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Pericardite Aguda

Responde por cerca de 5% das dores torácicas não isquêmicas na emergência, e o primeiro passo continua sendo excluir síndrome coronariana aguda — não confirmar pericardite. As diretrizes da ESC e do ACC de 2025 reescreveram os critérios diagnósticos, colocaram a dor pleurítica como elemento obrigatório e promoveram os anti-IL-1 à frente do corticoide nos casos refratários.

Excluir SCA primeiro Supra difuso côncavo + infra de PR AINE ou AAS + colchicina Recorrência em 15% a 30%
Tempo de leitura: 19 min
Atualizado em: 22/08/2026

Excluir SCA

  • Eletrocardiograma em até 10 minutos na dor torácica
  • Supra convexo ou horizontal aponta para infarto
  • Supra em DIII maior que em DII aponta para infarto
  • História e exame não bastam para excluir isquemia

Diagnosticar

  • Dor pleurítica típica é o critério obrigatório em 2025
  • Some atrito, ECG, PCR elevada, derrame ou inflamação
  • Zero achados: improvável; um: possível; dois ou mais: definitivo
  • Avaliação inicial: ECG, radiografia, laboratório e ecocardiograma

Estratificar

  • Febre acima de 38 °C e curso subagudo indicam internação
  • Derrame volumoso ou tamponamento também
  • Falha do AINE após uma semana é marcador maior
  • Sem marcadores: tratamento ambulatorial com reavaliação

Tratar

  • AINE ou AAS em dose alta associado a colchicina
  • Colchicina por 3 meses; 6 a 12 meses na recorrência
  • Corticoide precoce aumenta o risco de recorrência
  • Restrição de exercício até a remissão clínica

O que é pericardite

Pericardite é a inflamação do pericárdio, com ou sem derrame associado. É a doença pericárdica mais comum e responde por cerca de 5% das dores torácicas não isquêmicas atendidas na emergência e por aproximadamente 0,1% das internações hospitalares. Acomete tipicamente homens entre a segunda e a sexta década de vida, embora a forma recorrente seja mais frequente em mulheres.

A diretriz da Sociedade Europeia de Cardiologia de 2025 é a primeira a tratar miocardite e pericardite em um único documento e introduziu o termo síndrome inflamatória miopericárdica como diagnóstico guarda-chuva, a ser usado até que se defina qual das duas estruturas predomina. O reconhecimento é simples: elas compartilham gatilhos, exames e tratamento.

A abordagem do paciente com dor torácica começa excluindo síndrome coronariana aguda. Só depois disso o raciocínio migra para pericardite. Rotular precocemente como pericardite um infarto com supradesnivelamento é um dos erros mais graves da emergência.

Classificação pela duração

A nomenclatura mudou pouco, mas os prazos definem conduta: duração do tratamento, necessidade de ressonância e limiar para escalonar terapia.

Forma Definição Implicação prática
Aguda Primeiro episódio, com resolução dos sintomas em menos de 4 a 6 semanas. Colchicina por 3 meses associada a AINE ou AAS. A maioria tem curso benigno.
Incessante Sintomas que persistem por mais de 4 a 6 semanas, sem remissão, e por menos de 3 meses. Curso mais agressivo. Indicar ressonância e considerar escalonamento terapêutico.
Recorrente Novo episódio após intervalo livre de sintomas de 4 a 6 semanas, com o tratamento anterior concluído. Colchicina por 6 a 12 meses. Ocorre em 15% a 30% após o primeiro episódio e chega a 50% após a primeira recorrência.
Crônica Sintomas com duração superior a 3 meses. Investigação etiológica ampliada e encaminhamento a centro de referência em doenças pericárdicas.
Miopericardite e perimiocardite Acometimento simultâneo de pericárdio e miocárdio, com elevação de troponina. Cerca de 15% dos casos. Na miopericardite predomina o pericárdio; na perimiocardite, o miocárdio, com disfunção ventricular. Muda o seguimento e a liberação para exercício.

Por que acontece

A lesão das células mesoteliais do pericárdio, seja por vírus, cirurgia, procedimento ou desregulação imune, libera padrões moleculares que ativam o fator nuclear kappa B e montam o inflamassoma NLRP3.

  • O inflamassoma ativa a caspase-1, que processa e libera a interleucina-1 beta e a interleucina-18.
  • A interleucina-1 amplifica o próprio ciclo inflamatório — é o que explica a tendência à recorrência.
  • Em paralelo, a fosfolipase A2 alimenta a via do ácido araquidônico, gerando prostaglandinas e a dor.
  • Os anti-inflamatórios e o AAS agem na ciclo-oxigenase; a colchicina inibe a montagem do inflamassoma; os anti-IL-1 bloqueiam a alça de amplificação.

Entender essa cascata explica por que a colchicina reduz recorrência mesmo quando o AINE já controla a dor: são alvos diferentes da mesma via.

Os dois fenótipos

A distinção entre fenótipo inflamatório e não inflamatório é uma das ideias mais úteis das diretrizes de 2025, porque decide qual será a segunda linha.

  • Fenótipo inflamatório — 80% a 90% dos casos. Cursa com PCR elevada, febre, leucocitose com neutrofilia e derrames pericárdico e pleural. Responde bem a anti-inflamatório e é o alvo preferencial dos anti-IL-1.
  • Fenótipo não inflamatório — 10% a 20% dos casos. PCR normal ou quase normal, frequentemente associado a doenças autoimunes sistêmicas. Aqui o mecanismo autoimune predomina e o corticoide em dose baixa costuma ser a escolha.
Por que medir PCR sempre

A proteína C reativa não serve só para diagnóstico: define fenótipo, orienta o momento do desmame do anti-inflamatório e é o principal marcador de remissão e de recorrência no seguimento.

