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Registro clínico

Registro Médico Orientado por Problemas

Método estruturado de documentação clínica que organiza o prontuário a partir dos problemas de saúde da pessoa, favorecendo raciocínio clínico, comunicação da equipe e continuidade do cuidado.

Lista de problemas Método SOAP Cuidado longitudinal

Visão Geral

O Registro Médico Orientado por Problemas (RMOP) é um modelo de organização do prontuário no qual as informações clínicas são estruturadas em torno dos problemas de saúde da pessoa. Desenvolvido a partir dos trabalhos de Lawrence Weed na década de 1960, o modelo também é denominado Registro Clínico Orientado por Problemas (RCOP) e, em uma perspectiva multiprofissional, Registro de Saúde Orientado por Problemas (ReSOAP).

Na Atenção Primária à Saúde, essa organização é especialmente útil porque permite acompanhar simultaneamente condições agudas e crônicas, necessidades preventivas, aspectos psicossociais e problemas ainda sem diagnóstico definitivo. O foco não é apenas registrar doenças, mas documentar tudo aquilo que exige avaliação, acompanhamento ou intervenção da equipe.

O modelo é composto por três áreas fundamentais: Base de Dados da Pessoa, Lista de Problemas e Notas de Evolução Clínica, habitualmente registradas pelo método SOAP.

Longitudinalidade Raciocínio clínico Comunicação em equipe

Acesso rápido

Facilita a identificação dos principais problemas, antecedentes e decisões clínicas relevantes.

Registro continuado

Permite acompanhar a evolução de cada problema ao longo de diferentes consultas e profissionais.

Planejamento do cuidado

Ajuda a reconhecer frequência de atendimentos, pendências, respostas terapêuticas e necessidades de seguimento.

Funções do registro em prontuário

Memória clínica

Preserva o histórico e permite compreender a trajetória da pessoa ao longo do tempo.

Apoio à decisão

Organiza dados relevantes para avaliação, hipóteses, condutas e acompanhamento.

Comunicação

Favorece troca de informações e coordenação do cuidado entre diferentes profissionais.

Longitudinalidade

Permite integrar atendimentos sucessivos sem perder a relação entre problemas e planos.

Pesquisa e gestão

Registros estruturados podem contribuir para análise assistencial, epidemiológica e de serviços.

Aspectos legais

O prontuário também constitui documento assistencial relevante em auditorias e investigações legais.

Por que o método é útil na Atenção Primária?

Na APS, uma mesma pessoa pode apresentar múltiplos problemas simultâneos, diagnósticos ainda incertos, necessidades preventivas e questões familiares ou sociais que interferem no cuidado. Além disso, o acompanhamento tende a ser longitudinal e multiprofissional, sem uma lógica de “alta” após cada episódio.

Problema não é sinônimo de diagnóstico

Sintomas, sinais, alterações de exames, fatores psicossociais e outras condições que exigem ação também podem integrar a lista.

Evite registros fragmentados

O valor do método depende de relacionar cada evolução aos problemas acompanhados e manter a lista atualizada.

Estrutura do registro orientado por problemas

O modelo clássico organiza o prontuário em três áreas interligadas. A base de dados reúne as informações iniciais; a lista de problemas funciona como um índice clínico dinâmico; e as notas SOAP documentam a evolução de cada encontro.

1

Base de Dados da Pessoa

Conjunto inicial de informações clínicas, antecedentes, contexto e exames relevantes que sustentam a identificação dos problemas.

2

Lista de Problemas

Relação dinâmica das condições que requerem avaliação, intervenção, vigilância ou acompanhamento.

3

Notas de Evolução

Registros de cada atendimento, geralmente estruturados em Subjetivo, Objetivo, Avaliação e Plano.

Base de Dados da Pessoa

É formada progressivamente a partir da história clínica, exame físico, antecedentes e exames complementares. Em geral, é mais ampla nas primeiras consultas e deve ser atualizada quando surgirem informações relevantes.

