Edema Agudo de Pulmão
O paciente sentado, pálido, encharcado de suor, com pressão de 220 por 120 e crepitações até o ápice quase nunca está hipervolêmico — está com o volume no lugar errado. É redistribuição, não sobrecarga. Entender isso muda a ordem do tratamento: a estrela é a ventilação não invasiva com o vasodilatador, e não o diurético.
Ventilar
- Sentar o paciente com as pernas pendentes
- VNI precoce reduz intubação e alivia a dispneia
- CPAP de 5 a 10 cmH₂O costuma bastar
- É a medida que alivia mais rápido
Vasodilatar
- Nitrato é a droga central no EAP hipertensivo
- Reduz pré-carga e, em dose alta, pós-carga
- No SCAPE, doses muito acima do habitual
- Contraindicado com inibidor de fosfodiesterase-5
Descongestionar com critério
- Nem todo EAP é hipervolemia — muitos são redistribuição
- Furosemida de 1 a 2,5 vezes a dose domiciliar, por via IV
- Avaliar a resposta pelo sódio urinário e pela diurese
- Diurético em excesso no euvolêmico piora a função renal
Achar o precipitante
- Mnemônico CHAMPIT para as causas que exigem ação imediata
- Síndrome coronariana, arritmia e causa mecânica
- Eletrocardiograma e ecocardiograma precoces
- Sem tratar o gatilho, o quadro recidiva
O que é edema agudo de pulmão
Edema agudo de pulmão é o acúmulo rápido de líquido no interstício e nos alvéolos, com instalação em minutos a horas e insuficiência respiratória hipoxêmica franca. Na imensa maioria dos casos atendidos na emergência, a origem é cardiogênica: a pressão hidrostática capilar pulmonar sobe além da capacidade de drenagem linfática, e o líquido extravasa.
A distinção entre origem cardiogênica e não cardiogênica é a primeira decisão do atendimento, porque os tratamentos são quase opostos: no cardiogênico, reduzir pressão de enchimento; no não cardiogênico, ventilação protetora e tratamento da causa inflamatória.
A cascata que fecha o ciclo
O EAP hipertensivo é um ciclo vicioso que se autoalimenta, e reconhecer isso explica por que a resposta ao tratamento correto é tão rápida:
- Descarga adrenérgica — dor, ansiedade, hipoxemia e isquemia elevam catecolaminas.
- Vasoconstrição sistêmica — a pós-carga sobe, o ventrículo esquerdo ejeta menos e a pressão de enchimento aumenta.
- Redistribuição do volume — o sangue migra do leito venoso esplâncnico para a circulação central, sobrecarregando o coração sem que haja ganho de volume corporal.
- Transudação alveolar — a pressão capilar pulmonar ultrapassa o limiar e o líquido invade o alvéolo.
- Hipoxemia e mais adrenalina — o alvéolo inundado piora a oxigenação, o que aumenta ainda mais a descarga adrenérgica. O ciclo se fecha.
Quebrar o ciclo em qualquer ponto — oxigenando, ventilando com pressão positiva ou vasodilatando — desmonta a cascata inteira.
Redistribuição x acúmulo: os dois EAP
Vascular — redistribuição
Instalação em minutos a poucas horas, pressão arterial alta ou muito alta, ausculta com crepitações difusas, sem edema de membros e sem ganho de peso. O paciente é euvolêmico ou quase.
Responde de forma dramática a VNI e vasodilatador. O diurético tem papel secundário e, se usado em excesso, causa hipovolemia e lesão renal.
Cardíaco — acúmulo progressivo
Instalação em dias a semanas, com ganho de peso, edema de membros, turgência jugular, hepatomegalia e ortopneia progressiva. Pressão arterial normal ou baixa.
Aqui a hipervolemia é real e o diurético é a peça central, com descongestão que leva dias e exige monitorização de resposta.
Cardiogênico x não cardiogênico
A confusão entre EAP cardiogênico e SDRA é frequente e cara: um exige redução da pressão de enchimento, o outro exige ventilação protetora e tratamento do insulto inflamatório.
