Síndrome compartimental
Emergência cirúrgica em que a pressão dentro de um compartimento fechado supera a pressão de perfusão e o músculo começa a morrer — com o pulso distal ainda presente. O diagnóstico é clínico, o relógio corre em horas e o tratamento é um só: fasciotomia ampla e precoce.
Suspeitar
- Fratura de tíbia, antebraço ou lesão por esmagamento
- Dor desproporcional ao achado e crescente
- Necessidade progressiva de analgésico
- Compartimento tenso e doloroso à palpação
Reconhecer
- Dor ao estiramento passivo é o sinal mais precoce
- Parestesia surge antes da paralisia
- Palidez, paralisia e ausência de pulso são tardias
- Pulso presente jamais exclui o diagnóstico
Medir quando necessário
- Delta P = PAD − pressão intracompartimental
- Delta P ≤ 30 mmHg indica fasciotomia
- Uma medida normal isolada não exclui
- Essencial no paciente não avaliável
Descomprimir
- Remover gesso, tala e curativos circunferenciais
- Membro na altura do coração — nunca elevado
- Fasciotomia ampla de todos os compartimentos
- Prevenir e tratar rabdomiólise
O que é
Síndrome compartimental aguda é o aumento da pressão dentro de um espaço osteofascial fechado a ponto de comprometer a perfusão e a viabilidade dos tecidos daquele compartimento. A fáscia é praticamente inelástica: pequenos aumentos de volume — sangue, edema, líquido de reperfusão — produzem grandes aumentos de pressão.
É emergência cirúrgica. O tempo entre o início da isquemia e a descompressão determina o desfecho: músculo e nervo toleram poucas horas de isquemia antes de lesão irreversível. E é uma das principais causas de litígio por diagnóstico tardio em ortopedia e emergência.
A cascata
Tudo começa com aumento do conteúdo (hematoma, edema, extravasamento) ou redução do continente (gesso apertado, curativo circunferencial, queimadura em couraça). A pressão sobe, colaba primeiro as vênulas, o retorno venoso cai e a pressão sobe ainda mais — um ciclo que se retroalimenta.
Quando a pressão intracompartimental se aproxima da pressão diastólica, o gradiente que sustenta a perfusão capilar desaparece. O músculo entra em isquemia, libera mediadores, o edema aumenta e a pressão sobe outra vez. A artéria principal, de alta pressão, continua pérvia — e o pulso, palpável.
Tempos de tolerância à isquemia
- Nervo — alteração funcional em cerca de 30 minutos; lesão irreversível a partir de 12 a 24 horas.
- Músculo — alterações em 2 a 4 horas; necrose progressiva a partir de 4 a 8 horas.
- Fasciotomia em até 6 horas — bom prognóstico funcional na maioria das séries.
- Acima de 12 horas — sequela funcional frequente e maior risco de infecção e amputação.
Delta P (pressão diferencial) = pressão arterial diastólica − pressão intracompartimental. Valor ≤ 30 mmHg indica descompressão. É por isso que a hipotensão agrava a síndrome compartimental: com a diastólica baixa, o delta P despenca mesmo sem grande aumento da pressão no compartimento.
Compartimentos que mais importam
Conhecer a anatomia é o que permite examinar corretamente e planejar a fasciotomia. A perna é o sítio mais frequente, e o compartimento anterior é o mais acometido.
Perna — 4 compartimentos
Anterior: tibial anterior e extensores; nervo fibular profundo. Dor à flexão plantar passiva; hipoestesia no primeiro espaço interdigital; perda da dorsiflexão (pé caído). O mais acometido.
Lateral: fibulares; nervo fibular superficial. Dor à inversão passiva; hipoestesia no dorso do pé.
Posterior superficial: gastrocnêmio e sóleo. Dor à dorsiflexão passiva.
Posterior profundo: flexores; nervo tibial. Dor à extensão passiva dos dedos; hipoestesia plantar.
Antebraço — 3 compartimentos
Volar (flexor): o mais acometido; contém os nervos mediano e ulnar. Dor à extensão passiva dos dedos.
Dorsal (extensor): dor à flexão passiva dos dedos.
Móvel lateral: braquiorradial e extensores radiais do carpo.
