Intubação Orotraqueal
Cerca de 4 em cada 10 intubações de pacientes críticos cursam com hipoxemia, hipotensão ou parada cardíaca. A diferença entre um procedimento tranquilo e uma catástrofe raramente está na laringoscopia — está no que se faz antes dela: reconhecer a via aérea difícil, pré-oxigenar direito e corrigir a hemodinâmica antes de induzir.
Decidir intubar
- Falência de oxigenação ou de ventilação
- Proteção de via aérea comprometida
- Curso clínico previsível de deterioração
- Intubar cedo é melhor que intubar em parada
Prever a dificuldade
- Anatômica: MACOCHA e LEMON
- Fisiológica: hipoxemia, choque e acidose
- Plano A, B, C e D definidos em voz alta
- O paciente fisiologicamente difícil é a regra
Pré-oxigenar
- VNI reduz hipoxemia pela metade
- Oxigenação apneica com cateter nasal
- Cabeceira elevada a 30 graus
- Ventilar com bolsa-válvula-máscara é permitido
Confirmar e cuidar
- Capnografia em onda é o padrão-ouro
- Ventilação protetora desde o primeiro minuto
- Sedação e analgesia imediatas
- Hipotensão pós-indução é esperada e tratável
A intubação do paciente crítico é outra coisa
Intubar no centro cirúrgico e intubar na emergência ou na terapia intensiva são procedimentos com o mesmo gesto técnico e riscos completamente diferentes. No ambiente eletivo, a taxa de complicações graves é da ordem de 2%; no paciente crítico, aproximadamente 40% apresentam hipoxemia, hipotensão ou parada cardíaca no período periprocedimento.
A razão é simples: o paciente crítico chega sem reserva. Não tem reserva de oxigênio, porque já está hipoxêmico; não tem reserva hemodinâmica, porque já está vasodilatado ou hipovolêmico; e frequentemente compensa uma acidose com hiperventilação que a apneia da indução interrompe. A sequência rápida transforma essas três fragilidades em risco imediato.
Indicações
As indicações clássicas se organizam em quatro perguntas objetivas. Responder "sim" a qualquer uma delas indica via aérea definitiva.
Hipoxemia refratária apesar de oxigênio em alto fluxo ou ventilação não invasiva, com sinais de esforço e de fadiga.
Hipercapnia com acidose respiratória progressiva, rebaixamento associado ou fadiga da musculatura respiratória.
Rebaixamento do nível de consciência com perda de reflexos, sangramento, vômitos, trauma de face ou pescoço, queimadura de via aérea e anafilaxia com edema.
Paciente que ainda compensa, mas cuja deterioração é previsível: sepse em progressão, intoxicação com rebaixamento crescente, necessidade de transporte ou de procedimento prolongado.
Antes de decidir: existe alternativa?
Vale tentar primeiro
- Ventilação não invasiva no edema agudo cardiogênico e na exacerbação de doença pulmonar obstrutiva crônica — cenários em que a evidência é robusta.
- Cateter nasal de alto fluxo na insuficiência respiratória hipoxêmica.
- Reversão específica — naloxona em intoxicação por opioide, glicose na hipoglicemia, broncodilatador na crise asmática.
- Otimização hemodinâmica em choque, que às vezes reverte a taquipneia compensatória.
Não insistir
- Ventilação não invasiva em paciente que não protege a via aérea ou que vomita.
- Tentativa prolongada em quem já mostra fadiga franca — o atraso encurta a janela segura.
- Cateter de alto fluxo em quem tem hipercapnia progressiva com rebaixamento.
- "Mais alguns minutos" repetidos sem reavaliação objetiva.
A conversa que precede o procedimento
- Metas de cuidado — em doença avançada, verifique diretivas antecipadas e converse com o paciente enquanto ele ainda pode decidir. Intubar sem essa conversa é uma decisão irreversível tomada por omissão.
- Consentimento possível — no paciente lúcido, explique brevemente o que vai acontecer; leva segundos e reduz o sofrimento.
