Taquicardia Supraventricular
É a arritmia sustentada que mais assusta o paciente e menos costuma matá-lo — desde que duas armadilhas sejam evitadas: tratar como supraventricular uma taquicardia ventricular, e dar bloqueador do nó atrioventricular numa fibrilação atrial pré-excitada. Duas perguntas resolvem a maior parte dos casos na beira do leito: o QRS é estreito, e o ritmo é regular?
Classificar o ritmo
- Duas perguntas: QRS estreito ou largo, regular ou irregular
- Estreito e regular é o cenário clássico da TSV
- QRS largo é taquicardia ventricular até prova em contrário
- Irregular e largo levanta FA pré-excitada
Avaliar a estabilidade
- Hipotensão, alteração do nível de consciência, dor isquêmica
- Congestão pulmonar aguda ou sinais de choque
- Instável significa cardioversão sincronizada imediata
- Estável permite tentar manobra vagal e fármacos
Reverter
- Manobra de Valsalva modificada é a primeira linha
- Adenosina 6 mg em bolus rápido, depois 12 mg
- Verapamil, diltiazem ou betabloqueador se falhar
- Registre o traçado durante a manobra e a droga
Definir o seguimento
- Ablação por cateter é primeira linha nas reentradas
- Sucesso acima de 95% na maioria dos substratos
- Pré-excitação no ECG basal exige avaliação especializada
- Ensine a manobra vagal ao paciente antes da alta
O que é taquicardia supraventricular
No sentido estrito, taquicardia supraventricular é toda taquiarritmia com frequência acima de 100 batimentos por minuto cujo circuito ou foco depende de estruturas situadas acima da bifurcação do feixe de His — átrios, nó atrioventricular ou via acessória.
Na prática da emergência, porém, o termo é usado num sentido mais restrito: a taquicardia supraventricular paroxística, de QRS estreito e regular, que engloba a taquicardia por reentrada nodal, a taquicardia por reentrada atrioventricular e a taquicardia atrial focal. Fibrilação atrial e flutter atrial também são supraventriculares, mas têm manejo próprio e são habitualmente tratados à parte.
Como se organiza a classificação
A forma mais útil de organizar as taquicardias na beira do leito é por duas perguntas objetivas, respondidas em segundos no monitor: o QRS é estreito ou largo, e o ritmo é regular ou irregular.
| Padrão | Hipóteses | Conduta inicial |
|---|---|---|
| Estreito e regular (QRS abaixo de 120 ms) |
Taquicardia sinusal, reentrada nodal, reentrada atrioventricular ortodrômica, taquicardia atrial focal, flutter atrial com condução fixa, taquicardia juncional. | Manobra vagal e, se necessário, adenosina — que é ao mesmo tempo terapêutica e diagnóstica. |
| Estreito e irregular | Fibrilação atrial, flutter atrial com condução variável, taquicardia atrial multifocal. | Controle de frequência, avaliação de anticoagulação e tratamento da causa de base. |
| Largo e regular (QRS de 120 ms ou mais) |
Taquicardia ventricular até prova em contrário. Diferenciais: TSV com aberrância, TSV com bloqueio de ramo prévio, reentrada atrioventricular antidrômica, taquicardia por marca-passo. | Se instável, cardioversão sincronizada. Se estável, tratar como ventricular salvo diagnóstico seguro de supraventricular. |
| Largo e irregular | Fibrilação atrial pré-excitada, fibrilação atrial com bloqueio de ramo ou com aberrância, taquicardia ventricular polimórfica. | Cenário de maior risco: não usar bloqueadores do nó atrioventricular. Cardioversão ou antiarrítmico específico. |
Os mecanismos
Três mecanismos explicam praticamente todas as taquiarritmias supraventriculares, e reconhecê-los ajuda a prever a resposta ao tratamento.
- Reentrada — o mais comum. Exige um circuito com duas vias de condução e velocidades e períodos refratários diferentes. É o mecanismo da reentrada nodal, da reentrada atrioventricular e do flutter. Começa e termina de forma súbita, e responde bem a manobras vagais e à adenosina.
