Tamponamento Cardíaco
É choque obstrutivo por compressão do coração. O que determina a gravidade não é o volume do derrame, e sim a velocidade com que ele se acumula: 150 a 200 mL de sangue em minutos matam, enquanto 1,5 L acumulados em semanas podem ser quase silenciosos. O diagnóstico é clínico, confirmado pelo ecocardiograma — e o tratamento é esvaziar o pericárdio.
Suspeitar
- Hipotensão com turgência jugular e pulmões limpos
- Taquicardia, dispneia e pulso paradoxal
- Contexto: neoplasia, uremia, pós-procedimento, trauma
- Tríade de Beck completa é rara — não espere por ela
Confirmar
- Ecocardiograma sem atraso — POCUS já responde
- Colapso diastólico de VD e sistólico tardio de AD
- VCI pletórica sem variação respiratória
- Variação do fluxo mitral > 25% e tricúspide > 40%
Estabilizar
- Volume em alíquotas pequenas se hipovolêmico
- Nunca diurético, nem vasodilatador
- Evitar ventilação com pressão positiva
- Suporte é ponte, jamais substitui a drenagem
Drenar
- Choque: pericardiocentese imediata, guiada por eco
- Estável: drenagem em 12 a 24 horas
- Cirurgia: dissecção de aorta, ruptura de parede, trauma
- Retirar até 1 L por vez e manter dreno
O que é tamponamento cardíaco
Tamponamento cardíaco é a compressão do coração pelo acúmulo de líquido, sangue, coágulos, pus ou gás dentro do saco pericárdico, com aumento da pressão intrapericárdica, restrição ao enchimento diastólico e queda do débito cardíaco. É uma forma de choque obstrutivo e, sem drenagem, evolui de forma previsível para a morte.
Não é um evento com um único ponto de corte: existe um espectro hemodinâmico que vai do tamponamento incipiente ou pré-clínico — em que a pressão pericárdica já iguala a pressão do átrio direito, mas ainda é inferior à do átrio esquerdo — até o choque franco, com queda do volume sistólico, hipotensão e pulso paradoxal evidente.
A curva em J do pericárdio
O pericárdio normal é pouco distensível e comporta apenas cerca de 15 a 50 mL de líquido fisiológico. Sua curva pressão-volume tem formato em J: um trecho inicial curto e complacente, que absorve variações fisiológicas com pouco aumento de pressão, seguido de uma porção quase vertical.
- Acúmulo rápido — 100 a 200 mL de sangue, como em perfuração iatrogênica ou trauma, elevam a pressão pericárdica a 20 a 30 mmHg em minutos. É o tamponamento "cirúrgico".
- Acúmulo lento — o pericárdio se estira ao longo de semanas e acomoda 1 a 2 L antes de descompensar. É o tamponamento "clínico", de neoplasias e uremia.
- Fenômeno da última gota — na porção vertical da curva, um incremento mínimo de volume produz colapso hemodinâmico. Isso explica a deterioração súbita de um paciente que estava apenas "taquicárdico".
Interdependência ventricular
Com o volume cardíaco total fixado pelo líquido pericárdico, as câmaras passam a competir pelo mesmo espaço. Qualquer aumento de volume de um lado obriga a redução do outro.
- Na inspiração, o retorno venoso ao ventrículo direito aumenta; o septo se desloca para a esquerda e reduz o enchimento do ventrículo esquerdo.
- O volume sistólico esquerdo cai, e com ele a pressão arterial sistólica — é a base do pulso paradoxal.
- As pressões diastólicas se equalizam entre as câmaras, tipicamente entre 15 e 30 mmHg.
- O débito é mantido às custas de taquicardia e vasoconstrição adrenérgica — mecanismos que se esgotam.
Enquanto a pressão de enchimento superar a pressão pericárdica, ainda há diástole. Por isso o paciente hipovolêmico descompensa mais cedo, e por isso um volume pequeno pode ganhar tempo — mas apenas tempo.
O que define a gravidade
Três variáveis explicam por que dois pacientes com o mesmo volume de derrame podem ter apresentações opostas.
É a variável dominante. Minutos versus semanas mudam completamente o quadro.
Pericárdio fibrosado ou irradiado descompensa com volumes menores.
