Meningite e Encefalite
Duas emergências neurológicas em que o tempo até a primeira dose pesa mais do que qualquer refinamento diagnóstico posterior. Antibiótico e dexametasona na suspeita de meningite bacteriana, aciclovir na suspeita de encefalite — sempre antes do resultado do líquor, e nunca adiados por causa da tomografia.
Não atrasar
- Antibiótico em até 1 hora da suspeita
- Hemocultura antes, mas sem atrasar a droga
- Se a punção for adiada, trate primeiro
- Aciclovir empírico se houver encefalopatia
Diferenciar as duas
- Meningite: febre, cefaleia e rigidez de nuca
- Encefalite: alteração do estado mental
- Déficit focal e crise apontam parênquima
- Meningoencefalite é sobreposição frequente
Líquor bem coletado
- Celularidade, diferencial, proteína e glicose
- Sempre com glicemia sérica pareada
- Gram, cultura, látex e PCR conforme suspeita
- TC antes da PL só em critérios definidos
Depois da porta
- Notificação compulsória imediata
- Isolamento respiratório por 24 horas
- Quimioprofilaxia dos contactantes próximos
- Avaliação auditiva antes da alta
Duas síndromes que se sobrepõem
Meningite é a inflamação das leptomeninges e do espaço subaracnóideo. Domina o quadro a síndrome de irritação meníngea: febre, cefaleia intensa, rigidez de nuca, fotofobia e vômitos, com o nível de consciência tipicamente preservado ou apenas discretamente rebaixado.
Encefalite é a inflamação do parênquima cerebral com disfunção neurológica correspondente. O marcador é a alteração do estado mental — confusão, mudança de personalidade e comportamento, rebaixamento — frequentemente acompanhada de crises epilépticas e de déficits focais.
Na prática, a separação é didática: a maioria dos pacientes graves apresenta algum grau de sobreposição, e falamos em meningoencefalite. O que muda a conduta não é o rótulo, e sim a decisão de cobrir bactéria, vírus, ou ambos, desde a primeira hora.
O que distingue
- Predomínio meníngeo — cefaleia, rigidez de nuca, fotofobia, vômitos, paciente lúcido ou levemente sonolento.
- Predomínio parenquimatoso — confusão, alteração de comportamento e de linguagem, crise epiléptica, déficit focal, movimentos anormais.
- Sinais que apontam encefalite — alucinações, alteração de memória, afasia, hemiparesia e crises de início focal.
- Sinais que apontam bactéria — instalação em horas, toxemia, rash petequial, choque e rebaixamento rápido.
- Sinais que apontam vírus — pródromo viral, quadro mais arrastado, líquor com predomínio linfocitário e glicose normal.
A pergunta prática à beira do leito
Diante de febre com alteração neurológica, três decisões precisam ser tomadas quase simultaneamente, e nenhuma depende do líquor:
- Este paciente pode ter meningite bacteriana? Se sim, antibiótico agora.
- Há encefalopatia associada? Se sim, aciclovir agora.
- Existe critério para tomografia antes da punção? Se sim, colha hemocultura, trate e faça a punção depois.
Nenhum exame — tomografia, líquor, painel molecular — justifica atraso na primeira dose. A coleta de líquor após o antibiótico perde sensibilidade da cultura, mas mantém celularidade, bioquímica e testes moleculares por horas.
Por que a pressa importa
A meningite bacteriana comunitária permanece com letalidade elevada e sequelas frequentes mesmo em serviços bem estruturados. O atraso na antibioticoterapia é um dos poucos fatores prognósticos sob controle direto da equipe.
Antibiótico dentro de 1 hora da suspeita, idealmente ainda na sala de emergência.
Alta na meningite pneumocócica; maior ainda quando há choque ou coma na admissão.
Cerca de um em cada cinco sobreviventes fica com sequela, sendo a perda auditiva a mais comum.
Sem aciclovir, a letalidade é altíssima; com tratamento precoce, cai de forma dramática.
Notificação compulsória imediata e quimioprofilaxia mudam o desfecho de outras pessoas.
Os primeiros 60 minutos
Vias aéreas, oxigenação e perfusão. Choque com rash petequial em paciente jovem é meningococcemia até prova em contrário. Corrija hipoglicemia e trate crises.
Hemoculturas (duas amostras) e exames iniciais. Dexametasona imediatamente antes ou junto da primeira dose do antibiótico. Aciclovir se houver encefalopatia.
