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Síndrome compartimental

Emergência cirúrgica em que a pressão dentro de um compartimento fechado supera a pressão de perfusão e o músculo começa a morrer — com o pulso distal ainda presente. O diagnóstico é clínico, o relógio corre em horas e o tratamento é um só: fasciotomia ampla e precoce.

Dor desproporcional Delta P ≤ 30 mmHg Pulso presente não exclui Fasciotomia é o tratamento
Tempo de leitura: 14 min
Atualizado em: 12/08/2026

Suspeitar

  • Fratura de tíbia, antebraço ou lesão por esmagamento
  • Dor desproporcional ao achado e crescente
  • Necessidade progressiva de analgésico
  • Compartimento tenso e doloroso à palpação

Reconhecer

  • Dor ao estiramento passivo é o sinal mais precoce
  • Parestesia surge antes da paralisia
  • Palidez, paralisia e ausência de pulso são tardias
  • Pulso presente jamais exclui o diagnóstico

Medir quando necessário

  • Delta P = PAD − pressão intracompartimental
  • Delta P ≤ 30 mmHg indica fasciotomia
  • Uma medida normal isolada não exclui
  • Essencial no paciente não avaliável

Descomprimir

  • Remover gesso, tala e curativos circunferenciais
  • Membro na altura do coração — nunca elevado
  • Fasciotomia ampla de todos os compartimentos
  • Prevenir e tratar rabdomiólise

O que é

Síndrome compartimental aguda é o aumento da pressão dentro de um espaço osteofascial fechado a ponto de comprometer a perfusão e a viabilidade dos tecidos daquele compartimento. A fáscia é praticamente inelástica: pequenos aumentos de volume — sangue, edema, líquido de reperfusão — produzem grandes aumentos de pressão.

É emergência cirúrgica. O tempo entre o início da isquemia e a descompressão determina o desfecho: músculo e nervo toleram poucas horas de isquemia antes de lesão irreversível. E é uma das principais causas de litígio por diagnóstico tardio em ortopedia e emergência.

A presença de pulso distal palpável é a regra, não a exceção. O fluxo arterial se mantém enquanto a pressão do compartimento já ultrapassou a pressão de perfusão capilar. Esperar o pulso desaparecer é esperar a amputação.

A cascata

Tudo começa com aumento do conteúdo (hematoma, edema, extravasamento) ou redução do continente (gesso apertado, curativo circunferencial, queimadura em couraça). A pressão sobe, colaba primeiro as vênulas, o retorno venoso cai e a pressão sobe ainda mais — um ciclo que se retroalimenta.

Quando a pressão intracompartimental se aproxima da pressão diastólica, o gradiente que sustenta a perfusão capilar desaparece. O músculo entra em isquemia, libera mediadores, o edema aumenta e a pressão sobe outra vez. A artéria principal, de alta pressão, continua pérvia — e o pulso, palpável.

Tempos de tolerância à isquemia

  • Nervo — alteração funcional em cerca de 30 minutos; lesão irreversível a partir de 12 a 24 horas.
  • Músculo — alterações em 2 a 4 horas; necrose progressiva a partir de 4 a 8 horas.
  • Fasciotomia em até 6 horas — bom prognóstico funcional na maioria das séries.
  • Acima de 12 horas — sequela funcional frequente e maior risco de infecção e amputação.
A conta que define tudo

Delta P (pressão diferencial) = pressão arterial diastólica − pressão intracompartimental. Valor ≤ 30 mmHg indica descompressão. É por isso que a hipotensão agrava a síndrome compartimental: com a diastólica baixa, o delta P despenca mesmo sem grande aumento da pressão no compartimento.

Compartimentos que mais importam

Conhecer a anatomia é o que permite examinar corretamente e planejar a fasciotomia. A perna é o sítio mais frequente, e o compartimento anterior é o mais acometido.

Perna — 4 compartimentos

Anterior: tibial anterior e extensores; nervo fibular profundo. Dor à flexão plantar passiva; hipoestesia no primeiro espaço interdigital; perda da dorsiflexão (pé caído). O mais acometido.

Lateral: fibulares; nervo fibular superficial. Dor à inversão passiva; hipoestesia no dorso do pé.

