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Síndromes toxicológicas

Na maioria dos atendimentos você não sabe o que o paciente tomou — e não vai descobrir a tempo. A toxíndrome é a ferramenta que resolve isso: um conjunto reconhecível de sinais vitais, pupilas, pele, peristaltismo e estado mental que aponta a classe do agente e a conduta, antes de qualquer exame. Cinco segundos de exame físico dirigido valem mais que um painel toxicológico.

Pupilas, pele e peristaltismo Pele seca versus suada Clônus versus rigidez Ânion gap e gap osmolar
Tempo de leitura: 21 min
Atualizado em: 17/08/2026

Os cinco pilares

  • Estado mental, pupilas e pele
  • Peristaltismo e sinais vitais completos
  • Temperatura central, não axilar
  • O exame vale mais que a triagem urinária

As seis clássicas

  • Anticolinérgica e colinérgica
  • Simpaticomimética e opioide
  • Sedativo-hipnótica e serotoninérgica
  • Cada uma com um achado que a define

Os pares que confundem

  • Pele seca separa anticolinérgico de simpaticomimético
  • Clônus separa serotoninérgico de neuroléptica maligna
  • Peristaltismo separa colinérgico de opioide
  • Sudorese e miose andam juntas no colinérgico

Agir sem diagnóstico

  • Glicemia capilar e oxigênio em todos
  • Eletrocardiograma procurando QRS e QT
  • Ânion gap e gap osmolar quando há acidose
  • Antídoto só com toxíndrome compatível

O que é uma toxíndrome

Toxíndrome é a combinação de sinais e sintomas que resulta do efeito de uma classe farmacológica sobre os sistemas nervoso autônomo e central. Ela não identifica a molécula — identifica o mecanismo, que é exatamente o que orienta a conduta.

Isso importa porque a realidade da emergência é quase sempre a mesma: paciente encontrado inconsciente, história ausente ou não confiável, exame toxicológico indisponível ou pouco útil. Nesse cenário, o exame físico dirigido é o melhor teste diagnóstico disponível — e é imediato.

Antes de qualquer raciocínio sindrômico: via aérea, ventilação, circulação, glicemia capilar e temperatura. Um paciente estabilizado tolera investigação; um paciente instável, não. E hipoglicemia imita praticamente todas as toxíndromes.

Os cinco pilares do exame

São cinco domínios que, examinados em sequência, fecham o raciocínio em menos de um minuto.

1. Estado mental

Deprimido, agitado ou delirante? O delirium agitado com fala arrastada e alucinações táteis é anticolinérgico; a agitação com hipervigilância é simpaticomimética; a depressão sem outros achados é sedativa.

2. Pupilas

Midríase no anticolinérgico, simpaticomimético e serotoninérgico. Miose no opioide e no colinérgico. Normal na maioria dos sedativos. A miose puntiforme é praticamente patognomônica de opioide.

3. Pele

O achado que mais diferencia. Quente e seca no anticolinérgico; quente e suada no simpaticomimético e no serotoninérgico; fria e encharcada no colinérgico.

4. Peristaltismo

Ausente no anticolinérgico e reduzido no opioide; hiperativo com diarreia no colinérgico e no serotoninérgico. Ausculte o abdome — é rápido e decide muito.

5. Sinais vitais completos

Frequência cardíaca, pressão arterial, frequência respiratória e temperatura central. A frequência respiratória é o sinal mais negligenciado e o que mais rapidamente aponta opioide.

Bônus: exame neuromuscular

Clônus e hiperreflexia apontam serotoninérgico; rigidez em cano de chumbo aponta síndrome neuroléptica maligna; fasciculações apontam colinérgico.

Uma regra prática que resolve a maior parte das confusões: toque a axila do paciente. Pele seca em paciente quente e agitado é anticolinérgico até prova em contrário; pele encharcada muda completamente o raciocínio.

A matriz dos sinais vitais

Esta é a tabela que vale memorizar. As setas indicam o comportamento típico de cada parâmetro em cada toxíndrome.

Toxíndrome FC PA FR Temp. Pupila Pele
Anticolinérgica = Midríase Seca
Colinérgica = Miose Encharcada
Simpaticomimética Midríase Suada
Opioide ↓↓ Miose puntiforme Normal
Sedativo-hipnótica = = ou ↓ = ou ↓ Normal Normal
Serotoninérgica ↑↑ Midríase Suada
Abstinência de sedativos Midríase Suada
Repare que simpaticomimética, serotoninérgica e abstinência de sedativos têm sinais vitais praticamente idênticos. O que as separa é o exame neuromuscular, a história e o contexto — não a monitorização. É justamente por isso que os sinais vitais sozinhos não fecham o diagnóstico.