Sem critérios para tomografia, faça a punção lombar já. Com critérios, faça a imagem depois de ter tratado — a ordem correta é tratar e depois puncionar.
Agentes bacterianos por faixa etária
A escolha do esquema empírico decorre diretamente desta tabela. Idade, comorbidade e porta de entrada definem quais agentes precisam ser cobertos na primeira dose.
| Grupo | Agentes prováveis | Implicação no esquema empírico |
|---|---|---|
| Neonato (até 1 mês) | Streptococcus agalactiae (grupo B), Escherichia coli e outras enterobactérias, Listeria monocytogenes. | Ampicilina associada a cefotaxima (ou a aminoglicosídeo, conforme o protocolo do serviço). |
| 1 mês a 50 anos | Neisseria meningitidis, Streptococcus pneumoniae; Haemophilus influenzae tipo b em não vacinados. | Ceftriaxona (ou cefotaxima), com vancomicina onde há pneumococo resistente. |
| Acima de 50 anos | Pneumococo, meningococo, Listeria monocytogenes, bacilos gram-negativos aeróbios. | Acrescentar ampicilina para cobrir Listeria. |
| Imunossupressão celular | Listeria, pneumococo, gram-negativos, Cryptococcus, micobactérias. | Ampicilina obrigatória; considerar cobertura antipseudomonas e investigação fúngica. |
| Gestante | Mesmo perfil do adulto, com risco aumentado de Listeria. | Incluir ampicilina; evitar quinolonas. |
| TCE, neurocirurgia, derivação | Staphylococcus aureus, estafilococos coagulase-negativos, gram-negativos incluindo Pseudomonas. | Vancomicina associada a betalactâmico antipseudomonas (cefepima, ceftazidima ou meropenem). |
| Fístula liquórica / fratura de base | Pneumococo predominante, além de H. influenzae e estreptococos beta-hemolíticos. | Cefalosporina de terceira geração associada a vancomicina. |
Etiologias não bacterianas
Enterovírus são a causa mais comum, seguidos de herpes-vírus, arbovírus e primoinfecção pelo HIV. Curso geralmente benigno e autolimitado, com líquor linfocitário e glicose normal.
Herpes simples tipo 1 é a causa esporádica tratável mais importante. Também enterovírus, varicela-zóster, arbovírus e, no Brasil, arboviroses regionais como dengue, zika, chikungunya e febre do Nilo Ocidental em áreas específicas.
Instalação subaguda ao longo de semanas, com paralisia de nervos cranianos, hidrocefalia e vasculite. Líquor linfocitário com glicose baixa e proteína muito elevada.
Cryptococcus neoformans em imunossuprimidos, sobretudo HIV com contagem baixa de CD4: cefaleia arrastada, hipertensão intracraniana importante e tinta da China ou antígeno criptocócico positivo.
Anticorpo antirreceptor NMDA e outros: quadro subagudo com sintomas psiquiátricos, discinesias, disautonomia e crises. Pode surgir após encefalite herpética.
Medicamentosa (anti-inflamatórios, sulfas, imunoglobulina), neoplásica (carcinomatose meníngea) e doenças autoimunes sistêmicas. Diagnóstico de exclusão, após afastar infecção.
Pistas epidemiológicas que mudam a conduta
- Aglomeração e surto — alojamento coletivo, quartel e escola aumentam a probabilidade de meningococo e disparam a investigação de contactantes.
- Rash petequial ou purpúrico — meningococcemia; a evolução para choque pode ocorrer em poucas horas.
- Otite, sinusite ou pneumonia recente — porta de entrada pneumocócica; procure também abscesso e empiema subdural.
- Etilismo, esplenectomia, mieloma e HIV — risco elevado de pneumococo e de agentes oportunistas.
- Contato com tuberculose ou HIV avançado — considere tuberculose meníngea e criptococose desde o início.
- Viagem, área rural e exposição a vetores — arboviroses; conheça a sazonalidade da sua região.
- Mordedura de animal ou contato com morcegos — raiva, que é encefalite sem tratamento específico e com quase 100% de letalidade.
- Neurocirurgia, derivação ventricular ou trauma recente — perfil hospitalar, com necessidade de cobertura para estafilococo e gram-negativos.
Quadro clínico
Sugere meningite
- Febre com cefaleia holocraniana intensa e de instalação rápida.
