Estado de Mal Epiléptico
É uma emergência com relógio próprio. A partir de cinco minutos de crise, os receptores GABA-A são internalizados e os receptores NMDA migram para a membrana: a crise deixa de responder ao benzodiazepínico e passa a se autoalimentar. O erro que mais mata não é escolher a droga errada — é subdosar e demorar. Cada fase tem um tempo, uma droga e uma dose cheia.
Marque o relógio
- Crise tônico-clônica > 5 min já é estado de mal
- Cronômetro visível para toda a equipe
- Ações em paralelo, nunca em sequência
- Tempo até o primeiro benzo define o desfecho
Benzo em dose cheia
- Diazepam 0,15 a 0,2 mg/kg IV (até 10 mg)
- Midazolam 0,2 mg/kg IV ou 10 mg IM sem acesso
- Repetir uma vez em 3 a 5 minutos
- Subdose é o erro mais comum de todos
Segunda linha completa
- Fenitoína 20 mg/kg, levetiracetam 60 mg/kg
- Valproato 40 mg/kg — eficácia equivalente
- Já preparar enquanto corre o benzodiazepínico
- Dose cheia importa mais do que qual droga
Refratário: intubar e sedar
- Falha de benzo mais uma segunda linha = refratário
- Midazolam, propofol, quetamina ou tiopental
- Doses anestésicas, com vasopressor preparado
- EEG contínuo para guiar meta e desmame
O que é estado de mal epiléptico
Estado de mal epiléptico é a condição em que os mecanismos responsáveis por encerrar uma crise epiléptica falham, ou em que se ativam mecanismos que a perpetuam. A definição operacional da Liga Internacional contra a Epilepsia trabalha com dois tempos distintos: um tempo a partir do qual a crise deve ser tratada como estado de mal e outro a partir do qual há risco de lesão neuronal.
Momento em que a crise provavelmente não vai parar sozinha e o tratamento deve ser iniciado. Na crise tônico-clônica generalizada é de 5 minutos; na crise focal com alteração da consciência, de 10 minutos; na crise de ausência, de 10 a 15 minutos.
Momento a partir do qual há risco de lesão neuronal e de sequela de longo prazo. Na crise tônico-clônica generalizada é de 30 minutos; na crise focal com alteração da consciência, de mais de 60 minutos; na ausência, ainda indefinido.
Na prática do plantão, a regra é mais simples do que a definição: paciente que ainda está convulsionando quando você chega ao leito deve ser tratado como estado de mal. A maioria das crises isoladas cessa em 1 a 3 minutos; esperar para "ver se para sozinha" só transforma uma crise tratável em uma crise farmacorresistente.
Por que o tempo importa tanto
A janela terapêutica se fecha por um mecanismo molecular bem descrito, e é ele que justifica toda a lógica de escalonamento:
- Internalização dos receptores GABA-A — em minutos, os receptores inibitórios são retirados da membrana sináptica por endocitose. Esse é o motivo pelo qual o benzodiazepínico perde eficácia progressivamente: a droga continua a mesma, mas o alvo desaparece.
- Migração dos receptores NMDA para a sinapse — em paralelo, receptores excitatórios são recrutados para a membrana, aumentando a excitabilidade. É o racional fisiopatológico do uso da quetamina nas fases tardias.
- Falência da compensação sistêmica — nos primeiros 30 minutos há hipertensão, taquicardia, hiperglicemia e acidose láctica compensadas. Depois disso vem hipotensão, hipoglicemia, hipertermia, hipóxia, rabdomiólise e lesão neuronal excitotóxica.
- Dissociação eletroclínica — a manifestação motora se esgota antes da atividade elétrica. O paciente para de convulsionar, mas o cérebro continua em crise: é o estado de mal não convulsivo.
O que muda com o passar dos minutos
- 0 a 5 minutos — resposta ao benzodiazepínico ainda é alta; é aqui que se ganha o caso.
- 5 a 30 minutos — resposta cai de forma acentuada a cada minuto adicional; a segunda linha já deveria estar correndo.
- Após 30 minutos — a chance de controle com medicação não anestésica cai muito, e começam a aparecer lesão neuronal, hipertermia e instabilidade.
- Após 24 horas de anestésico — entra-se no território do super-refratário, com mortalidade elevada e necessidade de terapias de exceção.