Abordagem do paciente intoxicado indiferenciado

  1. Segurança da equipe. Em suspeita de agrotóxico ou agente corrosivo, use proteção adequada e considere descontaminação externa antes do atendimento assistencial.
  2. Via aérea, ventilação e circulação, com oxigênio suplementar e monitorização contínua.
  3. GLICEMIA CAPILAR EM TODOS. Hipoglicemia imita qualquer toxíndrome e é a causa reversível mais rápida de rebaixamento.
  4. Temperatura central, retal ou esofágica. A axilar subestima e faz perder hipertermia grave.
  5. Exame dirigido: estado mental, pupilas, pele, peristaltismo, reflexos, tônus e clônus.
  6. Eletrocardiograma de 12 derivações, procurando QRS alargado, QT prolongado e alterações isquêmicas.
  7. Naloxona se houver depressão respiratória com miose — titulada para restaurar ventilação, não para despertar.
  8. Tiamina antes de glicose no paciente com risco de desnutrição ou etilismo crônico.
  9. Laboratório dirigido: eletrólitos, função renal, gasometria, lactato, ânion gap, e paracetamol sérico em toda tentativa de suicídio.
  10. Acione o centro de informação toxicológica — o Disque-Intoxicação funciona 24 horas, no 0800 722 6001.
O antigo "coquetel do coma" com flumazenil foi abandonado. O flumazenil não deve ser usado como teste diagnóstico em coma indeterminado, pelo risco de convulsão de difícil controle. Oxigênio, glicose, tiamina e naloxona continuam válidos; flumazenil, não.

Limites do raciocínio sindrômico

Toxíndromes mistas

Policonsumo é a regra. Achados contraditórios — miose com taquicardia, agitação com bradipneia — sugerem mais de um agente, e não um exame mal feito.

Evolução temporal

A toxíndrome muda com o tempo. O simpaticomimético pode virar quadro de exaustão; o anticolinérgico pode iniciar com agitação e evoluir para coma.

Tratamento prévio

Sedativo dado na ambulância, atropina administrada antes da chegada e restrição física alteram completamente o quadro que você examina.

Comorbidade

Sepse, traumatismo cranioencefálico, encefalopatia e distúrbio metabólico imitam e se sobrepõem. Toxíndrome não exclui outra doença.

Nunca use a toxíndrome para fechar o raciocínio — use-a para abrir. Ela orienta a conduta imediata enquanto a investigação continua, e deve ser reavaliada a cada mudança do quadro.
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento com indicação, dose, alvo e cuidados. As doses são referências para adultos: confira a apresentação disponível e o protocolo do seu serviço antes de prescrever.

Abordagem inicial

O que fazer nos primeiros minutos, antes de saber qual é o agente — e que resolve a maior parte dos casos.

As seis toxíndromes clássicas

Cada uma tem um achado que a define e um erro clássico associado. Conhecer os dois é mais útil do que decorar listas de agentes.

Anticolinérgica

Antagonismo muscarínico

Quadro: delirium agitado com fala arrastada, alucinações visuais e táteis, midríase pouco reativa, pele quente e seca, mucosas secas, retenção urinária, íleo, hipertermia e taquicardia.

Agentes: anti-histamínicos de primeira geração, escopolamina, atropina, antidepressivos tricíclicos, antipsicóticos de baixa potência, antiespasmódicos, Datura (trombeteira).

Achado que define: pele e mucosas secas com retenção urinária.

Colinérgica

Inibição da acetilcolinesterase

Quadro muscarínico: a mnemônica clássica reúne diarreia, sudorese profusa, sialorreia, lacrimejamento, broncorreia, broncoespasmo, miose, bradicardia, vômitos e incontinência urinária.

Quadro nicotínico: fasciculações, fraqueza, cãibras, taquicardia e hipertensão — que podem mascarar o componente muscarínico.

Agentes: organofosforados e carbamatos (o "chumbinho"), gases dos nervos, fisostigmina, alguns cogumelos.

Achado que define: secreções em excesso. A causa de morte é a broncorreia, não a bradicardia.

Simpaticomimética

Excesso de catecolaminas

Quadro: agitação com hipervigilância, midríase reativa, pele quente e úmida, taquicardia, hipertensão, hipertermia, peristaltismo preservado ou aumentado.

Agentes: cocaína, anfetaminas e metanfetamina, MDMA, catinonas sintéticas, cafeína em dose alta, teofilina, descongestionantes.

Achado que define: sudorese preservada — é o que separa do anticolinérgico.

