Infecção de Pele Grave
A pergunta que organiza tudo não é "qual antibiótico", e sim isto precisa ir para o centro cirúrgico agora? Na infecção necrosante, o desbridamento precoce é a única intervenção que muda mortalidade — e a decisão é clínica, nunca de um escore ou de um exame de imagem que atrasa a sala.
Reconhecer o necrosante
- Dor desproporcional ao achado de pele
- Toxemia, hipotensão e progressão em horas
- Bolhas hemorrágicas, crepitação e anestesia
- Escore normal não afasta o diagnóstico
Classificar
- Purulenta: abscesso, furúnculo e carbúnculo
- Não purulenta: celulite e erisipela
- Gravidade define via, internação e espectro
- Cobertura de MRSA só quando há motivo
Operar cedo
- Desbridamento precoce muda mortalidade
- Imagem não pode atrasar a sala
- Reexploração programada em 12 a 24 horas
- Antibiótico não substitui o bisturi
Antibiótico certo
- Amplo espectro na suspeita de necrosante
- Antitoxina: clindamicina ou linezolida
- Celulite simples: 5 a 6 dias bastam
- Descalonar assim que sair a cultura
Um espectro, não uma doença
As infecções de pele e partes moles vão do impetigo autolimitado à fasciíte necrosante com choque. O que separa esses extremos não é o antibiótico escolhido, e sim a profundidade do acometimento e a velocidade de progressão. Por isso a avaliação começa sempre pela mesma pergunta: existe infecção necrosante aqui?
| Camada acometida | Entidade | Marcador clínico |
|---|---|---|
| Epiderme | Impetigo, ectima | Crostas melicéricas, lesões superficiais. |
| Derme superficial e linfáticos | Erisipela | Placa eritematosa com borda bem delimitada e elevada. |
| Derme profunda e subcutâneo | Celulite | Eritema de bordas mal definidas, calor, edema e dor. |
| Folículo e subcutâneo | Furúnculo, carbúnculo, abscesso | Coleção purulenta, flutuação — o tratamento é drenagem. |
| Fáscia | Fasciíte necrosante | Dor desproporcional, toxemia, progressão em horas. |
| Músculo | Piomiosite, mionecrose clostrídica | Dor profunda, crepitação, elevação de creatinoquinase. |
As duas perguntas da classificação
Há pus?
Purulenta — abscesso, furúnculo, carbúnculo e celulite com drenagem. O agente predominante é o Staphylococcus aureus, e o tratamento central é a drenagem.
Não purulenta — erisipela e celulite sem coleção. O agente predominante é o estreptococo beta-hemolítico, e a cobertura empírica de MRSA geralmente não é necessária.
Qual a gravidade?
Leve — sem sinais sistêmicos.
Moderada — com sinais sistêmicos, como febre, taquicardia, taquipneia ou leucocitose.
Grave — falha do esquema oral, imunossupressão, sinais de toxicidade sistêmica, hipotensão ou suspeita de infecção profunda ou necrosante.
Calculadora — classificação e conduta inicial
Selecione o tipo e marque o que estiver presente. A presença de qualquer critério de gravidade muda a via e a necessidade de internação; suspeita de necrosante muda tudo.
As primeiras horas
Procure ativamente sinais de necrosante. Marque a borda do eritema com caneta e registre o horário — a progressão em poucas horas é dado diagnóstico.
Hemoculturas e culturas de material drenado ou de tecido nos casos graves. Antibiótico conforme purulência e gravidade, sem atrasar a avaliação cirúrgica.
Suspeita de necrosante é consulta cirúrgica imediata. Exame de imagem só é aceitável se não atrasar a exploração em paciente instável.