Trate o estado de mal como se trata a fibrilação ventricular: o desfecho depende muito mais da velocidade da intervenção do que da elegância da escolha farmacológica. Ninguém discute qual antiarrítmico usar enquanto o desfibrilador não chega.
Impacto clínico
O estado de mal epiléptico é uma das emergências neurológicas mais letais e, ao mesmo tempo, uma das mais dependentes de organização assistencial. A etiologia é o principal determinante de prognóstico, mas duração da crise e adequação do tratamento inicial são os fatores sobre os quais o plantonista tem controle direto.
Cerca de 10 a 40 casos por 100 mil pessoas por ano, com curva bimodal nos extremos de idade.
Faixa aproximada de 7% a 33%, muito dependente da etiologia e da idade.
Cerca de 40% dos casos não cessam com o benzodiazepínico e evoluem para estado de mal estabelecido.
Aproximadamente metade dos casos estabelecidos não é controlada pela segunda linha e se torna refratária.
Mortalidade substancialmente maior e alta taxa de sequela funcional e cognitiva.
As quatro fases do tratamento
Toda a conduta do artigo se organiza em torno de quatro fases sequenciais, definidas pelo tempo decorrido e pela resposta ao tratamento anterior. Cada fase tem um grupo de drogas, uma dose-alvo e um objetivo próprio.
Estabilização e benzodiazepínico
0 a 5 minVias aéreas, oxigênio, monitorização, acesso, glicemia capilar e benzodiazepínico em dose cheia, com uma repetição possível. Em paralelo, coleta de exames e correção de hipoglicemia.
Estado de mal estabelecido — segunda linha
5 a 20 minAnticonvulsivante endovenoso em dose de ataque completa: fenitoína, levetiracetam, valproato, lacosamida ou fenobarbital. As três primeiras opções têm eficácia equivalente no estudo ESETT.
Estado de mal refratário — anestésicos
20 a 40 minFalha do benzodiazepínico associada à falha de pelo menos uma segunda linha em dose adequada. Exige intubação, infusão contínua de anestésico e monitorização eletroencefalográfica.
Super-refratário
> 24 hPersistência ou recorrência das crises após 24 horas de anestésico, inclusive durante o desmame. Aqui entram imunoterapia, dieta cetogênica, quetamina em dose alta e medidas de exceção.
Classificação por semiologia
A classificação da Liga Internacional contra a Epilepsia organiza o estado de mal por quatro eixos: semiologia, etiologia, achados eletroencefalográficos e idade. Para a beira do leito, o eixo que mais muda a conduta imediata é a presença ou ausência de sintomas motores proeminentes.
| Tipo | Apresentação | Implicação prática |
|---|---|---|
| Convulsivo generalizado | Crise tônico-clônica bilateral, com perda de consciência, sialorreia, cianose e liberação esfincteriana. | É a forma de maior risco imediato de lesão. Trate de forma agressiva desde o primeiro minuto. |
| Focal motor | Abalos clônicos restritos a um segmento corporal, com ou sem alteração da consciência. Inclui a epilepsia parcial contínua. | Risco sistêmico menor, mas exige investigação estrutural. A epilepsia parcial contínua é notoriamente refratária. |
| Não convulsivo com coma | Paciente comatoso sem manifestação motora evidente, com crises eletrográficas contínuas. | Forma de pior prognóstico. Só é diagnosticada com eletroencefalograma — pense nela em todo coma inexplicado. |
| Não convulsivo sem coma | Confusão, afasia, automatismos, alteração comportamental ou "estado de ausência" prolongado. | Frequentemente confundida com delirium, quadro psiquiátrico ou intoxicação. Baixo limiar para eletroencefalograma. |
| Mioclônico | Mioclonias multifocais, com ou sem coma. Comum no contexto pós-parada cardiorrespiratória. | No pós-anóxico reflete a gravidade da lesão; a prognosticação exige avaliação multimodal, e não apenas o padrão motor. |
| Sutil | Desvio ocular, nistagmo, piscamento rítmico, abalos de face ou de dedos em paciente que "parou de convulsionar". | É o estado de mal convulsivo em fase tardia, com dissociação eletroclínica. Não é pós-ictal. |
Classificação por resposta ao tratamento
É essa classificação que define em qual fase da conduta o paciente está — e ela depende de doses adequadas. Um paciente que recebeu 5 mg de diazepam e 300 mg de fenitoína não é refratário: é subtratado.
