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Hipertensão intracraniana

O crânio é uma caixa rígida com volume fixo. Enquanto há reserva, a pressão quase não sobe; esgotada a complacência, alguns mililitros a mais fazem a curva virar quase vertical e o paciente deteriora em minutos. O objetivo nunca é o número — é a perfusão cerebral e a prevenção da herniação.

Doutrina de Monro-Kellie PPC = PAM − PIC Tratamento escalonado Reconhecer a herniação
Tempo de leitura: 16 min
Atualizado em: 12/08/2026

Reconhecer

  • Cefaleia progressiva, pior pela manhã e ao decúbito
  • Vômitos, papiledema e paralisia do VI nervo
  • Rebaixamento com anisocoria é emergência
  • Tríade de Cushing é sinal tardio

Quantificar

  • PIC normal no adulto: 5–15 mmHg
  • Tratar acima de 20–22 mmHg sustentados
  • PPC = PAM − PIC, alvo de 60–70 mmHg
  • Ultrassom do nervo óptico como triagem

Escalonar

  • Medidas gerais primeiro — sempre
  • Cabeceira 30°, cabeça neutra, sedação e analgesia
  • Terapia osmótica e drenagem liquórica
  • Hiperventilação apenas como ponte

Tratar a causa

  • Hematoma, tumor e abscesso: cirurgia
  • Hidrocefalia: derivação ventricular
  • Corticoide só no edema vasogênico
  • Nenhuma medida clínica substitui a descompressão

Doutrina de Monro-Kellie

O crânio adulto é uma caixa rígida e de volume fixo, com três conteúdos: parênquima (cerca de 80%), sangue (cerca de 10%) e líquor (cerca de 10%). Como o volume total não pode aumentar, o crescimento de um componente — ou o surgimento de um quarto, como um hematoma ou um tumor — exige a redução de outro.

Nas fases iniciais, o organismo desloca líquor para o espaço subaracnóideo espinhal e reduz o volume sanguíneo venoso. É a fase de compensação, em que a pressão intracraniana permanece quase normal apesar do aumento de volume. Esgotada essa reserva, pequenos incrementos produzem grandes elevações de pressão: a curva pressão-volume vira quase vertical.

É por isso que o paciente "estável" deteriora subitamente. A ausência de sintomas não significa ausência de risco: significa que a reserva ainda não acabou.

Da pressão ao fluxo

O que importa não é a pressão isolada, e sim o fluxo sanguíneo que chega ao encéfalo. A variável que traduz isso é a pressão de perfusão cerebral:

PPC = PAM − PIC

Pressão intracraniana normal no adulto: 5 a 15 mmHg. Trata-se acima de 20 a 22 mmHg de forma sustentada. O alvo habitual de PPC é 60 a 70 mmHg — valores muito acima disso, obtidos apenas à custa de volume e vasopressor, aumentam complicações sem benefício.

A autorregulação cerebral mantém o fluxo constante em uma ampla faixa de PPC. Após lesão encefálica, ela se perde total ou parcialmente — e o fluxo passa a depender diretamente da pressão sistêmica. Daí a regra: hipotensão é veneno para o cérebro lesado.

Os quatro compartimentos que aumentam

  • Parênquima — edema citotóxico (isquemia, hipóxia, hiponatremia) e vasogênico (tumor, abscesso, inflamação).
  • Sangue — hematomas, hiperemia, hipercapnia, obstrução da drenagem venosa jugular.
  • Líquor — hidrocefalia obstrutiva ou comunicante, hiperprodução, redução da absorção.
  • Massa — tumor, abscesso, granuloma, cisto.

Tipos de edema cerebral

  • Citotóxico — falência da bomba de sódio e potássio; a barreira hematoencefálica está íntegra. Não responde a corticoide.
  • Vasogênico — ruptura da barreira, com extravasamento de proteínas e água. Responde a corticoide.
  • Intersticial — transudação de líquor no interstício periventricular na hidrocefalia.

Os círculos viciosos

A hipertensão intracraniana se autoperpetua por dois mecanismos que precisam ser reconhecidos e interrompidos.