- Comunicação com a família quando o tempo permitir, sobretudo se a chance de extubação for baixa.
- Registro da indicação, do plano de via aérea e das dificuldades encontradas — informação essencial para quem for extubar ou reintubar depois.
Calculadora prática de doses e diluições
Este artigo é a referência completa: indicações, avaliação da via aérea, pré-oxigenação, técnica, confirmação e manejo da falha. Para o cálculo rápido à beira do leito — doses por peso, diluições, sequência e tempos —, use a calculadora prática de intubação do MedFoco, desenhada para consulta em segundos durante o procedimento.
Dois tipos de dificuldade
Dificuldade anatômica
A que se aprende primeiro: abertura bucal reduzida, pescoço curto, mobilidade cervical limitada, Mallampati alto, obesidade, massa cervical, trauma de face, radioterapia prévia. Prevista pelos escores clássicos e resolvida com equipamento e técnica.
Dificuldade fisiológica
A que mais mata: hipoxemia grave, choque, acidose metabólica intensa, falência de ventrículo direito. A laringoscopia é fácil, mas o paciente não tolera a apneia, a indução ou a pressão positiva. Resolvida com otimização prévia, não com um laringoscópio melhor.
Calculadora — escore MACOCHA
Escore desenvolvido e validado especificamente para prever intubação difícil no paciente crítico, ao contrário dos escores de origem anestésica. Varia de 0 a 12 pontos; valores de 3 ou mais identificam risco elevado.
Fatores do paciente
Fatores da doença
Fator do operador
Avaliação anatômica — regra LEMON
| Letra | Elemento | O que avaliar |
|---|---|---|
| L | Look — olhar externamente | Trauma de face, barba densa, dentes proeminentes, língua grande, pescoço curto e largo, massas cervicais. |
| E | Evaluate — regra 3-3-2 | Três dedos de abertura bucal, três dedos entre mento e osso hioide, dois dedos entre hioide e cartilagem tireoide. |
| M | Mallampati | Classes III e IV indicam visualização faríngea limitada; difícil de aplicar no paciente crítico não colaborativo. |
| O | Obstruction — obstrução | Estridor, disfonia, edema, abscesso, corpo estranho, tumor, hematoma cervical, queimadura de via aérea. |
| N | Neck — mobilidade cervical | Artrite, espondilite, colar cervical, imobilização por trauma e cirurgia cervical prévia. |
Os três matadores fisiológicos
Reserva mínima: a dessaturação ocorre em segundos após a apneia. Exige pré-oxigenação com pressão positiva, oxigenação apneica e, por vezes, abordagem acordada.
A indução vasodilata e a pressão positiva reduz o retorno venoso. Otimize volume e tenha vasopressor pronto antes de induzir.
O paciente compensa com ventilação-minuto altíssima. A apneia interrompe essa compensação e o pH despenca — planeje apneia mínima e ventilação vigorosa após o tubo.
Hipoxemia, hipercapnia e pressão positiva aumentam a pós-carga do ventrículo direito e podem precipitar colapso. Considere vasopressor e volume com cautela extrema.