Quem causa o quê
| Agente | Quadro típico | Implicação terapêutica |
|---|---|---|
| Estreptococo beta-hemolítico | Erisipela e celulite não purulenta; fasciíte necrosante tipo II e síndrome do choque tóxico. | Penicilina e cefalosporina de primeira geração; associar antitoxina nas formas graves. |
| Staphylococcus aureus sensível | Abscesso, furúnculo, carbúnculo e celulite purulenta. | Oxacilina ou cefazolina; drenagem é o pilar do tratamento. |
| S. aureus resistente à oxacilina | Abscessos recorrentes, infecção associada à assistência, usuários de droga injetável. | Vancomicina, linezolida ou daptomicina; cobrir empiricamente apenas com motivo. |
| Polimicrobiana com anaeróbios | Fasciíte tipo I: períneo, abdome, pé diabético e pós-operatório. | Esquema de amplo espectro com cobertura anaeróbia e gram-negativa. |
| Clostridium perfringens | Mionecrose com crepitação e gás, após trauma ou cirurgia contaminada. | Cirurgia imediata, penicilina em dose alta associada a clindamicina. |
| Vibrio vulnificus | Exposição a água salgada ou frutos do mar, sobretudo em hepatopata; bolhas hemorrágicas de evolução fulminante. | Doxiciclina associada a ceftriaxona ou ceftazidima, com cirurgia precoce. |
| Aeromonas hydrophila | Ferimento em contato com água doce. | Doxiciclina ou quinolona associada a cefalosporina. |
| Pasteurella multocida | Mordedura de gato e de cão, com celulite de instalação muito rápida. | Amoxicilina com clavulanato é a escolha; cefalexina isolada não cobre. |
| Eikenella corrodens | Mordedura humana e ferimento por soco em boca alheia. | Amoxicilina com clavulanato ou ampicilina com sulbactam; avaliar acometimento articular. |
Quando cobrir MRSA empiricamente
A cobertura indiscriminada de estafilococo resistente é uma das principais fontes de uso desnecessário de vancomicina. Na celulite não purulenta, o agente é quase sempre estreptococo, e a cobertura de MRSA não traz benefício demonstrado.
- Infecção purulenta — abscesso, furúnculo e celulite com drenagem, sobretudo em áreas de alta prevalência.
- Colonização ou infecção prévia documentada por MRSA.
- Infecção grave com sinais de toxicidade sistêmica ou suspeita de necrosante.
- Uso de droga injetável e situação de rua.
- Internação recente, hemodiálise ou residência em instituição de longa permanência.
- Falha de esquema dirigido apenas a estreptococo.
- Imunossupressão relevante ou presença de dispositivo protético.
Fatores de risco a procurar
Micose interdigital, fissuras, eczema, úlcera, ferida operatória e sítio de punção. Tratar a porta de entrada evita recorrência.
Insuficiência venosa e linfedema são os principais fatores de recorrência de erisipela em membros inferiores.
Abscessos, MRSA, infecção necrosante e risco associado de endocardite e de tétano.
Úlcera indolor, isquemia associada e infecção polimicrobiana com risco de osteomielite.
Neutropenia, transplante e cirrose: apresentação atenuada e espectro de agentes ampliado, incluindo fungos.
Infecção de sítio cirúrgico com dor intensa e febre precoce, nas primeiras 48 horas, sugere agente necrosante.
O que separa celulite de necrosante
Nenhum sinal isolado tem sensibilidade suficiente para afastar infecção necrosante, e os achados mais específicos — bolhas hemorrágicas, crepitação, necrose e hipotensão — costumam ser tardios. O diagnóstico é de suspeição, e a suspeição se constrói pela combinação de achados com a velocidade de evolução.