- Rigidez de nuca, fotofobia, náuseas e vômitos.
- Sinais de Kernig e de Brudzinski — específicos, porém pouco sensíveis.
- Rash petequial ou purpúrico, sugestivo de meningococo.
- Nível de consciência preservado ou pouco alterado nas fases iniciais.
Sugere encefalite
- Alteração do estado mental por 24 horas ou mais, sem outra causa.
- Mudança de personalidade, comportamento bizarro e alucinações.
- Crises epilépticas, sobretudo de início focal.
- Déficits focais: afasia, hemiparesia e alteração de campo visual.
- Movimentos anormais e disautonomia, que sugerem causa autoimune.
Exames iniciais
- Duas hemoculturas antes do antibiótico — positivas em boa parte dos casos e podem salvar o diagnóstico quando a cultura do líquor já foi esterilizada.
- Hemograma, PCR, lactato, função renal e hepática, eletrólitos e coagulograma — o coagulograma também orienta a segurança da punção.
- Glicemia sérica pareada colhida próxima ao momento da punção: sem ela, a glicose liquórica é ininterpretável.
- Gasometria e lactato em quem tem sinais de sepse ou choque.
- Sorologia para HIV, com consentimento, em todo caso de meningite ou encefalite sem causa definida.
- Tomografia de crânio apenas nas indicações listadas abaixo — e nunca como pré-requisito universal.
- Ressonância magnética na suspeita de encefalite: é o exame de escolha e pode mostrar alterações em lobos temporais e sistema límbico.
- Eletroencefalograma na encefalite e no rebaixamento inexplicado, para detectar crise não convulsiva e padrões sugestivos.
Calculadora — preciso de tomografia antes da punção?
Marque o que estiver presente. A ausência de todos os critérios permite puncionar sem imagem prévia. A presença de qualquer um indica tomografia antes — e, nesse caso, hemocultura, dexametasona e antibiótico vêm antes da imagem.
Diagnósticos diferenciais
| Condição | Como diferenciar | Conduta |
|---|---|---|
| Hemorragia subaracnóidea | Cefaleia súbita e explosiva, no auge desde o início, com rigidez de nuca e sem febre nas primeiras horas. | Tomografia sem contraste; se negativa e a suspeita persistir, punção com pesquisa de xantocromia. |
| Abscesso cerebral e empiema subdural | Febre com déficit focal e sinais de efeito de massa; foco parameníngeo como otite ou sinusite. | Imagem com contraste antes da punção; tratamento antimicrobiano prolongado e avaliação neurocirúrgica. |
| Sepse com encefalopatia | Foco infeccioso extracraniano evidente, sem síndrome meníngea nem déficit focal. | Tratar o foco; se houver dúvida, o líquor resolve — na dúvida real, cubra também o sistema nervoso central. |
| Estado de mal não convulsivo | Rebaixamento flutuante, automatismos e desvio ocular, sem explicação sistêmica. | Eletroencefalograma; tratamento antiepiléptico específico. |
| Encefalopatias metabólicas e tóxicas | Hepática, urêmica, hiponatrêmica, hipoglicêmica, intoxicações e síndrome serotoninérgica. | Exames laboratoriais dirigidos e correção; lembrar que também são causas de crise epiléptica. |
| Enxaqueca com meningismo | História prévia semelhante, ausência de febre e de toxemia, exame neurológico normal. | Diagnóstico de exclusão — na primeira apresentação com febre, investigue. |
| Trombose venosa cerebral | Cefaleia progressiva, crises, déficits que não respeitam território arterial, fatores pró-trombóticos. | Angiorressonância ou angiotomografia venosa; anticoagulação. |
O que pedir na punção
A punção lombar continua sendo o exame que fecha o diagnóstico. Colha em três a quatro frascos e distribua os pedidos de forma que nenhuma amostra seja desperdiçada.
- Pressão de abertura — com o paciente em decúbito lateral e pernas estendidas; valores muito elevados sugerem criptococose, tuberculose ou hipertensão intracraniana.
- Citologia global e diferencial — número de células e predomínio de neutrófilos ou linfócitos.
- Bioquímica — proteína e glicose, esta última sempre com glicemia sérica pareada.
- Bacterioscopia pelo Gram e cultura — o Gram é rápido e razoavelmente sensível na meningite bacteriana não tratada.
- Látex ou teste imunocromatográfico — útil quando o antibiótico já foi iniciado.