Complicação temida: contratura isquêmica de Volkmann, com mão em garra e perda funcional definitiva.
Coxa e braço
Coxa — 3 compartimentos: anterior (quadríceps), posterior (isquiotibiais) e medial (adutores). Menos frequente, exige grande energia; associada a fratura de fêmur e esmagamento.
Braço — 2 compartimentos: anterior e posterior. Associado a fratura de úmero e lesão vascular.
Mão, pé e glúteo
Mão: múltiplos compartimentos (interósseos, tenar, hipotenar). Posição intrínseca-plus, dor à abdução passiva dos dedos.
Pé: vários compartimentos descritos; associado a fratura de calcâneo e Lisfranc. Indicação de fasciotomia mais debatida.
Glúteo: após imobilização prolongada, intoxicação e uso de drogas — clássico do paciente encontrado caído.
As três perguntas da avaliação
Mecanismo, fratura, esmagamento, reperfusão após isquemia arterial, gesso ou curativo circunferencial, coagulopatia. O risco define a intensidade da vigilância.
Paciente alerta e comunicativo permite diagnóstico clínico com reavaliação seriada. Paciente sedado, intubado, com bloqueio regional, lesão medular ou criança pequena exige medida de pressão.
Diante de quadro clínico evolutivo ou delta P ≤ 30 mmHg, a resposta é sim. Na dúvida, o custo de uma fasciotomia desnecessária é muito menor que o de uma tardia.
Mecanismos: conteúdo aumentado ou continente reduzido
| Mecanismo | Causas | Observação |
|---|---|---|
| Sangramento no compartimento | Fratura (sobretudo tíbia e antebraço), lesão vascular, coagulopatia, uso de anticoagulante, punção arterial. | A fratura de tíbia é a causa isolada mais frequente — e a fratura fechada não protege: pode ser mais perigosa que a exposta. |
| Edema por lesão direta | Esmagamento, contusão muscular grave, queimadura, lesão elétrica, picada de animal peçonhento. | Acidente por serpente do gênero Bothrops pode causar edema volumoso — mas a maioria dos casos não evolui para síndrome compartimental verdadeira. |
| Reperfusão | Após revascularização, embolectomia, torniquete prolongado ou correção de isquemia arterial aguda. | O edema de reperfusão é intenso e precoce: considere fasciotomia profilática quando a isquemia foi prolongada. |
| Aumento de volume não traumático | Exercício extenuante, infiltração de fluido ou contraste, infusão intraóssea mal posicionada, infecção necrosante, trombose venosa extensa, nefropatia com edema volumoso. | A forma não traumática é subdiagnosticada justamente por não haver o gatilho esperado. |
| Redução do continente | Gesso ou tala circunferencial apertados, curativo compressivo, escara de queimadura circunferencial, roupas ou dispositivos constritivos, fechamento fascial sob tensão. | Causa iatrogênica e imediatamente reversível: abrir o gesso até a pele é a primeira medida. |
| Compressão prolongada | Paciente encontrado caído após intoxicação, coma ou uso de drogas; posicionamento cirúrgico prolongado (litotomia). | Clássico da síndrome compartimental de glúteo e coxa, quase sempre com rabdomiólise associada. |
Fatores de risco que aumentam a vigilância
Principal causa. Fraturas diafisárias e do platô tibial são as de maior risco; a fratura fechada não é protetora.
Alto risco em crianças e adolescentes, com risco de contratura de Volkmann.
Maior massa muscular em compartimento de mesmo tamanho — grupo classicamente descrito como de maior risco.
Isquemia prolongada seguida de restauração do fluxo é um dos cenários de maior risco.
Sangramento maior dentro do compartimento, às vezes após trauma banal.
Reduz a diastólica e, com ela, o delta P: o paciente chocado desenvolve síndrome compartimental com pressões intracompartimentais menores.
O paciente que não pode contar
A dor é o sintoma mais precoce e mais confiável — e desaparece exatamente nos pacientes de maior risco. Sedado, intubado, com traumatismo cranioencefálico, intoxicado, com lesão medular, com bloqueio regional ou criança pequena: nenhum deles vai relatar dor desproporcional. Nesses casos, a vigilância clínica isolada é insuficiente e a medida da pressão intracompartimental — de preferência contínua ou repetida — passa a ser parte obrigatória do cuidado. Registre a decisão de monitorizar (ou de não monitorizar) e a justificativa.