Hipovolemia antecipa o colapso e mascara a turgência jugular.
Hipertrofia e hipertensão pulmonar retardam o colapso das câmaras direitas.
Pressão positiva reduz ainda mais o retorno venoso e o débito.
As três perguntas da beira do leito
Hipotensão ou choque, com pressão venosa central elevada e ausculta pulmonar limpa, é a combinação que obriga a colocar o transdutor no tórax. Some a isso taquicardia, dispneia e pulso paradoxal.
Choque hemodinâmico ou peri-parada significa pericardiocentese imediata. Paciente estável permite planejar o procedimento em 12 a 24 horas, com exames e equipe adequados.
Dissecção de aorta tipo A, ruptura de parede livre pós-infarto, trauma torácico grave, derrame purulento em séptico instável e derrames loculados são indicações de drenagem cirúrgica.
Etiologias por risco de tamponar
Nem todo derrame pericárdico evolui para tamponamento. Reconhecer a etiologia orienta a urgência da drenagem e a investigação do líquido.
| Grupo | Causas | Observação |
|---|---|---|
| Alta probabilidade de tamponar | Neoplasias, infecções (especialmente tuberculose; também virais e bacterianas), hemopericárdio iatrogênico, derrame pós-traumático, síndrome pós-pericardiotomia, hemopericárdio da dissecção de aorta e da ruptura cardíaca pós-infarto, insuficiência renal. | São as etiologias que justificam vigilância estreita e limiar baixo para drenagem. |
| Raramente tamponam | Doenças autoimunes sistêmicas, derrames autorreativos, hipotireoidismo e hipertireoidismo, pericardite precoce e tardia do infarto (síndrome de Dressler), pericardite do colesterol, quilopericárdio. | Costumam responder ao tratamento da doença de base e ao anti-inflamatório. |
| Praticamente nunca tamponam | Transudatos da insuficiência cardíaca e da hipertensão pulmonar; derrame fisiológico do último trimestre da gestação. | Achado incidental frequente — tratar a doença de base, não puncionar. |
| Fatores precipitantes | Anticoagulantes e trombolíticos, anti-hipertensivos, desidratação e diuréticos (reduzem a volemia), septicemia, trauma torácico fechado, dispositivos intracavitários de longa permanência. | Transformam um derrame estável em tamponamento — revisar sempre a prescrição. |
Causas iatrogênicas em ascensão
Procedimentos cardiovasculares são hoje uma das causas mais frequentes de tamponamento em ambiente hospitalar. Nesses casos o quadro é hiperagudo, com derrame pequeno e deterioração em minutos.
Perfuração de coronária por fio-guia, balão ou aterectomia. Suspeitar de hipotensão súbita ainda na sala de hemodinâmica.
Perfuração pelo eletrodo, às vezes tardia. Dor torácica, soluço ou estimulação diafragmática após o implante são sinais de alerta.
Complicação bem descrita da ablação por radiofrequência; exige diagnóstico e punção de resgate imediatos.
Perfuração por fio ou por dispositivo durante procedimentos valvares percutâneos.
Perfuração de parede livre, especialmente do ventrículo direito.
Sangramento e coágulos organizados; derrames loculados e localizados são a regra, e o eco transtorácico pode ser insuficiente.
Investigação etiológica
A drenagem tem finalidade terapêutica e também diagnóstica. Sempre que houver punção, encaminhe o líquido para análise — a oportunidade não se repete com facilidade.
- Bioquímica — proteínas, desidrogenase láctica, glicose e adenosina desaminase, com amostra pareada de sangue para aplicar os critérios de exsudato.
- Celularidade — contagem total e diferencial de células; predomínio de neutrófilos aponta para causa bacteriana, e de linfócitos, para tuberculose ou neoplasia.
- Citologia oncótica — obrigatória sempre que houver neoplasia conhecida ou suspeita; volumes maiores aumentam o rendimento.
- Microbiologia — Gram, cultura para germes comuns, pesquisa de bacilos álcool-ácido resistentes, cultura para micobactérias e teste molecular rápido quando disponível.
- Hematócrito do líquido — ajuda a diferenciar hemopericárdio verdadeiro de punção acidental de câmara cardíaca.
