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Descontaminação no paciente intoxicado

Durante décadas a regra foi "carvão só na primeira hora". As recomendações internacionais publicadas em 2026 desmontaram esse limite: a janela se estende conforme a substância, surgiu o conceito de dose adicional e a decisão passou a ser uma avaliação de risco individualizada. O que não mudou: a maioria dos intoxicados não se beneficia de nenhuma descontaminação, e suporte clínico continua valendo mais do que qualquer procedimento.

Carvão: 50 g ou 1 g/kg Janela além de 1 hora Via aérea decide tudo Ipeca e lavagem: fora de rotina
Tempo de leitura: 19 min
Atualizado em: 17/08/2026

Decidir antes de agir

  • A maioria dos intoxicados não precisa de descontaminação
  • Pergunte: a substância adsorve? o dano esperado é grave?
  • Suporte clínico e antídoto vêm primeiro
  • Na dúvida, acione o centro de informação toxicológica

Carvão ativado

  • 50 g no adulto, 1 g/kg na criança
  • A janela de 1 hora deixou de ser um limite rígido
  • Dose adicional quando a absorção continua
  • Nunca sem via aérea protegida

Pele e olhos

  • Retirar a roupa remove a maior parte do contaminante
  • Irrigação copiosa e precoce, sem esperar exames
  • Olho: irrigar por pelo menos 15 a 30 minutos
  • Nunca tentar neutralizar ácido com base

Eliminação aumentada

  • É outra coisa: age depois da absorção
  • Alcalinização urinária para salicilato e fenobarbital
  • Hemodiálise para poucas substâncias bem definidas
  • Diurese forçada foi abandonada

O que é descontaminação

Descontaminar é reduzir a quantidade de tóxico que ainda pode ser absorvida. Age antes ou durante a absorção, e por isso o tempo importa. É diferente da eliminação aumentada, que retira o tóxico já absorvido, e do antídoto, que neutraliza o efeito.

Na prática, quatro portas de entrada precisam ser consideradas em todo intoxicado: trato gastrointestinal, pele, olhos e via respiratória. A descontaminação gastrointestinal domina as discussões, mas a dérmica e a ocular são as que mais frequentemente ficam esquecidas — e as que têm o melhor custo-benefício quando feitas cedo.

Nada disso vem antes do suporte. Via aérea, respiração, circulação, glicemia e temperatura são a prioridade. Um paciente estabilizado sobrevive à maioria das intoxicações sem qualquer descontaminação; um paciente com via aérea desprotegida pode morrer por causa dela.

O que mudou em 2026

Em março de 2026 foram publicadas as recomendações do Clinical Toxicology Recommendations Collaborative, fruto de trabalho conjunto das principais sociedades internacionais de toxicologia clínica. Elas substituem os posicionamentos de 1997, 1999 e 2005 sobre carvão ativado e trazem três mudanças de fundo:

  • O limite de 1 hora caiu. Para muitos venenos, o carvão é apropriado até 6 horas após a ingestão, conforme avaliação individualizada de risco.
  • Surgiu a "dose adicional". Um segundo aporte de carvão, com finalidade de completar a descontaminação, quando há suspeita de absorção contínua — não confundir com dose múltipla.
  • Listas por substância. Quarenta e três venenos ou categorias foram avaliados, com recomendação explícita a favor, contra ou de avaliação individualizada.
Por que a janela se estendeu

Estudos de esvaziamento gástrico em pacientes intoxicados mostraram tempo de esvaziamento duas a três vezes mais longo do que nos mesmos indivíduos após a recuperação. Endoscopias em intoxicados encontraram conteúdo em fase de comprimido ou de solução em parcela relevante dos pacientes entre 1 e 4 horas, e ainda em alguns entre 4 e 12 horas. Ou seja: o tóxico frequentemente continua lá muito depois da primeira hora.

Descontaminação não é eliminação

A confusão entre os dois conceitos é a origem de boa parte dos erros de prescrição. Descontaminar impede que o tóxico entre; eliminar retira o que já entrou. As doses múltiplas de carvão pertencem ao segundo grupo, e não ao primeiro — e é por isso que a lista de substâncias é diferente.

A regra que resume tudo

Descontaminação é uma intervenção com benefício incerto e risco concreto. Ela só se justifica quando a substância adsorve ou pode ser removida, a quantidade ingerida é potencialmente tóxica, o tempo decorrido ainda permite ganho, não há contraindicação, e o procedimento pode ser feito com segurança.

Se falhar qualquer um desses cinco itens, a resposta provavelmente é não descontaminar — e investir em suporte, monitorização e antídoto quando existir.

Descontaminar, eliminar, antagonizar

Estratégia Quando age Exemplos Limitação principal
Descontaminação Antes ou durante a absorção Carvão em dose única, irrigação intestinal total, lavagem gástrica, irrigação de pele e olhos Janela de tempo e risco de aspiração
Eliminação aumentada Depois da absorção Carvão em doses múltiplas, alcalinização urinária, hemodiálise Vale só para substâncias com cinética favorável
Antídoto Em qualquer momento, sobre o efeito N-acetilcisteína, naloxona, flumazenil, atropina e pralidoxima, fragmentos Fab antidigoxina Existe para poucas substâncias e nem sempre disponível
Suporte clínico Sempre Via aérea, ventilação, volume, vasopressor, controle de convulsão e de temperatura Nenhuma — é o que salva a maioria dos pacientes
Carvão ativado aparece em duas linhas da tabela porque tem dois papéis distintos: dose única e dose adicional descontaminam; doses múltiplas aumentam a eliminação. As indicações e as listas de substâncias não são as mesmas.