| Estágio | Definição | Conduta correspondente |
|---|---|---|
| Iminente / inicial | Crise contínua que ultrapassa o tempo t1 (5 minutos na tônico-clônica). | Fase 1: benzodiazepínico em dose plena. |
| Estabelecido | Crise que persiste após dose adequada de benzodiazepínico. | Fase 2: segunda linha endovenosa em dose de ataque completa. |
| Refratário | Crise que persiste apesar de benzodiazepínico e de pelo menos uma segunda linha, ambos em dose adequada. | Fase 3: intubação e anestésico em infusão contínua, com eletroencefalograma. |
| Super-refratário | Crise que persiste ou recorre 24 horas ou mais após o início do anestésico, incluindo durante a retirada. | Fase 4: terapias adjuvantes, imunoterapia, dieta cetogênica e reinvestigação etiológica. |
| NORSE e FIRES | Estado de mal refratário de início novo em paciente sem epilepsia prévia e sem causa identificada nas primeiras 48 horas. FIRES é o subtipo precedido por febre. | Investigação ampla de encefalite autoimune e paraneoplásica, com imunoterapia precoce. |
Causas — o que procurar
A etiologia é o principal determinante do prognóstico e, em boa parte dos casos, o tratamento definitivo. A investigação corre em paralelo ao tratamento farmacológico, nunca no lugar dele.
Causa mais frequente em quem já tem epilepsia: má adesão, interação medicamentosa, vômito, diarreia, uso de indutores enzimáticos. Colher nível sérico quando disponível.
Hipoglicemia, hiponatremia, hipocalcemia, hipomagnesemia, uremia, insuficiência hepática, hipóxia e hipercapnia. São causas rapidamente reversíveis e devem ser rastreadas na primeira gasometria.
Acidente vascular cerebral isquêmico e hemorrágico, hemorragia subaracnóidea, trombose venosa cerebral, traumatismo cranioencefálico, tumor e hipertensão intracraniana.
Meningite, encefalite (sobretudo herpética), abscesso, neurocisticercose e neurossífilis. Em área endêmica, considerar também arboviroses e malária cerebral.
Abstinência de álcool ou de benzodiazepínico, cocaína, tramadol, bupropiona, teofilina, antidepressivos tricíclicos, isoniazida e organofosforados.
Encefalites por anticorpo anti-NMDA, anti-LGI1, anti-GABA-B e anti-CASPR2. Suspeitar em jovens com quadro subagudo, alteração comportamental e crises refratárias.
Gestante ou puérpera até 6 semanas com crise convulsiva. O tratamento é sulfato de magnésio, e não o anticonvulsivante habitual.
Após parada cardiorrespiratória. Prognóstico reservado, mas a decisão não deve se basear em um único achado isolado nem ser tomada precocemente.
Diagnóstico diferencial
| Condição | Pistas a favor | Como confirmar |
|---|---|---|
| Crise psicogênica não epiléptica | Movimentos assíncronos e variáveis, movimento pélvico, olhos fechados com resistência à abertura, ausência de cianose, duração longa com recuperação rápida, choro pós-evento. | Eletroencefalograma durante o evento, sem correlato elétrico. Lactato e prolactina podem ajudar, mas não decidem. |
| Síncope convulsiva | Poucos abalos, breves, precedidos de pródromo vasovagal e recuperação imediata. | História detalhada com testemunha; eletrocardiograma obrigatório. |
| Tremores e calafrio | Nível de consciência preservado, movimento sem fase tônica. | Exame clínico; procurar sepse e hipotermia. |
| Encefalopatia metabólica | Flutuação, asterixe, mioclonias multifocais sem correlato elétrico ictal. | Eletroencefalograma com padrão lentificado; correção metabólica dirigida. |
| Postura de descerebração ou descorticação | Padrão estereotipado, desencadeado por estímulo, sem componente clônico. | Imagem urgente; considerar hipertensão intracraniana. |
| Distonia aguda por medicamento | Crise oculógira, trismo, torcicolo, com consciência preservada e uso recente de antipsicótico ou de antiemético. | Resposta rápida a anticolinérgico parenteral. |
Os primeiros cinco minutos
Tudo acontece ao mesmo tempo. Designe funções em voz alta, ligue um cronômetro visível e não deixe ninguém parado esperando a próxima ordem.
- Cronômetro — anuncie o horário de início da crise (ou o horário em que foi encontrada) e mantenha o tempo visível para toda a equipe.
