MedFoco

Emergência & UTI • Trauma

Queimaduras

O que mata na primeira hora não é a pele: é a via aérea, o monóxido de carbono e o trauma associado. Depois disso, o desafio muda de nome — repor volume suficiente para perfundir sem afogar o paciente. A fórmula é um ponto de partida; quem manda é a diurese.

Via aérea primeiro SCQ pela regra dos nove Titular pela diurese Prevenir hipotermia
Tempo de leitura: 16 min
Atualizado em: 12/08/2026

Interromper e resfriar

  • Retirar roupas, joias e material aderido não fixo
  • Água corrente em temperatura ambiente por até 20 min
  • Nunca use gelo nem água muito fria
  • Cobrir com pano limpo e aquecer o paciente

Via aérea

  • Queimadura em ambiente fechado ou explosão
  • Rouquidão, estridor, escarro carbonáceo
  • Queimadura de face, vibrissas e orofaringe
  • Intubar cedo — a janela fecha rápido

Calcular a SCQ

  • Regra dos nove no adulto; Lund-Browder na criança
  • Palma da mão do paciente ≈ 1% para áreas dispersas
  • Contar apenas 2º e 3º graus
  • Superestimar leva a hiper-hidratação

Repor volume

  • Iniciar com 2 mL/kg/%SCQ em Ringer lactato
  • Metade nas primeiras 8 h do acidente
  • Alvo de diurese: 0,5 mL/kg/h no adulto
  • Ajustar a cada hora — evitar fluid creep

Queimadura é trauma sistêmico

A queimadura extensa não é apenas uma ferida: é um trauma com resposta inflamatória sistêmica. Acima de aproximadamente 20% da superfície corporal queimada no adulto, a liberação de mediadores produz aumento generalizado da permeabilidade capilar, com perda de plasma para o interstício em todo o corpo — inclusive em áreas não queimadas.

O resultado é o choque do queimado: componente hipovolêmico (perda para o terceiro espaço), distributivo (vasodilatação mediada por inflamação) e, nas primeiras horas, também cardiogênico, por depressão miocárdica. Por isso a reposição volêmica é o eixo do tratamento inicial — e por isso ela precisa ser bem dosada.

Na primeira hora, o que mata é a via aérea, a intoxicação por monóxido de carbono e cianeto e o trauma associado — não a extensão da queimadura. Trate o queimado como politraumatizado até prova em contrário.

Zonas de Jackson

A lesão térmica organiza-se em três zonas concêntricas, e entender isso muda a conduta:

  • Zona de coagulação — centro da lesão, com necrose irreversível. Perdida desde o início.
  • Zona de estase — ao redor, com perfusão comprometida mas tecido ainda viável. É a zona que se pode salvar — ou perder.
  • Zona de hiperemia — periferia, com vasodilatação e recuperação espontânea.

Hipotensão, hipoperfusão, infecção, edema excessivo e resfriamento inadequado convertem a zona de estase em necrose — e a queimadura "aprofunda" nas primeiras 48 a 72 horas.

O que aprofunda a queimadura

  • Hipovolemia e hipotensão não corrigidas.
  • Hiper-hidratação, com edema que compromete a microcirculação.
  • Hipotermia — muito frequente e frequentemente iatrogênica.
  • Infecção da ferida.
  • Compressão por escara circunferencial.
A consequência prática

A profundidade avaliada nas primeiras horas não é definitiva. Reavalie a ferida em 48 a 72 horas antes de decidir sobre enxertia — e informe isso ao paciente e à família desde o início.

Epidemiologia

No Brasil, as queimaduras são causa frequente de atendimento de urgência, com predomínio de acidentes domésticos. Escaldadura por líquidos quentes é o mecanismo mais comum em crianças pequenas; chama direta, com frequência envolvendo álcool líquido, predomina em adolescentes e adultos. Queimaduras elétricas e químicas têm forte componente ocupacional.

Local

A maioria dos acidentes ocorre no ambiente doméstico.