- PCR ou painel molecular — herpes simples, enterovírus, meningococo, pneumococo e outros, conforme disponibilidade.
- Pesquisa de BAAR, cultura para micobactérias e teste molecular rápido quando houver suspeita de tuberculose.
- Tinta da China e antígeno criptocócico em imunossuprimidos.
- Lactato liquórico, quando disponível, ajuda a separar padrão bacteriano de viral.
Padrões liquóricos típicos
| Parâmetro | Normal | Bacteriana | Viral | Tuberculosa / fúngica |
|---|---|---|---|---|
| Aspecto | Límpido | Turvo ou purulento | Límpido | Límpido ou opalescente |
| Células (por mm³) | Até 5 | Habitualmente acima de 1000 | De 10 a 500 | De 50 a 500 |
| Predomínio | Linfócitos | Neutrófilos | Linfócitos (neutrófilos nas primeiras horas) | Linfócitos |
| Proteína (mg/dL) | De 15 a 45 | Elevada, frequentemente acima de 100 | Normal ou pouco elevada | Muito elevada, podendo passar de 200 |
| Glicose | Relação com o soro em torno de 0,6 | Baixa, com relação abaixo de 0,4 | Normal | Baixa |
| Lactato | Abaixo de 2,1 mmol/L | Habitualmente 3,5 mmol/L ou mais | Normal ou pouco elevado | Elevado |
Calculadora — interpretação do líquor
Preencha os valores do resultado. A leitura sugere o padrão mais provável, sempre subordinada ao quadro clínico e ao uso prévio de antibiótico.
Calculadora — Bacterial Meningitis Score
Escore de Nigrovic, validado em crianças com pleocitose liquórica para estimar risco de meningite bacteriana. Não se aplica a menores de 29 dias, a pacientes criticamente enfermos, imunossuprimidos, com uso recente de antibiótico, portadores de derivação ventricular ou com púrpura.
Sequência de abordagem
O tratamento empírico é iniciado pela suspeita clínica. Todo o restante — imagem, líquor, painel molecular — serve para refinar depois, nunca para autorizar a primeira dose.
- Reconheça a suspeita e estabilize: via aérea, oxigenação, perfusão, glicemia e controle de crises.
- Colha duas hemoculturas e os exames iniciais — sem que isso consuma mais do que poucos minutos.
- Aplique os critérios para tomografia antes da punção. Sem critérios, puncione agora.
- SE A PUNÇÃO FOR ADIADA por qualquer motivo, administre dexametasona e antibiótico IMEDIATAMENTE, antes da imagem.
- Dexametasona logo antes ou junto da primeira dose do antibiótico — depois disso, o benefício se perde.
- Antibiótico empírico conforme idade, comorbidade e porta de entrada, com dose plena para o sistema nervoso central.
- Acrescente aciclovir se houver encefalopatia, crise epiléptica ou déficit focal sugerindo encefalite.
- Reavalie em 24 a 48 horas com o resultado das culturas: descale, ajuste ou suspenda de forma deliberada.
Esquema empírico do adulto
| Cenário | Esquema | Racional |
|---|---|---|
| Adulto até 50 anos, imunocompetente | Ceftriaxona associada a vancomicina. | Cobertura de meningococo e pneumococo, incluindo cepas com sensibilidade reduzida. |
| Acima de 50 anos, gestante, etilista ou imunossuprimido | Ceftriaxona, vancomicina e ampicilina. | A ampicilina cobre Listeria monocytogenes, que não responde a cefalosporina. |
| Alergia grave a betalactâmico | Vancomicina associada a moxifloxacino; sulfametoxazol-trimetoprima no lugar da ampicilina para Listeria. | Discuta com a infectologia — as alternativas têm penetração e evidência menos robustas. |
| Pós-neurocirurgia, derivação ou trauma penetrante | Vancomicina associada a cefepima, ceftazidima ou meropenem. | Cobre estafilococo e gram-negativos incluindo Pseudomonas; avalie retirada do dispositivo. |
| Suspeita de encefalite | Acrescentar aciclovir ao esquema antibacteriano. | Herpes simples é a causa tratável mais importante e o atraso piora o prognóstico. |
Calculadora — doses por peso
As doses para infecção do sistema nervoso central são mais altas do que as habituais, pela barreira hematoencefálica. Informe o peso e o cenário para ver o esquema calculado.