Cenários especiais
| Cenário | Risco principal | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Choque séptico | Colapso hemodinâmico pós-indução, que pode evoluir para parada. | Volume e vasopressor antes; preferir cetamina ou etomidato, com dose reduzida de indutor; vasopressor em bolus preparado. |
| Acidose metabólica grave | Queda abrupta do pH durante a apneia. | Minimizar tempo de apneia, considerar ventilação com bolsa entre indução e laringoscopia, e ajustar o ventilador para alta ventilação-minuto logo após. |
| Crise asmática grave | Hiperinsuflação dinâmica, hipotensão e barotrauma. | Cetamina como indutor, tubo calibroso, frequência baixa com tempo expiratório longo; desconectar do ventilador se houver hipotensão súbita. |
| Hipertensão intracraniana | Picos pressóricos e hipotensão, ambos deletérios para a perfusão cerebral. | Manter pressão de perfusão, evitar hipoxemia e hipercapnia, considerar dose adequada de indutor e evitar tosse. |
| Trauma com suspeita cervical | Lesão medular secundária e via aérea distorcida. | Estabilização manual alinhada com abertura anterior do colar, videolaringoscopia e material de resgate cirúrgico pronto. |
| Obesidade | Dessaturação rápida e ventilação difícil com máscara. | Posição em rampa com meato acústico alinhado ao esterno, pré-oxigenação com VNI e doses calculadas conforme a droga. |
| Gestante | Dessaturação acelerada, edema de via aérea e risco de aspiração. | Deslocamento uterino à esquerda, tubo de menor calibre, pré-oxigenação otimizada e operador mais experiente. |
| Hemorragia digestiva ou vômitos | Aspiração maciça e visão obscurecida. | Aspiração potente e testada, considerar duas aspirações, técnica de aspiração contínua durante a laringoscopia e cabeceira elevada. |
Os sete passos da sequência rápida
A sequência rápida de intubação é tradicionalmente organizada em sete etapas. O valor do modelo não está na memorização, e sim em garantir que nada essencial seja pulado sob pressão de tempo.
- Preparação — material, equipe, monitorização, acesso venoso, drogas aspiradas e identificadas, plano verbalizado.
- Pré-oxigenação — idealmente com ventilação não invasiva, por pelo menos 3 minutos, com cabeceira elevada.
- Pré-otimização — corrigir hipotensão, hipovolemia e, quando possível, a acidose; vasopressor preparado.
- Paralisia com indução — indutor seguido imediatamente do bloqueador neuromuscular, em doses ajustadas ao estado hemodinâmico.
- Posicionamento — alinhamento do meato acústico externo com o esterno, em rampa nos obesos.
- Passagem do tubo com confirmação — laringoscopia, passagem sob visão, insuflação do balonete e capnografia em onda.
- Pós-intubação — fixação, ventilação protetora, sedação e analgesia, radiografia e reavaliação hemodinâmica.
Checklist de material
Via aérea
- Videolaringoscópio testado e lâmina adequada; laringoscópio direto como reserva.
- Dois tubos: o escolhido e um meio número menor, com balonete testado.
- Bougie ao alcance da mão — não guardado na gaveta.
- Dispositivo supraglótico de tamanho apropriado, já aberto.
- Cânula orofaríngea e nasofaríngea.
- Bolsa-válvula-máscara com reservatório e válvula de PEEP.
- Aspiração potente, testada e posicionada à direita do operador.
- Material de cricotireoidostomia aberto e visível nos casos de risco.
Fármacos e monitorização
- Indutor e bloqueador aspirados, rotulados e com dose conferida em voz alta.
- Vasopressor em bolus preparado e vasopressor em infusão disponível.
- Cristaloide conectado e correndo, se indicado.
- Sedação e analgesia pós-intubação já preparadas.
- Monitor com oximetria, pressão arterial em ciclos curtos e eletrocardiograma.
- Capnografia em onda conectada e testada antes da indução.
- Ventilador testado, com parâmetros iniciais já programados.
- Dois acessos venosos funcionantes, quando possível.
Equipe e papéis definidos
- Operador principal — realiza a laringoscopia; idealmente o mais experiente disponível nos casos de risco.
- Segundo profissional — monitoriza sinais vitais em voz alta, entrega o bougie e assume o resgate se necessário.
- Responsável pelas drogas — administra e confirma em voz alta o que foi injetado e quando.
- Responsável pela via aérea de resgate — nos casos de alto risco, alguém com o material cirúrgico preparado.
- Briefing de 30 segundos — diga em voz alta: indicação, plano A, plano B, plano C e o gatilho para mudar de plano.
- Verbalização contínua — saturação, pressão e tempo de tentativa anunciados sem que ninguém precise perguntar.
"Vamos intubar por insuficiência respiratória. Plano A é videolaringoscopia com bougie. Se falhar, plano B é máscara laríngea. Se falhar, plano C é cricotireoidostomia, e o material está aqui. Aviso a saturação a cada 15 segundos. Se cair abaixo de 90%, eu interrompo e ventilamos."