Posterior superficial: gastrocnêmio e sóleo. Dor à dorsiflexão passiva.

Posterior profundo: flexores; nervo tibial. Dor à extensão passiva dos dedos; hipoestesia plantar.

Antebraço — 3 compartimentos

Volar (flexor): o mais acometido; contém os nervos mediano e ulnar. Dor à extensão passiva dos dedos.

Dorsal (extensor): dor à flexão passiva dos dedos.

Móvel lateral: braquiorradial e extensores radiais do carpo.

Complicação temida: contratura isquêmica de Volkmann, com mão em garra e perda funcional definitiva.

Coxa e braço

Coxa — 3 compartimentos: anterior (quadríceps), posterior (isquiotibiais) e medial (adutores). Menos frequente, exige grande energia; associada a fratura de fêmur e esmagamento.

Braço — 2 compartimentos: anterior e posterior. Associado a fratura de úmero e lesão vascular.

Mão, pé e glúteo

Mão: múltiplos compartimentos (interósseos, tenar, hipotenar). Posição intrínseca-plus, dor à abdução passiva dos dedos.

Pé: vários compartimentos descritos; associado a fratura de calcâneo e Lisfranc. Indicação de fasciotomia mais debatida.

Glúteo: após imobilização prolongada, intoxicação e uso de drogas — clássico do paciente encontrado caído.

As três perguntas da avaliação

Existe risco?

Mecanismo, fratura, esmagamento, reperfusão após isquemia arterial, gesso ou curativo circunferencial, coagulopatia. O risco define a intensidade da vigilância.

O exame é confiável?

Paciente alerta e comunicativo permite diagnóstico clínico com reavaliação seriada. Paciente sedado, intubado, com bloqueio regional, lesão medular ou criança pequena exige medida de pressão.

Já é hora de operar?

Diante de quadro clínico evolutivo ou delta P ≤ 30 mmHg, a resposta é sim. Na dúvida, o custo de uma fasciotomia desnecessária é muito menor que o de uma tardia.

A ferramenta de maior valor não é o manômetro: é o exame seriado documentado com horário pelo mesmo raciocínio clínico, comparando cada avaliação com a anterior.

Mecanismos: conteúdo aumentado ou continente reduzido

Mecanismo Causas Observação
Sangramento no compartimento Fratura (sobretudo tíbia e antebraço), lesão vascular, coagulopatia, uso de anticoagulante, punção arterial. A fratura de tíbia é a causa isolada mais frequente — e a fratura fechada não protege: pode ser mais perigosa que a exposta.
Edema por lesão direta Esmagamento, contusão muscular grave, queimadura, lesão elétrica, picada de animal peçonhento. Acidente por serpente do gênero Bothrops pode causar edema volumoso — mas a maioria dos casos não evolui para síndrome compartimental verdadeira.
Reperfusão Após revascularização, embolectomia, torniquete prolongado ou correção de isquemia arterial aguda. O edema de reperfusão é intenso e precoce: considere fasciotomia profilática quando a isquemia foi prolongada.
Aumento de volume não traumático Exercício extenuante, infiltração de fluido ou contraste, infusão intraóssea mal posicionada, infecção necrosante, trombose venosa extensa, nefropatia com edema volumoso. A forma não traumática é subdiagnosticada justamente por não haver o gatilho esperado.
Redução do continente Gesso ou tala circunferencial apertados, curativo compressivo, escara de queimadura circunferencial, roupas ou dispositivos constritivos, fechamento fascial sob tensão. Causa iatrogênica e imediatamente reversível: abrir o gesso até a pele é a primeira medida.
Compressão prolongada Paciente encontrado caído após intoxicação, coma ou uso de drogas; posicionamento cirúrgico prolongado (litotomia). Clássico da síndrome compartimental de glúteo e coxa, quase sempre com rabdomiólise associada.

Fatores de risco que aumentam a vigilância

Fratura de tíbia

Principal causa. Fraturas diafisárias e do platô tibial são as de maior risco; a fratura fechada não é protetora.

Fratura de antebraço e supracondiliana

Alto risco em crianças e adolescentes, com risco de contratura de Volkmann.

