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Parada Cardiorrespiratória

Duas intervenções mudam sobrevida: compressão de alta qualidade e desfibrilação precoce. Todo o resto — droga, via aérea, monitorização — é adjuvante. As diretrizes de 2025 reforçam justamente isso, e acrescentam algo que o plantão costuma esquecer: procurar a causa reversível desde o primeiro ciclo.

Comprimir forte e rápido Desfibrilar sem demora Caçar os 5H e 5T Cuidado pós-PCR estruturado
Tempo de leitura: 22 min
Atualizado em: 21/08/2026

Comprimir bem

  • 100 a 120 por minuto, 5 a 6 cm de profundidade
  • Retorno completo do tórax a cada compressão
  • Interrupções abaixo de 10 segundos
  • Revezar o compressor a cada 2 minutos

Desfibrilar cedo

  • Chocável: fibrilação ventricular e TV sem pulso
  • Cada minuto de atraso reduz a sobrevida
  • Retomar compressões imediatamente após o choque
  • Não checar pulso logo depois do choque

Achar a causa

  • Cinco H e cinco T revisados a cada ciclo
  • Ultrassom à beira do leito nas pausas
  • Atividade elétrica sem pulso quase sempre tem causa
  • Tratar a causa é o que reverte a parada

Cuidar depois

  • Oxigenação e pressão com alvos definidos
  • Eletrocardiograma imediato e coronariografia se indicada
  • Controle de temperatura por pelo menos 36 horas
  • Prognóstico neurológico nunca é precoce

O que realmente muda desfecho

A reanimação acumulou décadas de estudos, mas a lista de intervenções com impacto consistente sobre sobrevida com bom desfecho neurológico continua curta: reconhecimento imediato, compressões torácicas de alta qualidade e desfibrilação precoce nos ritmos chocáveis. Drogas, via aérea avançada e monitorização ocupam um papel adjuvante — importante, mas secundário.

As diretrizes de 2025 reorganizaram a apresentação em torno dessa hierarquia e unificaram a cadeia de sobrevivência em um único modelo, aplicável a adultos e crianças, dentro e fora do hospital. A mensagem prática é simples: quem faz a diferença é quem comprime bem, cedo, e quem desfibrila sem demora.

O erro mais custoso em uma reanimação não é escolher a droga errada: é interromper as compressões por tempo demais — para checar pulso, para intubar, para discutir conduta ou para preparar material que deveria estar pronto.

Cadeia de sobrevivência

Elo Ação Por que importa
1Reconhecimento e acionamentoReconhecer a parada e acionar ajuda imediatamente; o atraso aqui compromete todos os elos seguintes.
2RCP imediata de alta qualidadeMantém perfusão coronariana e cerebral até que a desfibrilação ou o tratamento da causa aconteça.
3Desfibrilação precoceÚnico tratamento eficaz da fibrilação ventricular; a chance de sucesso cai a cada minuto.
4Suporte avançadoDrogas, via aérea, monitorização e tratamento da causa reversível.
5Cuidados pós-paradaOnde se perde ou se ganha o desfecho neurológico de quem já teve retorno de circulação.
6RecuperaçãoReabilitação, suporte psicológico e seguimento de sobreviventes e familiares.
As diretrizes de 2025 passaram a usar uma cadeia única, válida para todas as idades e cenários, em vez de cadeias separadas para parada intra e extra-hospitalar. O elo de recuperação foi reforçado, com recomendações sobre reabilitação, apoio a sobreviventes e cuidado com a saúde mental da equipe.

Reconhecer a parada

  • Irresponsivo ao chamado e ao estímulo.
  • Respiração ausente ou anormal — o gasping agônico é sinal de parada, não de respiração preservada, e é a principal armadilha do reconhecimento.
  • Pulso central ausente — checagem de no máximo 10 segundos, feita simultaneamente à avaliação da respiração.
  • Na dúvida, comprima — o dano de comprimir alguém que tem pulso é muito menor do que o de não comprimir quem está em parada.
  • No monitor, atenção à dissociação entre ritmo organizado e ausência de pulso: é atividade elétrica sem pulso.
  • Acione a equipe e peça o desfibrilador no mesmo momento em que inicia as compressões, não depois.
A checagem de pulso é pouco confiável, mesmo entre profissionais experientes. Se em 10 segundos não houver certeza da presença de pulso, a conduta é iniciar compressões.