Isquemia e edema

O aumento da pressão reduz a perfusão; a isquemia gera edema citotóxico; o edema aumenta o volume e eleva ainda mais a pressão.

Vasodilatação em cascata

A queda da pressão de perfusão provoca vasodilatação compensatória; o aumento do volume sanguíneo cerebral eleva a pressão intracraniana, reduzindo ainda mais a perfusão.

Papel do CO₂

A hipercapnia é potente vasodilatador cerebral e eleva rapidamente a pressão. A hipocapnia faz o oposto — e é justamente por isso que a hiperventilação funciona e, ao mesmo tempo, é perigosa.

Drenagem venosa

Qualquer obstrução ao retorno venoso jugular — colar apertado, cabeça rodada, tosse, pressão intratorácica elevada — aumenta a pressão intracraniana de forma imediata.

Boa parte do tratamento consiste em desfazer esses círculos: garantir a pressão de perfusão, normalizar a PaCO₂, liberar a drenagem venosa e tratar dor, tosse e agitação.

As três perguntas

Existe hipertensão intracraniana?

Suspeita clínica (cefaleia progressiva, vômitos, papiledema, rebaixamento), achados de imagem (apagamento de sulcos e cisternas, desvio de linha média, hidrocefalia) e, quando disponível, medida direta da pressão.

Qual é a causa?

Tumor, hematoma, isquemia extensa, hidrocefalia, infecção, trombose venosa, encefalopatia hepática, causa metabólica ou forma idiopática. A causa determina o tratamento definitivo.

Há herniação em curso?

Deterioração aguda com anisocoria, postura anormal ou queda rápida do nível de consciência exige tratamento imediato — antes da imagem confirmatória — e contato com a neurocirurgia.

Causas por compartimento

Compartimento Causas Tratamento definitivo
Massa Tumor primário ou metastático, abscesso cerebral, granuloma, cisto, empiema subdural. Ressecção ou drenagem; corticoide no edema vasogênico peritumoral; antibiótico no abscesso.
Sangue Hematoma extradural, subdural, intraparenquimatoso, hemorragia subaracnóidea, hemorragia intraventricular, transformação hemorrágica. Drenagem cirúrgica, controle pressórico, reversão de anticoagulação e tratamento do aneurisma quando aplicável.
Líquor Hidrocefalia obstrutiva (tumor de fossa posterior, estenose de aqueduto) ou comunicante (pós-hemorrágica, pós-meningite). Derivação ventricular externa ou derivação definitiva; tratamento da obstrução.
Parênquima — edema citotóxico Acidente vascular cerebral isquêmico extenso, encefalopatia hipóxico-isquêmica pós-parada, hiponatremia aguda, encefalopatia hepática, intoxicações. Tratamento da causa; osmoterapia; craniectomia descompressiva no infarto maligno.
Parênquima — edema vasogênico Tumor, abscesso, encefalite, síndrome da encefalopatia posterior reversível. Corticoide tem papel aqui — e apenas aqui.
Drenagem venosa Trombose venosa cerebral, síndrome da veia cava superior, obstrução jugular, trombose de seio. Anticoagulação na trombose venosa cerebral, mesmo com componente hemorrágico, conforme a avaliação especializada.
Idiopática Hipertensão intracraniana idiopática — mulheres jovens com sobrepeso, sem lesão estrutural. Perda de peso, acetazolamida, punções de alívio e cirurgia em casos refratários com perda visual.
Sistêmica Insuficiência hepática aguda, hipercapnia, crise hipertensiva com encefalopatia, hiponatremia, estado de mal epiléptico. Correção do distúrbio de base; suporte específico em terapia intensiva.
Regra de ouro: toda medida clínica é temporizadora. Osmoterapia, sedação e hiperventilação ganham tempo — quem resolve é o tratamento da causa.

Fatores que agravam de forma evitável

Hipercapnia

Vasodilatação cerebral com aumento imediato do volume sanguíneo. Hipoventilação, obstrução de via aérea e sedação excessiva são causas comuns.