| Aspecto | Cardiogênico | Não cardiogênico (SDRA) |
|---|---|---|
| Mecanismo | Aumento da pressão hidrostática capilar pulmonar. | Aumento da permeabilidade da barreira alvéolo-capilar. |
| História | Cardiopatia conhecida, dor torácica, hipertensão, arritmia, má adesão ou transgressão alimentar. | Sepse, pneumonia, aspiração, pancreatite, trauma, transfusão. |
| Início | Minutos a horas, frequentemente noturno. | Horas a dias, com pródromo do insulto de base. |
| Exame | Terceira bulha, turgência jugular, edema periférico, extremidades frias se houver baixo débito. | Febre, foco infeccioso, sem sinais de congestão sistêmica. |
| Radiografia | Distribuição central em asa de borboleta, linhas B de Kerley, cardiomegalia, derrames. | Opacidades periféricas e heterogêneas, área cardíaca normal, derrames pequenos. |
| Ultrassom pulmonar | Linhas B homogêneas e bilaterais, pleura lisa, derrame frequente. | Linhas B heterogêneas, com áreas poupadas, pleura irregular e consolidações subpleurais. |
| Peptídeo natriurético | Habitualmente elevado; valores baixos tornam a origem cardíaca improvável. | Normal ou pouco elevado, salvo comorbidade cardíaca. |
| Ecocardiograma | Disfunção sistólica ou diastólica, valvopatia, pressões de enchimento elevadas. | Função ventricular preservada, veia cava inferior colapsável. |
| Resposta ao tratamento | Melhora rápida com VNI, vasodilatador e diurético. | Melhora lenta, dependente do controle da causa. |
As quatro etapas do atendimento
Estabilizar a respiração
Primeiros minutosSentar o paciente com as pernas pendentes, oxigênio suplementar e ventilação não invasiva precoce. É a intervenção que alivia mais rápido e reduz a necessidade de intubação.
Reduzir a pressão de enchimento
Em paraleloVasodilatador quando a pressão arterial permite — nitrato é a droga central no EAP hipertensivo. Diurético de alça conforme o estado volêmico real, e não por reflexo.
Identificar e tratar o precipitante
Primeira horaEletrocardiograma, troponina, ultrassom à beira do leito e o mnemônico CHAMPIT. Síndrome coronariana, arritmia e causa mecânica exigem intervenção específica e urgente.
Completar a descongestão e otimizar
Dias seguintesAvaliar a resposta ao diurético, atingir euvolemia real e iniciar ou otimizar a terapia de insuficiência cardíaca antes da alta — é o que reduz reinternação e mortalidade.
CHAMPIT — os precipitantes que exigem ação imediata
O mnemônico das diretrizes europeias reúne as causas de insuficiência cardíaca aguda que têm tratamento específico e urgente. Percorrê-lo é obrigatório em todo EAP.
| Letra | Causa | Ação específica |
|---|---|---|
| C | Síndrome coronariana aguda | Eletrocardiograma em até 10 minutos e troponina. Com supradesnivelamento, reperfusão imediata; sem supra, estratégia invasiva precoce quando há instabilidade. |
| H | Emergência hipertensiva | É o cenário do EAP hipertensivo e do SCAPE. Vasodilatador endovenoso com redução controlada da pressão arterial. |
| A | Arritmia | Fibrilação atrial de alta resposta, taquicardia ventricular ou bradiarritmia grave. Cardioversão elétrica se houver instabilidade; marca-passo transcutâneo na bradicardia. |
| M | Causa mecânica | Ruptura de músculo papilar ou de cordoalha, insuficiência mitral aguda, comunicação interventricular pós-infarto, disfunção de prótese, dissecção de aorta. Ecocardiograma urgente e cirurgia. |
| P | Tromboembolismo pulmonar | Considerar em dispneia súbita com hipoxemia desproporcional e sinais de sobrecarga de ventrículo direito. |
| I | Infecção | Pneumonia, endocardite e sepse são precipitantes clássicos. Antibiótico precoce e busca de foco. |
| T | Tamponamento cardíaco | Turgência jugular com ausculta pulmonar limpa e bulhas abafadas. Ultrassom cardíaco imediato e pericardiocentese. |
Outros precipitantes frequentes
Suspensão de diurético, de betabloqueador ou de inibidor do sistema renina-angiotensina. É a causa mais comum de descompensação em ambulatório.
Ingesta excessiva de sódio, muito frequente e frequentemente não perguntada. Vale investigar a alimentação dos últimos dias.
Anti-inflamatórios não esteroidais, corticoide, glitazonas, alguns antiarrítmicos, bloqueador de canal de cálcio não di-hidropiridínico em disfunção sistólica e quimioterápicos cardiotóxicos.
Reduzem a oferta de oxigênio e aumentam o débito exigido do coração. Corrigir a causa é parte do tratamento.
Sobrecarga volêmica na doença renal avançada, com síndrome cardiorrenal. Pode exigir ultrafiltração ou diálise urgente.
