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Delirium na UTI

É a disfunção orgânica mais frequente e mais subdiagnosticada da terapia intensiva. A forma hipoativa é a mais comum, a mais grave e a que ninguém percebe — porque o paciente quieto não incomoda. Sem rastreio sistemático com uma ferramenta validada, a maioria dos casos simplesmente passa despercebida.

Rastrear a cada turno Hipoativo é o mais comum Pacote ABCDEF Antipsicótico não previne
Tempo de leitura: 16 min
Atualizado em: 13/08/2026

Rastrear

  • CAM-ICU ou ICDSC pelo menos uma vez por turno
  • Sempre precedido pela avaliação do RASS
  • Rastrear também após mudanças de sedação
  • Sem rastreio ativo, a maioria dos casos passa

Reconhecer os subtipos

  • Hipoativo: apático, lentificado, quieto — o mais comum
  • Hiperativo: agitado, combativo — o mais notado
  • Misto: alterna entre os dois ao longo do dia
  • Curso flutuante é característica essencial

Procurar a causa

  • Delirium é sintoma, não diagnóstico final
  • Infecção, hipóxia, distúrbio metabólico e dor
  • Revisar toda a prescrição, medicação por medicação
  • Excluir abstinência, AVC e crise não convulsiva

Prevenir e tratar

  • Pacote ABCDEF aplicado de forma consistente
  • Mobilização precoce, sono e reorientação
  • Evitar benzodiazepínico como sedativo de rotina
  • Antipsicótico só para sintomas angustiantes

O que é delirium

Delirium é uma disfunção cerebral aguda, caracterizada por distúrbio da atenção e da consciência que se instala em horas a dias, apresenta curso flutuante, vem acompanhado de alteração cognitiva adicional e é consequência de uma condição médica, de uma intoxicação, de abstinência ou de múltiplas causas simultâneas.

Na terapia intensiva, é a disfunção orgânica mais frequente — e a mais subdiagnosticada. Sem rastreio sistemático, a maior parte dos casos passa despercebida, sobretudo porque a forma predominante é a hipoativa, em que o paciente permanece quieto e não gera alarme.

Delirium não é "confusão esperada do ambiente de UTI" nem consequência inevitável da idade. É disfunção orgânica, associa-se de forma independente a maior mortalidade, tempo de ventilação, tempo de internação e comprometimento cognitivo de longo prazo.

Por que acontece

A fisiopatologia é multifatorial e ainda não totalmente esclarecida. Os mecanismos mais consistentemente descritos são:

  • Neuroinflamação — citocinas periféricas atravessam a barreira hematoencefálica e ativam a micróglia.
  • Desequilíbrio de neurotransmissores — déficit colinérgico com excesso relativo de dopamina; alterações de GABA, glutamato, serotonina e melatonina.
  • Hipoperfusão e disfunção endotelial — redução do fluxo sanguíneo cerebral e da entrega de oxigênio.
  • Estresse oxidativo e disfunção mitocondrial — falha do metabolismo energético neuronal.
  • Disrupção do ciclo sono-vigília — perda dos sincronizadores ambientais e supressão da melatonina.

Os três subtipos

  • Hipoativo — lentificação, apatia, retraimento, resposta lenta. É o mais frequente, o de pior prognóstico e o que mais escapa ao diagnóstico. Frequentemente confundido com depressão, sedação residual ou "paciente tranquilo".
  • Hiperativo — agitação, inquietação, retirada de dispositivos, combatividade. É o menos frequente, mas o que gera alarme e chamado médico.
  • Misto — alterna entre os dois padrões ao longo do mesmo dia. Reforça a importância de rastrear em todos os turnos, e não apenas uma vez.
A armadilha do plantão

O paciente hiperativo é chamado de "delirium"; o hipoativo é chamado de "paciente calmo, sem intercorrências". Essa assimetria de percepção é justamente o que a ferramenta de rastreio existe para corrigir.

Impacto clínico

O delirium não é um evento transitório sem consequências. Cada dia adicional em delirium se associa a pior desfecho, e a duração do quadro é um dos preditores mais consistentes de comprometimento cognitivo posterior.