Hiponatremia

Reduz a osmolalidade plasmática e puxa água para o parênquima. Evite soluções hipotônicas em qualquer paciente neurocrítico.

Febre

Aumenta o metabolismo cerebral, o fluxo sanguíneo e, por consequência, a pressão intracraniana.

Crises epilépticas

Elevam de forma abrupta a demanda metabólica. Inclui as crises não convulsivas, frequentemente despercebidas.

Dor, tosse e agitação

Picos pressóricos repetidos. Aspiração traqueal sem preparo é um gatilho clássico.

Obstrução venosa

Colar cervical apertado, fixação do tubo comprimindo o pescoço, cabeça rodada, decúbito horizontal e pressões intratorácicas elevadas.

Manifestações clássicas

Achado Características Observação
Cefaleia Progressiva, holocraniana, pior pela manhã e ao deitar; agrava com Valsalva, tosse e esforço evacuatório. Pode despertar o paciente à noite. Cefaleia que muda de padrão ou é "a pior da vida" exige investigação imediata.
Vômitos Frequentemente sem náusea precedente e em jato; aliviam pouco a cefaleia. Mais comum em lesões de fossa posterior e em crianças.
Papiledema Edema bilateral do disco óptico à fundoscopia; borramento das margens, elevação do disco e ingurgitamento venoso. Muito específico, porém pouco sensível na fase aguda — leva horas a dias para se instalar. Sua ausência não exclui.
Alterações visuais Obscurecimentos visuais transitórios, embaçamento, aumento da mancha cega, perda visual progressiva nos quadros crônicos. Na forma idiopática, a perda visual é a principal sequela a ser prevenida.
Paralisia do VI nervo Diplopia horizontal com déficit de abdução, uni ou bilateral. É um falso sinal localizatório: reflete o longo trajeto intracraniano do abducente, não a topografia da lesão.
Rebaixamento do nível de consciência Sonolência progressiva até o coma, com queda do escore motor do Glasgow. Marcador de gravidade e de esgotamento da reserva.
Tríade de Cushing Hipertensão arterial, bradicardia e respiração irregular. Sinal tardio, com a tríade completa presente na minoria. Não espere por ela para agir.
Em lactentes, a fontanela aberta permite acomodação: o quadro se manifesta como abaulamento da fontanela, aumento do perímetro cefálico, disjunção de suturas, irritabilidade, vômitos e sinal do sol poente (desvio conjugado do olhar para baixo).

Exame dirigido à beira do leito

  • Nível de consciência pelo Glasgow, registrado por componentes e com horário — a tendência vale mais que o valor isolado.
  • Pupilas: tamanho, simetria e reatividade. Anisocoria nova é herniação até prova em contrário.
  • Fundoscopia: procure papiledema; a ausência de pulso venoso espontâneo é um sinal precoce, embora ausente em parte das pessoas normais.
  • Motricidade ocular: déficit de abdução (VI nervo), paralisia do olhar vertical (compressão mesencefálica).
  • Padrão respiratório: Cheyne-Stokes, hiperventilação central, apnêustico e atáxico marcam níveis progressivamente mais baixos.
  • Resposta motora: assimetria, decorticação (flexão) e descerebração (extensão).
  • Reflexos de tronco: corneopalpebral, oculocefálico (contraindicado se houver suspeita de lesão cervical), oculovestibular e de tosse.
Punção lombar é contraindicada diante de suspeita de lesão expansiva com efeito de massa ou de hipertensão intracraniana com risco de herniação. Faça imagem antes — e nunca atrase o antibiótico na suspeita de meningite por causa da imagem.

Síndromes de herniação

Quando o volume aumenta em um compartimento, o tecido é empurrado através das aberturas rígidas da dura-máter e do crânio. Cada padrão tem uma assinatura clínica.