Causa clássica de edema pulmonar flash de repetição, com hipertensão de difícil controle e piora renal após inibidor do sistema renina-angiotensina.
Taquiarritmia e aumento do débito cardíaco; o hipotireoidismo grave também descompensa.
Cardiomiopatia periparto, pré-eclâmpsia com edema pulmonar e sobrecarga volêmica no pós-parto imediato.
Hidratação venosa excessiva, transfusão rápida e sobrecarga circulatória associada à transfusão. Muito frequente no paciente internado.
Substratos cardíacos por trás do quadro
| Substrato | Pista clínica | Implicação |
|---|---|---|
| Fração de ejeção reduzida | Cardiopatia isquêmica, chagásica, dilatada ou alcoólica; terceira bulha, ictus desviado. | Terapia de insuficiência cardíaca com quatro classes deve ser iniciada e otimizada antes da alta. |
| Fração de ejeção preservada | Idoso, hipertenso, obeso, diabético, com fibrilação atrial. Congestão com função sistólica normal. | Controle pressórico e de frequência é central; inibidor de SGLT2 tem benefício demonstrado. |
| Estenose aórtica grave | Sopro sistólico rude irradiado para carótidas, síncope e angina. | Cautela com vasodilatador — a queda de pós-carga pode reduzir muito o débito. Encaminhar para intervenção valvar. |
| Insuficiência mitral aguda | EAP súbito e grave, sopro que pode ser discreto, contexto de infarto recente ou endocardite. | Emergência cirúrgica. Vasodilatador e balão intra-aórtico como ponte. |
| Cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva | Sopro que aumenta com Valsalva, história familiar de morte súbita. | Vasodilatador e inotrópico pioram a obstrução. Betabloqueador e volume, ao contrário do habitual. |
| Estenose mitral | História de febre reumática, fibrilação atrial, ruflar diastólico. | A taquicardia é o inimigo: reduz o tempo de enchimento. Controle de frequência é prioritário. |
| Ventrículo direito dependente de pré-carga | Infarto de ventrículo direito, hipertensão pulmonar. | Reduzir pré-carga de forma agressiva pode causar colapso. Individualize o vasodilatador. |
Reconhecimento à beira do leito
O diagnóstico do EAP é clínico e imediato. A apresentação clássica dispensa exame complementar para iniciar o tratamento — os exames servem para confirmar, encontrar o precipitante e afastar diferenciais.
| Achado | Comentário | Utilidade |
|---|---|---|
| Dispneia súbita e ortopneia | Frequentemente noturna, com o paciente sentado e recusando deitar. | Muito sensível; ortopneia franca é um dos melhores sinais clínicos. |
| Crepitações bilaterais | De bases para ápices conforme a gravidade; podem vir com sibilos, a chamada asma cardíaca. | Sensível, porém pouco específica: pneumonia e fibrose também crepitam. |
| Sudorese fria e palidez | Descarga adrenérgica intensa; pele fria e pegajosa. | Sinaliza gravidade e ativação simpática. |
| Expectoração rósea espumosa | Manifestação tardia, de EAP alveolar franco. | Muito específica quando presente, mas pouco sensível. |
| Terceira bulha | Galope protodiastólico, difícil de auscultar em ambiente ruidoso. | Bastante específica para pressões de enchimento elevadas. |
| Turgência jugular | Reflete pressão venosa central elevada. | Útil, mas pode faltar no EAP por redistribuição sem hipervolemia. |
| Edema de membros e ganho de peso | Indica acúmulo progressivo, e não redistribuição aguda. | Ajuda a definir se o paciente está de fato hipervolêmico. |
| Hipertensão grave | Pressão sistólica frequentemente acima de 180 mmHg no EAP hipertensivo. | Define o fenótipo e orienta o uso de vasodilatador em dose alta. |
| Hipotensão e extremidades frias | Sinaliza baixo débito e possível choque cardiogênico. | Muda completamente a conduta: nada de vasodilatador. |
Ultrassom à beira do leito
É o exame que mais rapidamente confirma congestão e diferencia as causas de dispneia aguda, com desempenho superior ao da radiografia no cenário de emergência.
Pulmonar
- Linhas B múltiplas e bilaterais — três ou mais por espaço intercostal em dois ou mais espaços de cada lado caracterizam síndrome intersticial.
- Padrão homogêneo com pleura lisa e regular favorece origem cardiogênica.
- Padrão heterogêneo, com áreas poupadas, pleura irregular e consolidações subpleurais, favorece SDRA ou pneumonia.