Os cinco números que orientam

50 g ou 1 g/kg

Dose de carvão no adulto e na criança, respectivamente, até o limite da dose de adulto.

Até 6 horas

Janela em que o carvão é apropriado para muitos venenos, conforme avaliação individualizada.

A cada 4 horas

Intervalo da dose múltipla, ou meia dose a cada 2 horas para melhor tolerância.

1 a 2 L/h

Velocidade da irrigação intestinal total com polietilenoglicol no adulto.

15 a 30 min

Tempo mínimo de irrigação ocular contínua antes de reavaliar o pH da superfície.

O Disque-Intoxicação (0800 722 6001) conecta com o Centro de Informação e Assistência Toxicológica de referência. Em qualquer dúvida sobre indicação, dose ou janela, essa ligação vale mais do que qualquer tabela — inclusive esta.

Como funciona e como se prescreve

O carvão ativado é um pó com enorme superfície de contato que adsorve moléculas no lúmen gastrointestinal, impedindo que passem para a circulação. Não adsorve tudo: substâncias muito pequenas, iônicas ou muito polares escapam quase completamente.

A relação alvo entre a massa de carvão e a massa de tóxico é de aproximadamente 10 para 1. Isso explica por que ingestões maciças podem exceder a capacidade de uma dose única — e é exatamente o raciocínio por trás do conceito de dose adicional.

Dose única

Descontaminação

50 g no adulto; 1 g/kg na criança, sem ultrapassar a dose de adulto. Objetivo: impedir a absorção do que ainda está no tubo digestivo.

Dose adicional

DescontaminaçãoConceito novo

Mesma dose da dose única, administrada a qualquer momento após a primeira, quando há evidência ou suspeita de absorção contínua. Não é dose múltipla.

Doses múltiplas

Eliminação aumentada

Começa com a mesma dose e repete a cada 4 horas, ou meia dose a cada 2 horas — esta última costuma ser mais bem tolerada por volume.

Como administrar

Suspensão em água, preferencialmente ingerida pelo próprio paciente. O sabor é desagradável e o volume é grande: reserve alguém da equipe para preparar, misturar e estimular a ingestão — isso muda a taxa de sucesso.

A janela de tempo, revisada

A recomendação de administrar o carvão apenas na primeira hora nasceu de estudos em voluntários que receberam doses subtóxicas, com o carvão ofertado quase imediatamente — um cenário que quase nunca se repete na emergência real.

Até 1 hora

Momento de maior benefício esperado. Se a substância adsorve, a dose é potencialmente tóxica e não há contraindicação, o carvão é apropriado.

De 1 a 6 horas

Para muitos venenos, o carvão continua apropriado nessa faixa, conforme avaliação individualizada de risco: tipo e quantidade da substância, formulação, coingestões, comorbidades e disponibilidade de antídoto.

Além de 6 horas

Apropriado quando há suspeita de absorção contínua: formação de farmacobezoar, formulações de liberação modificada, ou quantidade ingerida que ultrapassa os limites de solubilidade da substância.

Qualquer tempo, se a substância não adsorve

Não há papel para o carvão na intoxicação por arsênio, césio, cobre, etanol, metanol, etilenoglicol, ferro, chumbo, lítio e metformina — independentemente do tempo decorrido.

O tempo máximo recomendado varia por substância e por formulação. As faixas acima são o marco geral; para uma ingestão específica, consulte o centro de informação toxicológica, que trabalha com a tabela detalhada veneno a veneno.

Substâncias: quando indicar

A relação abaixo resume as recomendações de 2026 para as principais substâncias avaliadas. A coluna de dose única indica se a substância adsorve e se o carvão é apropriado; as demais indicam os cenários específicos de dose adicional e de doses múltiplas.

Substância Dose única Dose adicional Doses múltiplas
CarbamazepinaApropriadoSimSim
FenobarbitalApropriadoSimSim
TeofilinaApropriadoSimSim
TálioApropriadoSimSim
Glicosídeos cardíacosApropriadoNãoSim
ColchicinaApropriadoNãoSim
DapsonaApropriadoNãoSim
FenitoínaApropriadoNãoSim
ParacetamolApropriadoSimNão
SalicilatosApropriadoSimNão
ValproatoApropriadoSimNão
ParaquatApropriadoSimNão
VerapamilApropriadoSimNão
Antidepressivos tricíclicosApropriadoNãoNão
BetabloqueadoresApropriadoNãoNão
Bloqueadores de canal de cálcioApropriadoNãoNão
BupropionaApropriadoNãoNão
CloroquinaApropriadoNãoNão
IsoniazidaApropriadoNãoNão
OrganofosforadosApropriadoNãoNão
SulfonilureiasApropriadoNãoNão
Inibidores do fator Xa e varfarinaApropriadoNãoNão
Ferro, lítio, chumbo, arsênio, cobreSem papelNãoNão
Etanol, metanol, etilenoglicolSem papelNãoNão
Metformina e césioSem papelNãoNão
Também constam da lista de substâncias em que o carvão é apropriado: antiarrítmicos, cianeto, cocaína, difenidramina, disopiramida, ibuprofeno, lamotrigina, metotrexato, moclobemida, opioides, quinidina e quinina, inibidores seletivos da recaptação de serotonina e venlafaxina. "Apropriado" não significa obrigatório — a dose ingerida, o tempo e as contraindicações continuam decidindo.