| Achado | Celulite comum | Infecção necrosante |
|---|---|---|
| Dor | Proporcional ao eritema. | Desproporcional ao achado de pele, intensa e mal controlada; pode evoluir para anestesia. |
| Velocidade | Progressão em dias. | Progressão em horas, ultrapassando a marcação da borda. |
| Estado geral | Preservado ou pouco alterado. | Toxemia, confusão, taquicardia desproporcional e hipotensão. |
| Pele | Eritema quente e homogêneo. | Coloração violácea ou acinzentada, bolhas hemorrágicas, necrose e áreas de anestesia. |
| Palpação | Edema difuso. | Edema além do eritema, endurecimento lenhoso e crepitação. |
| Resposta ao antibiótico | Melhora em 48 a 72 horas. | Progressão apesar de antimicrobiano adequado. |
Calculadora — sinais de alarme para infecção necrosante
Marque o que está presente. Os itens em destaque são alarmes maiores e, isoladamente, já justificam avaliação cirúrgica imediata.
Calculadora — escore LRINEC
O Laboratory Risk Indicator for Necrotizing Fasciitis foi criado para apoiar a diferenciação entre infecção necrosante e não necrosante. Vale conhecer, mas com uma ressalva central: escore baixo não afasta o diagnóstico.
Papel dos exames complementares
Pode mostrar gás em partes moles, achado bastante específico porém pouco sensível. Não serve para afastar.
Melhor acurácia entre os exames de imagem: gás, espessamento e realce fascial, coleções. Útil no paciente estável, nunca no instável.
Sensível para acometimento fascial, mas demorada e frequentemente indisponível na urgência.
Ajuda a identificar coleções drenáveis e líquido ao longo da fáscia; operador-dependente.
Incisão sob anestesia local até a fáscia: ausência de resistência ao dedo, líquido acinzentado e ausência de sangramento sugerem fortemente necrose.
Hemoculturas, cultura de tecido, lactato, creatinoquinase, função renal e proteína C reativa. Sustentam a gravidade, mas não decidem a cirurgia.
Celulite e erisipela
A distinção entre as duas é mais didática do que prática: a erisipela acomete derme superficial e linfáticos, com placa de bordas elevadas e bem delimitadas; a celulite é mais profunda, com bordas mal definidas. Ambas são predominantemente estreptocócicas e recebem tratamento semelhante.
- Marque a borda do eritema com caneta, com data e hora — é o melhor parâmetro objetivo de evolução.
- Eleve o membro acometido: reduz edema e acelera a resposta, e é frequentemente esquecido.
- Trate a porta de entrada, sobretudo micose interdigital, fissuras e eczema.
- Culturas de rotina não são necessárias na celulite típica sem sinais sistêmicos.
- Hemoculturas em quadros graves, imunossuprimidos, exposição a água ou mordedura, e em falha terapêutica.
- Duração de 5 a 6 dias na celulite não complicada com boa resposta — cursos mais longos não trazem benefício.
- Piora nas primeiras 24 a 48 horas pode ocorrer por lise bacteriana e liberação de toxinas; reavalie, mas não troque o esquema automaticamente.
- Bilateralidade em membros inferiores é rara em celulite — pense em dermatite de estase.
Abscesso cutâneo
O tratamento do abscesso é a incisão e drenagem. O antibiótico é adjuvante, e não substituto — drenar mal e prescrever antimicrobiano é a receita clássica da recorrência.
Sempre drenar
- Incisão ampla o bastante, com quebra de loculações.
- Lavagem da cavidade e curativo apropriado.
- Enviar material para cultura nos casos graves, recorrentes ou em imunossuprimidos.
- Ultrassom à beira do leito ajuda quando há dúvida sobre coleção.
Quando associar antibiótico
- Sinais sistêmicos de infecção.
- Celulite extensa ao redor da coleção.
- Abscessos múltiplos ou de grandes dimensões.
- Imunossupressão, extremos de idade e comorbidade relevante.
- Áreas de difícil drenagem, como face, mãos e genitália.
- Falha da drenagem isolada.