Tipo Mecanismo Quadro clínico Observação
Uncal
(transtentorial lateral)
O úncus do lobo temporal desloca-se sobre a incisura tentorial, comprimindo o III nervo e o mesencéfalo. Midríase fixa ipsilateral, rebaixamento progressivo e hemiparesia habitualmente contralateral. Padrão mais reconhecível. Emergência neurocirúrgica.
Central
(transtentorial descendente)
Deslocamento caudal do diencéfalo e do tronco. Deterioração rostrocaudal ordenada: pupilas pequenas e reativas evoluindo para médias e fixas, mudança progressiva do padrão respiratório e motor. Evolução mais lenta e por etapas.
Subfalcina
(cingulada)
O giro do cíngulo passa sob a foice do cérebro. Frequentemente pouco sintomática; pode causar infarto da artéria cerebral anterior com fraqueza de membro inferior. Corresponde ao desvio de linha média na tomografia.
Tonsilar As tonsilas cerebelares descem pelo forame magno e comprimem o bulbo. Rigidez de nuca, cefaleia occipital, apneia súbita, instabilidade hemodinâmica e parada cardiorrespiratória. É a herniação temida após punção lombar indevida.
Transtentorial ascendente Massa de fossa posterior empurra o cerebelo para cima através da incisura. Rebaixamento, alterações pupilares e sinais de compressão mesencefálica. Pode ser precipitada por drenagem ventricular sem tratar a lesão de fossa posterior.
Transcalvarial Herniação do parênquima através de defeito ósseo, cirúrgico ou traumático. Abaulamento visível na região da craniectomia. Sinal de pressão elevada apesar da descompressão.

O que fazer diante de deterioração aguda

Deterioração aguda é queda de 2 ou mais pontos no Glasgow, anisocoria nova, postura anormal ou piora rápida do exame. A resposta é imediata e não espera imagem.

  1. Chame ajuda e acione a neurocirurgia no mesmo momento em que inicia as medidas.
  2. Cabeceira a 30°, cabeça em posição NEUTRA, e retire tudo que comprima o pescoço — colar, fixação do tubo, cadarços.
  3. Garanta via aérea, oxigenação e ventilação; alvo de PaCO₂ de 35 a 45 mmHg.
  4. Corrija a hipotensão: a pressão de perfusão cerebral depende diretamente da pressão arterial média.
  5. Aprofunde a sedação e a analgesia; trate tosse, agitação e assincronia.
  6. Terapia osmótica: salina hipertônica ou manitol, conforme a volemia, o sódio e a disponibilidade.
  7. Drenagem liquórica se houver derivação ventricular externa disponível.
  8. Hiperventilação leve (PaCO₂ 30–35 mmHg) apenas como ponte, por minutos, até a medida definitiva.
  9. Trate causas contribuintes: crise epiléptica, febre, hiponatremia, hipercapnia.
  10. Tomografia assim que o paciente estiver minimamente estável, com equipe acompanhando.
A janela é de minutos. Cada etapa acima pode ser iniciada em paralelo por membros diferentes da equipe — não execute em sequência quando houver pessoal disponível.

Imagem

Método O que procurar Limitações
Tomografia sem contraste Apagamento de sulcos corticais, compressão ou ausência das cisternas basais, desvio de linha média, hidrocefalia, perda da diferenciação entre substância branca e cinzenta, lesão expansiva. Exame de escolha na urgência. Pode ser pouco alterada em fases iniciais e em causas difusas.
Ressonância magnética Caracteriza a lesão, o tipo de edema e o acometimento de tronco; sequências venosas avaliam trombose. Menos disponível na urgência e exige paciente estável e cooperativo ou sedado.
Angiotomografia ou angiorressonância venosa Trombose venosa cerebral, causa subdiagnosticada de hipertensão intracraniana. Deve ser solicitada ativamente — não aparece na tomografia simples na maioria dos casos.
Tomografia normal não exclui hipertensão intracraniana. Em quadro clínico compatível, mantenha a suspeita e prossiga a investigação — inclusive com medida direta da pressão quando indicado.

Métodos não invasivos à beira do leito

Ultrassom do nervo óptico

O diâmetro da bainha do nervo óptico, medido a 3 mm posteriormente ao globo, aumenta com a pressão intracraniana. Limiares descritos giram em torno de 5 a 5,7 mm no adulto e cerca de 5,2 mm em protocolos pediátricos. É triagem, não substituto da medida direta.