Contraindicações

As contraindicações abaixo foram formalizadas em 2026 e vêm com força de recomendação explícita. As três primeiras são recomendações fortes contra.

  • Reflexos protetores de via aérea ausentes em paciente não intubado.
  • Reflexos protetores em risco ou com expectativa de se tornarem ausentes.
  • Risco de perfuração gastrointestinal.
  • Situações em que a administração aumentaria o risco de aspiração (recomendação fraca contra).
  • Peristaltismo ausente (recomendação fraca contra).
  • Pacientes que provavelmente necessitarão de endoscopia digestiva alta (recomendação fraca contra).
Duas situações exigem avaliação individualizada, e não proibição automática: peristaltismo diminuído (mas presente) e existência de um antídoto oral eficaz, que poderia ser adsorvido pelo carvão.

Via aérea: a decisão mais difícil

Intubar para conseguir administrar carvão é uma decisão delicada, porque a intubação em intoxicados tem taxa relevante de eventos adversos: hipotensão entre 1,5% e 11,8%, dessaturação entre 3,4% e 7,1% e parada cardíaca em 0,4% nos estudos disponíveis. Já a aspiração de carvão em paciente intubado é descrita em faixa baixa, de 1% a 4%.

  1. A intubação não deve ser feita apenas para administrar carvão em pacientes sem expectativa de complicações clinicamente significativas.
  2. Quando a intubação já está indicada por outro motivo — via aérea comprometida, insuficiência respiratória, rebaixamento importante, convulsão refratária ou instabilidade hemodinâmica —, é razoável passar sonda gástrica para viabilizar a descontaminação.
  3. Em paciente com risco clinicamente significativo de toxicidade ameaçadora à vida após grande ingestão, é razoável intubar para viabilizar a descontaminação com segurança, sobretudo quando não existem outras opções terapêuticas.
  4. SONDA NASOGÁSTRICA OU OROGÁSTRICA SEM INTUBAÇÃO NÃO DEVE SER PASSADA apenas com a finalidade de administrar carvão.
Quando a intubação já foi feita por outra indicação — inclusive para transporte ou para viabilizar hemodiálise —, a relação risco-benefício muda a favor do carvão, porque o custo do procedimento já foi pago.

Efeitos adversos

Aspiração

É a complicação grave. Infrequente, mas com relatos de óbito e de síndrome do desconforto respiratório agudo de instalação rápida. Associa-se sobretudo a proteção inadequada de via aérea e a passagem de sonda.

Vômito

Frequente e problemático: aumenta o risco de aspiração e faz perder a dose. Administração lenta e ambiente calmo ajudam mais do que antiemético isolado.

Obstrução e bezoar

Descritos com doses múltiplas, sobretudo em paciente com peristaltismo reduzido por opioide ou anticolinérgico. Ausculte e reavalie antes de cada dose.

Sorbitol

Formulações com sorbitol podem causar diarreia volumosa, desidratação e distúrbio eletrolítico. Se usar, no máximo na primeira dose — nunca repetidamente.

Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento com indicação, dose, alvo e cuidados. As doses são referências: confira a apresentação disponível e o protocolo do seu serviço antes de prescrever.

Carvão ativado na prática

Três estratégias com nomes parecidos e finalidades diferentes, mais a decisão de via aérea que condiciona todas elas.

Panorama das modalidades

Fora o carvão, as demais técnicas de descontaminação gastrointestinal têm indicações estreitas e riscos maiores. Duas delas — indução de vômito e catárticos — foram essencialmente abandonadas.

Modalidade Status atual Quando ainda cabe Risco principal
Carvão em dose única Primeira escolha Substância adsorvível, dose potencialmente tóxica, dentro da janela Aspiração
Irrigação intestinal total Indicação estreita Liberação prolongada, substâncias que não adsorvem, pacotes ingeridos Vômito, aspiração, distensão
Lavagem gástrica Excepcional Ingestão ameaçadora à vida, muito recente, sem alternativa terapêutica Aspiração, perfuração, hipoxemia, arritmia
Xarope de ipeca Não usar Sem indicação estabelecida na prática hospitalar atual Vômito prolongado, aspiração, atraso do carvão
Catárticos isolados Não usar Nenhuma indicação como terapia isolada Desidratação e distúrbio eletrolítico
Endoscopia ou cirurgia Casos selecionados Ruptura ou obstrução por pacote, corpo estranho, bezoar sintomático Do próprio procedimento

Irrigação intestinal total

Consiste em administrar grande volume de solução de polietilenoglicol com eletrólitos para arrastar o conteúdo intestinal, sem causar desvio significativo de líquidos ou eletrólitos. É a técnica de escolha quando a substância não adsorve ao carvão ou quando a formulação prolonga a permanência no intestino.

Considerar

  • Formulações de liberação prolongada ou revestimento entérico em dose potencialmente tóxica.
  • Substâncias que não adsorvem ao carvão: ferro, lítio, potássio, chumbo e outros metais.
  • Pacotes ingeridos de drogas, em paciente assintomático e sem obstrução.
  • Ingestões maciças com evidência radiológica de material remanescente.