Homem jovem

Maior massa muscular em compartimento de mesmo tamanho — grupo classicamente descrito como de maior risco.

Lesão vascular e reperfusão

Isquemia prolongada seguida de restauração do fluxo é um dos cenários de maior risco.

Coagulopatia e anticoagulação

Sangramento maior dentro do compartimento, às vezes após trauma banal.

Hipotensão

Reduz a diastólica e, com ela, o delta P: o paciente chocado desenvolve síndrome compartimental com pressões intracompartimentais menores.

Em politraumatizados e queimados, a ressuscitação volêmica agressiva é fator de risco adicional: o edema tecidual acumulado eleva a pressão em compartimentos já comprometidos.

O paciente que não pode contar

A dor é o sintoma mais precoce e mais confiável — e desaparece exatamente nos pacientes de maior risco. Sedado, intubado, com traumatismo cranioencefálico, intoxicado, com lesão medular, com bloqueio regional ou criança pequena: nenhum deles vai relatar dor desproporcional. Nesses casos, a vigilância clínica isolada é insuficiente e a medida da pressão intracompartimental — de preferência contínua ou repetida — passa a ser parte obrigatória do cuidado. Registre a decisão de monitorizar (ou de não monitorizar) e a justificativa.

Os "6 P" — e por que a ordem importa

Os sinais clássicos aparecem em sequência temporal. Os primeiros são os úteis; os últimos indicam que o dano já está feito.

Sinal Momento Valor prático
Dor (pain) Precoce Desproporcional ao achado, progressiva e refratária a analgésico. Dor ao estiramento passivo da musculatura do compartimento é o sinal mais sensível. Necessidade crescente de opioide é sinal de alarme.
Pressão (pressure) Precoce Compartimento tenso, endurecido e doloroso à palpação, com aumento visível do volume. Compare sempre com o membro contralateral.
Parestesia Intermediário Alteração da sensibilidade no território do nervo que atravessa o compartimento — primeira manifestação de sofrimento neurológico. Ainda reversível.
Paralisia Tardio Perda motora indica lesão neuromuscular estabelecida. Prognóstico funcional já comprometido.
Palidez (pallor) Tardio Sinal inconsistente; a pele frequentemente está normal ou até hiperemiada e tensa.
Ausência de pulso (pulselessness) Muito tardio Não use como critério. Quando o pulso some, o compartimento já está inviável — ou existe lesão arterial associada.
Regra prática: os três "P" que importam na sala são dor desproporcional, dor ao estiramento passivo e compartimento tenso. Os demais chegam tarde demais.

Como examinar corretamente

  • Palpe cada compartimento separadamente, comparando com o membro contralateral — não avalie "a perna" como um todo.
  • Estiramento passivo dirigido: na perna, flexão plantar passiva testa o compartimento anterior; dorsiflexão passiva testa o posterior superficial; extensão passiva dos dedos testa o posterior profundo; inversão passiva testa o lateral.
  • No antebraço, extensão passiva dos dedos testa o compartimento volar e flexão passiva testa o dorsal.
  • Teste a sensibilidade nos territórios específicos: primeiro espaço interdigital (fibular profundo), dorso do pé (fibular superficial), planta (tibial).
  • Retire o gesso, a tala e o curativo antes de examinar — não se avalia compartimento através de imobilização.
  • Registre com horário e reavalie em intervalos curtos, idealmente pelo mesmo examinador.
  • Anote o consumo de analgésico: escalada rápida de dose é dado objetivo de piora.
Bloqueio regional e analgesia peridural podem mascarar completamente a dor. Em membro de risco, discuta com a anestesia antes de indicá-los — e, se usados, monitorize a pressão.