Fundoscopia

Papiledema é muito específico, mas leva horas a dias para surgir. Útil sobretudo nos quadros subagudos e crônicos.

Doppler transcraniano

Índice de pulsatilidade elevado e queda da velocidade diastólica sugerem pressão elevada. Operador-dependente e com correlação apenas moderada.

Pupilometria automatizada

O índice pupilar neurológico quantifica a reatividade e detecta deterioração antes de ela ser perceptível ao exame manual, onde disponível.

Monitorização invasiva

Dispositivo Características Considerações
Cateter intraventricular
(derivação ventricular externa)
Padrão de referência. Mede a pressão e permite drenagem liquórica terapêutica. Pode ser recalibrado. Maior risco de infecção e de hemorragia; punção difícil quando os ventrículos estão colabados.
Cateter intraparenquimatoso Inserção mais simples e menor risco de infecção. Não permite drenagem e pode apresentar desvio de zero ao longo dos dias.
Quando indicar Depende da etiologia e do protocolo institucional. No traumatismo cranioencefálico grave, a indicação clássica é Glasgow ≤ 8 após ressuscitação com tomografia anormal. Em outras causas, considere quando o exame neurológico não é avaliável (sedação profunda, bloqueio neuromuscular) e a informação mudaria a conduta.
Limiares Tratar pressão intracraniana acima de 20 a 22 mmHg sustentada; manter pressão de perfusão cerebral entre 60 e 70 mmHg. Interprete sempre em conjunto com o exame clínico e a imagem.
Onde a monitorização invasiva não está disponível, um protocolo clínico e tomográfico bem executado continua sendo eficaz. O que muda desfecho é a sistematização do cuidado, não o dispositivo em si.

Calculadora — PAM, PPC e leitura da PIC

PAM estimada PPC = PAM − PIC Alvo de 60–70 mmHg

PAM estimada por PAD + (PAS − PAD) / 3. Na pressão arterial invasiva, zere o transdutor no meato acústico externo quando o objetivo for calcular a pressão de perfusão cerebral — zerar na linha axilar média superestima a PPC.

PAM estimada
92 mmHg
PPC
68 mmHg
Leitura da PIC
Interpretação
Ferramenta de apoio. Os alvos são orientadores e devem ser individualizados conforme a etiologia, a autorregulação e o quadro clínico. Elevar a PPC muito acima de 70 mmHg apenas à custa de volume e vasopressor aumenta complicações respiratórias sem benefício demonstrado.

Escalonamento por níveis

O tratamento é organizado em degraus. Só se sobe quando o degrau anterior foi otimizado — e cada nível acima carrega mais risco e menos evidência.

0

Medidas gerais — para todos, sempre

  • Cabeceira a 30°, cabeça em posição neutra, sem rotação lateral.
  • Nada comprimindo o pescoço: colar bem ajustado, fixação do tubo sem estrangular.
  • Sedação e analgesia adequadas; tratar tosse, agitação e assincronia com o ventilador.
  • Normocapnia (PaCO₂ 35–45 mmHg) e SpO₂ ≥ 94%.
  • Normotermia: tratar febre ativamente com antitérmico e medidas físicas.
  • Sódio normal a discretamente elevado; evitar soluções hipotônicas.
  • Normoglicemia; tratar crises epilépticas, inclusive as não convulsivas.
  • Manter PPC entre 60 e 70 mmHg, corrigindo a hipotensão com prioridade.
  • Evitar constipação, retenção urinária e outros gatilhos de Valsalva.
1

Primeiro nível

  • Terapia osmótica: salina hipertônica ou manitol, conforme volemia, sódio e função renal.
  • Drenagem liquórica pela derivação ventricular externa, quando disponível.
  • Aprofundar sedação; bolus de bloqueador neuromuscular se houver tosse ou assincronia.
  • Reavaliar a indicação cirúrgica: nova imagem se houver dúvida sobre lesão expansiva.
2