Opioide

Agonismo em receptores mu

Quadro: a tríade clássica é rebaixamento do nível de consciência, miose puntiforme e depressão respiratória. Somam-se hipotermia, bradicardia, hipotensão e redução do peristaltismo.

Agentes: morfina, codeína, tramadol, metadona, fentanil e análogos sintéticos, loperamida em dose alta.

Achado que define: bradipneia. A miose pode faltar com meperidina, tramadol e em coingestões.

Sedativo-hipnótica

Facilitação GABAérgica

Quadro: sonolência despertável, disartria, ataxia, nistagmo, com sinais vitais essencialmente preservados e pupilas normais.

Agentes: benzodiazepínicos, medicamentos Z, barbitúricos, etanol, gama-hidroxibutirato, gabapentinoides.

Achado que define: a ausência de achados autonômicos. Coma profundo com instabilidade sugere barbitúrico ou coingestão.

Serotoninérgica

Excesso de serotonina

Quadro: tríade de alteração do estado mental, hiperatividade autonômica e anormalidade neuromuscular, com clônus e hiperreflexia de predomínio em membros inferiores.

Agentes: inibidores da recaptação de serotonina, inibidores da monoaminoxidase, tramadol, linezolida, triptanos, MDMA, lítio, dextrometorfano.

Achado que define: clônus. Teste no tornozelo — leva cinco segundos e resolve o diferencial.

Os pares que mais confundem

Par Por que confunde O que separa
Anticolinérgica × simpaticomimética Ambas com agitação, midríase, taquicardia, hipertensão e hipertermia Pele e peristaltismo. Seca com íleo é anticolinérgica; suada com peristaltismo presente é simpaticomimética
Colinérgica × opioide Ambas com miose, bradicardia e depressão respiratória Secreções e peristaltismo. Broncorreia, sialorreia, diarreia e fasciculações são colinérgicas; opioide é "seco e parado"
Serotoninérgica × neuroléptica maligna Ambas com hipertermia, rigidez, alteração mental e instabilidade autonômica Clônus e tempo. Serotoninérgica instala em horas com clônus e hiperreflexia; neuroléptica maligna instala em dias com rigidez em cano de chumbo e hiporreflexia
Simpaticomimética × abstinência de sedativos Sinais vitais praticamente idênticos História e temporalidade. Pergunte quando foi a última dose de álcool ou de benzodiazepínico; tremor grosseiro e alucinações visuais favorecem abstinência
Sedativo-hipnótica × opioide Ambas com rebaixamento do nível de consciência Pupila e frequência respiratória. Miose puntiforme com bradipneia é opioide; pupila normal com respiração preservada é sedativo
Anticolinérgica × sepse ou psicose Delirium agitado com febre e taquicardia Pele seca, íleo e retenção urinária apontam anticolinérgico. Na dúvida, trate a hipótese infecciosa em paralelo

Outras síndromes que vale reconhecer

Asfixiantes celulares

Cianeto e monóxido de carbono. Acidose láctica grave desproporcional ao exame, com saturação de oxigênio normal ou falsamente elevada. Suspeite em incêndio em ambiente fechado e em cefaleia coletiva.

Alucinógena

Alucinações com senso de realidade preservado ou parcialmente preservado, midríase, taquicardia leve e sinais autonômicos discretos. LSD, psilocibina, mescalina.

Extrapiramidal

Distonia aguda, torcicolo, crise oculógira, acatisia e parkinsonismo, sem alteração do nível de consciência. Antipsicóticos e metoclopramida. Responde a anticolinérgico e a anti-histamínico.

Abstinência

De álcool, benzodiazepínico e opioide. As duas primeiras podem ser fatais; a terceira é muito sintomática, mas raramente letal em adultos.

Bloqueio de canal de sódio

Não é toxíndrome clássica, mas o padrão de QRS alargado com onda R em aVR aponta antidepressivo tricíclico, cocaína, difenidramina, cloroquina — e tem tratamento próprio.

Nefro e hepatotóxica tardia

Paracetamol, amanitina e paraquat cursam com fase inicial pobre e deterioração em 24 a 72 horas. A ausência de toxíndrome não afasta intoxicação grave.

Guarde esta ideia: as intoxicações mais letais frequentemente não têm toxíndrome. Paracetamol, metanol, etilenoglicol, paraquat e amanitina chegam com o paciente conversando. Por isso o rastreio de paracetamol e o cálculo do ânion gap são rotina em tentativa de suicídio.

As quatro síndromes hipertérmicas

São o grupo com maior letalidade e maior chance de erro diagnóstico. Todas cursam com hipertermia, alteração do estado mental e instabilidade autonômica — e cada uma tem tratamento específico diferente.