Os primeiros dois minutos

Comprimir e chamar

Inicie compressões imediatamente sobre superfície firme, acione a equipe e peça o desfibrilador ou o desfibrilador externo automático.

Monitorizar e analisar o ritmo

Coloque as pás ou os eletrodos assim que o aparelho chegar. Ritmo chocável significa choque imediato; ritmo não chocável significa manter compressões e buscar a causa.

Organizar a equipe

Defina em voz alta: quem comprime, quem ventila, quem faz o acesso e as drogas, quem controla o tempo e quem lidera. Liderança clara reduz interrupções.

Um cronômetro visível e alguém responsável por anunciar o tempo em voz alta — ciclos de 2 minutos, momento das drogas, duração das pausas — é uma das intervenções mais baratas e mais eficazes para melhorar a qualidade da reanimação.

Métricas da compressão

Parâmetro Alvo Erro comum
Frequência100 a 120 por minutoComprimir rápido demais, o que reduz o enchimento e a profundidade.
Profundidade5 a 6 cm no adultoCompressão superficial, sobretudo com o passar dos minutos e com fadiga.
Retorno do tóraxCompleto a cada compressãoApoiar-se no tórax entre compressões, o que impede o enchimento cardíaco.
Fração de compressãoAcima de 60%, idealmente 80%Pausas longas para checar pulso, intubar ou trocar de compressor.
PausasMenos de 10 segundosPausa pré e pós-choque prolongada — uma das mais deletérias.
Troca de compressorA cada 2 minutosManter o mesmo profissional além do ciclo, com queda progressiva da qualidade.
SuperfícieFirme, com tábua se necessárioComprimir sobre colchão macio, o que dissipa a força aplicada.
Posição do socorristaBraços estendidos, ombros sobre o esternoComprimir com o cotovelo fletido ou em altura inadequada da maca.
As diretrizes de 2025 detalharam a ergonomia da compressão: posicionamento das mãos, posição do corpo do socorrista, altura da superfície e uso de superfície firme influenciam a qualidade da compressão de forma mensurável. Dispositivos de feedback em tempo real são recomendados quando disponíveis.

Ventilação

Sem via aérea avançada

  • Relação de 30 compressões para 2 ventilações no adulto.
  • Cada ventilação em cerca de 1 segundo, com elevação visível do tórax.
  • Bolsa-válvula-máscara com reservatório, vedação de duas mãos e oxigênio no fluxo máximo.
  • Cânula orofaríngea facilita muito a ventilação.

Com via aérea avançada

  • Compressões contínuas, sem pausa para ventilar.
  • Uma ventilação a cada 6 segundos, ou seja, 10 por minuto.
  • Evitar hiperventilação: aumenta a pressão intratorácica e reduz o retorno venoso.
  • Capnografia em onda conectada e monitorizada continuamente.
As diretrizes de 2025 reforçaram o valor das ventilações associadas às compressões, tanto para profissionais quanto para leigos treinados e dispostos. A RCP somente com compressões continua sendo a orientação para o leigo não treinado ou que não se sente seguro para ventilar.

Capnografia durante a reanimação

  • Confirma a via aérea — curva sustentada indica tubo na traqueia.
  • Mede a qualidade da compressão — valores muito baixos sugerem compressão ineficaz ou fração de compressão ruim.
  • Sinaliza retorno de circulação — elevação abrupta e sustentada do valor durante as compressões é um dos sinais mais precoces.
  • Apoia o prognóstico — valores persistentemente muito baixos após 20 minutos de reanimação adequada associam-se a prognóstico ruim, mas não devem ser usados isoladamente para decidir o término.
  • Evita hiperventilação — o traçado mostra a frequência real das ventilações administradas.
  • Cuidado com falsos negativos — em parada prolongada, embolia pulmonar maciça e baixo débito, o valor pode ser baixo mesmo com o tubo bem posicionado.

Obstrução de via aérea por corpo estranho

Obstrução leve

A pessoa tosse de forma eficaz e consegue falar. Conduta: encorajar a tosse e observar de perto, sem interferir.

Obstrução grave

Tosse ineficaz, incapacidade de falar, estridor ou cianose. Conduta: alternar 5 golpes nas costas e 5 compressões abdominais até desobstruir.

