retal, laceração vaginal, ar em partes moles na tomografia. Toque retal e exame vaginal são obrigatórios.

Antibiótico

Amplo espectro e precoce, cobrindo flora entérica; associar profilaxia antitetânica conforme o histórico vacinal.

Desbridamento

Precoce e repetido em centro cirúrgico, com lavagem abundante e reavaliações programadas.

Derivação

Colostomia derivativa é frequentemente indicada em lesões retais e perineais extensas, para reduzir a contaminação do foco.

Uma ferida perineal aparentemente pequena pode ser a única manifestação externa de uma fratura exposta com contaminação maciça. Nunca subestime lesões perineais no politraumatizado.

Populações que mudam a conduta

Cenário Particularidade O que fazer diferente
Idoso Queda da própria altura já fratura pelve osteoporótica. Sangram mais do que o padrão radiológico sugere, frequentemente por fonte arterial, e muitos usam anticoagulante ou antiagregante. Limiar baixo para tomografia com contraste e para angioembolização; reversão de anticoagulação conforme o agente; avalie fragilidade e reabilitação precoce.
Criança Anel mais elástico: pode haver lesão ligamentar significativa sem fratura completa. A hipotensão é sinal tardio e indica perda volêmica avançada. Cinta improvisada com lençol adaptado ao tamanho; transfusão de 10–20 mL/kg de concentrado de hemácias; atenção às placas de crescimento e à avulsão apofisária.
Gestante Duas vidas e uma fisiologia que mascara o choque: a gestante pode perder cerca de 30–35% da volemia antes de ficar hipotensa, enquanto o feto já sofre. Deslocamento uterino para a esquerda, oxigênio, avaliação obstétrica imediata, cardiotocografia, profilaxia com imunoglobulina anti-D quando indicada. Não postergue a imagem necessária por causa da radiação.
Anticoagulado Sangramento desproporcional ao padrão fraturário e coagulopatia precoce. Reversão dirigida ao agente (complexo protrombínico, vitamina K, antídotos específicos) e discussão com hematologia.
Trauma cranioencefálico associado A hipotensão permissiva é contraindicada: a perfusão cerebral depende da pressão. Alvos pressóricos mais altos (evitar PAS < 110 mmHg), controle rápido do foco hemorrágico e vigilância neurológica.
Serviço sem hemodinâmica A angioembolização não é opção real no tempo necessário. Cinta, transfusão, packing pré-peritoneal com fixação externa e transferência precoce, com contato prévio ao serviço de referência.
Fase pós-controle Risco elevado de tromboembolismo, infecção, síndrome compartimental abdominal e disfunção sexual e esfincteriana. Profilaxia de tromboembolismo assim que o sangramento estiver controlado, reabilitação precoce, avaliação urológica e acompanhamento funcional.

Erros comuns

  • Fazer a manobra de compressão-distração da pelve repetidamente — desloca coágulos e reinicia o sangramento.
  • Posicionar a cinta sobre as cristas ilíacas, e não sobre os grandes trocânteres.
  • Esperar a radiografia para aplicar a cinta em paciente instável com mecanismo compatível.
  • Levar paciente instável para a tomografia.
  • Ressuscitar com grandes volumes de cristaloide em vez de hemocomponentes.
  • Sondar às cegas o paciente com sangue no meato uretral.
  • Não fazer toque retal e exame vaginal, deixando passar uma fratura exposta.
  • Esquecer o cálcio ionizado e o aquecimento no politransfundido.
  • Atribuir todo o choque à pelve sem reavaliar tórax e abdome quando não há resposta.
  • Manter a cinta por tempo prolongado sem inspeção da pele — risco de necrose por pressão.
  • Esquecer o ácido tranexâmico ou administrá-lo fora da janela de 3 horas.
  • Deixar de acionar precocemente cirurgia, ortopedia, hemodinâmica e banco de sangue ao mesmo tempo.

Resumo do fluxo

  1. Suspeite pelo mecanismo, mesmo sem dor referida.
  2. Aplique a cinta pélvica ao nível dos grandes trocânteres, antes da imagem.
  3. Acione o protocolo de transfusão maciça e administre ácido tranexâmico.
  4. Faça FAST, radiografia de tórax e radiografia de pelve na sala.
  5. Instável com FAST positivo: laparotomia. Instável com FAST negativo: packing e/ou angioembolização, com REBOA como ponte.
  6. Estável: tomografia com contraste para definir o padrão e procurar blush.
  7. Procure ativamente as lesões associadas: uretra, bexiga, reto, vagina e neurológica.
  8. Combata a tríade letal e planeje a fixação definitiva com a ortopedia.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

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Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, escores e condutas cirúrgicas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.

Números rápidos

Cinta pélvica

Ao nível dos grandes trocânteres, com joelhos aproximados e amarrados.

Ácido tranexâmico

1 g IV em 10 min + 1 g em 8 h, dentro da janela de 3 horas.

Transfusão maciça

Proporção 1:1:1 de hemácias, plasma e plaquetas.

Hipotensão permissiva

PAS 80–90 mmHg até o controle do foco — exceto TCE e lesão medular.

Em provas / residência

A banca cobra três coisas: cinta nos grandes trocânteres antes da radiografia, sangue no meato exigindo uretrografia antes da sonda, e o algoritmo do FAST no paciente instável.

Decore: o sangramento pélvico é venoso e ósseo na maioria dos casos; a angioembolização trata a minoria arterial; Young-Burgess classifica pelo mecanismo e Tile pela estabilidade.

Mais informações nas abas do artigo.

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