Síndrome Instalação Achado neuromuscular Agente Tratamento específico
Serotoninérgica Horas Clônus e hiperreflexia, predomínio em membros inferiores Serotoninérgicos, muitas vezes em associação Suspender o agente, benzodiazepínico, resfriamento; ciproeptadina nos casos moderados
Neuroléptica maligna Dias a semanas Rigidez em cano de chumbo, hiporreflexia, bradicinesia Antipsicóticos; ou retirada abrupta de dopaminérgico Suspender o agente, benzodiazepínico, resfriamento; bromocriptina ou dantroleno em casos graves
Hipertermia maligna Minutos, no intraoperatório Rigidez com espasmo de masseter, elevação abrupta do gás carbônico expirado Anestésicos inalatórios halogenados e succinilcolina Dantroleno, suspensão do agente, resfriamento e correção da hipercalemia
Anticolinérgica Horas Sem rigidez, sem clônus; mioclonias podem ocorrer Anti-histamínicos, escopolamina, tricíclicos, Datura Benzodiazepínico e resfriamento; fisostigmina em casos selecionados
Simpaticomimética Minutos a horas Sem rigidez; tremor e agitação intensa Cocaína, anfetaminas, MDMA, catinonas Benzodiazepínico titulado e resfriamento agressivo
Em todas elas, a medida que mais muda desfecho é a mesma: medir a temperatura central e resfriar rapidamente. Antitérmicos não funcionam, porque não há deslocamento do ponto de ajuste hipotalâmico. Dantroleno é específico da hipertermia maligna e adjuvante na neuroléptica maligna — não é tratamento genérico de hipertermia.

Diferenciador das síndromes hipertérmicas

Tempo de instalação Padrão neuromuscular Agente envolvido

Preencha os achados do caso para ver quais síndromes são mais compatíveis. A ferramenta pondera cada achado e devolve um ranking de compatibilidade — não um diagnóstico.

Ferramenta de apoio ao raciocínio, sem validação prospectiva. Para a síndrome serotoninérgica existem critérios formais — os critérios de Hunter —, que exigem exposição a agente serotoninérgico associada a clônus espontâneo, clônus induzível ou ocular com agitação ou sudorese, tremor com hiperreflexia, ou hipertonia com temperatura acima de 38 °C e clônus.

O que é comum a todas

  1. MEÇA A TEMPERATURA CENTRAL, retal ou esofágica. A axilar subestima e é a causa mais frequente de hipertermia não reconhecida.
  2. Suspenda o agente desencadeante imediatamente e revise toda a prescrição.
  3. Resfriamento ativo quando a temperatura central estiver igual ou acima de 39 °C, com meta abaixo de 38,5 °C o mais rápido possível.
  4. Benzodiazepínico titulado — reduz a produção endógena de calor pela atividade muscular e é a base do tratamento em quase todas.
  5. Hidratação com cristaloide e monitorização da diurese, pela rabdomiólise associada.
  6. Não use antitérmicos: o mecanismo não é o de deslocamento do ponto de ajuste hipotalâmico.
  7. Casos refratários: intubação com sedação profunda e bloqueio neuromuscular não despolarizante, preferindo rocurônio quando há rabdomiólise ou hipercalemia.
  8. Monitorize creatinoquinase, potássio, função renal, coagulação e gasometria — a coagulação intravascular disseminada é complicação temida.
Evite antipsicóticos no manejo da agitação dessas síndromes: reduzem o limiar convulsivo, prolongam o intervalo QT e prejudicam a termorregulação — e na neuroléptica maligna são a própria causa.

Síndromes hipertérmicas

Quatro condutas em que a diferenciação correta muda o tratamento específico — e o desfecho.

Identificador de toxíndrome

7 achados Ranking de compatibilidade Conduta imediata

Preencha os achados do exame físico. A ferramenta pondera cada item conforme o peso diagnóstico que ele tem em cada toxíndrome e devolve as três hipóteses mais compatíveis, com o achado que confirmaria cada uma e a conduta imediata correspondente.

Ferramenta de apoio ao raciocínio, construída a partir dos perfis clássicos descritos na literatura de toxicologia clínica. Não é escore validado e não substitui o julgamento clínico. Compatibilidade baixa em todas as hipóteses costuma significar toxíndrome mista, tratamento prévio ou causa não toxicológica — e é uma informação útil por si só.

Como usar o resultado

  • Compatibilidade alta em uma hipótese — trate como tal, mas mantenha a investigação aberta e reavalie após cada intervenção.
  • Duas hipóteses próximas — procure ativamente o achado que as separa: pele, peristaltismo, clônus ou frequência respiratória.
  • Compatibilidade baixa em todas — pense em toxíndrome mista, em modificação por tratamento prévio ou em causa não toxicológica.
  • Achados contraditórios — miose com taquicardia, agitação com bradipneia — apontam policonsumo, que é a regra e não a exceção.
  • Nunca administre antídoto com base apenas no ranking: confirme a compatibilidade clínica e considere as contraindicações.