Diagnósticos diferenciais

Condição Como diferenciar
Oclusão arterial agudaPulso ausente desde o início, membro frio e pálido, dor de instalação súbita. Compartimentos habitualmente moles. Pode coexistir e evoluir para síndrome compartimental após a revascularização.
Trombose venosa profundaEdema difuso, dor menos intensa, sem dor ao estiramento passivo desproporcional. Ultrassonografia com doppler esclarece — mas TVP extensa também pode causar síndrome compartimental.
Celulite e fasciíte necrosanteSinais inflamatórios cutâneos, febre, toxemia; na fasciíte, dor desproporcional, crepitação, bolhas e evolução fulminante. Ambas podem ter compartimento tenso — a fasciíte também é emergência cirúrgica.
Lesão nervosa diretaDéficit desde o momento do trauma, sem progressão e sem dor desproporcional ao estiramento.
Contusão muscular simplesDor localizada, sem tensão compartimental, com melhora progressiva e boa resposta ao analgésico.
Síndrome compartimental crônica de esforçoDor previsível durante o exercício, com alívio ao repouso, em atleta. Diagnóstico ambulatorial, com medida de pressão pós-esforço — não é emergência.
Exames de imagem não fazem o diagnóstico de síndrome compartimental aguda. Ultrassonografia e tomografia servem para avaliar diferenciais (trombose, hematoma, coleção), não para confirmar ou excluir a síndrome.

Quando medir

O diagnóstico é clínico. A medida da pressão intracompartimental é um auxílio — indispensável em algumas situações, dispensável em outras.

Medir

  • Paciente não avaliável: sedado, intubado, com rebaixamento, intoxicado, com lesão medular ou criança pequena.
  • Bloqueio regional ou analgesia peridural em vigência.
  • Quadro clínico duvidoso ou achados equívocos.
  • Necessidade de monitorização repetida ou contínua em membro de alto risco.

Não é necessário medir

  • Quadro clínico evidente e evolutivo em paciente avaliável — leve à fasciotomia.
  • Quando a medida for atrasar a cirurgia já indicada.
  • Diante de dano neuromuscular irreversível estabelecido, em que a fasciotomia deixa de ser indicada.
Uma única medida normal não exclui o diagnóstico. A pressão varia com o tempo, com a distância do foco de fratura e com a técnica. Medidas repetidas ou monitorização contínua têm desempenho muito superior à medida isolada.

Como medir

  • Dispositivo: manômetro de agulha dedicado (tipo Stryker) ou transdutor de pressão arterial acoplado a agulha e equipo — este último é a alternativa mais disponível na maioria dos serviços.
  • Zeragem do sistema ao nível do compartimento a ser medido, com o membro na altura do coração.
  • Local: até 5 cm do nível da fratura, onde a pressão é mais alta — medidas distantes subestimam o valor.
  • Meça todos os compartimentos do segmento, e não apenas o mais suspeito.
  • Registre a pressão diastólica no mesmo momento — o delta P depende dela.
  • Repita as medidas ao longo do tempo ou mantenha monitorização contínua nos pacientes de risco.
  • Documente valor, compartimento, horário, PAD simultânea e o delta P calculado.

Calculadora — pressão diferencial (delta P)

Delta P = PAD − PIC Limiar de 30 mmHg

Informe a pressão arterial diastólica aferida no mesmo momento da medida e a pressão intracompartimental obtida. O limiar amplamente adotado é delta P ≤ 30 mmHg como indicação de fasciotomia; valores acima de 30 mmHg apoiam o afastamento do diagnóstico.

Delta P
25 mmHg
PIC absoluta
Conduta sugerida
Interpretação
Ferramenta de apoio: o número não substitui o exame clínico. Quadro clínico evolutivo com delta P acima de 30 mmHg ainda pode indicar fasciotomia; e uma medida isolada normal não exclui o diagnóstico. Em paciente hipotenso, o delta P cai mesmo com pressões intracompartimentais moderadas — corrija a pressão arterial e reavalie.

Papel dos exames laboratoriais

Creatinoquinase (CPK)

Marcador de lesão muscular e de rabdomiólise. Útil para gravidade e seguimento, mas não diagnostica síndrome compartimental nem define a indicação cirúrgica.

Mioglobina e urina

Urina escura com fita positiva para sangue e sedimento sem hemácias sugere mioglobinúria. Orienta a hidratação, não a cirurgia.

Lactato

Elevação pode acompanhar quadros graves e não traumáticos, mas o desempenho como teste diagnóstico é limitado.

Eletrólitos e função renal

Essenciais no manejo: hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, acidose e lesão renal aguda acompanham a rabdomiólise.