Segundo nível

  • Hiperventilação leve (PaCO₂ 32–35 mmHg), monitorizada e por tempo limitado.
  • Bloqueio neuromuscular contínuo, com sedação profunda garantida.
  • Otimização da PPC com vasopressor, evitando excesso de volume.
  • Terapia osmótica em esquema mais intensivo, com metas de sódio definidas.
  • Avaliação neurocirúrgica formal quanto à descompressão.
3

Terceiro nível — refratário

  • Coma barbitúrico, com estabilidade hemodinâmica assegurada e monitorização eletroencefalográfica.
  • Craniectomia descompressiva ampla, discutida caso a caso.
  • Hipotermia terapêutica: não recomendada de forma profilática; considerada apenas como resgate em protocolos específicos.
  • Reavaliar metas de cuidado com a família diante de prognóstico reservado.
Antes de subir qualquer degrau, refaça a lista básica: cabeceira elevada? algo comprimindo o pescoço? sedação adequada? PaCO₂ no alvo? sódio normal? febre tratada? crise epiléptica excluída? lesão cirúrgica não drenada?

Calculadora — terapia osmótica e osmolalidade

Dose por peso Manitol e salina hipertônica Osmolalidade calculada

O manitol a 20% contém 200 mg/mL (0,2 g/mL). Osmolalidade calculada = 2 × Na + glicose/18 + ureia/6, com valores em mg/dL. Se o laboratório informar nitrogênio ureico, use BUN/2,8.

Manitol 20%
Salina hipertônica
Osmolalidade calculada
Leitura rápida
Ferramenta de apoio. Monitorize sódio, osmolalidade, cloro, função renal e volemia. O manitol causa diurese e pode agravar a hipotensão; a salina hipertônica expande o intravascular e é frequentemente preferida no paciente hipotenso ou politraumatizado. Evite elevar o sódio de forma abrupta em paciente com hiponatremia crônica.
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, alvo e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional e a apresentação disponível no seu serviço.

Terapia osmótica e medidas clínicas

Reduzem o volume cerebral e a demanda metabólica. Ganham tempo — não substituem a drenagem de uma lesão cirúrgica.

Intervenções neurocirúrgicas

São o que efetivamente resolve o problema quando existe uma causa mecânica. Devem ser discutidas cedo, e não depois de esgotado o arsenal clínico.

Situações com manejo próprio

Cenário Particularidade O que fazer diferente
Hipertensão intracraniana idiopática Mulheres jovens com sobrepeso, cefaleia, obscurecimentos visuais e papiledema, com imagem sem lesão estrutural e líquor de composição normal com pressão de abertura elevada. Perda de peso, acetazolamida, punções de alívio e, na perda visual progressiva, fenestração da bainha do nervo óptico, derivação ou stent venoso. O foco é preservar a visão.
Infarto cerebral maligno Oclusão de artéria cerebral média com edema progressivo entre o segundo e o quinto dia, com deterioração e herniação. Vigilância neurológica intensiva e craniectomia descompressiva precoce em pacientes selecionados, discutida com o paciente e a família quanto ao desfecho funcional esperado.
Hemorragia subaracnóidea Hidrocefalia aguda é causa frequente e rapidamente reversível de rebaixamento. Derivação ventricular externa precoce; controle pressórico até o tratamento do aneurisma; vigilância de ressangramento e de isquemia tardia.
Trombose venosa cerebral Causa subdiagnosticada; cursa com cefaleia progressiva, crises epilépticas, déficit focal e papiledema, com ou sem infarto venoso hemorrágico. Anticoagulação, mesmo na presença de componente hemorrágico, conforme avaliação especializada. Peça angiotomografia ou angiorressonância venosa ativamente.
Insuficiência hepática aguda Edema cerebral por hiperamonemia e edema citotóxico astrocitário; risco maior com amônia muito elevada. Suporte em terapia intensiva, controle da amônia, salina hipertônica com metas de sódio, evitar hiponatremia e discussão precoce de transplante hepático.
Meningite e encefalite Hipertensão intracraniana associada a edema e a hidrocefalia; risco de herniação com a punção lombar. Imagem antes da punção nos casos com déficit focal, rebaixamento, crise ou imunossupressão — sem atrasar o antibiótico. Dexametasona conforme a etiologia bacteriana.
Criança Fontanela aberta permite acomodação; sinais são inespecíficos (irritabilidade, vômitos, abaulamento da fontanela, sinal do sol poente). Limiares de pressão e doses ajustados por peso; alta suspeição para hidrocefalia, disfunção de derivação e maus-tratos.
Portador de derivação ventricular Disfunção da válvula é causa comum de descompensação, muitas vezes com apresentação arrastada. Imagem comparativa com exame prévio, avaliação do trajeto da derivação e contato com a neurocirurgia — a punção da válvula é procedimento do especialista.
Pós-parada cardiorrespiratória Edema cerebral hipóxico-isquêmico difuso, com perda da diferenciação entre substância branca e cinzenta. Controle direcionado de temperatura, normocapnia, evitar hipotensão e hiperóxia, e adiar o prognóstico neurológico conforme os protocolos vigentes.
Gestante Diferenciais próprios: eclâmpsia, síndrome da encefalopatia posterior reversível, trombose venosa cerebral e apoplexia hipofisária. Avaliação obstétrica imediata, sulfato de magnésio na eclâmpsia e não postergar a imagem necessária.