Os "6 P" — e por que a ordem importa
Os sinais clássicos aparecem em sequência temporal. Os primeiros são os úteis; os últimos indicam que o dano já está feito.
| Sinal | Momento | Valor prático |
|---|---|---|
| Dor (pain) | Precoce | Desproporcional ao achado, progressiva e refratária a analgésico. Dor ao estiramento passivo da musculatura do compartimento é o sinal mais sensível. Necessidade crescente de opioide é sinal de alarme. |
| Pressão (pressure) | Precoce | Compartimento tenso, endurecido e doloroso à palpação, com aumento visível do volume. Compare sempre com o membro contralateral. |
| Parestesia | Intermediário | Alteração da sensibilidade no território do nervo que atravessa o compartimento — primeira manifestação de sofrimento neurológico. Ainda reversível. |
| Paralisia | Tardio | Perda motora indica lesão neuromuscular estabelecida. Prognóstico funcional já comprometido. |
| Palidez (pallor) | Tardio | Sinal inconsistente; a pele frequentemente está normal ou até hiperemiada e tensa. |
| Ausência de pulso (pulselessness) | Muito tardio | Não use como critério. Quando o pulso some, o compartimento já está inviável — ou existe lesão arterial associada. |
Como examinar corretamente
- Palpe cada compartimento separadamente, comparando com o membro contralateral — não avalie "a perna" como um todo.
- Estiramento passivo dirigido: na perna, flexão plantar passiva testa o compartimento anterior; dorsiflexão passiva testa o posterior superficial; extensão passiva dos dedos testa o posterior profundo; inversão passiva testa o lateral.
- No antebraço, extensão passiva dos dedos testa o compartimento volar e flexão passiva testa o dorsal.
- Teste a sensibilidade nos territórios específicos: primeiro espaço interdigital (fibular profundo), dorso do pé (fibular superficial), planta (tibial).
- Retire o gesso, a tala e o curativo antes de examinar — não se avalia compartimento através de imobilização.
- Registre com horário e reavalie em intervalos curtos, idealmente pelo mesmo examinador.
- Anote o consumo de analgésico: escalada rápida de dose é dado objetivo de piora.
Diagnósticos diferenciais
| Condição | Como diferenciar |
|---|---|
| Oclusão arterial aguda | Pulso ausente desde o início, membro frio e pálido, dor de instalação súbita. Compartimentos habitualmente moles. Pode coexistir e evoluir para síndrome compartimental após a revascularização. |
| Trombose venosa profunda | Edema difuso, dor menos intensa, sem dor ao estiramento passivo desproporcional. Ultrassonografia com doppler esclarece — mas TVP extensa também pode causar síndrome compartimental. |
| Celulite e fasciíte necrosante | Sinais inflamatórios cutâneos, febre, toxemia; na fasciíte, dor desproporcional, crepitação, bolhas e evolução fulminante. Ambas podem ter compartimento tenso — a fasciíte também é emergência cirúrgica. |
| Lesão nervosa direta | Déficit desde o momento do trauma, sem progressão e sem dor desproporcional ao estiramento. |
| Contusão muscular simples | Dor localizada, sem tensão compartimental, com melhora progressiva e boa resposta ao analgésico. |
| Síndrome compartimental crônica de esforço | Dor previsível durante o exercício, com alívio ao repouso, em atleta. Diagnóstico ambulatorial, com medida de pressão pós-esforço — não é emergência. |
Quando medir
O diagnóstico é clínico. A medida da pressão intracompartimental é um auxílio — indispensável em algumas situações, dispensável em outras.
Medir
- Paciente não avaliável: sedado, intubado, com rebaixamento, intoxicado, com lesão medular ou criança pequena.
- Bloqueio regional ou analgesia peridural em vigência.
- Quadro clínico duvidoso ou achados equívocos.
- Necessidade de monitorização repetida ou contínua em membro de alto risco.