Frequência

Muito comum em pacientes críticos, com incidência ainda maior sob ventilação mecânica.

Subtipo dominante

Hipoativo, o mais grave e o que mais passa despercebido.

Duração

Quanto mais dias em delirium, pior o desfecho cognitivo e funcional.

Longo prazo

Comprometimento cognitivo persistente, componente da síndrome pós-cuidados intensivos.

Desfechos imediatos

Mais tempo de ventilação, de internação e maior mortalidade.

As três perguntas de todo turno

Ele está desperto o suficiente para ser avaliado?

Avalie primeiro o nível de consciência pelo RASS. Pacientes com RASS de −4 ou −5 não são avaliáveis: registre como "não avaliável por coma" e reavalie após ajuste da sedação.

Ele tem delirium agora?

Aplique a CAM-ICU ou o ICDSC. A avaliação leva poucos minutos e é o único jeito confiável de identificar a forma hipoativa.

Por que ele tem delirium?

Delirium é sintoma. Procure ativamente infecção, hipóxia, distúrbio metabólico, dor, retenção urinária, constipação, abstinência e — muito importante — medicamentos.

A intervenção com maior impacto não é medicamentosa: é a aplicação consistente do pacote ABCDEF, com despertar diário, escolha adequada da sedação, mobilização precoce e envolvimento da família.

Predisponentes e precipitantes

A lógica é simples: quanto maior a vulnerabilidade prévia, menor o estímulo necessário para desencadear o quadro. Um idoso com demência entra em delirium com uma infecção urinária; um jovem previamente hígido precisa de um insulto muito maior.

Grupo Fatores Observação
Predisponentes
(não modificáveis)
Idade avançada, demência ou comprometimento cognitivo prévio, delirium prévio, déficit visual ou auditivo, fragilidade, doença cerebrovascular, doença de Parkinson, etilismo crônico, desnutrição. Definem a vulnerabilidade basal e orientam a intensidade das medidas preventivas.
Relacionados à doença aguda Sepse, choque, hipoxemia, hipercapnia, distúrbios hidroeletrolíticos, disfunção renal e hepática, hipoglicemia e hiperglicemia, febre, dor não controlada, anemia. São os alvos diretos da investigação — corrigir a causa é parte do tratamento.
Iatrogênicos e ambientais Benzodiazepínicos, anticolinérgicos, opioides em excesso, sedação profunda, ventilação mecânica, contenção física, privação de sono, ruído, luz contínua, imobilidade, ausência de óculos e aparelho auditivo, isolamento da família. São os modificáveis — e por isso os mais importantes na prática diária.
Entre os fatores modificáveis, o benzodiazepínico é o mais consistentemente associado a delirium na terapia intensiva. Reavaliar a sedação é frequentemente a intervenção de maior impacto disponível à beira do leito.

Investigação da causa

Delirium é sintoma, não diagnóstico final. Diante de um caso novo, percorra sistematicamente as causas potencialmente reversíveis antes de atribuir o quadro ao ambiente.

  • Infecção — pneumonia, infecção urinária, infecção de cateter, abdome agudo. Em idosos, delirium pode ser a única manifestação.
  • Oxigenação e ventilação — hipoxemia e hipercapnia; confira gasometria e parâmetros ventilatórios.
  • Metabólico — sódio, cálcio, magnésio, fósforo, glicemia, função renal e hepática, amônia, função tireoidiana.
  • Medicamentos — revise a prescrição inteira: benzodiazepínicos, anticolinérgicos, opioides, corticoides, antibióticos neurotóxicos, anti-histamínicos e antieméticos.
  • Abstinência — álcool, benzodiazepínicos, opioides e nicotina. Pergunte ativamente à família sobre o uso prévio.
  • Dor não controlada — causa e consequência de agitação; avalie com escala apropriada em quem não comunica.
  • Retenção urinária e constipação — causas banais, frequentes e facilmente reversíveis.
  • Neurológico — acidente vascular cerebral, hemorragia, crise epiléptica não convulsiva, meningite e encefalite.
  • Privação sensorial e de sono — óculos, aparelho auditivo, ruído noturno, luz e interrupções desnecessárias.
Delirium de início súbito com déficit focal, rebaixamento progressivo ou ausência de causa sistêmica aparente exige investigação neurológica dirigida, incluindo imagem e eletroencefalograma quando indicado.