Números que orientam a conversa com o paciente

O prognóstico da pericardite viral ou idiopática é bom, e vale dizer isso ao paciente — desde que o tratamento seja completo e o corticoide seja evitado no primeiro episódio.

Dor torácica

Presente em 85% a 90% dos casos, tipicamente pleurítica e posicional.

Atrito pericárdico

Em 20% a 30%, intermitente — sua ausência não afasta o diagnóstico.

Alterações no ECG

Em 25% a 60% dos pacientes. ECG normal é comum.

Recorrência

15% a 30% após o primeiro episódio; até 50% após a primeira recorrência.

Tamponamento

Em cerca de 5% a 10% dos casos; constrição é rara na forma viral ou idiopática.

O risco de evoluir para constrição depende da etiologia: menos de 1% na pericardite viral ou idiopática, 2% a 5% nas formas imunomediadas, pós-traumáticas e oncológicas, e 20% a 30% na pericardite bacteriana. É essa diferença que justifica caçar a etiologia nos casos de alto risco.

As quatro perguntas do plantão

É síndrome coronariana?

Eletrocardiograma em até 10 minutos, troponina seriada e avaliação de risco. História e exame físico isoladamente não excluem isquemia — em caso de dúvida persistente, a investigação continua, inclusive com cateterismo.

É pericardite mesmo?

Aplique os critérios de 2025: dor pleurítica típica é obrigatória, somada a atrito, alterações eletrocardiográficas, elevação de marcadores inflamatórios, derrame novo ou inflamação pericárdica na imagem.

Precisa internar?

Procure os marcadores de mau prognóstico: febre acima de 38 °C, curso subagudo, derrame volumoso, tamponamento e falha do anti-inflamatório após uma semana. Qualquer um deles indica internação e investigação etiológica.

Há miocardite associada?

Troponina elevada muda o cenário. Avalie função ventricular ao ecocardiograma, considere ressonância e ajuste a liberação para atividade física e o seguimento.

Etiologias

Em países de alta renda, até 80% dos casos são idiopáticos ou presumidamente virais. Em regiões com alta prevalência de tuberculose e de infecção pelo HIV, mais de 70% dos casos podem ser de origem tuberculosa — um dado que muda o raciocínio na realidade brasileira.

Categoria Exemplos Quando suspeitar
Idiopática Sem etiologia identificável; presume-se mecanismo autoinflamatório, possivelmente viral. Maioria dos casos em jovens previamente hígidos, sem marcadores de risco.
Infecciosa viral Coxsackievírus, echovírus, adenovírus, parvovírus B19, herpes-vírus, HIV, SARS-CoV-2. Pródromo gripal ou gastrointestinal nas semanas anteriores.
Infecciosa bacteriana Mycobacterium tuberculosis, estafilococos, estreptococos, pneumococo, Haemophilus, Coxiella, Borrelia burgdorferi. Febre alta, sepse, derrame purulento, imunossupressão, contato com tuberculose.
Autoimune e autoinflamatória Lúpus, artrite reumatoide, esclerose sistêmica, doença mista do tecido conjuntivo, vasculites, sarcoidose, doença de Behçet, doença de Still, febre familiar do Mediterrâneo. Manifestações sistêmicas, PCR desproporcional ao quadro, recorrências.
Neoplásica Primária (mesotelioma) ou secundária (pulmão, mama, linfoma, sarcoma de Kaposi). Derrame volumoso, recidivante, hemorrágico ou com espessamento nodular.
Pós-lesão cardíaca Pós-pericardiotomia, pós-infarto (síndrome de Dressler), ablação, implante de dispositivo, intervenção coronária, biópsia endomiocárdica, trauma. Dias a semanas após cirurgia ou procedimento — frequentemente subdiagnosticada.
Radiação Radioterapia com campo torácico, incluindo mama, pulmão e linfoma. Pode ser precoce ou surgir anos depois, com risco elevado de constrição.
Metabólica Uremia e pericardite associada à diálise, hipotireoidismo, hipertireoidismo, anorexia nervosa. Doença renal crônica avançada, diálise inadequada, alterações tireoidianas.
Medicamentosa Procainamida, isoniazida, hidralazina, ciclosporina, quimioterápicos, inibidores de checkpoint imunológico. Relação temporal com o início do fármaco; imunoterapia oncológica em uso.
No Brasil, a tuberculose pericárdica merece consideração ativa diante de curso subagudo, derrame volumoso, febre arrastada, perda ponderal, contato epidemiológico ou infecção pelo HIV — sobretudo porque é a etiologia com maior risco de evoluir para constrição.

Até onde investigar

Uma das recomendações mais úteis de 2025 é sobre o que não pedir. A investigação etiológica ampla não se aplica a todos: ela é reservada aos pacientes de alto risco ou que não respondem ao tratamento.

Avaliação inicial de todos

  • Eletrocardiograma.
  • Radiografia de tórax.
  • Laboratório: hemograma, proteína C reativa, velocidade de hemossedimentação e troponina.
  • Função renal, eletrólitos, função hepática e função tireoidiana.
  • Ecocardiograma transtorácico.