Criança

Escaldadura por líquidos quentes é o mecanismo dominante.

Adulto

Chama direta, frequentemente com álcool líquido envolvido.

Ocupacional

Predomínio de lesões elétricas e químicas.

Prognóstico

Extensão, idade e lesão inalatória são os principais determinantes de mortalidade.

As três perguntas da primeira hora

A via aérea está ameaçada?

Ambiente fechado, explosão, queimadura de face, rouquidão, estridor, escarro carbonáceo ou edema de orofaringe. O edema progride nas horas seguintes e a intubação tardia pode se tornar impossível.

Qual é a extensão e a profundidade?

SCQ pela regra dos nove ou Lund-Browder, contando apenas segundo e terceiro graus. Esse número define volume, critérios de internação e necessidade de transferência.

Há trauma ou intoxicação associados?

Queda, explosão, colisão, fratura, intoxicação por monóxido de carbono ou cianeto. O queimado que chega hipotenso raramente está hipotenso pela queimadura.

Hipotensão nas primeiras horas de uma queimadura não é explicada apenas pela queimadura. Procure sangramento, pneumotórax, tamponamento, lesão medular e intoxicação.

Profundidade

Grau Camada atingida Aspecto clínico Evolução
1º grau
Superficial
Epiderme Eritema, dor, sem bolhas. Enchimento capilar preservado. Exemplo clássico: queimadura solar. Cura em 3 a 7 dias, sem sequela. Não entra no cálculo da SCQ.
2º grau superficial Derme papilar Bolhas, base rósea e úmida, muito dolorosa, enchimento capilar rápido. Cura em 1 a 3 semanas, habitualmente sem cicatriz hipertrófica.
2º grau profundo Derme reticular Base pálida ou mosqueada, mais seca, dor reduzida, enchimento capilar lentificado. Cura lenta, acima de 3 semanas, com cicatriz. Frequentemente exige enxertia.
3º grau
Espessura total
Toda a derme Branca nacarada, marrom ou carbonizada, seca, endurecida, indolor e sem enchimento capilar. Vasos trombosados visíveis. Não epiteliza a partir do leito: exige enxertia.
4º grau Além da pele Atinge tecido subcutâneo, fáscia, músculo ou osso. Típica de lesão elétrica e de exposição prolongada à chama. Desbridamento extenso, retalhos e, por vezes, amputação.
Regra prática: quanto mais profunda, menos dói — a destruição das terminações nervosas explica a analgesia paradoxal do terceiro grau. Área indolor no meio de uma queimadura muito dolorosa é sinal de profundidade, não de melhora.

Classificação pelo agente

Térmica

Chama, escaldadura, contato com superfície quente, vapor. É a mais frequente. Vapor e líquidos aquecidos causam lesão mais profunda do que se costuma estimar à primeira vista.

Elétrica

A lesão cutânea subestima grosseiramente o dano profundo. Alto risco de rabdomiólise, síndrome compartimental, arritmia e lesão de órgãos internos.

Química

A gravidade depende do agente, da concentração e do tempo de contato. Álcalis penetram mais e causam lesão mais profunda que ácidos.

Por frio e radiação

Congelamento e queimadura por radiação seguem princípios próprios de manejo, com reavaliação seriada da profundidade.

Critérios de encaminhamento a centro de queimados

Baseados nos critérios amplamente adotados da associação americana de queimados e replicados na maioria dos protocolos brasileiros. A presença de qualquer um deles justifica contato com o serviço de referência.

  • Queimadura de segundo grau acima de 10% da SCQ.
  • Queimadura de terceiro grau em qualquer extensão.
  • Acometimento de face, mãos, pés, genitália, períneo ou articulações maiores.
  • Queimadura elétrica, incluindo lesão por raio.
  • Queimadura química.
  • Lesão inalatória associada.
  • Queimadura em paciente com comorbidades que possam complicar o tratamento ou prolongar a recuperação.
  • Queimadura com trauma associado — priorizando a condição de maior risco imediato.
  • Criança atendida em serviço sem estrutura pediátrica adequada.
  • Paciente que exigirá suporte especial de reabilitação, social ou psicológico, incluindo suspeita de maus-tratos.
Contate o centro de referência cedo, ainda durante a estabilização — a orientação à distância sobre volume, via aérea e curativo melhora o transporte e evita hiper-hidratação no caminho.