Medicamentos que mais contribuem

Benzodiazepínicos

Associação consistente com delirium na terapia intensiva. Devem ser evitados como sedativo de rotina — exceto na abstinência alcoólica, no estado de mal epiléptico e em situações específicas.

Anticolinérgicos

Anti-histamínicos de primeira geração, antiespasmódicos, alguns antidepressivos tricíclicos e antipsicóticos de baixa potência. A carga anticolinérgica somada da prescrição importa mais que cada fármaco isolado.

Opioides

Relação em dois sentidos: dor não tratada favorece delirium, mas o excesso de opioide também. O objetivo é analgesia adequada, não ausência de opioide.

Corticoides

Alterações neuropsiquiátricas dose-dependentes, sobretudo em esquemas de dose alta.

Antimicrobianos

Alguns betalactâmicos em dose elevada ou em disfunção renal, quinolonas e antivirais podem cursar com neurotoxicidade.

Indutores do sono

Hipnóticos usados para "resolver" a insônia da UTI frequentemente pioram o quadro e fragmentam ainda mais o sono.

Como rastrear na prática

O rastreio tem duas etapas obrigatórias e nessa ordem: primeiro o nível de consciência, depois o conteúdo da consciência.

  1. Avalie o RASS — escala de agitação e sedação de Richmond.
  2. RASS de −4 ou −5: o paciente não é avaliável. Registre como não avaliável por coma e reavalie após o ajuste da sedação.
  3. RASS entre −3 e +4: prossiga com a CAM-ICU ou o ICDSC.
  4. Aplique a ferramenta pelo menos uma vez por turno e sempre que houver mudança clínica ou de sedação.
  5. Registre o resultado em prontuário, com horário — a flutuação só é visível na comparação entre avaliações.
  6. Resultado positivo: procure a causa e revise o plano de sedação, analgesia e mobilização.
Um paciente sob sedação profunda contínua tem "RASS −4" e frequentemente é registrado como sem delirium. Isso é ausência de avaliação, não ausência de delirium — e é uma das razões pelas quais a interrupção diária da sedação importa tanto.

Escala RASS

Escore Termo Descrição
+4CombativoAbertamente combativo ou violento, com risco imediato para a equipe.
+3Muito agitadoPuxa ou retira tubos e cateteres, agressivo.
+2AgitadoMovimentos frequentes e não intencionais, assincronia com o ventilador.
+1InquietoAnsioso, com movimentos não vigorosos nem agressivos.
0Alerta e calmoDesperto, tranquilo e cooperativo.
−1SonolentoNão totalmente alerta, mas mantém os olhos abertos ao chamado por mais de 10 segundos.
−2Sedação leveDesperta ao chamado, com contato visual por menos de 10 segundos.
−3Sedação moderadaMovimenta-se ou abre os olhos ao chamado, sem contato visual.
−4Sedação profundaSem resposta ao chamado, mas movimenta-se ao estímulo físico.
−5Não despertaSem resposta ao chamado nem ao estímulo físico.
A avaliação é sequencial: observe o paciente, depois chame pelo nome pedindo que abra os olhos, e só então aplique o estímulo físico. O alvo habitual de sedação em pacientes críticos é RASS entre −2 e 0, salvo indicação específica de sedação profunda.

Calculadora — RASS e CAM-ICU

Nível de consciência 4 características Resultado imediato

Comece pelo RASS. Se o paciente for avaliável, marque as características presentes. A CAM-ICU é positiva quando estão presentes as características 1 e 2, associadas a 3 ou 4.

1

Início agudo ou curso flutuante

Houve mudança aguda do estado mental em relação ao basal, ou o comportamento flutuou nas últimas 24 horas — incluindo variação do RASS ou da escala de coma de Glasgow?

2

Desatenção

Aplique o teste de atenção: leia dez letras e peça que o paciente aperte a sua mão sempre que ouvir a letra "A". Erros são apertar em letra diferente de "A" ou não apertar no "A".