Planos A, B, C e D
| Plano | Ação | Quando mudar |
|---|---|---|
| A | Laringoscopia — preferencialmente videolaringoscopia, com bougie disponível. | Após duas tentativas do mesmo operador sem sucesso, ou dessaturação durante a tentativa. |
| B | Otimizar e trocar: outro operador, outra lâmina, reposicionar, manipulação laríngea externa, bougie. | Falha após otimização máxima ou impossibilidade de manter saturação. |
| C | Dispositivo supraglótico — máscara laríngea de segunda geração para oxigenar e ventilar. | Se não oxigenar adequadamente após duas tentativas de posicionamento. |
| D | Via aérea cirúrgica — cricotireoidostomia. | Cenário de "não intubo, não oxigeno" — a decisão precisa ser declarada em voz alta e executada sem hesitação. |
Posicionamento
- Alinhamento auditivo-esternal — meato acústico externo na mesma altura do manúbrio esternal, com a face paralela ao teto.
- Coxim occipital no adulto de biotipo normal; no obeso, use rampa com coxins sob tronco, ombros e cabeça.
- Cabeceira elevada a 25 a 30 graus — melhora a capacidade residual funcional, prolonga o tempo até a dessaturação e reduz a regurgitação.
- Altura da maca ajustada: o rosto do paciente na altura do apêndice xifoide do operador.
- Criança pequena — coxim sob os ombros, pela proeminência occipital.
- Trauma cervical — estabilização manual alinhada, com a parte anterior do colar aberta para permitir abertura bucal.
Por que pré-oxigenar muda tudo
Pré-oxigenar é substituir o nitrogênio da capacidade residual funcional por oxigênio, criando um reservatório que sustenta o paciente durante a apneia. No indivíduo saudável, esse reservatório dá vários minutos. No paciente crítico com shunt, consumo elevado e capacidade residual reduzida, pode dar menos de um minuto.
| Estratégia | Como fazer | Quando preferir |
|---|---|---|
| Ventilação não invasiva | Máscara bem acoplada, FiO₂ de 100%, pressão expiratória final positiva a partir de 5 cmH₂O e pressão inspiratória adequada, por pelo menos 3 minutos. | Estratégia preferencial no paciente crítico, sobretudo com hipoxemia e obesidade. |
| Cateter nasal de alto fluxo | Fluxo alto com FiO₂ de 100%, mantido durante a apneia. | Alternativa útil, especialmente quando permite manter oxigênio durante a laringoscopia. |
| Máscara não reinalante | Fluxo no máximo disponível, acima de 15 L/min, com máscara bem acoplada. | Opção quando não há disponibilidade de ventilação não invasiva; é a estratégia menos eficaz. |
| Bolsa-válvula-máscara com PEEP | Com válvula de pressão expiratória final positiva e vedação de duas mãos, acompanhando a respiração espontânea. | Recurso amplamente disponível; exige técnica correta de vedação. |
| Oxigenação apneica | Cateter nasal a 15 L/min, ou fluxo alto, mantido durante a apneia e a laringoscopia. | Adjuvante simples e barato; deve ser somado a qualquer das estratégias acima. |
Ventilar entre a indução e a laringoscopia
O dogma clássico da sequência rápida dizia para não ventilar após a indução, pelo receio de insuflação gástrica e aspiração. A evidência atual mudou essa recomendação para a maior parte dos pacientes críticos.
- Ventilar com bolsa-válvula-máscara entre a indução e a laringoscopia reduz de forma importante a hipoxemia grave, sem aumento demonstrado de aspiração.
- Como ventilar — volumes pequenos, frequência baixa, pressão suave, com vedação de duas mãos e válvula de pressão expiratória final positiva.
- Manter a ventilação não invasiva durante esse intervalo, retirando a máscara apenas imediatamente antes da laringoscopia, é uma alternativa elegante.
- Quando evitar — vômito ativo, sangramento maciço de via aérea alta e obstrução de via aérea superior.