- Automatismo aumentado — um foco dispara mais rápido que o nó sinusal. É o mecanismo de boa parte das taquicardias atriais focais e da taquicardia juncional. Tem início e término graduais, com aquecimento e desaceleração, e frequentemente não reverte com adenosina.
- Atividade deflagrada — pós-despolarizações, associadas a intoxicação digitálica, distúrbios eletrolíticos e catecolaminas.
Por que o paciente sente tanto
O quadro clínico é desproporcional à gravidade, o que gera consultas repetidas e ansiedade importante.
- Palpitações de início e término súbitos, descritas como um "interruptor" que liga e desliga.
- Sinal do sapo — pulsação visível no pescoço, causada pela contração atrial contra a valva tricúspide fechada. É bastante sugestivo de reentrada nodal.
- Tontura, dispneia, desconforto torácico e ansiedade intensa.
- Poliúria após a crise, pela liberação de peptídeo natriurético atrial.
- Síncope é incomum e, quando presente, exige investigação mais cuidadosa.
"A palpitação começa e termina de repente, como um interruptor, ou vai acelerando aos poucos?" Início súbito aponta para reentrada; início gradual, para taquicardia sinusal ou automática.
Perfil epidemiológico
Reentrada nodal responde por cerca de 60% das TSV paroxísticas.
A reentrada nodal é mais frequente em mulheres, tipicamente na terceira e quarta décadas.
A reentrada atrioventricular predomina em pacientes mais jovens.
A maioria dos pacientes não tem cardiopatia estrutural.
Sucesso acima de 95% na reentrada nodal e na maioria das vias acessórias.
As quatro perguntas da beira do leito
Hipotensão, alteração aguda do nível de consciência, dor torácica isquêmica, congestão pulmonar aguda ou sinais de choque atribuíveis à taquicardia indicam cardioversão sincronizada imediata.
Estreito permite a rota clássica da TSV. Largo obriga a tratar como taquicardia ventricular até prova em contrário — o erro inverso mata.
Irregular afasta reentrada nodal e atrioventricular. Irregular e largo levanta imediatamente a hipótese de fibrilação atrial pré-excitada.
Febre, anemia, hipovolemia, dor, hipertireoidismo, embolia pulmonar, sepse, álcool, cafeína, estimulantes e drogas ilícitas. Em taquicardia sinusal, tratar a causa é o tratamento.
Os principais substratos
| Tipo | Características | Pistas no eletrocardiograma |
|---|---|---|
| Reentrada nodal (TRN) |
Circuito dentro ou ao redor do nó atrioventricular, com via lenta e via rápida. Cerca de 60% dos casos; mais comum em mulheres. Frequência habitual de 140 a 250 bpm. | Onda P retrógrada escondida no QRS ou logo após ele: pseudo-onda r' em V1 e pseudo-onda S nas derivações inferiores. Intervalo RP muito curto. |
| Reentrada atrioventricular ortodrômica (TRAV) |
Circuito desce pelo nó e sobe pela via acessória. Cerca de 30% dos casos; predomina em pacientes mais jovens. | QRS estreito, com onda P retrógrada visível após o QRS, no segmento ST ou na onda T. Alternância elétrica do QRS é sugestiva. |
| Reentrada atrioventricular antidrômica | Circuito desce pela via acessória e sobe pelo nó. Bem menos frequente. | QRS largo e maximamente pré-excitado — indistinguível de taquicardia ventricular sem informação adicional. |
| Taquicardia atrial focal | Foco atrial único, com automatismo aumentado. Cerca de 10% dos casos; pode ser incessante e causar cardiomiopatia. | Onda P de morfologia diferente da sinusal, com intervalo RP longo. Aquecimento e desaceleração graduais. |
| Flutter atrial | Macrorreentrada atrial, tipicamente no istmo cavotricuspídeo. Frequência atrial em torno de 300 bpm. | Ondas em dente de serra nas derivações inferiores. Condução 2:1 gera frequência ventricular próxima de 150 bpm. |
| Taquicardia atrial multifocal | Múltiplos focos atriais; fortemente associada a doença pulmonar avançada e a distúrbios metabólicos. | Ritmo irregular com três ou mais morfologias distintas de onda P e intervalos PR variáveis. |
| Taquicardia juncional | Automatismo do nó atrioventricular ou do feixe de His. Rara no adulto; associada a pós-operatório cardíaco e a intoxicação digitálica. | QRS estreito sem onda P precedente, com possível dissociação atrioventricular. |
| Taquicardia sinusal inapropriada | Frequência sinusal desproporcional ao estímulo, sem causa secundária identificável. | Onda P de morfologia sinusal, com frequência de repouso acima de 100 bpm. |
Pré-excitação e síndrome de Wolff-Parkinson-White
Pré-excitação é a ativação precoce do ventrículo por uma via acessória que conecta átrio e ventrículo, contornando o nó atrioventricular. A distinção terminológica importa e é cobrada em prova.