- Derrame pleural bilateral é comum na congestão.
- Serve também para acompanhar a resposta: a redução das linhas B acompanha a descongestão.
Cardíaco e vascular
- Função sistólica — estimativa visual já orienta o uso de inotrópico.
- Veia cava inferior — dilatada e pouco colapsável sugere pressão venosa central elevada; colapsável fala contra congestão significativa.
- Valvopatias e complicações mecânicas — insuficiência mitral aguda, prótese disfuncional, comunicação interventricular.
- Derrame pericárdico — afasta ou confirma tamponamento.
- Ventrículo direito — dilatação sugere tromboembolismo ou hipertensão pulmonar.
Calculadora — peptídeo natriurético
Os peptídeos natriuréticos servem sobretudo para afastar origem cardíaca em dispneia de causa indefinida. Os pontos de corte de confirmação do NT-proBNP variam com a idade, e alguns fatores deslocam o valor para cima ou para baixo.
Exames complementares
Em até 10 minutos. Procure supradesnivelamento, isquemia, arritmia, sobrecargas e bloqueios. É o exame de maior rendimento imediato.
Elevações discretas são comuns por sobrecarga e não significam necessariamente infarto. Interprete a curva junto com a clínica e o eletrocardiograma.
Congestão hilar, redistribuição vascular, linhas B de Kerley, derrames e cardiomegalia. Pode ser normal nas primeiras horas — radiografia limpa não afasta EAP.
Função renal, eletrólitos, hemograma, glicemia, função hepática, função tireoidiana e gasometria arterial nos casos graves.
Urgente diante de instabilidade, suspeita de causa mecânica ou dúvida diagnóstica. Nos demais casos, durante a internação.
Colhido 2 horas após a dose de diurético, avalia a resposta natriurética e orienta o ajuste da dose. Ferramenta subutilizada e muito útil.
Diagnóstico diferencial da dispneia aguda
| Condição | Pistas a favor | Como diferenciar rápido |
|---|---|---|
| Pneumonia | Febre, tosse produtiva, dor pleurítica, crepitações localizadas. | Ultrassom com consolidação focal e broncograma aéreo; leucocitose e proteína C reativa. |
| Exacerbação de DPOC ou asma | Sibilos difusos, tempo expiratório prolongado, história de tabagismo ou atopia. | Ultrassom com padrão A e ausência de linhas B; peptídeo natriurético baixo. |
| Tromboembolismo pulmonar | Início súbito, dor pleurítica, hipoxemia com ausculta relativamente limpa, fator de risco trombótico. | Ultrassom com ventrículo direito dilatado; angiotomografia. |
| SDRA | Contexto de sepse, aspiração ou pancreatite; sem sinais de congestão sistêmica. | Linhas B heterogêneas, ecocardiograma sem disfunção, peptídeo natriurético baixo. |
| Pneumotórax | Dor súbita, murmúrio abolido de um lado, hipertimpanismo. | Ultrassom sem deslizamento pleural. |
| Tamponamento cardíaco | Turgência jugular com ausculta pulmonar limpa, bulhas abafadas, pulso paradoxal. | Ultrassom cardíaco com derrame e colapso de câmaras direitas. |
| Anemia grave | Palidez, taquicardia, sopro sistólico funcional. | Hemograma; pode também ser precipitante do EAP. |
| Crise de ansiedade | Parestesias, alcalose respiratória, exame físico normal. | Diagnóstico de exclusão — jamais assumir em idoso cardiopata. |
Os perfis de Stevenson
Toda a decisão terapêutica na insuficiência cardíaca aguda cabe em duas perguntas: o paciente está congesto e o paciente está hipoperfundido? Cruzando as respostas surgem quatro perfis, cada um com uma conduta distinta.
Sinais de congestão (úmido)
- Ortopneia e dispneia paroxística noturna.
- Turgência jugular e refluxo hepatojugular.
- Crepitações pulmonares e derrame pleural.
- Edema de membros, ascite e hepatomegalia.
- Linhas B múltiplas ao ultrassom e veia cava dilatada.
Sinais de hipoperfusão (frio)
- Extremidades frias, pálidas ou moteadas.
- Pressão de pulso estreita (menos de 25% da sistólica).
- Rebaixamento do nível de consciência e sonolência.
- Oligúria e piora da função renal.
- Lactato elevado e hiponatremia.
Calculadora — perfil e conduta correspondente
Marque os achados presentes. A ferramenta define o perfil hemodinâmico, destaca o quadrante correspondente e devolve a conduta recomendada para aquele perfil.
