SDRA — Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo
O pulmão da SDRA não é rígido por inteiro: é um baby lung pequeno e complacente cercado de tecido colapsado. Ventilá-lo como se fosse um pulmão normal é o que mata. Quase tudo que reduziu mortalidade nesta síndrome — volume corrente baixo, posição prona, menos pressão de distensão — funciona fazendo menos, e não fazendo mais.
Diagnosticar
- Início em até 7 dias de um fator desencadeante
- Opacidades bilaterais não explicadas por derrame ou atelectasia
- Edema não explicado só por causa cardíaca ou hipervolemia
- Nova definição global aceita SpO₂/FiO₂ e ultrassom
Ventilar protegendo
- Volume corrente de 4 a 8 mL/kg de peso predito
- Pressão de platô abaixo de 30 cmH₂O
- Driving pressure alvo de 15 cmH₂O ou menos
- Peso predito vem da altura e do sexo, nunca da balança
Pronar cedo
- Indicada com relação P/F abaixo de 150
- Sessões de 16 horas ou mais, não de 4 a 6
- Reduz mortalidade de forma consistente
- Iniciar nas primeiras 36 a 48 horas
Saber o que não fazer
- Manobras de recrutamento prolongadas causam dano
- Ventilação oscilatória de alta frequência não é indicada
- Remoção extracorpórea de CO₂ isolada não é recomendada
- Balanço hídrico positivo piora o desfecho
O que é SDRA
A síndrome do desconforto respiratório agudo é uma resposta inflamatória pulmonar difusa, desencadeada por um insulto direto ou indireto, que resulta em aumento da permeabilidade da barreira alvéolo-capilar. O alvéolo se enche de líquido rico em proteína, o surfactante é inativado e o pulmão colapsa em áreas dependentes.
A consequência funcional é hipoxemia grave por shunt intrapulmonar, queda acentuada da complacência e aumento do espaço morto. Não é um diagnóstico etiológico: é uma síndrome, e por trás dela sempre existe uma causa que precisa ser tratada.
O conceito do baby lung
É a ideia que organiza todo o tratamento. Na tomografia, o pulmão da SDRA não é uniformemente rígido: ele tem três compartimentos.
- Área aerada e complacente — pequena, frequentemente equivalente ao pulmão de uma criança. É ela que recebe todo o volume corrente.
- Área recrutável — colapsada, mas passível de reabertura com pressão adequada. É o alvo racional da PEEP.
- Área consolidada — não recrutável em nenhuma pressão. Insistir nela só transfere pressão para o resto.
Se você entrega 500 mL a um pulmão funcionalmente do tamanho de 1,5 litro, está aplicando um volume corrente relativo enorme sobre a área sadia — e é justamente ela que sofre a lesão induzida pelo ventilador.
Os quatro mecanismos de lesão pelo ventilador
- Volutrauma — distensão excessiva do baby lung por volume corrente alto. É o mecanismo dominante.
- Barotrauma — pressão transpulmonar elevada, com risco de pneumotórax e pneumomediastino.
- Atelectrauma — abertura e fechamento cíclicos de alvéolos instáveis, gerando forças de cisalhamento. É o que a PEEP evita.
- Biotrauma — a lesão mecânica libera mediadores inflamatórios que atingem a circulação sistêmica e contribuem para disfunção de múltiplos órgãos.
Pacientes com SDRA raramente morrem de hipoxemia refratária. Morrem de disfunção de múltiplos órgãos — e a ventilação inadequada é uma das fontes dessa disfunção. Proteger o pulmão é proteger o resto do organismo.
As três fases histológicas
Exsudativa
0 a 7 diasDano alveolar difuso, membranas hialinas, edema rico em proteína e influxo de neutrófilos. É a fase de maior hipoxemia e de maior queda da complacência — e a janela em que a ventilação protetora, a prona e o bloqueio neuromuscular têm maior impacto.
Proliferativa
7 a 21 diasProliferação de pneumócitos tipo II, organização do exsudato e início do reparo. A maioria dos pacientes começa a melhorar aqui; o espaço morto costuma aumentar antes da complacência melhorar.