Pré-excitação isolada
- Achado eletrocardiográfico em paciente assintomático.
- Intervalo PR curto, abaixo de 120 ms.
- Onda delta: empastamento do início do QRS.
- QRS alargado, com alterações secundárias da repolarização.
- Também chamada de padrão de Wolff-Parkinson-White.
Síndrome de Wolff-Parkinson-White
- Pré-excitação somada a arritmia sintomática documentada.
- A arritmia mais comum é a reentrada atrioventricular ortodrômica, de QRS estreito.
- A mais perigosa é a fibrilação atrial pré-excitada, com resposta ventricular muito rápida e risco de degeneração para fibrilação ventricular.
- Risco de morte súbita baixo, porém não desprezível — e é justamente o que justifica a estratificação.
Diagnóstico diferencial da taquicardia sinusal
Antes de rotular como arritmia, confirme que não se trata de resposta fisiológica. Taquicardia sinusal não se trata com antiarrítmico: trata-se a causa.
Febre, resposta inflamatória e vasodilatação. A taquicardia é compensatória e sustenta o débito.
Sangramento, desidratação e anemia grave. Procure hipotensão postural e queda de hemoglobina.
Taquicardia sinusal é o achado mais frequente; hipoxemia e dispneia acompanham.
Taquicardia persistente, perda ponderal, tremor. Pode precipitar fibrilação atrial.
Cafeína, álcool, nicotina, descongestionantes, broncodilatadores, cocaína e anfetaminas.
Diagnóstico de exclusão, apenas depois de afastadas as causas orgânicas.
Lendo a taquicardia de QRS estreito
Depois de confirmar que o QRS é estreito e o ritmo regular, a leitura fina busca a onda P e sua relação com o QRS. O achado organizador é o intervalo RP: a distância entre o QRS e a onda P retrógrada seguinte.
| Padrão do RP | Achado | Hipótese principal |
|---|---|---|
| P invisível | Onda P retrógrada totalmente escondida dentro do QRS. | Reentrada nodal típica — átrio e ventrículo despolarizam quase simultaneamente. |
| RP muito curto (abaixo de 70 ms) |
Deformação do final do QRS: pseudo-r' em V1 e pseudo-S em DII, DIII e aVF, ausentes no traçado em ritmo sinusal. | Reentrada nodal típica. A comparação com um ECG prévio confirma que a deformação é nova. |
| RP curto (70 ms ou mais, RP menor que PR) |
Onda P retrógrada visível após o QRS, no segmento ST ou na onda T. | Reentrada atrioventricular ortodrômica, por via acessória. |
| RP longo (RP maior que PR) |
Onda P mais próxima do QRS seguinte que do anterior, com morfologia diferente da sinusal. | Taquicardia atrial, reentrada nodal atípica ou taquicardia juncional reciprocante permanente. |
| Ondas em dente de serra | Atividade atrial contínua a cerca de 300 bpm, mais evidente em DII, DIII e aVF. | Flutter atrial. A frequência ventricular de aproximadamente 150 bpm sugere condução 2:1. |
O que a adenosina revela
A adenosina é ao mesmo tempo tratamento e ferramenta diagnóstica. Registre tira longa de ritmo durante a injeção — mesmo quando a arritmia não reverte, a resposta orienta o mecanismo.