Como estimar a superfície corporal queimada

A SCQ é o número que define volume, critérios de internação e transferência. Errar para mais leva à hiper-hidratação; errar para menos, ao choque não corrigido.

Método Quando usar Como funciona
Regra dos nove Adulto, estimativa rápida na sala Segmentos corporais em múltiplos de 9%: cabeça e pescoço 9; cada membro superior 9; tronco anterior 18; tronco posterior 18; cada membro inferior 18; períneo 1.
Regra dos nove pediátrica Criança pequena A cabeça representa proporção maior (cerca de 18%) e cada membro inferior, menor (cerca de 13,5%). A proporção muda com a idade.
Lund-Browder Padrão de referência, sobretudo em crianças Tabela que corrige as proporções corporais por faixa etária. É o método mais preciso e o recomendado para o cálculo definitivo.
Regra da palma Queimaduras pequenas ou dispersas A superfície palmar do paciente, incluindo os dedos, corresponde a aproximadamente 1% da sua SCQ.
Não inclua queimaduras de primeiro grau no cálculo. Contar o eritema simples é a causa mais comum de superestimativa da SCQ — e, por consequência, de hiper-hidratação.

Calculadora — SCQ pela regra dos nove

Adulto e criança Percentual por segmento

Informe, para cada segmento, quanto por cento daquele segmento está queimado (0 a 100). A coluna à direita mostra a contribuição para a SCQ total. Conte apenas segundo e terceiro graus.

Segmento Máx. % queimado Contribui
Superfície corporal queimada
0%
Ferramenta de apoio: a regra dos nove é uma estimativa. Para o cálculo definitivo, sobretudo em crianças, use a tabela de Lund-Browder, que corrige as proporções por faixa etária. Reavalie a SCQ após a limpeza da ferida — fuligem e sujidade induzem a erro.

Armadilhas na estimativa

  • Contar eritema de primeiro grau — o erro mais frequente e o de maior impacto.
  • Estimar antes de limpar a ferida: fuligem e sujidade simulam áreas queimadas.
  • Usar a regra dos nove do adulto em criança pequena, subestimando a cabeça e superestimando os membros inferiores.
  • Usar a palma do examinador em vez da palma do paciente.
  • Não reavaliar a extensão e a profundidade nas primeiras 48 a 72 horas.
  • Arredondar generosamente para cima "por segurança" — em queimados, o excesso de volume também mata.

Os primeiros dez minutos

O queimado é avaliado como politraumatizado. A queimadura é impressionante e rouba atenção — o xABCDE evita que ela esconda o que mata mais rápido.

  1. Interrompa o processo de queimadura: retire roupas, joias e anéis; remova material aderido apenas se soltar sem trauma.
  2. A — avalie a via aérea buscando sinais de lesão inalatória e edema. Diante de risco, intube CEDO, com o tubo de maior calibre disponível.
  3. B — oxigênio a 100% por máscara com reservatório em toda suspeita de exposição a fumaça; avalie escara circunferencial torácica restringindo a ventilação.
  4. C — dois acessos venosos calibrosos, preferindo pele não queimada, mas puncione através da queimadura se necessário; considere intraósseo. Colha exames e inicie a reposição.
  5. D — Glasgow e pupilas; rebaixamento sugere hipóxia, intoxicação por monóxido de carbono ou cianeto, ou trauma craniano.
  6. E — exponha totalmente para estimar a SCQ e depois cubra e aqueça imediatamente; o queimado perde calor com enorme facilidade.
  7. Analgesia venosa titulada — a dor é intensa e a via intramuscular é imprevisível no queimado.
  8. Sonda vesical em queimaduras extensas, para medir a diurese horária; sonda gástrica se houver íleo ou SCQ elevada.
  9. Profilaxia antitetânica conforme o histórico vacinal e contato com o centro de referência.
Hipotermia é a complicação iatrogênica mais comum na sala de emergência do queimado. Resfrie a queimadura, não o paciente: água corrente por poucos minutos, depois cobrir, aquecer a sala, usar manta térmica e aquecer os fluidos.