Não é necessário medir
- Quadro clínico evidente e evolutivo em paciente avaliável — leve à fasciotomia.
- Quando a medida for atrasar a cirurgia já indicada.
- Diante de dano neuromuscular irreversível estabelecido, em que a fasciotomia deixa de ser indicada.
Como medir
- Dispositivo: manômetro de agulha dedicado (tipo Stryker) ou transdutor de pressão arterial acoplado a agulha e equipo — este último é a alternativa mais disponível na maioria dos serviços.
- Zeragem do sistema ao nível do compartimento a ser medido, com o membro na altura do coração.
- Local: até 5 cm do nível da fratura, onde a pressão é mais alta — medidas distantes subestimam o valor.
- Meça todos os compartimentos do segmento, e não apenas o mais suspeito.
- Registre a pressão diastólica no mesmo momento — o delta P depende dela.
- Repita as medidas ao longo do tempo ou mantenha monitorização contínua nos pacientes de risco.
- Documente valor, compartimento, horário, PAD simultânea e o delta P calculado.
Calculadora — pressão diferencial (delta P)
Informe a pressão arterial diastólica aferida no mesmo momento da medida e a pressão intracompartimental obtida. O limiar amplamente adotado é delta P ≤ 30 mmHg como indicação de fasciotomia; valores acima de 30 mmHg apoiam o afastamento do diagnóstico.
Papel dos exames laboratoriais
Marcador de lesão muscular e de rabdomiólise. Útil para gravidade e seguimento, mas não diagnostica síndrome compartimental nem define a indicação cirúrgica.
Urina escura com fita positiva para sangue e sedimento sem hemácias sugere mioglobinúria. Orienta a hidratação, não a cirurgia.
Elevação pode acompanhar quadros graves e não traumáticos, mas o desempenho como teste diagnóstico é limitado.
Essenciais no manejo: hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, acidose e lesão renal aguda acompanham a rabdomiólise.
Medidas imediatas — antes da sala
Enquanto a equipe cirúrgica é acionada, algumas medidas podem reverter ou atenuar o quadro. Custam minutos e nada mais.
- REMOVA tudo o que for circunferencial: gesso, tala, curativo, faixa, atadura — abra até a pele, em toda a extensão, em ambos os lados.
- Posicione o membro na altura do coração. Não eleve: a elevação reduz a pressão arterial local e piora o delta P.
- Corrija a hipotensão — a diastólica baixa é inimiga direta da perfusão do compartimento.
- Ofereça oxigênio se houver hipoxemia e mantenha analgesia adequada, registrando o consumo.
- Acione a ortopedia ou a cirurgia imediatamente, informando o horário do início dos sintomas.
- Colha exames: hemograma, função renal, eletrólitos, cálcio, fósforo, CPK, gasometria e urina.
- Inicie hidratação venosa se houver suspeita de rabdomiólise, com controle de diurese.
- Reavalie em intervalos curtos e documente cada avaliação com horário.
Fasciotomia — princípios
É o único tratamento definitivo. O princípio é sempre o mesmo: descompressão completa de todos os compartimentos do segmento, por incisões amplas, com abertura da pele e da fáscia.
- Amplitude: incisões extensas, ao longo de todo o compartimento. Incisões curtas são a causa mais frequente de descompressão inadequada.
- Completude: liberar todos os compartimentos do segmento, mesmo os aparentemente menos tensos. O que importa é a descompressão completa, mais do que a escolha da técnica.
- Pele: a pele também é constritiva — a fasciotomia subcutânea isolada, sem abertura cutânea, tende a ser insuficiente em pressões elevadas.
- Avaliação muscular: cor, consistência, contratilidade e sangramento orientam a ressecção de tecido inviável.
- Ferida aberta: curativo estéril ou terapia por pressão negativa, com reavaliação programada em 48 a 72 horas.
- Fechamento: por aproximação progressiva, sutura tardia ou enxertia cutânea, conforme a evolução do edema.
- Estabilização óssea: fraturas associadas devem ser estabilizadas, frequentemente com fixador externo na fase aguda.
