Queimaduras
O que mata na primeira hora não é a pele: é a via aérea, o monóxido de carbono e o trauma associado. Depois disso, o desafio muda de nome — repor volume suficiente para perfundir sem afogar o paciente. A fórmula é um ponto de partida; quem manda é a diurese.
Interromper e resfriar
- Retirar roupas, joias e material aderido não fixo
- Água corrente em temperatura ambiente por até 20 min
- Nunca use gelo nem água muito fria
- Cobrir com pano limpo e aquecer o paciente
Via aérea
- Queimadura em ambiente fechado ou explosão
- Rouquidão, estridor, escarro carbonáceo
- Queimadura de face, vibrissas e orofaringe
- Intubar cedo — a janela fecha rápido
Calcular a SCQ
- Regra dos nove no adulto; Lund-Browder na criança
- Palma da mão do paciente ≈ 1% para áreas dispersas
- Contar apenas 2º e 3º graus
- Superestimar leva a hiper-hidratação
Repor volume
- Iniciar com 2 mL/kg/%SCQ em Ringer lactato
- Metade nas primeiras 8 h do acidente
- Alvo de diurese: 0,5 mL/kg/h no adulto
- Ajustar a cada hora — evitar fluid creep
Queimadura é trauma sistêmico
A queimadura extensa não é apenas uma ferida: é um trauma com resposta inflamatória sistêmica. Acima de aproximadamente 20% da superfície corporal queimada no adulto, a liberação de mediadores produz aumento generalizado da permeabilidade capilar, com perda de plasma para o interstício em todo o corpo — inclusive em áreas não queimadas.
O resultado é o choque do queimado: componente hipovolêmico (perda para o terceiro espaço), distributivo (vasodilatação mediada por inflamação) e, nas primeiras horas, também cardiogênico, por depressão miocárdica. Por isso a reposição volêmica é o eixo do tratamento inicial — e por isso ela precisa ser bem dosada.
Zonas de Jackson
A lesão térmica organiza-se em três zonas concêntricas, e entender isso muda a conduta:
- Zona de coagulação — centro da lesão, com necrose irreversível. Perdida desde o início.
- Zona de estase — ao redor, com perfusão comprometida mas tecido ainda viável. É a zona que se pode salvar — ou perder.
- Zona de hiperemia — periferia, com vasodilatação e recuperação espontânea.
Hipotensão, hipoperfusão, infecção, edema excessivo e resfriamento inadequado convertem a zona de estase em necrose — e a queimadura "aprofunda" nas primeiras 48 a 72 horas.
O que aprofunda a queimadura
- Hipovolemia e hipotensão não corrigidas.
- Hiper-hidratação, com edema que compromete a microcirculação.
- Hipotermia — muito frequente e frequentemente iatrogênica.
- Infecção da ferida.
- Compressão por escara circunferencial.
A profundidade avaliada nas primeiras horas não é definitiva. Reavalie a ferida em 48 a 72 horas antes de decidir sobre enxertia — e informe isso ao paciente e à família desde o início.
Epidemiologia
No Brasil, as queimaduras são causa frequente de atendimento de urgência, com predomínio de acidentes domésticos. Escaldadura por líquidos quentes é o mecanismo mais comum em crianças pequenas; chama direta, com frequência envolvendo álcool líquido, predomina em adolescentes e adultos. Queimaduras elétricas e químicas têm forte componente ocupacional.
A maioria dos acidentes ocorre no ambiente doméstico.
Escaldadura por líquidos quentes é o mecanismo dominante.
Chama direta, frequentemente com álcool líquido envolvido.
Predomínio de lesões elétricas e químicas.
Extensão, idade e lesão inalatória são os principais determinantes de mortalidade.
As três perguntas da primeira hora
Ambiente fechado, explosão, queimadura de face, rouquidão, estridor, escarro carbonáceo ou edema de orofaringe. O edema progride nas horas seguintes e a intubação tardia pode se tornar impossível.