Perda de consciência

Deite a pessoa no chão, inicie RCP e verifique a boca a cada abertura de via aérea, removendo o corpo estranho apenas se visível.

Lactente

Alternar 5 golpes nas costas e 5 compressões torácicas; não realizar compressões abdominais nessa faixa etária.

Nunca faça varredura digital às cegas: o gesto pode empurrar o corpo estranho mais profundamente. Remova apenas o que estiver visível e ao alcance.

A divisão que organiza tudo

Toda a conduta na parada se bifurca a partir de uma única pergunta: o ritmo é chocável ou não? Essa resposta define o próximo gesto e a prioridade terapêutica.

Chocáveis

  • Fibrilação ventricular — atividade elétrica caótica, sem complexos identificáveis.
  • Taquicardia ventricular sem pulso — complexos largos, regulares e rápidos, sem pulso.
  • Conduta: choque imediato, seguido de retomada instantânea das compressões.
  • Melhor prognóstico, sobretudo quando presenciada e desfibrilada cedo.

Não chocáveis

  • Assistolia — ausência de atividade elétrica; confirme ganho, derivação e conexões antes de assumir.
  • Atividade elétrica sem pulso — ritmo organizado no monitor sem pulso palpável.
  • Conduta: compressões, adrenalina e busca ativa da causa.
  • Prognóstico pior, mas a atividade elétrica sem pulso frequentemente tem causa tratável.
Atividade elétrica sem pulso não é um diagnóstico: é um achado que exige explicação. Hipovolemia, hipóxia, pneumotórax hipertensivo, tamponamento, embolia pulmonar e intoxicação estão entre as causas mais frequentes — e todas têm tratamento específico.

Desfibrilação na prática

  1. Mantenha as compressões enquanto o desfibrilador é preparado e as pás são posicionadas.
  2. Use pás adesivas quando disponíveis: reduzem a pausa e permitem monitorização contínua.
  3. Posicionamento anterolateral é o padrão; a posição anteroposterior é alternativa aceitável.
  4. Carregue o aparelho durante as compressões, e não com a equipe parada esperando.
  5. MINIMIZE A PAUSA PERI-CHOQUE — o alvo é menos de 5 segundos entre parar de comprimir, chocar e retomar.
  6. Avise em voz alta, confirme visualmente que ninguém está em contato e aplique o choque.
  7. Retome as compressões imediatamente após o choque, sem checar pulso nem ritmo.
  8. Reavalie o ritmo apenas ao final do ciclo de 2 minutos.
Checar o pulso logo após o choque é um erro clássico e custoso. Mesmo quando o choque é eficaz, o coração leva algum tempo para gerar pulso palpável, e a pausa desperdiçada compromete a perfusão coronariana reconquistada com esforço.

Calculadora — energia e doses

Energia por peso Doses do algoritmo Adulto e pediátrico

Selecione a faixa etária e informe o peso quando aplicável. As doses e energias seguem os algoritmos vigentes — confira sempre o manual do desfibrilador do seu serviço, pois a energia recomendada varia entre aparelhos.

1º choque
Choques seguintes
Adrenalina
Ferramenta de apoio. A energia bifásica recomendada varia conforme o fabricante — siga a orientação do aparelho disponível e, na dúvida, use a energia máxima. As doses pediátricas têm limite superior definido pela dose do adulto; confira apresentação e diluição antes de administrar.

Fibrilação ventricular refratária

Define-se pela persistência do ritmo chocável após três ou mais choques com reanimação adequada. É um cenário em que vale reavaliar sistematicamente o básico antes de partir para estratégias avançadas.

  • Revise a qualidade da compressão — profundidade, frequência, retorno do tórax e fração de compressão.
  • Confira o contato das pás — pele seca, pelos, adesivo mal aplicado e posicionamento inadequado reduzem a energia entregue.
  • Considere trocar a posição das pás de anterolateral para anteroposterior.
  • Antiarrítmico — amiodarona é a opção habitual, com lidocaína como alternativa.
  • Corrija eletrólitos — potássio e magnésio; considere sulfato de magnésio se houver torsades de pointes.
  • Pense em isquemia — a causa mais frequente; considere coronariografia se houver retorno de circulação, e discuta suporte extracorpóreo em serviços com o recurso.
  • Desfibrilação sequencial dupla — estratégia estudada em serviços selecionados, ainda sem recomendação universal; siga o protocolo institucional.