Fibrótica
Após 2 a 3 semanasDeposição de colágeno, remodelamento e formação de cistos. Nem todos os pacientes chegam a esta fase. Associa-se a ventilação mecânica prolongada, dependência de oxigênio e sequela funcional persistente.
Números que importam
Cerca de 10% das admissões em terapia intensiva e aproximadamente 23% dos pacientes ventilados no estudo LUNG SAFE.
Aproximadamente 35% na leve, 40% na moderada e 46% na grave, conforme a definição de Berlim.
No LUNG SAFE, cerca de 40% dos casos não foram reconhecidos pela equipe assistente.
Boa parte dos pacientes recebia volume corrente acima de 8 mL/kg de peso predito, e a prona era pouco utilizada.
Fraqueza adquirida, comprometimento cognitivo e sintomas psiquiátricos são frequentes um ano após a alta.
Critérios diagnósticos
A definição de Berlim, de 2012, segue sendo a referência mais usada. A Nova Definição Global, publicada em 2023 e 2024, amplia esses critérios para incorporar oxigênio nasal de alto fluxo, oximetria de pulso, ultrassom pulmonar e cenários de recursos limitados.
Os quatro critérios clássicos
Tempo: início em até 7 dias de um insulto conhecido ou de piora dos sintomas respiratórios.
Imagem: opacidades bilaterais na radiografia ou na tomografia, não explicadas totalmente por derrame, atelectasia ou nódulos.
Origem do edema: insuficiência respiratória não explicada integralmente por insuficiência cardíaca ou hipervolemia; ecocardiograma pode ser necessário para afastar.
Oxigenação: relação PaO₂/FiO₂ igual ou menor que 300 mmHg, com PEEP ou CPAP de pelo menos 5 cmH₂O.
O que a nova definição acrescenta
Não intubados: inclui pacientes em oxigênio nasal de alto fluxo com fluxo de pelo menos 30 L/min, além de ventilação não invasiva e CPAP.
Oximetria: aceita SpO₂/FiO₂ ≤ 315 como critério de hipoxemia, desde que a SpO₂ seja ≤ 97%, sem alteração de hemoglobina e com boa perfusão periférica.
Ultrassom: reconhece o ultrassom pulmonar como modalidade de imagem válida para identificar as opacidades bilaterais.
Recursos limitados: dispensa exigência de PEEP mínima, de fluxo de oxigênio e de dispositivo específico — incorporando o espírito da definição de Kigali.
Calculadora — oxigenação e gravidade
Informe a gasometria ou a oximetria e a fração inspirada de oxigênio. A ferramenta calcula as relações, classifica a gravidade e indica quais intervenções passam a ser recomendadas naquela faixa.
O diferencial que mais importa
A pergunta central do diagnóstico é sempre a mesma: este edema é inflamatório ou hidrostático? Errar aqui leva a tratar SDRA com diurético e congestão cardíaca com PEEP alta.
| Achado | Favorece SDRA | Favorece edema cardiogênico |
|---|---|---|
| História | Sepse, pneumonia, aspiração, trauma, pancreatite, transfusão. | Cardiopatia conhecida, dor torácica, arritmia, má adesão a diurético. |
| Distribuição na imagem | Opacidades periféricas, heterogêneas e gravidade-dependentes. | Distribuição central, em asa de borboleta, com linhas B de Kerley. |
| Área cardíaca e derrames | Área cardíaca normal; derrames pequenos. | Cardiomegalia, derrames volumosos e congestão hilar. |
| Ecocardiograma | Função ventricular preservada, sem elevação de pressões de enchimento. | Disfunção sistólica ou diastólica, pressões de enchimento elevadas. |
| Ultrassom pulmonar | Linhas B heterogêneas, com áreas poupadas, pleura irregular e consolidações subpleurais. | Linhas B homogêneas e bilaterais, pleura lisa, com derrame associado. |
| Peptídeo natriurético | Valores baixos apoiam SDRA, mas não excluem sobreposição. | Valores muito elevados apoiam origem cardíaca. |
| Resposta ao diurético | Melhora limitada, sobretudo da oxigenação. | Melhora clínica e radiológica rápida. |
Outros diagnósticos a considerar
Queda de hemoglobina, hemoptise (que pode faltar) e lavado broncoalveolar progressivamente hemorrágico. Considerar vasculites e síndromes pulmão-rim.