Os exames que realmente mudam conduta

A triagem toxicológica urinária quase nunca muda a conduta na emergência. Os exames abaixo, sim — e todos estão disponíveis na maioria dos serviços.

Exame O que procura Consequência prática
Glicemia capilarHipoglicemia, que imita qualquer toxíndromeObrigatória em todo rebaixamento. Corrija antes de qualquer outra hipótese
EletrocardiogramaQRS alargado com onda R em aVR; QT prolongado; arritmiasQRS acima de 100 a 120 ms indica bloqueio de canal de sódio e bicarbonato de sódio; QT longo pede correção de potássio e magnésio
Gasometria com lactatoAcidose metabólica e sua magnitudeAcidose láctica grave desproporcional ao exame sugere cianeto, metformina ou monóxido de carbono
Eletrólitos com ânion gapAcidose metabólica com ânion gap elevadoDireciona para álcoois tóxicos, salicilato, metformina, ferro e isoniazida
Osmolalidade séricaGap osmolar elevadoSugere metanol, etilenoglicol, etanol ou isopropanol — e antecipa fomepizol e diálise
Paracetamol séricoCoingestão silenciosa e tratávelRastreio em toda tentativa de suicídio por ingestão, mesmo sem história de paracetamol
CreatinoquinaseRabdomióliseFrequente em agitação, hipertermia e convulsão; orienta hidratação e vigilância renal
Co-oximetriaCarboxi-hemoglobina e metemoglobinaA oximetria de pulso não detecta nenhuma das duas e pode dar falsa segurança
Beta-hCGGestaçãoMuda investigação, imagem e manejo
Triagem urináriaClasses de drogas de abusoRaramente muda conduta. Falso-negativos e falso-positivos são frequentes; não use para excluir

Calculadora de ânion gap e gap osmolar

Ânion gap corrigido Gap osmolar

Informe os valores do paciente. O ânion gap é corrigido pela albumina, porque a hipoalbuminemia mascara acidoses com ânion gap elevado — armadilha frequente no paciente crítico.

Ânion gap
Corrigido pela albumina
Gap osmolar
Interpretação
Ânion gap = sódio menos a soma de cloro e bicarbonato, com referência habitual de 8 a 12 mEq/L. A correção soma cerca de 2,5 mEq/L para cada 1 g/dL de albumina abaixo de 4. Osmolalidade calculada = 2 × sódio + glicemia ÷ 18 + ureia ÷ 6. Deixe a osmolalidade medida em zero se não dispuser do exame — nesse caso, o gap osmolar não é calculado.

Acidose com ânion gap elevado: as causas tóxicas

Diante de acidose metabólica com ânion gap elevado em paciente intoxicado, percorra sistematicamente esta lista antes de assumir causa clínica.

  • Metanol — acidose grave, alteração visual, gap osmolar elevado. Antídoto: fomepizol ou etanol, com diálise.
  • Etilenoglicol — acidose grave, cristais de oxalato na urina, lesão renal aguda, gap osmolar elevado.
  • Salicilatos — alcalose respiratória somada a acidose metabólica, zumbido, hipertermia. Alcalinização urinária e diálise nos casos graves.
  • Metformina — acidose láctica grave, geralmente com disfunção renal associada. Diálise nos casos graves.
  • Ferro — acidose, vômitos, hematêmese, comprimidos radiopacos à imagem. Antídoto: desferroxamina.
  • Isoniazida — convulsão refratária com acidose láctica. Antídoto: piridoxina em dose alta.
  • Cianeto e monóxido de carbono — lactato muito elevado com exame relativamente pobre.
  • Cetoacidose alcoólica — contexto de etilismo, jejum e vômitos, frequentemente confundida com intoxicação.
O gap osmolar normal não exclui intoxicação por álcool tóxico: ele cai à medida que o álcool é metabolizado nos ácidos que causam a acidose. Chegada tardia costuma cursar com gap osmolar baixo e ânion gap alto — o oposto do padrão clássico ensinado.

O eletrocardiograma como exame toxicológico

QRS alargado

Bloqueio de canal de sódio. Onda R em aVR maior que 3 mm reforça. Agentes: antidepressivos tricíclicos, cocaína, difenidramina, cloroquina, bupropiona, flecainida. Conduta: bicarbonato de sódio 1 a 2 mEq/kg.