O que imita celulite
Uma parcela relevante dos diagnósticos de celulite em membros inferiores está incorreta. Reconhecer os imitadores evita internação, antibiótico desnecessário e atraso no tratamento correto.
| Condição | Como diferenciar | Conduta |
|---|---|---|
| Dermatite de estase | Bilateral, crônica, com hiperpigmentação, descamação e prurido; sem febre. | Compressão, corticoide tópico e cuidados de pele. |
| Trombose venosa profunda | Edema com dor à palpação profunda, sem eritema bem delimitado. | Ultrassom com Doppler e anticoagulação quando confirmada. |
| Dermatite de contato | Prurido predominante, limites correspondendo à área de exposição. | Afastar o agente e usar corticoide tópico. |
| Gota e artrite séptica | Dor articular intensa com eritema periarticular e limitação de movimento. | Exame do líquido sinovial quando indicado. |
| Lipodermatoesclerose | Endurecimento crônico em "garrafa invertida", geralmente bilateral. | Compressão e tratamento da insuficiência venosa. |
| Reação a picada | Lesão central, prurido, evolução limitada e ausência de toxemia. | Sintomáticos e observação. |
| Erupção medicamentosa | Distribuição simétrica, relação temporal com nova droga. | Suspender o agente suspeito. |
Celulite de repetição
- Trate a porta de entrada — micose interdigital é a causa evitável mais comum e frequentemente ignorada.
- Controle o edema com compressão elástica, elevação e manejo da insuficiência venosa e do linfedema.
- Cuide da pele com hidratação e tratamento de eczema e fissuras.
- Controle comorbidades, sobretudo obesidade e diabetes.
- Profilaxia antimicrobiana pode ser considerada em pacientes com episódios frequentes apesar das medidas acima, com benefício que tende a se perder após a suspensão.
A cirurgia é o tratamento
Na infecção necrosante, a única intervenção com impacto consistente sobre mortalidade é o desbridamento precoce e completo. Antimicrobiano, suporte hemodinâmico e adjuvantes são complementos — nenhum deles compensa cirurgia adiada.
- Suspeitou: acione a cirurgia imediatamente, em paralelo à reanimação, e não em sequência a ela.
- NÃO ATRASE A EXPLORAÇÃO POR EXAME DE IMAGEM em paciente instável ou com suspeita clínica forte.
- Colha hemoculturas e inicie antimicrobiano de amplo espectro associado a agente antitoxina.
- Reanime com fluidos e vasopressor conforme necessário; a perda para o terceiro espaço é volumosa.
- No intraoperatório, o achado característico é fáscia acinzentada, sem resistência ao dedo, com líquido turvo e ausência de sangramento.
- O desbridamento deve alcançar tecido viável e sangrante em todas as direções, sem economia de margem.
- Envie material para cultura e histopatológico obtidos do próprio tecido.
- PROGRAME REEXPLORAÇÃO EM 12 A 24 HORAS — a necessidade de novos desbridamentos é a regra, não a exceção.
- Encaminhe para terapia intensiva, com reavaliação diária da ferida e planejamento de cobertura definitiva.
Tipos e apresentações
| Tipo | Microbiologia e contexto | Particularidade |
|---|---|---|
| Tipo I — polimicrobiana | Aeróbios e anaeróbios combinados. Diabéticos, idosos, períneo, abdome e pós-operatório. | Forma mais comum; inclui a gangrena de Fournier. |
| Tipo II — monomicrobiana | Estreptococo do grupo A, isolado ou com S. aureus. Pode acometer jovens hígidos. | Evolução fulminante, frequentemente com síndrome do choque tóxico. |
| Tipo III — Vibrio | Exposição a água salgada ou frutos do mar, sobretudo em hepatopatas. | Bolhas hemorrágicas de instalação muito rápida e alta letalidade. |
| Mionecrose clostrídica | Clostridium perfringens, após trauma contaminado ou cirurgia. | Gás abundante, dor intensa, secreção com odor característico e hemólise. |
| Gangrena de Fournier | Períneo, escroto e região perianal; polimicrobiana. | Origem urogenital ou anorretal; exige avaliação de colostomia e cistostomia em casos selecionados. |
| Piomiosite | Abscesso muscular, geralmente estafilocócico. | Dor profunda com pele pouco alterada; diagnóstico por imagem e drenagem. |
Antimicrobiano na infecção necrosante
O esquema empírico precisa ser amplo, porque a etiologia é frequentemente polimicrobiana, e precisa incluir um agente com ação sobre a produção de toxinas, porque a carga bacteriana elevada reduz a eficácia dos betalactâmicos.