Evolução subaguda, padrão tomográfico característico e resposta a corticoide. Frequentemente exigem biópsia ou avaliação especializada.
Amiodarona, bleomicina, nitrofurantoína, metotrexato e inibidores de checkpoint imunológico. Revisar toda a prescrição e o histórico oncológico.
Eosinofilia no lavado broncoalveolar, história de tabagismo recente e resposta rápida e marcante ao corticoide.
Lesão pulmonar relacionada à transfusão, com início em até 6 horas do hemocomponente. É uma causa de SDRA e não um diferencial excludente.
Contexto clínico define: exposição a grande altitude ou lesão neurológica aguda grave, como hemorragia subaracnóidea.
Causas diretas e indiretas
A distinção entre insulto pulmonar e extrapulmonar não muda os alvos de ventilação protetora, mas ajuda a antecipar o comportamento mecânico do pulmão e, sobretudo, a não esquecer de tratar a causa.
| Tipo | Causas | Comportamento típico |
|---|---|---|
| Direta (pulmonar) | Pneumonia bacteriana e viral, aspiração de conteúdo gástrico, contusão pulmonar, quase afogamento, inalação de fumaça e de gases tóxicos, embolia gordurosa. | Consolidação mais focal e assimétrica, com menor recrutabilidade e complacência da parede torácica preservada. Costuma responder menos à PEEP alta. |
| Indireta (extrapulmonar) | Sepse de foco não pulmonar, pancreatite aguda grave, politrauma, transfusão maciça e TRALI, grande queimado, circulação extracorpórea, overdose. | Edema mais difuso e homogêneo, com maior recrutabilidade e frequente aumento da pressão intra-abdominal. Costuma responder melhor à PEEP e à prona. |
| Causa mais frequente | Pneumonia e sepse respondem pela maior parte dos casos em qualquer série. | Colher culturas e iniciar antimicrobiano precoce é parte do tratamento da SDRA, não algo à parte. |
Fenótipos inflamatórios
Análises de agrupamento de grandes ensaios identificaram, de forma reprodutível, dois fenótipos biológicos com prognóstico e resposta ao tratamento distintos. É a base do movimento em direção à medicina de precisão na SDRA.
Hipoinflamatório
Cerca de dois terços dos pacientes. Marcadores inflamatórios menos elevados, menor incidência de choque e de disfunção orgânica, com mortalidade menor.
Nas reanálises, foi o grupo que pareceu se beneficiar de estratégias com PEEP mais baixa e de manejo hídrico conservador.
Hiperinflamatório
Cerca de um terço dos pacientes. Interleucina-6 e receptor solúvel de fator de necrose tumoral elevados, acidose, choque com vasopressor e mortalidade substancialmente maior.
Nas reanálises, pareceu responder melhor a PEEP mais alta e apresentou sinal favorável com estratégias anti-inflamatórias.
Recrutabilidade — o fenótipo que importa hoje
Muito mais útil na prática diária do que o fenótipo inflamatório. A pergunta é simples: este pulmão abre com pressão, ou só se distende?
Sugerem alta recrutabilidade
- SDRA de causa extrapulmonar, com edema difuso e homogêneo.
- Melhora da oxigenação e da complacência ao aumentar a PEEP.
- Queda da relação entre espaço morto e volume corrente com o aumento da PEEP.
- Grande proporção de área colapsada gravidade-dependente na tomografia.
- Boa resposta à posição prona.
Sugerem baixa recrutabilidade
- SDRA de causa pulmonar, com consolidação focal e assimétrica.
- PEEP alta que melhora a oxigenação mas piora a complacência — sinal de hiperdistensão, não de recrutamento.