Ritmos peri-parada

Situação Reconhecimento Conduta
Bradicardia instável Frequência baixa com hipotensão, alteração do nível de consciência, dor torácica ou sinais de choque. Atropina; se não responder, marca-passo transcutâneo ou infusão de cronotrópico.
Taquicardia instável Frequência alta com sinais de instabilidade atribuíveis à arritmia. Cardioversão elétrica sincronizada, com sedação sempre que possível.
Taquicardia estável de complexo estreito Regular, sem sinais de instabilidade. Manobra vagal e adenosina; investigar e tratar a causa.
Taquicardia estável de complexo largo Considere taquicardia ventricular até prova em contrário. Antiarrítmico conforme protocolo, com desfibrilador imediatamente disponível.
Torsades de pointes Taquicardia polimórfica com QT longo de base. Sulfato de magnésio, correção de eletrólitos e suspensão de drogas que prolongam o QT.
A pergunta que define a conduta nas taquiarritmias é sempre a mesma: a instabilidade é causada pela arritmia? Um paciente séptico e taquicárdico não precisa de cardioversão — precisa do tratamento da sepse.

Acesso vascular

  • Priorize o acesso venoso periférico — as diretrizes de 2025 passaram a recomendar a tentativa de acesso intravenoso antes do intraósseo no adulto em parada.
  • Intraósseo permanece excelente alternativa quando o acesso venoso não é obtido rapidamente.
  • Via endotraqueal é último recurso, com absorção errática e doses maiores; evite sempre que houver alternativa.
  • Lave com solução salina após cada droga e eleve o membro, para favorecer a chegada da medicação à circulação central.
  • Nunca interrompa compressões para obter acesso — são tarefas paralelas, executadas por profissionais diferentes.

Drogas do algoritmo

Droga Quando Observações
Adrenalina Ritmo não chocável: assim que possível. Ritmo chocável: após o segundo choque. Repetir a cada 3 a 5 minutos. Aumenta a taxa de retorno de circulação; o efeito sobre sobrevida com bom desfecho neurológico é mais modesto, e a administração precoce nos ritmos não chocáveis é o ponto de maior impacto.
Amiodarona Fibrilação ventricular ou TV sem pulso refratária ao choque. Primeira dose de 300 mg, com segunda dose de 150 mg se necessário. Aumenta a sobrevida à admissão hospitalar.
Lidocaína Alternativa à amiodarona no ritmo chocável refratário. Desempenho semelhante nos estudos comparativos; use a que estiver disponível e com a qual a equipe tem familiaridade.
Sulfato de magnésio Torsades de pointes e suspeita de hipomagnesemia. Não é droga de rotina na parada; o uso indiscriminado não traz benefício.
Bicarbonato de sódio Hipercalemia, intoxicação por antidepressivo tricíclico e acidose metabólica grave preexistente. Não usar de rotina: pode piorar acidose intracelular e desviar a curva de dissociação da hemoglobina.
Cálcio Hipercalemia, hipocalcemia e intoxicação por bloqueador de canal de cálcio. Sem indicação de rotina; reserve para as situações específicas acima.
Naloxona Parada com suspeita de intoxicação por opioide. As diretrizes de 2025 ampliaram a ênfase no uso precoce e no acesso público; não substitui as compressões nem a ventilação.
Trombolítico Suspeita forte de embolia pulmonar como causa da parada. Se administrado, considere prolongar a reanimação por 60 a 90 minutos antes de decidir o término.
Nenhuma droga substitui compressão de qualidade e desfibrilação precoce. A prioridade quando os recursos humanos são limitados é sempre: comprimir bem, chocar cedo, tratar a causa — e só então otimizar a farmacologia.

Via aérea durante a parada

Bolsa-válvula-máscara

Estratégia inicial adequada na maioria dos casos. Vedação de duas mãos, cânula orofaríngea e oxigênio no fluxo máximo.

Dispositivo supraglótico

Alternativa rápida e com menor interrupção; boa opção quando não há operador experiente em intubação.

Intubação orotraqueal

Permite compressões contínuas e proteção da via aérea, mas só se puder ser feita sem interromper as compressões e por operador experiente.

Confirmação

Capnografia em onda em qualquer dispositivo avançado — é também o melhor monitor de qualidade da reanimação.