Vancomicina, linezolida ou daptomicina, conforme perfil local e disponibilidade.
Piperacilina-tazobactam, ou carbapenêmico nos casos graves e com risco de resistência.
Clindamicina é a opção clássica por inibir a síntese proteica e reduzir a produção de toxinas. A linezolida tem efeito semelhante e ganhou espaço diante da resistência crescente à clindamicina.
Síndrome do choque tóxico
Mediada por superantígenos, cursa com hipotensão precoce, disfunção de múltiplos órgãos e, na forma estafilocócica, exantema difuso com descamação tardia em palmas e plantas. Pode acompanhar infecção necrosante ou surgir com foco discreto.
Estreptocócica
- Frequentemente associada a infecção de partes moles evidente.
- Hipotensão precoce com dor intensa no sítio acometido.
- Letalidade elevada, mesmo com tratamento adequado.
Estafilocócica
- Pode ocorrer com foco mínimo, incluindo tampão nasal e uso de absorvente interno.
- Exantema macular difuso com descamação tardia.
- Remover o foco — tampão, corpo estranho ou coleção — é parte essencial do tratamento.
- Suporte intensivo com reposição volêmica volumosa e vasopressor.
- Controle de foco imediato, cirúrgico ou por remoção do corpo estranho.
- Antimicrobiano com agente antitoxina associado ao betalactâmico.
- Imunoglobulina intravenosa pode ser considerada em casos graves, sobretudo estreptocócicos, embora a evidência permaneça controversa e o uso varie entre serviços.
Depois da primeira cirurgia
Programada em 12 a 24 horas e repetida até que não haja mais tecido inviável. Vários desbridamentos são a regra.
Perdas volumosas, catabolismo intenso e necessidade de suporte nutricional precoce e agressivo.
Curativos avançados, terapia por pressão negativa e planejamento de enxertia ou retalho após controle da infecção.
Guiada pela resposta clínica e pelo controle cirúrgico; após o desbridamento definitivo e sem bacteremia, tende a ser curta.
Adjuvante discutido, sobretudo na mionecrose clostrídica; nunca deve adiar ou substituir a cirurgia.
Sequelas funcionais e estéticas são importantes; fisioterapia e apoio psicológico entram cedo.
Calculadora — doses por peso
Informe o peso e o cenário clínico. As doses pressupõem adulto com função renal preservada — ajuste conforme clearance, nível sérico e protocolo institucional.
Duração do tratamento
| Situação | Duração | Observação |
|---|---|---|
| Celulite não complicada com boa resposta | 5 a 6 dias | Prolongar não melhora desfecho; estender apenas se a resposta for lenta. |
| Abscesso drenado sem sinais sistêmicos | Nenhuma ou curta | A drenagem é o tratamento; antibiótico conforme os critérios de associação. |
| Abscesso drenado com celulite ou sinais sistêmicos | 5 a 7 dias | Cobrir estafilococo conforme o perfil local. |
| Infecção necrosante após desbridamento definitivo | Curta | Sem bacteremia nem celulite residual, pode ser suspenso em poucos dias após o último desbridamento. |
| Bacteremia por S. aureus associada | Prolongada | Segue as regras da bacteremia estafilocócica, com investigação de foco secundário. |
| Pé diabético com infecção de partes moles | 1 a 2 semanas | Conforme resposta e desbridamento; osteomielite exige esquema mais longo. |
| Mordedura infectada | 5 a 7 dias | Mais longo se houver acometimento articular, tendíneo ou ósseo. |
Medidas que não são antibiótico
- Drenagem e desbridamento — o determinante mais importante do desfecho em qualquer coleção ou necrose.