| Resposta | Interpretação |
|---|---|
| Interrupção súbita, terminando com onda P após o último QRS | Muito sugestivo de reentrada nodal típica ou reentrada atrioventricular — o circuito depende do nó, e bloqueá-lo encerra a arritmia. |
| Interrupção terminando com um QRS | Mais frequente em taquicardia atrial, e possível na reentrada nodal atípica. |
| Bloqueio atrioventricular transitório que desmascara a atividade atrial | Flutter atrial ou taquicardia atrial — a arritmia continua nos átrios enquanto os ventrículos desaceleram. |
| Desaceleração gradual seguida de reaceleração | Sugere taquicardia sinusal ou taquicardia atrial automática. |
| Nenhuma alteração | Dose insuficiente, injeção lenta, técnica inadequada, uso de metilxantinas — ou arritmia que não depende do nó, como a taquicardia ventricular. |
| Aceleração paradoxal com QRS largo e irregular | Emergência: sugere condução por via acessória em fibrilação atrial pré-excitada. Prepare-se para cardioversão imediata. |
Taquicardia de QRS largo
A regra é simples e salva vidas: toda taquicardia regular de QRS largo é ventricular até prova em contrário. Em pacientes com cardiopatia estrutural conhecida, especialmente infarto prévio, a probabilidade de taquicardia ventricular ultrapassa 90%.
Favorece taquicardia ventricular
- Dissociação atrioventricular — o achado mais específico.
- Batimentos de captura ou de fusão — praticamente diagnósticos.
- Concordância positiva ou negativa em todas as precordiais.
- QRS muito largo, acima de 140 ms com padrão de bloqueio direito ou de 160 ms com padrão esquerdo.
- Eixo no quadrante noroeste.
- História de infarto prévio ou cardiopatia estrutural.
- Morfologia do QRS diferente de bloqueios de ramo típicos.
Favorece supraventricular com aberrância
- Morfologia idêntica a bloqueio de ramo prévio documentado.
- Padrão típico de bloqueio de ramo direito ou esquerdo.
- Início da taquicardia com extrassístole atrial.
- Reversão com manobra vagal — sugestiva, mas não conclusiva.
- Paciente jovem, sem cardiopatia estrutural.
Avaliação complementar
- Eletrocardiograma de 12 derivações durante a taquicardia — documento essencial, insubstituível depois da reversão.
- Eletrocardiograma em ritmo sinusal — procura pré-excitação, bloqueio de ramo prévio e cardiopatia estrutural.
- Tira longa de ritmo durante a manobra vagal e durante a adenosina.
- Eletrólitos — potássio, magnésio e cálcio.
- Função tireoidiana — em taquicardia recorrente ou de causa não esclarecida.
- Hemograma — anemia como fator desencadeante.
- Ecocardiograma transtorácico — avalia cardiopatia estrutural e função ventricular; obrigatório se há pré-excitação ou suspeita de cardiopatia.
- Monitorização ambulatorial — Holter, monitor de eventos ou monitor implantável, conforme a frequência dos sintomas.
- Estudo eletrofisiológico — define o mecanismo com precisão e permite a ablação no mesmo procedimento.
Sequência de abordagem
A decisão inicial é binária: o paciente está estável ou instável? Tudo o mais decorre dessa resposta.
- Monitorização contínua, oximetria, acesso venoso calibroso e desfibrilador ao lado.
- Registre o eletrocardiograma de 12 derivações durante a taquicardia — sempre que a estabilidade permitir.
- AVALIE A ESTABILIDADE: hipotensão, alteração aguda do nível de consciência, dor torácica isquêmica, congestão pulmonar aguda ou sinais de choque ATRIBUÍVEIS à taquicardia indicam cardioversão sincronizada imediata.
- Classifique o traçado: QRS estreito ou largo, ritmo regular ou irregular.