- Investigação sistêmica — função renal, função tireoidiana, marcadores inflamatórios, sorologias e autoanticorpos conforme o contexto.
- Biópsia pericárdica — considerar quando a drenagem for cirúrgica ou quando a etiologia permanecer indefinida em derrame recidivante.
Sintomas e sinais
A apresentação varia com a velocidade de acúmulo. No tamponamento agudo predominam hipotensão e colapso; no subagudo, o paciente chega com semanas de dispneia progressiva e é frequentemente rotulado como insuficiência cardíaca descompensada.
Sintomas
- Dispneia aos esforços, progredindo para ortopneia — o mais constante.
- Dor ou opressão torácica, muitas vezes com componente pericardítico.
- Tosse, fraqueza, fadiga, anorexia e palpitações.
- Sintomas compressivos: náusea (diafragma), disfagia (esôfago), rouquidão (nervo laríngeo recorrente) e soluços (nervo frênico).
- Oligúria, confusão e agitação, refletindo hipoperfusão.
Sinais
- Taquicardia — quase sempre presente; pode faltar no hipotireoidismo e na uremia.
- Turgência jugular com pressão venosa elevada e descenso "y" ausente.
- Hipofonese de bulhas.
- Pulso paradoxal maior que 10 mmHg.
- Hipotensão, pressão de pulso estreita, extremidades frias.
- Sinal de Kussmaul — mais típico da pericardite constritiva, mas descrito no tamponamento.
- Atrito pericárdico é raro e não afasta o diagnóstico.
Pulso paradoxal — como medir de verdade
É o achado de exame físico mais útil, com sensibilidade relatada entre 75% e 98%. "Paradoxal" refere-se ao contraste entre o pulso periférico que some e o ictus que continua palpável — não a algo verdadeiramente paradoxal na fisiologia.
- Coloque o paciente em decúbito semi-sentado, respirando tranquilamente. Não peça inspiração profunda: isso superestima o valor.
- Insufle o manguito cerca de 20 mmHg acima da pressão sistólica.
- Desinsufle lentamente até ouvir o primeiro som de Korotkoff apenas durante a expiração. Anote esse valor.
- Continue desinsuflando até que os sons sejam audíveis em todo o ciclo respiratório. Anote esse segundo valor.
- A diferença entre as duas medidas é o pulso paradoxal. Acima de 10 mmHg é anormal.
- Com linha arterial, meça diretamente na curva a maior e a menor sistólica ao longo de um ciclo respiratório completo.
Falso-negativo (tamponamento sem pulso paradoxal)
- Hipotensão grave — não há pressão para gerar diferença de 10 mmHg.
- Disfunção ventricular esquerda com pressões de enchimento muito elevadas.
- Insuficiência aórtica importante.
- Comunicação interatrial ampla.
- Hipertrofia ou infarto de ventrículo direito.
- Ventilação mecânica, sobretudo com volume corrente baixo.
- Tamponamento de baixa pressão (hipovolêmico).
Falso-positivo (sem tamponamento)
- Asma grave e doença pulmonar obstrutiva em exacerbação.
- Tromboembolismo pulmonar maciço.
- Choque hipovolêmico e hemorrágico.
- Obesidade importante e grandes esforços respiratórios.
- Pericardite constritiva, em parte dos casos.
Apresentações que enganam
Paciente hipovolêmico (desidratado, em diálise, sangrando). A pressão venosa não sobe, as jugulares estão planas e o pulso paradoxal pode faltar. Só o eco revela o quadro — e a expansão volêmica desmascara os sinais.
Confundido com choque séptico. Diante de febre, hipotensão e taquicardia que não respondem a volume, faça o eco antes de escalonar vasopressor.
Dispneia progressiva, jugulares distendidas, edema e cardiomegalia radiológica em quem recebe diurético e piora. Pulmões limpos na ausculta e no ultrassom pulmonar são a pista.
Pericardite constritiva e forma efuso-constritiva compartilham sinais. A suspeita nasce quando a pressão atrial não normaliza após a drenagem.
Ascite, edema e turgência jugular em cirrótico podem mascarar derrame volumoso de evolução lenta.
No politraumatizado hipovolêmico, a jugular não se distende. Ferimento penetrante medial aos mamilos ou às escápulas obriga a janela pericárdica ecográfica no FAST.