3

Nível de consciência alterado

Considera-se presente quando o RASS atual é diferente de zero, ou seja, o paciente não está alerta e calmo.

4

Pensamento desorganizado

Quatro perguntas simples de sim ou não (por exemplo, se uma pedra flutua na água) e um comando motor com número de dedos. Avalie o total de erros.

Resultado da CAM-ICU
Ferramenta de apoio ao registro. A CAM-ICU é positiva com as características 1 e 2 associadas a 3 ou 4. Um resultado negativo em um único momento não exclui delirium: pelo curso flutuante, a reavaliação a cada turno é indispensável.

Calculadora — ICDSC

8 itens Avalia o turno inteiro

A Intensive Care Delirium Screening Checklist pontua 1 ponto por item presente, considerando as observações de todo o turno — e não apenas do momento da avaliação. Pontuação de 4 ou mais indica delirium; de 1 a 3 sugere quadro subsindrômico, que também se associa a pior desfecho.

Pontuação total
0
Sem delirium pelo ICDSC
Mantenha o rastreio a cada turno — o curso é flutuante
Ferramenta de apoio. Pacientes em coma (RASS de −4 ou −5) não são avaliáveis pelo ICDSC. Assim como na CAM-ICU, o resultado reflete um momento do turno e precisa ser interpretado junto com a evolução clínica.

O que confunde com delirium

Condição Como diferenciar Conduta
Demência Início insidioso ao longo de meses a anos, curso estável, atenção habitualmente preservada nas fases iniciais e nível de consciência normal. Obtenha o basal com a família. Demência e delirium coexistem com frequência — a demência é fator de risco, não diagnóstico alternativo.
Depressão Humor deprimido persistente, sem flutuação horária e com atenção relativamente preservada. É o diagnóstico mais frequentemente atribuído por engano ao delirium hipoativo. Aplique a ferramenta de rastreio antes de assumir depressão em paciente crítico.
Sedação residual Relação temporal com a suspensão do sedativo, sem desatenção nem pensamento desorganizado após o despertar. Reavalie após a eliminação do fármaco; considere acúmulo em disfunção renal e hepática.
Crise epiléptica não convulsiva Rebaixamento ou confusão flutuante sem causa clara, com automatismos, desvio ocular ou nistagmo sutil. Considere eletroencefalograma em delirium refratário ou com rebaixamento inexplicado.
Acidente vascular cerebral Déficit neurológico focal, início súbito. Lesões de lobo frontal, temporal direito e tálamo podem se manifestar como confusão. Imagem dirigida diante de déficit focal ou de quadro inexplicado.
Abstinência Tremor, sudorese, taquicardia, hipertensão e alucinações, com relação temporal ao uso prévio de álcool, benzodiazepínico ou opioide. Colha história com a família. O tratamento é específico e diferente do delirium habitual.
Encefalopatias metabólicas Hepática, urêmica, hipoglicêmica, hiponatrêmica, hipercápnica e por hipotireoidismo. São causas de delirium, e não alternativas — identificá-las é o tratamento.
Psicose primária Nível de consciência e atenção preservados, com história psiquiátrica prévia e alucinações tipicamente auditivas. Diagnóstico incomum como quadro novo em UTI — investigue causa orgânica primeiro.
A pergunta que mais orienta é feita à família: "como ele estava antes de internar?". Sem conhecer o basal, é impossível reconhecer mudança aguda — e mudança aguda é a característica número um da CAM-ICU.

Quando ampliar a investigação

Déficit focal novo

Assimetria motora, alteração de campo visual, afasia ou desvio do olhar exigem imagem cerebral imediata.

Rebaixamento progressivo

Piora contínua do nível de consciência sem causa sistêmica identificada aponta para investigação neurológica.

Delirium refratário

Ausência de melhora após correção das causas e otimização do pacote de cuidados sugere eletroencefalograma.

Febre com rigidez de nuca

Considere meningite e encefalite; a punção lombar segue os cuidados habituais quanto à imagem prévia.

Pacote ABCDEF

É a estratégia com maior impacto demonstrado sobre delirium, tempo de ventilação, mortalidade e desfechos funcionais. O benefício é dose-dependente: quanto mais elementos aplicados de forma consistente, melhor o resultado.