Não existe superioridade demonstrada de uma estratégia de via aérea sobre as outras em termos de sobrevida. O que piora desfecho de forma consistente é a interrupção prolongada das compressões para tentar intubar — se a tentativa for demorada, o custo supera o benefício.
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, momento de administração e cuidados. Confira apresentação, diluição e protocolo do seu serviço antes de administrar.

Drogas da parada

As medicações do algoritmo, com o detalhe que mais importa em cada uma: quando entrar, quanto dar e o que a evidência realmente mostra.

Situações e estratégias

Condutas que fogem do algoritmo padrão: causas específicas, suporte extracorpóreo, cuidados imediatos após o retorno de circulação e a decisão de encerrar.

Os cinco H e os cinco T

Revisar as causas reversíveis não é um exercício acadêmico para o final da reanimação: é a tarefa que, na atividade elétrica sem pulso e na assistolia, tem maior chance de reverter o quadro. Faça a revisão em voz alta, a cada checagem de ritmo.

Causa Pistas Tratamento imediato
HipovolemiaTrauma, sangramento, desidratação, veia cava colabada ao ultrassom.Volume em infusão rápida e controle da fonte de sangramento; hemoderivados se hemorrágica.
HipóxiaInsuficiência respiratória prévia, obstrução de via aérea, afogamento.Via aérea pérvia, oxigênio a 100% e ventilação eficaz.
Hidrogênio (acidose)Acidose metabólica grave conhecida, insuficiência renal, cetoacidose.Ventilação adequada; bicarbonato apenas em situações selecionadas.
Hipo ou hipercalemiaDoença renal, diálise, drogas, alterações prévias no eletrocardiograma.Cálcio, insulina com glicose e bicarbonato na hipercalemia; reposição cautelosa na hipocalemia.
HipotermiaExposição ao frio, afogamento em água gelada, temperatura central baixa.Reaquecimento ativo; reanimação prolongada — não se declara óbito antes do reaquecimento.
Tensão no tórax (pneumotórax)Trauma, ventilação mecânica, desvio de traqueia, ausência de deslizamento pleural.Descompressão imediata seguida de drenagem torácica.
Tamponamento cardíacoTrauma, neoplasia, pós-operatório cardíaco; derrame ao ultrassom.Pericardiocentese ou toracotomia, conforme o contexto.
ToxinasIntoxicação, superdosagem, opioides, bloqueadores de canal de cálcio e betabloqueadores.Antídoto específico: naloxona, cálcio, glucagon, emulsão lipídica e bicarbonato conforme o agente.
Trombose pulmonarFatores de risco, dispneia súbita prévia, ventrículo direito dilatado ao ultrassom.Trombolítico e, quando disponível, suporte extracorpóreo ou trombectomia.
Trombose coronarianaDor torácica prévia, alterações isquêmicas conhecidas, ritmo chocável refratário.Coronariografia após retorno de circulação; discutir suporte extracorpóreo em casos selecionados.
Uma regra prática de plantão: nos ritmos não chocáveis, dedique parte do ciclo de dois minutos a uma causa específica — verifique-a de fato, com exame, ultrassom ou história, em vez de apenas recitar a lista.

Calculadora — checklist de causas reversíveis

10 causas Conduta dirigida

Marque as causas suspeitas neste paciente. O resultado gera a lista de condutas específicas correspondentes, para ser executada em paralelo às compressões.

Os cinco H

Os cinco T

Causas suspeitas
0
Nenhuma causa marcada
Revise a lista em voz alta a cada checagem de ritmo e use o ultrassom nas pausas para dirigir a investigação
Ferramenta de apoio ao raciocínio durante a reanimação. As condutas listadas devem ser executadas em paralelo às compressões, por profissionais designados, sem gerar pausas adicionais. Doses e diluições seguem o protocolo do seu serviço.

Ultrassom durante a parada

  • Use apenas nas pausas de checagem de ritmo, com a janela subxifoide já preparada e o aparelho posicionado antes da pausa.
  • Limite a 10 segundos — o exame não pode prolongar a interrupção das compressões.
  • Procure alvos específicos: derrame pericárdico, ventrículo direito dilatado, ausência de deslizamento pleural, veia cava colabada e contratilidade cardíaca.
  • Contratilidade organizada sem pulso palpável sugere pseudoatividade elétrica sem pulso, com melhor prognóstico e maior chance de causa reversível.
  • Ausência total de movimento cardíaco associa-se a prognóstico ruim, mas não deve ser usada isoladamente para encerrar a reanimação.
  • Designe um operador exclusivo para o ultrassom, para que ele não compita com as demais tarefas.
O ultrassom durante a parada tem um risco bem documentado: prolongar as pausas. Se o exame não puder ser feito em segundos, com alvo definido, o custo em fração de compressão supera o benefício diagnóstico.