Diagnóstico diferencial
| Condição | Como diferenciar | Conduta |
|---|---|---|
| Pericardite constritiva | História arrastada, pericárdio espessado ou calcificado, "septal bounce", sinal de Kussmaul proeminente e ausência de derrame significativo. | Imagem dedicada com tomografia ou ressonância; o tratamento definitivo é a pericardiectomia. |
| Infarto de ventrículo direito | Hipotensão com jugulares distendidas e pulmões limpos — mesma combinação. Supradesnivelamento em derivações direitas e ausência de derrame ao eco. | Volume e reperfusão; evitar nitrato e diurético. |
| Tromboembolismo pulmonar maciço | Choque obstrutivo com ventrículo direito dilatado e hipocinético, sem derrame pericárdico significativo. | Anticoagulação e considerar trombólise; a conduta é oposta à da punção. |
| Pneumotórax hipertensivo | Assimetria de murmúrio, timpanismo, desvio de traqueia. Ultrassom sem deslizamento pleural. | Descompressão torácica imediata — não perca tempo com imagem adicional. |
| Dissecção aórtica tipo A | Dor de início súbito e migratória, assimetria de pulsos, insuficiência aórtica nova. Pode causar tamponamento por hemopericárdio. | É indicação cirúrgica; a punção ampla é contraindicada e pode agravar a dissecção. |
| Insuficiência cardíaca direita | Curso crônico, hepatomegalia, edema, sem pulso paradoxal e sem colapso de câmaras ao eco. | Tratamento da doença de base; aqui o diurético é apropriado. |
| Miocardiopatia restritiva | Padrão restritivo sem derrame, com alterações de Doppler tecidual características. | Investigação de amiloidose e demais causas infiltrativas. |
Ecocardiograma — o exame de escolha
O ecocardiograma deve ser realizado sem atraso diante de suspeita clínica. Ele identifica o derrame, estima o volume, avalia a repercussão hemodinâmica e define a melhor via de punção. Nenhum achado isolado faz o diagnóstico: a leitura é sempre integrada ao quadro clínico.
| Achado | Como avaliar | Interpretação |
|---|---|---|
| Tamanho do derrame | Separação diastólica dos folhetos: pequeno abaixo de 10 mm, moderado de 10 a 20 mm, volumoso acima de 20 mm. | Correlaciona-se mal com a repercussão — pequeno derrame agudo tampona. |
| Colapso do átrio direito | Invaginação da parede atrial na sístole ventricular; significativo quando dura mais de um terço do ciclo cardíaco. | Sinal mais precoce; muito sensível, menos específico. |
| Colapso do ventrículo direito | Invaginação da parede livre na diástole. Modo M no eixo longo paraesternal, cruzando a parede livre do VD e a valva mitral. | Mais específico; indica pressão pericárdica superior à do VD. |
| Pletora de veia cava inferior | Diâmetro acima de 20 mm com redução inferior a 50% na inspiração. | Alta sensibilidade. Sua ausência torna o tamponamento improvável em respiração espontânea. |
| Variação respiratória do fluxo | Doppler pulsado nas pontas das cúspides: variação da onda E mitral acima de 25% e tricúspide acima de 40%. | Equivalente ecocardiográfico do pulso paradoxal. |
| Coração pendular | Oscilação do coração dentro do saco pericárdico. | Derrame volumoso; explica a alternância elétrica no eletrocardiograma. |
| Movimento septal anômalo | Deslocamento do septo para a esquerda na inspiração. | Expressão da interdependência ventricular. |
Ultrassom à beira do leito (POCUS)
Na emergência, o próprio médico assistente faz o diagnóstico. Uma sequência objetiva resolve a maior parte dos casos.
- Janela subxifoide — confirma o derrame e é a primeira do protocolo FAST no trauma.
- Eixo longo paraesternal — confirma se o derrame é circunferencial e diferencia de derrame pleural, que passa por trás da aorta descendente.
- Modo M no paraesternal, cruzando parede livre do VD e valva mitral — documenta o colapso diastólico do ventrículo direito.
- Janela apical de 4 câmaras — colapso atrial e Doppler pulsado do fluxo mitral e tricúspide.