- Procure e trate o desencadeante: febre, anemia, hipovolemia, dor, hipoxemia, distúrbio eletrolítico, tireotoxicose e substâncias estimulantes.
- Estável, com QRS estreito e regular: manobra de Valsalva modificada como primeira linha.
- Se falhar: adenosina 6 mg em bolus rápido, seguida de 12 mg se necessário.
- Se falhar: verapamil, diltiazem ou betabloqueador intravenoso, respeitando as contraindicações.
- QRS LARGO E IRREGULAR: pense em FA pré-excitada e NÃO use adenosina, verapamil, diltiazem, betabloqueador, digoxina ou amiodarona.
- Revertido o ritmo, repita o eletrocardiograma em ritmo sinusal, procurando onda delta.
- Defina o seguimento: ensine a manobra vagal, oriente sobre desencadeantes e encaminhe à eletrofisiologia quando indicado.
Manobra de Valsalva modificada
A modificação postural aumenta substancialmente a taxa de reversão em comparação à manobra clássica — cerca de 43% contra 17% no ensaio que a validou. É gratuita, segura e deve ser a primeira tentativa em todo paciente estável.
- Posicione o paciente semi-sentado, com o tronco elevado a cerca de 45 graus.
- Peça que sopre por 15 segundos contra resistência — uma seringa de 10 mL, com força suficiente para mover o êmbolo, gera a pressão adequada de cerca de 40 mmHg.
- Imediatamente ao final do sopro, deite o paciente e eleve passivamente as pernas a 45 graus por 15 segundos.
- Volte à posição semi-sentada e reavalie o ritmo após 1 minuto.
- Pode ser repetida se não houver reversão e o paciente tolerar.
- Mantenha registro contínuo do ritmo durante toda a manobra.
Outras manobras
- Massagem do seio carotídeo — 5 a 10 segundos, unilateral, com o pescoço em leve extensão e rotação contralateral.
- Imersão facial em água fria — mais usada em crianças e lactentes.
O que não fazer
- Compressão ocular — abandonada pelo risco de lesão da retina.
- Massagem carotídea bilateral simultânea.
- Massagem carotídea diante de sopro carotídeo, acidente vascular cerebral ou ataque isquêmico transitório prévio, ou estenose carotídea conhecida.
Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, técnica e cuidados. Confira sempre a bula, a apresentação disponível e o protocolo institucional antes de prescrever.
Reversão aguda
A sequência é escalonada e começa pelo que não tem custo nem risco. A cardioversão elétrica atravessa toda a escala quando há instabilidade.
Situações específicas e tratamento crônico
Cenários em que a rota habitual não se aplica, e as decisões que se tomam depois de revertido o ritmo.
Classificador da taquicardia
Responde às duas perguntas que organizam a beira do leito e cruza com a estabilidade hemodinâmica. Devolve as hipóteses do quadrante e a conduta inicial correspondente.
Adenosina — dose, ajustes e contraindicações
Marque as situações presentes. A ferramenta ajusta a dose inicial e sinaliza as contraindicações. A meia-vida da adenosina é de poucos segundos, o que exige injeção muito rápida seguida de flush imediato.
Cardioversão elétrica sincronizada
Selecione a arritmia e o tipo de aparelho. As energias apresentadas são as habitualmente recomendadas — confira sempre o manual do desfibrilador do seu serviço, pois há variação entre fabricantes.
Estratificação da pré-excitação
Aplica-se ao paciente com onda delta no eletrocardiograma basal. Marque os achados presentes para orientar a necessidade de estudo eletrofisiológico e de ablação. Os parâmetros invasivos vêm do estudo eletrofisiológico, habitualmente sob isoprenalina.