Contraindicações

  • Obstrução, perfuração ou íleo.
  • Hemorragia digestiva significativa.
  • Instabilidade hemodinâmica.
  • Via aérea desprotegida ou rebaixamento do nível de consciência.
  • Vômitos incoercíveis.
Faixa etária Velocidade Observação
Adulto e adolescente1 a 2 L por horaVia oral ou por sonda; a sonda quase sempre é necessária pelo volume
Criança de 6 a 12 anosCerca de 1 L por horaAjustar conforme tolerância e distensão abdominal
Criança de 9 meses a 6 anosCerca de 500 mL por horaVigiar hipotermia e desconforto respiratório
Objetivo final: efluente retal límpido. No caso de pacotes ingeridos, acrescente a confirmação por imagem de que não há material remanescente antes de encerrar. Mantenha o paciente sentado quando possível e reavalie o abdome com frequência.
Se o paciente já recebeu carvão, saiba que a solução de polietilenoglicol pode provocar dessorção do tóxico já ligado ao carvão. Não é motivo para não usar as duas técnicas quando ambas estão indicadas, mas é motivo para não repetir carvão logo antes de iniciar a irrigação sem discutir o caso.

Lavagem gástrica

Deixou de ser procedimento de rotina há mais de duas décadas. Não há evidência de que melhore desfecho clínico, e a lista de complicações é substancial: pneumonia aspirativa, laringoespasmo, hipoxemia, arritmia, perfuração de esôfago e de estômago, e distúrbio hidroeletrolítico.

  1. Considere apenas diante de ingestão com risco de vida, muito recente, em que não existe outra opção terapêutica eficaz.
  2. Via aérea protegida é pré-requisito: paciente com rebaixamento precisa estar intubado antes do procedimento.
  3. Posicione em decúbito lateral esquerdo com cabeceira levemente rebaixada, usando sonda orogástrica de grosso calibre.
  4. Infunda alíquotas de soro fisiológico morno e aspire, repetindo até o retorno ficar limpo.
  5. NÃO REALIZE em ingestão de cáusticos ou de hidrocarbonetos, nem quando há risco de perfuração ou hemorragia digestiva.
  6. Administre o carvão pela própria sonda ao final, quando indicado, antes de retirá-la.

O que saiu de cena

Xarope de ipeca

Não deve ser administrado de rotina. Não melhora desfecho, provoca vômito prolongado, aumenta o risco de aspiração e atrasa o carvão e os antídotos orais. Foi retirado inclusive do uso domiciliar.

Catárticos

Sem papel como terapia isolada. Uma dose única associada ao carvão não tem benefício demonstrado, e o uso repetido causa desidratação, hipernatremia e distúrbio eletrolítico, especialmente em crianças.

Indução de vômito em casa

Contraindicada. Orientar a família a induzir vômito atrasa o atendimento e pode transformar uma ingestão leve em uma aspiração grave.

Neutralização química

Nunca tentar neutralizar ácido com base ou vice-versa: a reação é exotérmica e agrava a lesão. Vale para o tubo digestivo, para a pele e para os olhos.

Cáusticos: o cenário em que quase tudo é proibido

Na ingestão de ácidos e álcalis fortes, praticamente todas as técnicas de descontaminação gastrointestinal estão contraindicadas — a lesão já ocorreu no contato, e qualquer manobra tende a agravá-la.

  • Não induzir vômito — reexpõe o esôfago ao agente.
  • Não fazer lavagem gástrica — risco de perfuração de tecido já lesado.
  • Não dar carvão — não adsorve, obscurece a endoscopia e aumenta o risco em caso de perfuração.
  • Não neutralizar — a reação libera calor e piora a queimadura.
O que se faz: manter o paciente em jejum, avaliar via aérea precocemente, analgesia, antiemético, tomografia ou endoscopia digestiva alta conforme protocolo, e avaliação cirúrgica. Pequenos goles de água ou leite podem ser oferecidos somente se imediatos, se o paciente estiver consciente, deglutindo bem e sem vômitos; volumes maiores provocam vômito e pioram tudo.

Outras vias gastrointestinais

Técnicas de indicação estreita, em que a decisão de não fazer costuma ser tão importante quanto a de fazer.

O caminho da decisão

A pergunta não é "qual descontaminação eu faço?", e sim "este paciente ganha alguma coisa com descontaminação?". Na maioria das vezes, a resposta honesta é não.

  1. Estabilize primeiro. Via aérea, ventilação, circulação, glicemia capilar e temperatura. Nada de descontaminação em paciente instável.
  2. Identifique a substância, a quantidade e o horário. Sem esses três dados, a decisão fica no terreno da avaliação individualizada e da consulta ao centro de toxicologia.
  3. A dose ingerida é potencialmente tóxica? Se não for, pare aqui: a descontaminação só acrescenta risco.
  4. Existe antídoto ou tratamento específico melhor? N-acetilcisteína, atropina, fragmentos Fab e outros mudam completamente o peso da decisão.
  5. A substância adsorve ao carvão? Se não adsorve, considere irrigação intestinal total quando houver indicação, ou nenhuma descontaminação.
  6. O tempo decorrido ainda permite ganho? Use a janela por substância e formulação, e não a regra antiga de 1 hora.
  7. EXISTE CONTRAINDICAÇÃO? Reflexos de via aérea ausentes ou em risco e risco de perfuração impedem o carvão, sem exceção.
  8. O procedimento pode ser feito com segurança aqui e agora? Equipe, monitorização e material de via aérea disponíveis.
  9. Na dúvida, ligue. O centro de informação toxicológica trabalha com a tabela detalhada por substância e por formulação.