Situações com manejo próprio

Cenário Particularidade O que fazer diferente
Gestante O útero gravídico comprime a veia cava e reduz drasticamente o retorno venoso. Deslocamento uterino manual à esquerda, compressões um pouco mais cefálicas e cesárea perimortem considerada em torno de 4 minutos sem retorno de circulação, se a altura uterina alcança a cicatriz umbilical.
Trauma Causa quase sempre mecânica: hipovolemia, pneumotórax hipertensivo ou tamponamento. Priorizar controle de hemorragia, descompressão torácica bilateral, hemoderivados e, em serviços habilitados, toracotomia de reanimação em indicações selecionadas.
Hipotermia grave Metabolismo reduzido protege o cérebro; a recuperação neurológica completa é possível após reanimação muito prolongada. Reaquecimento ativo e reanimação prolongada — o paciente só é considerado irrecuperável após aquecimento adequado. Considerar suporte extracorpóreo.
Afogamento A causa é hipóxica; a ventilação tem papel proporcionalmente maior. Iniciar com ventilações, priorizar oxigenação e considerar hipotermia associada.
Intoxicação por opioide Parada tipicamente precedida por depressão respiratória. Naloxona precoce associada a ventilação e compressões; as diretrizes de 2025 reforçaram o acesso público ao antídoto.
Hipercalemia Frequente em renal crônico e dialítico; alterações prévias no eletrocardiograma. Cálcio imediato, seguido de insulina com glicose e bicarbonato; diálise após a estabilização.
Anafilaxia Vasoplegia intensa com broncoespasmo e edema de via aérea. Adrenalina, volume em grande quantidade e via aérea precoce, pela evolução rápida do edema.
Intoxicação por anestésico local Arritmias refratárias após bloqueio ou infiltração. Emulsão lipídica intravenosa conforme protocolo, com reanimação prolongada.
Dispositivo de assistência ventricular Ausência de pulso pode ser normal; avalie o funcionamento do dispositivo antes de comprimir. Seguir protocolo específico e acionar a equipe responsável; as compressões não estão automaticamente contraindicadas.

Particularidades pediátricas

Causa predominante

A parada na criança é habitualmente hipóxica, secundária a insuficiência respiratória ou choque — daí a ênfase maior na ventilação.

Relação compressão-ventilação

30 para 2 com um socorrista e 15 para 2 com dois socorristas; profundidade de cerca de um terço do diâmetro anteroposterior do tórax.

Energia

Primeiro choque de 2 J/kg, seguido de 4 J/kg, podendo escalonar até a dose do adulto conforme protocolo.

Adrenalina

0,01 mg/kg por via intravenosa ou intraóssea a cada 3 a 5 minutos, com dose máxima correspondente à do adulto.

Bradicardia com má perfusão

Frequência abaixo de 60 por minuto com sinais de má perfusão apesar de oxigenação e ventilação adequadas é indicação de iniciar compressões.

Prognóstico

As diretrizes de 2025 trouxeram, pela primeira vez, recomendações específicas sobre prognóstico neurológico após parada em pediatria.

Cuidados após o retorno de circulação

O retorno de circulação não encerra a reanimação — inicia a fase em que boa parte do desfecho neurológico é definida. A síndrome pós-parada combina lesão cerebral, disfunção miocárdica, resposta inflamatória sistêmica e a persistência da causa que provocou o evento.