Depois de revertida a crise
A mudança mais importante das diretrizes contemporâneas é o posicionamento da ablação por cateter como primeira linha na maioria dos substratos reentrantes, oferecida ao paciente como opção inicial após explicação detalhada de riscos e benefícios — e não apenas depois da falha de medicamentos.
| Substrato | Ablação | Alternativa medicamentosa |
|---|---|---|
| Reentrada nodal | Primeira linha, com sucesso acima de 95%. Risco principal é o bloqueio atrioventricular, hoje bem inferior a 1% com a técnica de via lenta. | Verapamil, diltiazem ou betabloqueador — rebaixados de classe I para IIa nas diretrizes atuais. |
| Reentrada atrioventricular | Primeira linha; elimina a via acessória e, com ela, o risco associado à pré-excitação. | Flecainida ou propafenona em pacientes sem cardiopatia isquêmica ou estrutural. |
| Taquicardia atrial focal | Recomendada, com bom índice de sucesso; especialmente indicada nas formas incessantes. | Betabloqueador, verapamil ou diltiazem; antiarrítmicos de classe IC em casos selecionados. |
| Flutter atrial típico | Ablação do istmo cavotricuspídeo, com alta taxa de sucesso e baixa recorrência. | Controle de frequência; avaliar anticoagulação com os mesmos critérios da fibrilação atrial. |
| Pré-excitação sintomática | Recomendada. Nos assintomáticos, indicada quando o estudo eletrofisiológico identifica propriedades de alto risco. | Evitar bloqueadores isolados do nó; flecainida ou propafenona quando a ablação não é viável. |
| Taquicardia atrial multifocal | Não é o alvo — o tratamento é da doença de base, tipicamente pulmonar. | Corrigir hipoxemia, distúrbios eletrolíticos e broncoespasmo; verapamil como opção. |
Quando encaminhar à eletrofisiologia
- Pré-excitação no eletrocardiograma basal, sintomática ou não — a avaliação especializada é indicada em ambos os casos.
- Crises recorrentes que exigem atendimento em pronto-socorro.
- Crises sintomáticas que limitam a vida do paciente ou geram ansiedade importante.
- Intolerância ou contraindicação aos antiarrítmicos, ou preferência do paciente por tratamento definitivo.
- Síncope associada à taquicardia — sempre exige investigação aprofundada.
- Taquicardia incessante ou disfunção ventricular sugerindo cardiomiopatia induzida por taquicardia.
- Diagnóstico indefinido após avaliação não invasiva completa.
- Atletas competitivos e profissões de risco com qualquer arritmia documentada.
- Cardiopatia estrutural associada à arritmia supraventricular.
O que orientar na alta
Demonstre a Valsalva modificada e peça que o paciente reproduza. Muitos conseguem abortar crises em casa e evitar idas ao pronto-socorro.
Cafeína, álcool, energéticos, nicotina, privação de sono, estresse, descongestionantes e estimulantes. Sugira um diário de crises.
Síncope, dor torácica, dispneia importante ou crise que não cede com a manobra devem levar ao serviço de emergência.
Oriente o paciente a levar cópia do eletrocardiograma da crise à consulta com o cardiologista — é o documento que define o mecanismo.
Em coração estruturalmente normal, o prognóstico é excelente. A ansiedade em si é fator desencadeante, e explicar isso já tem efeito terapêutico.
Consulta com cardiologista antes da alta, não deixada a cargo do paciente, com indicação clara de quem investigará o mecanismo.