Contraindicações ao carvão — marque o que se aplica

8 itens Itens absolutos bloqueiam

Os três primeiros itens são recomendações fortes contra: a presença de qualquer um deles contraindica o carvão. Os três seguintes são recomendações fracas contra, e os dois últimos exigem avaliação individualizada.

Recomendação forte contra

Recomendação fraca contra

Avaliação individualizada

Itens marcados
0
Nenhuma contraindicação identificada
Se houver indicação pela substância e pelo tempo, o carvão pode ser administrado
Ausência de contraindicação não é indicação. Este bloco responde apenas à pergunta "posso dar?", e não à pergunta "devo dar?" — que depende da substância, da dose e do tempo decorrido.

Calculadora — indicação por substância e tempo

Dose única Dose adicional Doses múltiplas

Combina a substância ingerida, o tempo decorrido e a formulação para indicar qual estratégia de carvão é apropriada, com base nas recomendações internacionais de 2026.

Conduta sugerida
Ferramenta de apoio construída a partir das listas de substâncias das recomendações de 2026. O tempo máximo exato varia por substância e por formulação e não está reproduzido aqui item a item: confirme com o centro de informação toxicológica antes de decidir em casos limítrofes. Contraindicações prevalecem sobre qualquer indicação.

Calculadora de doses por peso

Carvão Irrigação intestinal

Converte as doses de referência para o peso e a faixa etária informados. Confira sempre a apresentação disponível no seu serviço.

Carvão — dose única
Meia dose (esquema 2/2 h)
Irrigação intestinal
Detalhamento

Na criança, a dose de carvão é de 1 g/kg, sem ultrapassar a dose de adulto de 50 g. A dose adicional usa a mesma quantidade da dose única. O esquema de doses múltiplas começa com a dose plena e repete a cada 4 horas, ou usa a meia dose a cada 2 horas quando o volume é mal tolerado.

Antes de tocar no paciente

Na descontaminação externa, a primeira vítima potencial é a equipe. Contaminação secundária de profissionais de saúde já foi descrita com organofosforados, agentes corrosivos e solventes — e paralisa o pronto-socorro inteiro.

Equipamento de proteção

Luvas resistentes a produtos químicos (não apenas látex de procedimento), avental impermeável, óculos ou protetor facial e máscara. Em exposição a agente desconhecido ou volátil, proteção respiratória adequada.

Zonas de atendimento

Zona quente onde está o agente, zona morna onde se descontamina e zona fria onde se trata. O paciente só entra na área assistencial depois de descontaminado.

Ventilação

Ambiente arejado, de preferência ao ar livre ou em área com exaustão. Agentes voláteis exalados pelo paciente podem intoxicar quem está ao redor.

Resíduos

Roupas e objetos contaminados em saco duplo identificado. Efluente da irrigação conforme a rotina institucional de resíduo químico.

Em exposição a agrotóxico organofosforado, o odor característico e a sudorese do paciente já indicam presença do agente na pele e nas roupas. Descontaminar antes de qualquer procedimento invasivo — inclusive antes de intubar, sempre que a condição clínica permitir.

Descontaminação da pele

É simples, barata e frequentemente esquecida. A medida isolada de maior impacto é a mais óbvia: retirar toda a roupa, o que remove a maior parte do contaminante retido nos tecidos.

  1. Retire toda a roupa, incluindo sapatos, meias, cinto, relógio e joias. Corte as peças em vez de puxá-las pela cabeça, para não contaminar face e olhos.
  2. Remova o excesso de material sólido escovando delicadamente com material seco, antes de qualquer água — pós reagem com água em alguns casos.
  3. Irrigue com água morna corrente e abundante por 15 a 20 minutos, em fluxo suave e contínuo, de cima para baixo.
  4. Use sabão neutro nas substâncias lipofílicas, como agrotóxicos e solventes, esfregando com delicadeza para não abradar a pele.
  5. Dê atenção especial a couro cabeludo, axilas, dobras, região inguinal, leito ungueal e entre os dedos.
  6. VIGIE HIPOTERMIA, especialmente em criança, idoso e paciente com grande área exposta. Use água morna e seque e aqueça ao final.
  7. Reavalie a pele e a clínica após a irrigação: persistência de sintomas pode indicar descontaminação incompleta.
Não use escova dura, esponja abrasiva nem água quente: abrasão e vasodilatação aumentam a absorção do agente pela pele.

Agentes com manejo diferente

Agente Particularidade O que fazer
Sódio e potássio metálicos Reagem violentamente com a água, com liberação de calor e chama Não irrigar com água. Remover fragmentos mecanicamente e cobrir com óleo mineral; acionar apoio especializado
Ácido fluorídrico Penetra profundamente e sequestra cálcio; a dor é desproporcional à lesão visível e pode causar hipocalcemia sistêmica fatal Irrigação abundante seguida de gel de gluconato de cálcio tópico; monitorizar cálcio, magnésio, potássio e eletrocardiograma
Fenol Pouco solúvel em água; a irrigação isolada pode ser insuficiente Água em grande volume é aceitável; polietilenoglicol de baixo peso molecular é alternativa descrita quando disponível
Cal virgem e pós secos Reagem com a água formando substância cáustica Escovar o pó a seco primeiro, depois irrigar copiosamente
Organofosforados e carbamatos Alta lipossolubilidade, com absorção cutânea contínua e risco de contaminação da equipe Retirar roupas, lavar com água e sabão neutro, com equipe protegida; repetir se os sintomas persistirem
Hidrocarbonetos e solventes Dissolvem a barreira lipídica da pele e podem causar dermatite química Água e sabão; evitar solventes para "limpar" a pele, que só aumentam a absorção

Descontaminação ocular

É a urgência oftalmológica em que cada minuto conta. A irrigação deve começar no local do acidente, continuar no transporte e prosseguir no pronto-socorro — antes de qualquer avaliação detalhada da acuidade visual.