- Aumento da driving pressure ao subir a PEEP.
- Queda da pressão arterial e do débito cardíaco com PEEP elevada.
- Fase fibrótica tardia.
As metas que reduzem mortalidade
A ventilação protetora é a única intervenção com benefício de mortalidade demonstrado em ensaio clínico de grande porte para a SDRA em geral. Tudo o mais é adjuvante ou de resgate.
Calculadora — peso predito, volume corrente e PEEP
O peso predito depende apenas de altura e sexo. A calculadora devolve a faixa completa de volume corrente e, para a FiO₂ informada, a PEEP correspondente nas tabelas de baixa e de alta PEEP do ARDSNet.
Tabelas PEEP/FiO₂ do ARDSNet
São o método mais usado e mais reprodutível de titulação. A escolha entre a tabela de baixa e a de alta PEEP permanece controversa: as diretrizes divergem, e a estratégia mais aceita é usar PEEP mais alta nos casos mais graves e recrutáveis.
| FiO₂ | PEEP — tabela baixa | PEEP — tabela alta |
|---|---|---|
| 0,30 | 5 | 5 a 14 |
| 0,40 | 5 a 8 | 14 a 16 |
| 0,50 | 8 a 10 | 16 a 20 |
| 0,60 | 10 | 20 |
| 0,70 | 10 a 14 | 20 |
| 0,80 | 14 | 20 a 22 |
| 0,90 | 14 a 18 | 22 |
| 1,00 | 18 a 24 | 22 a 24 |
Como montar o ventilador na prática
- Meça a altura e calcule o peso predito — anote no prontuário e no ventilador. Todo o resto depende desse número.
- Modo — controlado a volume ou a pressão; não há superioridade demonstrada de um sobre o outro. O que importa é o volume entregue e a pressão gerada.
- VOLUME CORRENTE DE 6 mL/kg DE PESO PREDITO como ponto de partida, ajustável entre 4 e 8 conforme platô, driving pressure e pH.
- Frequência respiratória — 20 a 35 por minuto para compensar o volume minuto, vigiando auto-PEEP com a curva de fluxo expiratório.
- PEEP inicial — pela tabela correspondente à FiO₂, com alvo de SpO₂ entre 88% e 95%.
- Meça platô e driving pressure — pausa inspiratória com o paciente passivo. Platô acima de 30 ou driving acima de 15 exigem reduzir o volume corrente.
- Teste a recrutabilidade — varie a PEEP em 2 a 4 cmH₂O e observe a driving pressure: se cai, mantenha; se sobe, volte.
- Reduza a FiO₂ assim que possível — hiperóxia não traz benefício e pode ser deletéria.
- Reavalie ao menos a cada 4 a 6 horas e após qualquer mudança clínica, de posição ou de sedação.
As pressões que você precisa medir
Monitorar SDRA sem medir platô e driving pressure é como tratar hipertensão sem aferir a pressão. As medidas exigem apenas uma pausa inspiratória e um paciente passivo.
| Variável | Como se obtém | O que significa |
|---|---|---|
| Pressão de pico | Leitura direta no ventilador durante a inspiração. | Reflete resistência das vias aéreas mais complacência. Isoladamente, informa pouco sobre lesão pulmonar. |
| Pressão de platô | Pausa inspiratória de 0,5 a 2 segundos, com o paciente passivo. | Pressão alveolar no fim da inspiração. Alvo ≤ 30 cmH₂O. Pico alto com platô normal aponta para resistência, não para o pulmão. |
| Driving pressure | Platô menos PEEP total (inclua a auto-PEEP quando presente). | Volume corrente normalizado pela complacência. Alvo ≤ 15 cmH₂O. É a variável ventilatória que melhor se associa a mortalidade. |
| Complacência estática | Volume corrente dividido pela driving pressure. | Reflete o tamanho funcional do baby lung. Valores abaixo de 30 mL/cmH₂O indicam doença grave. |
| Auto-PEEP | Pausa expiratória, com o paciente passivo. | PEEP oculta que se soma à programada. Ignorá-la superestima a driving pressure real e mascara hiperinsuflação. |
| Potência mecânica | Calculada a partir de volume, frequência, pico e driving pressure. | Energia total entregue ao pulmão por minuto. Integra volume, pressão e frequência em um número só. Alvo exploratório abaixo de 17 J/min. |
| Pressão transpulmonar | Requer cateter de balão esofágico. | Separa o que é pressão do pulmão do que é pressão da parede torácica. Útil em obesidade e hipertensão intra-abdominal. |
Calculadora — mecânica ventilatória
Informe os parâmetros medidos com o paciente passivo. A calculadora devolve driving pressure, complacência, potência mecânica e o volume corrente por quilo de peso predito, com leitura interpretativa de cada resultado.