QT prolongado

Bloqueio de canal de potássio, com risco de torsades de pointes. Agentes: antipsicóticos, metadona, antiarrítmicos, macrolídeos, antieméticos. Conduta: corrigir potássio e magnésio, suspender o agente.

Bradicardia

Betabloqueador, bloqueador de canal de cálcio, digoxina, clonidina, organofosforado, opioide. Cada um tem antídoto ou conduta própria.

Padrões específicos

Impregnação digitálica com bradiarritmia e extrassístoles; padrão de Brugada induzido por bloqueadores de sódio; isquemia por vasoespasmo na cocaína.

O eletrocardiograma é barato, imediato e disponível — e frequentemente é o único exame que muda a conduta na primeira hora. Faça em todo paciente intoxicado, mesmo com toxíndrome aparentemente benigna.

Antídotos por toxíndrome e por agente

Antídoto é a exceção, não a regra: a maioria das intoxicações se trata com suporte. Quando existe, porém, costuma mudar o desfecho de forma decisiva — e o atraso custa caro.

Agente ou toxíndrome Antídoto Observação
OpioidesNaloxonaTitular para restaurar ventilação, não para despertar. Duração menor que a da maioria dos opioides
Organofosforados e carbamatosAtropina e pralidoximaAtropina titulada pela secreção brônquica, não pela frequência cardíaca. Pralidoxima apenas nos organofosforados
ParacetamolN-acetilcisteínaEficácia máxima nas primeiras 8 a 10 horas. Guiada pelo nomograma quando o horário é conhecido
Metanol e etilenoglicolFomepizol ou etanolAssociar cofatores e considerar hemodiálise. Iniciar antes da confirmação laboratorial quando a suspeita é forte
Bloqueio de canal de sódioBicarbonato de sódio1 a 2 mEq/kg em bolus para QRS acima de 100 a 120 ms, repetido conforme o eletrocardiograma
CianetoHidroxocobalaminaAlternativa: tiossulfato de sódio. Suspeite em incêndio em ambiente fechado com lactato muito elevado
Monóxido de carbonoOxigênio a 100%Câmara hiperbárica em casos selecionados. A oximetria de pulso não detecta carboxi-hemoglobina
MetemoglobinemiaAzul de metilenoCianose que não melhora com oxigênio, com diferença entre a saturação do oxímetro e a da gasometria
BetabloqueadoresGlucagonAssociar cálcio, vasopressor e, em casos refratários, insulina em dose alta com glicose
Bloqueadores de canal de cálcioCálcio e insulina em dose altaA terapia com insulina em dose alta e glicose é central nos casos graves
DigoxinaFragmentos Fab antidigoxinaIndicado em arritmia ameaçadora, hipercalemia significativa ou ingestão maciça
FerroDesferroxaminaCasos com acidose, choque ou concentração sérica elevada
IsoniazidaPiridoxinaConvulsão refratária a benzodiazepínico. Dose grama a grama da isoniazida ingerida
AnticolinérgicaFisostigminaCasos selecionados, com delirium puro e sem sinais de bloqueio de canal de sódio no eletrocardiograma
Síndrome serotoninérgicaCiproeptadinaAdjuvante. A base é suspender o agente, sedar com benzodiazepínico e resfriar
BenzodiazepínicosFlumazenilRaramente indicado. Contraindicado no usuário crônico e na coingestão proconvulsivante
Vários desses antídotos têm disponibilidade irregular no Brasil. Conheça o estoque do seu serviço e o hospital de referência da sua região antes de precisar deles, e acione o centro de informação toxicológica precocemente — ele também orienta sobre onde localizar o antídoto.

Regras gerais sobre antídotos

  • Suporte primeiro. Nenhum antídoto substitui via aérea, ventilação, volume e correção metabólica.
  • Toxíndrome compatível é pré-requisito. Antídoto administrado às cegas troca um risco conhecido por outro desconhecido.
  • Titule pelo alvo fisiológico, não pela dose no papel — vale sobretudo para naloxona e atropina.
  • Considere a duração relativa: naloxona e flumazenil duram menos que os agentes que antagonizam, e a ressedação é esperada.
  • Alguns antídotos têm risco próprio significativo: flumazenil precipita convulsão, fisostigmina pode causar bradicardia e assistolia.
  • Não atrase o antídoto esperando confirmação laboratorial quando a suspeita é forte e o tempo importa — como nos álcoois tóxicos e no paracetamol.
  • Acione a toxicologia: a decisão sobre antídotos de uso incomum é exatamente o que o centro de informação existe para apoiar.

Antídotos por toxíndrome

Cinco situações em que o antídoto é decisivo — e em que a dose e o alvo de titulação importam tanto quanto a indicação.