Letra Elemento O que fazer na prática
AAvaliar e tratar a dorAvaliação sistemática com escala apropriada, inclusive em quem não comunica. Analgesia antes de sedação — a chamada analgo-sedação.
BTestes de despertar e de respiração espontâneaInterrupção diária da sedação combinada ao teste de respiração espontânea, com critérios de segurança definidos e realizada de forma coordenada.
CEscolha de analgesia e sedaçãoSedação leve como alvo (RASS entre −2 e 0). Preferir propofol ou dexmedetomidina a benzodiazepínicos, salvo indicação específica.
DDelirium: rastrear e manejarCAM-ICU ou ICDSC a cada turno, com investigação da causa e revisão da prescrição diante de resultado positivo.
EExercício e mobilização precoceMobilização progressiva assim que houver estabilidade — sentar, ficar em pé, caminhar, inclusive sob ventilação mecânica.
FFamíliaVisitas ampliadas, participação no cuidado e na reorientação, comunicação clara e envolvimento nas decisões.
Nenhum medicamento demonstrou prevenir delirium de forma consistente. O que funciona é organização do cuidado — e isso depende de protocolo, de equipe multiprofissional e de constância, não de prescrição.

Medidas não farmacológicas

  • Reorientação — relógio e calendário visíveis, identificação da equipe, explicação repetida do que está acontecendo e do plano do dia.
  • Higiene do sono — agrupar procedimentos noturnos, reduzir luz e ruído à noite, exposição à luz natural durante o dia, evitar coleta e banho na madrugada.
  • Correção sensorial — devolver óculos e aparelho auditivo ao paciente; parece banal e é uma das medidas mais eficazes.
  • Mobilização precoce — sair do leito o mais cedo possível, com fisioterapia diária.
  • Hidratação e nutrição — corrigir desidratação e reiniciar dieta precocemente quando possível.
  • Evitar contenção física — piora a agitação, aumenta o risco de lesão e prolonga o delirium. Reserve para situações excepcionais, com reavaliação frequente.
  • Presença da família — vozes conhecidas, objetos pessoais e participação ativa na reorientação.
  • Remoção de dispositivos desnecessários — sonda vesical, cateteres e drenos que já não têm indicação são fonte de desconforto e de imobilidade.

O que não previne

Haloperidol profilático

Não demonstrou reduzir a incidência de delirium nem melhorar desfechos quando usado com finalidade preventiva.

Antipsicóticos atípicos

Também sem benefício demonstrado como profilaxia em pacientes críticos.

Inibidores da colinesterase

Não recomendados: em estudo com rivastigmina, o uso se associou a piores desfechos.

Melatonina e ramelteona

Evidência ainda inconsistente. Podem ser consideradas como adjuvante do sono em protocolos institucionais, sem serem tratamento do delirium.

Sequência de abordagem

O tratamento é, antes de tudo, etiológico e não farmacológico. O medicamento entra apenas quando há sintoma angustiante ou risco, e nunca substitui as etapas anteriores.

  1. Confirme o diagnóstico com a ferramenta de rastreio e registre com horário.
  2. PROCURE E TRATE A CAUSA: infecção, hipóxia, distúrbio metabólico, dor, retenção urinária, constipação, abstinência e medicamentos.
  3. Revise a prescrição inteira e suspenda o que for dispensável, sobretudo benzodiazepínicos e anticolinérgicos.
  4. Otimize a analgesia — dor não tratada é causa frequente de agitação atribuída ao delirium.
  5. Aplique integralmente as medidas não farmacológicas: reorientação, sono, mobilização, correção sensorial e presença da família.
  6. Reavalie a sedação: alvo de sedação leve, com preferência por propofol ou dexmedetomidina.
  7. Só então considere medicamento, e apenas para sintomas angustiantes ou risco à segurança.
  8. Reavalie a indicação do medicamento diariamente e suspenda assim que possível.
Antipsicótico não trata o delirium: controla sintomas. As diretrizes atuais não recomendam o uso rotineiro de haloperidol ou de antipsicóticos atípicos para tratar delirium em pacientes críticos — o uso se justifica em situações selecionadas, com reavaliação diária.
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, alvo e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional e a apresentação disponível no seu serviço.