Abordagem por segmento
| Segmento | Técnica habitual | Pontos de atenção |
|---|---|---|
| Perna | Duas incisões (lateral e medial) liberando os quatro compartimentos, ou incisão lateral única com acesso aos quatro. | Proteger o nervo fibular superficial na incisão lateral e a veia safena magna e o nervo safeno na medial. Confirmar a liberação do posterior profundo, frequentemente esquecido. |
| Antebraço | Incisão volar curvilínea (tipo Henry estendida) associada, quando necessário, a incisão dorsal. | Descomprimir também o túnel do carpo e o lacerto fibroso. Planejar cobertura do nervo mediano e das estruturas vasculares. |
| Coxa | Incisão lateral única liberando os compartimentos anterior e posterior; incisão medial adicional para o compartimento dos adutores, se necessário. | Grande volume muscular e sangramento importante — antecipe necessidade transfusional. |
| Braço | Incisões anterior e posterior conforme os compartimentos acometidos. | Atenção ao trajeto do nervo radial. |
| Mão | Incisões dorsais para os interósseos, com liberação das eminências tenar e hipotenar e do túnel do carpo, quando indicado. | Resultado funcional depende de descompressão precoce e de reabilitação da mão. |
| Pé | Incisões dorsais e, quando indicado, medial. | Indicação mais controversa: pondere o risco de complicações de ferida contra o benefício funcional. |
Cada card abre o detalhamento: indicação, técnica ou posologia, alvo e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional e a apresentação disponível no seu serviço.
Do reconhecimento à sala
Medidas que qualquer plantonista pode e deve executar, e o que esperar do tempo cirúrgico e do pós-operatório.
Apresentação tardia — decisão difícil
Quando o paciente chega muitas horas ou dias após o início, com músculo já necrosado, insensibilidade e paralisia estabelecidas, a fasciotomia deixa de ser benéfica: abre uma ferida enorme sobre tecido inviável, com risco elevado de infecção, sepse e amputação.
Evidência de dano neuromuscular irreversível: anestesia completa, paralisia estabelecida, ausência de contratilidade muscular e apresentação muito tardia. É opinião de especialistas que a fasciotomia não está indicada nesse cenário.
Suporte clínico, tratamento agressivo da rabdomiólise, vigilância de infecção e discussão franca com o paciente e a família — inclusive sobre a possibilidade de amputação.
Quando há dúvida sobre a viabilidade, a decisão é individualizada, com exploração cirúrgica e avaliação direta do músculo.
Registre o horário de início, os achados de cada reavaliação e o raciocínio que sustentou a decisão — é um cenário de alta exposição médico-legal.
Rabdomiólise — a complicação sistêmica
A necrose muscular libera na circulação mioglobina, potássio, fosfato, ácido úrico e creatinoquinase. As consequências são lesão renal aguda, hipercalemia com risco de arritmia, hipocalcemia, hiperfosfatemia, acidose metabólica e coagulopatia.
CPK elevada — habitualmente considerada significativa acima de cerca de 5 vezes o limite superior da normalidade, com risco renal crescente em valores muito altos.
Escurecida, com fita positiva para sangue e sedimento sem hemácias — o padrão sugestivo de mioglobinúria.
A complicação mais letal na fase aguda: monitorização cardíaca contínua e tratamento imediato diante de alterações no eletrocardiograma.
Por vasoconstrição, obstrução tubular por cilindros e toxicidade direta da mioglobina. A hidratação precoce é a principal prevenção.
Calculadora — hidratação inicial na rabdomiólise
A hidratação precoce e vigorosa é a medida mais eficaz para prevenir a lesão renal. Uma abordagem descrita é iniciar cristaloide isotônico em torno de 10–15 mL/kg/h nas primeiras horas (com bolus inicial em muitos protocolos), titulando para diurese de 200–300 mL/h no adulto e reduzindo conforme a resposta.