Hipercapnia permissiva
Reduzir o volume corrente eleva a PaCO₂ — e isso é aceitável e esperado. Proteger o pulmão vale mais do que normalizar a gasometria.
pH acima de 7,20 é geralmente bem tolerado. Alguns protocolos aceitam até 7,15 em situações limitadas, com monitorização estrita.
Aumentar a frequência respiratória até 35 por minuto (vigiando auto-PEEP), reduzir espaço morto do circuito e tratar febre, agitação e sepse, que aumentam a produção de CO₂.
Hipertensão intracraniana, isquemia miocárdica aguda, hipertensão pulmonar grave com disfunção de ventrículo direito e acidose metabólica grave já instalada.
Não é rotina. Pode aumentar a produção de CO₂ e piorar a acidose intracelular. Reserve para acidose metabólica concomitante grave, conforme protocolo.
Lesão pulmonar autoinfligida pelo paciente
O conceito de P-SILI descreve a lesão causada pelo esforço respiratório vigoroso do próprio paciente, em ventilação espontânea ou assistida. O paciente com drive elevado gera pressões transpulmonares altas mesmo com o ventilador programado de forma protetora.
- Sinais de alerta — volume corrente espontâneo elevado, uso de musculatura acessória, frequência respiratória alta persistente, oscilação exagerada da pressão de vias aéreas e assincronia com duplo disparo.
- Índice de pressão de oclusão (P 0.1) — valores muito elevados sugerem drive respiratório excessivo; muito baixos sugerem sedação profunda demais.
- Pressão de oclusão expiratória — manobra de oclusão ao fim da expiração estima o esforço muscular e a pressão de platô dinâmica.
- O que fazer — otimizar analgesia e sedação, corrigir causas de drive elevado (dor, febre, acidose, ansiedade, hipoxemia), ajustar o ventilador e, na SDRA moderada a grave precoce, considerar bloqueio neuromuscular.
- Onde a controvérsia está — a magnitude clínica do P-SILI ainda é debatida, e não deve justificar intubação precoce indiscriminada em paciente que responde bem ao suporte não invasivo.
Escalonamento por gravidade
A sequência é a mesma em qualquer serviço: primeiro o que tem benefício demonstrado e custo baixo, depois o que exige mais recurso e tem evidência mais frágil. Pular etapas não acelera nada.
Base — todos os pacientes
SempreTratar a causa, ventilação protetora com 4 a 8 mL/kg de peso predito, platô ≤ 30, driving pressure ≤ 15, PEEP titulada, sedação e analgesia adequadas, e balanço hídrico conservador após a estabilização hemodinâmica.
Moderada a grave — P/F < 150
PrecocePosição prona por 16 horas ou mais por sessão, iniciada cedo. Considerar bloqueio neuromuscular na fase precoce e corticoide sistêmico dentro dos primeiros 14 dias. Reavaliar PEEP e recrutabilidade.
Refratária — resgate
Centro especializadoECMO venovenosa em centro de referência, segundo critérios do estudo EOLIA. Vasodilatador inalatório apenas como ponte. Contato precoce com o serviço de ECMO — transferir cedo é melhor que transferir tarde.
Suporte e prevenção
ParaleloNutrição, profilaxias, pacote de prevenção de pneumonia associada à ventilação, mobilização precoce quando possível, prevenção de delirium e planejamento do desmame e da reabilitação.