- Via aérea e oxigênio — posicione a cabeça, aspire secreção, ofereça oxigênio suplementar, use cânula nasofaríngea se necessário. Não force abridor de boca nem introduza objetos.
- Monitorização — oximetria, cardioscopia, pressão arterial não invasiva e capnografia quando disponível.
- GLICEMIA CAPILAR IMEDIATA: hipoglicemia é causa reversível e frequente. Não espere o laboratório.
- Dois acessos venosos calibrosos — um deles reservado para a fenitoína, que é altamente irritante. Sem acesso em 2 a 3 minutos, use a via intramuscular.
- Benzodiazepínico em dose cheia — não fracione e não subdose. Deixe a segunda dose já aspirada.
- Exames em paralelo — gasometria com eletrólitos, sódio, cálcio iônico, magnésio, função renal e hepática, hemograma, lactato, creatinoquinase, beta-hCG em mulher em idade fértil e nível sérico do anticonvulsivante de uso habitual.
- Prepare a segunda linha — comece a diluição enquanto o benzodiazepínico ainda está correndo. Ela precisa estar pronta no minuto 5.
- Antecipe a hipotensão — quando a descarga adrenérgica da crise cessar, e sobretudo após anestésico, a pressão cai. Tenha noradrenalina montada.
Exames e imagem
Sempre
- Glicemia capilar imediata.
- Gasometria com eletrólitos, sódio, potássio, cálcio iônico, magnésio e fósforo.
- Ureia, creatinina, transaminases, bilirrubinas e amônia quando houver suspeita.
- Hemograma, lactato, creatinoquinase e função tireoidiana quando pertinente.
- Nível sérico do anticonvulsivante em uso, quando disponível.
- Beta-hCG em toda mulher em idade fértil.
- Triagem toxicológica conforme a suspeita clínica.
Conforme o contexto
- Tomografia de crânio — praticamente sempre no primeiro episódio, após a estabilização e o controle da crise.
- Ressonância magnética — quando a tomografia não explica o quadro e o paciente já está estável.
- Punção lombar — febre, imunossupressão, sinais meníngeos ou causa não esclarecida; após imagem quando houver indicação.
- Eletroencefalograma — indispensável em todo paciente que não recupera a consciência, em todo caso refratário e para guiar a titulação do anestésico.
- Painel autoimune e paraneoplásico — em NORSE, FIRES ou refratariedade sem causa.
Calculadora — em que fase estou e o que fazer agora
Informe há quanto tempo a crise está em curso e o que já foi feito em dose adequada. A ferramenta devolve o estágio correspondente e a próxima ação recomendada.
Via aérea — quando intubar
Indicações
- Crise persistente após benzodiazepínico e segunda linha completos.
- Necessidade de infusão contínua de anestésico.
- Apneia, hipoxemia refratária ou perda de reflexos protetores.
- Risco elevado de broncoaspiração.
- Necessidade de transporte para tomografia em paciente instável.
Sequência rápida
- Indução — propofol quando a pressão permite; quetamina quando a hemodinâmica é limítrofe. Ambos têm efeito anticonvulsivante e já contam como início da fase 3.
- Bloqueio neuromuscular — succinilcolina quando o início da crise é claramente recente, pelo tempo curto de ação que permite reavaliar a atividade motora. Rocurônio quando o tempo é incerto ou a crise é prolongada, lembrando que ele mascara a convulsão.
- Truque do torniquete — antes do rocurônio, aplique um torniquete no membro com abalos mais evidentes; ele impede a chegada do bloqueador àquele segmento e preserva um marcador visual grosseiro de crise em curso na ausência de eletroencefalograma.
- Depois de paralisar, você fica cego — a partir daí, apenas o eletroencefalograma informa se a crise cessou.
Calculadora — todas as doses por peso
Digite o peso e a calculadora devolve, para cada fase, a dose em miligramas, o volume da apresentação brasileira habitual, a diluição sugerida e a velocidade máxima de infusão. Os tetos de dose máxima são aplicados automaticamente.
Armadilhas de dose que mais aparecem
- Diazepam 5 mg e "vamos ver" — a dose de adulto é de 0,15 a 0,2 mg/kg, ou seja, 10 mg na maioria dos pacientes, com uma repetição possível.
- Levetiracetam 1 g fixo — a dose de ataque validada é de 60 mg/kg, o que para 70 kg significa 4200 mg. Um grama é dose de manutenção, não de ataque.