O que não fazer de rotina

  • Painéis sorológicos virais — a ESC recomenda contra a pesquisa de rotina, com exceção de suspeita de HIV, doença de Lyme e hepatite C.
  • Tomografia de rotina apenas para diagnosticar pericardite.
  • Ressonância de rotina no primeiro episódio não complicado.
  • Pericardiocentese de derrame sem tamponamento e sem suspeita de causa bacteriana ou neoplásica.
  • Biópsia pericárdica fora de casos refratários.
Investigação etiológica dirigida está indicada quando há marcadores de alto risco, ausência de resposta ao tratamento em uma a duas semanas, ou pistas específicas na história — não como rotina no jovem com primeiro episódio típico.

Quando puncionar e o que pedir no líquido

A pericardiocentese na pericardite tem indicação restrita e bem definida.

  • Tamponamento cardíaco — indicação classe I, com finalidade terapêutica imediata.
  • Suspeita de etiologia bacteriana, tuberculosa ou neoplásica — indicação diagnóstica, classe I com nível de evidência C.
  • Derrame moderado a volumoso sintomático que não responde ao tratamento clínico.
  • Não puncionar derrame inflamatório sem tamponamento: nesses casos, o anti-inflamatório vem primeiro.
  • Análise do líquido — celularidade com diferencial, proteínas, desidrogenase láctica, glicose, adenosina desaminase, citologia oncótica, Gram, cultura, pesquisa de bacilos álcool-ácido resistentes e teste molecular rápido para tuberculose.
  • Hematócrito do líquido — diferencia hemopericárdio verdadeiro de punção acidental de câmara.
  • Drenagem cirúrgica quando a punção não é viável ou quando o derrame é purulento.
Derrame pericárdico em paciente com sepse ou choque séptico deve levantar a suspeita de pericardite purulenta — condição rara, de alta mortalidade, que exige drenagem cirúrgica com dreno calibroso e antibioticoterapia, e não apenas punção.

A dor da pericardite

A dor torácica está presente em 85% a 90% dos casos e tem características que, quando completas, são bastante sugestivas. A diretriz do ACC de 2025 tornou a dor pleurítica típica — ou apresentação equivalente — obrigatória para o diagnóstico.

Localização

Retroesternal ou precordial, em pontada, de início relativamente rápido.

Caráter pleurítico

Piora com a inspiração profunda, com a tosse e com a deglutição.

Posicional

Piora em decúbito dorsal e alivia sentado e inclinado para a frente — o achado mais característico.

Irradiação

Para o trapézio (sinal de Kert), pescoço e braço esquerdo, o que simula dor isquêmica.

Sintomas associados

Febre baixa, dispneia, fadiga, mialgia e pródromo viral nas semanas anteriores.

Duração

Horas a dias, contínua, sem o padrão em crescendo e decrescendo do angor típico.

A irradiação para o trapézio é relativamente específica da pericardite: reflete a inervação do pericárdio pelo nervo frênico, que compartilha origem cervical com a inervação daquela região.

Atrito pericárdico

Presente em 20% a 30% dos casos, é praticamente patognomônico quando encontrado — mas é intermitente, e sua ausência não afasta nada.

  1. Ausculte com o diafragma do estetoscópio, na borda esternal esquerda baixa.
  2. Peça ao paciente que se sente e incline o tronco para a frente, aproximando o pericárdio da parede torácica.
  3. Peça uma expiração sustentada — o ruído é mais audível com os pulmões vazios.
  4. Procure um som áspero, raspante, de couro ou de "neve pisada", tipicamente trifásico: sístole ventricular, enchimento diastólico rápido e sístole atrial.
  5. Reausculte em momentos diferentes do dia: o atrito aparece e desaparece em questão de horas.
  6. Não confunda com atrito pleural, que desaparece quando o paciente prende a respiração — o atrito pericárdico persiste em apneia.

Eletrocardiograma — os quatro estágios

As alterações eletrocardiográficas aparecem em 25% a 60% dos pacientes e evoluem de forma dinâmica ao longo de dias a semanas. Um eletrocardiograma normal é comum e não exclui o diagnóstico.

Estágio Quando Achados
I Primeiras horas a dias Supradesnivelamento difuso do segmento ST com concavidade superior e infradesnivelamento do segmento PR, na maior parte das derivações. Em aVR e V1 ocorre o inverso: infra de ST e supra de PR.
II Primeira semana Normalização do segmento ST e do segmento PR; as ondas T começam a se achatar.
III Semanas Inversão difusa das ondas T, sem perda de onda R e sem aparecimento de ondas Q patológicas.
IV Semanas a meses Normalização completa. Em alguns pacientes a inversão de T persiste de forma crônica.
Arritmias são incomuns na pericardite não complicada. Fibrilação e flutter atrial ocorrem em cerca de 4% dos casos e, quando presentes, sugerem acometimento miocárdico ou doença atrial prévia. Baixa voltagem do QRS e alternância elétrica não são achados da pericardite em si, mas do derrame volumoso — quando aparecem, procure tamponamento.

Pericardite versus infarto com supradesnivelamento

Essa é a diferenciação que decide o destino do paciente na emergência. Em um estudo retrospectivo com 207 pacientes, os achados eletrocardiográficos que mais apontaram para síndrome coronariana aguda foram os quatro listados na tabela abaixo.

Característica Sugere pericardite Sugere síndrome coronariana
Morfologia do supra de ST Côncava para cima, em "sorriso". Convexa ou horizontal, em "tenda".
Distribuição Difusa, sem respeitar território coronariano. Territorial, correspondendo a uma artéria.
Infra de PR Presente, em várias derivações. Ausente.
Infra de ST recíproco Restrito a aVR e V1. Presente em outras derivações além de aVR e V1.
DIII versus DII Supra em DII maior ou igual ao de DIII. Supra em DIII maior que em DII.
Onda Q e perda de R Ausentes. Podem estar presentes.
Evolução Lenta, ao longo de dias, em quatro estágios. Rápida, em minutos a horas.
Relação PCR / troponina Razão alta: PCR muito elevada com troponina pouco alterada. Razão baixa: troponina muito elevada com PCR pouco alterada.
Nenhum desses achados isolados é suficiente. Diante de dúvida persistente, a investigação de isquemia continua — incluindo cateterismo quando indicado. Tratar como pericardite um infarto em evolução custa miocárdio; investigar isquemia em uma pericardite custa apenas um exame.