  1. Comece a irrigar imediatamente com soro fisiológico, ringer lactato ou, na falta deles, água limpa corrente.
  2. Aplique anestésico tópico quando disponível: sem ele, o blefaroespasmo impede uma irrigação eficaz.
  3. Irrigue por pelo menos 15 a 30 minutos contínuos, com volume da ordem de 1 a 2 litros por olho — mais nos álcalis.
  4. Everta as pálpebras e inspecione os fundos de saco em busca de partículas retidas, removendo-as com cotonete umedecido.
  5. Meça o pH da superfície ocular alguns minutos após interromper a irrigação, e não durante; o alvo é a faixa de 7,0 a 7,4.
  6. Se o pH ainda estiver alterado, retome a irrigação e repita a medida — nos álcalis isso pode levar horas.
  7. NUNCA TENTE NEUTRALIZAR o agente com solução de pH oposto: a reação libera calor e agrava a lesão.
  8. Encaminhe para avaliação oftalmológica, com registro do agente, do horário e do tempo total de irrigação.
Álcalis são piores que ácidos. Provocam necrose de liquefação e continuam penetrando em profundidade; ácidos causam necrose de coagulação, que tende a limitar a própria progressão. Diante de soda cáustica, amônia, cal ou cimento, presuma lesão grave e irrigue por muito mais tempo.

Exposição inalatória

Retirar da fonte

É a descontaminação em si. Deve ser feita por equipe com proteção respiratória adequada — nunca por profissional desprotegido.

Oxigênio e via aérea

Oxigênio suplementar, avaliação precoce de estridor e de queimadura de via aérea, com limiar baixo para intubação diante de sinais de acometimento.

Broncoespasmo

Broncodilatador inalatório; corticoide conforme a avaliação clínica. Gases irritantes podem cursar com edema pulmonar de instalação tardia.

Observação prolongada

Agentes de baixa solubilidade, como fosgênio e dióxido de nitrogênio, causam lesão pulmonar horas depois. Paciente assintomático inicial não garante nada.

Descontaminação externa

Medidas baratas, rápidas e de altíssimo impacto — desde que a equipe esteja protegida antes de começar.

Quando o tóxico já entrou

A eliminação aumentada atua sobre a substância já absorvida. Só faz sentido para moléculas com cinética favorável: baixo volume de distribuição, baixa ligação proteica, baixo peso molecular e depuração endógena lenta o suficiente para que a técnica acrescente algo.

Carvão em doses múltiplas

Interrompe a circulação êntero-hepática e promove diálise gastrointestinal. Apropriado em carbamazepina, glicosídeos cardíacos, colchicina, dapsona, fenobarbital, fenitoína, tálio e teofilina.

Alcalinização urinária

Aumenta a excreção de ácidos fracos ao ionizá-los no túbulo. Primeira linha nos salicilatos que não preenchem critério de diálise, e útil em fenobarbital e herbicidas clorofenoxi.

Hemodiálise

Modalidade extracorpórea preferida na maioria das intoxicações dialisáveis. Remove tanto o tóxico quanto corrige acidose e distúrbio eletrolítico associados.

Diurese forçada

Abandonada. Sobrecarga de volume, hiponatremia e edema pulmonar sem ganho demonstrado. Não confundir com hidratação adequada nem com alcalinização.

Alcalinização urinária

O objetivo é manter o pH urinário entre 7,5 e 8,5, o que mantém o ácido fraco ionizado no túbulo e impede a reabsorção. O erro mais comum e mais frustrante da técnica é o mesmo há décadas: não corrigir a hipocalemia.

Item Conduta
IndicaçõesSalicilatos em intoxicação moderada sem critério de diálise; fenobarbital; herbicidas clorofenoxi; metotrexato em dose alta; clorpropamida
AtaqueBicarbonato de sódio 1 a 2 mEq/kg por via endovenosa em bolus
ManutençãoInfusão contínua de solução com bicarbonato, titulada para manter o pH urinário na faixa alvo
PotássioCorrigir sempre. Em hipocalemia o túbulo troca potássio por hidrogênio e a urina não alcaliniza, por mais bicarbonato que se administre
MonitorizaçãopH urinário a cada 1 hora; pH arterial, sódio, potássio, cálcio e bicarbonato séricos de forma seriada
LimitesSuspender se o pH arterial ultrapassar 7,55, se houver sobrecarga de volume ou hipocalemia refratária
CuidadosCautela em insuficiência cardíaca, insuficiência renal e edema cerebral; hipocalcemia sintomática pode ocorrer com a alcalose

Calculadora — alcalinização urinária

Bicarbonato 8,4% Preparo da infusão

Converte a dose de ataque para o peso informado e mostra um preparo habitual de manutenção. Ajuste conforme a rotina do seu serviço e a resposta do pH urinário.