Situações particulares

Cenário Particularidade O que fazer diferente
Criança pequena Ingestão exploratória de dose única de medicamento de adulto pode ser letal — a chamada regra do "um comprimido pode matar". Atenção redobrada com antidepressivos tricíclicos, bloqueadores de canal de cálcio, sulfonilureias, opioides, cânfora, teofilina e cloroquina. Observação prolongada mesmo se assintomática.
Idoso Toxíndromes atenuadas ou atípicas; polifarmácia; interações; menor reserva funcional. Rebaixamento no idoso pode ser intoxicação, sepse, distúrbio metabólico ou as três coisas. Revise a prescrição inteira e considere efeito anticolinérgico somado.
Gestante A melhor conduta para o feto é a estabilização materna. Alguns antídotos têm dados limitados na gestação. Trate a mãe integralmente, sem retardar antídoto por receio teórico. Associe avaliação obstétrica e monitorização fetal conforme a idade gestacional.
Exposição ocupacional Agrotóxicos, solventes e gases. O paciente pode contaminar a equipe. Descontaminação externa antes do atendimento assistencial, com equipe protegida. Notifique como acidente de trabalho.
Vítimas múltiplas Vários pacientes com o mesmo quadro apontam exposição comum — gás, alimento, água, evento em ambiente fechado. Não entre no local sem proteção. Acione bombeiros e vigilância. Cefaleia coletiva em ambiente fechado sugere monóxido de carbono.
Paciente sob custódia História frequentemente omitida, incluindo ingestão de pacotes de drogas. Priorize o atendimento médico. Considere imagem abdominal diante de toxíndrome inexplicada ou deterioração súbita.
Tentativa de suicídio Coingestão múltipla é a regra; a história é frequentemente incompleta ou minimizada. Rastreie paracetamol, faça eletrocardiograma e calcule o ânion gap em todos. Avaliação de risco de suicídio antes da alta, com a saúde mental.
Intoxicação sem toxíndrome Paracetamol, metanol, etilenoglicol, paraquat, amanitina e ferro cursam com fase inicial pobre e deterioração tardia. Ausência de toxíndrome não afasta intoxicação grave. Baseie-se na história, no laboratório e no tempo decorrido.
Toxíndrome mista Achados contraditórios, com compatibilidade baixa em todas as hipóteses. Trate o achado mais ameaçador primeiro — via aérea, convulsão, arritmia, hipertermia — e reavalie com frequência.
Uso de plantas e produtos caseiros Datura (trombeteira) causa toxíndrome anticolinérgica intensa; chumbinho é carbamato; produtos de limpeza misturados liberam gases irritantes. Pergunte ativamente sobre chás, plantas e produtos domésticos. É informação que raramente aparece sem ser solicitada.

Erros comuns

  • Iniciar o raciocínio sindrômico antes de estabilizar via aérea, ventilação e circulação.
  • Deixar de medir a glicemia capilar em paciente com rebaixamento do nível de consciência.
  • Medir apenas a temperatura axilar e perder uma hipertermia grave.
  • Não auscultar o abdome — o peristaltismo separa toxíndromes que os sinais vitais não separam.
  • Não tocar a pele do paciente e confundir anticolinérgico com simpaticomimético.
  • Não testar clônus e confundir síndrome serotoninérgica com neuroléptica maligna.
  • Excluir intoxicação porque a triagem urinária veio negativa.
  • Confiar na oximetria de pulso em suspeita de monóxido de carbono ou metemoglobinemia.
  • Usar flumazenil como teste diagnóstico em coma de causa indeterminada.
  • Titular atropina pela frequência cardíaca em vez da secreção brônquica na intoxicação colinérgica.
  • Não fazer eletrocardiograma em paciente com toxíndrome aparentemente benigna.
  • Não rastrear paracetamol em tentativa de suicídio sem história de paracetamol.
  • Não calcular o ânion gap diante de acidose metabólica em paciente intoxicado.
  • Interpretar gap osmolar normal como exclusão de intoxicação por álcool tóxico.
  • Usar dantroleno como tratamento genérico de hipertermia.
  • Prescrever antipsicótico para agitação em síndrome hipertérmica.
  • Fechar o diagnóstico na toxíndrome e deixar de investigar sepse, trauma e causa metabólica.
  • Não acionar o centro de informação toxicológica em caso de dúvida.