SCQ pela regra dos nove ou Lund-Browder, contando apenas segundo e terceiro graus. Esse número define volume, critérios de internação e necessidade de transferência.
Queda, explosão, colisão, fratura, intoxicação por monóxido de carbono ou cianeto. O queimado que chega hipotenso raramente está hipotenso só pela queimadura.
Profundidade
| Grau | Camada atingida | Aspecto clínico | Evolução |
|---|---|---|---|
| 1º grau Superficial |
Epiderme | Eritema, dor, sem bolhas. Enchimento capilar preservado. Exemplo clássico: queimadura solar. | Cura em 3 a 7 dias, sem sequela. Não entra no cálculo da SCQ. |
| 2º grau superficial | Derme papilar | Bolhas, base rósea e úmida, muito dolorosa, enchimento capilar rápido. | Cura em 1 a 3 semanas, habitualmente sem cicatriz hipertrófica. |
| 2º grau profundo | Derme reticular | Base pálida ou mosqueada, mais seca, dor reduzida, enchimento capilar lentificado. | Cura lenta, acima de 3 semanas, com cicatriz. Frequentemente exige enxertia. |
| 3º grau Espessura total |
Toda a derme | Branca nacarada, marrom ou carbonizada, seca, endurecida, indolor e sem enchimento capilar. Vasos trombosados visíveis. | Não epiteliza a partir do leito: exige enxertia. |
| 4º grau | Além da pele | Atinge tecido subcutâneo, fáscia, músculo ou osso. Típica de lesão elétrica e de exposição prolongada à chama. | Desbridamento extenso, retalhos e, por vezes, amputação. |
Classificação pelo agente
Chama, escaldadura, contato com superfície quente, vapor. É a mais frequente. Vapor e líquidos aquecidos causam lesão mais profunda do que se costuma estimar à primeira vista.
A lesão cutânea subestima grosseiramente o dano profundo. Alto risco de rabdomiólise, síndrome compartimental, arritmia e lesão de órgãos internos.
A gravidade depende do agente, da concentração e do tempo de contato. Álcalis penetram mais e causam lesão mais profunda que ácidos.
Congelamento e queimadura por radiação seguem princípios próprios de manejo, com reavaliação seriada da profundidade.
Critérios de encaminhamento a centro de queimados
Baseados nos critérios amplamente adotados da associação americana de queimados e replicados na maioria dos protocolos brasileiros. A presença de qualquer um deles justifica contato com o serviço de referência.
- Queimadura de segundo grau acima de 10% da SCQ.
- Queimadura de terceiro grau em qualquer extensão.
- Acometimento de face, mãos, pés, genitália, períneo ou articulações maiores.
- Queimadura elétrica, incluindo lesão por raio.
- Queimadura química.
- Lesão inalatória associada.
- Queimadura em paciente com comorbidades que possam complicar o tratamento ou prolongar a recuperação.
- Queimadura com trauma associado — priorizando a condição de maior risco imediato.
- Criança atendida em serviço sem estrutura pediátrica adequada.
- Paciente que exigirá suporte especial de reabilitação, social ou psicológico, incluindo suspeita de maus-tratos.
Como estimar a superfície corporal queimada
A SCQ é o número que define volume, critérios de internação e transferência. Errar para mais leva à hiper-hidratação; errar para menos, ao choque não corrigido.