Ataque (1–2 mEq/kg)
Volume de 8,4%
Ampolas de 10 mL
Situação do pH urinário
No bicarbonato de sódio a 8,4%, 1 mL corresponde a 1 mEq. Um preparo comum de manutenção associa bicarbonato a soro glicosado com reposição de potássio, titulado pelo pH urinário. Sem correção da hipocalemia, a alcalinização não acontece.

Tratamento extracorpóreo

As recomendações do grupo internacional dedicado ao tema organizam quais intoxicações se beneficiam de diálise. A hemodiálise intermitente é a modalidade preferida na maioria dos casos.

Substância Posição Observação
SalicilatosRecomendadoConcentrações muito elevadas independentemente dos sintomas, alteração do estado mental, edema pulmonar ou cerebral, acidemia grave e disfunção renal; limiares mais baixos com função renal comprometida
Metanol e etilenoglicolRecomendadoAssociado a fomepizol ou etanol e a cofatores; corrige a acidose e remove os metabólitos tóxicos
LítioRecomendadoIntoxicação grave, sobretudo com disfunção renal, rebaixamento, convulsão ou arritmia ameaçadora
MetforminaRecomendadoAcidose láctica associada à metformina com acidose grave, choque ou disfunção renal
ValproatoRecomendadoConcentrações muito elevadas, coma, depressão respiratória, edema cerebral ou choque
TeofilinaRecomendadoIntoxicação grave, com convulsão, arritmia ou concentração muito elevada
Barbitúricos de longa açãoSugeridoComa prolongado, instabilidade ou falha do tratamento de suporte e do carvão em doses múltiplas
CarbamazepinaSugeridoCasos graves com coma, convulsão ou deterioração apesar do suporte
TálioSugeridoPrecocemente, associado ao azul da Prússia
ParacetamolSituações restritasIngestão maciça com concentração muito elevada, alteração do nível de consciência e acidose antes da N-acetilcisteína fazer efeito
Antidepressivos tricíclicos, digoxina, fenitoínaNão recomendadoGrande volume de distribuição e alta ligação proteica tornam a remoção desprezível
Terapias contínuas de substituição renal são aceitáveis quando a hemodiálise intermitente não está disponível, mas removem menos por unidade de tempo. A exsanguineotransfusão tem espaço no neonato. A indicação e o momento devem ser discutidos com nefrologia e toxicologia.

Eliminação aumentada

Duas técnicas com indicação bem delimitada, e um erro clássico que faz a primeira delas parecer ineficaz.

Populações e situações particulares

Cenário Particularidade O que fazer diferente
Criança Ingestão exploratória costuma ser mínima, mas algumas substâncias são letais em um único comprimido. A cooperação para beber o carvão é limitada. As indicações e contraindicações do adulto se aplicam. Dose de 1 g/kg até 50 g. Não passe sonda apenas para forçar o carvão. Avalie sempre a possibilidade de intoxicação intencional no adolescente.
Gestante O carvão é inerte e não é absorvido, com risco direto ao feto improvável. O melhor desfecho fetal depende do desfecho materno. Mesmos critérios do adulto. Atenção ao risco aumentado de vômito e aspiração, que varia ao longo da gestação, e à avaliação obstétrica em paralelo.
Idoso Polifarmácia, declínio de função orgânica e maior letalidade da tentativa de suicídio por ingestão. Mesmos critérios do adulto. Atenção a peristaltismo reduzido, medicações de manutenção que seriam adsorvidas e menor reserva para tolerar aspiração.
Cirurgia bariátrica prévia ou obesidade grave Anatomia e trânsito alterados, com dados praticamente inexistentes. Avaliação individualizada, com apoio do centro de toxicologia.
Ingestão de cáusticos A lesão ocorre no contato; a descontaminação gastrointestinal só agrava. Jejum, analgesia, avaliação de via aérea, imagem e endoscopia conforme protocolo. Nada de carvão, lavagem, vômito ou neutralização.
Hidrocarbonetos O risco principal é a pneumonite química por aspiração, e não a toxicidade sistêmica na maioria dos casos. Não induzir vômito e não fazer lavagem. Carvão em geral sem indicação, salvo aditivo tóxico associado. Observação respiratória e radiografia conforme evolução.
Pacotes de droga ingeridos Ruptura de um único pacote pode ser fatal; obstrução e perfuração são complicações reais. Tomografia para confirmar e contar. Assintomático: irrigação intestinal total até efluente limpo e imagem negativa. Sintomático, obstruído ou perfurado: cirurgia de urgência.
Paraquat Altíssima letalidade e ausência de antídoto; a descontaminação precoce é uma das poucas medidas com racional. Carvão o mais precocemente possível, incluindo dose adicional. Oxigênio suplementar apenas se hipoxemia significativa, pelo agravamento da lesão pulmonar oxidativa.
Ferro e lítio Não adsorvem ao carvão em nenhuma circunstância. Considerar irrigação intestinal total quando há dose tóxica e comprimidos visíveis à imagem. Ferro tem quelante específico; lítio tem indicação de diálise nos casos graves.
Substância desconhecida Cenário mais comum do que os livros sugerem, e o de decisão mais difícil. Toxíndrome, exame físico dirigido, eletrocardiograma e laboratório orientam mais do que qualquer triagem urinária. Discuta com o centro de toxicologia antes de descontaminar às cegas.