- Manter oxigenação apneica por cateter nasal em todos os casos, do início ao fim.
Calculadora — risco periprocedimento e otimização
Marque o que está presente antes de induzir. O resultado indica o nível de risco e gera um plano de otimização específico para o que foi marcado.
Risco hemodinâmico
Risco de hipoxemia
Outros riscos fisiológicos
Otimização hemodinâmica antes de induzir
- Volume — cristaloide em pacientes com hipovolemia evidente e responsividade a fluidos; a infusão indiscriminada não demonstrou reduzir colapso e pode prejudicar em congestão.
- Vasopressor em bolus — preparado e ao lado da cama em todo paciente com índice de choque elevado, para uso imediato diante de queda pressórica.
- Vasopressor em infusão contínua — iniciar antes da indução nos pacientes já hipotensos, em vez de correr atrás do prejuízo depois.
- Reduzir a dose do indutor — no choque, doses habituais causam colapso; reduza o indutor e mantenha a dose plena do bloqueador neuromuscular.
- Ventilação com cautela após o tubo — pressão positiva excessiva reduz o retorno venoso e pode precipitar parada em pacientes pré-carga dependentes.
- Corrigir o corrigível — hipoglicemia, hipercalemia, pneumotórax hipertensivo e tamponamento antes de induzir, sempre que houver tempo.
A lógica da escolha
A sequência rápida usa um indutor — que produz inconsciência — seguido imediatamente de um bloqueador neuromuscular — que produz relaxamento e condições ideais de laringoscopia. Nenhum dos dois produz analgesia adequada isoladamente, o que torna a analgesia pós-intubação obrigatória.
Guiada pela hemodinâmica, não pela preferência. Em choque, prefira agentes com menor impacto pressórico e reduza a dose; em normotensos, use dose plena.
Guiada pelas contraindicações e pela duração desejada. A dose do bloqueador não deve ser reduzida no choque — subdosar piora as condições e aumenta as tentativas.
Indutor e bloqueador em rápida sucessão, com a laringoscopia iniciada quando o relaxamento é adequado — geralmente 45 a 60 segundos após o bloqueador.
Indutores
| Fármaco | Perfil hemodinâmico | Vantagens | Cuidados |
|---|---|---|---|
| Etomidato | O mais estável; efeito mínimo sobre pressão e débito. | Início rápido, curta duração, amplamente disponível. | Supressão adrenal transitória; mioclonias. Não demonstrou diferença de mortalidade em comparação com cetamina. |
| Cetamina | Simpaticomimética; tende a preservar a pressão, mas pode causar hipotensão em depleção catecolaminérgica. | Broncodilatação, analgesia e preservação do drive respiratório. | Aumenta secreções; cautela em coronariopatia grave. O receio clássico quanto à pressão intracraniana foi amplamente revisto. |
| Propofol | Hipotensor importante, dose-dependente. | Início e término rápidos, boas condições de laringoscopia, efeito anticonvulsivante. | Evitar em instabilidade; se usado, reduza muito a dose. |
| Midazolam | Hipotensor, com início mais lento e efeito menos previsível. | Disponível em qualquer serviço; útil como adjuvante. | Frequentemente subdosado, resultando em consciência preservada sob bloqueio neuromuscular. |
Bloqueadores neuromusculares
Succinilcolina
- Início muito rápido e duração curta.
- Vantagem teórica de recuperação espontânea se a intubação falhar — argumento hoje bastante relativizado.
- Contraindicações: hipercalemia conhecida ou suspeita, queimadura ou trauma extenso após 48 horas, doença neuromuscular, imobilização prolongada, rabdomiólise, histórico de hipertermia maligna.
- Pode causar bradicardia, sobretudo em crianças e em doses repetidas.
Rocurônio
- Início rápido quando usado em dose adequada para sequência rápida.
- Duração prolongada, o que exige sedação imediata e contínua após o procedimento.
- Sem as contraindicações metabólicas da succinilcolina — opção segura na maioria dos cenários críticos.