- Veia cava inferior — pletora sem variação respiratória.
- Ultrassom pulmonar — pulmões secos reforçam a origem obstrutiva do choque.
- Escolha a janela com maior lâmina de líquido e menor distância à pele: é ela que definirá a via de punção.
Eletrocardiograma e radiografia
Eletrocardiograma
- Taquicardia sinusal — o achado mais comum, e o menos específico.
- Baixa voltagem do QRS — efeito de amortecimento do líquido.
- Alternância elétrica — variação batimento a batimento da amplitude do QRS pelo coração pendular. É específica, mas pouco sensível.
- Alterações de pericardite associada: supradesnivelamento difuso do segmento ST com infradesnivelamento de PR.
- Pode ser normal — eletrocardiograma normal não afasta tamponamento.
Radiografia de tórax
- Cardiomegalia com silhueta em moringa ou garrafa d'água.
- Campos pulmonares limpos, sem congestão — dissociação sugestiva.
- Exige pelo menos 200 a 250 mL para alterar a silhueta: no tamponamento agudo a radiografia costuma ser normal.
- Pode revelar alargamento do mediastino, sinais de trauma torácico ou massa pulmonar.
Quando ampliar a imagem
Derrame loculado, janela transtorácica ruim, pós-operatório de cirurgia cardíaca com suspeita de coágulo organizado comprimindo câmara isolada.
Avaliação de mediastino e pulmões, suspeita de dissecção de aorta, neoplasia, derrames complexos e planejamento cirúrgico. Não avalia hemodinâmica.
Caracterização do pericárdio, espessamento, realce tardio e diferenciação com constrição. Não é exame de urgência.
Raramente necessário. Mostra equalização das pressões diastólicas e reciprocidade respiratória entre câmaras direitas e esquerdas.
Calculadora — pulso paradoxal
Informe as duas pressões sistólicas obtidas na aferição. Com manguito: a primeira é aquela em que o som de Korotkoff aparece apenas na expiração; a segunda é aquela em que ele passa a ser audível em todo o ciclo respiratório. Com linha arterial: use a maior e a menor sistólica de um ciclo respiratório completo.
Critérios para pericardiocentese urgente
Conjunto de critérios clínicos e ecocardiográficos proposto como atalho ao escore de triagem do Grupo de Trabalho de Doenças do Miocárdio e do Pericárdio da Sociedade Europeia de Cardiologia, especialmente em regiões de tuberculose endêmica. Quando todos os critérios são preenchidos, indica-se pericardiocentese urgente na ausência de contraindicações.
Critérios clínicos — os quatro devem estar presentes
Avaliação à beira do leito, antes ou simultaneamente ao ecocardiograma.
Confirmação ecocardiográfica — obrigatória
Derrame circunferencial com lâmina superior a 1 cm anterior ao ventrículo direito na janela subcostal.
Pelo menos um sinal de repercussão ao eco
Basta um dos três achados abaixo para completar o conjunto de critérios.
Checklist — segurança e via de drenagem
Antes de puncionar, percorra a lista. Ela separa o que precisa ser corrigido antes, o que muda a via para cirurgia e o que só pode ser ignorado diante de risco iminente de morte.
Indicações de drenagem cirúrgica — independentemente de qualquer escore
Contraindicações relativas — corrigir antes, se o paciente permitir esperar
Situação hemodinâmica
Escore de triagem em três etapas
O Grupo de Trabalho de Doenças do Miocárdio e do Pericárdio da Sociedade Europeia de Cardiologia propôs, em 2014, um escore em três etapas para decidir o momento da drenagem nos pacientes com tamponamento sem choque. Ele soma pontos de etiologia, apresentação clínica e achados de imagem.
| Etapa | O que é pontuado | Racional |
|---|---|---|
| 1 | Etiologia — neoplasia, tuberculose, radioterapia mediastínica prévia, insuficiência renal terminal, infecção, hemopericárdio recente. | Causas associadas a derrames volumosos e a maior risco de progressão para choque. |
| 2 | Apresentação clínica — intensidade e piora dos sintomas, dispneia e ortopneia, hipotensão, taquicardia, pulso paradoxal acima de 10 mmHg, turgência jugular. | Paciente muito sintomático e com sinais físicos completos tem maior risco de deterioração. |
| 3 | Imagem — cardiomegalia na radiografia, derrame maior que 20 mm, pletora de veia cava inferior, colapso de câmaras direitas e do átrio esquerdo. Esta etapa é pontuada durante o ecocardiograma. | Sinais de derrame volumoso e em piora justificam ação imediata. |
Pontuação total igual ou maior que 6 indica pericardiocentese urgente, na ausência de contraindicações. Pontuação menor permite programar a drenagem nas 12 a 48 horas seguintes, inclusive com transferência para serviço especializado. Em pacientes com choque, o escore não se aplica: a drenagem é imediata.