Onde as diretrizes divergem
As atualizações da American Thoracic Society, de 2024, e da European Society of Intensive Care Medicine, de 2023, concordam no essencial e divergem em três pontos que vale conhecer antes de discutir um caso.
| Intervenção | ATS 2024 | ESICM 2023 |
|---|---|---|
| Volume corrente baixo | Recomendação forte a favor. | Concordante — recomendação forte a favor. |
| Posição prona | Recomendação forte a favor na SDRA grave. | Concordante — recomendação forte a favor. |
| Manobras de recrutamento prolongadas | Recomendação forte contra. | Concordante — recomendação forte contra. |
| PEEP mais alta | Sugere PEEP mais alta sem manobras de recrutamento na moderada a grave (condicional). | Não emite recomendação, por resultados inconsistentes entre os estudos. |
| Bloqueio neuromuscular | Sugere uso na SDRA grave precoce (condicional a favor). | Recomendação forte contra o uso rotineiro. |
| Corticoide sistêmico | Sugere uso (condicional a favor), iniciado em até 14 dias. | Não aborda o tema nesta diretriz. |
| ECMO venovenosa | Sugere em pacientes selecionados com SDRA grave (condicional). | Recomendação forte a favor em centro especializado. |
| Ventilação oscilatória de alta frequência | Recomendação forte contra. | Concordante — não recomendada. |
Calculadora — escore de Murray e critérios de ECMO
O Lung Injury Score de Murray quantifica a gravidade da lesão pulmonar e é uma das referências históricas para indicação de ECMO. A pontuação final é a média dos quatro componentes.
Cada card abre o detalhamento completo: indicação, evidência que sustenta, parâmetros e posologia quando aplicável, contraindicações e erros frequentes. Os cards seguem a ordem de escalonamento apresentada acima.
Base — para todos os pacientes com SDRA
Intervenções com melhor relação entre benefício e custo. Se algo aqui não está bem feito, nenhuma terapia de resgate compensa.
SDRA moderada a grave — relação P/F abaixo de 150
Aqui entram as intervenções com maior impacto individual sobre a mortalidade. A prona é a mais custo-efetiva de todas e a mais subutilizada.
SDRA refratária — terapias de resgate
Reservadas para quem não responde a tudo o que veio antes. Exigem centro com experiência e indicação criteriosa — e, no caso da ECMO, contato precoce.
Recuperação, desmame e reabilitação
A SDRA não termina na extubação. A sequela funcional e cognitiva de longo prazo é uma das principais marcas da síndrome e merece planejamento desde a fase aguda.
Situações com manejo próprio
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Obesidade | A parede torácica pesada eleva a pressão de platô sem que a pressão transpulmonar esteja alta. O platô superestima a lesão pulmonar. | Volume corrente sempre pelo peso predito. Considere PEEP mais alta e, quando disponível, manometria esofágica para separar pulmão de parede. Cabeceira elevada. |
| Hipertensão intra-abdominal | Mesmo problema mecânico da obesidade, com componente reversível. Reduz a complacência da parede e desloca o diafragma. | Meça a pressão intravesical, trate a causa (distensão, ascite, íleo), evite conclusões pelo platô isolado e considere pressão transpulmonar. |
| Hipertensão intracraniana | A hipercapnia permissiva é contraindicada, e PEEP alta pode reduzir o retorno venoso cerebral. | Priorize normocapnia, use a menor PEEP eficaz, mantenha cabeceira elevada e discuta caso a caso o conflito entre proteção pulmonar e cerebral. |
| Cor pulmonale agudo | Ocorre em parcela relevante da SDRA grave. PEEP alta, hipercapnia e hipoxemia aumentam a pós-carga do ventrículo direito. | Ecocardiograma seriado, limitar driving pressure, evitar hipercapnia extrema, considerar prona (que costuma melhorar o ventrículo direito) e evitar sobrecarga volêmica. |