Resfriamento e primeiro curativo

Como resfriar

Água corrente em temperatura ambiente por até cerca de 20 minutos, idealmente nas primeiras 3 horas. Reduz a dor e limita o aprofundamento da lesão.

O que não fazer

Nunca use gelo ou água muito fria: causa vasoconstrição, aprofunda a lesão e provoca hipotermia. Em queimaduras extensas, limite o tempo de resfriamento.

Nada de receitas caseiras

Pasta de dente, manteiga, borra de café, pó de café e clara de ovo aumentam infecção e dificultam a avaliação. Oriente ativamente contra.

Cobertura inicial

Pano limpo e seco ou compressa estéril, sem produtos, até a avaliação definitiva. Curativos específicos vêm depois do exame completo.

Exames iniciais

Exame Por que pedir
Gasometria com co-oximetriaMede carboxi-hemoglobina — a oximetria de pulso é falsamente normal na intoxicação por monóxido de carbono. Avalia também acidose e lactato.
LactatoMarcador de gravidade; elevação desproporcional levanta a suspeita de intoxicação por cianeto em vítimas de incêndio em ambiente fechado.
Hemograma e coagulogramaHemoconcentração é esperada nas primeiras horas; anemia precoce sugere sangramento associado.
Eletrólitos e função renalBase para o acompanhamento da reposição e da função renal.
CPK e urinaRabdomiólise, especialmente em queimadura elétrica e em lesões profundas extensas. Urina escura orienta hidratação mais agressiva.
GlicemiaObrigatória em qualquer rebaixamento; hipoglicemia é diferencial e é comum em crianças.
ECGIndispensável na queimadura elétrica; monitorização prolongada conforme o mecanismo e os achados.
ImagemRadiografia de tórax e demais exames conforme o mecanismo — explosão, queda e colisão pedem avaliação de trauma completa.

Princípios

A reposição é indicada em adultos com SCQ igual ou superior a 20% (alguns serviços adotam 15%) e em crianças a partir de aproximadamente 10 a 15%. Abaixo desses limiares, hidratação oral ou de manutenção costuma bastar.

Elemento Recomendação Observação
SoluçãoRinger lactatoCristaloide balanceado é o padrão; o soro fisiológico em grande volume causa acidose hiperclorêmica.
Fórmula inicial2 mL/kg/%SCQ nas primeiras 24 horasAs diretrizes atuais de ressuscitação do choque do queimado recomendam iniciar com 2 mL/kg/%SCQ para reduzir o volume total infundido. A fórmula de Parkland (4 mL) tende a superestimar.
DistribuiçãoMetade nas primeiras 8 horas, metade nas 16 horas seguintesAs 8 horas contam a partir do momento do acidente, não da chegada ao hospital.
Alvo de diurese (adulto)0,5 mL/kg/h — habitualmente 30–50 mL/hÉ o principal parâmetro de titulação.
Alvo de diurese (criança)1 mL/kg/hCrianças pequenas também precisam de fluido de manutenção com glicose, somado ao volume de ressuscitação.
AjusteReavaliar a cada hora, aumentando ou reduzindo em torno de 20% conforme a diureseA fórmula é ponto de partida, não prescrição fixa.
AlbuminaPode ser considerada nas primeiras 24 horasSugerida para melhorar o débito urinário e reduzir o volume total, sobretudo em queimaduras extensas e em situações de resgate.
Fluid creep é o excesso progressivo de volume que se acumula quando se segue a fórmula sem titular. As consequências são edema pulmonar, síndrome compartimental abdominal e de membros, necessidade de escarotomia e aprofundamento da queimadura.