Dexametasona: quando e como
Usar
- Suspeita de meningite bacteriana comunitária em adulto.
- Criança com suspeita de meningite por Haemophilus influenzae tipo b.
- Sempre imediatamente antes ou junto da primeira dose do antibiótico.
- Manter por 4 dias se for confirmado pneumococo ou Haemophilus.
Suspender ou não iniciar
- Quando o antibiótico já foi administrado horas antes — o benefício depende do momento.
- Se for identificada etiologia sem benefício demonstrado, como meningococo, conforme o protocolo local.
- Se o diagnóstico final for meningite viral não complicada.
- Na meningite associada a derivação ou pós-neurocirúrgica, em que não há evidência de benefício.
Duração do tratamento
| Agente | Duração usual | Observação |
|---|---|---|
| Neisseria meningitidis | 7 dias | Resposta habitualmente rápida. |
| Haemophilus influenzae | 7 dias | Verificar produção de betalactamase. |
| Streptococcus pneumoniae | 10 a 14 dias | Ajustar conforme sensibilidade e evolução. |
| Streptococcus agalactiae | 14 a 21 dias | Comum no neonato. |
| Listeria monocytogenes | 21 dias ou mais | Considerar associação com gentamicina. |
| Bacilos gram-negativos aeróbios | 21 dias | Frequente no perfil hospitalar. |
| Encefalite por herpes simples | 14 a 21 dias | Aciclovir intravenoso; considerar PCR de controle. |
| Tuberculose meníngea | 12 meses | Esquema conforme o Ministério da Saúde, com corticoide associado. |
Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, alvo e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional, a função renal e a apresentação disponível no seu serviço.
Antimicrobianos empíricos
Doses de meningite, mais altas do que as habituais, pela necessidade de concentração adequada no líquor mesmo com meninge pouco inflamada.
Adjuvantes e etiologias específicas
Corticoide como adjuvante, antiviral empírico e os esquemas dirigidos que mudam completamente quando o agente é micobactéria ou fungo.
Quando pensar em encefalite
O critério maior é alteração do estado mental por 24 horas ou mais — rebaixamento, letargia ou mudança de personalidade — sem causa alternativa identificada. A partir daí, critérios menores aumentam a probabilidade.
- Febre documentada de 38 °C ou mais nas 72 horas anteriores ou posteriores ao início.
- Crise epiléptica generalizada ou focal não atribuível a epilepsia prévia.
- Novo achado neurológico focal ao exame.
- Pleocitose liquórica, geralmente linfocitária.
- Alteração de neuroimagem sugestiva de acometimento parenquimatoso, sobretudo em lobos temporais.
- Alteração eletroencefalográfica compatível, não explicada por outra causa.
Encefalite herpética
É a causa esporádica tratável mais importante, em qualquer idade e sem sazonalidade. O acometimento preferencial é do lobo temporal e do sistema límbico, o que explica o quadro.
- Clínica — febre, cefaleia, alteração de comportamento, alucinações olfativas ou gustativas, afasia, alteração de memória e crises focais.
- Líquor — pleocitose linfocitária, proteína pouco elevada, glicose normal; pode haver hemácias pela natureza necrótico-hemorrágica.
- PCR para herpes simples — exame de escolha, com sensibilidade alta a partir das primeiras 24 a 48 horas.
- Ressonância — hipersinal em lobo temporal medial, ínsula e giro do cíngulo, tipicamente assimétrico.
- Eletroencefalograma — lentificação focal temporal e descargas epileptiformes lateralizadas periódicas.
Armadilhas do PCR
Um resultado negativo colhido muito precocemente, nas primeiras 24 a 72 horas, não afasta o diagnóstico. Se a suspeita permanecer alta, mantenha o aciclovir e repita a coleta em 3 a 7 dias, sobretudo quando a imagem mostra alteração temporal.
Considere a suspensão quando o PCR for negativo em amostra colhida após as primeiras 72 horas de sintomas, com ressonância sem alteração sugestiva, quadro clínico alternativo explicado e evolução favorável. Fora dessa combinação, mantenha a droga.
Encefalite autoimune
Cada vez mais reconhecida, sobretudo em jovens. A apresentação subaguda, ao longo de semanas, com sintomas psiquiátricos proeminentes, costuma passar pelo psiquiatra antes de chegar ao neurologista.