Congestão
Hipoperfusão
Quente e seco
Sem congestão e sem hipoperfusão. Compensado.
Conduta: ajustar a terapia oral, procurar outra causa para os sintomas e planejar seguimento.
Quente e úmido
Congesto com perfusão preservada. É o perfil da maioria dos casos de EAP.
Conduta: VNI, vasodilatador e diurético de alça conforme o estado volêmico.
Frio e seco
Hipoperfundido sem congestão. Frequentemente hipovolêmico ou superdiuretizado.
Conduta: teste cauteloso de volume; suspender ou reduzir diurético e vasodilatador.
Frio e úmido
Congesto e hipoperfundido. É o de pior prognóstico e o mais próximo do choque cardiogênico.
Conduta: inotrópico, vasopressor se necessário, diurético após restaurar a perfusão e discussão de suporte mecânico.
Ventilação não invasiva
É a intervenção que alivia mais rápido no EAP cardiogênico e a que mais reduz a necessidade de intubação. Deve ser instalada nos primeiros minutos, em paralelo à medicação, e não depois dela.
CPAP ou BiPAP, e quando intubar
CPAP
Simples, disponível e eficaz. É a modalidade mais estudada no EAP cardiogênico e costuma bastar na maioria dos casos.
Comece com 5 a 8 cmH₂O e titule até 10, conforme conforto, saturação e trabalho respiratório.
BiPAP
Preferido quando há hipercapnia, acidose respiratória, fadiga muscular evidente ou doença pulmonar obstrutiva associada.
Grandes ensaios não mostraram diferença de mortalidade entre CPAP e BiPAP — a escolha é pela disponibilidade e pelo perfil do paciente.
Contraindicações à VNI
- Rebaixamento do nível de consciência com incapacidade de proteger a via aérea.
- Parada cardiorrespiratória ou instabilidade hemodinâmica grave.
- Vômitos incoercíveis e alto risco de aspiração.
- Trauma ou cirurgia facial recente, deformidade que impeça a vedação.
- Obstrução de via aérea superior e pneumotórax não drenado.
- Agitação intensa e não cooperação.
Quando intubar
- Ausência de melhora após 30 a 60 minutos de VNI bem ajustada.
- Rebaixamento progressivo do nível de consciência.
- Hipoxemia refratária ou acidose respiratória progressiva.
- Exaustão muscular respiratória.
- Instabilidade hemodinâmica ou choque cardiogênico.
- Necessidade de proteção de via aérea.
Vasodilatadores — a droga central do EAP hipertensivo
O nitrato reduz a pré-carga em doses baixas e, em doses mais altas, também a pós-carga — que é justamente o problema no EAP hipertensivo. A resposta costuma ser rápida e visível em minutos.
| Fármaco | Dose | Observações |
|---|---|---|
| Dinitrato de isossorbida sublingual | 5 mg, repetível a cada 5 minutos enquanto a pressão permitir. | Disponível em praticamente todo serviço. Excelente ponte enquanto a bomba de infusão é montada. |
| Nitroglicerina endovenosa | Início de 10 a 20 mcg/min, com aumentos de 10 a 20 mcg/min a cada 3 a 5 minutos. Faixa usual até 200 mcg/min. | Droga de escolha para infusão contínua. Titulação rápida e meia-vida curta, o que a torna segura. |
| Nitroglicerina em protocolo SCAPE | Bólus de 400 a 1000 mcg a cada 2 a 5 minutos, e/ou infusão iniciada diretamente em 100 a 400 mcg/min. | Reservado ao EAP hipertensivo grave com pressão sistólica bem elevada. Exige monitorização contínua. |
| Nitroprussiato de sódio | 0,3 a 5 mcg/kg/min, com aumentos graduais; evitar uso prolongado. | Vasodilatador arterial potente. Útil em emergência hipertensiva refratária e em insuficiência mitral aguda. Risco de intoxicação por cianeto e necessidade de proteção da luz. |
Calculadora — nitroglicerina em infusão
Escolha a diluição disponível no seu serviço e a dose desejada. A calculadora devolve a velocidade da bomba e sinaliza em que faixa terapêutica você está.
SCAPE — edema agudo hipertensivo grave
A sigla em inglês descreve o edema agudo de pulmão por descarga simpática: instalação em minutos, pressão sistólica frequentemente acima de 180 a 200 mmHg, sudorese profusa, agitação e insuficiência respiratória franca. É a forma mais dramática e, paradoxalmente, a que responde mais rápido ao tratamento correto.