- Fenitoína 500 mg fixo — a dose de ataque é de 20 mg/kg, ou 1400 mg para 70 kg.
- Fenitoína em soro glicosado — precipita. Dilua exclusivamente em soro fisiológico a 0,9%.
- Fenitoína em bolus rápido — o veículo com propilenoglicol causa hipotensão e arritmia. Respeite o limite de 50 mg/min no adulto e de 25 mg/min no idoso ou cardiopata.
- Propofol em dose de sedação de rotina — na fase 3 são necessárias doses anestésicas, e não a sedação habitual de terapia intensiva.
- Esquecer a manutenção — após qualquer ataque, é obrigatório programar a dose de manutenção, sob risco de recidiva em poucas horas.
- Usar o peso "de olho" — em obesidade importante, discuta com a farmácia clínica o peso a ser usado para cada droga.
A escada completa, fase por fase
O tratamento do estado de mal é uma escada em que cada degrau tem tempo, droga e dose definidos. Subir devagar demais é o erro mais comum; pular degraus sem ter dado dose plena no anterior é o segundo.
- Fase 1 (0 a 5 min) — estabilização, glicemia e benzodiazepínico em dose cheia, com uma repetição possível.
- Fase 2 (5 a 20 min) — anticonvulsivante endovenoso em dose de ataque completa. Comece a preparar já no minuto 2.
- SE A CRISE PERSISTE APÓS BENZO E SEGUNDA LINHA EM DOSE ADEQUADA, O PACIENTE É REFRATÁRIO: intube e inicie anestésico em infusão contínua.
- Fase 3 (20 a 40 min) — midazolam, propofol, quetamina ou tiopental em infusão, com eletroencefalograma para definir a meta.
- Manter a manutenção — dois ou mais anticonvulsivantes de manutenção em nível terapêutico devem correr por baixo do anestésico, para permitir o desmame.
- Fase 4 (após 24 h de anestésico) — super-refratário: reinvestigar a etiologia, associar quetamina, considerar imunoterapia, dieta cetogênica e medidas de exceção.
- Desmame — após 24 a 48 horas de controle eletrográfico, reduzir o anestésico de forma gradual, sob eletroencefalograma contínuo.
- O tempo todo — tratar a causa, corrigir distúrbios metabólicos, controlar temperatura, prevenir rabdomiólise e manter suporte hemodinâmico.
Cada card abre o detalhamento completo: indicação, apresentação, dose, diluição, velocidade de infusão, manutenção, efeitos adversos e cuidados. Os cards estão agrupados na mesma ordem em que as drogas entram na escada terapêutica.
Fase 1 — Estabilização e benzodiazepínico (0 a 5 min)
Objetivo: interromper a crise antes que os receptores GABA-A sejam internalizados. Aqui a dose cheia e a rapidez valem mais do que a escolha entre um benzodiazepínico e outro. Corrija hipoglicemia em paralelo.
Fase 2 — Estado de mal estabelecido: segunda linha (5 a 20 min)
Objetivo: carregar o cérebro com um anticonvulsivante de longa duração em dose de ataque completa. Fenitoína, levetiracetam e valproato têm eficácia equivalente no estudo ESETT, com cerca de metade dos casos controlados. A escolha se faz por comorbidade, disponibilidade e velocidade de preparo.
Fase 3 — Estado de mal refratário: anestésicos em infusão (20 a 40 min)
Objetivo: abolir a atividade elétrica ictal. Exige intubação, ventilação mecânica, acesso central, vasopressor preparado e, idealmente, eletroencefalograma contínuo. A meta habitual é supressão das crises ou padrão de surto-supressão, mantida por 24 a 48 horas antes do desmame.
Fase 4 — Super-refratário e desmame (após 24 h de anestésico)
Objetivo: manter o controle enquanto se ataca a causa. Nesta fase, a reinvestigação etiológica vale tanto quanto o ajuste farmacológico — em especial a busca de encefalite autoimune, que muda o tratamento por completo.
Causas reversíveis com tratamento próprio
Em algumas situações o anticonvulsivante convencional é insuficiente ou até equivocado, e o tratamento correto é outro. Reconhecê-las cedo evita uma escalada inteira desnecessária.
Suporte que corre em paralelo
Antecipe a queda de pressão ao término da crise e após o anestésico. Noradrenalina montada desde o início; alvo de pressão arterial média conforme o contexto neurológico.