| Gestação | Elevação diafragmática, menor capacidade residual funcional e alcalose respiratória fisiológica. Hipoxemia materna afeta o feto rapidamente. | Alvos de oxigenação mais generosos (SpO₂ ≥ 95%), atenção ao pH (a hipercapnia permissiva é menos tolerada), decúbito lateral esquerdo e prona possível com equipe treinada e apoio obstétrico. |
| Imunossuprimido | Espectro etiológico muito mais amplo, incluindo infecções oportunistas, toxicidade de fármacos e envolvimento da doença de base. | Baixo limiar para lavado broncoalveolar e tomografia. Ajuste a cobertura antimicrobiana e reveja a lista de fármacos pneumotóxicos. |
| SDRA por COVID-19 | Mecanicamente comporta-se como SDRA clássica na maioria dos casos, com alta incidência de trombose. | Ventilação protetora habitual, corticoide conforme protocolo vigente, atenção redobrada a eventos tromboembólicos e prona também em não intubados quando indicado. |
| Trauma torácico com contusão | Componente assimétrico, dor limitando a mecânica e risco elevado de barotrauma. | Analgesia agressiva, incluindo bloqueio regional, drenar pneumotórax antes de subir PEEP e vigilância contínua para barotrauma. |
| Recursos limitados | Sem gasometria, sem tomografia e, por vezes, sem ventilador disponível de imediato. | A nova definição global foi construída para este cenário: use SpO₂/FiO₂ e ultrassom pulmonar, e aplique o que é factível — volume corrente baixo, prona e manejo hídrico conservador não dependem de tecnologia cara. |
Erros comuns
- Calcular o volume corrente pelo peso real em vez do peso predito.
- Estimar a altura no olho em vez de medi-la, errando o peso predito e todo o resto.
- Não reconhecer a síndrome — o subdiagnóstico é o erro mais frequente de todos.
- Nunca medir pressão de platô nem driving pressure.
- Medir platô em paciente com esforço inspiratório ativo e confiar no valor.
- Esquecer de somar a auto-PEEP ao calcular a driving pressure.
- Aumentar a PEEP olhando apenas a oxigenação, ignorando que a driving pressure subiu.
- Fazer manobras de recrutamento prolongadas, que aumentaram a mortalidade no estudo ART.
- Adiar a prona ou fazer sessões curtas de 4 a 6 horas em vez de 16 horas ou mais.
- Considerar o paciente refratário sem nunca tê-lo pronado adequadamente.
- Manter balanço hídrico positivo depois que o choque já foi resolvido.
- Perseguir SpO₂ de 100% e manter FiO₂ alta desnecessariamente.
- Tratar a hipercapnia permissiva com bicarbonato de rotina.
- Iniciar corticoide muito tardiamente, já na fase fibrótica.
- Não procurar e não tratar a causa da SDRA.
- Acionar o centro de ECMO apenas quando o paciente já está em falência de múltiplos órgãos.
- Esquecer as profilaxias, a nutrição e a prevenção de delirium enquanto se foca no ventilador.
Resumo do fluxo
- Reconheça: hipoxemia aguda com opacidades bilaterais em até 7 dias de um insulto, não explicada apenas por causa cardíaca. Calcule P/F ou S/F.
- Procure e trate a causa — pneumonia, sepse, aspiração, pancreatite, transfusão, fármaco.
- Meça a altura e calcule o peso predito. Anote no prontuário.
- VOLUME CORRENTE DE 4 A 8 mL/kg DE PESO PREDITO, PLATÔ ≤ 30 E DRIVING PRESSURE ≤ 15 cmH₂O.
- Titule a PEEP pela tabela correspondente à FiO₂ ou pela menor driving pressure; alvo de SpO₂ entre 88% e 95%.
- Otimize sedação e analgesia; corrija assincronia antes de aumentar volume corrente.
- Reavalie a relação P/F após a estabilização ventilatória e reclassifique a gravidade.
- P/F ABAIXO DE 150: PRONE POR 16 HORAS OU MAIS, INICIANDO PRECOCEMENTE.