Manejo da rabdomiólise
| Frente | Conduta | Observação |
|---|---|---|
| Hidratação | Cristaloide isotônico precoce e vigoroso, titulado pela diurese e pela hemodinâmica. | Principal medida preventiva da lesão renal. Comece antes mesmo do resultado da CPK. |
| Hipercalemia | Monitorização contínua; diante de alteração eletrocardiográfica, gluconato de cálcio para estabilização de membrana, seguido de insulina com glicose e beta-agonista inalatório. | É a causa mais frequente de morte precoce na rabdomiólise grave. |
| Cálcio | Repor apenas se houver hipocalcemia sintomática ou hipercalemia com alteração no eletrocardiograma. | A hipocalcemia é habitualmente transitória; a reposição excessiva favorece deposição de cálcio no músculo lesado. |
| Distúrbio ácido-base | Corrigido pela restauração da perfusão e da diurese. | Bicarbonato de rotina não é consenso. |
| Alcalinização e manitol | Estratégias descritas, com evidência limitada e uso não padronizado. | O manitol exige volemia adequada e diurese estabelecida; evite na anúria. |
| Terapia renal substitutiva | Indicada pelas indicações habituais: hipercalemia refratária, acidose grave, sobrecarga volêmica e uremia. | A diálise não remove mioglobina de forma eficiente com as técnicas convencionais. |
| Nefrotóxicos | Suspender ou evitar sempre que possível. | Reavalie a prescrição inteira, incluindo anti-inflamatórios e contraste. |
Complicações da síndrome compartimental
A contratura de Volkmann no antebraço é a sequela mais emblemática: fibrose muscular com mão em garra e perda funcional definitiva.
Parestesia, hipoestesia e paralisia permanentes no território dos nervos do compartimento acometido.
Feridas de fasciotomia são amplas e permanecem abertas: risco de infecção, osteomielite e retardo de consolidação da fratura.
Desfecho possível na apresentação tardia, na necrose extensa e na infecção incontrolável.
Por rabdomiólise; pode exigir terapia renal substitutiva e evoluir com disfunção residual.
O diagnóstico tardio é uma das principais fontes de litígio na área — o que reforça a importância do registro seriado.
Síndrome compartimental abdominal
Mesmo princípio fisiopatológico em outra cavidade. Define-se hipertensão intra-abdominal como pressão intra-abdominal sustentada igual ou superior a 12 mmHg, e síndrome compartimental abdominal como pressão sustentada acima de 20 mmHg associada a nova disfunção orgânica.
| Graduação | Pressão intra-abdominal | Repercussão |
|---|---|---|
| Normal | 5–7 mmHg no adulto crítico | Sem repercussão. |
| Grau I | 12–15 mmHg | Início da hipertensão intra-abdominal; medidas clínicas de otimização. |
| Grau II | 16–20 mmHg | Vigilância estreita e escalonamento das medidas clínicas. |
| Grau III | 21–25 mmHg | Risco elevado de disfunção orgânica; considerar descompressão. |
| Grau IV | > 25 mmHg | Descompressão cirúrgica na presença de disfunção orgânica. |
PPA = PAM − PIA. Assim como no membro, o que importa não é apenas a pressão da cavidade, e sim o gradiente de perfusão. Valores em torno de 60 mmHg são citados como alvo de ressuscitação em pacientes com hipertensão intra-abdominal.
Calculadora — pressão de perfusão abdominal
A pressão intra-abdominal é medida preferencialmente pela via intravesical, com o paciente em decúbito dorsal, ao final da expiração, com a musculatura abdominal relaxada, instilando um volume pequeno de solução salina e zerando o transdutor na linha axilar média, ao nível da crista ilíaca.
Manejo da hipertensão intra-abdominal
- Esvaziar o conteúdo luminal: sonda gástrica, sonda retal, procinéticos e suspensão de dieta enteral quando necessário.
- Drenar coleções: ascite, hematoma ou abscesso, por via percutânea quando viável.
- Melhorar a complacência da parede: analgesia, sedação adequada, decúbito com cabeceira até 30° e, em casos selecionados, bloqueio neuromuscular.
- Otimizar o balanço hídrico: evitar sobrecarga, considerar balanço negativo e ultrafiltração conforme a condição.
- Sustentar a perfusão: manter a PPA com pressão arterial adequada, sem inundar o paciente de volume.
- Descompressão cirúrgica: laparotomia descompressiva com abdome aberto na síndrome compartimental abdominal estabelecida e refratária às medidas clínicas.
- Vigilância após o abdome aberto: perdas volêmicas, hipotermia, fístula e planejamento do fechamento definitivo.