Outros diferenciais

Condição Pistas Conduta
Repolarização precoce Jovem assintomático, supra côncavo sem infra de PR, entalhe no ponto J, padrão estável ao longo do tempo. Razão ST/T em V6 abaixo de 0,25. Comparar com traçados prévios; ausência de dor típica e de PCR elevada afasta pericardite.
Miocardite Troponina elevada de forma desproporcional, disfunção ventricular, arritmias, alteração segmentar da contratilidade. Ressonância cardíaca; restrição de exercício mais rigorosa e seguimento prolongado.
Tromboembolismo pulmonar Dor pleurítica com dispneia e hipoxemia, taquicardia, fatores de risco para trombose. Escores de probabilidade e angiotomografia — a dor pleurítica é a armadilha comum.
Dissecção aórtica Dor súbita, lancinante e migratória, assimetria de pulsos, sopro de insuficiência aórtica. Angiotomografia imediata. Pode causar hemopericárdio e tamponamento.
Pneumonia e pleurite Febre, tosse produtiva, achados focais na ausculta e na radiografia; atrito pleural cessa em apneia. Radiografia de tórax e tratamento dirigido.
Causas gastroesofágicas Relação com alimentação, pirose, dor em queimação, alívio com antiácido. Diagnóstico de exclusão na emergência — nunca antes de afastar causas cardiovasculares.
Dor musculoesquelética Reprodutível à palpação, relação com movimento e postura, sem alterações laboratoriais. Atenção: dor à palpação também pode coexistir com causa cardíaca.

Critérios diagnósticos — o que mudou em 2025

Durante uma década vigoraram os critérios da diretriz europeia de 2015, que exigiam dois entre quatro achados, todos com o mesmo peso. As diretrizes de 2025 mudaram a lógica: a dor pleurítica típica passou a ser obrigatória, e os demais achados apenas graduam a confiança diagnóstica.

Critérios de 2015 (dois de quatro)

  • Dor torácica pericardítica.
  • Atrito pericárdico.
  • Alterações eletrocardiográficas: supra difuso de ST ou infra de PR.
  • Derrame pericárdico novo ou em piora.

Achados de apoio: elevação de marcadores inflamatórios e evidência de inflamação pericárdica na tomografia ou na ressonância.

Critérios de 2025 (dor obrigatória)

  • Obrigatório: dor pleurítica típica ou apresentação clínica equivalente.
  • Mais pelo menos um destes cinco: atrito pericárdico; alterações eletrocardiográficas; elevação de marcadores inflamatórios (PCR ou VHS); derrame pericárdico novo ou em piora na imagem; inflamação pericárdica na ressonância ou na tomografia.

Graduação: nenhum achado adicional significa diagnóstico improvável; um achado, possível; dois ou mais, definitivo.

As duas grandes novidades: marcadores inflamatórios e imagem de inflamação entraram formalmente nos critérios, com o mesmo peso dos achados clássicos, e o diagnóstico deixou de ser binário para se tornar graduado em improvável, possível e definitivo.

Avaliação inicial obrigatória

Diante da suspeita, as diretrizes de 2025 recomendam quatro exames em todo paciente — recomendação classe I.

Eletrocardiograma

Em até 10 minutos na dor torácica. Procure supra difuso côncavo, infra de PR, e também baixa voltagem e alternância elétrica, que sugerem derrame volumoso.

Radiografia de tórax

Habitualmente normal. Cardiomegalia sugere derrame acima de 200 a 250 mL; avalia também campos pulmonares e mediastino.

Laboratório

Hemograma, proteína C reativa, velocidade de hemossedimentação e troponina. A PCR define fenótipo e guia o desmame; a troponina identifica acometimento miocárdico.

Ecocardiograma transtorácico

Exame de imagem inicial de escolha. Detecta derrame em cerca de 60% dos casos e pode ser normal em até metade dos primeiros episódios.

Ecocardiograma normal não exclui pericardite. O que o exame realmente responde é outra pergunta: existe derrame, existe tamponamento, existe sinal de constrição e existe disfunção ventricular sugerindo miocardite associada.

Ressonância e tomografia — quando pedir

A ressonância cardíaca é hoje o exame que melhor demonstra inflamação pericárdica ativa, e sua indicação depende da estratificação de risco. A tomografia tem papel complementar, sobretudo na doença crônica.

Método Achados típicos Quando indicar
Ressonância cardíaca Realce tardio pelo gadolínio no pericárdio (inflamação e neovascularização), edema pericárdico no T2-STIR, espessamento acima de 3 mm, derrame e sinais de constrição. Avalia simultaneamente o miocárdio. Diagnóstico incerto, suspeita de miocardite associada, formas incessante, recorrente ou crônica, ausência de resposta ao tratamento e planejamento de escalonamento terapêutico.
Tomografia cardíaca Calcificação pericárdica, espessamento, derrames loculados e complexos, massas, realce tardio pelo iodo, anatomia torácica. Suspeita de constrição crônica, planejamento de pericardiectomia, avaliação de derrames complexos e de doença pleuropulmonar concomitante. Também útil para investigar outras causas de dor torácica.
Um detalhe útil no seguimento: o realce tardio pelo gadolínio persiste depois da melhora clínica, enquanto o edema desaparece antes. Não interprete realce residual como falha terapêutica se os sintomas e a PCR já normalizaram.