Início súbito, sem ganho de peso e sem edema periférico. O paciente está com o volume redistribuído, não aumentado.
Instalar antes ou junto com a medicação. Combinada ao nitrato em dose alta, reduz de forma consistente a necessidade de intubação.
Bólus de 400 a 1000 mcg a cada 2 a 5 minutos, e/ou infusão de 100 a 400 mcg/min. Alvo de reduzir a sistólica em cerca de 20% a 25% na primeira hora.
O paciente costuma ser euvolêmico. Dose baixa ou nenhuma; correr para a furosemida aqui é o erro clássico.
Melhora dramática em minutos a poucas horas. Muitos pacientes evitam a terapia intensiva e alguns recebem alta da própria emergência após observação.
Conforme o quadro resolve, a pressão cai sozinha. Reduza o nitrato ativamente para evitar hipotensão.
Diurético — dose certa, no paciente certo
O diurético de alça é a base da descongestão quando existe hipervolemia real. A dose deve ser calibrada pelo uso domiciliar prévio: quem já toma furosemida diariamente tem resistência parcial e precisa de dose maior.
- Defina se há hipervolemia — ganho de peso, edema, turgência jugular e veia cava dilatada. No EAP por redistribuição, o diurético é secundário.
- Use a via endovenosa — a absorção oral é errática na congestão intestinal.
- DOSE INICIAL DE 1 A 2,5 VEZES A DOSE ORAL DIÁRIA DOMICILIAR, EM MILIGRAMAS POR VIA ENDOVENOSA. Em quem nunca usou, 20 a 40 mg.
- Reavalie em 2 horas — diurese e, quando disponível, sódio urinário.
- Resposta insuficiente — dobre a dose. Não adianta repetir a mesma dose que não funcionou.
- Ainda insuficiente — considere associar diurético de outra classe ou infusão contínua.
- Monitore — função renal, potássio, magnésio, sódio, diurese e peso diário.
- Alvo — euvolemia real antes da alta; congestão residual é o principal preditor de reinternação.
Calculadora — dose de furosemida
Informe a dose oral que o paciente já toma em casa e a função renal. A ferramenta calcula a dose endovenosa inicial, o volume correspondente e o esquema de reavaliação.
Resistência ao diurético
Define-se pela persistência da congestão apesar de doses adequadas. Antes de escalonar, é obrigatório procurar as causas corrigíveis.
Dieta hospitalar inadequada, soro fisiológico de manutenção e medicações diluídas em salina somam uma carga de sódio frequentemente ignorada.
Bloqueiam o efeito natriurético do diurético de alça e pioram a função renal. Suspenda.
Hipoperfusão renal por débito insuficiente. Aqui o problema não é o diurético — é a perfusão, e o caminho pode ser inotrópico.
Pressão venosa central muito elevada reduz o gradiente de perfusão renal. Descongestionar melhora a função renal, e não o contrário.
Comuns com diurético em dose alta e limitam a resposta. Corrija potássio, magnésio e cloro.
Hipertrofia do túbulo distal após uso prolongado de diurético de alça. É o racional para o bloqueio sequencial do néfron.
Cada card abre o detalhamento completo: indicação, apresentação, diluição, posologia, contraindicações e cuidados. Os cards seguem a ordem em que as intervenções entram no atendimento.
Primeiros minutos — suporte respiratório
Tudo acontece em paralelo. A pressão positiva alivia mais rápido do que qualquer medicação e é simultaneamente suporte respiratório e tratamento hemodinâmico.
Vasodilatadores — quando a pressão permite
Indicados sempre que a pressão sistólica está acima de 110 a 120 mmHg. Reduzem pré-carga e, em dose suficiente, pós-carga — que é a raiz do problema no EAP hipertensivo.
Descongestão — quando há hipervolemia real
O diurético é a peça central do EAP por acúmulo progressivo e coadjuvante do EAP por redistribuição. A resposta precisa ser medida, não presumida.
Perfil frio — quando a perfusão está comprometida
Muda tudo: vasodilatador está contraindicado e o foco passa a ser restaurar o débito cardíaco. É o perfil de pior prognóstico e o que mais se beneficia de decisão rápida.
Precipitante e pós-estabilização
Estabilizar sem tratar o gatilho garante recidiva. E a janela da internação é a melhor oportunidade de iniciar a terapia que muda o prognóstico de longo prazo.