| Método | Quando usar | Como funciona |
|---|---|---|
| Regra dos nove | Adulto, estimativa rápida na sala | Segmentos corporais em múltiplos de 9%: cabeça e pescoço 9; cada membro superior 9; tronco anterior 18; tronco posterior 18; cada membro inferior 18; períneo 1. |
| Regra dos nove pediátrica | Criança pequena | A cabeça representa proporção maior (cerca de 18%) e cada membro inferior, menor (cerca de 13,5%). A proporção muda com a idade. |
| Lund-Browder | Padrão de referência, sobretudo em crianças | Tabela que corrige as proporções corporais por faixa etária. É o método mais preciso e o recomendado para o cálculo definitivo. |
| Regra da palma | Queimaduras pequenas ou dispersas | A superfície palmar do paciente, incluindo os dedos, corresponde a aproximadamente 1% da sua SCQ. |
Calculadora — SCQ pela regra dos nove
Informe, para cada segmento, quanto por cento daquele segmento está queimado (0 a 100). A coluna à direita mostra a contribuição para a SCQ total. Conte apenas segundo e terceiro graus.
Armadilhas na estimativa
- Contar eritema de primeiro grau — o erro mais frequente e o de maior impacto.
- Estimar antes de limpar a ferida: fuligem e sujidade simulam áreas queimadas.
- Usar a regra dos nove do adulto em criança pequena, subestimando a cabeça e superestimando os membros inferiores.
- Usar a palma do examinador em vez da palma do paciente.
- Não reavaliar a extensão e a profundidade nas primeiras 48 a 72 horas.
- Arredondar generosamente para cima "por segurança" — em queimados, o excesso de volume também mata.
Os primeiros dez minutos
O queimado é avaliado como politraumatizado. A queimadura é impressionante e rouba atenção — o xABCDE evita que ela esconda o que mata mais rápido.
- Interrompa o processo de queimadura: retire roupas, joias e anéis; remova material aderido apenas se soltar sem trauma.
- A — avalie a via aérea buscando sinais de lesão inalatória e edema. Diante de risco, intube CEDO, com o tubo de maior calibre disponível.
- B — oxigênio a 100% por máscara com reservatório em toda suspeita de exposição a fumaça; avalie escara circunferencial torácica restringindo a ventilação.
- C — dois acessos venosos calibrosos, preferindo pele não queimada, mas puncione através da queimadura se necessário; considere intraósseo. Colha exames e inicie a reposição.
- D — Glasgow e pupilas; rebaixamento sugere hipóxia, intoxicação por monóxido de carbono ou cianeto, ou trauma craniano.
- E — exponha totalmente para estimar a SCQ e depois cubra e aqueça imediatamente; o queimado perde calor com enorme facilidade.
- Analgesia venosa titulada — a dor é intensa e a via intramuscular é imprevisível no queimado.
- Sonda vesical em queimaduras extensas, para medir a diurese horária; sonda gástrica se houver íleo ou SCQ elevada.
- Profilaxia antitetânica conforme o histórico vacinal e contato com o centro de referência.
Resfriamento e primeiro curativo
Água corrente em temperatura ambiente por até cerca de 20 minutos, idealmente nas primeiras 3 horas. Reduz a dor e limita o aprofundamento da lesão.
Nunca use gelo ou água muito fria: causa vasoconstrição, aprofunda a lesão e provoca hipotermia. Em queimaduras extensas, limite o tempo de resfriamento.
Pasta de dente, manteiga, borra de café, pó de café e clara de ovo aumentam infecção e dificultam a avaliação. Oriente ativamente contra.
Pano limpo e seco ou compressa estéril, sem produtos, até a avaliação definitiva. Curativos específicos vêm depois do exame completo.