- Reversível com sugamadex, quando disponível.
Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, cuidados e situações especiais. Para o cálculo por peso à beira do leito, use também a calculadora prática de intubação do MedFoco.
Fármacos da sequência rápida
Indutores e bloqueadores, com as doses habituais, os ajustes no paciente chocado e as contraindicações que precisam ser lembradas em segundos.
Suporte e resgate
O que precisa estar preparado além do indutor e do bloqueador: vasopressor, sedação pós-procedimento, abordagem acordada e via aérea cirúrgica.
Videolaringoscopia ou laringoscopia direta?
A questão foi respondida de forma consistente pelos ensaios mais recentes. O estudo DEVICE, com mais de 1.400 pacientes críticos, demonstrou maior sucesso na primeira tentativa com videolaringoscópio em comparação com o laringoscópio direto, e as diretrizes atuais recomendam o vídeo como método de primeira linha.
Vantagens do vídeo
- Melhor visão glótica, sobretudo em pescoço imobilizado.
- Maior sucesso na primeira tentativa em pacientes críticos.
- Menos intubação esofágica não reconhecida.
- Permite que a equipe veja a via aérea e ajude ativamente.
- Valor didático e de supervisão em serviços com residentes.
Armadilhas do vídeo
- "Vejo bem, mas não passo o tubo" — a visão melhora mais que a passagem; use bougie ou estilete moldado.
- Sangue e secreção prejudicam a lente; aspire antes.
- Embaçamento da lente em ambiente frio.
- Dependência do equipamento — mantenha a habilidade em laringoscopia direta.
- Lâminas hiperanguladas exigem estilete rígido com curvatura adequada.
A tentativa, passo a passo
- Confirme relaxamento adequado antes de introduzir a lâmina — laringoscopia precoce piora a visão e provoca tosse e vômito.
- Introduza a lâmina pela direita, deslocando a língua para a esquerda, avançando de forma progressiva e controlada.
- Identifique a epiglote como referência; na lâmina curva, posicione a ponta na valécula.
- Tracione no sentido do cabo, sem alavancar sobre os dentes.
- Otimize a visão com manipulação laríngea externa — a mão direita do operador ajusta e depois a equipe mantém.
- Passe o tubo sob visão direta das cordas; se a visão for parcial, use o bougie.
- INTERROMPA A TENTATIVA se a saturação cair abaixo do limiar combinado ou se a tentativa se prolongar — ventile e reoxigene antes de tentar de novo.
- Insufle o balonete com o mínimo necessário para vedar e confirme imediatamente com capnografia em onda.
- Fixe o tubo e registre a profundidade em centímetros na arcada dentária.
Classificação de Cormack-Lehane e resgate da visão
| Grau | O que se vê | Conduta |
|---|---|---|
| I | Glote inteira visível. | Passagem direta do tubo. |
| II | Porção posterior da glote ou apenas aritenoides. | Manipulação laríngea externa e bougie facilitam muito. |
| III | Apenas a epiglote. | Bougie é a técnica de escolha; considere trocar para videolaringoscópio. |
| IV | Nem a epiglote é visível. | Reposicionar, trocar operador ou dispositivo; considerar plano B precocemente. |
Confirmação do posicionamento
Padrão-ouro. Curva sustentada por vários ciclos confirma posição traqueal. Em parada cardíaca o valor pode ser baixo, mas a presença de curva permanece informativa.
Ver o tubo passar entre as cordas é confirmação forte, porém sujeita a deslocamento posterior — não dispensa a capnografia.
Cinco pontos: epigástrio primeiro, depois as bases e os ápices. Útil para detectar intubação seletiva, mas insuficiente como confirmação isolada.
Confirma a profundidade, não a posição traqueal — um tubo esofágico também aparece na radiografia.
Alternativa útil: visualização traqueal direta e deslizamento pleural bilateral, especialmente em parada cardíaca.
Manter entre 20 e 30 cmH₂O: acima disso há risco de lesão isquêmica da mucosa; abaixo, risco de vazamento e microaspiração.