Nenhum biomarcador sérico deve ser usado para decidir sobre a fasciotomia. A decisão é clínica e, quando necessário, apoiada na pressão intracompartimental.

Medidas imediatas — antes da sala

Enquanto a equipe cirúrgica é acionada, algumas medidas podem reverter ou atenuar o quadro. Custam minutos e nada mais.

  1. REMOVA tudo o que for circunferencial: gesso, tala, curativo, faixa, atadura — abra até a pele, em toda a extensão, em ambos os lados.
  2. Posicione o membro na altura do coração. Não eleve: a elevação reduz a pressão arterial local e piora o delta P.
  3. Corrija a hipotensão — a diastólica baixa é inimiga direta da perfusão do compartimento.
  4. Ofereça oxigênio se houver hipoxemia e mantenha analgesia adequada, registrando o consumo.
  5. Acione a ortopedia ou a cirurgia imediatamente, informando o horário do início dos sintomas.
  6. Colha exames: hemograma, função renal, eletrólitos, cálcio, fósforo, CPK, gasometria e urina.
  7. Inicie hidratação venosa se houver suspeita de rabdomiólise, com controle de diurese.
  8. Reavalie em intervalos curtos e documente cada avaliação com horário.
Não eleve o membro. É um erro comum e intuitivo: elevar reduz o edema em outras situações, mas aqui diminui a pressão arterial local e piora a isquemia. Mantenha ao nível do coração.

Fasciotomia — princípios

É o único tratamento definitivo. O princípio é sempre o mesmo: descompressão completa de todos os compartimentos do segmento, por incisões amplas, com abertura da pele e da fáscia.

  • Amplitude: incisões extensas, ao longo de todo o compartimento. Incisões curtas são a causa mais frequente de descompressão inadequada.
  • Completude: liberar todos os compartimentos do segmento, mesmo os aparentemente menos tensos. O que importa é a descompressão completa, mais do que a escolha da técnica.
  • Pele: a pele também é constritiva — a fasciotomia subcutânea isolada, sem abertura cutânea, tende a ser insuficiente em pressões elevadas.
  • Avaliação muscular: cor, consistência, contratilidade e sangramento orientam a ressecção de tecido inviável.
  • Ferida aberta: curativo estéril ou terapia por pressão negativa, com reavaliação programada em 48 a 72 horas.
  • Fechamento: por aproximação progressiva, sutura tardia ou enxertia cutânea, conforme a evolução do edema.
  • Estabilização óssea: fraturas associadas devem ser estabilizadas, frequentemente com fixador externo na fase aguda.

Abordagem por segmento

Segmento Técnica habitual Pontos de atenção
Perna Duas incisões (lateral e medial) liberando os quatro compartimentos, ou incisão lateral única com acesso aos quatro. Proteger o nervo fibular superficial na incisão lateral e a veia safena magna e o nervo safeno na medial. Confirmar a liberação do posterior profundo, frequentemente esquecido.
Antebraço Incisão volar curvilínea (tipo Henry estendida) associada, quando necessário, a incisão dorsal. Descomprimir também o túnel do carpo e o lacerto fibroso. Planejar cobertura do nervo mediano e das estruturas vasculares.
Coxa Incisão lateral única liberando os compartimentos anterior e posterior; incisão medial adicional para o compartimento dos adutores, se necessário. Grande volume muscular e sangramento importante — antecipe necessidade transfusional.
Braço Incisões anterior e posterior conforme os compartimentos acometidos. Atenção ao trajeto do nervo radial.
Mão Incisões dorsais para os interósseos, com liberação das eminências tenar e hipotenar e do túnel do carpo, quando indicado. Resultado funcional depende de descompressão precoce e de reabilitação da mão.
Incisões dorsais e, quando indicado, medial. Indicação mais controversa: pondere o risco de complicações de ferida contra o benefício funcional.
A escolha entre uma ou duas incisões é menos importante do que garantir a descompressão completa de todos os compartimentos — princípio reafirmado nas diretrizes atuais.
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento: indicação, técnica ou posologia, alvo e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional e a apresentação disponível no seu serviço.