Domínio Alvo Observação
OxigenaçãoSaturação entre 92% e 98%Reduza a FiO₂ assim que possível — a hiperóxia se associa a pior desfecho.
VentilaçãoNormocapniaEvitar hiperventilação e hipocapnia, que reduzem o fluxo sanguíneo cerebral.
Pressão arterialMédia acima de 65 mmHg, evitando hipotensãoVolume, vasopressor e inotrópico conforme a disfunção miocárdica.
EletrocardiogramaImediatamente após o retornoCoronariografia de urgência se houver supradesnivelamento; considerar em casos selecionados sem supra.
TemperaturaControle ativo por pelo menos 36 horasNos pacientes que permanecem sem resposta a comandos verbais; evitar febre de forma agressiva.
GlicemiaEvitar hipoglicemia e hiperglicemia importantesSem alvo estrito; a hipoglicemia é particularmente deletéria.
ConvulsõesTratar quando presentesEletroencefalograma em quem permanece comatoso; a atividade epileptiforme é frequente.
SedaçãoTitulada, permitindo avaliação neurológicaEvitar sedação profunda desnecessária, que atrasa o prognóstico.
As diretrizes de 2025 atualizaram a recomendação de controle de temperatura para manutenção por pelo menos 36 horas em adultos que permanecem sem resposta a comandos verbais, com ênfase na prevenção ativa da febre no período subsequente.

Prognóstico neurológico

  • Nunca é precoce — a avaliação prognóstica formal só deve ocorrer após pelo menos 72 horas do retorno de circulação, e mais tarde ainda se houve controle de temperatura ou sedação residual.
  • Nunca é baseada em um único achado — a abordagem é multimodal, combinando exame neurológico, eletroencefalograma, biomarcadores e neuroimagem.
  • Exame clínico — ausência de reflexos pupilar e corneano, e mioclonias precoces e generalizadas, são sinais desfavoráveis quando persistentes.
  • Eletroencefalograma — padrões de surto-supressão e status epiléptico refratário têm valor prognóstico.
  • Biomarcadores — enolase neurônio-específica seriada, quando disponível.
  • Neuroimagem — perda da diferenciação entre substância branca e cinzenta na tomografia e alterações na ressonância.
  • Evite a profecia autorrealizável — decisões de limitação baseadas em avaliação precoce produzem exatamente o desfecho que previram.
O erro mais grave desta fase é prognosticar cedo demais. Pacientes com bom desfecho neurológico final frequentemente permanecem comatosos por vários dias — e a sedação, os opioides e a disfunção renal ou hepática prolongam esse quadro.

Calculadora — apoio à decisão de término

Fatores prognósticos Apoio, não substituto

Marque os elementos presentes. A ferramenta organiza os fatores que favorecem prolongar e os que favorecem considerar o término, para apoiar uma decisão que continua sendo clínica, compartilhada e contextual.

Favorecem prolongar a reanimação

Favorecem considerar o término

Leitura do conjunto
Nenhum fator marcado
Mantenha a reanimação de alta qualidade e reavalie o conjunto de fatores a cada checagem de ritmo
Ferramenta de apoio à reflexão, não é um escore validado nem autoriza encerrar a reanimação. A decisão deve considerar o contexto completo, envolver a equipe, respeitar a vontade previamente expressa do paciente e, sempre que possível, ser comunicada com clareza à família. Hipotermia e intoxicação exigem reanimação prolongada antes de qualquer decisão.

Depois do evento

  • Comunicação com a família — clara, sem jargão, em ambiente reservado e com tempo para perguntas.
  • Debriefing da equipe — as diretrizes de 2025 acrescentaram recomendações específicas sobre debriefing imediato e tardio após eventos de reanimação.
  • Registro estruturado — horários, ritmos, intervenções, tempo até o primeiro choque e desfecho; é o que permite auditoria e melhoria.
  • Saúde mental dos profissionais — reanimações malsucedidas, sobretudo de crianças e de pacientes jovens, têm impacto real e merecem suporte institucional.
  • Doação de órgãos — considerar e acionar o protocolo institucional quando aplicável.
  • Seguimento dos sobreviventes — reabilitação neurológica, cardiológica e psicológica, com atenção também aos familiares.

Erros comuns

  • Demorar a reconhecer a parada por interpretar o gasping como respiração.
  • Perder tempo checando pulso repetidamente em vez de comprimir.
  • Comprimir superficialmente ou sem permitir o retorno completo do tórax.
  • Comprimir sobre colchão macio, sem superfície firme.
  • Manter o mesmo compressor por muito mais de dois minutos.
  • Pausas longas para intubar, obter acesso ou discutir conduta.
  • Checar o pulso imediatamente após o choque em vez de retomar as compressões.
  • Atrasar a desfibrilação em ritmo chocável enquanto se prepara medicação.
  • Hiperventilar o paciente, reduzindo o retorno venoso.
  • Adiar a adrenalina em ritmo não chocável.
  • Usar bicarbonato, cálcio ou magnésio de rotina, sem indicação específica.
  • Recitar os cinco H e cinco T sem de fato investigar nenhuma das causas.
  • Prolongar o ultrassom e transformar a pausa de checagem em interrupção longa.
  • Encerrar precocemente a reanimação em hipotermia ou intoxicação.
  • Manter FiO₂ de 100% por horas depois do retorno de circulação.
  • Prognosticar desfecho neurológico nas primeiras 24 a 48 horas.