Calculadora — tubo, profundidade e ventilação inicial
O volume corrente deve ser calculado pelo peso predito, que depende da altura e do sexo — nunca pelo peso real. Informe os dados para obter o tubo sugerido, a profundidade de referência e os parâmetros iniciais do ventilador.
Os primeiros dez minutos após o tubo
- Confirme e fixe — capnografia mantida, profundidade registrada e fixação segura.
- Sedação e analgesia imediatas — sobretudo se foi usado bloqueador de longa duração; analgesia antes de aprofundar a sedação.
- Ventilação protetora desde o início — volume corrente por peso predito, pressão de platô controlada e PEEP adequada.
- Reavalie a pressão arterial em ciclos curtos: a hipotensão pós-indução é frequente e tratável.
- Ajuste a FiO₂ para baixo assim que a saturação permitir, evitando hiperóxia prolongada.
- Cabeceira elevada a 30 graus para reduzir risco de aspiração e de pneumonia associada à ventilação.
- Sonda gástrica conforme indicação, sobretudo após ventilação com bolsa prolongada.
- Radiografia de tórax para confirmar profundidade e afastar complicações.
- Registre o procedimento: número de tentativas, dispositivo usado, grau de visão e dificuldades — informação decisiva para quem vier depois.
Deterioração súbita após a intubação
Diante de queda de saturação, hipotensão ou aumento de pressões no paciente recém-intubado, use um roteiro fixo. O mnemônico DOPES organiza a busca em segundos.
| Letra | Causa | Conduta imediata |
|---|---|---|
| D | Deslocamento do tubo | Verifique capnografia, profundidade e ausculta; considere extubação acidental ou intubação seletiva. |
| O | Obstrução | Aspire o tubo, verifique dobras e mordedura; passe sonda de aspiração para testar a patência. |
| P | Pneumotórax | Ausculta assimétrica, hipotensão e aumento de pressões; ultrassom à beira do leito e drenagem imediata se hipertensivo. |
| E | Equipamento | Desconecte do ventilador e ventile com bolsa e oxigênio a 100% — isso separa problema do ventilador de problema do paciente. |
| S | Stacking — hiperinsuflação | Típico do asmático: desconecte, comprima o tórax para permitir a expiração e reduza a frequência e o volume. |
Via aérea falha
Falha não é a primeira tentativa malsucedida. Define-se falha quando há duas tentativas otimizadas sem sucesso, ou quando não é possível manter a oxigenação. A partir daí, a prioridade deixa de ser o tubo e passa a ser oxigenar.
- Declare em voz alta: "falha de intubação, indo para o plano B" — a verbalização quebra a fixação da equipe.
- Oxigene com bolsa-válvula-máscara, duas mãos, cânula orofaríngea e válvula de PEEP.
- Se ventilar bem, ganhe tempo e reorganize: outro operador, outro dispositivo, melhor posicionamento.
- Se não ventilar bem, insira um dispositivo supraglótico de segunda geração.
- Com o supraglótico funcionando, decida: intubar através dele com fibroscópio, manter e transportar, ou proceder à via aérea cirúrgica eletivamente.
- NÃO INTUBO, NÃO OXIGENO: declare a situação e vá para a CRICOTIREOIDOSTOMIA sem hesitação — a hesitação é o que causa a lesão neurológica.
- Após o resgate, reavalie sedação, ventilação e planeje a via aérea definitiva em ambiente controlado.
Erros comuns
- Adiar a intubação de um paciente que ainda tem reserva, para intubá-lo depois em condições muito piores.
- Pré-oxigenar de forma insuficiente, com máscara mal acoplada e por tempo curto.
- Não usar oxigenação apneica por cateter nasal durante a laringoscopia.
- Induzir um paciente hipotenso sem vasopressor preparado.
- Manter a dose plena do indutor no paciente em choque.
- Reduzir a dose do bloqueador neuromuscular junto com a do indutor.
- Iniciar a laringoscopia antes do relaxamento adequado.
- Insistir em tentativas repetidas com o mesmo operador e o mesmo dispositivo.