Exames iniciais
| Exame | Por que pedir |
|---|---|
| Gasometria com co-oximetria | Mede carboxi-hemoglobina — a oximetria de pulso é falsamente normal na intoxicação por monóxido de carbono. Avalia também acidose e lactato. |
| Lactato | Marcador de gravidade; elevação desproporcional levanta a suspeita de intoxicação por cianeto em vítimas de incêndio em ambiente fechado. |
| Hemograma e coagulograma | Hemoconcentração é esperada nas primeiras horas; anemia precoce sugere sangramento associado. |
| Eletrólitos e função renal | Base para o acompanhamento da reposição e da função renal. |
| CPK e urina | Rabdomiólise, especialmente em queimadura elétrica e em lesões profundas extensas. Urina escura orienta hidratação mais agressiva. |
| Glicemia | Obrigatória em qualquer rebaixamento; hipoglicemia é diferencial e é comum em crianças. |
| ECG | Indispensável na queimadura elétrica; monitorização prolongada conforme o mecanismo e os achados. |
| Imagem | Radiografia de tórax e demais exames conforme o mecanismo — explosão, queda e colisão pedem avaliação de trauma completa. |
Princípios
A reposição é indicada em adultos com SCQ igual ou superior a 20% (alguns serviços adotam 15%) e em crianças a partir de aproximadamente 10 a 15%. Abaixo desses limiares, hidratação oral ou de manutenção costuma bastar.
| Elemento | Recomendação | Observação |
|---|---|---|
| Solução | Ringer lactato | Cristaloide balanceado é o padrão; o soro fisiológico em grande volume causa acidose hiperclorêmica. |
| Fórmula inicial | 2 mL/kg/%SCQ nas primeiras 24 horas | As diretrizes atuais de ressuscitação do choque do queimado recomendam iniciar com 2 mL/kg/%SCQ para reduzir o volume total infundido. A fórmula de Parkland (4 mL) tende a superestimar. |
| Distribuição | Metade nas primeiras 8 horas, metade nas 16 horas seguintes | As 8 horas contam a partir do momento do acidente, não da chegada ao hospital. |
| Alvo de diurese (adulto) | 0,5 mL/kg/h — habitualmente 30–50 mL/h | É o principal parâmetro de titulação. |
| Alvo de diurese (criança) | 1 mL/kg/h | Crianças pequenas também precisam de fluido de manutenção com glicose, somado ao volume de ressuscitação. |
| Ajuste | Reavaliar a cada hora, aumentando ou reduzindo em torno de 20% conforme a diurese | A fórmula é ponto de partida, não prescrição fixa. |
| Albumina | Pode ser considerada nas primeiras 24 horas | Sugerida para melhorar o débito urinário e reduzir o volume total, sobretudo em queimaduras extensas e em situações de resgate. |
Calculadora — reposição volêmica
Volume das primeiras 24 horas = fórmula × peso × %SCQ. Metade nas primeiras 8 horas contadas a partir do acidente, metade nas 16 horas seguintes. Informe as horas já decorridas para que a calculadora ajuste a taxa restante.
Como titular na prática
- Calcule o volume inicial e programe a bomba — anote o horário do acidente, não o da admissão.
- Desconte o volume já infundido no pré-hospitalar e em outro serviço.
- Meça a diurese de hora em hora por sonda vesical.
- Diurese abaixo do alvo: aumente a taxa em cerca de 20% e reavalie na hora seguinte.
- Diurese acima do alvo: reduza a taxa em cerca de 20% — não mantenha o excesso "por segurança".
- Reavalie perfusão, nível de consciência, lactato e base excess como parâmetros complementares.
- Sem resposta apesar de volumes crescentes: reveja o diagnóstico, procure sangramento, considere albumina de resgate e discuta vasopressor.
- Após 24 horas, transicione para manutenção e planeje balanço negativo conforme a evolução.
Três lesões diferentes com o mesmo nome
Acima das cordas vocais. O ar quente é rapidamente resfriado pela via aérea, então a lesão térmica é quase sempre supraglótica. Produz edema progressivo nas primeiras horas — o grande motivo de intubação precoce.
Abaixo das cordas, causada pelos produtos da combustão. Provoca broncoespasmo, descamação da mucosa, tampões e insuficiência respiratória, frequentemente com piora em 24 a 72 horas.
Monóxido de carbono e cianeto, liberados na combustão. Causam hipóxia tecidual sem alterar a oximetria de pulso.
A lesão inalatória aumenta de forma independente a mortalidade e a necessidade de volume na ressuscitação.