Erros comuns

  • Descontaminar antes de estabilizar via aérea, ventilação e circulação.
  • Aplicar a regra antiga de "carvão só na primeira hora" e deixar de tratar ingestões que ainda ganhariam com ele.
  • Fazer o oposto: dar carvão em qualquer intoxicação, independentemente da substância e da dose.
  • Dar carvão em paciente sonolento sem via aérea protegida — o erro que mais causa dano nesta lista.
  • Passar sonda nasogástrica sem intubação apenas para administrar carvão.
  • Intubar somente para viabilizar o carvão em paciente sem risco de toxicidade significativa.
  • Prescrever carvão em intoxicação por ferro, lítio, etanol, metanol, etilenoglicol ou metformina.
  • Confundir doses múltiplas com dose adicional e repetir carvão em substância sem indicação de eliminação aumentada.
  • Usar carvão com sorbitol repetidamente, provocando diarreia e distúrbio eletrolítico.
  • Fazer lavagem gástrica de rotina, ou fazê-la horas depois da ingestão.
  • Induzir vômito, ou orientar a família a fazê-lo por telefone.
  • Tentar neutralizar cáustico com substância de pH oposto.
  • Esquecer de retirar as roupas do paciente contaminado, mantendo a exposição ativa.
  • Atender paciente contaminado sem equipamento de proteção e contaminar a equipe.
  • Interromper a irrigação ocular cedo demais, ou medir o pH durante a irrigação em vez de após.
  • Iniciar alcalinização urinária sem corrigir a hipocalemia e concluir que a técnica não funciona.
  • Confundir alcalinização com diurese forçada e sobrecarregar o paciente de volume.
  • Não acionar o centro de informação toxicológica em caso de dúvida.

Resumo do fluxo

  1. Proteja a equipe e considere descontaminação externa antes de trazer o paciente para a área assistencial.
  2. ESTABILIZE: via aérea, ventilação, circulação, glicemia e temperatura vêm antes de qualquer descontaminação.
  3. Retire as roupas e irrigue pele e olhos quando houver exposição externa, sem esperar exames.
  4. Levante substância, quantidade, horário e formulação; considere coingestões.
  5. Verifique se a dose é potencialmente tóxica e se existe antídoto ou tratamento específico.
  6. Cheque as contraindicações ao carvão antes de checar a indicação.
  7. Se indicado, administre carvão em dose única e considere dose adicional quando a absorção pode continuar.
  8. Considere irrigação intestinal total nas substâncias que não adsorvem, nas formulações de liberação prolongada e nos pacotes ingeridos.
  9. Avalie eliminação aumentada: doses múltiplas de carvão, alcalinização urinária ou diálise, conforme a substância.
  10. Monitorize, reavalie e acione o centro de informação toxicológica sempre que houver dúvida.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

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Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional, destinada a profissionais de saúde. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, janelas de tempo e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação. Em caso de intoxicação, acione o Centro de Informação e Assistência Toxicológica de referência pelo Disque-Intoxicação, 0800 722 6001.

Informações rápidas

Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.

O essencial

Decidir antes de agir

A maioria dos intoxicados não precisa de descontaminação. Ela só se justifica quando a substância adsorve ou pode ser removida, a dose é potencialmente tóxica, o tempo ainda permite ganho, não há contraindicação e o procedimento é seguro. Suporte clínico e antídoto vêm primeiro.

Carvão ativado

50 g no adulto e 1 g/kg na criança, até a dose de adulto. A janela de 1 hora deixou de ser rígida: para muitos venenos é apropriado até 6 horas, e além disso quando há suspeita de absorção contínua. Nunca sem via aérea protegida.

Pele e olhos

Retirar toda a roupa já remove a maior parte do contaminante. Irrigue a pele com água morna por 15 a 20 minutos e o olho por 15 a 30 minutos contínuos. Nunca neutralizar com pH oposto. Álcalis no olho são mais graves que ácidos.

Eliminação aumentada

Age depois da absorção e é outra coisa. Doses múltiplas de carvão para carbamazepina, glicosídeos, colchicina, dapsona, fenobarbital, fenitoína, tálio e teofilina. Alcalinização urinária para salicilato e fenobarbital. Diálise para poucas substâncias bem definidas.

Números rápidos

Carvão: 50 g no adulto; 1 g/kg na criança, sem ultrapassar a dose de adulto.

Proporção alvo: cerca de 10 partes de carvão para 1 parte de tóxico.

Doses múltiplas: mesma dose a cada 4 horas, ou metade da dose a cada 2 horas.

Irrigação intestinal: 1 a 2 L/h no adulto, até efluente retal límpido.

Alcalinização: pH urinário alvo de 7,5 a 8,5; corrigir sempre o potássio.

Irrigação ocular: 15 a 30 minutos contínuos; pH da superfície entre 7,0 e 7,4.

Não esqueça

Suporte clínico vem antes de qualquer descontaminação.

A janela de 1 hora para o carvão deixou de ser um limite rígido.

Sem via aérea protegida, não existe carvão.

Ferro, lítio, etanol, metanol, etilenoglicol e metformina não adsorvem.

Retirar a roupa já é metade da descontaminação externa.

Nunca neutralizar cáustico com substância de pH oposto.

Em provas / residência

A banca cobra as contraindicações do carvão, a lista de substâncias que não adsorvem e a proibição do uso rotineiro da ipeca e da lavagem gástrica.

Decore: dose de 50 g ou 1 g/kg; doses múltiplas para carbamazepina, glicosídeos cardíacos, colchicina, dapsona, fenobarbital, fenitoína, tálio e teofilina; álcalis no olho são piores que ácidos.

Mais informações nas abas do artigo.

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