Do reconhecimento à sala

Medidas que qualquer plantonista pode e deve executar, e o que esperar do tempo cirúrgico e do pós-operatório.

Apresentação tardia — decisão difícil

Quando o paciente chega muitas horas ou dias após o início, com músculo já necrosado, insensibilidade e paralisia estabelecidas, a fasciotomia deixa de ser benéfica: abre uma ferida enorme sobre tecido inviável, com risco elevado de infecção, sepse e amputação.

Quando não operar

Evidência de dano neuromuscular irreversível: anestesia completa, paralisia estabelecida, ausência de contratilidade muscular e apresentação muito tardia. É opinião de especialistas que a fasciotomia não está indicada nesse cenário.

O que fazer então

Suporte clínico, tratamento agressivo da rabdomiólise, vigilância de infecção e discussão franca com o paciente e a família — inclusive sobre a possibilidade de amputação.

Zona cinzenta

Quando há dúvida sobre a viabilidade, a decisão é individualizada, com exploração cirúrgica e avaliação direta do músculo.

Documentação

Registre o horário de início, os achados de cada reavaliação e o raciocínio que sustentou a decisão — é um cenário de alta exposição médico-legal.

Rabdomiólise — a complicação sistêmica

A necrose muscular libera na circulação mioglobina, potássio, fosfato, ácido úrico e creatinoquinase. As consequências são lesão renal aguda, hipercalemia com risco de arritmia, hipocalcemia, hiperfosfatemia, acidose metabólica e coagulopatia.

Diagnóstico

CPK elevada — habitualmente considerada significativa acima de cerca de 5 vezes o limite superior da normalidade, com risco renal crescente em valores muito altos.

Urina

Escurecida, com fita positiva para sangue e sedimento sem hemácias — o padrão sugestivo de mioglobinúria.

Hipercalemia

A complicação mais letal na fase aguda: monitorização cardíaca contínua e tratamento imediato diante de alterações no eletrocardiograma.

Lesão renal

Por vasoconstrição, obstrução tubular por cilindros e toxicidade direta da mioglobina. A hidratação precoce é a principal prevenção.

Após a fasciotomia e a reperfusão, a liberação sistêmica de potássio e de mediadores pode ser abrupta. Mantenha monitorização cardíaca contínua no perioperatório.

Calculadora — hidratação inicial na rabdomiólise

Volume por peso Alvo de diurese

A hidratação precoce e vigorosa é a medida mais eficaz para prevenir a lesão renal. Uma abordagem descrita é iniciar cristaloide isotônico em torno de 10–15 mL/kg/h nas primeiras horas (com bolus inicial em muitos protocolos), titulando para diurese de 200–300 mL/h no adulto e reduzindo conforme a resposta.

Infusão inicial
700 mL/h
Volume em 6 horas
4200 mL
Diurese alvo
Ferramenta de apoio. Titule pela diurese, pela hemodinâmica e pela tolerância: reduza a taxa em cardiopatas, nefropatas, idosos e diante de sinais de congestão. Monitorize eletrólitos, cálcio, fósforo, função renal e balanço hídrico de forma seriada. Alcalinização urinária e manitol têm evidência limitada e não são consenso.

Manejo da rabdomiólise

Frente Conduta Observação
HidrataçãoCristaloide isotônico precoce e vigoroso, titulado pela diurese e pela hemodinâmica.Principal medida preventiva da lesão renal. Comece antes mesmo do resultado da CPK.
HipercalemiaMonitorização contínua; diante de alteração eletrocardiográfica, gluconato de cálcio para estabilização de membrana, seguido de insulina com glicose e beta-agonista inalatório.É a causa mais frequente de morte precoce na rabdomiólise grave.
CálcioRepor apenas se houver hipocalcemia sintomática ou hipercalemia com alteração no eletrocardiograma.A hipocalcemia é habitualmente transitória; a reposição excessiva favorece deposição de cálcio no músculo lesado.
Distúrbio ácido-baseCorrigido pela restauração da perfusão e da diurese.Bicarbonato de rotina não é consenso.
Alcalinização e manitolEstratégias descritas, com evidência limitada e uso não padronizado.O manitol exige volemia adequada e diurese estabelecida; evite na anúria.
Terapia renal substitutivaIndicada pelas indicações habituais: hipercalemia refratária, acidose grave, sobrecarga volêmica e uremia.A diálise não remove mioglobina de forma eficiente com as técnicas convencionais.
NefrotóxicosSuspender ou evitar sempre que possível.Reavalie a prescrição inteira, incluindo anti-inflamatórios e contraste.