Sinais de alerta e indicação de via aérea
Nenhum sinal isolado é definitivo; a combinação com o mecanismo é o que decide. Diante de dúvida em queimadura extensa ou de face, a intubação precoce é a decisão mais segura.
- Mecanismo: incêndio em ambiente fechado, explosão, perda de consciência no local, tempo prolongado de exposição à fumaça.
- Face e vias aéreas: queimadura facial, vibrissas nasais chamuscadas, edema de língua e orofaringe, queimadura intraoral.
- Voz e respiração: rouquidão, disfonia, estridor, tosse persistente, sibilância, dispneia.
- Secreções: escarro carbonáceo, fuligem em narinas e boca.
- Neurológico: rebaixamento do nível de consciência ou agitação inexplicada.
- Extensão: queimadura muito extensa, em que o edema de ressuscitação por si só compromete a via aérea.
Monóxido de carbono e cianeto
| Aspecto | Monóxido de carbono | Cianeto |
|---|---|---|
| Mecanismo | Liga-se à hemoglobina com afinidade muito superior à do oxigênio, formando carboxi-hemoglobina e desviando a curva de dissociação. | Bloqueia a citocromo-oxidase, impedindo o uso mitocondrial do oxigênio — hipóxia citotóxica. |
| Quadro | Cefaleia, náusea, tontura, confusão, rebaixamento, convulsão e coma. A clássica coloração "vermelho-cereja" é rara e tardia. | Rebaixamento súbito, instabilidade hemodinâmica, apneia e acidose láctica desproporcional. |
| Diagnóstico | Carboxi-hemoglobina na gasometria com co-oximetria. A oximetria de pulso é falsamente normal. | Suspeita clínica: incêndio em ambiente fechado, rebaixamento e lactato muito elevado. A dosagem não fica pronta a tempo. |
| Tratamento | Oxigênio a 100% por máscara com reservatório ou via tubo; câmara hiperbárica em casos selecionados, conforme disponibilidade e critérios locais. | Hidroxocobalamina quando disponível, associada a oxigênio a 100% e suporte. Evite nitritos em vítimas de incêndio, pela metemoglobinemia somada à intoxicação por monóxido. |
| Detalhe prático | A meia-vida da carboxi-hemoglobina cai de forma expressiva com oxigênio a 100% — por isso ele é iniciado antes mesmo do resultado. | A hidroxocobalamina cora urina e pele de vermelho e pode interferir em exames colorimétricos — avise a equipe. |
Manejo respiratório
Volume corrente de 6 mL/kg de peso predito, pressão de platô controlada e PEEP conforme a oxigenação — a lesão inalatória evolui frequentemente para síndrome do desconforto respiratório agudo.
Aspiração frequente, fisioterapia e broncoscopia terapêutica para remoção de tampões e de fuligem.
Beta-agonista inalatório para o broncoespasmo, que é frequente na lesão química por fumaça.
Corticoide e antibiótico profiláticos não são recomendados de rotina na lesão inalatória — aumentam complicações sem benefício demonstrado.
Tratamento da ferida
- Limpeza com água e clorexidina degermante ou sabão neutro, removendo sujidade e tecido desvitalizado solto.
- Bolhas: as íntegras e pequenas podem ser mantidas; as tensas, muito grandes ou em áreas de articulação são habitualmente desbridadas — a conduta varia entre serviços.
- Curativo: cobertura adequada à profundidade e ao serviço, com troca conforme o produto escolhido e a evolução da ferida.
- Face: frequentemente tratada de forma aberta, com pomada, sem oclusão.
- Mãos: curativo que permita mobilização precoce dos dedos, com posicionamento funcional — a rigidez se instala rápido.
- Antibiótico sistêmico profilático não é indicado; use apenas diante de infecção documentada.
- Profilaxia antitetânica conforme o histórico vacinal.
- Analgesia antes de cada troca de curativo, com esquema planejado e não apenas "se necessário".