Sequência de abordagem
O tratamento do tamponamento é mecânico: retirar o líquido. Tudo o mais é medida de suporte, com efeito modesto e transitório, e nunca deve retardar a drenagem.
- Reconheça o choque obstrutivo: hipotensão, pressão venosa elevada e ausculta pulmonar limpa.
- Faça o ecocardiograma imediatamente, de preferência à beira do leito, sem transportar paciente instável.
- Garanta dois acessos venosos calibrosos, monitorização contínua, oxigênio para manter saturação acima de 92% e material de reanimação disponível.
- Se houver hipovolemia, infunda 250 a 500 mL de cristaloide e reavalie — volumes maiores podem piorar a hemodinâmica.
- NÃO administre diurético, nitrato ou qualquer vasodilatador: reduzir a pré-carga nesse contexto pode ser fatal.
- Evite ventilação com pressão positiva sempre que possível; se for indispensável, use volumes correntes baixos e prepare-se para hipotensão à indução.
- Acione a equipe capacitada e defina a via: pericardiocentese guiada por ecocardiograma ou drenagem cirúrgica.
- Em choque ou peri-parada por tamponamento, a pericardiocentese é IMEDIATA e feita no local, como intervenção salvadora.
- Retire no máximo 1 L por vez, mantenha o cateter para drenagem prolongada e envie o líquido para análise.
- Reavalie o ecocardiograma após o procedimento e monitorize por descompensação pós-drenagem.
Cada card abre o detalhamento: indicação, doses, técnica e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional, a disponibilidade de equipe treinada e as bulas vigentes antes de aplicar.
Estabilização enquanto a drenagem é preparada
Medidas temporárias, de efeito limitado, cujo único objetivo é comprar minutos até o esvaziamento do pericárdio.
Drenagem definitiva e cuidados pós-procedimento
A escolha da via depende da etiologia, da distribuição do derrame e da experiência local. O acompanhamento depois da punção é parte do tratamento.
Quando drenar
Imediato, no local
- Choque hemodinâmico atribuível ao tamponamento.
- Peri-parada ou parada cardiorrespiratória.
- Hemopericárdio iatrogênico com deterioração rápida.
- Nesses casos, não se espera resultado de exame laboratorial: corrija anticoagulação, INR e anemia simultaneamente à drenagem.
Programado
- Paciente hemodinamicamente estável: drenagem em 12 a 24 horas do diagnóstico.
- Aguardar hemograma, coagulograma e reserva de hemocomponentes.
- Escolher a melhor janela, a melhor guiagem e a equipe mais experiente.
- Transferência para serviço especializado sempre acompanhada por médico, com monitorização de eletrocardiograma e pressão arterial.
Depois da drenagem
- Reavaliar o ecocardiograma — documentar a resolução dos sinais de tamponamento e o volume residual.
- Manter o cateter com aspirações intermitentes a cada 4 a 6 horas; retirar quando a drenagem cair abaixo de 25 a 30 mL em 24 horas.
- Radiografia de tórax após o procedimento, para excluir pneumotórax.
- Cuidados com o cateter iguais aos de um acesso venoso central, com técnica asséptica rigorosa.
- Monitorização contínua de eletrocardiograma, pressão arterial, diurese horária e lactato nas primeiras horas.
- Enviar o líquido para bioquímica, celularidade, citologia oncótica e microbiologia, incluindo pesquisa de micobactérias.
- Tratar a causa — anti-inflamatório e colchicina quando houver pericardite, quimioterapia ou janela pericárdica nas neoplasias, diálise na uremia, antibiótico e drenagem cirúrgica no derrame purulento.