Estratificação de risco

Esta é a atualização mais operacional da diretriz europeia de 2025: a decisão de internar, de investigar a fundo e de pedir ressonância passa pela presença de marcadores de mau prognóstico.

Marcadores maiores

  • Febre acima de 38 °C.
  • Curso subagudo, com sintomas instalados ao longo de dias a semanas.
  • Derrame pericárdico volumoso, acima de 20 mm.
  • Tamponamento cardíaco.
  • Ausência de resposta ao AAS ou ao anti-inflamatório após pelo menos uma semana de tratamento.

Marcadores menores

  • Miopericardite, com elevação de troponina.
  • Imunossupressão.
  • Trauma.
  • Uso de anticoagulante oral.

A presença de qualquer marcador, maior ou menor, indica internação e investigação etiológica dirigida.

O caminho do paciente sem marcadores

Pode receber alta com teste terapêutico anti-inflamatório ambulatorial e reavaliação em uma a duas semanas. Se não melhorar, ou se surgirem marcadores de alto risco, interna-se para investigação etiológica e tratamento monitorado.

Critérios diagnósticos ESC e ACC 2025

Dor pleurítica obrigatória Improvável, possível ou definitivo

Marque o critério obrigatório e, em seguida, os achados adicionais presentes. A classificação sai automaticamente: nenhum achado adicional indica diagnóstico improvável, um indica possível e dois ou mais indicam diagnóstico definitivo.

Critério obrigatório
Achados adicionais
Achados adicionais presentes
0
Critério obrigatório ausente
Sem dor pleurítica típica ou apresentação equivalente, os critérios de 2025 não se aplicam
Ferramenta de apoio ao registro. Estes critérios se aplicam ao paciente em que a síndrome coronariana aguda já foi afastada e têm melhor desempenho na pericardite aguda, com menos de 4 semanas de sintomas, embora possam ser usados na avaliação de recorrências. Comparados aos critérios europeus de 2015, dão peso maior à apresentação clínica e incorporam formalmente marcadores inflamatórios e imagem de inflamação.

Estratificação de risco e decisão de internar

5 marcadores maiores 4 marcadores menores Internação x ambulatório

Marque os preditores de mau prognóstico presentes. A presença de qualquer marcador, maior ou menor, indica internação e investigação etiológica dirigida; a ausência de todos permite tratamento ambulatorial com reavaliação programada.

Marcadores maiores
Marcadores menores
Marcadores presentes
0
Baixo risco
Tratamento ambulatorial com teste terapêutico anti-inflamatório e reavaliação em 1 a 2 semanas
Ferramenta de apoio. Independentemente do número de marcadores, tamponamento cardíaco exige drenagem e conduta imediata. Considere ainda internar por razões não capturadas pela lista: dor refratária a analgesia, vulnerabilidade social, dificuldade de retorno ou impossibilidade de garantir reavaliação em uma a duas semanas.

Razão PCR / troponina

Miopericardite x isquemia Cortes de 500 e 1000

Tanto a pericardite quanto a síndrome coronariana podem elevar PCR e troponina, mas em proporções diferentes. Em estudo retrospectivo unicêntrico, a razão entre PCR em mg/L e troponina em ng/mL apresentou especificidade em torno de 85% quando acima de 500 e superior a 92% quando acima de 1000 para o diagnóstico de miopericardite. Confira a unidade do seu laboratório antes de interpretar.

PCR convertida
Troponina convertida
Razão
Leitura
Informe os dois valores
A razão é calculada com PCR em mg/L dividida pela troponina em ng/mL
Ferramenta complementar, derivada de um único estudo retrospectivo, com boa especificidade e sensibilidade limitada. Razão baixa não confirma síndrome coronariana e razão alta não a exclui: a decisão continua sendo clínica, apoiada em eletrocardiograma, curva de troponina, avaliação de risco isquêmico e, quando indicado, cateterismo. Diferentes ensaios de troponina não são intercambiáveis.

Montador do esquema de primeira linha

Colchicina por peso Duração por tipo de episódio

A terapia de primeira linha combina colchicina com AAS em dose alta ou anti-inflamatório não esteroidal — recomendação classe I, nível de evidência A. Preencha os campos para ver o esquema sugerido e as ressalvas aplicáveis.

Anti-inflamatório
Colchicina
Duração da colchicina
Observações do esquema
Informe o peso para montar o esquema
O peso define a dose de colchicina; o tipo de episódio define a duração
Ferramenta de apoio à prescrição, não substitui a conferência das bulas e do protocolo institucional. Associe protetor gástrico ao anti-inflamatório. Mantenha a dose plena até o desaparecimento dos sintomas e a normalização da PCR, e só então inicie o desmame gradual. Monitorize hemograma, função renal, transaminases e creatinoquinase durante o tratamento.

Sequência de abordagem

O tratamento persegue quatro objetivos: aliviar sintomas, obter remissão clínica, prevenir complicações — sobretudo a recorrência — e tratar a causa específica quando existe. Remissão significa desaparecimento dos sintomas com normalização de eletrocardiograma, PCR, troponina e achados de imagem.