Hipertermia é comum e agrava a lesão neuronal. Trate de forma ativa e investigue infecção, sem assumir que a febre é apenas consequência da crise.
Dose creatinoquinase, mantenha diurese adequada e monitore potássio, fósforo e função renal.
Evite hiperventilação prolongada. Corrija acidose respiratória e mantenha a oxigenação; a acidose láctica da crise costuma resolver espontaneamente em cerca de uma hora.
Contínuo sempre que possível na fase 3 e obrigatoriamente em paciente sob bloqueio neuromuscular. Sem ele, a titulação do anestésico é adivinhação.
Programar a manutenção de todo anticonvulsivante carregado. Sem isso, a crise recidiva em horas quando o nível sérico cai.
Estado de mal não convulsivo
É a crise que continua depois que a convulsão acaba — ou que nunca teve convulsão nenhuma. Corresponde a uma parcela substancial dos casos de coma inexplicado em terapia intensiva e é sistematicamente subdiagnosticada, porque exige eletroencefalograma para ser confirmada.
Desvio tônico do olhar, nistagmo, piscamento rítmico, abalos discretos de face, dedos ou abdome, automatismos orais, mioclonias palpebrais e flutuação inexplicada do nível de consciência.
Paciente que não recupera nível de consciência esperado em cerca de uma hora após o controle da convulsão deve ser presumidamente tratado como em estado de mal não convulsivo.
Coma de causa indeterminada, pós-parada cardiorrespiratória, encefalite, hemorragia subaracnóidea, sepse com encefalopatia, pós-operatório de neurocirurgia e pós-estado de mal convulsivo.
Na ausência de eletroencefalograma, uma dose de benzodiazepínico com melhora clínica e eletroencefalográfica sustentada apoia o diagnóstico. Melhora apenas clínica, sem correlato elétrico, não confirma nada.
Agressividade do tratamento conforme o subtipo
Nem todo estado de mal não convulsivo pede coma barbitúrico. A intensidade do tratamento é calibrada pelo risco de lesão e pela condição de base.
| Situação | Risco | Abordagem |
|---|---|---|
| Sutil, após estado de mal convulsivo | Alto — é a continuação do estado de mal convulsivo, com dissociação eletroclínica. | Tratar com a mesma agressividade do convulsivo, incluindo anestésico quando necessário. |
| Não convulsivo em coma | Alto, com pior prognóstico entre todas as formas. | Escalonamento completo, com eletroencefalograma contínuo e etiologia como norteador. |
| Não convulsivo sem coma, tipo ausência | Baixo risco de lesão neuronal. | Benzodiazepínico e valproato costumam bastar; evitar coma induzido e seus riscos. |
| Focal com alteração da consciência | Intermediário, com risco maior quanto mais prolongado. | Segunda linha em dose plena; anestésico apenas se persistente e com risco identificado. |
| Epilepsia parcial contínua | Baixo risco sistêmico, alta refratariedade. | Otimizar drogas orais e endovenosas; a indução de coma raramente se justifica. |
| Mioclônico pós-anóxico | Reflete a gravidade da lesão cerebral prévia. | Tratar sem excesso e integrar a prognosticação em avaliação multimodal e tardia. |
Calculadora — STESS (gravidade do estado de mal)
O Status Epilepticus Severity Score é calculado com dados disponíveis antes do início do tratamento e estima a mortalidade hospitalar. Seu maior valor está no elevado valor preditivo negativo: escore favorável identifica com segurança quem vai sobreviver ao episódio.
O que mais pesa no prognóstico
- Etiologia — é o fator isolado mais importante. Nível baixo de anticonvulsivante e abstinência têm bom prognóstico; anóxia, encefalite e acidente vascular cerebral extenso, prognóstico reservado.
- Duração da crise — quanto mais prolongado o episódio, pior o desfecho funcional e cognitivo.
- Idade avançada — associada de forma consistente a maior mortalidade.
- Nível de consciência à admissão — estupor e coma indicam pior evolução.
- Refratariedade — a necessidade de anestésico marca um grupo de risco substancialmente maior.
- Adequação do tratamento inicial — o único desses fatores que está inteiramente sob controle da equipe.