- Programar o seguimento com ecocardiograma seriado, atento à recidiva e à evolução para constrição, inclusive a forma efuso-constritiva.
Situações com manejo próprio
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Trauma torácico penetrante | Ferimento medial aos mamilos (lesões anteriores) ou às escápulas (posteriores). Bastam 150 mL para tamponar; a jugular pode estar plana pela hipovolemia. | Janela pericárdica no FAST. Instável e sem resposta: toracotomia com pericardiotomia. A punção é medida temporária e pode ser falsamente negativa por coágulos. |
| Dissecção de aorta tipo A | Hemopericárdio por rotura para o saco pericárdico. A descompressão rápida eleva a pressão arterial e pode propagar a dissecção. | Cirurgia de emergência. Se indisponível ou paciente inviável para transporte, drenagem controlada de volumes mínimos, mantendo a sistólica em torno de 90 mmHg. |
| Ruptura de parede livre pós-infarto | Deterioração súbita entre o segundo e o quinto dia, com dissociação eletromecânica. A descompressão pode agravar a ruptura. | Acionamento cirúrgico imediato; a punção serve apenas como ponte. Suspender trombolítico e anticoagulante. |
| Neoplasia | Causa frequente de derrame volumoso e recidivante. A citologia é fundamental e o rendimento aumenta com volumes maiores. | Drenagem prolongada para reduzir recidiva; considerar janela pericárdica ou terapia intrapericárdica nos casos de repetição. Discutir prognóstico e objetivos de cuidado. |
| Uremia e diálise | Derrame relacionado à toxicidade urêmica ou à diálise inadequada; frequentemente com sangramento pela disfunção plaquetária. | Intensificar a diálise, preferencialmente sem heparina. Puncionar quando houver tamponamento ou derrame volumoso persistente. |
| Tuberculose pericárdica | Relevante no Brasil. Curso subagudo, derrame volumoso, alto risco de evoluir para constrição. | Punção com pesquisa de micobactérias, adenosina desaminase e teste molecular. Iniciar esquema antituberculoso; discutir corticoide adjuvante conforme protocolo. |
| Pericardite purulenta | Rara, grave e de alta mortalidade. Suspeitar em derrame associado a sepse ou choque séptico. | Drenagem cirúrgica com dreno calibroso e antibiótico intravenoso. Punção isolada costuma ser insuficiente. |
| Pós-operatório de cirurgia cardíaca | Derrames loculados e coágulos organizados comprimindo câmaras isoladas; apresentação atípica e às vezes tardia. | Baixo limiar para eco transesofágico. Frequentemente exige reabordagem cirúrgica. A via apical é mais utilizada nesse cenário. |
| Gestação | Derrame fisiológico no terceiro trimestre praticamente nunca tampona. Tamponamento verdadeiro é raro, mas descrito. | Preferir guiagem ecocardiográfica, evitando radiação. Atenção às restrições medicamentosas, incluindo colchicina. |
| Hipotireoidismo | Derrame volumoso de instalação muito lenta, com bradicardia em vez de taquicardia. | Reposição hormonal costuma resolver. Puncionar apenas se houver repercussão hemodinâmica. |
Erros comuns
- Exigir a tríade de Beck completa para considerar o diagnóstico.
- Descartar tamponamento porque o derrame "é pequeno" — no acúmulo rápido, 150 mL bastam.
- Deixar de medir o pulso paradoxal, ou medi-lo pedindo inspiração profunda.
- Prescrever diurético para a "congestão" de quem tem derrame volumoso.
- Usar nitrato ou outro vasodilatador em paciente com pressão venosa alta e pulmões limpos.
- Intubar e ventilar com pressão positiva antes de drenar, sem antecipar o colapso hemodinâmico.
- Transportar paciente instável para tomografia em vez de fazer o eco à beira do leito.
- Puncionar às cegas quando havia ecocardiograma disponível.
- Puncionar quando a indicação era cirúrgica: dissecção de aorta, ruptura de parede livre, derrame purulento, coágulo organizado.
- Retirar volume excessivo de uma só vez, com risco de síndrome de descompressão pericárdica.
- Retirar o cateter logo após a punção, aumentando a chance de recidiva.