Complicações da síndrome compartimental

Contratura isquêmica

A contratura de Volkmann no antebraço é a sequela mais emblemática: fibrose muscular com mão em garra e perda funcional definitiva.

Déficit neurológico

Parestesia, hipoestesia e paralisia permanentes no território dos nervos do compartimento acometido.

Infecção

Feridas de fasciotomia são amplas e permanecem abertas: risco de infecção, osteomielite e retardo de consolidação da fratura.

Amputação

Desfecho possível na apresentação tardia, na necrose extensa e na infecção incontrolável.

Lesão renal aguda

Por rabdomiólise; pode exigir terapia renal substitutiva e evoluir com disfunção residual.

Consequência médico-legal

O diagnóstico tardio é uma das principais fontes de litígio na área — o que reforça a importância do registro seriado.

Síndrome compartimental abdominal

Mesmo princípio fisiopatológico em outra cavidade. Define-se hipertensão intra-abdominal como pressão intra-abdominal sustentada igual ou superior a 12 mmHg, e síndrome compartimental abdominal como pressão sustentada acima de 20 mmHg associada a nova disfunção orgânica.

Graduação Pressão intra-abdominal Repercussão
Normal5–7 mmHg no adulto críticoSem repercussão.
Grau I12–15 mmHgInício da hipertensão intra-abdominal; medidas clínicas de otimização.
Grau II16–20 mmHgVigilância estreita e escalonamento das medidas clínicas.
Grau III21–25 mmHgRisco elevado de disfunção orgânica; considerar descompressão.
Grau IV> 25 mmHgDescompressão cirúrgica na presença de disfunção orgânica.
Pressão de perfusão abdominal

PPA = PAM − PIA. Assim como no membro, o que importa não é apenas a pressão da cavidade, e sim o gradiente de perfusão. Valores em torno de 60 mmHg são citados como alvo de ressuscitação em pacientes com hipertensão intra-abdominal.

Calculadora — pressão de perfusão abdominal

PPA = PAM − PIA Graduação da HIA

A pressão intra-abdominal é medida preferencialmente pela via intravesical, com o paciente em decúbito dorsal, ao final da expiração, com a musculatura abdominal relaxada, instilando um volume pequeno de solução salina e zerando o transdutor na linha axilar média, ao nível da crista ilíaca.

PAM estimada
78 mmHg
PPA
56 mmHg
Graduação
Interpretação
Ferramenta de apoio. A síndrome compartimental abdominal exige pressão sustentada acima de 20 mmHg associada a nova disfunção orgânica — o número isolado não fecha o diagnóstico. Uma única medida elevada deve ser confirmada com medidas seriadas.

Manejo da hipertensão intra-abdominal

  • Esvaziar o conteúdo luminal: sonda gástrica, sonda retal, procinéticos e suspensão de dieta enteral quando necessário.
  • Drenar coleções: ascite, hematoma ou abscesso, por via percutânea quando viável.
  • Melhorar a complacência da parede: analgesia, sedação adequada, decúbito com cabeceira até 30° e, em casos selecionados, bloqueio neuromuscular.
  • Otimizar o balanço hídrico: evitar sobrecarga, considerar balanço negativo e ultrafiltração conforme a condição.
  • Sustentar a perfusão: manter a PPA com pressão arterial adequada, sem inundar o paciente de volume.
  • Descompressão cirúrgica: laparotomia descompressiva com abdome aberto na síndrome compartimental abdominal estabelecida e refratária às medidas clínicas.
  • Vigilância após o abdome aberto: perdas volêmicas, hipotermia, fístula e planejamento do fechamento definitivo.