Sintomas psiquiátricos, alteração de memória, crises, discinesias orofaciais, disautonomia e hipoventilação. Buscar teratoma de ovário e outras neoplasias.
Alteração subaguda de memória, crises temporais e alteração de humor, com hipersinal límbico bilateral na ressonância. Anticorpos como LGI1 e CASPR2.
Recaída após encefalite herpética tratada, com PCR negativo e novo quadro comportamental ou discinético: pensar em anticorpo anti-NMDA secundário.
Imunoterapia de primeira linha com corticoide, imunoglobulina e plasmaférese; rituximabe e ciclofosfamida como segunda linha, além do tratamento do tumor associado.
Suporte na terapia intensiva
- Via aérea — indicação precoce de intubação em rebaixamento importante, com risco de broncoaspiração.
- Crises epilépticas — tratamento agressivo; eletroencefalograma contínuo quando houver rebaixamento desproporcional.
- Hipertensão intracraniana — cabeceira elevada, normocapnia, controle de temperatura e avaliação neurocirúrgica quando há hidrocefalia.
- Sódio — hiponatremia é frequente, por secreção inapropriada de hormônio antidiurético ou por perda cerebral de sal, com manejos opostos.
- Glicemia, temperatura e oxigenação — evitar hipoglicemia, febre e hipoxemia, todas associadas a lesão secundária.
- Reabilitação precoce — sequelas cognitivas e de linguagem são frequentes, e a fonoaudiologia e a terapia ocupacional devem entrar cedo.
Notificação e isolamento
- Notificação compulsória imediata — meningite de qualquer etiologia é de notificação obrigatória, e o caso suspeito de doença meningocócica deve ser comunicado à vigilância epidemiológica em até 24 horas.
- Precaução para gotículas — manter por 24 horas após o início do antibiótico eficaz na suspeita de meningococo ou de Haemophilus influenzae.
- Máscara cirúrgica para a equipe durante procedimentos com contato próximo, inclusive na intubação e na aspiração.
- Investigação de contactantes — a vigilância define o bloqueio e a extensão da quimioprofilaxia.
- Avaliação auditiva antes ou logo após a alta em todo caso de meningite bacteriana, especialmente na criança.
- Vacinação — atualizar o calendário e considerar vacina pneumocócica e meningocócica conforme indicação, sobretudo em asplênicos e imunossuprimidos.
Quimioprofilaxia de contactantes
Indicada nos casos de doença meningocócica e de Haemophilus influenzae tipo b, para contatos íntimos e prolongados nos 7 dias anteriores ao início dos sintomas do caso. Deve ser feita o mais precocemente possível, idealmente em até 48 horas.
| Situação | Quem recebe | Opções habituais |
|---|---|---|
| Doença meningocócica | Moradores do mesmo domicílio, contatos íntimos, colegas de creche e de alojamento, e quem teve contato direto com secreções respiratórias. | Rifampicina por 2 dias; ceftriaxona intramuscular em dose única (opção na gestante); ciprofloxacino em dose única para adultos. |
| Profissional de saúde | Apenas quem realizou manobras com exposição direta a secreções sem proteção, como intubação, aspiração e ventilação com máscara. | Mesmos esquemas; a simples assistência ao paciente não indica profilaxia. |
| Haemophilus influenzae tipo b | Domiciliares quando há criança menor de 4 anos não vacinada ou imunossuprimido no domicílio. | Rifampicina por 4 dias, conforme a orientação da vigilância. |
| Pneumococo e demais agentes | Não há indicação de quimioprofilaxia de contactantes. | Reforçar vacinação quando indicada. |
Complicações a antecipar
Sequela mais comum na criança. A dexametasona precoce reduz o risco, e a avaliação audiológica precisa ser programada antes da alta.
Mais frequente na tuberculose e na criptococose. Considere derivação e punções de alívio conforme o caso.
Comuns no pneumococo e na encefalite herpética; tratar de forma agressiva e investigar crise não convulsiva no rebaixamento inexplicado.
Por secreção inapropriada de hormônio antidiurético ou por perda cerebral de sal; o tratamento é oposto nos dois casos, e a volemia é a chave.
Suspeite diante de febre persistente, novo déficit ou má resposta em 48 a 72 horas; peça imagem com contraste.
Típicos da meningococcemia, com púrpura fulminante e necrose de extremidades; suporte hemodinâmico imediato.
Erros comuns
- Esperar a tomografia para iniciar o antibiótico.