Situações com manejo próprio
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Fibrilação atrial pré-excitada | Taquicardia irregular, de QRS largo e morfologia variável, com frequência muito elevada. Risco de degeneração para fibrilação ventricular. | Cardioversão elétrica se instável; procainamida se estável. Proibidos adenosina, verapamil, diltiazem, betabloqueador, digoxina e amiodarona. |
| Gestação | As crises tendem a aumentar em frequência. A preocupação com o feto frequentemente leva a subtratamento. | Manobra vagal primeiro; adenosina é considerada segura. Evitar todos os antiarrítmicos no primeiro trimestre. A cardioversão elétrica é segura em qualquer trimestre. |
| Idoso | Maior chance de cardiopatia estrutural, doença do nó sinusal e uso de fármacos que deprimem a condução. | Cautela com bloqueadores do nó; considere QRS largo como ventricular com limiar ainda mais baixo, pela alta prevalência de cardiopatia isquêmica. |
| Insuficiência cardíaca com fração reduzida | Verapamil e diltiazem têm efeito inotrópico negativo relevante. | Evitar verapamil e diltiazem. Preferir adenosina e, se necessário, betabloqueador com cautela ou cardioversão. |
| Broncoespasmo | A adenosina pode desencadear broncoconstrição. | Evitar adenosina na asma ou doença pulmonar obstrutiva grave em atividade. Preferir verapamil ou diltiazem, ou cardioversão. |
| Coração transplantado | Órgão denervado, hipersensível à adenosina; resposta exagerada e prolongada. | Reduzir a dose inicial e ter marca-passo transcutâneo prontamente disponível. |
| Cardiomiopatia induzida por taquicardia | Disfunção ventricular causada pela própria arritmia, quando incessante por semanas a meses. Frequentemente confundida com miocardiopatia dilatada primária. | Suspeitar quando há taquicardia persistente com disfunção; o controle do ritmo, geralmente por ablação, costuma reverter a disfunção. |
| Intoxicação digitálica | Pode causar taquicardia atrial com bloqueio e taquicardia juncional. | Corrigir potássio e magnésio; considerar anticorpo antidigoxina. Evitar cardioversão elétrica pelo risco de arritmia ventricular refratária. |
| Estimulantes e drogas | Cocaína, anfetaminas, energéticos e descongestionantes. | Benzodiazepínico como base do tratamento; hidratação e correção de eletrólitos. Betabloqueador tradicionalmente evitado na intoxicação por cocaína. |
Erros comuns
- Tratar taquicardia de QRS largo como supraventricular, quando a regra é assumir origem ventricular até prova em contrário.
- Administrar verapamil em taquicardia ventricular, com risco de colapso hemodinâmico e parada.
- Usar bloqueador do nó atrioventricular em fibrilação atrial pré-excitada.
- Cardioverter uma taquicardia sinusal, retirando o mecanismo compensatório de um paciente séptico ou hipovolêmico.
- Não registrar o eletrocardiograma de 12 derivações durante a taquicardia, perdendo o documento que define o mecanismo.
- Não manter tira longa de ritmo durante a manobra vagal e durante a adenosina.
- Injetar a adenosina lentamente ou sem flush imediato, o que praticamente anula seu efeito.
- Usar acesso venoso distal e fino para adenosina, em vez de veia calibrosa proximal.
- Não avisar o paciente sobre a sensação intensa e transitória causada pela adenosina.
- Não reduzir a dose de adenosina em acesso central, coração transplantado ou uso de dipiridamol e carbamazepina.
- Prescrever adenosina em paciente com broncoespasmo grave em atividade.
- Esquecer de ativar ou de reativar o botão de sincronismo antes de cada choque.
- Cardioverter sem sedação adequada em paciente consciente.
- Usar verapamil ou diltiazem em paciente com fração de ejeção reduzida.
- Não repetir o eletrocardiograma em ritmo sinusal depois da reversão, deixando passar a onda delta.
- Não procurar o fator desencadeante — febre, anemia, tireotoxicose, cafeína, estimulantes.
- Dar alta sem ensinar a manobra vagal e sem agendar retorno com cardiologista.
- Não encaminhar à eletrofisiologia o paciente com crises recorrentes ou com pré-excitação.
Resumo do fluxo
- Monitorização, acesso venoso, oximetria e desfibrilador ao lado. Registre o eletrocardiograma de 12 derivações durante a taquicardia.
- AVALIE A ESTABILIDADE: hipotensão, rebaixamento agudo, dor isquêmica, congestão aguda ou choque atribuíveis à taquicardia indicam CARDIOVERSÃO SINCRONIZADA imediata, com sedação.
- Estável: classifique o traçado — QRS estreito ou largo, ritmo regular ou irregular.
- Exclua taquicardia sinusal e procure o desencadeante: febre, anemia, hipovolemia, dor, hipoxemia, tireotoxicose e estimulantes.