  • Identificação e dados contextuais relevantes.
  • Antecedentes pessoais e familiares.
  • Medicamentos em uso e alergias.
  • Hábitos e fatores de risco.
  • Aspectos familiares, sociais e ocupacionais pertinentes.
  • Exame físico e exames complementares relevantes.
Lista de Problemas

Funciona como uma “capa clínica” do prontuário: deve permitir que o profissional reconheça rapidamente o que está ativo, o que precisa de seguimento e quais condições anteriores continuam relevantes.

  • Deve ser objetiva, identificável e atualizada.
  • Pode conter diagnósticos definidos ou problemas ainda em investigação.
  • Deve refletir questões clínicas e psicossociais relevantes ao cuidado.
  • Problemas resolvidos podem permanecer registrados como antecedentes quando tiverem importância futura.
Registro tradicional x registro orientado por problemas
Aspecto Registro episódico/tradicional Registro orientado por problemas
Organização Frequentemente centrada no episódio ou na consulta. Centrada nos problemas acompanhados ao longo do tempo.
Diagnóstico Pode favorecer registros organizados principalmente por diagnósticos já definidos. Aceita problemas ainda sem diagnóstico fechado, desde que exijam ação ou acompanhamento.
Longitudinalidade Informações podem ficar dispersas entre diferentes evoluções. A lista de problemas ajuda a conectar encontros sucessivos.
Equipe Pode variar bastante entre profissionais e serviços. Favorece linguagem e estrutura compartilhadas, especialmente com uso do SOAP.

Método SOAP

O SOAP é a principal ferramenta para registrar as notas de evolução dentro do modelo orientado por problemas. A sequência organiza o atendimento em quatro blocos: Subjetivo, Objetivo, Avaliação e Plano.

S

Subjetivo

Registra aquilo que é relatado pela pessoa e o contexto percebido durante a entrevista clínica.

  • Motivo da consulta e queixas.
  • História e evolução dos sintomas.
  • Percepções, sentimentos, expectativas e preocupações.
  • Informações familiares e sociais pertinentes.
O

Objetivo

Reúne informações observáveis ou mensuráveis obtidas pelo profissional.

  • Sinais vitais e medidas clínicas.
  • Achados do exame físico.
  • Resultados de exames complementares.
  • Outros dados objetivos relevantes ao problema.
A

Avaliação

Expressa a síntese e o julgamento clínico construídos a partir dos dados subjetivos e objetivos.

  • Problema ou condição avaliada.
  • Hipóteses diagnósticas e diagnósticos estabelecidos.
  • Impressão clínica, gravidade ou evolução quando pertinente.
  • Classificação por CIAP-2 ou CID quando aplicável ao sistema utilizado.
P

Plano

Registra as intervenções e próximos passos definidos no encontro clínico.

  • Solicitação de exames.
  • Tratamento farmacológico e não farmacológico.
  • Orientações e educação em saúde.
  • Encaminhamentos, retornos e seguimento.
Exemplo prático de evolução em SOAP
S

Refere cefaleia frontal há 2 dias, intensidade leve a moderada, sem vômitos. Relata redução do sono na última semana e nega trauma recente.

O

Bom estado geral, afebril, sinais vitais estáveis. Exame neurológico sem déficits focais ou sinais meníngeos.

A

Cefaleia aguda sem sinais de alarme identificados na avaliação atual; provável cefaleia primária, a esclarecer conforme evolução clínica.

P

Orientadas medidas gerais, sinais de alarme e retorno em caso de piora ou persistência. Definida conduta sintomática conforme avaliação individual.

Não antecipe conclusões

O campo “Avaliação” deve refletir o grau de certeza disponível naquele encontro. Quando não houver diagnóstico estabelecido, registre o problema, a hipótese ou a impressão clínica de forma compatível com os dados encontrados.

No PEC e-SUS APS

O SOAP é a ferramenta central do registro do atendimento. No campo Avaliação, o problema ou condição avaliada pode ser codificado por CIAP-2 ou CID-10 conforme as regras e funcionalidades vigentes do sistema.