Sedação e analgesia

A escolha do sedativo é uma das poucas decisões farmacológicas com impacto demonstrado sobre a incidência e a duração do delirium.

Sintomas angustiantes e situações específicas

Uso pontual, com alvo definido, dose mínima eficaz e reavaliação diária — nunca em esquema fixo prolongado sem revisão.

Quando o medicamento se justifica

Considerar

  • Agitação que ameaça a segurança do paciente ou da equipe.
  • Risco de retirada de tubo, cateter ou dispositivo essencial.
  • Sofrimento evidente por alucinação ou delírio angustiante.
  • Agitação que impede procedimento indispensável.

Não usar

  • Como profilaxia de delirium.
  • No delirium hipoativo sem sintoma angustiante.
  • Para "acelerar a resolução" do quadro.
  • Em esquema fixo prolongado, sem reavaliação diária.
  • Como substituto da investigação da causa.
Sempre que iniciar um antipsicótico, registre no prontuário o motivo, o alvo e a data prevista de reavaliação. Sem isso, o fármaco tende a acompanhar o paciente até a alta hospitalar — e às vezes além dela.

Situações com manejo próprio

Cenário Particularidade O que fazer diferente
Abstinência alcoólica Tremor, sudorese, taquicardia, hipertensão, alucinações e risco de convulsão. Evolui para delirium tremens, com mortalidade relevante quando não tratado. Aqui o benzodiazepínico é o tratamento, preferencialmente guiado por sintomas. Associe tiamina antes de glicose, além de reposição de magnésio e de outras vitaminas.
Demência prévia É fator de risco maior; o delirium se sobrepõe ao quadro basal e frequentemente é atribuído por engano à demência. Obtenha o basal com a família e valorize qualquer mudança aguda. Evite anticolinérgicos e mantenha rotina e objetos familiares.
Doença de Parkinson Antipsicóticos típicos pioram o parkinsonismo; a suspensão abrupta da medicação dopaminérgica é fator precipitante. Evite haloperidol. Prefira quetiapina em dose baixa quando indispensável e mantenha o esquema antiparkinsoniano.
Idoso frágil Alta vulnerabilidade: pequenos insultos desencadeiam o quadro, e a recuperação é mais lenta. Prevenção intensiva desde a admissão, revisão criteriosa da prescrição e planejamento de reabilitação e de alta desde o início.
Pós-operatório Delirium pós-operatório é frequente, sobretudo em cirurgia cardíaca, de quadril e em idosos. Analgesia adequada, mobilização precoce, retirada rápida de dispositivos e atenção à sedação intraoperatória.
Ventilação mecânica prolongada Sedação profunda mantida impede o rastreio e prolonga o delirium. Interrupção diária da sedação com teste de respiração espontânea; alvo de sedação leve sempre que possível.
Insuficiência renal ou hepática Acúmulo de sedativos e de seus metabólitos ativos, com despertar prolongado. Ajuste as doses, prefira fármacos de meia-vida curta e reavalie com frequência a necessidade de sedação.
Fim de vida Delirium terminal é comum e o objetivo passa a ser o conforto, não a reversão do quadro. Priorize controle de sintomas, comunicação com a família e cuidados paliativos, evitando investigação invasiva sem benefício.

Erros comuns

  • Não rastrear delirium de forma sistemática, confiando apenas na impressão clínica.
  • Registrar "sem delirium" em paciente que está apenas sedado demais para ser avaliado.
  • Ignorar a forma hipoativa e chamá-la de "paciente tranquilo".
  • Confundir delirium hipoativo com depressão e prescrever antidepressivo.
  • Tratar a agitação com sedação sem procurar a causa.
  • Usar benzodiazepínico como sedativo de rotina em paciente com delirium.
  • Prescrever antipsicótico como profilaxia ou para "acelerar" a resolução.
  • Manter contenção física prolongada, o que agrava a agitação.
  • Esquecer óculos, aparelho auditivo, relógio e calendário.
  • Não perguntar à família qual era o estado mental prévio do paciente.
  • Não revisar a prescrição inteira em busca de fármacos deliriogênicos.
  • Levar o antipsicótico iniciado na UTI para a enfermaria e para a alta hospitalar sem reavaliação.