Situações com manejo próprio
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Gestante com eclâmpsia | Crise em gestante após 20 semanas ou em puérpera até 6 semanas, com hipertensão e proteinúria. A fisiopatologia não é epiléptica. | Sulfato de magnésio é o tratamento, com controle pressórico em paralelo e resolução da gestação como conduta definitiva. Anticonvulsivante convencional é ineficaz e desnecessário. |
| Abstinência alcoólica | Crises tipicamente entre 6 e 48 horas da última dose, frequentemente múltiplas e generalizadas. | Benzodiazepínico é o tratamento, em dose generosa e guiada por sintomas. Tiamina antes da glicose. A fenitoína não previne a crise da abstinência. |
| Intoxicação por isoniazida | Crises refratárias com acidose metabólica, em paciente em tratamento de tuberculose. Depleção de piridoxina. | Piridoxina endovenosa em dose alta é o antídoto. Sem ela, a crise não cede a nenhuma escalada convencional. |
| Bloqueador de canal de sódio e tricíclicos | Crise associada a QRS alargado, arritmia e hipotensão. | Bicarbonato de sódio em bolus para alcalinização. Evitar fenitoína, que também bloqueia canal de sódio e pode agravar a cardiotoxicidade. |
| Hepatopatia grave | Metabolização comprometida e risco de encefalopatia. | Evitar valproato. Levetiracetam e lacosamida são as opções mais seguras; corrigir amônia e fatores precipitantes. |
| Doença renal crônica e diálise | Levetiracetam é dialisável e exige ajuste da manutenção; a fenitoína tem fração livre aumentada pela hipoalbuminemia. | Ajustar manutenção de levetiracetam e complementar dose após a sessão de diálise. Interpretar o nível de fenitoína pela fração livre. |
| Criança | Doses por peso, com tetos absolutos; via retal e intranasal são alternativas úteis quando não há acesso. | Diazepam retal ou midazolam intranasal ou bucal como resgate. Cuidado com valproato em menores de 2 anos, pelo risco de doença metabólica subjacente. |
| Pós-parada cardiorrespiratória | Mioclonias e crises eletrográficas são frequentes e refletem a lesão anóxica. | Tratar as crises, evitando excesso de sedação que impeça a avaliação. Não prognosticar precocemente nem com base em um único achado. |
| NORSE e FIRES | Estado de mal refratário de início novo, sem causa nas primeiras 48 horas; FIRES é precedido por febre. | Investigação autoimune e paraneoplásica ampla, com imunoterapia precoce e consideração de dieta cetogênica. |
| Epilepsia conhecida com nível baixo | Causa mais comum de estado de mal em quem já tem epilepsia. | Carregar a própria droga de uso habitual quando houver formulação parenteral e reintroduzir o esquema domiciliar, investigando a razão da má adesão. |
Erros comuns
- Esperar a crise "parar sozinha" além dos cinco minutos.
- Subdosar o benzodiazepínico, dando 5 mg de diazepam e reavaliando depois de dez minutos.
- Repetir benzodiazepínico três, quatro vezes sem nunca partir para a segunda linha.
- Dar a segunda linha em dose fixa e arredondada, ignorando o peso do paciente.
- Diluir fenitoína em soro glicosado, com precipitação da droga no equipo.
- Infundir fenitoína rápido demais, provocando hipotensão e arritmia.
- Não medir glicemia capilar nos primeiros minutos.
- Esquecer tiamina antes da glicose no etilista.
- Interromper o tratamento porque a convulsão cessou, sem avaliar se houve recuperação da consciência.
- Paralisar o paciente com bloqueador neuromuscular e considerar a crise resolvida.
- Usar propofol em dose de sedação de rotina na fase refratária.
- Não programar a dose de manutenção após a dose de ataque.
- Levar o paciente instável para a tomografia antes de controlar a crise.
- Não pedir beta-hCG e perder o diagnóstico de eclâmpsia.
- Rotular como refratário quem foi apenas subtratado.
- Demorar semanas para pensar em encefalite autoimune no jovem refratário.
Resumo do fluxo
- Reconheça: crise contínua acima de 5 minutos ou crises repetidas sem recuperação da consciência. Ligue o cronômetro.
- Estabilize em paralelo: via aérea, oxigênio, monitor, dois acessos, glicemia capilar e exames.
- BENZODIAZEPÍNICO EM DOSE CHEIA, com uma repetição em 3 a 5 minutos. Deixe a segunda dose já aspirada.
- Comece a preparar a segunda linha enquanto o benzodiazepínico corre, para que ela esteja pronta no minuto 5.