- Esperar o resultado do líquor para iniciar o antibiótico.
- Exigir a tríade clássica completa antes de suspeitar de meningite.
- Esquecer a dexametasona ou administrá-la horas depois do antibiótico.
- Omitir a ampicilina em paciente acima de 50 anos, gestante ou imunossuprimido.
- Usar dose de antibiótico não meníngea, insuficiente para o sistema nervoso central.
- Não colher glicemia sérica pareada e ficar sem interpretar a glicose do líquor.
- Não iniciar aciclovir em paciente com encefalopatia febril.
- Suspender o aciclovir por um único PCR negativo colhido muito precocemente.
- Chamar de "meningite viral" todo líquor linfocitário, sem considerar tuberculose, fungo, sífilis e tratamento antibiótico prévio.
- Não notificar o caso nem acionar a vigilância epidemiológica.
- Prescrever quimioprofilaxia a toda a equipe do plantão, sem critério de exposição.
- Dar alta sem programar avaliação auditiva e seguimento neurológico.
Resumo do fluxo
- Suspeitou de meningite ou encefalite: acione o time, monitorize e garanta acesso venoso.
- Colha duas hemoculturas e os exames iniciais, incluindo glicemia sérica.
- Verifique os critérios para tomografia antes da punção.
- DEXAMETASONA E ANTIBIÓTICO EM ATÉ 1 HORA — antes da imagem se a punção for adiada.
- Acrescente aciclovir se houver encefalopatia, crise ou déficit focal.
- Puncione assim que for seguro e envie citologia, bioquímica, Gram, cultura e biologia molecular.
- Ajuste o esquema com o resultado do líquor e das culturas, definindo a duração pelo agente.
- Notifique o caso, mantenha precaução de gotículas por 24 horas e organize a quimioprofilaxia dos contactantes.
- Antes da alta: avaliação auditiva, seguimento neurológico e atualização vacinal.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço, as normas da vigilância epidemiológica e as bulas vigentes.
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- Ministério da Saúde (Brasil). Manual de recomendações para o controle da tuberculose no Brasil, seção de tuberculose meníngea.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, escalas e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação.
Informações rápidas
Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Não atrasar
Antibiótico em até 1 hora da suspeita. Colha hemocultura antes, mas sem atrasar a droga. Se a punção for adiada por qualquer motivo, trate primeiro e puncione depois. Acrescente aciclovir sempre que houver encefalopatia.
Diferenciar as duas
Na meningite predominam febre, cefaleia e rigidez de nuca, com consciência preservada. Na encefalite predomina a alteração do estado mental, com crises e déficits focais. A sobreposição é frequente e recebe o nome de meningoencefalite.
Líquor bem coletado
Peça celularidade com diferencial, proteína e glicose — sempre com glicemia sérica pareada —, Gram, cultura, látex e biologia molecular conforme a suspeita. A tomografia antes da punção só é necessária diante de critérios definidos.
Depois da porta
Notificação compulsória imediata, precaução para gotículas por 24 horas, quimioprofilaxia dos contactantes próximos no meningococo e no Haemophilus tipo b, e avaliação auditiva antes da alta.
Números rápidos
Janela terapêutica: antibiótico em até 1 hora da suspeita.
Dexametasona: 0,15 mg/kg a cada 6 horas por 4 dias, antes ou junto do antibiótico.
Aciclovir: 10 mg/kg a cada 8 horas, por 14 a 21 dias na encefalite herpética.
Líquor bacteriano: neutrofílico, proteína alta, relação de glicose abaixo de 0,4 e lactato de 3,5 mmol/L ou mais.
Isolamento: precaução para gotículas por 24 horas após o antibiótico eficaz.
Não esqueça
Tomografia nunca justifica atrasar o antibiótico.
Ampicilina acima de 50 anos, na gestante e no imunossuprimido.
Aciclovir empírico em toda encefalopatia febril.
Glicemia sérica pareada junto com a punção.
Notificação imediata e quimioprofilaxia dos contactantes.
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Em provas / residência
A banca cobra a sequência hemocultura, dexametasona, antibiótico, tomografia e punção, além dos critérios de imagem antes da punção.
Decore: ampicilina acima de 50 anos pela Listeria; dexametasona antes ou junto do antibiótico; aciclovir empírico na encefalite; líquor bacteriano com glicose baixa e neutrófilos.