- Elevação do membro e controle do edema, subestimados e muito eficazes.
- Tratamento da porta de entrada, incluindo micose interdigital e fissuras.
- Controle glicêmico e otimização de comorbidades.
- Avaliação vascular nos membros inferiores, sobretudo em diabéticos: isquemia impede a cicatrização.
- Profilaxia antitetânica conforme o esquema vacinal e o tipo de ferimento.
- Analgesia adequada, com cautela quanto a anti-inflamatórios enquanto houver dúvida sobre necrosante.
- Profilaxia de tromboembolismo no paciente internado e imobilizado.
Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, cuidados e limitações. Confira sempre o antibiograma local, a função renal e o protocolo do seu serviço.
Antimicrobianos
As drogas mais usadas nas formas graves, com o detalhe que mais importa em cada uma: espectro real, papel antitoxina e limitações práticas.
Situações específicas
Cenários em que o esquema padrão muda: necessidade de cirurgia, feridas contaminadas, pé diabético e paciente imunossuprimido.
Situações com manejo próprio
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Pé diabético infectado | Neuropatia mascara a dor, isquemia limita a cicatrização e a infecção costuma ser polimicrobiana. | Classificar a gravidade, avaliar perfusão, sondar a úlcera em busca de osso exposto e desbridar; investigar osteomielite. |
| Mordedura de cão e gato | Pasteurella multocida causa celulite de instalação muito rápida, em poucas horas. | Amoxicilina com clavulanato, avaliação de estruturas profundas, profilaxia antitetânica e antirrábica conforme o protocolo. |
| Mordedura humana | Alta taxa de infecção, sobretudo em ferimento sobre articulação metacarpofalangiana. | Nunca suturar primariamente sem avaliação, considerar exploração cirúrgica e avaliar profilaxia para HIV e hepatites. |
| Exposição a água | Água salgada sugere Vibrio, sobretudo em hepatopata; água doce sugere Aeromonas. | Ampliar o espectro com doxiciclina associada a cefalosporina; suspeitar de evolução fulminante. |
| Neutropênico | Sinais inflamatórios atenuados, com risco de Pseudomonas e de agentes fúngicos. | Espectro ampliado com cobertura antipseudomonas; considerar biópsia de lesão para cultura e histologia. |
| Usuário de droga injetável | Abscessos múltiplos, MRSA, necrosante e risco associado de endocardite. | Drenagem, cobertura de MRSA, hemoculturas e limiar baixo para ecocardiograma e testagem sorológica. |
| Cirrose e hepatopatia | Risco elevado de infecção grave e de Vibrio após exposição a frutos do mar. | Internação com limiar baixo, espectro ampliado e vigilância para descompensação. |
| Infecção de sítio cirúrgico precoce | Dor intensa e febre nas primeiras 48 horas após a operação sugerem agente necrosante. | Abrir a ferida, explorar e acionar o cirurgião — não tratar apenas com antimicrobiano. |
Erros comuns
- Tratar infecção necrosante apenas com antibiótico, sem acionar a cirurgia.
- Esperar exame de imagem antes de explorar paciente instável com suspeita clínica forte.
- Usar escore LRINEC baixo para afastar o diagnóstico.
- Ignorar dor desproporcional ao achado de pele.
- Não marcar a borda do eritema e perder o parâmetro de progressão.
- Prescrever antibiótico para abscesso sem drená-lo adequadamente.
- Cobrir MRSA empiricamente em toda celulite não purulenta.
- Manter 10 a 14 dias de antibiótico em celulite não complicada que já melhorou.
- Diagnosticar celulite bilateral em membros inferiores sem considerar dermatite de estase.