Resumo do fluxo

  1. Avalie o RASS em todo turno; se for −4 ou −5, registre como não avaliável e reveja a sedação.
  2. Aplique CAM-ICU ou ICDSC e registre o resultado com horário.
  3. Resultado positivo: procure a causa antes de qualquer prescrição.
  4. Revise a prescrição inteira e otimize a analgesia.
  5. Aplique integralmente o pacote ABCDEF, com mobilização precoce e envolvimento da família.
  6. Ajuste a sedação para alvo leve, preferindo propofol ou dexmedetomidina.
  7. Reserve o antipsicótico para sintoma angustiante ou risco à segurança, com alvo e prazo definidos.
  8. Reavalie diariamente e planeje a suspensão do medicamento antes da alta.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

  1. Devlin JW, Skrobik Y, Gélinas C, et al. Clinical Practice Guidelines for the Prevention and Management of Pain, Agitation/Sedation, Delirium, Immobility, and Sleep Disruption in Adult Patients in the ICU (PADIS). Crit Care Med. 2018;46(9):e825-e873.
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  4. Bergeron N, Dubois MJ, Dumont M, et al. Intensive Care Delirium Screening Checklist: evaluation of a new screening tool. Intensive Care Med. 2001;27(5):859-864.
  5. Pun BT, Balas MC, Barnes-Daly MA, et al. Caring for critically ill patients with the ABCDEF bundle: results of the ICU Liberation Collaborative. Crit Care Med. 2019;47(1):3-14.
  6. Girard TD, Exline MC, Carson SS, et al. Haloperidol and ziprasidone for treatment of delirium in critical illness (MIND-USA). N Engl J Med. 2018;379(26):2506-2516.
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  12. Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Protocolos e recomendações vigentes sobre sedação, analgesia e delirium.

Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, escalas e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação.

Informações rápidas

Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.

O essencial

Rastrear

CAM-ICU ou ICDSC pelo menos uma vez por turno, sempre precedidos pela avaliação do RASS, e também após mudanças de sedação. Sem rastreio ativo, a maioria dos casos passa despercebida.

Reconhecer os subtipos

O hipoativo é apático, lentificado e quieto — é o mais comum e o de pior prognóstico. O hiperativo é agitado e combativo, o mais notado. O misto alterna entre os dois no mesmo dia. Curso flutuante é característica essencial.

Procurar a causa

Delirium é sintoma, não diagnóstico final. Procure infecção, hipóxia, distúrbio metabólico, dor, retenção urinária, constipação e abstinência, e revise toda a prescrição, medicação por medicação. Excluir AVC e crise não convulsiva quando o quadro não se explica.

Prevenir e tratar

Aplique o pacote ABCDEF de forma consistente, com mobilização precoce, higiene do sono, reorientação e presença da família. Evite benzodiazepínico como sedativo de rotina e reserve o antipsicótico para sintomas angustiantes.

Números rápidos

Alvo de sedação: RASS entre −2 e 0, salvo indicação específica.

Não avaliável: RASS de −4 ou −5 significa coma, sem como aplicar a CAM-ICU.

CAM-ICU positiva: características 1 e 2, associadas a 3 ou 4.

ICDSC: 4 pontos ou mais indica delirium; de 1 a 3 sugere quadro subsindrômico.

Frequência: rastrear pelo menos uma vez por turno e após mudanças de sedação.

Não esqueça

O subtipo hipoativo é o mais comum e o mais grave.

Delirium é sintoma: procure sempre a causa.

Antipsicótico não previne nem encurta o quadro.

Benzodiazepínico de rotina piora o delirium.

Óculos, aparelho auditivo e presença da família fazem diferença real.

Em provas / residência

A banca cobra os critérios da CAM-ICU, o predomínio da forma hipoativa e o fato de que antipsicóticos não previnem delirium.

Decore: RASS antes da CAM-ICU; positiva exige as características 1 e 2 mais 3 ou 4; benzodiazepínico é fator de risco, exceto na abstinência alcoólica.

Mais informações nas abas do artigo.

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