  1. EXCLUA SÍNDROME CORONARIANA AGUDA antes de qualquer outra coisa: eletrocardiograma em até 10 minutos, troponina seriada e estratificação de risco isquêmico.
  2. Aplique os critérios diagnósticos de 2025 e registre a classificação em improvável, possível ou definitivo.
  3. Complete a avaliação inicial: eletrocardiograma, radiografia de tórax, laboratório com PCR e troponina, e ecocardiograma transtorácico.
  4. Estratifique o risco procurando os marcadores maiores e menores; a presença de qualquer um indica internação e investigação etiológica dirigida.
  5. Inicie a primeira linha: AAS em dose alta ou anti-inflamatório associado a colchicina, com protetor gástrico.
  6. Oriente restrição de exercício e explique que ela faz parte do tratamento, não é apenas precaução.
  7. Mantenha a dose plena até a resolução dos sintomas e a normalização da PCR; só então inicie o desmame gradual.
  8. Reavalie em 1 a 2 semanas com clínica e PCR; ausência de resposta é marcador maior de mau prognóstico.
  9. Diante de refratariedade, escalone conforme o fenótipo: anti-IL-1 no inflamatório, corticoide em dose baixa no não inflamatório.
  10. Programe seguimento com PCR e ecocardiograma, atento à recorrência, ao derrame e à evolução para constrição.
Corticoide não é primeira linha. Seu uso precoce, sobretudo em doses elevadas, associa-se de forma consistente a maior risco de recorrência. Reserve-o para contraindicação ou intolerância ao AAS e ao anti-inflamatório, ou para refratariedade — e sempre em dose baixa a moderada, com desmame lento.

Escalonamento em três degraus

A grande mudança de 2025 foi a promoção dos bloqueadores da interleucina-1. Nos pacientes com fenótipo inflamatório, o ACC os coloca à frente do corticoide quando a primeira linha falha.

Degrau O que usar Observações
1 AAS em dose alta ou AINE + colchicina, com restrição de exercício. Classe I, nível de evidência A, para pericardite aguda, subaguda e recorrente. A colchicina é o que reduz recorrência.
2 Fenótipo inflamatório: anti-IL-1 (anacinra, rilonacepte).
Fenótipo não inflamatório: corticoide em dose baixa a moderada.
O fenótipo é definido por febre, PCR elevada e inflamação pericárdica na ressonância. Na ESC, os anti-IL-1 exigem inflamação demonstrada na ressonância após falha, intolerância ou contraindicação à primeira linha.
3 Casos refratários: azatioprina, imunoglobulina intravenosa e, em último caso, pericardiectomia radical. Evidência limitada para as duas primeiras. A pericardiectomia deve ser feita em centro cirúrgico de alto volume e experiência.
Há uma diferença de ênfase entre as duas diretrizes: a ESC posiciona os anti-IL-1 após falha, intolerância ou contraindicação à primeira linha e com inflamação documentada na ressonância; o ACC os coloca como preferenciais em relação ao corticoide nos pacientes que não respondem e permanecem com febre, PCR elevada ou inflamação na ressonância. Considere a disponibilidade e o custo no seu serviço.
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, duração, desmame e cuidados. Confira sempre a bula, a apresentação disponível e o protocolo institucional antes de prescrever.

Primeira linha

Combinação de anti-inflamatório com colchicina, mantida em dose plena até a remissão e desmamada lentamente. A restrição de exercício integra o tratamento e não é opcional.

Escalonamento e situações específicas

Entram quando a primeira linha falha, é contraindicada ou não é tolerada — ou quando existe etiologia específica que exige tratamento próprio.

Como desmamar

O desmame precoce é uma das causas mais comuns de recorrência. A regra é simples e vale para todos os esquemas.

Quando começar o desmame

  • Sintomas completamente resolvidos.
  • Proteína C reativa normalizada.
  • Nunca antes das duas condições acima, mesmo que o paciente se sinta bem.
  • Reduza um fármaco por vez, jamais dois simultaneamente.

Ordem de retirada

  • Primeiro o corticoide, se em uso, com redução lenta ao longo de meses.
  • Depois o anti-inflamatório ou o AAS, com redução escalonada a cada 1 a 2 semanas.
  • Por último a colchicina, ao completar 3 meses no primeiro episódio ou 6 a 12 meses na recorrência.
  • Recheque a PCR a cada etapa; elevação nova sugere recidiva e contraindica prosseguir com a redução.
Se os sintomas retornarem durante o desmame, volte à última dose eficaz e mantenha por mais tempo antes de tentar novamente. Recomeçar do zero com corticoide é justamente o caminho que perpetua a doença.