Lista de Problemas

Um problema clínico é qualquer condição que requeira ação da equipe e motive avaliação, intervenção, vigilância ou acompanhamento. Por isso, a lista não deve ser limitada a diagnósticos nosológicos já confirmados.

A lista é dinâmica: problemas podem ser incluídos, atualizados, resolvidos ou mantidos como antecedentes relevantes. O objetivo é fornecer uma visão rápida e útil da situação clínica da pessoa.

Doenças e condições

Condições crônicas, recorrentes ou de impacto clínico relevante que exigem manejo ou vigilância.

Sintomas e achados

Sintomas, sinais ou alterações de exames podem ser registrados enquanto a etiologia ainda está em investigação.

Questões psicossociais

Violência, uso problemático de substâncias e outras questões sociais podem integrar a lista quando interferem no cuidado.

Recorrências

Problemas com remissões e recorrências podem permanecer registrados para facilitar o acompanhamento longitudinal.

Procedimentos relevantes

Cirurgias e intervenções maiores podem ser mantidas quando modificam risco, avaliação ou conduta futura.

Condições que alteram condutas

Alergias e outros fatores que modificam a terapêutica devem permanecer facilmente identificáveis no prontuário.

Como organizar a lista
Problema Situação Informação útil
Hipertensão arterial Ativo Manter enquanto houver acompanhamento, tratamento ou vigilância relacionados à condição.
Dor abdominal a esclarecer Em investigação O problema pode ser registrado antes de existir diagnóstico etiológico definido.
Alergia medicamentosa Relevante Deve permanecer visível quando puder modificar escolhas terapêuticas futuras.
Cirurgia abdominal prévia Antecedente Pode ser mantida quando tiver importância para avaliação ou manejo posterior.
Quando incluir
  • Quando a condição exige ação ou seguimento da equipe.
  • Quando influencia decisões diagnósticas ou terapêuticas.
  • Quando precisa ser lembrada em consultas futuras.
  • Quando representa vulnerabilidade clínica ou psicossocial relevante.
Como manter útil
  • Evite duplicidades e termos excessivamente vagos.
  • Atualize a situação do problema quando houver mudança.
  • Relacione as evoluções e planos aos problemas pertinentes.
  • Preserve antecedentes relevantes, sem transformar a lista em histórico indiscriminado.
Referências Bibliográficas
  1. BRASIL. Ministério da Saúde. e-SUS APS: Base Conceitual do Sistema — Registro Clínico Orientado por Problemas. Brasília: Ministério da Saúde.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. e-SUS APS: Atendimentos — SOAP. Brasília: Ministério da Saúde.
  3. THEOTÔNIO, R. C.; Comissão de Educação Médica Continuada CRM-DF. Prontuário médico do paciente: guia para uso prático. Brasília: Conselho Regional de Medicina, 2006.
  4. CASTRO, R. C. L. Registros clínicos na medicina de família e comunidade e na atenção primária à saúde: o registro médico orientado a problemas. PROMEF. Porto Alegre: Artmed, 2011.
  5. DEMARZO, M. M. P.; OLIVEIRA, C. A.; GONÇALVES, D. A. Prática clínica na Estratégia Saúde da Família: organização e registro. São Paulo: UNA-SUS/UNIFESP, 2011.
  6. GUSSO, G.; LOPES, J. M. C. Registro de saúde orientado por problemas. In: Tratado de Medicina de Família e Comunidade: princípios, formação e prática. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
  7. LIMA, M. V.; PELLANDA, L. C.; ARÚS, M. A. Registros Médicos, Certificados e Atestados. In: Duncan BB, Schmidt MI, Giugliani ERJ, editores. Medicina Ambulatorial: Condutas de Atenção Primária Baseadas em Evidências. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.
Qualidade do registro

O registro deve ser claro, objetivo, cronológico e compatível com o atendimento realizado. Informações relevantes precisam ser atualizadas de modo que outros profissionais consigam compreender a situação e a continuidade do plano.

Aplicação prática

A nomenclatura e os campos disponíveis podem variar conforme o prontuário eletrônico ou serviço. A lógica central permanece: organizar os dados por problemas e registrar cada evolução de forma estruturada.

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