Cenários especiais

Cenário Particularidade O que fazer diferente
Criança Não relata dor desproporcional de forma confiável. Os "3 A" — agitação, ansiedade e necessidade crescente de analgesia — são os sinais de alerta. Fratura supracondiliana de úmero é o cenário clássico. Vigilância intensiva, limiar baixo para medida de pressão e para exploração cirúrgica.
Politraumatizado sedado O exame clínico não é confiável e o quadro pode passar despercebido por horas. Medida de pressão repetida ou contínua nos membros de risco; inclua a inspeção dos compartimentos na avaliação diária.
Queimado Escara circunferencial atua como continente rígido; a ressuscitação volêmica agrava o edema. Escarotomia precoce nas queimaduras circunferenciais; fasciotomia se houver acometimento de compartimento profundo, sobretudo na lesão elétrica.
Lesão elétrica Dano muscular profundo desproporcional à lesão cutânea, com rabdomiólise intensa. Alto índice de suspeição, monitorização de CPK e limiar baixo para exploração.
Anticoagulado Sangramento intracompartimental espontâneo ou após trauma banal. Reversão da anticoagulação e avaliação cirúrgica precoce.
Esmagamento e soterramento Síndrome do esmagamento com rabdomiólise maciça; liberação abrupta de potássio após a extricação. Hidratação antes da liberação do membro quando possível, monitorização cardíaca e preparo para hipercalemia grave.
Acidente ofídico Edema volumoso é regra; síndrome compartimental verdadeira é bem menos frequente do que se imagina. Soro antiveneno é o tratamento principal; medida de pressão antes de indicar fasciotomia, evitando cirurgia desnecessária.

Erros comuns

  • Esperar a ausência de pulso para considerar o diagnóstico.
  • Elevar o membro acima do nível do coração.
  • Examinar o membro sem retirar gesso, tala ou curativo circunferencial.
  • Confiar em uma única medida normal de pressão intracompartimental.
  • Usar CPK ou lactato para decidir sobre a fasciotomia.
  • Indicar bloqueio regional em membro de risco sem discutir com a equipe.
  • Fazer incisões curtas ou deixar um compartimento sem liberar.
  • Não reavaliar em intervalos curtos e não registrar horários.
  • Atribuir a dor apenas à fratura e aumentar o opioide sem reexaminar.
  • Operar um membro com dano irreversível estabelecido, sem discussão de risco e benefício.
  • Esquecer a rabdomiólise e a hidratação precoce.
  • Não monitorizar o eletrocardiograma no perioperatório, quando o potássio pode subir abruptamente.

Resumo do fluxo

  1. Identifique o paciente de risco pelo mecanismo e pela lesão.
  2. Retire tudo o que for circunferencial e mantenha o membro na altura do coração.
  3. Examine cada compartimento, com estiramento passivo dirigido, e registre com horário.
  4. Corrija a hipotensão — ela reduz o delta P.
  5. Quadro clínico evolutivo ou delta P ≤ 30 mmHg: acione a cirurgia para fasciotomia imediata.
  6. No paciente não avaliável, monitorize a pressão intracompartimental de forma repetida ou contínua.
  7. Faça a fasciotomia ampla, liberando todos os compartimentos do segmento.
  8. Trate a rabdomiólise com hidratação precoce e vigilância de potássio e função renal.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

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  11. Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia. Diretrizes e protocolos vigentes sobre síndrome compartimental aguda e fasciotomia.

Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Limiares, doses e condutas cirúrgicas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.

Números rápidos

Delta P

PAD − pressão intracompartimental. Fasciotomia se ≤ 30 mmHg.

Janela

Fasciotomia em até 6 horas tem o melhor prognóstico funcional.

Sítio mais comum

Perna, compartimento anterior, após fratura de tíbia.

Posição

Membro na altura do coração — nunca elevado.

Em provas / residência

A banca adora o paciente com fratura de tíbia, dor desproporcional e pulso presente — e a alternativa errada é sempre "aguardar a ausência de pulso" ou "elevar o membro".

Decore: delta P = PAD − PIC, com corte em 30 mmHg; dor ao estiramento passivo é o sinal mais precoce; o compartimento anterior da perna é o mais acometido.

Mais informações nas abas do artigo.

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