Complicações e cenários com manejo próprio

Cenário Particularidade O que fazer diferente
Pericardite recorrente Ocorre em 15% a 30% após o primeiro episódio e chega a 50% após a primeira recorrência. Fatores de risco: falta de resposta ao anti-inflamatório, uso precoce de corticoide, PCR alta e realce pericárdico intenso na ressonância. Colchicina por 6 a 12 meses. Baixo limiar para ressonância e para anti-IL-1. Encaminhar a centro de referência em doenças pericárdicas.
Forma incessante Sintomas que não remitem por mais de 4 a 6 semanas; curso mais agressivo que o da forma recorrente. Ressonância para documentar inflamação ativa e escalonamento terapêutico mais precoce.
Derrame e tamponamento Tamponamento em cerca de 5% a 10%. O que determina a repercussão é a velocidade de acúmulo, não o volume. Ecocardiograma imediato. Tamponamento é indicação classe I de pericardiocentese. Derrame sem repercussão trata-se com anti-inflamatório, não com punção.
Constrição transitória Fisiologia constritiva com inflamação ativa: realce tardio e edema na ressonância, PCR elevada. Tratamento anti-inflamatório por 3 a 6 meses antes de cogitar cirurgia — pode reverter completamente.
Constrição crônica Pericárdio fibrosado e frequentemente calcificado, sem realce nem edema. Quadro de insuficiência cardíaca direita com fração de ejeção preservada. Pericardiectomia radical em centro experiente. A ESC de 2025 sugere cirurgia precoce, avaliando cuidadosamente a insuficiência tricúspide pré-operatória.
Forma efuso-constritiva Fisiologia constritiva que persiste após a drenagem do derrame; a pressão atrial direita não cai como esperado. Reavaliar com ecocardiograma após a punção. Anti-inflamatório dirigido ao componente visceral inflamado.
Miopericardite Cerca de 15% dos casos, com troponina elevada e possível disfunção ventricular ou alteração segmentar. Ressonância cardíaca, restrição de exercício mais rigorosa, cautela com dose alta de anti-inflamatório e seguimento prolongado com Holter e teste ergométrico.
Tuberculose pericárdica Curso subagudo, derrame volumoso, febre arrastada e emagrecimento. Alto risco de evoluir para constrição. Punção com adenosina desaminase, pesquisa de micobactérias e teste molecular. Esquema antituberculoso por 6 meses; corticoide adjuvante conforme protocolo.
Pericardite purulenta Rara e de alta mortalidade; suspeitar em derrame associado a sepse ou choque séptico. Drenagem cirúrgica com dreno calibroso e antibioticoterapia intravenosa. Risco de constrição de 20% a 30%.
Pós-lesão cardíaca Após cirurgia, ablação, implante de dispositivo ou intervenção coronária. Frequentemente subdiagnosticada ou confundida com dor incisional. Diagnóstico e tratamento precoces. A profilaxia com colchicina pode ser considerada, embora os dados sejam limitados.
Paciente oncológico Pericardite pode ser manifestação da neoplasia, do tratamento (quimioterapia, imunoterapia) ou da radioterapia. Infecções fúngicas e bacterianas são mais prováveis. Citologia oncótica no líquido. Considerar suspensão ou troca do fármaco implicado. Adaptar as metas de cuidado ao estágio da doença.
Gestação A colchicina é contraindicada e a exposição à radiação deve ser evitada; anti-inflamatórios têm restrições, sobretudo após 20 semanas. Preferir guiagem ecocardiográfica em qualquer procedimento. Discutir esquema com obstetrícia e cardiologia; AAS em dose baixa e corticoide em dose baixa são alternativas conforme o trimestre.
Pericardite urêmica Relacionada à toxicidade urêmica ou à diálise inadequada, frequentemente com componente hemorrágico pela disfunção plaquetária. Intensificar a diálise, preferencialmente sem heparina. Anti-inflamatórios têm uso restrito nessa população.

Erros comuns

  • Rotular como pericardite um supradesnivelamento que era infarto, sem excluir isquemia adequadamente.
  • Exigir atrito pericárdico para fazer o diagnóstico, quando ele aparece em apenas 20% a 30% dos casos.
  • Descartar pericardite porque o eletrocardiograma está normal — ele é normal em boa parte dos pacientes.
  • Descartar pericardite porque o ecocardiograma não mostrou derrame, sendo que ele é normal em até metade dos primeiros episódios.
  • Não dosar proteína C reativa, perdendo o parâmetro que define fenótipo, guia o desmame e detecta recorrência.
  • Prescrever anti-inflamatório sem colchicina, abrindo mão da única medida que reduz recorrência de forma consistente.
  • Usar corticoide como primeira linha no primeiro episódio, aumentando o risco de recorrência.
  • Usar dose de colchicina fixa, sem ajuste por peso, por função renal ou por interações com inibidores de P-gp e CYP3A4.
  • Suspender o anti-inflamatório assim que a dor melhora, antes da normalização da PCR.
  • Interromper vários fármacos ao mesmo tempo em vez de desmamar um de cada vez.
  • Omitir a orientação de restrição de exercício, tratando-a como recomendação opcional.
  • Pedir painel sorológico viral de rotina, contrariando a recomendação explícita da diretriz.
  • Puncionar derrame inflamatório sem tamponamento e sem suspeita de causa bacteriana ou neoplásica.
  • Deixar de considerar tuberculose pericárdica em paciente brasileiro com curso subagudo e derrame volumoso.
  • Prescrever colchicina para gestante, sem checar a contraindicação.
  • Interpretar realce pericárdico residual na ressonância como falha terapêutica em paciente já assintomático e com PCR normal.

Resumo do fluxo

  1. Dor torácica: eletrocardiograma em até 10 minutos e EXCLUSÃO de síndrome coronariana aguda antes de qualquer outro raciocínio.
  2. Aplique os critérios de 2025: dor pleurítica típica obrigatória mais atrito, alterações eletrocardiográficas, PCR elevada, derrame novo ou inflamação na imagem.
  3. Complete a avaliação inicial com radiografia de tórax, hemograma, PCR, troponina e ecocardiograma transtorácico.
  4. Procure marcadores de mau prognóstico: febre acima de 38 °C, curso subagudo, derrame volumoso, tamponamento, falha do anti-inflamatório, miopericardite, imunossupressão, trauma e anticoagulação.
  5. Com qualquer marcador presente: internar, investigar a etiologia de forma dirigida e considerar ressonância cardíaca.
  6. Sem marcadores: alta com esquema anti-inflamatório e reavaliação garantida em 1 a 2 semanas.
  7. Prescreva AAS em dose alta ou anti-inflamatório associado a colchicina, com protetor gástrico e restrição de exercício.
  8. Mantenha a dose plena até a resolução dos sintomas e a normalização da PCR; desmame gradual, um fármaco por vez.
  9. Sem resposta: defina o fenótipo. Inflamatório vai para anti-IL-1; não inflamatório vai para corticoide em dose baixa.
  10. Complete 3 meses de colchicina no primeiro episódio e 6 a 12 meses na recorrência, com seguimento clínico, PCR e ecocardiograma.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