Calculadora — reposição volêmica

Fórmula selecionável Primeiras 8 h e 16 h seguintes Alvo de diurese

Volume das primeiras 24 horas = fórmula × peso × %SCQ. Metade nas primeiras 8 horas contadas a partir do acidente, metade nas 16 horas seguintes. Informe as horas já decorridas para que a calculadora ajuste a taxa restante.

Volume em 24 h
4200 mL
Primeiras 8 h
2100 mL
Taxa agora
350 mL/h
Diurese alvo
Leitura rápida
Ferramenta de apoio. A "taxa agora" distribui o volume restante da fase atual pelo tempo que falta — é um ponto de partida que deve ser reajustado a cada hora pela diurese. Em criança, some o fluido de manutenção com glicose. Em queimadura elétrica ou com rabdomiólise, os volumes e o alvo de diurese são maiores.

Como titular na prática

  1. Calcule o volume inicial e programe a bomba — anote o horário do acidente, não o da admissão.
  2. Desconte o volume já infundido no pré-hospitalar e em outro serviço.
  3. Meça a diurese de hora em hora por sonda vesical.
  4. Diurese abaixo do alvo: aumente a taxa em cerca de 20% e reavalie na hora seguinte.
  5. Diurese acima do alvo: reduza a taxa em cerca de 20% — não mantenha o excesso "por segurança".
  6. Reavalie perfusão, nível de consciência, lactato e base excess como parâmetros complementares.
  7. Sem resposta apesar de volumes crescentes: reveja o diagnóstico, procure sangramento, considere albumina de resgate e discuta vasopressor.
  8. Após 24 horas, transicione para manutenção e planeje balanço negativo conforme a evolução.
Diurese muito acima do alvo não é um bom sinal: significa que você está infundindo mais do que o necessário. Em queimados, o excesso de volume é iatrogenia, não margem de segurança.

Três lesões diferentes com o mesmo nome

Lesão térmica de via aérea superior

Acima das cordas vocais. O ar quente é rapidamente resfriado pela via aérea, então a lesão térmica é quase sempre supraglótica. Produz edema progressivo nas primeiras horas — o grande motivo de intubação precoce.

Lesão química por fumaça

Abaixo das cordas, causada pelos produtos da combustão. Provoca broncoespasmo, descamação da mucosa, tampões e insuficiência respiratória, frequentemente com piora em 24 a 72 horas.

Intoxicação sistêmica

Monóxido de carbono e cianeto, liberados na combustão. Causam hipóxia tecidual sem alterar a oximetria de pulso.

Impacto no prognóstico

A lesão inalatória aumenta de forma independente a mortalidade e a necessidade de volume na ressuscitação.

Sinais de alerta e indicação de via aérea

Nenhum sinal isolado é definitivo; a combinação com o mecanismo é o que decide. Diante de dúvida em queimadura extensa ou de face, a intubação precoce é a decisão mais segura.

  • Mecanismo: incêndio em ambiente fechado, explosão, perda de consciência no local, tempo prolongado de exposição à fumaça.
  • Face e vias aéreas: queimadura facial, vibrissas nasais chamuscadas, edema de língua e orofaringe, queimadura intraoral.
  • Voz e respiração: rouquidão, disfonia, estridor, tosse persistente, sibilância, dispneia.
  • Secreções: escarro carbonáceo, fuligem em narinas e boca.
  • Neurológico: rebaixamento do nível de consciência ou agitação inexplicada.
  • Extensão: queimadura muito extensa, em que o edema de ressuscitação por si só compromete a via aérea.
O edema da via aérea progride com a ressuscitação volêmica. Uma laringoscopia fácil na chegada pode ser impossível quatro horas depois. Use o tubo de maior calibre disponível — a via aérea do queimado exige aspirações repetidas e broncoscopia.