Cenários especiais
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Criança | Não relata dor desproporcional de forma confiável. Os "3 A" — agitação, ansiedade e necessidade crescente de analgesia — são os sinais de alerta. Fratura supracondiliana de úmero é o cenário clássico. | Vigilância intensiva, limiar baixo para medida de pressão e para exploração cirúrgica. |
| Politraumatizado sedado | O exame clínico não é confiável e o quadro pode passar despercebido por horas. | Medida de pressão repetida ou contínua nos membros de risco; inclua a inspeção dos compartimentos na avaliação diária. |
| Queimado | Escara circunferencial atua como continente rígido; a ressuscitação volêmica agrava o edema. | Escarotomia precoce nas queimaduras circunferenciais; fasciotomia se houver acometimento de compartimento profundo, sobretudo na lesão elétrica. |
| Lesão elétrica | Dano muscular profundo desproporcional à lesão cutânea, com rabdomiólise intensa. | Alto índice de suspeição, monitorização de CPK e limiar baixo para exploração. |
| Anticoagulado | Sangramento intracompartimental espontâneo ou após trauma banal. | Reversão da anticoagulação e avaliação cirúrgica precoce. |
| Esmagamento e soterramento | Síndrome do esmagamento com rabdomiólise maciça; liberação abrupta de potássio após a extricação. | Hidratação antes da liberação do membro quando possível, monitorização cardíaca e preparo para hipercalemia grave. |
| Acidente ofídico | Edema volumoso é regra; síndrome compartimental verdadeira é bem menos frequente do que se imagina. | Soro antiveneno é o tratamento principal; medida de pressão antes de indicar fasciotomia, evitando cirurgia desnecessária. |
Erros comuns
- Esperar a ausência de pulso para considerar o diagnóstico.
- Elevar o membro acima do nível do coração.
- Examinar o membro sem retirar gesso, tala ou curativo circunferencial.
- Confiar em uma única medida normal de pressão intracompartimental.
- Usar CPK ou lactato para decidir sobre a fasciotomia.
- Indicar bloqueio regional em membro de risco sem discutir com a equipe.
- Fazer incisões curtas ou deixar um compartimento sem liberar.
- Não reavaliar em intervalos curtos e não registrar horários.
- Atribuir a dor apenas à fratura e aumentar o opioide sem reexaminar.
- Operar um membro com dano irreversível estabelecido, sem discussão de risco e benefício.
- Esquecer a rabdomiólise e a hidratação precoce.
- Não monitorizar o eletrocardiograma no perioperatório, quando o potássio pode subir abruptamente.
Resumo do fluxo
- Identifique o paciente de risco pelo mecanismo e pela lesão.
- Retire tudo o que for circunferencial e mantenha o membro na altura do coração.
- Examine cada compartimento, com estiramento passivo dirigido, e registre com horário.
- Corrija a hipotensão — ela reduz o delta P.
- Quadro clínico evolutivo ou delta P ≤ 30 mmHg: acione a cirurgia para fasciotomia imediata.
- No paciente não avaliável, monitorize a pressão intracompartimental de forma repetida ou contínua.
- Faça a fasciotomia ampla, liberando todos os compartimentos do segmento.
- Trate a rabdomiólise com hidratação precoce e vigilância de potássio e função renal.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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- Schmidt AH. Acute compartment syndrome. Injury. 2017;48(Suppl 1):S22-S25.
- Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia. Diretrizes e protocolos vigentes sobre síndrome compartimental aguda e fasciotomia.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Limiares, doses e condutas cirúrgicas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.
Números rápidos
PAD − pressão intracompartimental. Fasciotomia se ≤ 30 mmHg.
Fasciotomia em até 6 horas tem o melhor prognóstico funcional.
Perna, compartimento anterior, após fratura de tíbia.
Membro na altura do coração — nunca elevado.
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Em provas / residência
A banca adora o paciente com fratura de tíbia, dor desproporcional e pulso presente — e a alternativa errada é sempre "aguardar a ausência de pulso" ou "elevar o membro".
Decore: delta P = PAD − PIC, com corte em 30 mmHg; dor ao estiramento passivo é o sinal mais precoce; o compartimento anterior da perna é o mais acometido.