Situações com manejo próprio
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Estenose aórtica grave | O débito depende de uma pré-carga adequada e de uma pós-carga que mantenha a perfusão coronariana. A queda brusca de resistência pode ser catastrófica. | Cautela extrema com vasodilatador. Prefira VNI e diurético criterioso; noradrenalina se houver hipotensão. Encaminhe para intervenção valvar. |
| Cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva | Vasodilatador e inotrópico aumentam o gradiente da via de saída e pioram o quadro. | Betabloqueador, volume cuidadoso e fenilefrina se necessário. O oposto do protocolo habitual. |
| Infarto de ventrículo direito | O débito é dependente de pré-carga. Nitrato e diurético podem precipitar colapso. | Evitar nitrato, oferecer volume com cautela, considerar inotrópico e priorizar a reperfusão. |
| Estenose mitral | A taquicardia reduz o tempo de enchimento diastólico e precipita o edema. Frequente com fibrilação atrial de alta resposta. | Controle de frequência é prioritário — betabloqueador ou digital. Cardioversão se houver instabilidade. |
| Insuficiência mitral aguda | Ruptura de cordoalha ou de músculo papilar. EAP fulminante com sopro que pode ser discreto ou ausente. | Emergência cirúrgica. Vasodilatador para reduzir a fração regurgitante e balão intra-aórtico como ponte. |
| Doença renal terminal | Sobrecarga volêmica sem resposta a diurético; frequentemente anúrico. | Diálise ou ultrafiltração de urgência. VNI e nitrato como ponte até a sessão. |
| Edema pulmonar de repetição | Episódios recorrentes com hipertensão de difícil controle e piora renal após inibidor do sistema renina-angiotensina. | Investigar estenose de artéria renal bilateral com ultrassom com Doppler ou angiotomografia. |
| Gestante | Pré-eclâmpsia com edema pulmonar, cardiomiopatia periparto e sobrecarga no pós-parto imediato. | Decúbito lateral esquerdo, controle pressórico com hidralazina ou nifedipino, sulfato de magnésio na pré-eclâmpsia e avaliação obstétrica conjunta. |
| Idoso frágil com fração de ejeção preservada | Descompensa com fibrilação atrial e com pequenas sobrecargas. Alta sensibilidade a excesso e a falta de volume. | Controle de frequência e de pressão, diurético em dose menor, com reavaliação frequente para não superdiuretizar. |
| Sobrecarga associada à transfusão | Surge durante ou em até 6 horas da transfusão, com hipertensão e congestão. | Interromper a transfusão, iniciar diurético e VNI. Diferenciar de TRALI, que cursa com pressão normal ou baixa e febre. |
Erros comuns
- Começar pela furosemida em um paciente hipertenso, euvolêmico e com EAP por redistribuição.
- Retardar a ventilação não invasiva para "ver se a medicação resolve".
- Usar nitrato em dose homeopática no EAP hipertensivo grave e concluir que "não funcionou".
- Prescrever nitrato sem perguntar sobre uso de inibidor de fosfodiesterase-5.
- Administrar vasodilatador em paciente hipotenso ou com perfil frio.
- Usar morfina de rotina, apesar da associação com piores desfechos.
- Tratar sibilos de asma cardíaca como crise asmática, com beta-agonista em dose alta.
- Repetir a mesma dose de diurético que já se mostrou ineficaz.
- Interpretar a elevação transitória de creatinina durante a descongestão como motivo para suspender o diurético.
- Não realizar eletrocardiograma nos primeiros 10 minutos.
- Não procurar o precipitante e dar alta com o mesmo esquema que falhou.
- Suspender betabloqueador de forma rotineira em paciente estável e congesto.
- Dar alta com congestão residual — é o principal preditor de reinternação.
- Não iniciar ou não otimizar a terapia de insuficiência cardíaca durante a internação.
- Considerar radiografia normal como exclusão de EAP nas primeiras horas.
- Intubar sem antecipar o colapso hemodinâmico da indução.
Resumo do fluxo
- Reconheça: dispneia súbita, ortopneia, crepitações bilaterais, sudorese fria. Sente o paciente com as pernas pendentes.
- Monitorize, ofereça oxigênio e obtenha acesso venoso.
- INSTALE VENTILAÇÃO NÃO INVASIVA PRECOCEMENTE — CPAP de 5 a 10 cmH₂O é a intervenção que alivia mais rápido e reduz intubação.
- Eletrocardiograma em até 10 minutos e ultrassom à beira do leito.
- Defina o perfil hemodinâmico: congesto? hipoperfundido?
- PERFIL QUENTE E ÚMIDO COM PRESSÃO ELEVADA: VASODILATADOR EM DOSE EFETIVA. No SCAPE, nitrato em dose alta.