- Não ter bougie e aspiração ao alcance imediato da mão.
- Confirmar o tubo apenas pela ausculta, sem capnografia em onda.
- Não reconhecer a intubação esofágica diante de capnografia ausente.
- Deixar o paciente paralisado sem sedação e analgesia adequadas.
- Programar volume corrente pelo peso real em vez do peso predito.
- Manter FiO₂ de 100% por horas depois do procedimento.
- Não identificar a membrana cricotireóidea antes de precisar dela.
- Não registrar as dificuldades encontradas para quem for reintubar depois.
Resumo do fluxo
- Confirme a indicação e verifique se existe alternativa razoável ao tubo.
- Avalie a dificuldade anatômica e a fisiológica — a segunda costuma ser a que mata.
- Prepare material, equipe e drogas; verbalize os planos A, B, C e D com gatilhos numéricos.
- PRÉ-OXIGENE COM VNI POR PELO MENOS 3 MINUTOS, cabeceira elevada, e mantenha oxigenação apneica.
- Otimize a hemodinâmica: volume quando indicado e vasopressor preparado ou em curso.
- Induza com dose ajustada ao estado hemodinâmico e bloqueie com dose plena.
- Posicione, aguarde o relaxamento e faça a melhor primeira tentativa possível, com videolaringoscópio e bougie.
- Confirme com capnografia em onda, fixe e registre a profundidade.
- Inicie sedação e analgesia, programe ventilação protetora por peso predito e reavalie a pressão.
- Diante de falha, oxigene primeiro, siga os planos combinados e não adie a via aérea cirúrgica quando indicada.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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- Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) e Sociedade Brasileira de Anestesiologia. Recomendações vigentes sobre manejo de via aérea e sequência rápida de intubação.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, parâmetros e condutas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.
Informações rápidas
Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Decidir intubar
Quatro perguntas: há falência de oxigenação? há falência de ventilação? a via aérea está protegida? qual o curso esperado? Intubar quem ainda tem reserva é muito mais seguro do que intubar em deterioração avançada.
Prever a dificuldade
Dificuldade anatômica — MACOCHA e LEMON — e dificuldade fisiológica — hipoxemia, choque, acidose grave e falência de ventrículo direito. No paciente crítico, a fisiológica é a regra e é a que causa parada.
Pré-oxigenar
VNI por pelo menos 3 minutos reduziu a hipoxemia de 18,5% para 9,1% no estudo PREOXI, sem aumento de aspiração. Mantenha oxigenação apneica por cateter nasal e cabeceira elevada a 30 graus. Ventilar com bolsa entre indução e laringoscopia é permitido e protege.
Confirmar e cuidar
Capnografia em onda é o padrão-ouro de confirmação. Depois: sedação e analgesia imediatas, ventilação protetora pelo peso predito, reavaliação da pressão e registro das dificuldades encontradas.
Números rápidos
Pré-oxigenação: VNI por pelo menos 3 minutos, FiO₂ 100%, cabeceira a 30 graus.
MACOCHA: 3 pontos ou mais indica risco elevado de intubação difícil.
Índice de choque: acima de 0,9 sinaliza risco de colapso pós-indução.
Tentativas: após 2 tentativas otimizadas sem sucesso, mude de plano.
Balonete: manter a pressão entre 20 e 30 cmH₂O.
Não esqueça
Capnografia em onda confirma o tubo; ausculta isolada não.
No choque: menos indutor, bloqueador em dose plena.
Vasopressor preparado antes de induzir.
Bougie e aspiração ao alcance imediato da mão.
Volume corrente pelo peso predito, nunca pelo peso real.
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Em provas / residência
A banca cobra as indicações de via aérea definitiva, as contraindicações da succinilcolina e a capnografia como método confirmatório de escolha.
Decore: MACOCHA de 3 ou mais é risco alto; VNI reduz hipoxemia na pré-oxigenação; no choque reduz-se o indutor, não o bloqueador; "não intubo, não oxigeno" é cricotireoidostomia.