Monóxido de carbono e cianeto

Aspecto Monóxido de carbono Cianeto
Mecanismo Liga-se à hemoglobina com afinidade muito superior à do oxigênio, formando carboxi-hemoglobina e desviando a curva de dissociação. Bloqueia a citocromo-oxidase, impedindo o uso mitocondrial do oxigênio — hipóxia citotóxica.
Quadro Cefaleia, náusea, tontura, confusão, rebaixamento, convulsão e coma. A clássica coloração "vermelho-cereja" é rara e tardia. Rebaixamento súbito, instabilidade hemodinâmica, apneia e acidose láctica desproporcional.
Diagnóstico Carboxi-hemoglobina na gasometria com co-oximetria. A oximetria de pulso é falsamente normal. Suspeita clínica: incêndio em ambiente fechado, rebaixamento e lactato muito elevado. A dosagem não fica pronta a tempo.
Tratamento Oxigênio a 100% por máscara com reservatório ou via tubo; câmara hiperbárica em casos selecionados, conforme disponibilidade e critérios locais. Hidroxocobalamina quando disponível, associada a oxigênio a 100% e suporte. Evite nitritos em vítimas de incêndio, pela metemoglobinemia somada à intoxicação por monóxido.
Detalhe prático A meia-vida da carboxi-hemoglobina cai de forma expressiva com oxigênio a 100% — por isso ele é iniciado antes mesmo do resultado. A hidroxocobalamina cora urina e pele de vermelho e pode interferir em exames colorimétricos — avise a equipe.
Toda vítima de incêndio em ambiente fechado recebe oxigênio a 100% desde o primeiro contato, independentemente da saturação exibida no monitor.

Manejo respiratório

Ventilação protetora

Volume corrente de 6 mL/kg de peso predito, pressão de platô controlada e PEEP conforme a oxigenação — a lesão inalatória evolui frequentemente para síndrome do desconforto respiratório agudo.

Higiene brônquica

Aspiração frequente, fisioterapia e broncoscopia terapêutica para remoção de tampões e de fuligem.

Broncodilatador

Beta-agonista inalatório para o broncoespasmo, que é frequente na lesão química por fumaça.

O que não fazer

Corticoide e antibiótico profiláticos não são recomendados de rotina na lesão inalatória — aumentam complicações sem benefício demonstrado.

Tratamento da ferida

  • Limpeza com água e clorexidina degermante ou sabão neutro, removendo sujidade e tecido desvitalizado solto.
  • Bolhas: as íntegras e pequenas podem ser mantidas; as tensas, muito grandes ou em áreas de articulação são habitualmente desbridadas — a conduta varia entre serviços.
  • Curativo: cobertura adequada à profundidade e ao serviço, com troca conforme o produto escolhido e a evolução da ferida.
  • Face: frequentemente tratada de forma aberta, com pomada, sem oclusão.
  • Mãos: curativo que permita mobilização precoce dos dedos, com posicionamento funcional — a rigidez se instala rápido.
  • Antibiótico sistêmico profilático não é indicado; use apenas diante de infecção documentada.
  • Profilaxia antitetânica conforme o histórico vacinal.
  • Analgesia antes de cada troca de curativo, com esquema planejado e não apenas "se necessário".
  • Nutrição precoce, preferencialmente enteral, com aporte proteico e calórico elevado — o hipermetabolismo do queimado é intenso e prolongado.
A sulfadiazina de prata segue amplamente usada no Brasil, mas há questionamento sobre atraso na epitelização e dificuldade de reavaliação da ferida. Siga o protocolo do seu serviço e do centro de referência.
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento: indicação, técnica ou posologia e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional e a apresentação disponível no seu serviço.

Procedimentos e situações específicas

Da sala de emergência ao centro cirúrgico: o que precisa ser decidido nas primeiras horas e o que muda conforme o agente.