Resumo do fluxo

  1. Proteja a equipe e considere descontaminação externa antes de trazer o paciente para a área assistencial.
  2. ESTABILIZE: via aérea, ventilação, circulação, glicemia capilar e temperatura central vêm antes de qualquer raciocínio sindrômico.
  3. Faça o exame dirigido dos cinco pilares: estado mental, pupilas, pele, peristaltismo e sinais vitais completos.
  4. Acrescente o exame neuromuscular: clônus, rigidez, fasciculações e tremor.
  5. Formule a hipótese sindrômica e identifique o achado que a confirmaria ou a afastaria.
  6. Faça eletrocardiograma em todos e colha laboratório dirigido, com paracetamol em tentativa de suicídio.
  7. Calcule ânion gap e, quando houver acidose inexplicada, gap osmolar.
  8. Trate a toxíndrome: suporte sempre, antídoto quando houver indicação clara e compatibilidade clínica.
  9. Reavalie com frequência — a toxíndrome muda com o tempo e com o tratamento administrado.
  10. Acione o centro de informação toxicológica, avalie risco de suicídio e defina destino e seguimento.

Situações particulares

Três contextos em que o raciocínio padrão precisa ser explicitamente ajustado.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

  1. Nelson LS, Howland MA, Lewin NA, et al. Goldfrank's Toxicologic Emergencies, 11ª edição. McGraw-Hill, 2019.
  2. Olson KR, Anderson IB, Benowitz NL, et al. Poisoning & Drug Overdose, 8ª edição. McGraw-Hill, 2022.
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  16. Ministério da Saúde e Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica (RENACIAT). Orientações vigentes sobre atendimento ao paciente intoxicado — Disque-Intoxicação 0800 722 6001.

Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional, destinada a profissionais de saúde. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. As ferramentas interativas deste artigo não são escores validados e servem apenas para organizar o raciocínio. Doses e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação. Em caso de intoxicação, acione o Centro de Informação e Assistência Toxicológica de referência pelo Disque-Intoxicação, 0800 722 6001. Se você ou alguém que você conhece estiver em sofrimento psíquico, o CVV pode ser acionado pelo telefone 188, 24 horas por dia.

Informações rápidas

Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.

O essencial

Os cinco pilares

Estado mental, pupilas, pele, peristaltismo e sinais vitais completos, incluindo temperatura central e frequência respiratória. Some o exame neuromuscular: clônus, rigidez, fasciculações e tremor. Isso leva menos de um minuto e vale mais que qualquer triagem urinária.

As seis clássicas

Anticolinérgica (pele seca, íleo, retenção), colinérgica (secreções, miose, fasciculações), simpaticomimética (suor, midríase, hipertermia), opioide (miose puntiforme, bradipneia), sedativo-hipnótica (sonolência sem achado autonômico) e serotoninérgica (clônus e hiperreflexia).

Os pares que confundem

Pele seca separa anticolinérgico de simpaticomimético. Secreções e peristaltismo separam colinérgico de opioide. Clônus separa serotoninérgica de neuroléptica maligna. Pupila e frequência respiratória separam opioide de sedativo.

Agir sem diagnóstico

Glicemia capilar, oxigênio, temperatura central e eletrocardiograma em todos. Naloxona se houver bradipneia com miose. Nada de flumazenil como teste diagnóstico. Rastreie paracetamol em toda tentativa de suicídio e calcule o ânion gap diante de acidose.

Números rápidos

Pele: seca é anticolinérgico; suada é simpaticomimético; encharcada é colinérgico.

Pupilas: miose puntiforme com bradipneia é opioide até prova em contrário.

Neuromuscular: clônus é serotoninérgico; rigidez em cano de chumbo é neuroléptica maligna.

QRS alargado: acima de 100 a 120 ms indica bicarbonato de sódio 1 a 2 mEq/kg em bolus.

Ânion gap: normal de 8 a 12 mEq/L; some 2,5 para cada 1 g/dL de albumina abaixo de 4.

Gap osmolar: acima de 10 mOsm/kg sugere álcool tóxico; normal não exclui chegada tardia.

Não esqueça

Glicemia capilar e temperatura central em todos.

Ausculte o abdome — o peristaltismo decide o que os sinais vitais não decidem.

As intoxicações mais letais frequentemente não têm toxíndrome: paracetamol, metanol, paraquat.

Triagem urinária negativa não exclui intoxicação.

Oximetria de pulso não detecta carboxi-hemoglobina nem metemoglobina.

A toxíndrome abre o raciocínio; não o fecha. Sepse e trauma coexistem.

Em provas / residência

A banca cobra a diferenciação entre anticolinérgico e simpaticomimético pela pele, e entre serotoninérgica e neuroléptica maligna pelo clônus e pelo tempo de instalação.

Decore: a mnemônica colinérgica das secreções; QRS alargado pede bicarbonato de sódio; gap osmolar elevado aponta álcool tóxico; oximetria normal não afasta monóxido de carbono.

Mais informações nas abas do artigo.

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