- Estreito e regular: manobra de Valsalva modificada, com tira longa de ritmo durante a manobra.
- Sem reversão: adenosina 6 mg em bolus rápido por veia calibrosa proximal, com flush de 20 mL e elevação do membro; depois 12 mg se necessário.
- Sem reversão: verapamil, diltiazem ou betabloqueador intravenoso, respeitando fração de ejeção reduzida e demais contraindicações.
- LARGO E IRREGULAR: suspeite de FA pré-excitada. NÃO use bloqueadores do nó AV. Cardioversão elétrica ou procainamida.
- Largo e regular: trate como taquicardia ventricular salvo diagnóstico seguro de origem supraventricular.
- Revertido o ritmo: novo eletrocardiograma em ritmo sinusal, procurando onda delta e bloqueio de ramo.
- Solicite eletrólitos, função tireoidiana e hemograma; ecocardiograma se houver pré-excitação ou suspeita de cardiopatia.
- Antes da alta: ensine a manobra vagal, oriente desencadeantes e sinais de alarme, e agende o retorno com cardiologista ou eletrofisiologista.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, energias, critérios e condutas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.
Informações rápidas
Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Classificar o ritmo
Duas perguntas resolvem: o QRS é estreito ou largo, e o ritmo é regular ou irregular. Estreito e regular é o cenário clássico da TSV — reentrada nodal, reentrada atrioventricular ou taquicardia atrial. Largo e regular é taquicardia ventricular até prova em contrário. Largo e irregular levanta imediatamente fibrilação atrial pré-excitada.
Avaliar a estabilidade
Hipotensão, alteração aguda do nível de consciência, dor torácica isquêmica, congestão pulmonar aguda ou sinais de choque atribuíveis à taquicardia indicam cardioversão sincronizada imediata, com sedação. Paciente estável permite manobra vagal e fármacos. Antes de tudo, exclua taquicardia sinusal: nela, o tratamento é da causa.
Reverter
Valsalva modificada primeiro: sopro de 15 segundos contra resistência, seguido de decúbito com elevação passiva das pernas por 15 segundos — reverte cerca de 43%, contra 17% da manobra clássica. Se falhar, adenosina 6 mg em bolus rápido por veia calibrosa proximal, com flush de 20 mL, seguida de 12 mg. Depois, verapamil, diltiazem ou betabloqueador.
Definir o seguimento
A ablação por cateter é primeira linha na reentrada nodal e na reentrada atrioventricular, com sucesso acima de 95%. Repita o eletrocardiograma em ritmo sinusal procurando onda delta. Ensine a manobra vagal ao paciente, oriente desencadeantes e agende retorno com cardiologista antes da alta.
Números rápidos
Valsalva modificada: sopro de 15 s e elevação das pernas por 15 s; reverte cerca de 43%.
Adenosina: 6 mg em bolus rápido, depois 12 mg, com flush de 20 mL de soro fisiológico.
Cardioversão da TSV: 50 a 100 J bifásico, sincronizada e com sedação.
Cardioversão da FA: 120 a 200 J bifásico.
Frequências: reentrada nodal 60%, reentrada atrioventricular 30%, taquicardia atrial 10%.
Alto risco no WPW: menor RR pré-excitado durante fibrilação atrial igual ou inferior a 250 ms.
Não esqueça
QRS largo é taquicardia ventricular até prova em contrário.
FA pré-excitada: nada de adenosina, verapamil, diltiazem, betabloqueador, digoxina ou amiodarona.
Registre o ECG de 12 derivações durante a crise — depois da reversão não volta.
Adenosina só funciona em bolus muito rápido com flush imediato.
Taquicardia sinusal se trata tratando a causa, nunca cardiovertendo.
Artigos relacionados
Em provas / residência
A banca cobra a pseudo-onda r' em V1 da reentrada nodal, a diferença entre padrão e síndrome de Wolff-Parkinson-White e as drogas proibidas na FA pré-excitada.
Decore: adenosina 6 e depois 12 mg; cardioversão da TSV com 50 a 100 J; QRS largo é ventricular até prova em contrário.