Erros comuns

  • Esperar a tríade de Cushing para agir — é sinal tardio.
  • Manter o paciente em decúbito horizontal ou com a cabeça rodada.
  • Não checar o que comprime o pescoço: colar, cadarço do tubo, fixações.
  • Usar soluções hipotônicas ou tolerar hiponatremia.
  • Hiperventilar de forma profilática e prolongada.
  • Prescrever corticoide em edema citotóxico — no traumatismo cranioencefálico, é contraindicado.
  • Realizar punção lombar sem imagem diante de sinais de efeito de massa.
  • Escalonar a terapia osmótica sem antes otimizar as medidas gerais.
  • Não procurar crise epiléptica não convulsiva no paciente que não desperta.
  • Deixar de reavaliar a indicação cirúrgica quando o paciente não responde.
  • Ignorar febre e dor como causas de elevação da pressão.
  • Sedar sem antes documentar Glasgow por componentes e exame pupilar.

Resumo do fluxo

  1. Suspeite pelo quadro clínico e pelo contexto; documente Glasgow por componentes e pupilas com horário.
  2. Estabilize via aérea, oxigenação, ventilação e pressão arterial antes de qualquer outra coisa.
  3. Aplique as medidas gerais: cabeceira a 30°, cabeça neutra, nada comprimindo o pescoço, sedação e analgesia.
  4. Solicite tomografia de crânio e defina a causa; peça estudo venoso quando houver suspeita de trombose.
  5. Deterioração aguda com sinais de herniação: trate imediatamente e acione a neurocirurgia, sem esperar a imagem.
  6. Escalone por níveis, revisando as medidas gerais antes de cada degrau.
  7. Trate a causa: drenagem, ressecção, derivação ventricular, anticoagulação ou antimicrobiano.
  8. Mantenha as metas fisiológicas e reavalie o exame neurológico de forma seriada, registrando os horários.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

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Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, limiares e condutas cirúrgicas devem ser sempre conferidos antes da aplicação.

Números rápidos

PIC

Normal 5–15 mmHg; tratar acima de 20–22 mmHg sustentados.

PPC

PAM − PIC; alvo de 60–70 mmHg.

PaCO₂

35–45 mmHg; hiperventilação só como ponte (32–35 mmHg).

Osmoterapia

NaCl 3% 3–5 mL/kg ou manitol 0,25–1 g/kg.

Em provas / residência

A banca cobra a doutrina de Monro-Kellie, a fórmula PPC = PAM − PIC e o reconhecimento da herniação uncal pela midríase fixa ipsilateral.

Decore: corticoide serve no edema vasogênico e é contraindicado no TCE; hiperventilação é ponte; punção lombar é contraindicada diante de efeito de massa.

Mais informações nas abas do artigo.

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