- Avalie a volemia real antes do diurético; havendo hipervolemia, furosemida de 1 a 2,5 vezes a dose domiciliar por via endovenosa.
- Perfil frio e úmido: nada de vasodilatador — inotrópico, vasopressor se necessário e discussão de suporte mecânico.
- Percorra o CHAMPIT e trate o precipitante: coronariana, hipertensiva, arritmia, mecânica, embolia, infecção e tamponamento.
- Reavalie em 30 a 60 minutos: dispneia, saturação, pressão, diurese e ultrassom. Sem melhora, reconsidere o diagnóstico e a via aérea.
- Meça a resposta ao diurético com diurese e sódio urinário; ajuste a dose em vez de repeti-la.
- Antes da alta: euvolemia, causa tratada, terapia otimizada e consulta de seguimento precoce agendada.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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- Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda e atualizações vigentes. Arq Bras Cardiol.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, diluições e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação, considerando a apresentação farmacêutica efetivamente disponível no serviço.
Informações rápidas
Resumo do artigo e doses de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Ventilar
Sente o paciente com as pernas pendentes e instale ventilação não invasiva nos primeiros minutos. CPAP de 5 a 10 cmH₂O costuma bastar; BiPAP quando há hipercapnia ou fadiga. A pressão positiva recruta alvéolos, reduz o retorno venoso e diminui a pós-carga do ventrículo esquerdo — é suporte respiratório e tratamento hemodinâmico ao mesmo tempo.
Vasodilatar
No EAP hipertensivo, o nitrato é a droga central. Dinitrato de isossorbida 5 mg sublingual repetível a cada 5 minutos, ou nitroglicerina de 10 a 20 mcg/min com titulação rápida. No SCAPE, bólus de 400 a 1000 mcg ou infusão de 100 a 400 mcg/min. Contraindicado com inibidor de fosfodiesterase-5, hipotensão, estenose aórtica grave e infarto de ventrículo direito.
Descongestionar com critério
Nem todo EAP é hipervolemia: o hipertensivo agudo costuma ser redistribuição, com paciente euvolêmico. Havendo congestão real, furosemida de 1 a 2,5 vezes a dose oral domiciliar, por via endovenosa; em quem nunca usou, 20 a 40 mg. Reavalie em 2 horas e dobre a dose se a resposta for insuficiente.
Achar o precipitante
Percorra o CHAMPIT: síndrome Coronariana, emergência Hipertensiva, Arritmia, causa Mecânica, embolia Pulmonar, Infecção e Tamponamento. Eletrocardiograma em até 10 minutos e ultrassom à beira do leito resolvem boa parte da lista.
Números rápidos
CPAP: 5 a 10 cmH₂O; BiPAP com pressão de suporte de 8 a 12 acima da EPAP.
Isossorbida sublingual: 5 mg, repetível a cada 5 minutos.
Nitroglicerina: 10 a 20 mcg/min inicialmente, titulando a cada 3 a 5 minutos até 200 mcg/min.
SCAPE: bólus de 400 a 1000 mcg a cada 2 a 5 minutos, ou infusão de 100 a 400 mcg/min.
Furosemida: 1 a 2,5 vezes a dose oral domiciliar por via endovenosa; 20 a 40 mg em quem nunca usou.
Sódio urinário: colhido 2 horas após a dose; acima de 50 a 70 mEq/L indica boa resposta.
Dobutamina: 2,5 a 20 mcg/kg/min, apenas no perfil frio.
NT-proBNP: exclusão abaixo de 300; confirmação em 450, 900 ou 1800 conforme a idade.
Não esqueça
Nem todo EAP é hipervolemia — o hipertensivo agudo costuma ser redistribuição.
VNI vem antes e junto da medicação, nunca depois.
Pergunte sobre sildenafila e similares antes de prescrever nitrato.
Perfil frio: vasodilatador está proibido — o caminho é inotrópico.
Eletrocardiograma em até 10 minutos.
Dobre a dose do diurético em vez de repetir a que não funcionou.
Não dê alta com congestão residual — é o principal preditor de reinternação.
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Em provas / residência
A banca cobra a diferenciação entre edema cardiogênico e não cardiogênico, os perfis de Stevenson e a indicação de ventilação não invasiva.
Decore: CPAP de 5 a 10 cmH₂O; nitrato é a droga central no EAP hipertensivo; perfil frio e úmido pede inotrópico, e não vasodilatador; morfina saiu do protocolo.