- Nutrição precoce, preferencialmente enteral, com aporte proteico e calórico elevado — o hipermetabolismo do queimado é intenso e prolongado.
Cada card abre o detalhamento: indicação, técnica ou posologia e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional e a apresentação disponível no seu serviço.
Procedimentos e situações específicas
Da sala de emergência ao centro cirúrgico: o que precisa ser decidido nas primeiras horas e o que muda conforme o agente.
Erros comuns
- Focar na queimadura e não avaliar via aérea, monóxido de carbono e trauma associado.
- Adiar a intubação em paciente com sinais de lesão inalatória — a janela se fecha com o edema.
- Confiar na oximetria de pulso na suspeita de intoxicação por monóxido de carbono.
- Incluir queimaduras de primeiro grau no cálculo da SCQ.
- Contar as 8 horas a partir da chegada ao hospital, e não do acidente.
- Seguir a fórmula rigidamente sem titular pela diurese — fluid creep.
- Usar gelo ou água muito fria para resfriar, causando hipotermia e aprofundamento.
- Deixar o paciente exposto e resfriar durante o atendimento.
- Prescrever antibiótico sistêmico profilático de rotina.
- Não avaliar escara circunferencial de membro e de tórax.
- Subestimar a queimadura elétrica pela aparência da lesão cutânea.
- Não considerar maus-tratos diante de padrão de lesão incompatível com a história.
Resumo do fluxo
- Interrompa a queimadura, retire roupas e adornos e resfrie com água em temperatura ambiente.
- xABCDE: via aérea com atenção à lesão inalatória, oxigênio a 100% se houver exposição a fumaça.
- Acessos calibrosos, exames, analgesia venosa e sonda vesical nas queimaduras extensas.
- Calcule a SCQ contando apenas segundo e terceiro graus.
- Inicie o Ringer lactato a 2 mL/kg/%SCQ, contando o tempo a partir do acidente, e titule pela diurese a cada hora.
- Cubra a ferida, aqueça o paciente e previna a hipotermia ativamente.
- Avalie escara circunferencial de membro e de tórax e indique escarotomia quando necessário.
- Aplique os critérios de encaminhamento e contate o centro de queimados cedo.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
- American Burn Association. Advanced Burn Life Support (ABLS) — Provider Manual, edição vigente.
- Cartotto R, Johnson L, Rood JM, et al. Clinical Practice Guideline on Burn Shock Resuscitation. J Burn Care Res. 2024;45(3):565-589.
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- Baxter CR, Shires T. Physiological response to crystalloid resuscitation of severe burns. Ann N Y Acad Sci. 1968;150(3):874-894.
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- ISBI Practice Guidelines Committee. ISBI Practice Guidelines for Burn Care. Burns, partes 1 e 2, versões vigentes.
- Walker PF, Buehner MF, Wood LA, et al. Diagnosis and management of inhalation injury: an updated review. Crit Care. 2015;19:351.
- Sociedade Brasileira de Queimaduras e Ministério da Saúde. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras e protocolos vigentes.
- Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Projeto Diretrizes — Queimaduras: diagnóstico e tratamento inicial, versão vigente.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Fórmulas, doses e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação.
Números rápidos
Iniciar com 2 mL/kg/%SCQ de Ringer lactato em 24 h.
Metade nas primeiras 8 h, contadas do acidente.
0,5 mL/kg/h no adulto; 1 mL/kg/h na criança.
Cabeça 9, cada MS 9, tronco ant. 18, post. 18, cada MI 18.
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A banca cobra o cálculo da SCQ pela regra dos nove, a fórmula de reposição e a armadilha da oximetria normal na intoxicação por monóxido de carbono.
Decore: só 2º e 3º graus entram na SCQ; metade do volume nas primeiras 8 h contadas do acidente; diurese alvo de 0,5 mL/kg/h no adulto.