Erros comuns

  • Focar na queimadura e não avaliar via aérea, monóxido de carbono e trauma associado.
  • Adiar a intubação em paciente com sinais de lesão inalatória — a janela se fecha com o edema.
  • Confiar na oximetria de pulso na suspeita de intoxicação por monóxido de carbono.
  • Incluir queimaduras de primeiro grau no cálculo da SCQ.
  • Contar as 8 horas a partir da chegada ao hospital, e não do acidente.
  • Seguir a fórmula rigidamente sem titular pela diurese — fluid creep.
  • Usar gelo ou água muito fria para resfriar, causando hipotermia e aprofundamento.
  • Deixar o paciente exposto e resfriar durante o atendimento.
  • Prescrever antibiótico sistêmico profilático de rotina.
  • Não avaliar escara circunferencial de membro e de tórax.
  • Subestimar a queimadura elétrica pela aparência da lesão cutânea.
  • Não considerar maus-tratos diante de padrão de lesão incompatível com a história.

Resumo do fluxo

  1. Interrompa a queimadura, retire roupas e adornos e resfrie com água em temperatura ambiente.
  2. xABCDE: via aérea com atenção à lesão inalatória, oxigênio a 100% se houver exposição a fumaça.
  3. Acessos calibrosos, exames, analgesia venosa e sonda vesical nas queimaduras extensas.
  4. Calcule a SCQ contando apenas segundo e terceiro graus.
  5. Inicie o Ringer lactato a 2 mL/kg/%SCQ, contando o tempo a partir do acidente, e titule pela diurese a cada hora.
  6. Cubra a ferida, aqueça o paciente e previna a hipotermia ativamente.
  7. Avalie escara circunferencial de membro e de tórax e indique escarotomia quando necessário.
  8. Aplique os critérios de encaminhamento e contate o centro de queimados cedo.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

  1. American Burn Association. Advanced Burn Life Support (ABLS) — Provider Manual, edição vigente.
  2. Cartotto R, Johnson L, Rood JM, et al. Clinical Practice Guideline on Burn Shock Resuscitation. J Burn Care Res. 2024;45(3):565-589.
  3. American College of Surgeons. Advanced Trauma Life Support (ATLS) — Student Course Manual, 11ª edição.
  4. Baxter CR, Shires T. Physiological response to crystalloid resuscitation of severe burns. Ann N Y Acad Sci. 1968;150(3):874-894.
  5. Jackson DM. The diagnosis of the depth of burning. Br J Surg. 1953;40(164):588-596.
  6. Lund CC, Browder NC. The estimation of areas of burns. Surg Gynecol Obstet. 1944;79:352-358.
  7. Greenhalgh DG. Management of burns. N Engl J Med. 2019;380(24):2349-2359.
  8. ISBI Practice Guidelines Committee. ISBI Practice Guidelines for Burn Care. Burns, partes 1 e 2, versões vigentes.
  9. Walker PF, Buehner MF, Wood LA, et al. Diagnosis and management of inhalation injury: an updated review. Crit Care. 2015;19:351.
  10. Sociedade Brasileira de Queimaduras e Ministério da Saúde. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras e protocolos vigentes.
  11. Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Projeto Diretrizes — Queimaduras: diagnóstico e tratamento inicial, versão vigente.

Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Fórmulas, doses e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação.

Números rápidos

Reposição

Iniciar com 2 mL/kg/%SCQ de Ringer lactato em 24 h.

Distribuição

Metade nas primeiras 8 h, contadas do acidente.

Diurese alvo

0,5 mL/kg/h no adulto; 1 mL/kg/h na criança.

Regra dos nove

Cabeça 9, cada MS 9, tronco ant. 18, post. 18, cada MI 18.

Em provas / residência

A banca cobra o cálculo da SCQ pela regra dos nove, a fórmula de reposição e a armadilha da oximetria normal na intoxicação por monóxido de carbono.

Decore: só 2º e 3º graus entram na SCQ; metade do volume nas primeiras 8 h contadas do acidente; diurese alvo de 0,5 mL/kg/h no adulto.

Mais informações nas abas do artigo.

Rolar para cima