Resumo do fluxo

  1. Reconheça a parada em até 10 segundos e acione a equipe pedindo o desfibrilador.
  2. INICIE COMPRESSÕES IMEDIATAMENTE — superfície firme, 100 a 120 por minuto, 5 a 6 cm, com retorno completo do tórax.
  3. Monitorize assim que o aparelho chegar e classifique o ritmo em chocável ou não chocável.
  4. Ritmo chocável: choque imediato e retomada instantânea das compressões, sem checar pulso.
  5. Ritmo não chocável: mantenha compressões e administre adrenalina o quanto antes.
  6. Obtenha acesso venoso, priorizando a via periférica, sem interromper as compressões.
  7. Considere via aérea avançada apenas se puder ser feita sem pausa relevante; conecte capnografia.
  8. Revise ativamente os cinco H e cinco T a cada checagem de ritmo, com ultrassom dirigido nas pausas.
  9. Troque o compressor a cada 2 minutos e mantenha as pausas abaixo de 10 segundos.
  10. Com retorno de circulação: eletrocardiograma imediato, alvos de oxigenação e pressão, controle de temperatura e investigação da causa.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

  1. Del Rios M, Bartos JA, Panchal AR, et al. Part 1: executive summary: 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation. 2025;152(suppl 2).
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  13. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz de ressuscitação cardiopulmonar e cuidados cardiovasculares de emergência, versões vigentes.

Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais, o treinamento formal em suporte avançado de vida nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, energias e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação.

Informações rápidas

Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.

O essencial

Comprimir bem

100 a 120 por minuto, 5 a 6 cm de profundidade, com retorno completo do tórax e sobre superfície firme. Pausas abaixo de 10 segundos e troca do compressor a cada 2 minutos. A fração de compressão ideal fica acima de 80%.

Desfibrilar cedo

Ritmos chocáveis são fibrilação ventricular e TV sem pulso. Carregue o aparelho durante as compressões, minimize a pausa peri-choque e retome as compressões imediatamente após o choque, sem checar pulso.

Achar a causa

Revise os cinco H e cinco T em voz alta a cada checagem de ritmo, com ultrassom dirigido nas pausas e limitado a 10 segundos. Atividade elétrica sem pulso não é diagnóstico — é um achado que exige explicação.

Cuidar depois

Saturação de 92% a 98%, normocapnia, pressão média acima de 65 mmHg, eletrocardiograma imediato e controle de temperatura por pelo menos 36 horas em quem não responde a comandos. Prognóstico neurológico nunca antes de 72 horas.

Números rápidos

Compressão: 100 a 120 por minuto, 5 a 6 cm, com retorno completo.

Ciclos: trocar o compressor a cada 2 minutos; pausas abaixo de 10 segundos.

Ventilação: 30:2 sem via aérea avançada; 1 a cada 6 segundos com via aérea avançada.

Adrenalina: 1 mg a cada 3 a 5 minutos, precoce nos ritmos não chocáveis.

Pós-parada: controle de temperatura por pelo menos 36 horas.

Não esqueça

Não checar pulso logo após o choque — retome as compressões.

Gasping agônico é sinal de parada, não de respiração preservada.

Atividade elétrica sem pulso quase sempre tem causa tratável.

Hipotermia e intoxicação exigem reanimação prolongada antes de qualquer decisão.

Prognóstico neurológico nunca é definido nas primeiras 24 a 48 horas.

Em provas / residência

A banca cobra as métricas da compressão, a divisão entre ritmos chocáveis e não chocáveis e o momento da adrenalina em cada um deles.

Decore: 100 a 120 por minuto e 5 a 6 cm; adrenalina precoce no não chocável e após o segundo choque no chocável; amiodarona na FV refratária; cesárea perimortem em torno de 4 minutos.

Mais informações nas abas do artigo.

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