- Considere bloqueio neuromuscular na fase precoce da SDRA grave e corticoide sistêmico dentro dos primeiros 14 dias.
- Após a estabilização hemodinâmica, adote estratégia hídrica conservadora.
- Persistindo refratariedade, acione precocemente o centro de ECMO e avalie os critérios do EOLIA.
- Em paralelo, mantenha nutrição, profilaxias, prevenção de delirium e mobilização possível; planeje desmame e reabilitação desde cedo.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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- Gattinoni L, Tonetti T, Cressoni M, et al. Ventilator-related causes of lung injury: the mechanical power. Intensive Care Med. 2016;42(10):1567-1575.
- Murray JF, Matthay MA, Luce JM, Flick MR. An expanded definition of the adult respiratory distress syndrome. Am Rev Respir Dis. 1988;138(3):720-723.
- Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT). Diretrizes brasileiras de ventilação mecânica e recomendações vigentes sobre SDRA.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Parâmetros ventilatórios, doses e metas devem ser sempre conferidos e individualizados, considerando o paciente, o equipamento disponível e o contexto assistencial.
Informações rápidas
Resumo do artigo e metas de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Diagnosticar
Início em até 7 dias de um insulto, opacidades bilaterais não explicadas apenas por derrame ou atelectasia, edema não explicado integralmente por causa cardíaca, e relação P/F ≤ 300 com PEEP de pelo menos 5. A nova definição global aceita SpO₂/FiO₂ ≤ 315 (com SpO₂ ≤ 97%), oxigênio nasal de alto fluxo com ao menos 30 L/min e ultrassom pulmonar como imagem.
Ventilar protegendo
Volume corrente de 4 a 8 mL/kg de peso predito (alvo 6), platô abaixo de 30 e driving pressure até 15 cmH₂O. O peso predito vem de altura e sexo — jamais da balança. SpO₂ alvo de 88% a 95% e hipercapnia permissiva aceitável com pH acima de 7,20.
Pronar cedo
Indicada com P/F abaixo de 150, em sessões de 16 horas ou mais, iniciadas nas primeiras 36 a 48 horas. É a intervenção com maior benefício de mortalidade depois da própria ventilação protetora — e a mais subutilizada na prática.
Saber o que não fazer
Manobras de recrutamento prolongadas aumentaram a mortalidade no estudo ART. Ventilação oscilatória de alta frequência e remoção extracorpórea isolada de CO₂ não são recomendadas. Balanço hídrico positivo após a resolução do choque piora o desfecho.
Números rápidos
Peso predito: homem 50 + 0,91 × (altura em cm − 152,4); mulher 45,5 + 0,91 × (altura em cm − 152,4).
Volume corrente: 4 a 8 mL/kg de peso predito, alvo inicial de 6.
Platô: abaixo de 30 cmH₂O. Driving pressure: até 15 cmH₂O.
Classificação: P/F de 201 a 300 leve, 101 a 200 moderada, até 100 grave.
Prona: P/F abaixo de 150, sessões de 16 horas ou mais.
SpO₂ alvo: 88% a 95%; PaO₂ de 55 a 80 mmHg.
pH: hipercapnia permissiva aceitável acima de 7,20.
Potência mecânica: alvo exploratório abaixo de 17 J/min.
Não esqueça
Peso predito, calculado por altura e sexo — nunca o peso real.
Meça platô e driving pressure com o paciente passivo.
Some a auto-PEEP ao calcular a driving pressure.
PEEP que melhora a oxigenação mas piora a driving pressure é hiperdistensão, não recrutamento.
Prona longa (16 h), e não sessões curtas de 4 a 6 horas.
Recrutamento prolongado causa dano — não faça.
SDRA é síndrome: sempre procure e trate a causa.
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Em provas / residência
A banca cobra os quatro critérios de Berlim, a classificação pela relação P/F e o cálculo do volume corrente pelo peso predito.
Decore: 6 mL/kg de peso predito; platô abaixo de 30; driving pressure até 15; prona indicada com P/F menor que 150, por 16 horas ou mais.