- Prescrever anti-inflamatório e mascarar a evolução de uma infecção profunda.
- Esquecer de tratar a porta de entrada, sobretudo a micose interdigital.
- Não elevar o membro acometido nem controlar o edema.
- Usar cefalexina isolada em mordedura de cão ou gato, sem cobrir Pasteurella.
- Não programar reexploração cirúrgica após o primeiro desbridamento.
- Esquecer profilaxia antitetânica e, quando indicado, antirrábica.
- Não avaliar perfusão arterial na úlcera infectada do pé diabético.
Resumo do fluxo
- Avalie profundidade e velocidade: existe suspeita de infecção necrosante?
- SE HÁ SUSPEITA, ACIONE A CIRURGIA IMEDIATAMENTE — em paralelo à reanimação e ao antimicrobiano.
- Classifique o restante dos casos: purulenta ou não purulenta, leve, moderada ou grave.
- Drene toda coleção e envie material para cultura nos casos graves ou recorrentes.
- Colha hemoculturas nas formas graves, em imunossuprimidos e diante de exposição especial.
- Escolha o antimicrobiano pela purulência, gravidade e fatores de risco para MRSA.
- Marque a borda do eritema com data e hora, eleve o membro e reavalie pessoalmente.
- Reavalie em 48 a 72 horas: sem melhora, reveja diagnóstico, coleção não drenada e cobertura.
- Descalone com a cultura e encerre em 5 a 6 dias na celulite não complicada.
- Antes da alta: trate a porta de entrada, controle o edema e programe seguimento.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço, o antibiograma local e as bulas vigentes.
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- Ministério da Saúde (Brasil). Normas técnicas de profilaxia da raiva humana e de profilaxia antitetânica, documentos vigentes.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, escores e condutas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.
Informações rápidas
Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Reconhecer o necrosante
Dor desproporcional ao achado de pele é o alarme mais precoce. Some toxemia, progressão em horas, bolhas hemorrágicas, crepitação, anestesia cutânea e necrose. Escore normal e imagem sem alterações não afastam o diagnóstico.
Classificar
Purulenta — abscesso, furúnculo e carbúnculo: drenar e cobrir estafilococo. Não purulenta — celulite e erisipela: predominam estreptococos e a cobertura de MRSA geralmente é dispensável. A gravidade define via, internação e amplitude do espectro.
Operar cedo
O desbridamento precoce é a única intervenção com impacto consistente sobre mortalidade. Imagem não pode atrasar a sala em paciente instável. Programe reexploração em 12 a 24 horas — vários desbridamentos são a regra.
Antibiótico certo
Na suspeita de necrosante: amplo espectro com cobertura gram-positiva resistente, gram-negativa e anaeróbia, associado a agente antitoxina — clindamicina ou linezolida. Na celulite não complicada, 5 a 6 dias bastam.
Números rápidos
Cirurgia: desbridamento precoce é a medida que muda mortalidade.
Reexploração: programada em 12 a 24 horas.
LRINEC: 0 a 5 baixo, 6 a 7 intermediário, 8 ou mais alto — não serve para excluir.
Celulite: 5 a 6 dias na forma não complicada com boa resposta.
Abscesso: drenagem é o tratamento; antibiótico só por critério.
Não esqueça
Dor desproporcional é o alarme mais precoce.
Escore normal não afasta infecção necrosante.
Imagem não pode atrasar o centro cirúrgico.
Celulite não purulenta raramente precisa de cobertura para MRSA.
Marque a borda do eritema com data e hora e reavalie pessoalmente.
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A banca cobra a dor desproporcional como sinal precoce, a limitação do LRINEC e a prioridade absoluta do desbridamento cirúrgico.
Decore: purulenta drena e cobre estafilococo; não purulenta é estreptococo; clindamicina ou linezolida como antitoxina; Pasteurella exige amoxicilina com clavulanato.