  1. Task Force for the Management of Myocarditis and Pericarditis of the European Society of Cardiology. 2025 ESC Guidelines for the management of myocarditis and pericarditis. Eur Heart J. 2025;46(40):3952-4032.
  2. Wang TKM, Klein AL, Cremer PC, et al. 2025 Concise Clinical Guidance: an ACC Expert Consensus Statement on the Diagnosis and Management of Pericarditis. J Am Coll Cardiol. 2025.
  3. Adler Y, Charron P, Imazio M, et al. 2015 ESC Guidelines for the diagnosis and management of pericardial diseases. Eur Heart J. 2015;36(42):2921-2964.
  4. Klein AL, Wang TKM, Cremer PC, et al. Pericardial diseases: international position statement on new concepts and advances in multimodality cardiac imaging. JACC Cardiovasc Imaging. 2024;17:937-988.
  5. Chiabrando JG, Bonaventura A, Vecchié A, et al. Management of acute and recurrent pericarditis: JACC state-of-the-art review. J Am Coll Cardiol. 2020;75(1):76-92.
  6. Imazio M, Bobbio M, Cecchi E, et al. Colchicine in addition to conventional therapy for acute pericarditis (COPPS/ICAP e estudos relacionados). N Engl J Med. 2013;369(16):1522-1528.
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  8. Klein AL, Imazio M, Cremer P, et al. Phase 3 trial of interleukin-1 trap rilonacept in recurrent pericarditis (RHAPSODY). N Engl J Med. 2021;384(1):31-41.
  9. Brucato A, Imazio M, Gattorno M, et al. Effect of anakinra on recurrent pericarditis among patients with colchicine resistance and corticosteroid dependence (AIRTRIP). JAMA. 2016;316(18):1906-1912.
  10. Imazio M, Brucato A, Maestroni S, et al. Prevalence of C-reactive protein elevation and time course of normalization in acute pericarditis. Circulation. 2011;123(10):1092-1097.
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  12. LeWinter MM. Acute pericarditis. N Engl J Med. 2014;371(25):2410-2416.
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  14. Ministério da Saúde do Brasil. Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil — esquema básico e formas extrapulmonares.
  15. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz de Dor Torácica na Emergência e posicionamentos vigentes sobre doenças do pericárdio.

Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, critérios, escalas e condutas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.

Informações rápidas

Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.

O essencial

Excluir SCA

Toda dor torácica merece eletrocardiograma em até 10 minutos. Apontam para infarto: supra convexo ou horizontal, ausência de infra de PR, infra de ST recíproco fora de aVR e V1, e supra em DIII maior que em DII. História e exame físico isoladamente não excluem isquemia.

Diagnosticar

Critérios de 2025: dor pleurítica típica é obrigatória, somada a pelo menos um entre atrito pericárdico, alterações eletrocardiográficas, elevação de PCR ou VHS, derrame novo ou em piora, e inflamação pericárdica na ressonância. Nenhum achado adicional: improvável; um: possível; dois ou mais: definitivo. A avaliação inicial de todos inclui ECG, radiografia, laboratório com PCR e troponina, e ecocardiograma.

Estratificar

Marcadores maiores: febre acima de 38 °C, curso subagudo, derrame acima de 20 mm, tamponamento e falha do anti-inflamatório após uma semana. Marcadores menores: miopericardite, imunossupressão, trauma e anticoagulação oral. Qualquer um indica internação e investigação dirigida; nenhum permite tratamento ambulatorial com reavaliação em 1 a 2 semanas.

Tratar

Primeira linha: AAS em dose alta ou anti-inflamatório associado a colchicina, com protetor gástrico e restrição de exercício. Colchicina por 3 meses no primeiro episódio e 6 a 12 meses na recorrência. Corticoide precoce aumenta a recorrência; nos refratários com fenótipo inflamatório, os anti-IL-1 vêm antes dele.

Números rápidos

Critérios de 2025: dor pleurítica obrigatória; 0 improvável, 1 possível, 2 ou mais definitivo.

Marcadores maiores: febre acima de 38 °C, curso subagudo, derrame acima de 20 mm, tamponamento, falha do AINE.

Colchicina: 0,5 mg 12/12h se 70 kg ou mais; 0,5 mg ao dia se abaixo de 70 kg.

Duração: 3 meses no primeiro episódio; 6 a 12 meses na recorrência.

Exercício: restrição por pelo menos 1 mês, com frequência cardíaca abaixo de 100 bpm, até a remissão.

Recorrência: 15% a 30% após o primeiro episódio; até 50% após a primeira recorrência.

Não esqueça

Excluir síndrome coronariana aguda vem sempre primeiro.

ECG e ecocardiograma normais não afastam pericardite.

Colchicina é o que reduz recorrência — não deixe de fora.

Corticoide precoce aumenta o risco de recorrência.

Só desmame após sintomas resolvidos e PCR normalizada.

Em provas / residência

A banca cobra o supra difuso côncavo com infra de PR, a diferenciação do infarto, os quatro estágios eletrocardiográficos e o esquema AINE mais colchicina.

Decore: colchicina 3 meses no agudo e 6 a 12 meses na recorrência; corticoide precoce aumenta recorrência; febre acima de 38 °C é marcador maior de mau prognóstico.

Mais informações nas abas do artigo.

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