- Infunda a segunda linha em dose de ataque completa: fenitoína 20 mg/kg, levetiracetam 60 mg/kg ou valproato 40 mg/kg.
- Corrija causas reversíveis em paralelo: hipoglicemia, hiponatremia, eclâmpsia, intoxicação e abstinência.
- CRISE PERSISTENTE APÓS BENZO E SEGUNDA LINHA ADEQUADOS = REFRATÁRIO: intube e inicie anestésico em infusão contínua.
- Mantenha dois anticonvulsivantes de manutenção por baixo do anestésico e solicite eletroencefalograma contínuo.
- Alcance a meta eletrográfica e mantenha por 24 a 48 horas antes de iniciar o desmame gradual.
- Persistência ou recorrência após 24 horas de anestésico: super-refratário — reinvestigue a etiologia e considere imunoterapia e adjuvantes.
- Não esqueça o paciente que parou de convulsionar e não acordou: presuma estado de mal não convulsivo até a confirmação eletroencefalográfica.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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- Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Protocolos vigentes de emergências neurológicas em terapia intensiva.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, diluições, velocidades de infusão e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação, considerando a apresentação farmacêutica efetivamente disponível no serviço.
Informações rápidas
Resumo do artigo e doses de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Marque o relógio
Crise tônico-clônica acima de 5 minutos, ou crises repetidas sem recuperação da consciência, já é estado de mal. Ligue um cronômetro visível para toda a equipe e trabalhe em paralelo, nunca em sequência. O tempo até o primeiro benzodiazepínico é o principal determinante do desfecho.
Benzodiazepínico em dose cheia
Diazepam 0,15 a 0,2 mg/kg IV, até 10 mg por dose, ou midazolam 0,2 mg/kg IV, até 10 mg. Sem acesso venoso, midazolam 10 mg IM. Repita uma vez em 3 a 5 minutos se a crise persistir. A subdose é o erro mais comum de todos.
Segunda linha completa
Fenitoína 20 mg/kg, levetiracetam 60 mg/kg ou valproato 40 mg/kg, com eficácia equivalente no estudo ESETT. Comece a diluir enquanto o benzodiazepínico ainda corre, para que esteja pronta no minuto 5. A dose cheia importa mais do que qual das três você escolheu.
Refratário: intubar e sedar
Crise que persiste após benzodiazepínico e uma segunda linha em dose adequada define refratariedade. Intube e inicie midazolam, propofol, quetamina ou tiopental em dose anestésica, com vasopressor preparado e eletroencefalograma para guiar a meta e o desmame.
Números rápidos
Definição: crise tônico-clônica acima de 5 minutos, ou crises repetidas sem recuperação da consciência.
Diazepam: 0,15 a 0,2 mg/kg IV, até 10 mg por dose, no máximo 5 mg/min.
Midazolam: 0,2 mg/kg IV até 10 mg, ou 10 mg IM sem acesso venoso.
Fenitoína: 20 mg/kg em SF 0,9%, no máximo 50 mg/min (25 mg/min em idoso ou cardiopata).
Levetiracetam: 60 mg/kg, teto de 4500 mg, em 10 minutos.
Valproato: 40 mg/kg, teto de 3000 mg, em 10 minutos.
Propofol na fase 3: bolus de 1 a 2 mg/kg e infusão de 30 a 200 mcg/kg/min.
Quetamina na fase 3: bolus de 1 a 2,5 mg/kg e infusão de 1 a 5 mg/kg/h.
Não esqueça
Glicemia capilar nos primeiros segundos.
Tiamina antes da glicose no etilista ou desnutrido.
Fenitoína só em soro fisiológico — em glicosado ela precipita.
Segunda linha em dose por peso, nunca em dose fixa arredondada.
Beta-hCG em toda mulher em idade fértil: eclâmpsia se trata com sulfato de magnésio.
Parou de convulsionar e não acordou em cerca de 1 hora? Presuma estado de mal não convulsivo.
Programar a manutenção depois de toda dose de ataque.
Artigos relacionados
Em provas / residência
A banca cobra a definição de 5 minutos, as doses de ataque da segunda linha e a definição de refratário como falha de benzodiazepínico associada à falha de uma segunda linha em dose adequada.
Decore: levetiracetam 60 mg/kg, valproato 40 mg/kg e fenitoína 20 mg/kg; eclâmpsia se trata com sulfato de magnésio; intoxicação por isoniazida, com piridoxina.