- Não enviar o líquido para citologia e microbiologia, perdendo a chance diagnóstica.
- Interpretar jugulares planas como ausência de tamponamento em paciente hipovolêmico.
- Esquecer de reavaliar após a drenagem e não reconhecer a forma efuso-constritiva.
Resumo do fluxo
- Suspeite diante de hipotensão com pressão venosa elevada e ausculta pulmonar limpa, sobretudo em contexto de neoplasia, uremia, trauma ou procedimento cardiovascular recente.
- Meça o pulso paradoxal e avalie a turgência jugular; solicite eletrocardiograma procurando baixa voltagem e alternância elétrica.
- Faça o ecocardiograma SEM ATRASO, à beira do leito, sem transportar paciente instável.
- Integre clínica e eco: derrame com colapso de câmaras direitas, veia cava pletórica e variação respiratória exagerada do fluxo confirmam a repercussão.
- Estabilize com cristaloide em pequenas alíquotas se houver hipovolemia; considere dobutamina. Evite diurético, vasodilatador e ventilação com pressão positiva.
- Defina a via: pericardiocentese guiada por eco na maioria; drenagem cirúrgica nas indicações específicas.
- Choque ou peri-parada: pericardiocentese IMEDIATA, no local, sem esperar exames.
- Retire no máximo 1 L por vez, mantenha o cateter para drenagem prolongada e envie o líquido para análise completa.
- Reavalie o eco, faça radiografia de controle e monitorize por síndrome de descompressão pericárdica.
- Trate a etiologia e programe seguimento com eco seriado, atento à recidiva e à evolução para constrição.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, escalas, critérios e condutas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.
Informações rápidas
Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Suspeitar
Hipotensão com turgência jugular e ausculta pulmonar limpa, somada a taquicardia, dispneia e pulso paradoxal, é tamponamento até prova em contrário. O contexto ajuda: neoplasia, uremia, trauma e procedimento cardiovascular recente. A tríade de Beck completa é incomum — esperar por ela atrasa o diagnóstico.
Confirmar
Ecocardiograma sem atraso, de preferência à beira do leito. Procure colapso diastólico do ventrículo direito, colapso do átrio direito por mais de um terço do ciclo, veia cava inferior pletórica sem variação respiratória e variação do fluxo mitral acima de 25% e tricúspide acima de 40%. Eco sem sinais clássicos não exclui o diagnóstico em derrames loculados.
Estabilizar
Cristaloide em alíquotas de 250 a 500 mL se houver hipovolemia, com reavaliação a cada etapa. Dobutamina pode ser considerada. Nunca diurético, nitrato ou vasodilatador. Evite ventilação com pressão positiva. Todo o suporte é ponte: jamais substitui a drenagem.
Drenar
Choque ou peri-parada exigem pericardiocentese imediata, guiada por ecocardiograma. Paciente estável pode ser drenado em 12 a 24 horas. Dissecção de aorta tipo A, ruptura de parede livre pós-infarto, trauma grave, derrame purulento em séptico instável e derrames loculados vão para a cirurgia. Retire no máximo 1 L por vez e mantenha o dreno.
Números rápidos
Pulso paradoxal: queda inspiratória da sistólica acima de 10 mmHg.
Derrame volumoso: lâmina acima de 20 mm na diástole ao ecocardiograma.
Volume que tampona: 150 a 200 mL se agudo; até 1 a 2 L se crônico.
Prazo da drenagem: imediata no choque; em 12 a 24 horas se estável.
Retirada por vez: no máximo 1 L; manter o dreno até menos de 25 a 30 mL por dia.
Não esqueça
O diagnóstico é clínico; o eco confirma e guia a punção.
A velocidade de acúmulo importa mais que o volume.
Tríade de Beck completa é rara — não espere por ela.
Nada de diurético, nitrato ou vasodilatador.
Dissecção de aorta e ruptura de parede livre são cirúrgicas.
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Em provas / residência
A banca cobra a tríade de Beck, o pulso paradoxal com o corte de 10 mmHg, a alternância elétrica e o colapso diastólico do ventrículo direito ao eco.
Decore: velocidade de acúmulo importa mais que volume; diurético é proibido; dissecção de aorta e ruptura de parede livre vão para a cirurgia, não para a agulha.
